REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202507191025
Thais Vianna Maia1
Giovanni Rafael Romano Valladão2
RESUMO
A Educação é um processo amplo e tem na Educação Infantil o seu local de ampliação de experiências e descobertas. A psicomotricidade na EI é uma forma de colocar o corpo e a motricidade no centro do comportamento e da evolução da criança. No presente artigo buscaremos apresentar a importância do conhecimento psicomotor por parte do pedagogo e os principais aspectos que influenciam o desenvolvimento da criança. Abordando os pontos mais relevantes como movimento, intelecto e o afeto exploraremos esse sujeito desejante, dividido em seu corpo real, imaginário e simbólico. Trabalhando com o construtivismo de Piaget e seus estágios de desenvolvimento da criança investigaremos a correlação com o psicomotor e suas as estruturas, ou seja, imagem corporal, tonicidade, esquema corporal, equilíbrio, lateralidade, estruturação espaço-temporal, dissociação de movimentos, coordenação, ritmo e relaxamento. A partir da metodologia científica faremos um levantamento teórico, investigativo e bibliográfico de modo a analisar os conceitos acima mencionados. Tomaremos por base livros, publicações em sites e artigos acadêmicos onde se aborde a educação infantil como um local de ampliação de experiências e descobertas, e textos pautados na visão de Piaget. Como objetivo final, buscaremos demonstrar que o professor que atua na Educação Infantil precisa conhecer de maneira mais aprofundada a psicomotricidade para que o trabalho que ele desenvolve nesse segmento seja ainda mais significativo.
Palavras-chave: Psicomotricidade, Construtivismo, Educação Infantil, Desenvolvimento, Infância.
1. INTRODUÇÃO
O contexto da sala de aula e os espaços sociais na Educação Infantil com seus combinados, brincadeiras, formas de segurar o lápis, a força empreendida ao giz de cera na hora de colorir, tudo isso é desenvolvido de modo paralelo e complementar pela psicomotricidade. O corpo está em movimento numa conjunção de sensações sinestésicas, sensoriais, emocionais e neurológicas, organizadas de modo que a criança integra esses estímulos e os reproduz fazendo-se perceber e percebendo o outro nessa relação.
De forma observacional, fui me apoderando desse conhecimento que, posteriormente, na faculdade de Pedagogia, Piaget e seus períodos de desenvolvimento vieram de encontro a essas inquietudes e me fizeram ficar cada vez mais apaixonada no ensinar com um maior propósito, com um olhar voltado para o todo daquele sujeito em desenvolvimento, buscando sempre acompanhar o percurso maturativo da criança.
O constante contado com crianças portadoras de necessidades especiais em variados níveis e outras com dificuldades cognitivas me levaram a buscar um conhecimento maior. Como Regente de turma inserido na Educação Infantil, me vi limitada e sem conseguir imprimir uma intencionalidade educativa às minhas práticas pedagógicas, ajudando de forma concreta e global os meus estudantes.
Todos os períodos a que Piaget se refere fizeram muito mais sentido a partir desse curso, me levando a ter uma percepção na mesma percepção da criança, aprimorando meu olhar observador de educador de uma maneira mais crítica sobre aspectos relevantes e qualitativos do desenvolvimento global da criança. Vale apontar que Mello (2007) ressalta que “o movimento é a chave da vida e existe em todas as formas com se apresenta. Quando o homem desempenha movimentos intencionais ele está coordenando os domínios cognitivo, afetivo e motor”.
Segundo Piaget, a criança precisa receber estímulos desde seus primeiros anos de vida, experimentalizando diferentes situações o que faz com que ela assimile essas novas situações e as acomode levando-a assim, a uma mudança de comportamento. A criança precisa descobrir o mundo se autodescobrindo, se relacionando com o outro, aprendendo sobre o meio social em que vive.
A Educação Infantil, a primeira etapa da Educação Básica, atende crianças com idade entre 0 e 5 anos (no Brasil definidas pela Lei Federal nº 11.114 de 16 maio de 2005) e compreende o início do período de vida escola. De acordo com as Diretrizes Nacionais Curriculares da Educação Infantil, a criança é expressa como:
“… centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de direitos que se desenvolve nas interações, relações e práticas cotidianas a ela disponibilizadas e por ela estabelecidas com adultos e crianças de diferentes idades nos grupos e contextos culturais nos quais se insere. Nessas condições ela faz amizades, brinca com água ou terra, faz de conta, deseja, aprende, observa, conversa, experimenta, questiona, constrói sentidos sobre o mundo e suas identidades pessoal e coletiva, produzindo cultura” (Parecer CNE/CEB nº 20/09)
A BNCC nos mostra que a criança é um ser que observa, questiona, levanta hipóteses, conclui, faz julgamentos e assimila valores e que constrói conhecimentos se apropriando deles por meio da ação e nas interações com o mundo físico e social. É no convívio com outras crianças e adultos, utilizando diferentes linguagens, brincando de diversas formas, através de atividade pedagógicas e jogos lúdicos, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros, que a criança irá ampliar seu conhecimento de mundo, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências corporais sensoriais, cognitivas e relacionais, passando a conhecer a si mesmo e ao outro. Nessa fase da vida, considerada a mais complexa do desenvolvimento humano em todos os seus aspectos – intelectual, emocional, social e motor – as experiências vividas se tornam riquíssimas, em sendo de qualidade e em boas condições promovem e alicerçam uma maturação do ser de forma global.
