REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202601130938
Ana Luísa Silva Villa Real
Orientadora: Alissandra Alves Rodrigues
RESUMO
A Atenção Primária à Saúde (APS), por constituir-se como porta de entrada e coordenadora do cuidado, com foco na integralidade, inclui ações específicas de saúde mental em atenção às necessidades das pessoas em seu território. A construção de estratégias que articulem diferentes saberes e práticas torna-se essencial para promover um cuidado psicossocial ampliado, sendo a interdisciplinaridade e o trabalho interprofissional pilares fundamentais nesse processo.
O objetivo deste estudo foi compreender como a interdisciplinaridade e as práticas interprofissionais contribuem para a integralidade do cuidado em saúde mental no contexto da APS, por meio de uma revisão integrativa da literatura. Essa abordagem metodológica é reconhecida por permitir a síntese de conhecimentos teóricos e empíricos sobre determinada temática, proporcionando uma visão abrangente sobre o conhecimento produzido na área (MENDES; SILVEIRA. GALVÃO, 2008).
A revisão integrativa foi conduzida em seis etapas, conforme preconizado por Mendes, Silveira e Galvão (2008): (1) identificação do tema e formulação da questão norteadora; (2) estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; (3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; (4) categorização e análise dos dados; (5) avaliação crítica dos estudos incluídos; e (6) apresentação da síntese dos resultados.
A busca foi realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), contemplando as bases SciELO, LILACS e Revista Brasileira de Enfermagem, considerando publicações em língua portuguesa no período de 2018 a 2025. Foram incluídos 15 artigos científicos. Os resultados evidenciam que a interdisciplinaridade fortalece o cuidado em saúde mental na APS ao favorecer apoio matricial, o trabalho em equipe, a construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), a educação permanente em saúde e a articulação em rede. Entretanto, persistem desafios estruturais, organizacionais e formativos que limitam a efetivação dessas práticas no cotidiano dos serviços.
Palavras Chaves: ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE. SAÚDE MENTAL. INTERDISCIPLINARIDADE. REFORMA PSIQUIÁTRICA
ABSTRACT
Primary Health Care (PHC), as the main entry point and care coordinator within the Brazilian Unified Health System (SUS), plays a central role in addressing mental health demands at the territorial level. In this context, interdisciplinarity emerges as a structuring axis for promoting comprehensive, psychosocial, and user-centered care, in line with the principles of the Brazilian Psychiatric Reform. This study aimed to understand how interdisciplinarity contributes to the integrality of mental health care within the scope of PHC through an integrative literature review. The search was conducted in the Virtual Health Library (VHL), including the SciELO, LILACS, and Revista Brasileira de Enfermagem databases, considering publications in Portuguese from 2018 to 2025. A total of 15 scientific articles were included. The results indicate that interdisciplinarity strengthens mental health care in PHC by fostering matrix support, teamwork, the development of Singular Therapeutic Projects, continuing health education, and network articulation. However, structural, organizational, and training-related challenges persist, limiting the effective implementation of these practices in everyday health services.
Keywords: PRIMARY HEALTH CARE. MENTAL HEALTH. INTERDISCIPLINARITY. PSYCHIATRIC REFORM.
INTRODUÇÃO
O avanço da saúde mental foi impulsionado por inúmeras transformações ideológicas, políticas, econômicas, sociais e culturais. Historicamente marcada pelo modelo hegemônico e hospitalocêntrico, a área de saúde mental tem passado por um processo de reformulação, de forma lenta e gradual.
Esse modelo tem sido gradualmente substituído por redes de atenção mais amplas e humanizadas, em que se observa, nos dias de hoje, pessoas com doenças e transtornos mentais sendo atendidas nos variados níveis de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS), como a Atenção Primária à Saúde (APS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Residências Terapêuticas, Centros de Convivências, entre outros. (GIACOMINI, 2022).
