APRENDIZAGEM BASEADA EM JOGOS COMO ESTRATÉGIA INCLUSIVA PARA CRIANÇAS  COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: UMA REVISÃO  INTEGRATIVA DE ACHADOS EM PAÍSES DESENVOLVIDOS (2014–2024) 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512210811


Leticia Alves Carrera1
Maria Barbara da Costa Cardoso2


RESUMO 

Este estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem  Baseada em Jogos (GBL) como estratégia inclusiva para crianças com Transtorno do Espectro Autista  (TEA) na Educação Infantil. Por meio de uma Revisão Integrativa, foram selecionados nove estudos  publicados entre 2014 e 2024 nas bases SciELO, ANPEd e BDTD, provenientes de países com forte  produção científica sobre desenvolvimento infantil e tecnologias educativas. Os resultados mostraram  que diferentes modalidades de jogos — digitais, motores, simbólicos, cooperativos, gamificados e de  tabuleiro adaptado — contribuem significativamente para o desenvolvimento de habilidades essenciais,  como comunicação funcional, atenção conjunta, flexibilidade cognitiva, autorregulação emocional e  participação social. Os estudos indicam que ambientes lúdicos estruturados, previsibilidade e mediação  intencional favorecem o engajamento e a aprendizagem de crianças com TEA na primeira infância.  Apesar dos avanços, foram identificadas lacunas importantes, como amostras reduzidas, ausência de  estudos longitudinais, diversidade metodológica e pouca articulação entre escola e família. Conclui-se  que a Aprendizagem Baseada em Jogos constitui uma estratégia pedagógica promissora para a  Educação Infantil inclusiva, com potencial para superar limitações das metodologias tradicionais, desde  que acompanhada de formação docente adequada e investimentos em práticas baseadas em  evidências. 

Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Educação Infantil; Jogos; Inclusão; Aprendizagem  Baseada em Jogos. 

ABSTRACT 

This study aimed to analyze scientific evidence on the use of Game-Based Learning (GBL) as an  inclusive strategy for young children with Autism Spectrum Disorder (ASD) in Early Childhood  Education. Through an Integrative Review, nine studies published between 2014 and 2024 were  selected from the SciELO, ANPEd, and BDTD databases, all originating from countries with strong  scientific output in child development and educational technologies. The findings revealed that different  types of games—digital, motor, symbolic, cooperative, gamified, and adapted board games— significantly contribute to essential developmental skills such as functional communication, joint  attention, cognitive flexibility, emotional self-regulation, and social participation. The studies highlight  that structured play environments, predictability, and intentional mediation enhance engagement and  learning for children with ASD in early childhood settings. Despite these advances, important limitations  were identified, including small sample sizes, lack of longitudinal studies, methodological heterogeneity,  and limited collaboration between schools and families. The review concludes that Game-Based  Learning is a promising pedagogical strategy for inclusive early childhood education, with potential to  overcome limitations of traditional teaching methods, provided it is supported by adequate teacher  training and evidence-based practices. 

Keywords: Autism Spectrum Disorder; Early Childhood Education; Play; Inclusion; Game-Based  Learning. 

1 INTRODUÇÃO 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta especificidades no  desenvolvimento cognitivo, comunicativo e socioemocional que influenciam  diretamente a forma como a criança percebe, interage e aprende no ambiente escolar.  Na Educação Infantil, etapa marcada pela exploração ativa do mundo por meio da  brincadeira, o desafio de promover aprendizagens acessíveis e significativas torna-se  ainda mais complexo. Dentre as abordagens pedagógicas emergentes, a  Aprendizagem Baseada em Jogos (Game-Based Learning – GBL) tem se destacado  como uma alternativa inovadora, especialmente para crianças com TEA. 

Apesar da expansão global dessa abordagem, ainda existe uma lacuna  importante na ciência brasileira: compreender como jogos — digitais ou analógicos — podem ultrapassar limitações das metodologias tradicionais baseadas em instrução  direta, repetição mecânica e atividades pouco sensoriais.  

