PUBLIC PROCUREMENT MANAGEMENT UNDER BIBLIOMETRIC ANALYSIS: AN INTERNATIONAL STUDY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511050034
Adma Suelen Sousa dos Santos Veras1
Delson Henrique Gomes2
Geneses Gomes da Silva3
Resumo
A gestão de compras públicas é estratégica para o aprimoramento da governança e da eficiência administrativa. Este estudo teve como objetivo mapear a produção científica sobre “gestão de compras e/ou compras públicas” entre 2015 e 2025, com base na base de dados Scopus. Utilizando o software VOSviewer, foram identificados os termos mais recorrentes, principais autores, instituições e países com maior volume de publicações. Observou-se uma predominância de estudos europeus, com destaque para Reino Unido, Finlândia e Alemanha, sobretudo em universidades públicas. A produção científica apresentou crescimento a partir de 2020, com pico em 2024, possivelmente associado à entrada em vigor da Lei nº 14.133/2021 no Brasil. A ausência de autores e instituições brasileiras entre os destaques evidencia uma lacuna nacional. Os achados servem como base para pesquisas mais específicas na área, destacando a importância de ampliar os estudos sobre os desafios da gestão de compras públicas frente às novas exigências legais.
Palavras-chave: Compras Públicas; Gestão de Compras; Administração Pública.
1 INTRODUÇÃO
A Administração Pública, no exercício de suas competências legais e institucionais, realiza aquisições e contratações com particulares por meio de instrumentos próprios, como os contratos administrativos. Esses mecanismos viabilizam a obtenção de bens, a execução de obras e a prestação de serviços essenciais, com o objetivo de atender às necessidades da coletividade e assegurar a efetividade das políticas públicas. Conforme Meirelles (2016, p. 239), os contratos administrativos são ajustes celebrados pela Administração, agindo nessa qualidade, com particulares ou outras entidades administrativas, com vistas à realização de fins públicos e sob regime jurídico de direito público.
Em se tratando de prestação de serviços de qualidade, vale frisar que segundo a nova legislação de licitações, 14.133/2021 (art. 11, § único), a alta administração de cada órgão é responsável pela governança das contratações, devendo implementar processos para avaliar e direcionar licitações e contratos, assegurando integridade e alinhamento com o planejamento, promover eficiência, efetividade e eficácia nas aquisições e contratações.
A Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos, 14.133/2021, caracteriza a modernização e a dinamicidade para a administração pública. Mas para que ela alcance sua efetividade é necessário que sua aplicação seja feita de acordo com seus padrões estabelecidos.
Mas, se a gestão de compras já enfrentava problemas para sua execução na lei anterior, com a nova legislação os desafios continuaram com mais intensidade, principalmente para as instituições que deixaram para aplicar a lei somente no ano de sua obrigatoriedade, a partir de janeiro de 2024. Conforme o Portal de Compras do Governo Federal, apesar da Lei ter entrado em vigor em 1º de abril de 2021, houve um período de transição para que a Administração Pública se adaptasse e se adequasse às novas regras. Mas a partir de 1º de janeiro de 2024, o site do governo federal já estava configurado para receber contratações somente pela nova legislação (BRASIL, 2025).
Os problemas das compras públicas são comuns à muitas instituições. A fragmentação dos processos de aquisição, a falta de padronização, ineficiência, e morosidade na condução dos processos, são fatores que comprometem a gestão de compras. Para Diniz, Drumond e Hirle (2012, p.15) a ausência de cuidado na fase de planejamento das compras públicas, decorrida muitas vezes da falta de tempo do setor demandante para compreender e elaborar de forma adequada as especificações, podem comprometer o processo licitatório e resultar na contratação de produtos e serviços inadequados às reais necessidades da instituição.
A gestão de compras públicas, portanto, representa um tema estratégico para o aprimoramento da governança e da eficiência na Administração Pública. Essa demanda se intensifica com a entrada da nova legislação, que impõe aos órgãos da administração pública a necessidade de aperfeiçoar a gestão de compras, a fim de atender de forma mais eficiente às exigências atuais. Considerando a relevância crescente do tema, o objetivo deste estudo é analisar o estado da arte das pesquisas sobre gestão de compras e/ou compras públicas nos últimos 10 anos, tanto no contexto nacional quanto internacional. Para isso, foi conduzida uma análise bibliométrica de publicações indexadas na base de dados Scopus, com o apoio do software VOSviewer, que possibilitou mapear termos recorrentes, autores, instituições e países com maior concentração de estudos na área.
