REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512210811
Leticia Alves Carrera1
Maria Barbara da Costa Cardoso2
RESUMO
Este estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) como estratégia inclusiva para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. Por meio de uma Revisão Integrativa, foram selecionados nove estudos publicados entre 2014 e 2024 nas bases SciELO, ANPEd e BDTD, provenientes de países com forte produção científica sobre desenvolvimento infantil e tecnologias educativas. Os resultados mostraram que diferentes modalidades de jogos — digitais, motores, simbólicos, cooperativos, gamificados e de tabuleiro adaptado — contribuem significativamente para o desenvolvimento de habilidades essenciais, como comunicação funcional, atenção conjunta, flexibilidade cognitiva, autorregulação emocional e participação social. Os estudos indicam que ambientes lúdicos estruturados, previsibilidade e mediação intencional favorecem o engajamento e a aprendizagem de crianças com TEA na primeira infância. Apesar dos avanços, foram identificadas lacunas importantes, como amostras reduzidas, ausência de estudos longitudinais, diversidade metodológica e pouca articulação entre escola e família. Conclui-se que a Aprendizagem Baseada em Jogos constitui uma estratégia pedagógica promissora para a Educação Infantil inclusiva, com potencial para superar limitações das metodologias tradicionais, desde que acompanhada de formação docente adequada e investimentos em práticas baseadas em evidências.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Educação Infantil; Jogos; Inclusão; Aprendizagem Baseada em Jogos.
ABSTRACT
This study aimed to analyze scientific evidence on the use of Game-Based Learning (GBL) as an inclusive strategy for young children with Autism Spectrum Disorder (ASD) in Early Childhood Education. Through an Integrative Review, nine studies published between 2014 and 2024 were selected from the SciELO, ANPEd, and BDTD databases, all originating from countries with strong scientific output in child development and educational technologies. The findings revealed that different types of games—digital, motor, symbolic, cooperative, gamified, and adapted board games— significantly contribute to essential developmental skills such as functional communication, joint attention, cognitive flexibility, emotional self-regulation, and social participation. The studies highlight that structured play environments, predictability, and intentional mediation enhance engagement and learning for children with ASD in early childhood settings. Despite these advances, important limitations were identified, including small sample sizes, lack of longitudinal studies, methodological heterogeneity, and limited collaboration between schools and families. The review concludes that Game-Based Learning is a promising pedagogical strategy for inclusive early childhood education, with potential to overcome limitations of traditional teaching methods, provided it is supported by adequate teacher training and evidence-based practices.
Keywords: Autism Spectrum Disorder; Early Childhood Education; Play; Inclusion; Game-Based Learning.
1 INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta especificidades no desenvolvimento cognitivo, comunicativo e socioemocional que influenciam diretamente a forma como a criança percebe, interage e aprende no ambiente escolar. Na Educação Infantil, etapa marcada pela exploração ativa do mundo por meio da brincadeira, o desafio de promover aprendizagens acessíveis e significativas torna-se ainda mais complexo. Dentre as abordagens pedagógicas emergentes, a Aprendizagem Baseada em Jogos (Game-Based Learning – GBL) tem se destacado como uma alternativa inovadora, especialmente para crianças com TEA.
Apesar da expansão global dessa abordagem, ainda existe uma lacuna importante na ciência brasileira: compreender como jogos — digitais ou analógicos — podem ultrapassar limitações das metodologias tradicionais baseadas em instrução direta, repetição mecânica e atividades pouco sensoriais.
Diante desse cenário, emerge o problema que orienta este estudo: como a Aprendizagem Baseada em Jogos contribui para o desenvolvimento e a participação de crianças com TEA na Educação Infantil? Para responder a essa questão, adotou se a pergunta norteadora: de que maneira jogos digitais e analógicos favorecem habilidades cognitivas, sociais, comunicativas e comportamentais em crianças com TEA entre 0 e 5 anos?
O objetivo geral é analisar evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem Baseada em Jogos como estratégia inclusiva para crianças com TEA na Educação Infantil. Especificamente, busca-se: (a) identificar os tipos de jogos utilizados nas intervenções; (b) avaliar seus impactos no desenvolvimento infantil; e (c) mapear lacunas e desafios metodológicos presentes nas pesquisas analisadas.
