REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512210736
Leticia Alves Carrera1
Maria Barbara da Costa Cardoso2
RESUMO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta particularidades sensoriais e comportamentais que influenciam de maneira significativa a participação e a aprendizagem de crianças na Educação Infantil. Diante disso, estratégias multissensoriais têm sido apontadas como recursos pedagógicos capazes de ampliar a acessibilidade, favorecer a regulação emocional e promover experiências educativas mais significativas. Este estudo teve como objetivo analisar evidências científicas sobre o uso de estratégias multissensoriais na Educação Infantil para crianças com TEA. Para isso, realizou-se uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), seguindo as diretrizes do protocolo PRISMA 2020, contemplando as bases BDTD, ANPEd, SciELO, ERIC, PubMed e Web of Science, no período de 2014 a 2024. Foram identificados 289 estudos, dos quais 27 atenderam aos critérios de elegibilidade e 10 compuseram o núcleo de análise por abordarem diretamente práticas multissensoriais na Educação Infantil. Os resultados indicam que estratégias como suportes visuais estruturados, brincadeiras sensoriais, trilhas multissensoriais e atividades táteis e motoras que contribuem para avanços na comunicação funcional, na atenção conjunta, na regulação emocional e no engajamento das crianças com TEA. Contudo, a revisão também revelou lacunas relevantes, tais como amostras pequenas, ausência de estudos longitudinais, instrumentos pouco padronizados e baixa presença de pesquisas em ambientes escolares reais. Conclui-se que as práticas multissensoriais representam um caminho promissor para uma educação inclusiva na primeira infância, mas demandam formação docente contínua, além de mais pesquisas robustas, políticas institucionais que assegurem a implementação consistente.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Educação Infantil; Multissensorialidade; Inclusão; Estratégias de Aprendizagem.
ABSTRACT
Autism Spectrum Disorder (ASD) presents sensory and behavioral characteristics that significantly influence the participation and learning processes of children in Early Childhood Education. In this context, multisensory strategies have been identified as pedagogical resources capable of expanding accessibility, promoting emotional regulation, and enhancing meaningful educational experiences. This study aimed to analyze scientific evidence regarding the use of multisensory strategies in Early Childhood Education for children with ASD. A Systematic Literature Review (SLR) was conducted following the PRISMA 2020 guidelines and including the databases BDTD, ANPEd, SciELO, ERIC, PubMed, and Web of Science, covering publications from 2014 to 2024. A total of 289 studies were identified, 27 met the eligibility criteria, and 10 were included in the final analysis for explicitly addressing multisensory practices in Early Childhood Education. The findings indicate that strategies such as structured visual supports, sensory play, sensory paths, and tactile and motor activities contribute to advances in functional communication, joint attention, emotional regulation, and overall engagement of children with ASD. However, the review also revealed relevant gaps, including small sample sizes, the absence of longitudinal studies, limited methodological standardization, and a scarcity of research conducted in real school environments. It is concluded that multisensory practices represent a promising pathway toward inclusive education in early childhood, but their consolidation requires continuous teacher training, more robust scientific evidence, and institutional policies that ensure consistent implementation.
Keywords: Autism Spectrum Disorder; Early Childhood Education; Multisensory Strategies; Inclusion; Learning.
1 INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) constitui um conjunto de condições do neurodesenvolvimento que afetam a comunicação social, o comportamento e a forma como o indivíduo percebe e organiza os estímulos do ambiente (APA, 2014). No contexto escolar, tais especificidades sensoriais e cognitivas demandam estratégias pedagógicas diferenciadas que assegurem a aprendizagem e a participação de estudantes com TEA no ensino infantil. Entre essas estratégias, a abordagem multissensorial tem ganhado relevância por integrar estímulos visuais, táteis, auditivos e cinestésicos, favorecendo a compreensão e a construção de significados (Bogdashina, 2018; Grandin, 2014).
Apesar de amplamente discutidas, ainda existem lacunas sobre como essas estratégias que têm sido sistematizadas nas pesquisas e aplicadas no cotidiano escolar. Muitos professores relatam dificuldades na escolha de recursos adequados, na adaptação de materiais e na compreensão do impacto dessas práticas no desenvolvimento dos alunos com TEA, o que evidencia um problema de ordem pedagógica e investigativa. Diante disso, surge a questão norteadora: como as estratégias multissensoriais contribuem para a aprendizagem e a participação escolar de estudantes com TEA no ensino infantil?
