VOICES THAT ARE NOT HEARD: THE IMPACTS OF THE ABSENCE OF BILINGUAL PSYCHOLOGISTS IN LIBRAS ON THE MENTAL HEALTH ACCESS OF DEAF INDIVIDUALS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510241906
Kélli de Fátima da Silva Custódio¹
Ms. Milena Raquel Dombrowski²
RESUMO
Este artigo discute os impactos da ausência de psicólogos bilíngues em Língua Brasileira de Sinais (Libras) no acesso à saúde mental da população surda. Por meio de uma pesquisa qualitativa e bibliográfica, analisam-se as barreiras comunicacionais e as lacunas formativas que dificultam a efetivação de uma escuta terapêutica ética e inclusiva. Fundamentado em referenciais socioantropológicos da surdez, o estudo propõe uma reflexão crítica sobre o papel da linguagem, da cultura e da formação profissional no cuidado psicológico. Evidencia-se que a Libras, além de um instrumento de comunicação, é uma expressão identitária e política que assegura o direito à subjetividade e à cidadania. Conclui-se que a formação de psicólogos bilíngues representa uma necessidade ética e social, indispensável para a promoção de um atendimento humanizado e acessível.
Palavras-chave: Psicologia; Surdez. Libras. Inclusão. Saúde mental.
ABSTRACT
This article discusses the impacts of the absence of bilingual psychologists in Brazilian Sign Language (Libras) on the deaf population’s access to mental health services. Through a qualitative bibliographic study, it examines communication barriers and educational gaps that hinder ethical and inclusive psychological listening. Grounded in socio-anthropological approaches to deafness, the research reflects on the role of language, culture, and professional training in psychological care. It highlights that Libras, beyond a communication tool, is an expression of identity and citizenship. It concludes that training psychologists fluent in Libras is an ethical and social necessity to ensure humanized and equitable mental health care.
Keywords: Psychology; Deafness; Libras; Inclusion; Mental health.
1. INTRODUÇÃO
A comunicação é o eixo central do cuidado psicológico. É por meio dela que o sujeito expressa emoções, constrói sentidos e estabelece vínculos. Quando essa comunicação é interrompida ou mediada de forma inadequada, o próprio processo terapêutico se fragiliza. Essa é a realidade vivida por grande parte da população surda no Brasil, que ainda enfrenta barreiras significativas para acessar serviços de saúde mental devido à escassez de psicólogos fluentes em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
A Libras foi reconhecida oficialmente pela Lei nº 10.436/2002 e regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005, que determinam a obrigatoriedade de sua inclusão na formação de profissionais da saúde e da educação. Contudo, mais de vinte anos após essa conquista, o cenário ainda revela uma distância preocupante entre a legislação e a prática. A surdez, muitas vezes, permanece invisível no contexto clínico e acadêmico, restrita a uma disciplina introdutória e desconectada da realidade profissional.
No espaço terapêutico, a ausência de comunicação plena impede que o sujeito surdo seja ouvido em sua totalidade. A dificuldade de se expressar em sua própria língua compromete a autenticidade da escuta e limita o vínculo com o psicólogo. Assim, este artigo propõe uma reflexão sobre a importância da presença de profissionais bilíngues, analisando os aspectos éticos, culturais e formativos que envolvem a atuação da Psicologia com a comunidade surda.
1.1 OBJETIVOS
O presente artigo tem como finalidade principal analisar como a fluência em Libras por parte de psicólogos pode potencializar a acessibilidade comunicacional e a qualidade do cuidado em saúde mental oferecido à população surda.
Para alcançar o objetivo geral, o estudo se propõe a:
- Apresentar aspectos teóricos da deficiência auditiva e surdez, bem como os direitos e as legislações que garantem a acessibilidade e inclusão das pessoas surdas na sociedade.
- Apontar desafios enfrentados pela comunidade surda no acesso aos serviços psicológicos e os impactos da ausência de psicólogos bilíngues em Libras.
- Ressaltar a relevância do aprendizado da Libras durante a formação acadêmica em Psicologia, apontando as ausências existentes nos currículos atuais.
- Refletir as contribuições de psicólogos bilíngues para a inclusão da comunidade surda no atendimento psicológico-clínico.
2. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, pois busca compreender, por meio da análise de conteúdos teóricos, os impactos da ausência de psicólogos bilíngues em Libras no atendimento à população surda.
Trata-se de um estudo de natureza exploratória e bibliográfica, desenvolvido a partir da leitura, interpretação e discussão de livros, artigos científicos e documentos legais que tratam de temas relacionados à surdez, à acessibilidade, à inclusão e ao trabalho do psicólogo nesse contexto.