APS é a principal porta de entrada do cidadão no SUS, ponto central de comunicação da rede de atenção à saúde e onde ocorre um conjunto de ações individuais e coletivas, cuidados que promovem, protegem e diagnosticam doenças, dão suporte e apoio para o usuário, além de conter um conjunto de práticas de vigilância em saúde (CLAUDIO et al., 2025). Por constituir-se como o primeiro nível de contato e a porta de entrada preferencial dos usuários no SUS, a APS tem como um dos princípios fundamentais o atendimento no território, fato que aprimora a organização das equipes multiprofissionais de saúde (equipes de saúde da família – eSF, equipes de saúde bucal – eSB e equipes multiprofissionais – eMulti), pois as mesmas precisam conhecer a realidade local e as necessidades específicas da comunidade para a oferta do cuidado.
Essas equipes são formadas por profissionais de distintos núcleos de saber, como médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapêutas, farmacêuticos, entre outros, possibilitando a construção de práticas de cuidado compartilhadas. No campo da saúde mental, esse compartilhamento de cuidado ocorre tanto no âmbito interno da APS, por meio de discussões de caso, atendimentos conjuntos e elaboração de PTS, quanto na articulação com os demais dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Residências Terapêuticas e serviços de urgência e emergência. Essa comunicação entre serviços e equipes fortalece a corresponsabilização pelo cuidado e contribui para a continuidade e integralidade da atenção ofertada aos usuários.
De acordo com Giacomini (2022), a interdisciplinaridade possibilita que o cuidado seja ofertado para o indivíduo de maneira integral e coletiva. Sendo assim, todo o conjunto de ações que compõem o serviço da atenção primária, de acordo com a composição de suas equipes de saúde, pode ser levado em consideração como um serviço inter e multidisciplinar, porém, com desafios diários enfrentados por estas equipes.
O debate da interdisciplinaridade e seus saberes na APS é de suma importância e a presença de profissionais de diferentes especializações e núcleos de saber somado à comunicação com os diferentes níveis de atenção, quando necessário, são essenciais para que se concretize no melhor cuidado à saúde mental do indivíduo na perspectiva da integralidade.
OBJETIVO
Compreender como a interdisciplinaridade e práticas interprofissionais contribuem para a integralidade do cuidado em saúde mental no contexto da APS.
A pesquisa foi norteada por seis questionamentos fundamentais para o alcance do seu objetivo:
1) O que são práticas interprofissionais e como elas ocorrem no contexto da APS?
2) Como as práticas interprofissionais contribuem para a ampliação do cuidado em saúde mental APS?
3) Quais os principais desafios enfrentados pelas equipes multiprofissionais na integração da saúde mental às ações da APS?
4) De que forma a educação permanente em saúde pode fortalecer a interprofissionalidade e a qualidade do cuidado em saúde mental?
5) Como os princípios da Reforma Psiquiátrica influenciam as práticas de cuidado em saúde mental na APS?
6) Quais estratégias podem ser adotadas para promover a integralidade do cuidado em saúde mental no contexto da APS?
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conforme o método proposto por Mendes, Silveira e Galvão (2008), que possibilita a identificação, a avaliação crítica e a síntese do conhecimento científico produzido sobre determinada temática. Essa abordagem permite uma compreensão abrangente do fenômeno investigado, sem a exigência de esgotamento de todas as fontes disponíveis, desde que mantido o rigor metodológico (ROTHER, 2020).
A revisão foi conduzida de acordo com as seis etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão (2008): identificação do tema e da questão norteadora; definição dos critérios de inclusão e exclusão; busca na literatura; categorização e avaliação dos estudos selecionados; interpretação dos resultados; e apresentação da síntese do conhecimento. O processo de seleção dos estudos foi orientado pelas diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses – PRISMA 2020 (PAGE et al., 2021).
