DESAMPARO NA VIDA DAS MULHERES PRETAS: UMA ANÁLISE INTERSECCIONAL DA SAÚDE MENTAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511112214


Lúvia Sonara Gonçalves Reis1
Larissa Isaura Gomes2


RESUMO

A saúde mental das mulheres pretas no Brasil é pauta necessária em estudos, principalmente sobre uma perspectiva de raça, gênero e classe, visto que a existência desse grupo sofre a marginalização da sua trajetória e das suas vivências até nos dias atuais. Diante desse contexto, o objetivo geral desta investigação consiste na análise interseccional dos efeitos do racismo estrutural, do patriarcado e das desigualdades sociais sobre a saúde mental dessa população. O estudo adotou a metodologia de pesquisa bibliográfica, utilizando como fundamentação teórica, artigos científicos, relatórios, estudos históricos e dados oficiais. Os resultados adquiridos após a investigação possibilitam compreender que as mulheres pretas enfrentaram e ainda enfrentam múltiplas formas de opressão, ocasionando em sua saúde mental, impactos psíquicos significativos, que são potencializados pela clara invisibilização de políticas públicas e práticas de cuidado na esfera da saúde mental. Com esses resultados, evidencia-se a urgência no enfrentamento das desigualdades nesse contexto, algo que demanda atuação interdisciplinar e contextualizada da Psicologia. As ações voltadas para esse enfrentamento podem ser valiosas para o fortalecimento das narrativas pretas e das estratégias de resistência, além de proporcionar atenção e cuidado com o bem-estar psíquico desse grupo, reafirmando assim, o compromisso social da Psicologia enquanto ciência e profissão. 

Palavras-chave: Mulheres pretas. Saúde mental. Interseccionalidade.

ABSTRACT

The mental health of Black women in Brazil is a necessary topic in studies, especially from a race, gender, and class perspective, given that the existence of this group suffers from the marginalization of its trajectory and experiences even today. In this context, the general objective of this investigation is the intersectional analysis of the effects of structural racism, patriarchy, and social inequalities on the mental health of this population. The study adopted a bibliographic research methodology, using scientific articles, reports, historical studies, and official data as theoretical foundations. The results obtained after the investigation make it possible to understand that Black women have faced and continue to face multiple forms of oppression, causing significant psychic impacts on their mental health, which are amplified by the clear invisibility of public policies and care practices in the field of mental health. These results highlight the urgency in addressing inequalities in this context, something that demands interdisciplinary and contextualized action from Psychology. Actions aimed at addressing this issue can be valuable for strengthening Black narratives and resistance strategies, as well as providing attention and care for the mental well-being of this group, thus reaffirming the social commitment of Psychology as a science and profession.

Keywords: Black women. Mental health. Intersectionality.

1. INTRODUÇÃO

Abordar a saúde mental das mulheres pretas a partir da análise da raça, da classe e do gênero implica em reconhecer que tais variáveis atravessam a vida das mesmas, e quase sempre, incidem como fatores determinantes para a existência marcada pela marginalidade, compondo, portanto, o conteúdo sobrante da vida humana. Tais variáveis assumem a posição fronteiriça, delineando histórias de vida conjugadas a partir do binômio: estar ou não com acesso aos direitos essenciais. 

Considerando essa temática a partir da interseccionalidade, que pode ser compreendida como um marcador social das minorias, possibilitando a elaboração crítica a respeito de um quadro que não pode ser interpretado com base nos mesmos alicerces (Akotirene, 2019; Crenshaw, 2004), evidencia-se a necessidade de que o tema seja abordado, pesquisado, analisado e refletido da maneira compatível com a complexidade e com o peso que carrega. A relevância dessa pesquisa é reafirmada pelos indicadores que naturalizam a demanda ao invés de trazê-la para a centralidade dos debates.

Dito isso, a proposta desta investigação inclui uma análise interseccional da vida de mulheres pretas no Brasil, abordando questões que abarcam a saúde mental desse grupo a partir dos seus contextos de vida. Estudar essa temática baseando-se no entrecruzamento entre raça, classe e gênero é de suma importância para escancarar o desamparo que acompanha estas mulheres. 

Mesmo que as pessoas pretas não estejam hoje, vivendo sob o peso da escrvidão que por muitos anos foi legitimada, percebe-se que elas seguem, mesmo que livres das algemas e dos cativeiros, não desfrutando da liberdade. Observa-se que essa população, em especial as mulheres pretas, seguem sendo perseguidas pelo racismo estrutural (Akotirene, 2019) que segue perpetuado no país que ironicamente se denomina não racista (Chadê, 2020). 

O Brasil caracteriza-se como um país antinegro em que, após a abolição, o trabalho que até então era realizado somente por negros foi substituído pelos imigrantes europeus. Soares (2022) recorda que os europeus vieram para o Brasil após a abolição da escravidão para trabalhar nas indústrias, pois, em tese, os negros não teriam mão de obra qualificada para dirigir os maquinários. Assim, os brancos ainda possuíam (e possuem) a meritocracia, e para os negros, restava a falsa liberdade de escolher trabalhar com as enxadas e panelas.

Ainda hoje é possível notar que o Brasil segue em busca do embranquecimento da raça. Uma reportagem de 2018 do ‘The Wall Street Journal’ ganhou ampla divulgação nos canais jornalísticos do Brasil. O motivo foi a afirmação que o país importou de homens brancos norte-americanos, 511 tubos de sêmen entre os anos de 2011 e 2017. O Jornal Veja São Paulo, apresentou que “dados da Anvisa revelados pelo WSJ revelam que mais de 90% do material importado é de doadores brancos, enquanto a preferência por olhos azuis ultrapassa os 50%” (Veja São Paulo, 2018, s/p). Talvez essa busca representa o desejo de modificar o fenótipo dos brasileiros.