Não pretendemos aqui abraçar a psicomotricidade como um todo, mas faremos apenas um recorte, dos períodos sensório motor e pré-operatório de Piaget, visto que estes exemplificam a fase da educação infantil. E, a partir desse recorde, mostra, baseada em pesquisa bibliográfica a importância do conhecido mais apurado da psicomotricidade por parte dos professores da Educação Infantil.
2. METODOLOGIA
Para a realização do estudo, empregou-se o método da revisão narrativa, que, conforme Rother (2007), caracteriza-se por uma ampla análise da literatura sobre um tema específico, sem a necessidade de exaustão para a seleção dos estudos, permitindo uma visão geral do conhecimento disponível.
A busca foi realizada na base de dados do Google Acadêmico, o acesso se deu por meio dos seguintes descritores ‘Psicomotricidade’, ‘Estruturas Psicomotoras’ e ‘Criança’, outro critério de inclusão foram artigos publicados no Brasil, para uma melhor aproximação com a realidade nacional, além das obras de autores clássicos como Jean Piaget. Foram excluídos artigos que não atendiam aos objetivos do estudo, ou, artigos de revisão.
Com a realização da busca foram encontrados inicialmente que atendiam os critérios de inclusão e exclusão após uma análise mais próxima por meio da análise do resumo.
Os dados foram analisados de forma descritiva, sendo extraído dos artigos científicos e demais obras, ano de publicação, autores, o método que foi utilizado nos estudos, e os principais resultados que possuíam relevância frente ao tema escolhido. Além de imagens que ilustrassem a discussão. Logo, os dados foram e descritos nos resultados.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A educação psicomotora concerne uma formação de base indispensável para toda criança que seja normal ou com problemas. Responde a uma dupla finalidade: assegurar o desenvolvimento funcional tendo em conta as possibilidades da criança e ajudar sua afetividade a expandir-se e a equilibrar-se através do intercâmbio com o ambiente humano. (LE BOULCH, 1982, p.13)
De acordo com Fonseca (2010, p. 42) a psicomotricidade é entendida como o campo transdisciplinar que estuda e investiga as relações e as influências desenvolvidas entre o psiquismo e o corpo. Cada corpo, de forma singular e evolutiva, a partir de sua personalidade total, irá caracterizar o sujeito, o ser humano, nas suas variadas e complexas manifestações biopsicossociais, afetivo-emocionais e psico-socio-cognitivas. Portanto, a psicomotricidade refere-se ao corpo como um todo único, a sua relação com o meio e com o outro, fazendo com que, de forma complexa e singular, o desenvolvimento das funções mentais estejam interligadas com o suporte do desenvolvimento do corpo.
A psicomotricidade surge no discurso médico quando na neurologia se torna necessário investigar distúrbios motores que não estavam conectados à uma lesão cerebral. A partir desse momento o corpo transforma-se em uma ferramenta de expressão.
A Associação Brasileira de Psicomotricidade – ABP, em seu site, define psicomotricidade como sendo
Ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas.
Caccavo et. al (2015, p.60), em artigo publicado na Revista Intersaberes, explica que as práticas corporais significam a representatividade máxima do ser humano através de suas expressões de desejos, emoções, necessidades, conflitos e, em particular, sobre o sentido de pertencimento e identificação de um determinado grupo social e seus signos de forma indissociável. No que nos suporta Le Boulch (2008, p.29) ao afirmar que a interação da criança não deve se limitar a sua relação com outras pessoas, mas também com as características relativas ao espaço e o tempo, aos objetos e ao meio ambiente sociocultural.
Fonseca (2010, p.45) nos mostra que a psicomotricidade considera o corpo como um lugar fenomenológico onde o sujeito constrói e co-constrói sua identidade, sentimento e conhecimento de si, rompendo assim com o cognitivismo puro. Ao juntar o desenvolvimento psicológico e o desenvolvimento motor em uma única ciência, a psicomotricidade reconhece o corpo como um organismo complexo, e formula um entendimento mais sustentado sobre o disfuncionamento do seu funcionamento.