Diante desse cenário, emerge o problema que orienta este estudo: como a  Aprendizagem Baseada em Jogos contribui para o desenvolvimento e a participação  de crianças com TEA na Educação Infantil? Para responder a essa questão, adotou se a pergunta norteadora: de que maneira jogos digitais e analógicos favorecem  habilidades cognitivas, sociais, comunicativas e comportamentais em crianças com  TEA entre 0 e 5 anos? 

O objetivo geral é analisar evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem  Baseada em Jogos como estratégia inclusiva para crianças com TEA na Educação  Infantil. Especificamente, busca-se: (a) identificar os tipos de jogos utilizados nas  intervenções; (b) avaliar seus impactos no desenvolvimento infantil; e (c) mapear  lacunas e desafios metodológicos presentes nas pesquisas analisadas. 

A justificativa deste estudo fundamenta-se na urgência de superar modelos  pedagógicos tradicionais que ainda predominam na Educação Infantil brasileira e que,  muitas vezes, não atendem às singularidades sensoriais, comunicativas e cognitivas  de crianças com TEA.  

Metodologicamente, trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura,  conduzida nas bases SciELO, ANPEd e BDTD, entre 2014 e 2024, com triangulação  teórica, metodológica e analítica, conforme protocolos de Whittemore & Knafl (2005)  e Souza, Silva & Carvalho (2010). 

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1 Transtorno do Espectro Autista na Primeira Infância: Percurso Histórico,  Comunicação, Cognição e Jogo 

A compreensão do Transtorno do Espectro Autista (TEA) passou por profundas  transformações ao longo do último século. As primeiras descrições sistematizadas  surgiram com Leo Kanner, em 1943, ao caracterizar crianças que apresentavam  isolamento social, manutenção rígida de rotinas e dificuldades significativas de  comunicação. Quase simultaneamente, Hans Asperger, em 1944, descreveu um  grupo distinto, com linguagem preservada, porém com padrões comportamentais  peculiares. Esses estudos inauguraram um campo de investigação que, por décadas,  permaneceu marcado por interpretações equivocadas e modelos clínicos restritivos.  A partir dos anos 1980, com a consolidação das neurociências e da psicologia do  desenvolvimento, o autismo passou a ser concebido como um espectro,  reconhecendo-se a ampla variabilidade de manifestações e necessidades  (VOLKMAR; PAULS, 2003). 

Com a publicação do DSM-5, em 2013, o TEA foi oficialmente definido como  uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na  comunicação social e por padrões repetitivos de comportamento, interesses e  processamento sensorial (APA, 2014). Essa mudança permitiu integrar diferentes  perfis clínicos e ampliar a compreensão sobre as especificidades da primeira infância  — período crítico para a emergência de habilidades comunicativas, simbólicas e  cognitivas. 

No campo da comunicação, crianças com TEA podem apresentar dificuldades  em iniciar e sustentar interações, usar gestos espontâneos, compreender sinais  sociais e desenvolver linguagem verbal de maneira funcional. Essas diferenças  comprometem a atenção conjunta, a imitação e o compartilhamento de experiências  — pilares essenciais da aprendizagem infantil (BARON-COHEN, 2017). Contudo,  muitas dessas crianças demonstram responsividade ampliada a estímulos visuais,  organização sequencial e sistemas de reforço previsíveis, elementos presentes em  diversos tipos de jogos infantis. 

No domínio cognitivo, pesquisas apontam tanto habilidades específicas  elevadas — como memória visual e percepção de detalhe — quanto desafios em flexibilidade cognitiva, comportamento simbólico e resolução de problemas. Nessa  perspectiva, o jogo adquire centralidade no desenvolvimento infantil. Autores como  Vygotsky (1991) destacam que o brincar cria zonas de desenvolvimento próximas,  permitindo à criança explorar papéis, regras, ações e significados mediadores. Para  crianças com TEA, jogos estruturados podem funcionar como dispositivos  organizadores, facilitando a aprendizagem de turnos, regras, antecipação,  comunicação e regulação emocional (KIM; KANNO, 2021). 