Essa notícia é apenas uma demonstração (e uma reinvenção) das ‘algemas’ que persistem, ora de maneira explícita, ora de maneira velada. Elas são responsáveis por perpetuar preconceitos que aprisionam a vida das pessoas historicamente segregadas, recaindo de maneira mais marcante na história das mulheres pretas, o que consequentemente gera marcas para a saúde mental deste grupo.

O tema apresentado tem a sua relevância reafirmada pelos indicadores publicados pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), onde as informações apontam que, em termos populacionais, a mulher preta possui um percentual maior, sendo 60,6 milhões, sendo 11,3 milhões de mulheres pretas e 49,3 milhões de mulheres pardas, o que corresponde a 28% da população total no Brasil (Brasil, 2023). Segundo Carone e Bento (2017), o Brasil é um país onde os negros são em maioria pobres quando comparados aos brancos. Lógica sustentada pelo racismo estrutural fortalecido pela supremacia da branquitude. A população branca é privilegiada em todos os aspectos geográficos existentes no que se refere à vida das pessoas pretas, principalmente das mulheres pretas, em esferas econômicas, sociais e políticas.

Mesmo que existam vários artigos científicos publicados antirracistas e obras que a humanidade intencionalmente desconhece, o racismo brasileiro ainda precisa ser narrado ao modo brasileiro, e nesse contexto, quem narra os fatos são as pessoas brancas, considerando que ainda não se extinguiram seus ecos (Carone; Bento, 2017). Nesse sentido, a Psicologia, enquanto ciência e profissão, reafirma o seu compromisso com essa pauta, levando em consideração a opinião de Nunes (2017), que destaca que a psicologia deveria ser a ciência que defende conteúdos e modos de resistência ao racismo, uma vez que é uma violência contra o ser humano, causando adoecimento e sofrimento psíquico em homens e mulheres pretas. 

Pouco se observa nas instituições acadêmicas de Psicologia a obrigatoriedade de disciplinas sobre a cultura africana no Brasil, racismo e estudos referentes ao tema. A escassez da temática nas grades curriculares dos cursos de Psicologia faz com que profissionais da área não saibam auxiliar seus pacientes no sofrimento consequente do racismo (Santos; Santos; Deus, 2023). 

Com a intenção de romper com esse ciclo de descaso com a realidade das mulheres pretas, este estudo busca ampliar as investigações sobre a temática, buscando na interseccionalidade base para discutir as questões que englobam o desamparo na saúde mental desse grupo. Evidencia-se a urgência na compreensão das múltiplas e profundas camadas de opressão que incidem sobre essas mulheres no Brasil. As marcas do preconceito e das desigualdades seguem as colocando em um lugar de exclusão e invisibilização, impactando diretamente seu bem-estar psíquico.

Como objetivo principal, esta pesquisa busca analisar os impactos do racismo estrutural, do patriarcado e das desigualdades sociais para a saúde mental das mulheres pretas no Brasil, a partir de uma perspectiva interseccional que considera os marcadores de raça, classe e gênero. E para isso, será investigado como objetivo específico, como os sistemas de opressão se entrelaçam na experiência histórica de desamparo vivida pelas mulheres pretas no Brasil, compreendendo os efeitos psíquicos provocados pela exclusão social, pelo racismo e pelo patriarcado na saúde mental de mulheres pretas em contextos de vulnerabilidade. 

Pretende-se também discutir sobre a invisibilização das mulheres pretas nas políticas públicas e nos estudos sobre a saúde mental, destacando a ausência de um olhar interseccional na formulação dessas políticas, destacando também o papel da Psicologia e de outras áreas do conhecimento na construção de práticas antirracistas e na promoção de estratégias de cuidado e acolhimento das vivências das mulheres pretas. Espera-se valorizar as narrativas pretas e os movimentos de resistência e protagonismo como ferramentas de enfrentamento e superação das violências estruturais que afetam a saúde mental dessas mulheres.

Evidencia-se aqui como os estudos, pesquisas e debates sobre a saúde mental na perspectiva antirracista e de gênero são essenciais no âmbito acadêmico da atualidade. As investigações dessa temática precisam ser reconhecidas como posicionamentos em defesa por uma atuação ética, crítica e social da Psicologia, rompendo assim com narrativas que historicamente não apenas silenciaram, mas marginalizam e tentam apagar as vivências de muitas minorias, como as mulheres pretas. 

2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS:  interseccionalidade e o desamparo histórico

2.1. O conceito de interseccionalidade: raça, classe e gênero

A interseccionalidade é definida, na perspectiva de Kyrillos (2020, p. 1) como um instrumento de análise onde

“[…] os processos discriminatórios não são compreendidos isoladamente, nem se propõem uma mera adição de discriminações, mas sim, abraça-se a complexidade dos cruzamentos dos processos discriminatórios e a partir daí se busca compreender as condições específicas que deles decorrem.

Isso significa que ela reconhece que os sistemas de opressão não são tipos de discriminações individuais ou a soma delas, mas sim sistemas que se entrelaçam moldando experiências específicas de desigualdades.

Esse instrumento se torna valoroso na busca pela compreensão das diferentes categorias de despotismo que são enfrentadas por mulheres pretas, pois, como aponta Kyrillos (2020), permite que se considere o racismo, o sexismo e diversos modos de discriminação como algo mais complexo e conectado profundamente. Frente a essas diversidades raciais, de classe e de gênero, a interseccionalidade pode ser considerada como instrumento essencial, pois seu propósito permite analisar a realidade na qual as mulheres pretas estão inseridas instituindo um panorama de análise amplo da exclusão e desamparo social que as perseguem.