A busca bibliográfica foi realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), contemplando as bases SciELO, LILACS e Revista Brasileira de Enfermagem, considerando publicações no período de 2018, ano seguinte à última atualização da Política nacional de Atenção Básica (PNAB) a 2025, no idioma português. Foram utilizados descritores controlados dos vocabulários DeCS e MeSH, combinados por meio do operador booleanos AND: “Atenção Primária à Saúde”, “Saúde Mental”, “Interdisciplinaridade” e “Reforma Psiquiátrica”.
Como critérios de inclusão, foram selecionados artigos científicos completos que abordassem o cuidado em saúde mental no âmbito da Atenção Primária à Saúde, com ênfase na interdisciplinaridade e na articulação com os pressupostos da Reforma Psiquiátrica. Foram excluídos estudos duplicados, publicações voltadas exclusivamente a contextos hospitalares ou serviços especializados, por não contemplarem os objetivos da pesquisa, bem como editoriais, resenhas, artigos de opinião e documentos institucionais sem delineamento metodológico explícito, por não se constituírem como fontes primárias de pesquisa.
A busca inicial resultou na identificação de 301 artigos. Após a exclusão de 236 registros duplicados, permaneceram 65 estudos para a etapa de triagem por leitura de títulos e resumos, dos quais 38 foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos. Restaram 27 artigos para leitura na íntegra, sendo 12 excluídos após essa etapa em detrimento do não alcance dos objetivos da pesquisa após. Assim, 15 artigos científicos compuseram a amostra final da revisão integrativa.
A Figura 1 ilustra o processo de seleção dos artigos incluídos nesta revisão integrativa. As estratégias de busca utilizadas envolveram o cruzamento dos descritores “Atenção Primária à Saúde”, “Saúde Mental”, “Interdisciplinaridade” e “Reforma Psiquiátrica”, combinados por meio do operador booleano AND, conforme os objetivos do estudo. Tais cruzamentos permitiram a identificação de produções científicas que abordam o cuidado em saúde mental no âmbito da APS, com ênfase na interdisciplinaridade e na articulação das práticas assistenciais em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira.
Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão integrativa, conforme as diretrizes do PRISMA 2020.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Esta revisão integrativa reuniu 15 artigos científicos que abordam aspectos da interdisciplinaridade e das práticas interprofissionais no cuidado em saúde mental na APS. Os estudos analisados, apresentam metodologias predominantemente qualitativas e se concentram em compreender os desafios, potencialidades e repercussões dessas práticas na integralidade do cuidado à saúde mental.
O Quadro 1 apresenta os títulos e as referências dos artigos selecionados, destacando-se posteriormente, a análise realizada dos referidos estudos.
Quadro 1– Artigos incorporados ao estudo com autores e ano, em ordem alfabética por título.
| Autor/Ano | Objetivo | Método | Principais achados |
| Cláudio et al., 2025 | Analisar o apoio matricial em saúde mental na APS | Qualitativo | Fortalece corresponsabilização e articulação APS–CAPS |
| Dal’Bosco; Fadel, 2024 | Identificar desafios do apoio matricial | Quantitativo | Fragilidades estruturais e necessidade de educação permanente |
| Giacomini; Rizzotto, 2022 | Analisar a interdisciplinaridade no cuidado em saúde mental | Revisão integrativa | Amplia a integralidade e supera práticas fragmentadas |
| Häfele et al., 2023 | Analisar prevalência de transtornos mentais na APS | Estudo transversal | Alta prevalência associada a determinantes sociais |
| Torres Neto et al., 2023 | Revisar produção sobre transtorno mental comum na APS | Revisão integrativa | APS concentra grande parte das demandas em saúde mental |
| Castro et al., 2024 | Analisar abordagem do sofrimento mental comum na APS | Qualitativo | Necessidade de ampliação da clínica |
| Silva et al., 2025 | Avaliar impacto do apoio matricial | Longitudinal retrospectivo | Fortalece vínculo e continuidade do cuidado |