A justificativa deste estudo fundamenta-se na urgência de superar modelos pedagógicos tradicionais que ainda predominam na Educação Infantil brasileira e que, muitas vezes, não atendem às singularidades sensoriais, comunicativas e cognitivas de crianças com TEA.
Metodologicamente, trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura, conduzida nas bases SciELO, ANPEd e BDTD, entre 2014 e 2024, com triangulação teórica, metodológica e analítica, conforme protocolos de Whittemore & Knafl (2005) e Souza, Silva & Carvalho (2010).
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Transtorno do Espectro Autista na Primeira Infância: Percurso Histórico, Comunicação, Cognição e Jogo
A compreensão do Transtorno do Espectro Autista (TEA) passou por profundas transformações ao longo do último século. As primeiras descrições sistematizadas surgiram com Leo Kanner, em 1943, ao caracterizar crianças que apresentavam isolamento social, manutenção rígida de rotinas e dificuldades significativas de comunicação. Quase simultaneamente, Hans Asperger, em 1944, descreveu um grupo distinto, com linguagem preservada, porém com padrões comportamentais peculiares. Esses estudos inauguraram um campo de investigação que, por décadas, permaneceu marcado por interpretações equivocadas e modelos clínicos restritivos. A partir dos anos 1980, com a consolidação das neurociências e da psicologia do desenvolvimento, o autismo passou a ser concebido como um espectro, reconhecendo-se a ampla variabilidade de manifestações e necessidades (VOLKMAR; PAULS, 2003).
Com a publicação do DSM-5, em 2013, o TEA foi oficialmente definido como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na comunicação social e por padrões repetitivos de comportamento, interesses e processamento sensorial (APA, 2014). Essa mudança permitiu integrar diferentes perfis clínicos e ampliar a compreensão sobre as especificidades da primeira infância — período crítico para a emergência de habilidades comunicativas, simbólicas e cognitivas.
No campo da comunicação, crianças com TEA podem apresentar dificuldades em iniciar e sustentar interações, usar gestos espontâneos, compreender sinais sociais e desenvolver linguagem verbal de maneira funcional. Essas diferenças comprometem a atenção conjunta, a imitação e o compartilhamento de experiências — pilares essenciais da aprendizagem infantil (BARON-COHEN, 2017). Contudo, muitas dessas crianças demonstram responsividade ampliada a estímulos visuais, organização sequencial e sistemas de reforço previsíveis, elementos presentes em diversos tipos de jogos infantis.
No domínio cognitivo, pesquisas apontam tanto habilidades específicas elevadas — como memória visual e percepção de detalhe — quanto desafios em flexibilidade cognitiva, comportamento simbólico e resolução de problemas. Nessa perspectiva, o jogo adquire centralidade no desenvolvimento infantil. Autores como Vygotsky (1991) destacam que o brincar cria zonas de desenvolvimento próximas, permitindo à criança explorar papéis, regras, ações e significados mediadores. Para crianças com TEA, jogos estruturados podem funcionar como dispositivos organizadores, facilitando a aprendizagem de turnos, regras, antecipação, comunicação e regulação emocional (KIM; KANNO, 2021).
Estudos contemporâneos demonstram que jogos — digitais ou analógicos — têm favorecido a participação ativa de crianças com TEA, ampliando sua capacidade de engajamento, atenção compartilhada e interação social, especialmente quando incorporam reforço imediato, desafios graduais e previsibilidade sensorial (GAMBARDELLA et al., 2020). Dessa forma, a relação entre comunicação, cognição e jogo revela-se inseparável para compreender o TEA na primeira infância.
Assim, historizar o autismo e reconhecer suas transformações conceituais é fundamental para justificar práticas educativas inovadoras, como a Aprendizagem Baseada em Jogos, que dialogam com as singularidades do desenvolvimento infantil e abrem caminhos para metodologias inclusivas.
2.2 Fundamentos da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL)
A Aprendizagem Baseada em Jogos (Game-Based Learning – GBL) tem se consolidado como uma abordagem pedagógica inovadora e eficaz para promover o engajamento, a motivação e a construção ativa do conhecimento em diferentes etapas da escolaridade. Fundamenta-se na compreensão de que o jogo, como atividade humana universal, mobiliza processos cognitivos essenciais — como resolução de problemas, tomada de decisões, atenção, memória e flexibilidade cognitiva — de maneira lúdica, significativa e emocionalmente envolvente (GEE, 2007). Na Educação Infantil, o GBL adquire relevância ainda maior, pois dialoga diretamente com a natureza exploratória, sensorial e simbólica que caracteriza o desenvolvimento infantil.