É preciso que a criança desenvolva um olhar harmonioso sobre o seu corpo, seus limites e distâncias, para que possa explorar cada vez mais o ambiente físico e social onde se encontra
Assim como o corpo precisa de uma alimentação adequada para se desenvolver, a inteligência está intimamente associada ao crescimento do cérebro, dependente da maturação física, da estimulação e interação com o meio ambiente. A afetividade e os outros aspectos desse desenvolvimento também vão se formando, aos poucos, em função de suas necessidades e satisfação das mesmas. (ELIAS, 1985, p. 9)
O desenvolvimento psicomotor da criança tem início a partir do vínculo formado com a mãe, suas primeiras experiências de sensação de movimento, de satisfação de necessidades, ainda dentro do útero materno. Portanto, ainda na gestação, segundo Costa (2016, p. 9) deve-se construir um ambiente favorável ao desenvolvimento pleno da autonomia do indivíduo.
De uma forma expressiva a psicomotricidade, aplicada de forma atenciosa na Educação Infantil, contribui para formação e a estruturação do esquema corporal da criança incentivando o movimento coordenado a partir de atividades onde a criança possa se divertir, criar, interpretar e se relacionar com o mundo em que vive, auxiliando assim o desenvolvimento funcional sadio do ser humano, seu equilíbrio e expansão.
Costa (2016) nos mostra que nesta fase da vida, há uma elevada plasticidade cerebral o que significa uma maior capacidade de transformação do cérebro devido aos estímulos e experiências vivenciados. As habilidades desenvolvidas nesse período serão fundamentais para o desenvolvimento de habilidades mais complexas em fases posteriores da vida. A autora ainda afirma em seu estudo que desperdiçar as possibilidades da primeira infância significa limitar o potencial individual, uma vez que nem sempre é possível recuperá-lo plenamente com investimentos posteriores.
No mesmo estudo é apontado que nesta etapa da vida são moldadas diversas habilidades necessárias para a tomada de decisões e o domínio sobre o comportamento, as quais devem ser desenvolvidas desde a primeira infância para que o indivíduo possa ter o controle da própria vida posteriormente e assumir responsabilidades. Somente depois que houver uma harmonia entre a psique e o desenvolvimento psicomotor da criança é que o entendimento sobre o outro, sobre si mesmo e sobre os objetos se tornarão efetivos.
JEAN PIAGET: A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
“Os fenômenos humanos são biológicos em suas raízes, sociais em seus fins e mentais
em seus meios.” – Jean Piaget
Jean Piaget, apesar de não ter sido pedagogo nem estar ligado à área de Educação, contribuiu muito para o desenvolvimento de estudos nessa seara. Cavicchia (2010, p.1) ressalta que ao lado de Freud, o trabalho de Piaget representa hoje o que de mais importante se produziu no século XX no campo da Psicologia do desenvolvimento infantil.
Ainda no mesmo texto, a autora aponta que Piaget orientou suas pesquisas ao longo de sua vida a partir do seguinte questionamento: como o ser vivo consegue adaptar-se ao meio ambiente? Nessa reflexão o estudioso chegou ao problema da adaptação biológica ligando-a ao problema do conhecimento, chegando assim a duas de suas ideias centrais.
A primeira é que a adaptação biológica de todo organismo vivo, assim como toda conquista intelectual, se faz através da assimilação de um dado exterior, no sentido de
transformação. O conhecimento não é uma cópia, mas uma integração em uma
estrutura mental pré-existente que, ao mesmo tempo, vai ser mais ou menos
modificada por esta integração. A segunda ideia central é que os fatores normativos do pensamento correspondem às relações, às necessidades de equilíbrio que se observam no plano biológico. (CAVICCHIA, 2010, p.2)
Jean Piaget começa a refletir sobre a problemática da educação quando vai trabalhar no Instituto Jean-Jacques Rousseau em Paris (MUNARI, 2010, p. 15). A pesquisa desenvolvida nesse período leva o psicólogo à construção do que posteriormente passamos a conhecer como os estágios de desenvolvimento humano.
Para o desenvolvimento desse artigo, buscamos fazer um recorte mais objetivo dos períodos que tangem à primeira infância, visto ser essa o foco da Educação Infantil, ou sejam, o período sensório-motor e o pré-operatório. Outro motivo que nos levou a sublinhar esses dois períodos foi, como nos mostra Cavicchia (2010, p.1), que o educador, ao identificar alguma problemática no desenvolvimento intelectual e comportamental da criança nessas fases, poderá remodelar o planejamento e oferecer estímulos específicos para favorecer o seu desenvolvimento.