Apesar de as mulheres pretas serem protagonistas de suas histórias, elas encontram barreiras que as impossibilitam de exercer esse papel de modo pleno, por isso é importante compreender as complicações das suas vivências. Alguns autores, como Silva (2020; 2023), discutem a respeito da interseccionalidade, catalogando as lutas feministas, confrontando com as lutas antirracistas, enfatizando o valor do companheirismo entre mulheres de diversas classes, enquanto destacam também como o despotismo racial e de gênero permanecem intimamente ligados, demandando uma abordagem associada para combater tais formas de opressão.

Assim, quando se busca-se a perspectiva interseccional, pode-se não apenas identificar as desigualdades de gênero, mas também as de classe social, econômica e, principalmente, de raça. Tal recurso, em uma investigação como o presente estudo, se torna importante pois reforça a necessidade de analisar os aspectos e exclusão para então, propor a valorização e o reconhecer da história, dos direitos e das contribuições das mulheres pretas, construindo assim uma estratégia de resistência e empoderamento social (Freitas, 2020).

2.2. A construção histórica do desamparo da mulher preta no Brasil: marcas do racismo estrutural e do patriarcado

É possível perceber que a posição social dos negros no Brasil ainda reflete uma continuidade do sistema escravagista, que se manifesta, de maneira mais incisiva, por meio de mecanismos de controle social. Essa herança histórica impacta diretamente na vida dos homens negros, mas, mais profundamente na vida de mulheres pretas, perpetuando uma lógica que naturaliza sua condição social subordinada (Rosa; Binkowski; Souza, 2019). 

Quando se analisam as vivências da sociedade, percebe-se que as mulheres pretas são frequentemente colocadas sob uma perspectiva de inferioridade, o que contribui para a exclusão e limitação de qualquer reconhecimento de suas capacidades, principalmente no que tange a sua capacidade intelectual. Rosa, Binkowski e Souza (2019) apontam que esse processo legitima a marginalização dos negros, e considerando que se vive em uma sociedade machista, isso influi ainda mais nas mulheres pretas, influenciando sua participação tanto no mercado formal de trabalho, como na educação e na sua contribuição ativa na construção da sociedade brasileira. 

Pode-se observar nesse tipo de estrutura, características político-ideológicas que têm atuado para preservar um sistema de exploração e dominação que foi instaurado há muitos anos. Silva (2020) aponta que, históricamente, essas questões se iniciaram no século XVII, momento onde a escravidão no Brasil foi oficialmente legitimada, onde a extrema violência e o trabalho forçado marcaram a história (e as costas) das pessoas pretas escravizadas. A grande concentração de terras nas mãos dos senhores de engenho dava a esses proprietários um enorme poder, que os faziam tratar as pessoas pretas como posses sem humanidade ou direitos (Silva, 2020).

A construção do ideal de poder deste período histórico foi fundamental para a criação de uma imagem estigmatizada das pessoas pretas, que serviu para justificar as práticas severas que violavam a dignidade dos escravos, Silva (2020) cita as jornadas de trabalho extenuantes e os castigos cruéis que marcaram a vida dessas pessoas. Para as mulheres, as vivências eram ainda mais precárias, por isso a análise sob a perspectiva de gênero é essencial para compreender as condições específicas enfrentadas pelas mulheres pretas escravizadas, bem como as formas particulares de resistência que elas desenvolveram durante e após o período da escravidão. 

A autora Maria Odila Dias (2013), em sua obra ‘Resistir e Sobreviver’, faz uma análise histórica sobre as mulheres pretas desde a época da escravidão. Dias (2013) aponta que as mulheres escravizadas tinham um valor econômico menor do que os homens escravizados, o que refletia a desvalorização dupla sofrida por elas: primeiro por serem pretas e segundo por serem mulheres. Na escravidão, os grandes proprietários de terras geralmente preferiam escravos homens jovens e vigorosos, especialmente na faixa etária entre 15 e 25 anos, devido à maior força física exigida para as tarefas pesadas na agricultura. 

Essa preferência econômica impactava diretamente o valor de mercado das mulheres escravizadas, que costumavam ser vendidas por cerca de 20% menos do que os homens. Isso não apenas refletia a exploração do corpo feminino para o trabalho, mas também incluía aspectos ligados à reprodução e às funções sociais impostas às mulheres dentro do sistema escravagista (Dias, 2013).

Segundo Dias (2013), apesar de frequentemente ignorado e subestimado, o trabalho desempenhado por essas mulheres pretas nas fazendas correspondia a uma parte expressiva da força laboral, pois a quantidade de mulheres chegava a representar quase metade dos trabalhadores. Embora fossem vistas como frágeis e incapazes, a autora aponta que as mulheres escravizadas realizavam tarefas árduas e pesadas na lavoura e no campo, muitas vezes com seus filhos ao colo enquanto executavam suas atividades.

Além das atividades rurais, Miranda (2013) relata que muitas dessas mulheres também eram exploradas na casa-grande, servindo como cozinheiras, faxineiras, mucamas e amas-de-leite, cuidando e alimentando os filhos das senhoras. Posteriormente, elas atuavam como amas-secas, acompanhando as crianças já desmamadas. Essa sobrecarga de trabalho, tanto no campo quanto no ambiente doméstico, reforçava a desumanização que elas sofriam e o controle rigoroso de seus senhores sobre suas vidas.

Dias (2013) ainda aponta que ao contrário do que se poderia imaginar, a gravidez das escravas não garantia nenhum tipo de pausa ou cuidado especial para essas mulheres. As gestantes continuavam suas jornadas exaustivas, submetidas a punições severas e realizando tarefas tão pesadas quanto, ou até mais, do que antes de estarem grávidas. 