O artigo “Gestão de compras públicas: Uma análise bibliométrica” está organizado em cinco seções principais. A primeira seção apresenta a introdução, na qual são contextualizados o tema e os objetivos do estudo. A segunda seção é dedicada à fundamentação teórica, que oferece as bases conceituais necessárias para a investigação. A terceira seção detalha a metodologia adotada, descrevendo os procedimentos e métodos utilizados na pesquisa. Na quarta seção, são apresentados e discutidos os resultados obtidos. Por fim, a quinta seção traz as considerações finais, destacando as principais conclusões e contribuições do estudo.
2 FUNDAMENTAÇÃOTEÓRICA
2.1 As contratações públicas no contexto brasileiro
As contratações públicas constituem o meio pelo qual o Poder Público (Estado) adquire os bens e serviços indispensáveis ao seu funcionamento e à prestação de serviços à sociedade, ao passo que objetiva a ordem pública. Quando executadas de forma eficiente, célere, econômica, transparente e sustentável, tornam-se um vetor para a eficácia da gestão pública e para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Conforme define o Tribunal de
Contas do Estado de Alagoas,
as contratações públicas são o meio pelo qual os gestores adquirem produtos ou serviços para o funcionamento da Administração, possibilitando a realização das atividades e a prestação de serviços públicos à sociedade (2022, p. 8).
No âmbito da administração pública, o setor de compras desempenha uma função estratégica, ao passo que interliga-se a todas as demais áreas do órgão e contribuindo de maneira decisiva para o alcance dos objetivos institucionais. A complexidade do processo de aquisição exige, como apontam Costa e Terra (2019, p.11-12), a análise de seus múltiplos componentes em consonância com os princípios que orientam a gestão pública, como a legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade e a eficiência.
A condução adequada das aquisições públicas, portanto, transcende a mera compra, exigindo planejamento, conhecimento técnico e estrita observância às normas legais. Nesse sentido, o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal estabelece a licitação como regra, assegurando a isonomia entre os concorrentes. Campos (2021, p.12) destaca que a Lei nº 8.666/1993, embora tenha representado um avanço na padronização de procedimentos e no combate a fraudes, demonstrou, ao longo de suas três décadas de vigência, um excessivo formalismo que, por vezes, engessava a atuação administrativa em vez de otimizá-la.
Após um período de transição, a Lei nº 8.666/1993 foi revogada em 30 de dezembro de 2023, consolidando a vigência obrigatória da Nova Lei de Licitações e Contratos (NLLC), a Lei nº 14.133/2021. Promulgado em 1º de abril de 2021, este novo marco legal unificou o regime de contratações para toda a Administração Pública (federal, estadual, distrital e municipal) com o propósito de modernizar, flexibilizar e, acima de tudo, aprimorar a governança das aquisições (Brasil, 2025).
Como afirma Coutinho no prefácio da obra organizada por Rodrigues et al (2023, p.11), a NLLC tem potencial para trazer avanços significativos ao introduzir diretrizes estruturais que abordam desde a organização administrativa e a qualificação de pessoal até o uso de tecnologias e a implementação de gestão de riscos e controles internos. Espera-se, então, que esse regime contribua para superar problemáticas da gestão de compras públicas no Brasil, como a limitada capacidade técnica, a ausência de planejamento adequado, a baixa competitividade, e a recorrência de falhas e irregularidades oriundas da Lei 8.666/93.
Diante dos desafios e das oportunidades apresentados pela modernização das contratações públicas, torna-se fundamental compreender os diferentes modelos de gestão de compras existentes no setor público. Esses modelos oferecem estruturas e práticas que podem aprimorar o planejamento, a execução e o controle das aquisições.Nesse sentido, a referida Portaria SEGES/ME nº 8.678/2021, em seu art. 5º, inciso IX, incentiva a padronização e centralização de procedimentos, sempre que oportuno. Essa diretriz serve de ponte para a discussão sobre os modelos de gestão de compras, tema a ser explorado a seguir.