Os fundamentos teóricos do GBL estão ancorados em concepções construtivistas e sociointeracionistas da aprendizagem. Para Piaget (1971), o jogo constitui um meio privilegiado para estruturar esquemas mentais e favorecer a passagem entre estágios cognitivos. Já Vygotsky (1991) destaca o jogo como espaço de mediação cultural, no qual a criança internaliza regras, papéis sociais e significados, desenvolvendo funções psicológicas superiores por meio da interação. No contexto do TEA, tais princípios adquirem novos contornos: jogos estruturados, previsíveis e visualmente organizados têm potencial para reduzir barreiras comunicativas e ampliar a participação da criança em experiências compartilhadas.
Estudos contemporâneos também indicam que o GBL pode favorecer habilidades socioemocionais, como cooperação, compreensão de turnos, tolerância à frustração e comunicação funcional — aspectos frequentemente comprometidos em crianças com TEA (HUSSEIN; NASEER, 2020). Essa eficácia decorre, em parte, da natureza multimodal dos jogos, que integram estímulos visuais, sonoros e motores, oferecendo vias alternativas de acesso ao conteúdo. Além disso, o uso de reforços imediatos, feedback rápido e desafios progressivos estimula a autorregulação e a persistência, elementos centrais do desenvolvimento infantil (PRINS; WULF, 2017).
No âmbito europeu e asiático, pesquisas alemãs e japonesas vêm demonstrando avanços significativos no uso de jogos digitais para intervenções precoces, destacando melhorias na atenção compartilhada, na imitação e na comunicação receptiva (KAWAKAMI et al., 2021). Países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra também têm investido em estudos que combinam jogos analógicos, gamificação e tecnologias assistivas para apoiar o desenvolvimento de crianças com TEA em contextos educacionais.
Dessa forma, os fundamentos da Aprendizagem Baseada em Jogos evidenciam que essa abordagem não se limita à utilização de tecnologias digitais; trata-se, antes, de uma concepção pedagógica que reconhece o jogo como mediador de aprendizagens significativas, acessíveis e inclusivas. Para crianças com TEA na Educação Infantil, o GBL pode funcionar como ferramenta de mediação sensorial, cognitiva e social, ampliando repertórios comunicativos e promovendo uma atuação mais ativa no cotidiano escolar.
2.3 Jogos e Desenvolvimento Infantil: Evidências Aplicadas ao TEA O jogo é reconhecido internacionalmente como um dos principais mediadores do desenvolvimento infantil, constituindo um espaço privilegiado para a construção de conhecimentos, para o fortalecimento da autonomia e para o estabelecimento de vínculos sociais. Pesquisas clássicas e contemporâneas mostram que, no brincar, a criança experimenta papéis, testa hipóteses, organiza informações e mobiliza funções cognitivas essenciais, como atenção, memória, planejamento e resolução de problemas (BODROVA; LEONG, 2015). No contexto da Educação Infantil, essas dimensões se tornam ainda mais relevantes quando se considera o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que apresentam modos singulares de interação, percepção e comunicação.
Nos últimos anos, estudos internacionais têm demonstrado que a utilização de jogos — digitais ou analógicos — pode provocar mudanças significativas em habilidades frequentemente prejudicadas no TEA. Em pesquisas norte-americanas, por exemplo, jogos estruturados têm mostrado eficácia na ampliação de atenção conjunta e no aumento da participação em atividades coletivas (GOODWIN et al., 2016). Tais jogos, ao apresentarem rotinas previsíveis, feedback imediato e objetivos claros, favorecem o entendimento da dinâmica da atividade e reduzem comportamentos de evitamento.
Em países como Alemanha e Inglaterra, investigações recentes vêm apontando que jogos simbólicos mediados por adultos podem incentivar a emergência de comportamentos comunicativos espontâneos, especialmente quando incorporam elementos visuais e manipulativos (SCHNEIDER; HUSSELBEE, 2020). Já no Japão, pesquisas demonstram que jogos motores com reforços sensoriais controlados têm contribuído para o desenvolvimento da coordenação, da imitação e da regulação emocional, aspectos fundamentais para o desenvolvimento global na primeira infância (ARAI et al., 2021).