O objetivo geral deste estudo é analisar evidências científicas sobre a eficácia das estratégias multissensoriais no ensino infantil para estudantes com TEA. Os objetivos específicos são: identificar as estratégias multissensoriais utilizadas em pesquisas recentes; avaliar seus impactos sobre a aprendizagem e o comportamento; e mapear desafios e lacunas apontados na literatura.
A justificativa apoia-se na necessidade de consolidar práticas de ensino que respeitem o modo singular de processamento sensorial desses estudantes, contribuindo para a promoção de uma educação inclusiva e equitativa (Ashburner; Ziviani; Rodger, 2018). Metodologicamente, trata-se de uma Revisão Sistemática da Literatura, seguindo o protocolo PRISMA, com buscas realizadas em bases nacionais e internacionais entre 2014 e 2024.
Espera-se que os resultados apontem evidências favoráveis ao uso de estratégias multissensoriais, indicando ganhos em atenção, regulação emocional, comunicação funcional e engajamento, conforme sugerem pesquisas anteriores (Odom et al., 2020; Tokuhama-Espinosa, 2019).
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Transtorno do Espectro Autista e Especificidades da Aprendizagem na Educação Infantil
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na comunicação social, na interação e em padrões comportamentais, que se manifestam desde a primeira infância e influenciam significativamente as experiências de aprendizagem (APA, 2014). Na Educação Infantil, etapa marcada por intensa exploração sensorial, movimento, brincadeiras e interação com o meio, essas especificidades adquirem relevância ainda maior. As crianças com TEA geralmente apresentam particularidades no processamento sensorial, podendo manifestar hiper ou hipossensibilidade a estímulos visuais, auditivos, táteis, proprioceptivos e vestibulares, o que impacta diretamente sua participação nas atividades cotidianas da creche e da pré-escola (Dunn, 2014; Bogdashina, 2018).
Essas diferenças sensoriais não representam limitações em si, mas indicam modos singulares de perceber e responder ao mundo. Por esse motivo, compreender o funcionamento sensorial da criança com TEA é elemento central para o planejamento pedagógico. Na primeira infância, a aprendizagem ocorre predominantemente por meio de experiências sensoriais integradas, e quando essas experiências não são acessíveis ou geram sobrecarga, a criança pode apresentar comportamentos de evitação, desregulação emocional, dificuldade de atenção ou reduzida interação social, dificultando sua participação plena nas atividades escolares (Ashburner; Ziviani; Rodger, 2018).
A legislação brasileira reconhece que a Educação Infantil deve promover o desenvolvimento integral da criança, respeitando sua diversidade e garantindo acessibilidade pedagógica. A LDB (Lei nº 9.394/1996) define essa etapa como fundamental para a formação física, cognitiva, social e emocional, enquanto a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) determina que escolas devem assegurar adaptações razoáveis e práticas pedagógicas adequadas à singularidade de cada estudante. A BNCC (2017) reforça que as interações e brincadeiras devem ocorrer em ambientes inclusivos que valorizem múltiplas linguagens, sentidos e experiências, reconhecendo a criança como sujeito de direitos e protagonista de seu processo educativo.
No caso de crianças com TEA, tais documentos reforçam a necessidade de práticas que considerem suas especificidades sensoriais, comunicativas e socioemocionais. Pesquisas atuais demonstram que estratégias pedagógicas estruturadas, visualmente organizadas e sensorialmente acessíveis favorecem a atenção conjunta, a compreensão de rotinas, a comunicação funcional e o engajamento nas propostas da Educação Infantil (Grandin, 2014; Tokuhama
Espinosa, 2019). Dessa forma, compreender as características do TEA não se limita a reconhecer diagnósticos, mas implica planejar ambientes e práticas que acolham e promovam o desenvolvimento infantil.
Em síntese, a Educação Infantil exige do professor não apenas sensibilidade, mas embasamento teórico e conhecimento sobre modos diversos de aprender. Identificar as especificidades das crianças com TEA é o primeiro passo para justificar o uso de estratégias multissensoriais, que se apresentam como caminhos promissores para garantir participação, bem-estar e aprendizagens significativas na primeira infância.