| Zorzi et al., 2024 | Analisar grupos de promoção da saúde mental na APS | Qualitativo | Amplia acesso, vínculo e cuidado coletivo |
| Januário; Sousa, 2023 | Relatar experiência com grupos de saúde mental | Relato de experiência | Fortalece autonomia e cuidado territorial |
| Paula et al., 2024 | Analisar manejo de crise em saúde mental na APS | Qualitativo | Equipe interdisciplinar é essencial no manejo da crise |
| Queiroz et al., 2023 | Analisar uso das PICS na APS | Qualitativo | Amplia possibilidades terapêuticas |
| Almeida et al., 2020 | Analisar cuidado interdisciplinar em saúde mental na APS | Qualitativo | Favorece cuidado humanizado |
| Frateschi; Cardoso, 2016 | Identificar práticas de saúde mental na APS | Revisão | Persistem desafios formativos e organizacionais |
| Mesquita et al., 2017 | Relatar experiência interdisciplinar na APS | Qualitativo | Trabalho integrado qualifica o cuidado |
| Nunes et al., 2020 | Analisar atuação do enfermeiro na RAPS | Qualitativo | Integra APS–RAPS |
A análise dos 15 estudos selecionados evidenciou que a interdisciplinaridade constitui um elemento estruturante para a organização do cuidado em saúde mental na APS, sobretudo diante da elevada prevalência de sofrimento psíquico identificada nesse nível de atenção. Os estudos apontam que a APS concentra parcela significativa das demandas relacionadas aos transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão, frequentemente associados a determinantes sociais, condições de vida precárias e vulnerabilidades psicossociais, o que reforça a necessidade de práticas integrais e territorializadas (HÄFELE et al., 2023; TORRES NETO et al., 2023).
Nesse contexto, a interdisciplinaridade emerge como estratégia fundamental para superar a fragmentação do cuidado e a centralidade do modelo biomédico. Os estudos analisados indicam que a atuação integrada entre diferentes núcleos profissionais favorece a ampliação da clínica, a qualificação do acolhimento e a construção de respostas mais adequadas às necessidades complexas dos usuários (GIACOMINI; RIZZOTTO, 2022; ALMEIDA et al., 2020). A troca de saberes e a corresponsabilização das equipes contribuem para a compreensão ampliada do sofrimento psíquico, incorporando dimensões subjetivas, familiares e comunitárias ao cuidado.
O apoio matricial foi identificado como uma das principais estratégias operacionais para viabilizar a interdisciplinaridade no cotidiano da APS. Estudos apontam que o matriciamento favorece a articulação entre equipes da APS e serviços especializados, promovendo a construção compartilhada de Projetos Terapêuticos Singulares e reduzindo encaminhamentos desnecessários para a atenção especializada (CLÁUDIO et al., 2025; SILVA et al., 2025). Além disso, o apoio matricial contribui para o fortalecimento do vínculo entre usuários e equipes, assegurando maior continuidade do cuidado no território.
Entretanto, a literatura analisada evidencia que a implementação do apoio matricial ainda enfrenta desafios importantes, como a insuficiência de tempo protegido para as atividades matriciais, a sobrecarga de trabalho das equipes e a fragilidade da institucionalização dessa estratégia nos serviços de saúde. Tais limitações comprometem a regularidade do matriciamento e restringem seu potencial como dispositivo de transformação das práticas em saúde mental (DAL’BOSCO; FADEL, 2024).
Outro eixo relevante identificado nos estudos refere-se às práticas coletivas e grupais como dispositivos interdisciplinares de cuidado em saúde mental na APS. A realização de grupos terapêuticos e de promoção da saúde mental foi associada ao fortalecimento de vínculos, à ampliação do acesso ao cuidado e à valorização do protagonismo dos usuários (ZORZI et al., 2024; JANUÁRIO; SOUSA, 2023). Essas práticas configuram-se como estratégias potentes para a produção do cuidado em saúde mental, especialmente quando articuladas ao território e conduzidas por equipes interdisciplinares.