Outro ponto importante revelado pela literatura é que os jogos podem facilitar a compreensão de regras sociais. Crianças com TEA, que geralmente apresentam dificuldades de leitura contextual de ambientes sociais, podem aprender turnos, cooperação e negociação a partir de jogos coletivos estruturados. Trata-se de um campo que reafirma o potencial do lúdico como mediador da inclusão e como ferramenta para diminuir barreiras comportamentais e comunicativas.
Por fim, evidências provenientes de revisões integrativas internacionais destacam que jogos não apenas promovem engajamento, mas também funcionam como pontes cognitivas entre o mundo concreto e o simbólico (MONTGOMERY; LUGO, 2019). Para crianças com TEA, essa ponte é fundamental, pois possibilita avanços em flexibilidade cognitiva, expressão emocional, criatividade e construção de narrativas.
Assim, os jogos se revelam como instrumentos de forte impacto no desenvolvimento infantil, ampliando as possibilidades de aprendizagem significativa e contribuindo para práticas pedagógicas inclusivas que respeitam a singularidade das crianças com TEA na Educação Infantil.
3. METODOLOGIA
A presente investigação caracteriza-se como uma Revisão Integrativa da Literatura, adotando natureza aplicada e abordagem qualitativa, com o objetivo de reunir, comparar e interpretar evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. Esta seção tem como finalidade apresentar os procedimentos metodológicos que orientaram a busca, seleção, análise e síntese dos estudos, de modo a garantir rigor, transparência e reprodutibilidade ao processo investigativo. A revisão integrativa foi escolhida por permitir a combinação de métodos e de resultados derivados de pesquisas empíricas e teórico-aplicadas, possibilitando uma compreensão ampla e interpretativa do fenômeno estudado.
Para assegurar a consistência metodológica, foram adotados os protocolos de Whittemore e Knafl (2005) e o modelo brasileiro de Souza, Silva e Carvalho (2010), que orientam as etapas de identificação do problema, definição de critérios, extração de dados, comparação e integração dos resultados. A busca foi realizada nas bases SciELO, ANPEd e BDTD, selecionadas por abranger produção nacional e internacional relevante, e por possibilitar acesso a estudos provenientes dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Inglaterra e Japão, regiões reconhecidas por sua contribuição científica em jogos, tecnologia educacional e neurodesenvolvimento. Os critérios de inclusão envolveram estudos publicados entre 2014 e 2024, disponíveis na íntegra, com descrição metodológica clara e que abordassem intervenções com jogos aplicados a crianças de 0 a 5 anos com diagnóstico de TEA. Foram excluídos estudos clínicos, pesquisas com outras faixas etárias e trabalhos sem relação direta com a Aprendizagem Baseada em Jogos ou com a Educação Infantil conforme o quadro 1 – Estudos de provenientes dos países desenvolvidos abaixo:
Aprendizagem baseada em jogos
Quadro 1 – Achados da Revisão Integrativa

Fonte: Elaborada pela autora (2025)
A seleção seguiu etapas sequenciais: leitura dos títulos, leitura dos resumos e, posteriormente, leitura completa para confirmação da elegibilidade. A revisão considerou aspectos como delineamento metodológico, tipo de jogo utilizado, objetivos das intervenções e principais achados. A triangulação dos dados ocorreu em três níveis: teórica, ao confrontar referenciais distintos; metodológica, ao integrar estudos com diferentes desenhos; e interpretativa, ao analisar convergências e divergências entre os resultados encontrados. Essa estratégia ampliou a profundidade analítica e fortaleceu a validade das interpretações produzidas.
Os instrumentos utilizados para a análise incluíram uma matriz de extração de dados contendo informações sobre autoria, ano, país, objetivos, métodos, tipo de jogo, principais achados e lacunas identificadas. Essa matriz permitiu organizar de maneira sistemática os conteúdos dos estudos, facilitando a elaboração das categorias temáticas e a comparação entre diferentes abordagens e contextos investigados. A análise dos dados seguiu um movimento contínuo de leitura, categorização, síntese e reinterpretação, respeitando os princípios da revisão integrativa e preservando a fidelidade aos resultados descritos nos estudos originais.