De acordo com a mesma autora (2010, p. 2) para Piaget o conhecimento é construído a partir das trocas entre o organismo e o meio sendo elas as responsáveis pela construção da própria capacidade de conhecer. Segundo o mesmo autor, essa interação organismo-meio ocorre através do que Jean Piaget chama de processo de adaptação, com seus dois aspectos complementares: a assimilação e a acomodação.
Ainda seguindo o texto de Cavicchia (2010, p. 2) Ao tentar se adaptar ao meio ambiente o indivíduo utiliza dois processos fundamentais que compõem o sistema cognitivo a nível de seu funcionamento: a assimilação ou a incorporação de um elemento exterior (objeto, acontecimento etc.), num esquema sensório-motor ou conceitual do sujeito e a acomodação, quer dizer, a necessidade em que a assimilação se encontra de considerar as particularidades próprias dos elementos a assimilar. No sistema cognitivo do sujeito esses processos estão normalmente em equilíbrio. A perturbação desse equilíbrio gera um conflito ou uma lacuna diante do objeto ou evento, o que dispara mecanismos de equilibração. A partir de tais perturbações produzem-se construções compensatórias que buscam novo equilíbrio, melhor do que o anterior. Nas sucessivas desequilibrações e reequilibrações o conhecimento exógeno é complementado pelas construções endógenas, que são incorporadas ao sistema cognitivo do sujeito. Nesse processo, que Piaget denomina processo de equilibração, se constroem as estruturas cognitivas que o sujeito emprega na compreensão dos objetos, fatos e acontecimentos, levando ao progresso na construção do conhecimento.
Piaget (apud Cavicchia 2010, p.3) definiu alguns estágios do desenvolvimento cognitivo que, em seus termos, precisam ter a ordem das aquisições constantes. São ordens sucessivas e não apenas cronológicas e estanques, sua evolução depende do amadurecimento do sujeito, suas experiências e o meio social no qual está inserido. Algumas exigências básicas são propostas pelo autor para que possamos caracterizar os estágios:
1º todo estágio tem de ser integrador, ou seja, as estruturas elaboradas em determinada etapa devem tornar-se parte integrante das estruturas das etapas seguintes; 2º um estágio corresponde a uma estrutura de conjunto que se caracteriza por suas leis de totalidade e não pela justaposição de propriedades estranhas umas às outras; 3º um estágio compreende, ao mesmo tempo, um nível de preparação e um nível de acabamento; 4º é preciso distinguir, em uma sequência de estágios, o processo de formação ou génese e as formas de equilíbrio final. (CAVICCHIA, 2010, p.3)
A partir desses critérios estabelecidos, Piaget distingue os quatro grandes períodos no desenvolvimento das estruturas cognitivas (CAVICCHIA, 2010, p.3):
- Estágio da inteligência sensório – motora – 0 – 2 anos;
- Estágio pré-operatório – 2 – 7/8 anos;
- Estágio operatória concreto – 7/8 – 11/12 anos;
- Estágio da inteligência formal – a partir dos 12 anos.
Esses estágios surgem e vão se formando a partir dos equilíbrios alcançados pela criança, como se fossem degraus, são, portanto, consequência de sucessivas equilibrações do processo do desenvolvimento cognitivo.
No período sensório-motor, predominam o desenvolvimento das percepções e dos movimentos (CACCAVO, 2015, p.63) e é de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo. Nessa fase é construída a base de todos os processos cognitivos do indivíduo e nele se estruturam as primeiras formas de pensamento e expressão (CAVICCHIA, 2010, p.4). Segundo Caccavo, no mesmo estudo mencionado acima, nessa fase o bebê ainda não tem a noção do “eu” e seus movimentos são atividades motoras que não são pensadas para serem executadas. O desenvolvimento físico é acelerado e se constitui no suporte para o aparecimento de novas habilidades.
Foto 1: Tapete sensorial

Fonte: http://crechecarmen.blogspot.com/2014/08/atividade-com-o-tapete-sensorial.html?pref=fb
O período pré-operatório, segundo Caccavo (2015, p. 65), corresponde ao período préescolar no qual o organismo se torna estruturalmente capacitado para o exercício de atividades psicológicas mais complexas, como o uso da linguagem articulada. Nesse período, a criança começa a usar símbolos mentais que poderão ser imagens ou palavras, para representar objetos que não se encontram presentes no momento de sua fala.