Estudos contemporâneos demonstram que jogos — digitais ou analógicos — têm favorecido a participação ativa de crianças com TEA, ampliando sua capacidade  de engajamento, atenção compartilhada e interação social, especialmente quando  incorporam reforço imediato, desafios graduais e previsibilidade sensorial  (GAMBARDELLA et al., 2020). Dessa forma, a relação entre comunicação, cognição  e jogo revela-se inseparável para compreender o TEA na primeira infância. 

Assim, historizar o autismo e reconhecer suas transformações conceituais é  fundamental para justificar práticas educativas inovadoras, como a Aprendizagem  Baseada em Jogos, que dialogam com as singularidades do desenvolvimento infantil  e abrem caminhos para metodologias inclusivas. 

2.2 Fundamentos da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) 

A Aprendizagem Baseada em Jogos (Game-Based Learning – GBL) tem se  consolidado como uma abordagem pedagógica inovadora e eficaz para promover o  engajamento, a motivação e a construção ativa do conhecimento em diferentes etapas  da escolaridade. Fundamenta-se na compreensão de que o jogo, como atividade  humana universal, mobiliza processos cognitivos essenciais — como resolução de  problemas, tomada de decisões, atenção, memória e flexibilidade cognitiva — de  maneira lúdica, significativa e emocionalmente envolvente (GEE, 2007). Na Educação  Infantil, o GBL adquire relevância ainda maior, pois dialoga diretamente com a  natureza exploratória, sensorial e simbólica que caracteriza o desenvolvimento infantil. 

Os fundamentos teóricos do GBL estão ancorados em concepções  construtivistas e sociointeracionistas da aprendizagem. Para Piaget (1971), o jogo  constitui um meio privilegiado para estruturar esquemas mentais e favorecer a  passagem entre estágios cognitivos. Já Vygotsky (1991) destaca o jogo como espaço  de mediação cultural, no qual a criança internaliza regras, papéis sociais e significados, desenvolvendo funções psicológicas superiores por meio da interação.  No contexto do TEA, tais princípios adquirem novos contornos: jogos estruturados,  previsíveis e visualmente organizados têm potencial para reduzir barreiras  comunicativas e ampliar a participação da criança em experiências compartilhadas. 

Estudos contemporâneos também indicam que o GBL pode favorecer  habilidades socioemocionais, como cooperação, compreensão de turnos, tolerância à  frustração e comunicação funcional — aspectos frequentemente comprometidos em  crianças com TEA (HUSSEIN; NASEER, 2020). Essa eficácia decorre, em parte, da  natureza multimodal dos jogos, que integram estímulos visuais, sonoros e motores,  oferecendo vias alternativas de acesso ao conteúdo. Além disso, o uso de reforços  imediatos, feedback rápido e desafios progressivos estimula a autorregulação e a  persistência, elementos centrais do desenvolvimento infantil (PRINS; WULF, 2017). 

No âmbito europeu e asiático, pesquisas alemãs e japonesas vêm  demonstrando avanços significativos no uso de jogos digitais para intervenções  precoces, destacando melhorias na atenção compartilhada, na imitação e na  comunicação receptiva (KAWAKAMI et al., 2021). Países como Estados Unidos,  Canadá e Inglaterra também têm investido em estudos que combinam jogos  analógicos, gamificação e tecnologias assistivas para apoiar o desenvolvimento de  crianças com TEA em contextos educacionais. 

Dessa forma, os fundamentos da Aprendizagem Baseada em Jogos  evidenciam que essa abordagem não se limita à utilização de tecnologias digitais;  trata-se, antes, de uma concepção pedagógica que reconhece o jogo como mediador  de aprendizagens significativas, acessíveis e inclusivas. Para crianças com TEA na  Educação Infantil, o GBL pode funcionar como ferramenta de mediação sensorial,  cognitiva e social, ampliando repertórios comunicativos e promovendo uma atuação  mais ativa no cotidiano escolar. 