2.2 Modelo de Gestão de compras no setor público: Centralizado, Descentralizado e Híbrido.
A diretriz de avaliar modelos centralizados, presente tanto na Portaria de Governança quanto na própria Lei nº 14.133/2021, reflete uma preocupação central da nova legislação: a otimização da estrutura organizacional para a realização de compras. O art. 19, inciso I, da NLLC, incentiva a criação de centrais de compras ou a designação de órgãos ou entidades para conduzir processos licitatórios de forma centralizada. Essa diretriz legal abre espaço para discutir os diferentes modelos de gestão de compras, especialmente as vantagens e desafios envolvidos na escolha entre centralizar ou descentralizar esse processo dentro das instituições.
2.2.1 Modelo Centralizado de gestão de compras no Setor Público
O modelo centralizado de compras pode ser operacionalizado por meio da criação de uma Central de Compras, estrutura que se destaca por sua atuação proativa na identificação das necessidades das unidades demandantes, pela manutenção de um diálogo constante com essas unidades e pela condução técnica dos processos de contratações. Além disso, essa central exerce um papel estratégico, ao incorporar práticas de inteligência em compras, especialmente no que se refere ao planejamento, à articulação entre os diversos atores envolvidos e à gestão integrada das demandas institucionais (Fenili, 2017, p.67). Ao atuar de forma mais próxima das unidades e buscar entender antecipadamente suas necessidades, a centralização de compras passa a romper com o modelo tradicional, marcado por processos isolados e pouco articulados. Em vez de apenas responder a demandas pontuais, a central de Compras assume um papel estratégico, promovendo integração entre os setores e contribuindo para processos de contratações mais coerentes e eficientes.
2.2.2 Modelo Descentralizado de gestão de compras no Setor Público
Na Administração Pública, a descentralização refere-se à distribuição da autoridade decisória e das responsabilidades administrativas entre diversos atores, ampliando o alcance da gestão e reduzindo a concentração de poder em instâncias centrais (Soares, 2020, p.35). A descentralização revela uma característica importante na forma como a gestão pública é estruturada, sobretudo em instituições de grande complexidade, como as universidades federais. Ao permitir que diferentes unidades participem diretamente dos processos decisórios e administrativos, como o de aquisições, a descentralização favorece a autonomia local e a agilidade na resposta às demandas específicas de cada setor ou campi.
2.2.3 Modelo Híbrido de gestão de compras no Setor Público
A adoção de um modelo híbrido de gestão de compras permite conciliar os pontos fortes das abordagens centralizada e descentralizada, aproveitando, por exemplo, o ganho de escala característico da centralização, o que pode resultar em maior economicidade para a instituição (Silva, 2016, p.89). E ainda favorece a padronização dos procedimentos, designação de equipes mais capacitadas para a condução dos processos e a redução de falhas na instrução, o que tende a acelerar os trâmites internos e minimizar a devolução de processos por parte dos órgãos de controle jurídico, como a procuradoria interna da Instituição.
Silva (2016, p.89) afirma ainda que o modelo híbrido também incorpora aspectos positivos da descentralização, como o aumento da eficiência e da eficácia no atendimento de demandas urgentes, especialmente em casos de falta de materiais.Nele, as compras de itens de uso comum, alto valor ou relevância estratégica são centralizadas para aproveitar as economias de escala, enquanto as aquisições de baixa complexidade, baixo valor ou natureza muito específica são descentralizadas, garantindo agilidade.
Embora a Nova Lei de Licitações e Contratos, em seu artigo 19, I, forneça um claro direcionamento para que os gestores, ao menos considerem e avaliem os benefícios potenciais da centralização como um caminho para uma gestão de compras mais eficiente, e alinhada aos princípios de uma boa governança, para Thai (2001, p.41-42) não há um modelo único e definitivo para a gestão de compras públicas, pois sua eficácia está intrinsecamente ligada às especificidades de cada organização, como sua cultura, estrutura e objetivos estratégicos. Portanto, a escolha do modelo ideal deve levar em conta essas particularidades, buscando equilibrar eficiência, controle e autonomia para atender às demandas próprias do setor público.
3 MÉTODOS DE PESQUISA
A análise bibliométrica foi adotada com o objetivo de mapear a produção científica nacional e internacional relacionada à temática “gestão de compras e/ou compras públicas”, por meio de uma análise bibliométrica. A bibliometria é “uma análise quantitativa da produção acadêmica de pessoas, instituições, instalações, regiões e países, utilizando métodos estatísticos para fazer afirmações sobre a quantidade, extensão, frequência, significância e conexões das publicações” (BALL, 2019, p. 81).