2.2 Multissensorialidade na Educação Infantil: Fundamentos, Teorias e Implicações para Crianças com TEA
A multissensorialidade na Educação Infantil constitui um dos pilares essenciais para o desenvolvimento integral da criança, especialmente nos primeiros anos de vida, quando os processos cognitivos, afetivos e motores são construídos a partir da interação com diferentes estímulos. Para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), cuja relação com o ambiente é mediada por particularidades sensoriais, essa abordagem torna-se ainda mais relevante, uma vez que favorece a organização perceptiva, a compreensão do espaço e a participação ativa nas experiências educativas (Bogdashina, 2018). A aprendizagem multissensorial articula estímulos visuais, auditivos, táteis, proprioceptivos e cinestésicos de maneira planejada, permitindo que cada criança desenvolva habilidades de acordo com seu perfil sensorial e comunicativo.
Do ponto de vista teórico, autores como Luria (1981) e Tokuhama-Espinosa (2019) destacam que o cérebro aprende por múltiplas entradas sensoriais, sendo a integração dessas experiências um fator que potencializa a formação de redes neurais estáveis e favorece a aprendizagem significativa. Em crianças com TEA, cuja seletividade sensorial pode dificultar a filtragem de estímulos, a organização multissensorial proporciona previsibilidade e segurança, reduzindo níveis de ansiedade e aumentando o engajamento nas atividades propostas (Ashburner; Ziviani; Rodger, 2018). Esse aspecto é particularmente importante na Educação Infantil, etapa em que a aprendizagem ocorre principalmente por meio da brincadeira, da manipulação de objetos, da experimentação sensorial e da interação com o ambiente.
Sob a perspectiva pedagógica, a multissensorialidade fundamenta-se também no sociointeracionismo. Vygotsky (1991) defende que o desenvolvimento infantil ocorre por meio da mediação entre sujeitos e ambiente, de modo que a ação pedagógica deve organizar experiências acessíveis, desafiadoras e integradoras. Em crianças com TEA, a mediação multissensorial pode assumir a forma de ambientes estruturados visualmente, materiais táteis diversos, atividades corporais ritmadas, uso de recursos manipulativos e rotinas previsíveis. Esses elementos não apenas auxiliam na regulação emocional e comportamental, mas também contribuem para o desenvolvimento da linguagem, da autonomia e da atenção compartilhada – competências fundamentais para a Educação Infantil.
Do ponto de vista normativo, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) reforça que as práticas pedagógicas devem considerar as múltiplas linguagens infantis, valorizando experiências sensoriais, expressivas e comunicativas, alinhando se ao uso de estratégias multissensoriais. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e os marcos internacionais de educação inclusiva enfatizam que crianças com deficiência devem receber apoios pedagógicos adequados às suas especificidades, o que inclui adaptações sensoriais.
Entretanto, a literatura brasileira aponta limitações importantes, como a falta de formação docente específica e a escassez de materiais adequados para a implementação de práticas multissensoriais de forma consistente (Odom et al., 2020).
Assim, embora as evidências indiquem benefícios significativos dessa abordagem, sua aplicação ainda depende de políticas estruturantes, formação continuada e pesquisas sistematizadas que fundamentem a prática pedagógica.
2.3 Estratégias Multissensoriais na Educação Infantil para Crianças com TEA: Avanços, Desafios e Perspectivas
As estratégias multissensoriais na Educação Infantil têm sido amplamente reconhecidas como práticas pedagógicas capazes de favorecer a aprendizagem, o bem-estar e a participação de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essas estratégias, que articulam estímulos visuais, táteis, manipulativos, sonoros e corporais, contribuem para a regulação sensorial, para a mediação da atenção e para a ampliação da comunicação funcional, aspectos essenciais na primeira infância, etapa em que o desenvolvimento ocorre por meio da exploração ativa do ambiente (Grandin, 2014; Tokuhama-Espinosa, 2019). A literatura demonstra que, quando as propostas pedagógicas são planejadas considerando o perfil sensorial da criança com TEA, os efeitos positivos incluem maior engajamento nas atividades, redução de comportamentos desregulados e ampliação da compreensão das rotinas escolares (Bogdashina, 2018).
Entre as estratégias mais citadas estão o uso de recursos visuais estruturados, como cartões ilustrativos, sequências de rotina, pictogramas e histórias sociais adaptadas; materiais táteis manipuláveis, como blocos de construção, letras móveis, objetos texturizados e massinhas sensoriais; além de atividades que envolvem movimentos corporais, jogos motores e exploração do ambiente natural, todos elementos fundamentais na Educação Infantil. Esses recursos favorecem a compreensão de instruções, fortalecem a atenção compartilhada e facilitam a comunicação expressiva e receptiva – dimensões frequentemente comprometidas em crianças com TEA (Ashburner; Ziviani; Rodger, 2018).