2.3 Jogos e Desenvolvimento Infantil: Evidências Aplicadas ao TEA O jogo é reconhecido internacionalmente como um dos principais mediadores  do desenvolvimento infantil, constituindo um espaço privilegiado para a construção de  conhecimentos, para o fortalecimento da autonomia e para o estabelecimento de  vínculos sociais. Pesquisas clássicas e contemporâneas mostram que, no brincar, a  criança experimenta papéis, testa hipóteses, organiza informações e mobiliza funções cognitivas essenciais, como atenção, memória, planejamento e resolução de  problemas (BODROVA; LEONG, 2015). No contexto da Educação Infantil, essas  dimensões se tornam ainda mais relevantes quando se considera o desenvolvimento  de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que apresentam modos  singulares de interação, percepção e comunicação. 

Nos últimos anos, estudos internacionais têm demonstrado que a utilização de  jogos — digitais ou analógicos — pode provocar mudanças significativas em  habilidades frequentemente prejudicadas no TEA. Em pesquisas norte-americanas,  por exemplo, jogos estruturados têm mostrado eficácia na ampliação de atenção  conjunta e no aumento da participação em atividades coletivas (GOODWIN et al.,  2016). Tais jogos, ao apresentarem rotinas previsíveis, feedback imediato e objetivos  claros, favorecem o entendimento da dinâmica da atividade e reduzem  comportamentos de evitamento. 

Em países como Alemanha e Inglaterra, investigações recentes vêm apontando  que jogos simbólicos mediados por adultos podem incentivar a emergência de  comportamentos comunicativos espontâneos, especialmente quando incorporam  elementos visuais e manipulativos (SCHNEIDER; HUSSELBEE, 2020). Já no Japão,  pesquisas demonstram que jogos motores com reforços sensoriais controlados têm  contribuído para o desenvolvimento da coordenação, da imitação e da regulação  emocional, aspectos fundamentais para o desenvolvimento global na primeira infância  (ARAI et al., 2021). 

Outro ponto importante revelado pela literatura é que os jogos podem facilitar a  compreensão de regras sociais. Crianças com TEA, que geralmente apresentam  dificuldades de leitura contextual de ambientes sociais, podem aprender turnos,  cooperação e negociação a partir de jogos coletivos estruturados. Trata-se de um  campo que reafirma o potencial do lúdico como mediador da inclusão e como  ferramenta para diminuir barreiras comportamentais e comunicativas. 

Por fim, evidências provenientes de revisões integrativas internacionais  destacam que jogos não apenas promovem engajamento, mas também funcionam  como pontes cognitivas entre o mundo concreto e o simbólico (MONTGOMERY;  LUGO, 2019). Para crianças com TEA, essa ponte é fundamental, pois possibilita  avanços em flexibilidade cognitiva, expressão emocional, criatividade e construção de  narrativas. 

Assim, os jogos se revelam como instrumentos de forte impacto no  desenvolvimento infantil, ampliando as possibilidades de aprendizagem significativa e  contribuindo para práticas pedagógicas inclusivas que respeitam a singularidade das  crianças com TEA na Educação Infantil. 

3. METODOLOGIA 

A presente investigação caracteriza-se como uma Revisão Integrativa da  Literatura, adotando natureza aplicada e abordagem qualitativa, com o objetivo de  reunir, comparar e interpretar evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem  Baseada em Jogos (GBL) para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)  na Educação Infantil. Esta seção tem como finalidade apresentar os procedimentos  metodológicos que orientaram a busca, seleção, análise e síntese dos estudos, de  modo a garantir rigor, transparência e reprodutibilidade ao processo investigativo. A  revisão integrativa foi escolhida por permitir a combinação de métodos e de resultados  derivados de pesquisas empíricas e teórico-aplicadas, possibilitando uma  compreensão ampla e interpretativa do fenômeno estudado. 