2.1 FONTES DE PESQUISA E REFERENCIAIS
O levantamento bibliográfico foi realizado em bases como SciELO e Google Acadêmico, priorizando materiais atualizados e de relevância acadêmica. Entre as referências utilizadas, destaca-se o livro “Libras? Que língua é essa?” de Audrei Gesser (2009), que traz reflexões importantes sobre a identidade surda, a cultura e a língua de sinais, contribuindo significativamente para a compreensão das demandas linguísticas e sociais dessa comunidade. Além disso, foram consultados os portais oficiais de instituições de ensino superior da cidade de Ponta Grossa (PR) para verificar a presença da disciplina de Libras nas grades curriculares dos cursos de Psicologia, o que contribuiu para a análise da formação acadêmica e da preparação dos futuros profissionais.
2.2 ANÁLISE DE DADOS
A análise dos dados foi conduzida a partir da abordagem qualitativa, com foco na identificação de categorias temáticas que evidenciem os desafios e as possibilidades de construção de uma prática psicológica mais ética, inclusiva e sensível às especificidades linguísticas e culturais da população surda.
3. REFERENCIAL TEÓRICO E DISCUSSÃO
3.1 SURDEZ, LÍNGUA E IDENTIDADE CULTURAL
A surdez é frequentemente tratada sob a ótica biomédica, como uma deficiência sensorial a ser compensada. Essa visão, no entanto, reduz o sujeito surdo a uma limitação corporal e ignora a dimensão sociocultural da surdez. Sob o olhar da linguística e da antropologia, a surdez constitui uma experiência de pertencimento, construída coletivamente por meio da Libras — língua que carrega valores, formas de expressão e modos de estar no mundo. De acordo com Gesser (2009), compreender a Libras é reconhecer uma língua completa, com estrutura gramatical própria, expressões idiomáticas e riqueza simbólica. Negar essa língua significa negar o modo de existir da comunidade surda. O movimento de resistência das pessoas surdas no Brasil — intensificado nas últimas décadas — tem como eixo justamente a defesa de sua língua e cultura, em oposição ao “ouvintismo”, termo que designa a imposição da cultura ouvinte sobre os modos de ser surdos. A cultura surda, portanto, não é apenas uma variação comunicacional, mas um território de identidade e de luta política. Ela afirma a diferença como potência e reivindica o direito de ser escutado em uma língua visual e gestual, capaz de traduzir experiências subjetivas que a oralidade não alcança. Nesse contexto, o psicólogo precisa reconhecer a língua de sinais não como ferramenta técnica, mas como parte essencial da escuta clínica.
3.2 A COMUNICAÇÃO NO CONTEXTO CLÍNICO
O vínculo terapêutico é o ponto de partida do processo psicológico. Na clínica com a pessoa surda, esse vínculo depende diretamente da presença de uma comunicação acessível. Quando o profissional não domina a Libras, o paciente é forçado a utilizar intérpretes ou familiares para mediar o diálogo, o que compromete o sigilo e reduz a liberdade de expressão. A mediação linguística, embora possa ser útil em alguns contextos, altera a espontaneidade da escuta e interfere na dinâmica emocional da sessão. Freud já apontava que a fala é o principal veículo da elaboração psíquica; se o sujeito não pode falar em sua língua, ele não elabora plenamente. A ausência de psicólogos bilíngues, portanto, não é apenas um problema técnico, mas uma limitação que afeta a própria essência da escuta terapêutica. Além disso, é importante destacar que a Libras não se limita a transmitir palavras: ela incorpora expressões faciais, movimentos corporais e espacialidade. Trata-se de uma língua tridimensional, na qual o corpo é também linguagem. Quando o psicólogo compreende essa dimensão, ele amplia sua capacidade de perceber nuances emocionais, gestos simbólicos e formas de comunicação que transcendem o verbal. Nesse sentido, a prática clínica bilíngue é mais do que um recurso de acessibilidade, é um gesto ético de reconhecimento. Ouvir o sujeito surdo em Libras é afirmar sua existência simbólica e assegurar-lhe o direito de ser compreendido sem mediações que desloquem sua voz.