Do ponto de vista legal, documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) e a Lei Brasileira de Inclusão (2015) reforçam que o acesso ao currículo da Educação Infantil deve ser garantido por práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas. A BNCC destaca que a criança aprende a partir de múltiplas linguagens – corpo, emoção, imaginação, movimento, sons, texturas e interações – princípios que se alinham diretamente à abordagem multissensorial. Assim, as estratégias analisadas na literatura revelam a consonância entre o marco legal e as práticas que promovem equidade e respeito às singularidades infantis.
Apesar dos avanços, a literatura aponta desafios significativos. Entre eles, destaca-se a insuficiência na formação docente em práticas inclusivas voltadas ao perfil sensorial da criança com TEA, a falta de materiais pedagógicos acessíveis e a dificuldade das instituições em adaptar ambientes e rotinas para atender às necessidades dessa população. Estudos também evidenciam a lacuna entre o que a legislação assegura e o que de fato é implementado no cotidiano das escolas, especialmente em contextos públicos e com baixa disponibilidade de recursos (Odom et al., 2020).
Dessa forma, embora existam evidências consistentes sobre os benefícios das estratégias multissensoriais na Educação Infantil, sua efetivação depende da articulação entre formação continuada, políticas de apoio pedagógico e práticas fundamentadas em evidências científicas. Compreender esses avanços e limitações é fundamental para justificar a presente revisão sistemática e orientar práticas pedagógicas mais inclusivas e eficazes.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), cujo objetivo é identificar, analisar e sintetizar evidências científicas sobre o uso de estratégias multissensoriais na Educação Infantil voltadas a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A escolha por esse método fundamenta-se na necessidade de reunir produções científicas recentes e de qualidade, capazes de fornecer subsídios teóricos e práticos para a promoção de práticas pedagógicas inclusivas, conforme recomendam Odom et al. (2020) ao defenderem a importância de pesquisas baseadas em evidências na área da educação especial.
A RSL seguiu as diretrizes do protocolo PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), destinadas a garantir rigor, transparência e reprodutibilidade no processo de revisão. Inicialmente, definiu-se a pergunta norteadora: Como as estratégias multissensoriais contribuem para a aprendizagem, o desenvolvimento e a participação de crianças com TEA na Educação Infantil? Em seguida, foram estabelecidos os critérios de inclusão e exclusão, considerando a pertinência ao tema, o rigor metodológico das pesquisas e o recorte temporal. Foram incluídos artigos publicados entre 2014 e 2024, disponíveis na íntegra, que abordassem estratégias multissensoriais aplicadas a crianças de 0 a 5 anos com TEA, em contextos escolares ou clínico-educacionais ligados à Educação Infantil. Excluíram-se estudos exclusivamente clínicos, pesquisas sem descrição metodológica, duplicatas e produções que não apresentaram relação direta com o tema.
As buscas foram realizadas nas bases SciELO, ERIC, PubMed, Web of Science, Google Scholar e Biblioteca ANPEd, utilizando descritores combinados nos idiomas português, inglês e espanhol, tais como: “autismo”, “estratégias multissensoriais”, “educação infantil”, “sensory integration”, “multisensory learning” e “early childhood education”. Após a etapa de identificação, os estudos passaram por triagem de títulos e resumos, leitura na íntegra e avaliação de elegibilidade, compondo-se ao final um corpus de pesquisas nacionais e internacionais pertinentes ao objeto de estudo, conforme quadro 1 abaixo:
Quadro 1 – Achados da Revisão Integrativa

Fonte: Elaborado pela autora (2025)
A análise dos dados ocorreu por meio da técnica de Análise de Conteúdo, conforme Bardin (2016), permitindo a categorização dos achados em eixos temáticos.
Essa abordagem possibilitou compreender tendências, padrões, lacunas e desafios evidenciados nas pesquisas, fornecendo uma síntese crítica alinhada aos objetivos específicos deste estudo.