Em seu estudo, Dias (2013) ainda relata uma situação emblemática na qual uma mulher preta, já em estágio avançado de gravidez, foi obrigada a trabalhar no cafezal. Segundo a autora, ao sentir dores intensas, a mulher retornou à senzala com a colheita, mas durante o trajeto entrou em trabalho de parto. Exausta, desmaiou, e ao recobrar a consciência, encontrou seu bebê mutilado por porcos.

Sobre os filhos destas mulheres, Miranda (2019) aponta que representavam um custo maior para os senhores do que a compra direta de uma criança escrava destinada ao trabalho. Por isso, a autora explica que a separação de famílias era uma prática comum, e muitas vezes as mães viam seus filhos serem vendidos com a possibilidade de nunca mais os reencontrarem. 

Mas, com o passar do tempo, essa perspectiva sofreu alterações, já que as mulheres escravizadas eram frequentemente incentivadas a manter relações com diferentes homens. O objetivo, segundo Miranda (2019), era gerar mais descendentes que, por sua vez, também seriam considerados propriedades do senhor.

Como aponta Miranda (2019) os próprios proprietários das mulheres pretas frequentemente as abusavam sexualmente, exercendo poder sobre elas sem qualquer restrição. E, caso resistissem a esses avanços, as mulheres eram submetidas a castigos severos e humilhações constantes. A autora informa que o estupro dessas mulheres foi uma das principais causas da origem dos filhos bastardos, mulatos e cafuzos, que posteriormente eram incorporados à força de trabalho nas fazendas.

Nesse cenário, Silva (2020) aponta que a promulgação da Lei do Ventre Livre, em 1871, foi um marco simbólico no processo de abolição da escravidão no Brasil, ao declarar que todos os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data seriam considerados livres. No entanto, apesar de seu caráter supostamente libertador, a lei não rompeu com a estrutura de dominação e hierarquia racial que sustentava o sistema escravagista.

Na prática, essa liberdade era bastante limitada, pois até os oito anos de idade, as crianças nascidas sob essa lei permanecerão sob a tutela dos senhores de suas mães. Após esse período, o senhor tinha duas opções: entregar a criança ao Estado e ser compensado financeiramente pelos custos de sua criação, ou manter sua posse e exigir seus serviços até que ela completasse 21 anos. Na maioria das vezes, optava-se pela segunda alternativa, prolongando a exploração do trabalho infantil por mais treze anos (Silva, 2020).

Assim, Silva (2020) expõe que, embora juridicamente livres, esses filhos continuavam presos a uma lógica de exploração e servidão. A lei, portanto, funcionava mais como uma estratégia de transição gradual que protegia os interesses dos senhores de escravos, do que como um real reconhecimento dos direitos das crianças pretas nascidas de mulheres escravizadas. Não houve qualquer tipo de reparação pelos abusos e violações sofridos pelas gerações anteriores, e a nova geração também seguiu submetida a condições de vida e trabalho precárias.

Mais adiante, no começo dos anos 1880, o Ceará destacou-se no enfrentamento ao tráfico interno de pessoas pretas, assumindo um papel relevante na luta contra a escravidão. Foi nesse contexto que Rui Barbosa propôs um projeto visando à liberdade dos escravizados com mais de sessenta anos. No entanto, por conta de mudanças políticas no interior do governo imperial, a proposta sofreu modificações. O texto final da lei estabeleceu que, embora os escravizados acima dessa idade fossem formalmente libertos, ainda deveriam continuar trabalhando por mais três anos, até completarem sessenta e cinco. Essa medida ficou conhecida como Lei dos Sexagenários, sancionada em 28 de setembro de 1885 (Biblioteca Nacional, 1988).

Apesar de representar um avanço no processo de abolição, a lei teve alcance bastante limitado, já que a expectativa de vida das pessoas escravizadas era extremamente baixa, devido às precárias condições de trabalho, alimentação e saúde. Como resultado, era raro que alguém atingisse os sessenta anos, e mesmo aqueles que o faziam, frequentemente estavam debilitados e já sem capacidade para continuar trabalhando (Biblioteca Nacional, 1988).

Pouco tempo depois, no ano de 1888, foi promulgada a Lei Áurea, que declarou oficialmente o fim da escravidão no Brasil (Brasil, 1988). No entanto, essa abolição legal não significou o fim da estrutura racista que sustentava a escravização, pois na prática, o sistema escravocrata seguia sendo sustentado por uma lógica de inferiorização baseada na cor da pele, que justificava a raça como motivo para a exploração, com discursos pseudocientíficos e ideológicos que consideravam pessoas pretas como naturalmente inferiores (Biblioteca Nacional, 1988).

Após a abolição da escravidão no Brasil, grande parte da população negra recém-liberta continuou vinculada ao trabalho agrícola, especialmente nas plantações de café. Nesse contexto, as mulheres pretas tiveram papel relevante na manutenção da economia agrária, sendo intensamente empregadas em atividades braçais no campo. Apesar de sua contribuição expressiva para a produção, o trabalho feminino era socialmente desvalorizado (Sousa; Tardivo;Haack, 2021).

Sousa, Tardivo e Haack (2021) afirmam que durante o período imperial, estima-se que, entre aproximadamente 800 mil trabalhadores que atuavam nesse setor, cerca de 300 mil eram mulheres. Ainda assim, os autores afirmam que a sua presença na força de trabalho seguia sendo marcada pelo preconceito e pelo menosprezo. Essa desvalorização ainda refletia uma visão de mundo patriarcal e racista, que insistia em marginalizar a atuação das mulheres pretas, mesmo diante a sua clara influência e importância para o funcionamento da economia da época.