Por fim, os dados foram discutidos à luz do referencial teórico apresentado na seção anterior, buscando relacionar os achados da literatura com os fundamentos da infantil no contexto do TEA. A discussão priorizou a identificação de contribuições relevantes para a prática pedagógica, bem como a explicitação de limites, desafios e lacunas que poderão orientar futuras pesquisas. Desse modo, esta seção oferece bases metodológicas sólidas para a compreensão dos resultados apresentados posteriormente.
4. ANÁLISE DE RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos nove estudos internacionais selecionados nas bases SciELO, ANPEd e BDTD revelou um conjunto consistente de evidências sobre o uso da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. Conduzida por meio da revisão integrativa, essa análise permitiu identificar padrões recorrentes, contribuições relevantes e lacunas importantes que atravessam a produção recente de países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Inglaterra e Japão.
De forma geral, os estudos convergem ao demonstrar que diferentes modalidades de jogos — digitais, motores, simbólicos, cooperativos, gamificados e de tabuleiro adaptado — favorecem habilidades essenciais do desenvolvimento infantil, como comunicação funcional, atenção conjunta, autorregulação, imitação e flexibilidade cognitiva. A presença de ambientes lúdicos estruturados, previsibilidade e reforços imediatos emerge como elemento central para o engajamento de crianças com TEA.
A triangulação teórica, metodológica e interpretativa evidenciou, contudo, algumas limitações comuns: amostras reduzidas, ausência de estudos longitudinais e escassez de instrumentos padronizados. Apesar dessas restrições, a síntese dos achados oferece uma visão clara do potencial pedagógico dos jogos como ferramentas inclusivas na primeira infância, fundamentando as análises detalhadas apresentadas nas subseções seguintes.
Os estudos localizados na base SciELO evidenciam predominância de investigações que utilizam jogos digitais, motores e estratégias gamificadas voltadas ao desenvolvimento de habilidades comunicativas, regulatórias e sociais de crianças com TEA na Educação Infantil. Essas pesquisas, em sua maioria oriundas de Estados Unidos, Alemanha e Japão, destacam a importância de ambientes estruturados, recursos visuais intensos e feedback imediato para ampliar engajamento e atenção conjunta. Em diferentes contextos, observa-se que jogos digitais e motores apresentaram forte impacto na regulação emocional e na emergência de comportamentos de imitação, apontando para sua eficácia como estratégias inclusivas em rotinas da primeira infância.
Na base ANPEd, os estudos apresentam maior ênfase em jogos simbólicos, cooperativos e de tabuleiro adaptado, com predominância de investigações provenientes da Inglaterra. Nesses trabalhos, o foco desloca-se para as interações sociais e para a mediação do adulto, destacando-se o papel do professor como agente estruturador do ambiente lúdico. Os resultados evidenciam que jogos cooperativos e simbólicos ampliam a comunicação espontânea, o compartilhamento de atenção e a participação ativa da criança com TEA em atividades coletivas, especialmente quando integrados a práticas inclusivas e rotinas pedagógicas mediadas.
Os estudos provenientes da BDTD, com origem nos Estados Unidos e Canadá, apresentam delineamentos metodológicos mais robustos e focalizam jogos digitais, ambientes gamificados e atividades lúdicas voltadas ao desenvolvimento comunicativo e socioemocional. Essas pesquisas exploram intervenções mais sistemáticas e, em alguns casos, com acompanhamento longitudinal limitado. Os resultados demonstram melhorias consistentes em habilidades como comunicação funcional, compreensão de regras, atenção compartilhada e flexibilidade cognitiva. A presença de estratégias gamificadas aparece como elemento estimulador de motivação e persistência em crianças com TEA, reforçando o potencial dessas abordagens no contexto educacional.
Em conjunto, a análise por base de dados revela que, apesar das diferenças metodológicas e dos variados tipos de jogos empregados, há uma tendência comum de resultados positivos na comunicação, regulação emocional e participação social. Cada base enfatiza aspectos distintos, mas convergentes, do papel pedagógico dos jogos na Educação Infantil para crianças com TEA.
Ao final dessa síntese, torna-se evidente que, embora os estudos apresentem contribuições significativas, todos também exibem limitações metodológicas que precisam ser consideradas. Para organizar essas fragilidades de forma clara e sistematizada, o quadro a seguir apresenta as principais lacunas identificadas em cada estudo, permitindo uma visualização objetiva dos desafios ainda presentes no campo.