4. ANÁLISE DE RESULTADOS E DISCUSSÃO
A revisão sistemática identificou inicialmente um conjunto amplo de publicações sobre autismo, integração sensorial e práticas pedagógicas. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram retidos 27 estudos para análise geral. Desses, 10 focalizavam especificamente estratégias multissensoriais dirigidas à Educação Infantil, constituindo o núcleo empírico analisado neste artigo. Esses estudos distribuem-se entre as bases BDTD, ANPEd, SciELO, ERIC, PubMed e Web of Science, contemplando produções nacionais e internacionais, o que assegura diversidade de contextos e abordagens metodológicas.
De forma geral, os resultados convergem para a indicação de que estratégias multissensoriais favorecem a aprendizagem, a participação e o bem-estar de crianças com TEA na Educação Infantil. Estudos que analisaram intervenções com recursos visuais estruturados, como rotinas, pictogramas e quadros de apoio, apontaram melhora na previsibilidade do ambiente, na compreensão de instruções e na redução de comportamentos de ansiedade (Marques; Mendes, 2019; Hodgdon, 2016). Pesquisas que utilizaram brincadeiras sensoriais baseadas em movimento, texturas e manipulação de objetos relataram aumento do engajamento, maior exploração do ambiente e ampliação de formas de comunicação não verbal e expressiva (Tomchek; Koenig, 2017; Oliveira; Santos, 2023).
Intervenções em salas multissensoriais e trilhas sensoriais também demonstraram resultados positivos, especialmente na regulação emocional, na diminuição de comportamentos autoestimuladores e na melhoria da coordenação motora, aspectos cruciais para a participação em atividades coletivas na Educação Infantil (Michaelson; Perry; Jones, 2015; Whitaker; Romero, 2021). Estudos que relacionaram estratégias multissensoriais à aprendizagem inicial da leitura evidenciaram ganhos em discriminação fonológica e atenção às atividades, sugerindo que a combinação de estímulos táteis, auditivos e visuais pode facilitar o acesso a conteúdos emergentes de linguagem (Almeida; Campos; Freire, 2022).
Quadro 2 – Achados e suas Lacunas

Fonte: Elaborado pela autora (2025)
Quanto às lacunas, os estudos analisados indicam limitações recorrentes: amostras pequenas, ausência de grupos controle, falta de acompanhamento longitudinal, uso de instrumentos de avaliação pouco padronizados e predominância de contextos clínicos em detrimento de ambientes escolares. Além disso, observa-se escassez de pesquisas brasileiras com delineamentos robustos, o que restringe a capacidade de generalização dos resultados para diferentes redes de Educação Infantil. Essas lacunas reforçam a necessidade de novos estudos que articulem desenho metodológico rigoroso, diversidade de contextos e avaliação de efeitos em médio e longo prazo.
Os resultados desta revisão sistemática indicam que as estratégias multissensoriais constituem um recurso promissor para a Educação Infantil de crianças com TEA, convergindo com o referencial teórico sobre desenvolvimento analisadas reforçam a ideia de que ambientes e propostas pedagógicas que articulam infantil, processamento sensorial e mediação pedagógica. As evidências empíricas estímulos visuais, táteis, auditivos e motores favorecem a regulação emocional, a atenção conjunta, a participação nas atividades coletivas e a aprendizagem de conteúdos emergentes, como linguagem oral, comunicação funcional e habilidades iniciais de leitura (Grandin, 2014; Tokuhama-Espinosa, 2019).
Ao dialogar com a problemática e os objetivos específicos, a discussão permite afirmar que, em relação ao primeiro objetivo – identificar estratégias multissensoriais utilizadas na Educação Infantil –, os estudos apontam repertórios diversificados, envolvendo recursos visuais estruturados, brincadeiras sensoriais, trilhas e salas multissensoriais, materiais táteis e atividades corporais. Esses achados mostram que a multissensorialidade não se resume à soma de estímulos, mas à organização intencional do ambiente e das experiências de aprendizagem, em consonância com perspectivas sociointeracionistas que compreendem a criança como sujeito ativo e mediado (Vygotsky, 1991).
Quanto ao segundo objetivo – avaliar impactos dessas estratégias na aprendizagem e no comportamento –, os estudos evidenciam ganhos consistentes em termos de engajamento, redução de comportamentos desregulados, ampliação da comunicação e maior compreensão das rotinas escolares (Ashburner; Ziviani; Rodger, 2018; Oliveira; Santos, 2023). Tais resultados dialogam com a legislação brasileira e com a BNCC, ao indicarem que práticas multissensoriais podem ser um caminho concreto para assegurar o direito de crianças com TEA a experiências educativas significativas na Educação Infantil.