Destaca-se aqui, citando a perspectiva de Araújo (2013), que no período pós-abolição, o gênero foi tratado como um atributo físico ‘natural’, algo supostamente fixo e imutável, e essa ideia serviu para legitimar a subordinação das mulheres. No caso das mulheres pretas, tal naturalização foi ainda mais perversa, pois segundo a autora, “[…] se a mulher branca era tida como sacralizadaem sua função de esposa e mãe, à negra escravizada só restava a função de objeto sexual, consolidada via estupro institucionalizado” (Araújo, 2013, p. 25). Assim, o mesmo patriarcado que endeusava a mulher branca na figura da esposa recatada e da mãe zelosa, relegava à mulher preta, o lugar da sexualidade utilitária e da força de trabalho, perpetuando a hierarquia racial e de gênero que fora construída na escravidão.

Pode-se dizer assim, que a experiência corporal que diferencia homens e mulheres não é algo dado exclusivamente pelas ciências biológicas, mas também são resultado de processos históricos e sociais que produzem significados e atribuem funções específicas aos corpos, principalmente das mulheres. Araújo (2013) acredita que, ao comparar a mulher branca e a mulher preta, evidencia-se como o patriarcado moldou papéis distintos: enquanto a branquitude feminina era ‘sacralizada’, a negritude feminina era objetificada. Esse contraste demonstra que as opressões de gênero não só existem fora das relações sociais como elas são também são produzidas e reproduzidas por instituições, discursos e práticas que continuam a marcar a vida das mulheres pretas com estigmas e desigualdades até hoje (Araújo, 2013).

Gonzalez (2020) aprofunda a análise das desigualdades enfrentadas pelas mulheres pretas no mundo do trabalho atualmente, destacando que sua inserção no mercado é marcada por uma tríplice discriminação, resultante da combinação entre racismo, sexismo e desigualdade de classe. Essa sobreposição de opressões coloca a mulher preta em uma posição especialmente vulnerável, refletindo um sistema que ainda hierarquiza o valor das pessoas com base em características como a cor da pele, o gênero e a posição socioeconômica.

Apesar de observar muitos avanços em termos de escolarização da presença feminina em setores que eram antes dominados exclusivamente por homens, Gonzalez (2020) observa que a presença de mulheres pretas em cargos mais qualificados ainda é limitada. Segundo a autora, “As possibilidades de ascensão a determinados setores da classe média têm sido praticamente nulas para a maioria da população negra” (Gonzales, 2020, p. 50), e isso ocorre porque essas novas posições exigem mais do que apenas formação acadêmica: envolvem também expectativas subjetivas relacionadas a ‘boa aparência’ e condutas compatíveis com padrões eurocêntricos e elitistas. Tais critérios, frequentemente implícitos, continuam o ciclo de exclusão de mulheres pretas, mesmo quando elas atendem aos requisitos técnicos ou educacionais das funções.

Gonzalez (2020) ainda aponta em seu estudo, como práticas discriminatórias que se perpetuam de maneira velada, citando a utilização da sigla ‘CR’ (colored) por empresas multinacionais para marcar candidatas pretas, revelando como o racismo opera na seleção de pessoal de forma estrutural e persistente. Dessa forma, evidencia-se que o acesso ao trabalho digno e bem remunerado para mulheres pretas continua sendo obstaculizado por filtros raciais e estéticos que vão muito além das competências profissionais.

Refletindo sobre esses fatos, pode-se perceber que que a abolição no Brasil foi conduzida por uma ideologia que privilegiava os homens brancos e suas ferramentas de poder, mantendo assim, bases que foram e são vistas como garantia para a continuidade da discriminação racial das mulheres pretas na atualidade. Mesmo após o fim formal da escravidão, essas mulheres permaneceram à margem das políticas sociais e educacionais idealizadas por brancos, perpetuando até hoje, desigualdades históricas que ainda se refletem nas estruturas sociais, econômicas e culturais do país.

Investigar e refletir sobre essas questões com esse recorte de gênero é, portanto, fundamental para compreender as múltiplas dimensões da opressão sofrida pelas mulheres pretas escravizadas. Isso permite identificar os efeitos dessa longa história, que ainda são sentidos na sociedade brasileira atual, refletindo-se nas condições econômicas e sociais dessas mulheres pretas na atualidade, que interferem de maneira direta e profunda sobre a saúde mental dessas mulheres. 

3. SAÚDE MENTAL DA MULHER PRETA EM CONTEXTOS DE EXCLUSÃO

De maneira geral, a saúde da população negra tem ganhado uma evidência (tardia) na última década. A implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) representa uma ação estratégica do Ministério da Saúde voltada à redução das disparidades que historicamente afetam as pessoas pretas no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS) (Brasil, 2017).

Essa política reconhece que “[…] as iniquidades em saúde são resultados de injustos processos socioeconômicos e culturais – em destaque, o vigente racismo – que corroboram com a morbimortalidade das populações negras brasileiras” (Brasil, 2017, p. 7). Essas desigualdades evidenciadas nos indicadores de saúde do Brasil, não são apenas frutos de questões biológicas ou de comportamentos, mas decorrem de processos estruturais marcados por assimetrias sociais, econômicas e também culturais. 

Ainda citando a PNSIPN, alguns indicadores apresentados evidenciam, de forma contundente, as desigualdades raciais no acesso e nos desfechos em saúde, com impacto ainda mais expressivo sobre o grupo das mulheres pretas. Se observar as comparações entre pessoas pretas e brancas à luz de dados socioeconômicos e de saúde, pode-se observar que existe uma sobreposição de vulnerabilidades que incide diretamente na qualidade e na integralidade do cuidado recebido pela população negra, sobretudo pelas mulheres (Brasil, 2017). 