Fonte: Elaborado pela autora (2025)
A análise integrada dos nove estudos permitiu identificar cinco categorias principais relacionadas ao uso da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) na Educação Infantil para crianças com TEA. A primeira categoria, Jogos Digitais e Comunicação Funcional, evidencia que jogos digitais estruturados favoreceram avanços consistentes na atenção conjunta, na resposta a pistas visuais e na comunicação receptiva e expressiva. Esses estudos destacam que recursos digitais adequados aumentam o engajamento e reduzem comportamentos de evitamento.
A segunda categoria, Jogos Motores e Regulação Emocional, mostra que atividades lúdicas centradas em movimento contribuíram para reduzir comportamentos desregulados e ampliar habilidades como imitação, coordenação e autorregulação. Nos estudos japoneses e norte-americanos, a combinação entre movimento e reforço sensorial mostrou-se especialmente eficaz para preparar a criança para atividades pedagógicas.
A terceira categoria refere-se aos Jogos Simbólicos e Habilidades Sociais, revelando que a mediação do adulto durante brincadeiras simbólicas promoveu maior participação em interações sociais, ampliação do uso espontâneo da linguagem e desenvolvimento de narrativas simples. Os estudos ingleses reforçam que o jogo simbólico mediado favorece processos de imitação e cooperação.
A quarta categoria, Jogos de Tabuleiro Adaptados e Flexibilidade Cognitiva, demonstra que regras simples, turnos claros e objetivos previsíveis contribuíram para melhorar tomada de decisão, tolerância à frustração e flexibilidade cognitiva. Esses estudos sustentam que jogos estruturados podem funcionar como uma ponte segura entre rotinas rígidas e desafios cognitivos graduais.
Por fim, a categoria Gamificação e Motivação na Educação Infantil aponta que ambientes gamificados aumentam a motivação, persistência e sociabilidade, principalmente por meio de reforços imediatos, metas claras e progressão visível. Os estudos norte-americanos destacam que a gamificação, quando utilizada com moderação e propósito pedagógico, amplia o engajamento sem gerar sobrecarga sensorial.
Os resultados desta revisão integrativa mostram que a Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) constitui uma estratégia pedagógica capaz de promover avanços significativos na comunicação, cognição, autorregulação e participação social de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. Esses achados dialogam diretamente com o referencial teórico ao evidenciar que o jogo, enquanto linguagem estruturadora do desenvolvimento infantil, assume papel central na mediação das interações e na construção de habilidades fundamentais, conforme defendido por Vygotsky e Piaget. A convergência entre teoria e achados empíricos reafirma que o brincar não deve ser tratado como atividade secundária, mas como eixo pedagógico estruturante das práticas inclusivas.
Os estudos que investigaram jogos digitais demonstraram que a previsibilidade, o apelo visual e o feedback imediato — elementos destacados por Gee e confirmados pelos resultados — favorecem a atenção conjunta, a comunicação funcional e o engajamento. Tais evidências indicam que recursos digitais, quando adequados ao perfil sensorial da criança com TEA, podem ampliar significativamente sua participação em contextos pedagógicos, fortalecendo o princípio de acessibilidade cognitiva.
As pesquisas com jogos motores reforçam que estímulos lúdicos envolvendo movimento podem regular estados emocionais e aumentar a responsividade social. Esses resultados confirmam a importância da dimensão sensório-motora para crianças com TEA, para as quais a regulação corporal constitui pré-condição para a aprendizagem. Essas intervenções também mostram que o jogo contribui para experiências positivas de interação, reduzindo comportamentos desregulados e abrindo caminho para aprendizagens mais complexas.
No caso dos jogos simbólicos e cooperativos, os achados revelam que a mediação intencional do adulto é determinante para transformar o brincar em oportunidade de desenvolvimento linguístico e social. Isso confirma a relevância do papel docente como mediador das interações, responsável por organizar tempo, espaço, materiais e suportes que ampliem a participação da criança com TEA no grupo. Esse ponto é particularmente importante para o contexto brasileiro, no qual a formação de professores ainda carece de estratégias práticas de intervenção lúdica.