A pesquisa utilizou uma estratégia metodológica que articula métodos quantitativos e qualitativos, prática recomendada na investigação contemporânea por ampliar a compreensão dos fenômenos. Essa combinação oferece a oportunidade de explorar a estrutura do fenômeno por meio de dados quantitativos e, simultaneamente, analisar seus aspectos processuais com métodos qualitativos (Theóphilo, 2023, p.11).
Para alcançar o objetivo proposto, optou-se por utilizar uma base de dados que oferecesse ampla cobertura de periódicos científicos nacionais e internacionais. Nesse sentido, a base Scopus foi selecionada por sua relevância e abrangência multidisciplinar. A busca foi delimitada a artigos que contivessem, em seus títulos, resumos e/ou palavras-chave, os termos “gestão de compras” e/ou “compras públicas”.
Foi estabelecido um recorte temporal abrangendo os últimos dez anos, compreendendo o período de 2015 a 2025, com o objetivo de analisar a evolução das publicações sobre gestão de compras e/ou compras públicas nesse intervalo. A busca foi realizada na base de dados Scopus, considerando apenas publicações que apresentassem os termos mencionados em seus títulos, resumos ou palavras-chave. Como critério de refinamento, os resultados foram limitados às áreas temáticas de Negócios, Gestão e Contabilidade, com o intuito de garantir maior aderência ao escopo da pesquisa. Para a análise e o tratamento dos dados coletados, foi utilizado o software VOSviewer, que possibilitou a visualização de redes de coocorrência de termos, além da identificação de autores, instituições e países com maior volume de produção científica na área.
A extração dos dados foi realizada em 18 de agosto de 2025, abrangendo publicações indexadas no período de 2015 a 2025. Após a identificação dos resultados iniciais, foi aplicado um filtro que restringiu a amostra a artigos científicos publicados em periódicos de destaque tanto no cenário nacional quanto internacional, excluindo outros tipos de documentos, como teses, dissertações, resumos de congressos e publicações não avaliadas por pares. Essa delimitação visou garantir maior consistência metodológica e fundamentação teórica nos trabalhos analisados, assegurando a qualidade e a relevância das informações utilizadas na investigação.
Com os filtros elaborados, estabelecidos e delimitados para compor a base de artigos analisada, a pesquisa avançou conforme os procedimentos detalhados na Tabela 1:
Tabela 1 – Fases e resultados encontrados na seleção do portfólio bibliográfico


Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
Na etapa subsequente à organização dos dados, procedeu-se à análise bibliométrica por meio do software VOSviewer. Essa fase permitiu examinar, de forma estruturada, os principais termos recorrentes nos artigos identificados, organizando-os conforme sua frequência e relevância temática.
Análise dos resultados
Como resultado, observou-se a formação de um único cluster, apresentado na Tabela 2, que reúne os termos mais frequentemente utilizados na literatura analisada:
Tabela 2 – Produção dos artigos nacionais e internacionais por cluster

Fonte: Dados obtidos do Scopus (/2025).
Os elementos foram organizados conforme a importância dos temas, evidenciados pelo porte com que aparecem. Conforme ilustrado na Figura 1, os assuntos mais recorrentes e relevantes identificados na base Scopus agrupados em um único cluster, foram “study” (estudo), seguido por “practice” (prática) e “relationship” (relação), o que sugere uma forte relação temática entre eles.
Observa-se ainda que a palavra “study” se destaca com maior dimensão em relação às demais, indicando ser a principal nomenclatura das grandes áreas de administração identificadas neste estudo.
Figura 1 – Rede nacionais e internacionais de assuntos de artigos estudados

Fonte: Dados obtidos do Scopus (2025).
Em análise às regiões geográficas, pode-se observar por meio da Tabela 3, a seguir, que os países com maior número de autores que publicaram sobre o tema gestão de compras e/ou compras públicas são diversos, indicando uma produção científica distribuída em diferentes contextos internacionais.
Tabela 3 – País de origem dos autores

Fonte: Dados obtidos do Scopus (2025).