Os dados de 2008, divulgados pelo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que a população negra compõe a maior parte dos usuários do SUS, com 67% de dependência, em comparação aos 47,2% da população branca. Isso se relaciona diretamente ao recorte de renda, já que pretos e pardos se concentram nas faixas salariais mais baixas, entre um quarto e meio salário mínimo. Além disso, pretos e pardos estão mais expostos a condições habitacionais precárias (38,7% contra 22,3% dos brancos), o que compromete a saúde de forma ampla e contínua. Entre os adultos pretos ou pardos, 37,8% avaliaram sua saúde como ruim ou muito ruim, índice superior ao dos brancos (29,7%) (IBGE, 2016, apud Brasil, 2017, p. 13).

Além disso, apenas 69,5% das pessoas pretas e 67,8% das pardas realizaram consultas médicas no ano de 2012, número que está abaixo da média nacional (71,2%) e do índice entre brancos (74,8%) (Brasil, 2017), mesmo sendo alvos de maior necessidade ao acesso aos serviços de saúde. Analisando estes dados de maneira comparativa, evidencia-se que a população preta segue enfrentando uma sobrecarga de exclusões que atravessa as questões raciais, nesse sentido, faz-se necessário avaliar essa mesma perspectiva com um recorte ainda maior: Saúde mental e mulheres pretas.

3.1. A invisibilidade da mulher preta nos estudos e nas políticas sobre saúde mental

O desenvolvimento desta investigação tem possibilitado identificar a invisibilidade das mulheres pretas, principalmente em contextos políticos. Observa-se que nas buscas por dados acadêmicos, existe uma maior facilidade em encontrar dados que acolham contextos gerais da população negra, mas pouco se vê em pesquisas e políticas públicas, dados direcionados a recortes de gênero, que abordem de maneira profunda a perspectiva de mulheres pretas.

Os dados apresentados pela PNSIPN em 2017, apontam que os indicadores sobre a saúde das mulheres revelam com maior nitidez as desigualdades. Segundo este documento, a realização de mamografias entre mulheres de 50 a 69 anos apresenta marcante diferença: apenas 54,2% das mulheres pretas realizaram o exame nos dois anos anteriores à pesquisa (2013), em contraste com 66,2% das mulheres brancas. O nível de escolaridade agrava essa disparidade, com apenas 50,9% das mulheres com baixa instrução realizando o exame, o que evidencia a interseccionalidade entre raça, gênero e classe (Brasil, 2017).

Além disso, a PNSIPN (Brasil, 2017) informa que entre as gestantes pretas, apenas 69,8% realizaram o número mínimo de consultas pré-natal, percentual inferior ao das brancas (84,9%). Quando se observa as questões relacionadas aos conhecimentos e orientações recebidos durante a gravidez, as discrepâncias aumentam, registrando 66,1% das gestantes pretas com informações recebidas sobre sinais de risco na gestação, enquanto para as mulheres brancas alcançaram a média de 80,8%.

O documento, abordando sobre a saúde mental, faz duas pontuações que precisam ser analisadas:

  • 1ª No capítulo III, que aborda sobre as ‘Estratégias e Responsabilidades Das Esferas de Gestão’ pontua-se: 

fortalecimento da atenção à saúde mental das crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos negros, com vistas à qualificação da atenção para o acompanhamento do crescimento, desenvolvimento e envelhecimento e a prevenção dos agravos decorrentes dos efeitos da discriminação racial e exclusão social (Brasil, 2017, p. 33).

  • 2ª No mesmo capítulo (Cap. III) pontua-se: “[…] fortalecimento da atenção à saúde mental de mulheres e homens negros, em especial aqueles com transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas;” (Brasil, 2017, p. 33).

Esses pontos foram apresentados pois percebe-se que os recortes deste documento não são direcionados aos reais motivos de sofrimento e invisibilidade dessa população, em especial, das mulheres pretas. Tampouco se aprofundam nos aspectos inerentes da saúde mental, fortalecendo a questão sobre a invisibilidades dessas mulheres.

Martins, Lima e Santos (2018, p. 2) defendem que a saúde mental deve ser compreendida como 

[…] produto de múltiplas e complexas relações entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, dependendo de um equilíbrio dinâmico nas interações do indivíduo com os outros, levando em consideração suas características orgânicas e os seus antecedentes pessoais e familiares. 

Ou seja, trata-se de um estado que resulta da interação contínua e interdependente entre dimensões biológicas, subjetivas e contextuais.

Evidencia-se assim que os aspectos genéticos e neuroquímicos não são os únicos responsáveis para determinar as questões de saúde mental. Na visão de Martins, Lima e Santos (2018), é imprescindível considerar também a história de vida, as experiências afetivas, o ambiente familiar, as redes de apoio, as condições de moradia, trabalho, acesso a direitos e os marcadores sociais que atravessam a existência dos indivíduos. Nesse caso, inserir as mulheres pretas em um contexto geral, seja na saúde ou nas políticas públicas, além de ser inviável, é uma afronta a construção históricas dessas mulheres, das suas vivências impactadas e marcadas por contextos tão específicos além do racismo.

3.2 Impactos psíquicos do racismo, machismo e da pobreza na vida da mulher negra

Para de fato compreender a saúde mental das mulheres pretas, exige-se uma análise aprofundada dos impactos psíquicos resultantes da intersecção do racismo, machismo e pobreza na trajetória desse grupo. Estes três fatores são relevantes não apenas por moldarem as experiências cotidianas dessas mulheres, mas também por influenciarem profundamente a saúde mental desta população, pois, quando entrelaçados, posicionam as mulheres pretas como as mais vulneráveis a diversas formas de agressão e discriminação.