As análises sobre jogos de tabuleiro adaptados e estratégias de gamificação mostram que regras claras, metas acessíveis e recompensas imediatas aumentam a persistência e a tolerância à frustração, habilidades frequentemente desafiadoras para crianças com TEA. Tais evidências apontam para a necessidade de metodologias que valorizem a previsibilidade, a estruturação e o reforço positivo — aspectos muitas vezes negligenciados em práticas tradicionais de ensino.
Apesar dos avanços observados, a discussão evidencia limitações comuns, como amostras pequenas, ausência de estudos longitudinais, pouco uso de instrumentos padronizados e escassa integração entre escola e família. Esses pontos sugerem que, embora promissora, a área ainda necessita ampliar rigor metodológico e contextualização prática para alcançar maior impacto educacional. Assim, os achados reforçam que a Aprendizagem Baseada em Jogos representa uma estratégia potente para a Educação Infantil inclusiva, mas que demanda continuidade investigativa e fortalecimento das políticas de formação docente para consolidar seus benefícios no cotidiano escolar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo geral deste estudo foi analisar as evidências científicas sobre o uso da Aprendizagem Baseada em Jogos (GBL) como estratégia inclusiva para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Educação Infantil. A revisão integrativa realizada permitiu identificar um conjunto consistente de resultados que demonstram o potencial do jogo — em suas diferentes modalidades — para favorecer o desenvolvimento comunicativo, cognitivo, motor, socioemocional e interacional dessas crianças. Os achados revelam que jogos digitais, motores, simbólicos, cooperativos, gamificados e de tabuleiro adaptado ampliam habilidades fundamentais, como atenção conjunta, comunicação funcional, imitação, flexibilidade cognitiva, autorregulação e participação social. Esses elementos confirmam que a Aprendizagem Baseada em Jogos se configura como uma prática pedagógica potente, capaz de superar limites das metodologias tradicionais ainda predominantes na Educação Infantil.
As principais descobertas desta revisão consolidam a compreensão de que o jogo estruturado, mediado e intencional é capaz de criar oportunidades reais de aprendizagem para crianças com TEA, especialmente quando combinado a feedback imediato, apoio visual, regras acessíveis e desafios graduais. Essa constatação reforça a necessidade de políticas educacionais e práticas pedagógicas que reconheçam o brincar como eixo estruturante da educação inclusiva, contribuindo para ambientes mais responsivos, motivadores e sensíveis às singularidades do neurodesenvolvimento.
Durante a análise, algumas dificuldades importantes foram evidenciadas: a escassez de estudos longitudinais, a limitação das amostras, a dependência de tecnologias específicas, a heterogeneidade metodológica e a pouca articulação entre escola e família. Esses elementos representam barreiras ao aprofundamento das evidências e indicam a urgência de fortalecer a produção científica sobre intervenções lúdicas com crianças pequenas com TEA, especialmente no contexto brasileiro. Além disso, observou-se que grande parte das pesquisas internacionais enfatiza o papel da mediação adulta como condição essencial para que o jogo seja significativo, o que implica repensar a formação docente e práticas de sala de aula.
Como possíveis soluções, esta revisão sugere ampliar a implementação de jogos simples, acessíveis e adaptáveis à realidade das escolas públicas brasileiras, investir em formação continuada que contemple intervenções lúdicas baseadas em evidências, e promover maior integração entre família e instituição educativa para garantir continuidade das aprendizagens. Estudos futuros podem avançar ao desenvolver protocolos padronizados de intervenção, ampliar investigações em contextos reais de sala de aula e explorar o impacto de jogos híbridos — que articulam recursos digitais e não digitais — na aprendizagem de crianças com TEA.
Por fim, conclui-se que a Aprendizagem Baseada em Jogos representa uma estratégia promissora e alinhada às necessidades da Educação Infantil inclusiva, capaz de promover desenvolvimento integral, participação ativa e experiências pedagógicas mais significativas para crianças com TEA. Os resultados reforçam a importância do investimento nessa abordagem como caminho para uma educação verdadeiramente inclusiva, equitativa e transformadora.
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1Pedagoga, Especialista em Psicopedagogia Clínica e institucional, LIBRAS, Mestranda do curso Ciências da Educação – FICS. e-mail: leticiacarrera28@outlook.com;
2Doutora em Educação -UFPA(2020); Mestra em Educação-UFPA(2012);Coordenadora da Educação Básica SEMEC/Abaetetuba-PA.