Os estudos também destacam o uso das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) como recurso que amplia as possibilidades terapêuticas no cuidado em saúde mental, favorecendo abordagens menos medicalizantes e mais alinhadas à integralidade do cuidado (QUEIROZ et al., 2023). Contudo, sua implementação ainda depende de maior apoio institucional e qualificação profissional.
A educação permanente em saúde foi apontada de forma recorrente como elemento indispensável para a consolidação da interdisciplinaridade na APS. Os estudos indicam que a formação inicial dos profissionais, em geral, não contempla de maneira suficiente as especificidades do cuidado em saúde mental, o que reforça a importância de processos formativos contínuos, contextualizados e articulados ao cotidiano dos serviços (CLÁUDIO et al., 2025; GIACOMINI, 2022). A ausência de espaços sistemáticos de reflexão e troca interprofissional contribui para a reprodução de práticas fragmentadas e dificulta a efetivação do trabalho interdisciplinar.
Por fim, os achados evidenciam que a interdisciplinaridade, quando efetivamente incorporada aos processos de trabalho da APS, aproxima as práticas de cuidado dos princípios da Reforma Psiquiátrica, como o cuidado em liberdade, a territorialidade e o protagonismo dos usuários. Todavia, sua consolidação demanda mudanças estruturais e organizacionais, incluindo investimento em educação permanente, fortalecimento da gestão do trabalho e compromisso institucional com a integralidade do cuidado em saúde mental..
CONCLUSÃO
A partir da revisão integrativa realizada, foi possível evidenciar que a interdisciplinaridade constitui um elemento estruturante para a consolidação do cuidado em saúde mental na APS, especialmente quando compreendida à luz dos pressupostos da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Os estudos analisados demonstram que o trabalho interdisciplinar favorece o compartilhamento de saberes, a corresponsabilização entre os profissionais e a construção de práticas de cuidado mais humanizadas, resolutivas e territorializadas, em consonância com o princípio da atenção psicossocial em liberdade. Ao articular diferentes núcleos de conhecimento, a interdisciplinaridade contribui para a superação de abordagens fragmentadas e medicalizantes, possibilitando a ampliação da clínica e a consideração das múltiplas dimensões que atravessam o sofrimento psíquico dos usuários.
Entretanto, a literatura evidencia que a efetivação da interdisciplinaridade na APS ainda se dá de forma desigual e tensionada, marcada pela persistência do modelo biomédico, pela centralidade da medicalização e pela fragilidade dos processos de formação profissional voltados ao cuidado em saúde mental. Esses elementos contrariam os princípios da Reforma Psiquiátrica, que preconiza a substituição do modelo hospitalocêntrico por práticas territoriais, comunitárias e centradas nos direitos dos sujeitos. As limitações estruturais, organizacionais e de gestão identificadas nos estudos comprometem a consolidação de uma rede de cuidado integral e dificultam a materialização da APS como espaço estratégico da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Nesse cenário, a educação permanente em saúde emerge como dispositivo fundamental para a sustentação da Reforma Psiquiátrica no cotidiano da APS, ao possibilitar a problematização das práticas, a desconstrução de saberes hegemônicos e o fortalecimento do trabalho interdisciplinar. Os estudos analisados apontam que processos formativos contínuos e contextualizados favorecem a incorporação de práticas alinhadas ao cuidado em liberdade, à valorização do território e ao protagonismo dos usuários, princípios centrais da atenção psicossocial.
Dessa forma, a consolidação do cuidado interdisciplinar em saúde mental na APS demanda transformações estruturais e políticas nos modelos de formação, organização dos serviços e gestão do cuidado, bem como o compromisso ético e coletivo com os fundamentos da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Somente por meio dessa articulação será possível fortalecer uma RAPS efetiva, equitativa e territorializada, capaz de responder às reais necessidades da população e de reafirmar a APS como espaço privilegiado para a produção de cuidado em saúde mental comprometido com a defesa da vida, da cidadania e dos direitos humanos.
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