3.3 ÉTICA PROFISSIONAL E COMPROMISSO SOCIAL
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005) determina que o exercício da Psicologia deve promover a dignidade, a liberdade e a igualdade dos indivíduos. Negar a uma pessoa o direito de se comunicar na própria língua durante um atendimento psicológico é, portanto, uma violação ética. A atuação bilíngue deve ser compreendida como parte da responsabilidade social do psicólogo e não como um diferencial opcional. A ética, nesse contexto, exige que o profissional reconheça as dimensões culturais e linguísticas de cada sujeito. A surdez não é apenas uma diferença auditiva, mas uma forma particular de percepção do mundo. Quando o psicólogo desconsidera essa diferença, corre o risco de reproduzir práticas capacitistas — ou seja, de tratar o sujeito surdo a partir da falta, e não da potência. A acessibilidade comunicacional, assegurada pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), é um direito humano fundamental. Cabe ao psicólogo lutar para que esse direito seja efetivado dentro dos serviços de saúde mental, atuando também em espaços institucionais e políticos. A ética, nesse sentido, ultrapassa o consultório e se manifesta no compromisso com a transformação social e com a construção de uma Psicologia que reconheça todas as formas de existência.
3.4 FORMAÇÃO ACADÊMICA E DESAFIOS PARA A INCLUSÃO
A ausência de profissionais bilíngues em Libras está diretamente relacionada à formação acadêmica insuficiente nos cursos de Psicologia. Embora o Decreto nº 5.626/2005 determine a inclusão da disciplina de Libras nas grades curriculares, em muitas instituições ela é oferecida apenas de forma superficial, sem articulação com a prática clínica. Essa lacuna formativa perpetua a exclusão linguística e mantém a comunidade surda afastada dos serviços psicológicos. Como observa Scalcon, Martins e Pieczkowski (2024), a formação do psicólogo precisa contemplar a diversidade humana em todas as suas dimensões. O domínio de Libras deve ser entendido como parte da competência técnica e ética, assim como o conhecimento de teorias e métodos psicológicos. Não se trata de ensinar uma nova técnica, mas de preparar profissionais capazes de reconhecer e respeitar a pluralidade das linguagens humanas. Experiências interdisciplinares relatadas por Almeida e Nantes (2018), em projetos que integram os cursos de Psicologia e Letras-Libras, demonstram o potencial formativo desse contato. Estudantes que vivenciam a comunicação em Libras ampliam sua empatia, desconstroem preconceitos e aprendem a perceber o sujeito surdo não pela ausência, mas pela diferença. Esse tipo de formação crítica e humanizada é o caminho para uma Psicologia mais inclusiva e coerente com sua função social.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Refletir sobre a ausência de psicólogos bilíngues em Libras é refletir sobre as barreiras que ainda impedem a efetivação dos direitos humanos e da equidade na saúde mental. O cuidado psicológico só é verdadeiro quando reconhece a linguagem como parte constitutiva da subjetividade. A escuta não se limita a ouvir sons, mas envolve compreender sentidos, gestos e silêncios.
A Libras é, para a comunidade surda, o que a fala é para o ouvinte: um espaço simbólico de expressão, afeto e construção de si. Negar essa língua é negar o sujeito. Por isso, a formação bilíngue deve ser vista como exigência ética e política, indispensável à atuação do psicólogo comprometido com a dignidade humana.
Em síntese, promover a acessibilidade linguística é promover justiça social. A escuta que se faz em Libras é uma escuta que rompe o silêncio histórico imposto às pessoas surdas, transformando o cuidado psicológico em um espaço de acolhimento, respeito e pertencimento. Ouvir essas vozes que, por tanto tempo, não foram ouvidas é uma forma de devolver-lhes não apenas a palavra, mas o direito de existir plenamente.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, A.; NANTES, C. A inclusão da pessoa surda e os desafios na formação de psicólogos. UFGD, 2018.
ANJOS, L. dos. Atendimento psicológico à pessoa surda: perspectivas éticas e comunicacionais. Rev. Psicol., 2022.
BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436/2002.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
CROMACK, C. A identidade surda e a língua de sinais. São Paulo: Cortez, 2004.
GESSER, A. Libras? Que língua é essa? São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
NASCIMENTO, L.; TORRES, R. Psicologia e acessibilidade: o papel do psicólogo bilíngue em Libras. s.d.
SCALCON, V.; MARTINS, T.; PIECZKOWSKI, A. Ética e mediações no atendimento psicológico à pessoa surda. Rev. Psicol. Contemporânea, 2024.
1Kélli de Fátima da Silva Custódio: Acadêmica do 5º ano de Psicologia, Faculdade Sant’Ana, Ponta Grossa, Paraná, Brasil. E-mail: Kellicustodio34@gmail.com
2Ms.Milena Raquel Dombrowski: Professora e Mestre. Faculdade Sant’Ana, Ponta Grossa, Paraná, Brasil.