Em relação ao terceiro objetivo – mapear lacunas e desafios –, a revisão confirma que a produção científica ainda enfrenta limitações metodológicas e de contexto, como amostras pequenas, escassez de estudos longitudinais, baixa presença de pesquisas em escolas públicas e pouca padronização nos instrumentos de avaliação. Esses desafios sugerem a necessidade de investimentos em projetos colaborativos entre universidades, redes de ensino e serviços de apoio especializados, de modo a produzir evidências mais robustas e contextualizadas.
De forma geral, a discussão aponta que as estratégias multissensoriais não devem ser entendidas como técnica isolada ou recurso meramente complementar, mas como parte de uma concepção de Educação Infantil inclusiva, que reconhece a diversidade de modos de sentir, perceber e aprender. A consolidação de tais práticas requer formação docente continuada, políticas de financiamento de materiais e espaços sensoriais, além de pesquisas que aprofundem a relação entre multissensorialidade, currículo e desenvolvimento infantil em diferentes realidades brasileiras.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo geral analisar evidências científicas sobre as estratégias multissensoriais utilizadas na Educação Infantil para favorecer a aprendizagem, o desenvolvimento e a participação de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A partir da revisão sistemática realizada, foi possível identificar um conjunto de intervenções que integram estímulos visuais, táteis, auditivos e motores e que demonstram resultados positivos para a ampliação da comunicação funcional, da atenção compartilhada, da regulação emocional e do engajamento das crianças nas atividades pedagógicas. As descobertas produzidas pelo corpus analisado indicam que a multissensorialidade, quando planejada e aplicada intencionalmente, constitui um importante recurso para garantir acessibilidade pedagógica e promover experiências significativas na primeira infância, dialogando diretamente com as orientações da BNCC e com os marcos legais da educação inclusiva.
Entre as principais contribuições observadas nos estudos, destacam-se o potencial dos suportes visuais estruturados, das brincadeiras sensoriais e das trilhas multissensoriais para organizar o ambiente, reduzir comportamentos desregulados e potencializar a participação infantil. Esses achados reforçam que a multissensorialidade não se limita ao uso de materiais diversificados, mas envolve uma concepção de ensino que reconhece e valoriza os diferentes modos de perceber, interagir e aprender.
Entretanto, a revisão também revelou dificuldades significativas, especialmente no que se refere à fragilidade metodológica de parte das pesquisas analisadas. As lacunas mais recorrentes envolvem amostras pequenas, ausência de grupos controle, falta de longitudinalidade, instrumentos de avaliação pouco padronizados e a predominância de intervenções realizadas em ambientes clínicos ou controlados, o que reduz a possibilidade de generalização para o contexto real das creches e pré-escolas. Soma-se a isso a escassez de estudos nacionais com delineamentos robustos, evidenciando a necessidade de fortalecer a produção científica brasileira sobre práticas multissensoriais na Educação Infantil.
Com base nessas limitações, algumas sugestões se fazem necessárias. Destaca-se a importância de investir em formação docente continuada sobre perfis sensoriais e adaptações pedagógicas, ampliar o acesso a materiais multissensoriais nas instituições de Educação Infantil e promover articulações entre universidades, escolas e serviços de apoio especializado (como AEE e equipes multidisciplinares). Ademais, recomenda-se que futuras pesquisas adotem delineamentos mistos (quantitativos e qualitativos), ampliem o tempo de acompanhamento das crianças e considerem amostras diversificadas de diferentes regiões brasileiras, garantindo maior consistência e aplicabilidade dos resultados.
Por fim, prevê-se que estudos futuros possam aprofundar a relação entre multissensorialidade e currículo da Educação Infantil, investigar impactos em longo prazo e explorar tecnologias digitais acessíveis que complementem as experiências sensoriais. Essas iniciativas podem fortalecer a construção de práticas pedagógicas inclusivas, sensíveis às singularidades infantis e alinhadas aos princípios da educação de qualidade para todos.
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1Pedagoga, Especialista em Psicopedagogia Clínica e institucional, LIBRAS, Mestranda do curso Ciências da Educação – FICS.e-mail: leticiacarrera28@outlook.com; https://orcid.org/0009-0005-8542-923X
2Doutora em Educação-UFPA (2020)Mestra em Educação-UFPA(2012); Coordenadora da Educação Básica da SEMEC/Abaetetuba-PA.