Cavicchia (2010, p. 5) aponta que no período pré-operatório é realizada a transição entre a inteligência propriamente sensório-motora e a inteligência representativa. Essa passagem não ocorre através de mutação brusca, mas de transformações lentas e sucessivas.
Para Piaget a passagem da inteligência sensório-motora para a inteligência representativa se realiza pela imitação. Imitar, no sentido estrito, significa reproduzir um modelo. Já presente no estádio sensório-motor, (…), quando a criança pode praticar o “faz-de-conta”, agir “como se”, por imitação deferida ou imitação interiorizada. Interiorizando-se a imitação, as imagens elaboram-se e tornam-se substitutos dos objetos dados à percepção. O significante é, então, dissociado do significado, tornando possível a elaboração do pensamento representativo. (CAVICCHIA, 2010, p. 10)
Nessa fase da vida, entre 2 e 3 anos, é onde a criança age mais intensamente sobre os objetos, buscando construir conceitos através de experiências com o meio físico e social e construindo o conhecimento do mundo em que vive (ROSA, 2015).
Cavicchia (2010) ainda nos mostra ao final do seu artigo que o ser humano constrói seu próprio conhecimento através da ação e que a interação com objetos vai facilitar o desenvolvimento do conhecimento físico e lógico-matemático. Na sequência Cavicchia aponta que Piaget demonstrou que a interação que se estabelece entre as crianças vai tornar possível o desenvolvimento de relações cooperativas no plano social. Isso significa dizer que, além de possibilitar o desenvolvimento afetivo e social, as interações entre as crianças constituem fator fundamental para o seu desenvolvimento cognitivo.
DAS ESTRUTURAS PSICOMOTORAS
A educação psicomotora condiciona todos os aprendizados pré-escolares; leva a criança a tomar consciência de seu corpo, da lateralidade, a situar-se no espaço, há dominar seu tempo, a adquirir habilmente a coordenação de seus gestos e movimentos. A educação psicomotora deve ser praticada desde a mais tenra idade; conduzida com perseverança, permite prevenir inadaptações difíceis de corrigir quando já estruturadas. (LE BOULCH, 1982, p.36)
Samantha Périco (2015) em seu artigo Contribuições da psicomotricidade e ludicidade para o desenvolvimento infantil expõe que a composição da psicomotricidade engloba aspectos cognitivos e motores de modo integrado. A organização das posturas psíquicas e motoras permitem um crescimento amplo e pleno dos indivíduos, o que faz com que eles aprendam a gerenciar sua mobilidade corporal, aprimoramento social e desenvolvimento cognitivo.
Rosa (2015) nos aponta que a psicomotricidade é fruto da articulação do movimento/corpo/relação, que diante do somatório de forças e sensações se alia aos conceitos do cotidiano, tais como: construir textos, contar uma história, dar um recado, fazer comprar, utilizar as operações matemáticas para contar quantas pessoas vieram, quantas faltaram, etc. Todo esse processo – a aprendizagem de conceitos formais aliados à aprendizagem de outros conceitos – contribui para o desenvolvimento efetivo e global da criança e ele nada mais é, segundo a mesma autora, do que a vivência dos elementos psicomotores dentro de contextos histórico-culturais e afetivos-significativos.
A psicomotricidade atua na Educação Infantil a partir de uma estimulação perceptiva e do desenvolvimento do esquema corporal que é composto do corpo aliado ao controle de seus movimentos, a consciência e a organização.
A Educação Psicomotora se coloca no sentido de uma educação que não se restringe apenas ao saber escolar ou então, ao aperfeiçoamento específico da motricidade, porém, dirige-se à sua expressão e organização através das atividades humanas de relação, realização e criação. Esta compreende a educação do ser humano nos seus aspectos corporais, motores, emocionais, intelectuais e sociais. (CARVALHO, 2003, p.85)
Périco (2015) apud Gonçalves (2006) expõe que a psicomotricidade tem como objetivo principal a intenção, a significação e a expressão do movimento, refletindo o psiquismo de cada indivíduo, de modo que a estimulação psicomotora ideal contribui para a aquisição desse psiquismo, pois coloca a criança em jogo com o objeto, com o meio e com ela própria, criando uma comunicação corporal repleta de significados.
E quais seriam esses conceitos ou habilidades básicas necessárias para uma boa aprendizagem e que constituem a estrutura da educação psicomotora?
TONICIDADE
É compreendida como o controle do tônus muscular, ou seja, a quantidade adequada de tensão muscular para executar uma ação corporal. O desenvolvimento da tonicidade assegura a preparação da musculatura para atividades práticas.