Para assegurar a consistência metodológica, foram adotados os protocolos de  Whittemore e Knafl (2005) e o modelo brasileiro de Souza, Silva e Carvalho (2010),  que orientam as etapas de identificação do problema, definição de critérios, extração  de dados, comparação e integração dos resultados. A busca foi realizada nas bases  SciELO, ANPEd e BDTD, selecionadas por abranger produção nacional e  internacional relevante, e por possibilitar acesso a estudos provenientes dos Estados  Unidos, Canadá, Alemanha, Inglaterra e Japão, regiões reconhecidas por sua  contribuição científica em jogos, tecnologia educacional e neurodesenvolvimento. Os  critérios de inclusão envolveram estudos publicados entre 2014 e 2024, disponíveis  na íntegra, com descrição metodológica clara e que abordassem intervenções com  jogos aplicados a crianças de 0 a 5 anos com diagnóstico de TEA. Foram excluídos  estudos clínicos, pesquisas com outras faixas etárias e trabalhos sem relação direta  com a Aprendizagem Baseada em Jogos ou com a Educação Infantil conforme o  quadro 1 – Estudos de provenientes dos países desenvolvidos abaixo: 

Aprendizagem baseada em jogos  

Quadro 1 – Achados da Revisão Integrativa 

Fonte: Elaborada pela autora (2025) 

A seleção seguiu etapas sequenciais: leitura dos títulos, leitura dos resumos e,  posteriormente, leitura completa para confirmação da elegibilidade. A revisão  considerou aspectos como delineamento metodológico, tipo de jogo utilizado,  objetivos das intervenções e principais achados. A triangulação dos dados ocorreu em  três níveis: teórica, ao confrontar referenciais distintos; metodológica, ao integrar  estudos com diferentes desenhos; e interpretativa, ao analisar convergências e  divergências entre os resultados encontrados. Essa estratégia ampliou a profundidade  analítica e fortaleceu a validade das interpretações produzidas. 

Os instrumentos utilizados para a análise incluíram uma matriz de extração de  dados contendo informações sobre autoria, ano, país, objetivos, métodos, tipo de jogo,  principais achados e lacunas identificadas. Essa matriz permitiu organizar de maneira  sistemática os conteúdos dos estudos, facilitando a elaboração das categorias  temáticas e a comparação entre diferentes abordagens e contextos investigados. A  análise dos dados seguiu um movimento contínuo de leitura, categorização, síntese e  reinterpretação, respeitando os princípios da revisão integrativa e preservando a  fidelidade aos resultados descritos nos estudos originais. 

Por fim, os dados foram discutidos à luz do referencial teórico apresentado na  seção anterior, buscando relacionar os achados da literatura com os fundamentos da  infantil no contexto do TEA. A discussão priorizou a identificação de contribuições  relevantes para a prática pedagógica, bem como a explicitação de limites, desafios e  lacunas que poderão orientar futuras pesquisas. Desse modo, esta seção oferece  bases metodológicas sólidas para a compreensão dos resultados apresentados  posteriormente. 

4. ANÁLISE DE RESULTADOS E DISCUSSÃO 

A análise dos nove estudos internacionais selecionados nas bases SciELO,  ANPEd e BDTD revelou um conjunto consistente de evidências sobre o uso da  Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) para crianças com Transtorno do Espectro  Autista (TEA) na Educação Infantil. Conduzida por meio da revisão integrativa, essa  análise permitiu identificar padrões recorrentes, contribuições relevantes e lacunas  importantes que atravessam a produção recente de países como Estados Unidos,  Canadá, Alemanha, Inglaterra e Japão. 

De forma geral, os estudos convergem ao demonstrar que diferentes  modalidades de jogos — digitais, motores, simbólicos, cooperativos, gamificados e de  tabuleiro adaptado — favorecem habilidades essenciais do desenvolvimento infantil,  como comunicação funcional, atenção conjunta, autorregulação, imitação e  flexibilidade cognitiva. A presença de ambientes lúdicos estruturados, previsibilidade  e reforços imediatos emerge como elemento central para o engajamento de crianças  com TEA. 