É percebido que a quantidade de artigos apresentados nessas análises difere do total inicialmente identificado na busca. Isso ocorre porque há publicações associadas a mais de um país, sem que a base de dados utilizada faça distinções entre essas colaborações. As porcentagens indicadas na Tabela 3 foram calculadas com base no número total de artigos registrados na base Scopus.
Uma possível intensificação do interesse por temas relacionados à gestão de compras e/ou compras públicas, no âmbito da administração e suas subáreas, é evidenciado especialmente em países como o Reino Unido (42 artigos) e os Estados Unidos (40 artigos). No entanto, ao se considerar o número de publicações por autor, nota-se uma concentração relevante de estudos sobre a temática em outras localidades, com destaque para a Finlândia, seguida da Alemanha, conforme apresentado na Tabela 4, a seguir.
Tabela 4 – Autores que mais publicaram

Fonte: Dados obtidos do Scopus (2025).
Em análise à Tabela 4, pode-se ratificar que a Finlândia e a Alemanha destacam-se como os países com o maior número de publicações, concentrando os principais autores que mais abordam a temática aqui estudada. Observa-se ainda que o Brasil não está presente em nenhuma das pesquisas consideradas nesta análise, o que evidencia carência e a necessidade de estudos e pesquisas relacionados à gestão de compras e/ou compras públicas.
A figura 2 apresenta a rede de autores que mais publicaram sobre gestão de compras e/ou compras públicas nos últimos dez anos, conforme mapeamento realizado a partir dos dados do VOSviewer. Essa visualização evidencia as conexões e colaborações entre os principais pesquisadores da área.
Figura 2 – Rede nacionais e internacionais de pesquisadores de artigos

Fonte: Dados obtidos do Scopus (2025).
A análise da concentração das publicações revela a relevância da contribuição de determinados países para o tema estudado. Nesse sentido, a Tabela 5 apresenta as instituições com maior número de publicações, o que evidencia o papel significativo dessas universidades públicas no avanço das pesquisas sobre a temática em contexto.
Tabela 5 – Publicações por Universidade

Fonte: Dados obtidos do Scopus (2025).
Por meio da Tabela 5 pôde-se verificar que as principais instituições com maior número de publicações nos últimos dez anos relacionadas à gestão de compras e/ou compras públicas foram as: Universidade de Twente, dos Países Baixos, que lidera com 18 artigos, seguida de perto pelas instituições finlandesas Universidade LUT e LUT kauppakorkeakoulu, com 17 e 15 publicações, respectivamente. Esses dados indicam uma concentração significativa de produção acadêmica nessa área de pesquisa. Essa análise também demonstrou que das sete universidades identificadas, seis são públicas. Apenas uma instituição , a Budapesti Corvinus Egyetem é uma universidade privada de pesquisa.Demonstrando que as universidades públicas, principalmente as europeias, tem avançado nas investigações acadêmicas sobre gestão de compras e/ou compras públicas, contribuindo diretamente para a qualificação das políticas públicas, para a melhoria da governança e a eficiência na gestão de compras.
Como forma de evidenciar a frequência anual de publicações relacionadas às temáticas gestão de compras e/ou compras públicas nos últimos dez anos, é possível verificar por meio do Gráfico 1 a sua evolução.
Gráfico 1 – Publicações anuais

Fonte: Dados obtidos do Scopus (2025).
É percebido um crescimento gradual de interesse por pesquisas do tema em análise. Observa-se que houve um primeiro pico de produção no ano de 2020, o que pode indicar uma possível relação com a necessidade de adaptação dos sistemas de gestão de compras e/ou compras públicas diante dos desafios impostos pela pandemia, o que poderia ter impulsionado a busca por maior eficiência em vários países. Já o ano seguinte (2021), apresenta uma queda dessas produções, possivelmente associada aos impactos da pandemia COVID-19. No entanto, a partir de 2022 há uma retomada do interesse, culminando em um pico expressivo em 2024, com 45 artigos publicados.
Esse aumento expressivo do ano de 2024 em relação aos anos anteriores pode estar relacionado à entrada em vigor da Lei nº 14.133/2021 (Brasil, 2025), que substituiu de forma definitiva a antiga Lei nº 8.666/1993 (Brasil, 2025), fato esse que pode ter contribuído para o aumento de pesquisas relacionadas à gestão de compras e/ou compras públicas.