Segundo Fonseca (1995 apud Sacchi; Metzner, 2019) a tonicidade é o estado de contração básica dos músculos que permite a ativação de um músculo ou grupo muscular. No mesmo texto, as autoras ainda mencionam Oliveira (1997, p.27), afirmando que o desenvolvimento do tônus muscular vai afetar diretamente as funções motrizes do organismo como o equilíbrio, a coordenação, o movimento, dentre outros.
Bola por cima, bola por baixo

Fonte: http://toyteka.blogspot.com/2018/02/bola-p O Papel da Psicomotricidade no Desenvolvimento e na Organização da Criançaor-cima-bola-por-baixo.html
IMAGEM CORPORAL
A criança descobre o seu próprio corpo, fazendo sua imagem e se reconhecendo nela, a partir de experiência como a percepção da imagem total no espelho.
ESQUEMA CORPORAL
São várias atividades que proporcionam a criança o conhecimento do próprio corpo, tanto ao todo como em partes, nomeando cada membro e as funções que eles desempenham.
Para Vayer (1992) apud Lima et al. (2020, p. 10) , a criança reconhece o mundo em que vive através de seu corpo e para isso, é importante que ela tenha consciência e controle de seu próprio corpo. A partir do controle da coordenação de seus movimentos e de sua capacidade de deslocamento que a criança se coloca para explorar o mundo e estabelecer os seus conhecimentos. O desenvolvimento da criança ocorre através do resultado das relações e comunicações que se estabelecem entre três elementos: o seu corpo enquanto meio da relação, o mundo das outras pessoas e a realidade das coisas. As sensações, percepções e ações formam um ciclo que se desenvolve, se enriquece e se organiza para constituir a personalidade, uma personalidade necessariamente original em relação aos outros.

Fonte: http://www.escolapremier.com.br/gallery/esquema-corporal/?page=2
Esta estrutura está diretamente ligada a capacidade da criança de simbolizar seu próprio corpo como meio de comunicação consigo mesmo e com o meio, de forma que consiga se diferenciar do mundo que a rodeia (SACCHI; METZNER, 2019, p.99). As mesmas autoras apontam ainda que o esquema corporal é influenciado pela linguagem e pelas interações sociais, integrando muito mais do que apenas informações corporais, mas também afetos e conceitos. O esquema corporal é um elemento básico indispensável para a formação da personalidade da criança, é um processo de se conhecer que conhecer que acompanha todo o crescimento.
Segundo proposta de Rosa e Nísio (2002 apud Portal Educação, 2020), a estimulação do Esquema Corporal torna o corpo da criança como um ponto de referência básico para a aprendizagem de todos os conceitos indispensáveis à alfabetização (noções de em cima, em baixo, na frente, atrás, esquerdo, direito), assim como permite também seu equilíbrio corporal e domínio de seus impulsos motores que, se não forem trabalhados corretamente, irão alavancar dificuldades como descoordenação e lentidão.
EQUILÍBRIO
É a base de toda a coordenação dinâmica global e para que seja desenvolvido satisfatoriamente é necessário que haja o desenvolvimento do tônus muscular assim como a noção do eixo corporal e de peso corporal, permitindo que a criança adeque seu corpo frente a ação da gravidade, possibilitando o reajuste de diferentes posturas.
O equilíbrio de acordo com a Física, nada mais é do que uma situação de movimento ou repouso instável de um corpo. Isso acontece quando a soma das forças que atuam sobre um corpo possui a força resultante igual a zero, assim ele não altera a sua condição. Portanto o equilíbrio é a qualidade física adquirida por uma harmonia de ações musculares com o intuito de assumir e controlar o corpo sobre uma base, contra a lei da gravidade. Pode ser de três tipos: dinâmico, estático e recuperado. Equilíbrio é o nome dado ao estado de um corpo qualquer em que a força resultante sobre ele é nula. A força resultante é o resultado da soma de todas as forças que atuam sobre um determinado corpo. Quando essa soma é igual a zero, dizemos que o corpo se encontra em estado de equilíbrio. (LIMA et al, 2020, p. 24)
Equilíbrio

Fonte: https://cecs.com.br/praticando-o-equilibrio-no-maternal-ii-a/
LATERALIDADE
É a dominância lateral que corresponde a dados neurológicos, ou seja, decorre em função do hemisfério cerebral tendo como característica o lado com a tonicidade desenvolvida, permitindo à criança a realização de ações complexas. A lateralidade em alguns casos pode ser influenciada por treinamento e hábitos sociais, pela escola ou família (MARTINS, 2020).
Oliveira apud Sacchi e Metzner (2019, p. 99) define lateralidade como sendo a propensão que a criança possui de utilizar mais um lado do corpo do que o outro – são três níveis: mão, olho e pé. É a partir dessa percepção que a distinção entre os dois lados do corpo se forma, revelando que não são exatamente iguais e que uma das mãos, um dos pés e um dos olhos é usado mais facilmente do que o outro.