A triangulação teórica, metodológica e interpretativa evidenciou, contudo,  algumas limitações comuns: amostras reduzidas, ausência de estudos longitudinais e  escassez de instrumentos padronizados. Apesar dessas restrições, a síntese dos  achados oferece uma visão clara do potencial pedagógico dos jogos como  ferramentas inclusivas na primeira infância, fundamentando as análises detalhadas  apresentadas nas subseções seguintes. 

Os estudos localizados na base SciELO evidenciam predominância de  investigações que utilizam jogos digitais, motores e estratégias gamificadas voltadas  ao desenvolvimento de habilidades comunicativas, regulatórias e sociais de crianças  com TEA na Educação Infantil. Essas pesquisas, em sua maioria oriundas de Estados  Unidos, Alemanha e Japão, destacam a importância de ambientes estruturados,  recursos visuais intensos e feedback imediato para ampliar engajamento e atenção conjunta. Em diferentes contextos, observa-se que jogos digitais e motores  apresentaram forte impacto na regulação emocional e na emergência de  comportamentos de imitação, apontando para sua eficácia como estratégias  inclusivas em rotinas da primeira infância. 

Na base ANPEd, os estudos apresentam maior ênfase em jogos simbólicos,  cooperativos e de tabuleiro adaptado, com predominância de investigações  provenientes da Inglaterra. Nesses trabalhos, o foco desloca-se para as interações  sociais e para a mediação do adulto, destacando-se o papel do professor como agente  estruturador do ambiente lúdico. Os resultados evidenciam que jogos cooperativos e  simbólicos ampliam a comunicação espontânea, o compartilhamento de atenção e a  participação ativa da criança com TEA em atividades coletivas, especialmente quando  integrados a práticas inclusivas e rotinas pedagógicas mediadas. 

Os estudos provenientes da BDTD, com origem nos Estados Unidos e Canadá,  apresentam delineamentos metodológicos mais robustos e focalizam jogos digitais,  ambientes gamificados e atividades lúdicas voltadas ao desenvolvimento  comunicativo e socioemocional. Essas pesquisas exploram intervenções mais  sistemáticas e, em alguns casos, com acompanhamento longitudinal limitado. Os  resultados demonstram melhorias consistentes em habilidades como comunicação  funcional, compreensão de regras, atenção compartilhada e flexibilidade cognitiva. A  presença de estratégias gamificadas aparece como elemento estimulador de  motivação e persistência em crianças com TEA, reforçando o potencial dessas  abordagens no contexto educacional. 

Em conjunto, a análise por base de dados revela que, apesar das diferenças  metodológicas e dos variados tipos de jogos empregados, há uma tendência comum  de resultados positivos na comunicação, regulação emocional e participação social.  Cada base enfatiza aspectos distintos, mas convergentes, do papel pedagógico dos  jogos na Educação Infantil para crianças com TEA. 

Ao final dessa síntese, torna-se evidente que, embora os estudos apresentem  contribuições significativas, todos também exibem limitações metodológicas que  precisam ser consideradas. Para organizar essas fragilidades de forma clara e  sistematizada, o quadro a seguir apresenta as principais lacunas identificadas em  cada estudo, permitindo uma visualização objetiva dos desafios ainda presentes no  campo.

Fonte: Elaborado pela autora (2025) 

A análise integrada dos nove estudos permitiu identificar cinco categorias  principais relacionadas ao uso da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) na Educação Infantil para crianças com TEA. A primeira categoria, Jogos Digitais e Comunicação Funcional, evidencia que jogos digitais estruturados favoreceram  avanços consistentes na atenção conjunta, na resposta a pistas visuais e na comunicação receptiva e expressiva. Esses estudos destacam que recursos digitais  adequados aumentam o engajamento e reduzem comportamentos de evitamento.

A segunda categoria, Jogos Motores e Regulação Emocional, mostra que  atividades lúdicas centradas em movimento contribuíram para reduzir  comportamentos desregulados e ampliar habilidades como imitação, coordenação e  autorregulação. Nos estudos japoneses e norte-americanos, a combinação entre  movimento e reforço sensorial mostrou-se especialmente eficaz para preparar a  criança para atividades pedagógicas. 