O racismo enraizado desde a época da escravidão, o sexismo que foi derivado do patriarcado europeu e o classismo intrínseco ao capitalismo, formam, segundo Silva (2023), a base das desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres pretas na atualidade. Apesar do reconhecimento acadêmico e social dessas opressões, a sociedade muitas vezes se recusa a enfrentar essas questões de frente, e quando as mulheres pretas tentam vocalizar as suas experiências e demandas por justiça e igualdade, frequentemente são silenciadas ou rotuladas de maneira pejorativa, com termos como ‘raivosas’ ou ‘mimimi’, numa tentativa de preservar a hierarquia de privilégios existente (Silva, 2023).

Isso caracteriza com complexidade peculiar o racismo que faz parte desse desamparo, funcionando como um mecanismo sutil e paradoxal que perpetua e intensifica as disparidades sociais. Este fenômeno se manifesta através de uma violência simbólica e muitas vezes silenciosa, que se infiltra nas estruturas sociais e institucionais, onde as desigualdades sociais não são apenas um reflexo de diferenças econômicas ou educacionais, mas também de um profundo viés racial e patriarcal que contribui para a marginalização e exclusão de mulheres pretas, gerando impactos significativos na psique dessas mulheres (Carta de São Paulo, 2011, apud Schucman;  Martins, 2017, p. 180).

Santos et al. (2023, apud Mariano; Amorim, 2024, p. 62) apontam como as marcas da exclusão, do preconceito e da violência contra as mulheres pretas podem afeta-las. Os autores apontam que ansiedade, depressão, sentimento de solidão, são alguns dos impactos que essas mulheres sofrem na sociedade. Gouveia e Zanello (2019) destacam como esses sentimentos, unidos a uma questão de validação identitária, podem contribuir para que essas mulheres se submetam a diversas situações de abuso, de violência e de descaso.

A psicanálise ajuda a entender que o racismo, o machismo e o classismo não são apenas questões sociais externas, mas também internas, que afetam profundamente a construção do Ideal do ‘Eu’ em mulheres pretas (Freud 1921, apud Silva, 2023, p. 37-45). Freud (1921, apud Silva, 2023, p. 37-45) aponta que mulheres pretas, ao internalizarem um ideal de ‘Eu’ dominado por padrões brancos, podem experimentar uma melancolia profunda, fruto da impossibilidade de alcançar esses ideais inatingíveis, resultando em autodesvalorização.

Como forte influência para compreensão do racismo, machismo e pobreza, as análises psicanalíticas são fundamentais, pois como já compreendido, elas não apenas limitam as oportunidades objetivas das mulheres pretas, mas também impactam sua saúde mental, criando tensões internas e externas que desafiam a sua integridade psíquica e social. Esses impactos psíquicos são profundamente entrelaçados com as estruturas de poder descritas por Michel Foucault e Achille Mbembe (2018 apud Silva, 2023, p. 45-53). 

Foucault (1976, apud Silva, 2023, p. 45-53), em suas obras ‘História da Sexualidade I: A Vontade de Saber’ e ‘Em Defesa da Sociedade’, descreve como o biopoder, que engloba a soberania, a disciplina e a biopolítica, molda a vida e a subjetividade das pessoas. A anatomopolítica disciplina os corpos, tornando-os úteis e dóceis, enquanto a biopolítica regula populações, estabelecendo normas que determinam quem pode viver e quem deve morrer.

Para as vivências das mulheres pretas, esses mecanismos de poder têm efeitos ainda mais devastadores, visto que a sexualidade feminina preta é frequentemente histerizada, ou seja, vista como descontrolada e perigosa, o que justifica uma série de controles e intervenções. Essa visão ainda é reforçada por estereótipos racistas e sexistas que permeiam a sociedade, resultando em uma dupla marginalização: a mulher preta acaba sendo posicionada como o ‘outro’ do ‘outro’, não apenas por ser mulher em uma sociedade patriarcal, mas também por ser preta em uma sociedade racista.

O racismo, como Foucault (1976, apud Silva, 2023, p. 45-53) aponta, é uma estratégia do biopoder para criar uma cesura biológica entre grupos sociais, justificando a eliminação ou subjugação de certas populações em nome de uma suposta pureza ou superioridade racial. Mbembe (2018, apud Silva, 2023, p.18-19), em sua teoria da necropolítica, expande essa ideia, mostrando como o poder contemporâneo subjuga a vida ao poder da morte, com o objetivo de destruir parcelas específicas da sociedade. No Brasil, isso se manifesta em diversas formas de violência sistemática contra mulheres pretas, desde o sistema carcerário até a violência policial nas favelas.

Segundo Silva (2023), a realidade dessas mulheres é enfrentar uma tríplice discriminação: racial, de gênero e de classe. A discriminação racial as coloca como ‘sangue impuro’, alvo de eugenia e violência, enquanto a discriminação de gênero as reduz a estereótipos de fragilidade e submissão, e a discriminação de classe as marginaliza ainda mais, rotulando-as como apátridas e selvagens. Essa intersecção de opressões resulta em uma carga psíquica intensa e marcante, que pode levar a sentimentos de inferioridade, ansiedade, depressão e outras formas de sofrimento mental. Dito isso, é preciso refletir acerca do papel da Psicologia nesse contexto.

4. O PAPEL DA PSICOLOGIA FRENTE AO DESAMPARO DAS MULHERES PRETAS

Não pode-se negar que o desamparo vivenciado pelas mulheres pretas foi construído em meio à realidade marcada por atravessamentos históricos, sociais e subjetivos que não podem ser ignorados pela Psicologia. Essa população, como já visto, enfrenta múltiplas formas de opressão que se entrelaçam e que repercutem diretamente em sua saúde mental.