Em texto publicado no Portal Educação (2020) encontramos que quando a lateralidade de uma criança não está bem estabelecida, a mesma demonstra problemas de ordem espacial, não percebe a diferença entre seu lado dominante e o outro, não aprende a utilizar corretamente os termos direita e esquerda, apresenta dificuldade em seguir a direção gráfica da leitura e da escrita, não consegue reconhecer a ordem em um quadro.
Esquerdo, direito

Fonte: https://batistanet.com.br/site/avisos/importancia-de-trabalhar-lateralidade-na-educacaoinfantil
No mesmo artigo entendemos que lateralidade é o uso preferencial de um dos lados do corpo ao nível dos olhos, mãos e pés ao se realizar as atividades. Esse lado dominante apresenta mais força muscular, precisão e rapidez que o lado não dominante.
Geralmente acontece a confusão da lateralidade com a noção de direita e esquerda, que esta envolvida com o esquema corporal. A criança poder ter a lateralidade adquirida, mas não saber qual é o seu lado direito e esquerdo, ou vice-versa. No entanto, todos os fatores estão intimamente ligados, e quando a lateralidade não está bem definida, é comum ocorrerem problemas na orientação espacial, dificuldade na discriminação e na diferenciação entre os lados do corpo e incapacidade de seguir a direção gráfica. (PORTAL EDUCAÇÃO, apud Rezende et al., 2020)
A prevenção de dificuldades com a escrita pode ser feita a partir de exercícios psicomotores prevenindo dificuldades advindas do desenvolvimento inadequado do corpo, como a inversão de letras simétrica – p, q, d, b – ou do sentido em cima/em baixo.
ESTRUTURAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL
Sacchi e Metzner (2019, p. 99) apontam que a estruturação espacial se refere à possibilidade que o homem tem de se movimentar e de agir nos diferentes espaços existentes. É por meio dessas relações no espaço e no tempo que o ser humano se situa e estabelecemos relações entre as coisas, localizações, orientação etc.
As autoras citam outros estudiosos para definir a estruturação espacial como a tomada de consciência da situação do próprio corpo em um meio ambiente e da orientação que pode ter em relação às pessoas e coisas; o desenvolvimento consciência da situação das coisas entre si e a possibilidade de organizar-se perante o mundo que o cerca, de organizar as coisas entre si, de coloca-las em um lugar, de movimentá-las.
A estruturação espacial decorre como organização funcional da lateralidade e da noção corporal, uma vez que é necessário desenvolver a conscientização espacial interna do corpo antes de projetar o referencial somatognósico no espaço exterior (PORTAL EDUCAÇÃO apud FONSECA, 1995).
A estruturação temporal e as noções de corpo, espaço e tempo estão intimamente ligadas, ainda segundo o mesmo portal. Ela precisa ser bem desenvolvida para que a criança consiga aprender a ler, visto que precisará ter domínio do ritmo, uma sucessão de sons no tempo, uma memória auditiva, uma diferenciação de sons, um reconhecimento das frequências e das durações dos sons das palavras. A escrita nada mais é do que sinais orientados e reunidos de acordo com normas, a sucessão destes sinais é que formam palavras e frases, o que corrobora a influência da estruturação temporal para a adaptação escolar e para a aprendizagem.
A orientação temporal é que irá proporcionar à criança a capacidade de se localizar em acontecimentos passados e se projetar no futuro, além de desenvolver o domínio das noções sociais do tempo (horas, mês, estações, etc.).
Espaço – tempo

Fonte: https://www.tempojunto.com/2019/09/09/como-trabalhar-nocao-espacial-nas-criancas/
DISSOCIAÇÃO DE MOVIMENTOS
É a capacidade de locomover diferentes partes do corpo de maneiras diferentes para realizar determinada atividade, ou seja, é a independência motora de vários segmentos corporais.
Twister gigante

Fonte: https://www.espacoinfantil.com.br/como-fazer-o-jogo-twister-caseiro/
COORDENAÇÃO GLOBAL
O equilíbrio está na base da coordenação global. Essa estrutura refere-se ao corpo parado ou em movimento e permite que a criança se mantenha parada, de modo estável, ou em movimento, de maneira harmônica e precisa (SACCHI; METZNER, 2019, p. 100). A coordenação global ajuda a criança a ficar mais segura e confortável em relação ao próprio corpo no espaço, se dá por meio de uma atuação harmônica e econômica do sistema nervoso central dos músculos, nervos e sentidos, na execução de um movimento.