A terceira categoria refere-se aos Jogos Simbólicos e Habilidades Sociais,  revelando que a mediação do adulto durante brincadeiras simbólicas promoveu maior  participação em interações sociais, ampliação do uso espontâneo da linguagem e  desenvolvimento de narrativas simples. Os estudos ingleses reforçam que o jogo  simbólico mediado favorece processos de imitação e cooperação. 

A quarta categoria, Jogos de Tabuleiro Adaptados e Flexibilidade Cognitiva,  demonstra que regras simples, turnos claros e objetivos previsíveis contribuíram para  melhorar tomada de decisão, tolerância à frustração e flexibilidade cognitiva. Esses  estudos sustentam que jogos estruturados podem funcionar como uma ponte segura  entre rotinas rígidas e desafios cognitivos graduais. 

Por fim, a categoria Gamificação e Motivação na Educação Infantil aponta que  ambientes gamificados aumentam a motivação, persistência e sociabilidade,  principalmente por meio de reforços imediatos, metas claras e progressão visível. Os  estudos norte-americanos destacam que a gamificação, quando utilizada com  moderação e propósito pedagógico, amplia o engajamento sem gerar sobrecarga  sensorial. 

Os resultados desta revisão integrativa mostram que a Aprendizagem Baseada  em Jogos (GBL) constitui uma estratégia pedagógica capaz de promover avanços  significativos na comunicação, cognição, autorregulação e participação social de  crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. Esses  achados dialogam diretamente com o referencial teórico ao evidenciar que o jogo,  enquanto linguagem estruturadora do desenvolvimento infantil, assume papel central  na mediação das interações e na construção de habilidades fundamentais, conforme  defendido por Vygotsky e Piaget. A convergência entre teoria e achados empíricos  reafirma que o brincar não deve ser tratado como atividade secundária, mas como  eixo pedagógico estruturante das práticas inclusivas. 

Os estudos que investigaram jogos digitais demonstraram que a previsibilidade,  o apelo visual e o feedback imediato — elementos destacados por Gee e confirmados  pelos resultados — favorecem a atenção conjunta, a comunicação funcional e o  engajamento. Tais evidências indicam que recursos digitais, quando adequados ao  perfil sensorial da criança com TEA, podem ampliar significativamente sua  participação em contextos pedagógicos, fortalecendo o princípio de acessibilidade  cognitiva. 

As pesquisas com jogos motores reforçam que estímulos lúdicos envolvendo  movimento podem regular estados emocionais e aumentar a responsividade social.  Esses resultados confirmam a importância da dimensão sensório-motora para  crianças com TEA, para as quais a regulação corporal constitui pré-condição para a  aprendizagem. Essas intervenções também mostram que o jogo contribui para  experiências positivas de interação, reduzindo comportamentos desregulados e  abrindo caminho para aprendizagens mais complexas. 

No caso dos jogos simbólicos e cooperativos, os achados revelam que a  mediação intencional do adulto é determinante para transformar o brincar em  oportunidade de desenvolvimento linguístico e social. Isso confirma a relevância do  papel docente como mediador das interações, responsável por organizar tempo,  espaço, materiais e suportes que ampliem a participação da criança com TEA no  grupo. Esse ponto é particularmente importante para o contexto brasileiro, no qual a  formação de professores ainda carece de estratégias práticas de intervenção lúdica. 

As análises sobre jogos de tabuleiro adaptados e estratégias de gamificação  mostram que regras claras, metas acessíveis e recompensas imediatas aumentam a  persistência e a tolerância à frustração, habilidades frequentemente desafiadoras para  crianças com TEA. Tais evidências apontam para a necessidade de metodologias que  valorizem a previsibilidade, a estruturação e o reforço positivo — aspectos muitas  vezes negligenciados em práticas tradicionais de ensino. 