Pode-se perceber que em 2025 há uma queda no número de publicações , com 25 artigos, embora ainda acima da média do período inicial. Ocorre que a pesquisa foi realizada no Scopus em 18 de agosto desse ano, podendo ainda ocorrer novas publicações até seu final desse período.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Frente ao panorama evidenciado pela pesquisa bibliométrica apresentada, é percebido que ainda há poucos estudos que abordem essa temática, o que dificulta o entendimento e a compreensão das instituições públicas quanto aos desafios e as melhores práticas voltadas para a gestão de compras públicas. Soma-se ainda ao fato de que recentes mudanças na nova legislação das contratações públicas impõem novos padrões de governança, planejamento e profissionalização aos órgãos e entidades da Administração Pública.
A Nova Lei de Licitações e Contratos traz avanços importantes ao incorporar princípios de governança, planejamento, profissionalização e inovação nos processos de compras. Com base nos princípios estabelecidos nos artigos 5º e 11 da Lei nº 14.133/2021, e com o objetivo de garantir maior eficiência e transparência, a nova legislação exige que os órgãos e entidades públicas adotem modelos de gestão mais estruturados e estratégicos, baseados em práticas modernas de controle e avaliação de desempenho. Em complemento, a Portaria SEGES/ME nº 8.678/2021 estabeleceu diretrizes obrigatórias de governança nas contratações no âmbito da Administração Pública Federal, como o plano anual de contratações, a gestão de riscos e a estruturação da área responsável pelas compras públicas (Brasil, 2021).
Ambas as normativas estabelecem uma mudança estrutural na forma como a gestão de compras públicas deve ser concebida e conduzida e promovem a transição de modelos operacionais, mais burocráticos, para modelos de gestão mais estratégicos, baseados em planejamento, controle preventivo, gestão de riscos e maior articulação entre áreas. Para Fortini e Amorim (2021) nesse novo cenário, a gestão de compras públicas precisa ser reestruturada a partir de princípios como a governança, que não mais limita as compras públicas à atividades operacionais e sim estratégicas decisivas para o alcance de resultados significativos para a entidade pública. O que implica repensar processos, desenvolver competências internas e fortalecer a capacidade institucional, impondo aos órgãos públicos, um nível mais elevado de responsabilidade na condução dessas compras, que demanda conhecimento técnico, planejamento eficaz e o uso das ferramentas gerenciais especializadas.
Dentro desse contexto, este estudo se destaca pela sua importância, oferecendo uma contribuição significativa para o campo da Administração Pública. A análise bibliométrica realizada foi essencial para compreender o cenário atual da produção científica sobre gestão de compras públicas, tanto em nível nacional quanto internacional. Os resultados revelaram um volume considerável de publicações nos últimos dez anos, com destaque para países como Reino Unido, Alemanha, Finlândia e Estados Unidos, além da predominância de universidades públicas europeias entre as instituições que mais produzem na área. Por outro lado, a ausência de autores e instituições brasileiras entre os principais nomes da pesquisa evidencia uma lacuna significativa no contexto nacional. Esse mapeamento reforça a necessidade de ampliar os estudos voltados à gestão de compras no Brasil, em especial no âmbito das universidades públicas, que enfrentam desafios próprios diante das novas exigências legais e institucionais trazidas pela Lei nº 14.133/2021. Dessa forma, este trabalho busca não apenas reforçar a necessidade de aprofundamento e desenvolvimento contínuo nesse tema essencial para a eficiência do setor público, mas também estimular reflexões que contribuam para o aprimoramento das práticas de governança, planejamento e eficiência na gestão de compras públicas.
REFERÊNCIAS
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1 Universidade Federal do Tocantins. Aluna do Mestrado Profissional em Administração Pública pela Universidade Federal do Tocantins. https://orcid.org/0009-0006-2733-4926. E-mail: adma.veras@uft.edu.com.br
2 Universidade Federal do Tocantins. Doutor em Administração pela Universidade Metodista de Piracicaba. https://orcid.org/0000-0001-6431-607X. E-mail: delson@uft.edu..br
3 Licenciado em Matemática, Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Tocantins (IFTO), Palmas, Tocantins, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-5638-3886. E-mail: genesesgomes.silva@professor.to.gov.br