Mariano e Amorim (2024) apontam que a atuação do psicólogo fundamenta-se em referenciais teóricos consistentes, que asseguram a qualidade e a ética do exercício profissional. Para os autores, mais do que a aplicação de técnicas e conceitos, trata-se de um trabalho que busca apreender o sujeito em sua integralidade, considerando sua inserção no cotidiano e nas condições concretas de vida. 

Defende-se assim que a compreensão do ser humano, na perspectiva de  Mariano e Amorim (2024, p. 55), não pode restringir-se a uma simples análise biológica, “[…] destaca-se o esforço de compreender o indivíduo em sua vida cotidiana, na realidade concreta, só assim se pode compreender o ser humano […] permeando questões também psicológicas e sociais […]”. É nesse entrelaçamento que se formam modos de perceber a realidade, de estabelecer relações interpessoais e de construir a própria identidade. Assim, entende-se que a Psicologia não apenas oferece ferramentas de intervenção individual, mas também abre caminhos para interpretar e intervir nas experiências humanas de forma subjetiva.

Gouveia e Zanello (2019) acreditam que esse cuidado com a saúde mental é ainda mais necessário no caso das mulheres pretas, onde essas mulheres se encontram atravessadas por múltiplos fatores de risco que não podem ser compreendidos de forma fragmentada. Para as autoras, a sobreposição de opressões raciais e de gênero intensifica a exposição a estressores que, em sinergia, fragilizam o bem-estar psíquico. Por isso, torna-se imprescindível que o conhecimento produzido no campo da Psicologia seja racializado e gendrado, rompendo com perspectivas universalistas que desconsideram a especificidade das experiências vividas por esses sujeitos. 

Essa hegemonia de teorias euroamericanas, apresentadas como neutras e ‘humanas’, tendem a mascarar as diversas desigualdades históricas. Gouveia e Zanello (2019) apontam que ao ignorar que raça, gênero e classe estruturam a forma como o sofrimento se manifesta e é vivenciado, incorre-se práticas de violência institucional que silenciam as particularidades do sofrimento das mulheres pretas, reforçando sua marginalização dentro dos próprios espaços de cuidado. Muitas mulheres relatam sentir nesses espaços, a ausência dessa abordagem que se manifesta como uma lacuna na escuta clínica, recorrendo, assim, a redes de apoio informais, como familiares e amigas pretas, que acabam assumindo um papel terapêutico (Gouveia; Zanello, 2019).

Nesse sentido, como apontam Benedito e Fernandes (2020), a prática psicológica demanda um movimento contínuo de reflexão crítica, capaz de situar o indivíduo em sua realidade concreta, sem desconsiderar a força dos vínculos sociais e grupais que moldam a constituição subjetiva. A ausência dessa dimensão histórica limita a escuta clínica, pois invisibiliza as marcas do racismo que se inscrevem no cotidiano e na identidade das mulheres pretas. 

Assim, “Encontrar armas para lutar contra o racismo é uma responsabilidade profissional, social, política, histórica e afetiva” (Benedito; Fernandes, 2020, p. 13). Portanto, somente a partir da apropriação dessa herança histórica e da incorporação da problemática racial em sua formação e atuação, a Psicologia poderá ampliar seu papel social, contribuindo de forma efetiva para a transformação das condições que sustentam a discriminação e o sofrimento psíquico decorrente dela.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reflexão interseccional sobre a saúde mental das mulheres pretas não é apenas um simples exercício acadêmico, mas um ato de resistência e de compromisso ético com a vida. Ao longo deste trabalho, ficou evidente que as experiências dessas mulheres não podem ser compreendidas de forma fragmentada ou generalista, pois cada uma é atravessada simultaneamente por opressões e desigualdades que insistem em manter seus corpos e vozes em posição de subalternidade.

As narrativas aqui análisadas e frutos de uma reflexão crítica, revelam não apenas um passado de violência e apagamento, mas também a permanência de estruturas que, mesmo após a abolição da escravidão, seguem reinventando formas de exclusão para essas mulheres. Essa continuidade histórica impacta diretamente a saúde mental das mulheres pretas, que carregam não só as marcas de suas próprias vivências, mas também o peso de gerações inteiras atravessadas pelo desamparo social e pela ausência de políticas públicas que as enxerguem em sua complexidade.

No entanto, falar sobre a dor vivenciada pelos seus ancestrais e perpetuada pela sociedade, não significa negar potência. A luta diária dessas mulheres por reconhecimento, dignidade e cuidado reafirma que, mesmo em meio ao silenciamento, há resistência e luta pelo protagonismo. O enfrentamento do racismo, do patriarcado e da pobreza precisa ser acompanhado de um olhar sensível e comprometido, especialmente dentro da Psicologia, que infelizmente ainda caminha lentamente para reconhecer a centralidade dessas questões em sua prática.

A conclusão que se impõe é clara: enquanto não houver um deslocamento das narrativas hegemônicas e a inclusão real das mulheres pretas nas pesquisas, nas políticas e nas práticas de cuidado, seguirá havendo um vazio que reforça sua invisibilidade. Reconhecer suas especificidades não é um favor, mas uma necessidade ética e social.

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1Graduanda em Psicologia pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). luviasonaragreis@gmail.com
2Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Mestre em Saúde pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU); Graduada em Psicologia pela Universidade de Uberaba (UNIUBE). Psicóloga da Prefeitura de Uberlândia, lotada no Núcleo de Atenção à Pessoa Idosa; Coordenadora do Curso de Graduação em Psicologia da Faculdade Cidade de Coromandel (FCC); Docente do Curso de Psicologia do Centro Universitário do Triângulo (UNITRI). isaura.doutoranda.ppgpsi.ufmg@gmail.com

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