Apesar dos avanços observados, a discussão evidencia limitações comuns,  como amostras pequenas, ausência de estudos longitudinais, pouco uso de  instrumentos padronizados e escassa integração entre escola e família. Esses pontos  sugerem que, embora promissora, a área ainda necessita ampliar rigor metodológico  e contextualização prática para alcançar maior impacto educacional. Assim, os  achados reforçam que a Aprendizagem Baseada em Jogos representa uma estratégia potente para a Educação Infantil inclusiva, mas que demanda continuidade  investigativa e fortalecimento das políticas de formação docente para consolidar seus  benefícios no cotidiano escolar. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O objetivo geral deste estudo foi analisar as evidências científicas sobre o uso  da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) como estratégia inclusiva para crianças  com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. A revisão integrativa  realizada permitiu identificar um conjunto consistente de resultados que demonstram  o potencial do jogo — em suas diferentes modalidades — para favorecer o  desenvolvimento comunicativo, cognitivo, motor, socioemocional e interacional  dessas crianças. Os achados revelam que jogos digitais, motores, simbólicos,  cooperativos, gamificados e de tabuleiro adaptado ampliam habilidades fundamentais,  como atenção conjunta, comunicação funcional, imitação, flexibilidade cognitiva,  autorregulação e participação social. Esses elementos confirmam que a  Aprendizagem Baseada em Jogos se configura como uma prática pedagógica  potente, capaz de superar limites das metodologias tradicionais ainda predominantes  na Educação Infantil. 

As principais descobertas desta revisão consolidam a compreensão de que o  jogo estruturado, mediado e intencional é capaz de criar oportunidades reais de  aprendizagem para crianças com TEA, especialmente quando combinado a feedback  imediato, apoio visual, regras acessíveis e desafios graduais. Essa constatação  reforça a necessidade de políticas educacionais e práticas pedagógicas que  reconheçam o brincar como eixo estruturante da educação inclusiva, contribuindo  para ambientes mais responsivos, motivadores e sensíveis às singularidades do  neurodesenvolvimento. 

Durante a análise, algumas dificuldades importantes foram evidenciadas: a  escassez de estudos longitudinais, a limitação das amostras, a dependência de  tecnologias específicas, a heterogeneidade metodológica e a pouca articulação entre  escola e família. Esses elementos representam barreiras ao aprofundamento das  evidências e indicam a urgência de fortalecer a produção científica sobre intervenções  lúdicas com crianças pequenas com TEA, especialmente no contexto brasileiro. Além disso, observou-se que grande parte das pesquisas internacionais enfatiza o papel da  mediação adulta como condição essencial para que o jogo seja significativo, o que  implica repensar a formação docente e práticas de sala de aula. 

Como possíveis soluções, esta revisão sugere ampliar a implementação de  jogos simples, acessíveis e adaptáveis à realidade das escolas públicas brasileiras,  investir em formação continuada que contemple intervenções lúdicas baseadas em  evidências, e promover maior integração entre família e instituição educativa para  garantir continuidade das aprendizagens. Estudos futuros podem avançar ao  desenvolver protocolos padronizados de intervenção, ampliar investigações em  contextos reais de sala de aula e explorar o impacto de jogos híbridos — que articulam  recursos digitais e não digitais — na aprendizagem de crianças com TEA. 

Por fim, conclui-se que a Aprendizagem Baseada em Jogos representa uma  estratégia promissora e alinhada às necessidades da Educação Infantil inclusiva,  capaz de promover desenvolvimento integral, participação ativa e experiências  pedagógicas mais significativas para crianças com TEA. Os resultados reforçam a  importância do investimento nessa abordagem como caminho para uma educação  verdadeiramente inclusiva, equitativa e transformadora. 

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1Pedagoga, Especialista em Psicopedagogia Clínica e institucional, LIBRAS, Mestranda do curso Ciências da  Educação – FICS. e-mail: leticiacarrera28@outlook.com;
2Doutora em Educação -UFPA(2020); Mestra em Educação-UFPA(2012);Coordenadora da Educação Básica SEMEC/Abaetetuba-PA.