Ela se divide em (anotação de aula):
- Coordenação oculomanual – são movimentos manuais agregados a visão, no qual requer noção de distância e precisão para o lançamento.
- Coordenação oculopedal – é a coordenação dos pés associados à visão.
- Dismetria – é quando não se consegue executar atividades que exijam a funções visuoespacial e visocinetésica frente a uma determinada distância para atingir um alvo.
Coordenação motora fina

Fonte: https://www.meumeninominhavida.com.br/2019/07/coordenacao-motora.html
Nessa estrutura também é desenvolvida a coordenação motora fina e grossa. Na coordenação motora fina estão incluídas as atividades que exige um alto nível de destreza como recortar, escrever, desenhar e pintar, são movimentos refinados e precisos. A coordenação motora grossa são atividades de movimentos mais amplos tais como saltar, subir e descer escadas, correr etc. (SACCHI; METZNER, 2019, p. 100)
RITMO
É desenvolvido a partir da audição e sua percepção é mais complexa que a do espaço, por ser o tempo uma ação prática relacionada com a própria atividade da criança. A noção do tempo está intimamente ligada à afetividade e as necessidades biológicas.
RELAXAMENTO
É um método de condicionamento no qual se tem como objetivo melhor conhecimento do esquema corporal, melhor estruturação espaço-temporal e equilíbrio, contração e descontração. Reduz as tensões psíquicas levando a descontração muscular proporcionando à criança a sensação de calma e consequentemente a um equilíbrio que resulta no desaparecimento da agitação.
4. CONCLUSÃO
O que concluímos com toda essa leitura e pesquisa?
Concluímos que a psicomotricidade é uma ciência fundamental no desenvolvimento da criança e que é de suma importância a implementação de atividades psicomotoras direcionadas tanto para sua organização motora quanto para a organização de sua personalidade. Todos os envolvidos no processo de ensino aprendizagem necessitam explorar essa ciência – a psicomotricidade – para que possam trabalhar de forma conjunta no dia a dia escolar, minimizando os problemas de aprendizagem e aprimorando o desenvolvimento do ser humano durante seu ciclo vital.
A Educação Psicomotora não está restrita ao saber escolar, ela vai além desse universo e se reflete na formação da personalidade de um sujeito crítico, na sua expressão de mundo e na sua organização espaço-temporal.
O brincar por brincar é parte importante do processo ensino-aprendizagem também, mas o brincar com intencionalidade fará com que a criança tenha um melhor conhecimento de seu corpo e de suas habilidades de movimento, desenvolva o domínio das regras da brincadeira, atue de forma criativa e todos esses fatores farão com que ela aja de forma cada vez mais independente e segura em sua própria vida, compreendendo seu papel social e entendendo – e respeitando – seus limites. O lúdico foi vinculado a diversas áreas de conhecimento, em variados ambientes. Ele é relativo aos jogos, divertimento, faz-de-conta, estando fortemente ligado a alegria, ao prazer, à satisfação. Ele faz parte de um fenômeno psicológico de transição entre a subjetividade e a objetividade. (PÉRICO et al, 2015, p. 3418).
A Educação Infantil é a base de toda a construção do ser humano e a utilização do corpo como objeto de expressão faz com que o comportamento tenha um significado maior. O educador que atua nesse segmento precisa ter um diálogo mais alinhado com o profissional de Educação Física para que possa entender e planejar atividades significativas que desenvolvam e habilitem a criança em suas potencialidades, para que ela possa passar por todas as etapas de seu desenvolvimento de forma satisfatória e completa.
Além desses fatores determinantes, a psicomotricidade propicia novos caminhos para a superação das dificuldades de aprendizagem ajudando a identificar com mais precisão, a partir de atrasos no desenvolvimento motor ou alguma deficiência mais premente. Portanto, é imprescindível que o professor da Educação Infantil estude e conheça como praticar melhor as fases do desenvolvimento psicomotor, se tornando também um propiciador de oportunidades adequadas.
As ações conjuntas, estratégias e intervenções focadas nas intencionalidades do desenvolvimento e na evolução psicomotora da criança, permitirá o fortalecimento de um indivíduo de transformação com controle da própria vida, capaz de assumir responsabilidades e superar frustrações.
Todo o conhecimento a que tivemos acesso durante essa pesquisa corroboraram para o questionamento que nos motivou a desenvolvê-la e embasou a modificação de vários planejamentos de aula.
5. REFERÊNCIAS
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1Doutora em Educação pelo ProPEd/UERJ; Docente do CAp-UERJ
2Doutor em Educação pelo ProPEd/UERJ; Graduado em Educação Física e Pedagogia
