VESTÍGIOS E MEMÓRIAS: O LEGADO DA ESTRADA DE FERRO MADEIRA-MAMORÉ E SUA IMPORTÂNCIA PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DAS COMUNIDADES LOCAIS DE PORTO VELHO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202509062316


Jander Santos Manso1


RESUMO

Esta investigação buscou entender a forma como a ferrovia, um símbolo de progresso e desenvolvimento, ainda ressoa na cultura local, nas tradições e na memória coletiva dos habitantes da região. Nesse sentido, o objetivo geral deste artigo foi analisar, por meio de uma abordagem historiográfica, como o patrimônio histórico e cultural da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM) contribui para a construção da identidade das comunidades de Porto Velho. O presente estudo se configura como uma investigação que utiliza abordagens historiográficas e documentais, com o objetivo de aprofundar a compreensão sobre a problemática em questão. Através da revisão cuidadosa de documentos e a interpretação crítica de textos históricos e contemporâneos, o estudo pretendeu mapear as diferentes perspectivas que surgiram ao longo do tempo. Essa análise permitiu não apenas uma visão mais abrangente do assunto, mas também a identificação de lacunas e debates que ainda permanecem em aberto na literatura existente. As considerações finais desta pesquisa reafirmam a importância da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) não apenas como um marco histórico, mas também como um elemento vital na formação da identidade cultural das comunidades de Porto Velho. O estudo envolveu uma análise aprofundada de como os vestígios dessa ferrovia, sua história e as memórias associadas a ela moldam a vivência e as práticas contemporâneas da população local. As considerações finais desta pesquisa reafirmam a importância da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) não apenas como um marco histórico, mas também como um elemento vital na formação da identidade cultural das comunidades de Porto Velho/ RO. O estudo envolveu uma análise aprofundada de como os vestígios dessa ferrovia, sua história e as memórias associadas a ela moldam a vivência e as práticas contemporâneas da população local.

PALAVRAS-CHAVE: Vestigios. Memórias.  Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Comunidades Locais. Porto Velho.

ABSTRACT

This investigation sought to understand how the railway, a symbol of progress and development, still resonates in the local culture, traditions, and collective memory of the inhabitants of the region. In this sense, the general objective of this article was to analyze, through a historiographical approach, how the historical and cultural heritage of the Madeira-Mamoré Railroad (EFMM) contributes to the construction of the identity of the communities in Porto Velho. The present study is configured as an investigation that utilizes historiographical and documentary approaches, aiming to deepen the understanding of the issue at hand. Through a careful review of documents and critical interpretation of historical and contemporary texts, the study intended to map the different perspectives that emerged over time. This analysis allowed for a more comprehensive view of the subject, as well as the identification of gaps and debates that remain open in the existing literature. The final considerations of this research reaffirm the importance of the Madeira-Mamoré Railroad (EFMM) not only as a historical landmark but also as a vital element in the cultural identity formation of the communities in Porto Velho. The study involved an in-depth analysis of how the remnants of this railway, its history, and the memories associated with it shape the contemporary experiences and practices of the local population. The final considerations of this research reaffirm the importance of the Madeira-Mamoré Railroad (EFMM) not only as a historical landmark but also as a vital element in the cultural identity formation of the communities in Porto Velho/RO. The study involved an in-depth analysis of how the remnants of this railway, its history, and the memories associated with it shape the contemporary experiences and practices of the local population.

KEYWORDS: Vestiges. Memories. Madeira-Mamoré Railroad. Local Communities. Porto Velho.

1. INTRODUÇÃO

A presente pesquisa se propos analisar o legado da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, uma importante via férrea que conectou o Brasil à Bolívia durante o início do século XX, e como suas memórias e vestígios influenciam a identidade das comunidades locais de Porto Velho. Esta investigação buscou entender a forma como a ferrovia, um símbolo de progresso e desenvolvimento, ainda ressoa na cultura local, nas tradições e na memória coletiva dos habitantes da região.

O projeto da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que é uma ferrovia binacional, integra um esforço de expansão em novas áreas com o objetivo de facilitar a circulação internacional de mercadorias. Além disso, essa ferrovia contribui para a ampliação das redes ferroviárias, tornando-se uma opção viável para a obtenção de lucros e para a inclusão das regiões mais afastadas na economia central do país (ALENCAR, 2012)

Segundo Olímpio de Arroxelas Galvão, os projetos voltados para a defesa do território brasileiro em meados do século XIX conferiram às ferrovias um papel crucial na conexão do país e no aproveitamento das vastas potencialidades das regiões interiores (GALVÃO,1996). A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ao enfrentar os desafios impostos pela floresta amazônica, desbravou o interior do Brasil. Sua trajetória dramática transformou-a em um dos bens mais representativos e emblemáticos da história de Rondônia, frequentemente associada a sentimentos de paixão e nostalgia, principalmente na época em que a ferrovia simbolizava o desenvolvimento nacional.

O patrimônio cultural em análise é composto por espaços de representações que dão origem a diferentes grupos sociais, os quais interagem constantemente com suas expressões e conflitos. Esses grupos podem incluir tanto membros da comunidade que não têm uma estrutura organizacional bem definida quanto entidades do setor público, criando assim um contexto de disputas relacionadas ao complexo ferroviário tombado (LEITE, 2007). Ao considerar a cidade de Porto Velho sob uma perspectiva contemporânea, percebe-se uma significativa fragmentação espacial, resultado das dinâmicas atuais que afetam tanto o complexo tombado quanto sua área circundante.

Para uma melhor compreensão das configurações espaciais que permeiam o complexo ferroviário, é pertinente relacioná-lo ao conceito de lugar conforme apresentado pelo autor Rogério Proença Leite, que destaca a importância das relações sociais e da identidade no entendimento desses espaços como “demarcações físicas e simbólicas no espaço cujos usos os qualificam e lhes atribuem sentidos de pertencimento, orientando ações sociais e sendo por estas delimitados reflexivamente” (LEITE, 2007, p. 35).

Dentro do exposto, este artigo tem como pergunta norteadora: De que maneira o Patrimônio Histórico da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM) contribui para a construção da identidade das comunidades de Porto Velho?  Com base na problemática acima foram levantadas as seguintes hipóteses: 

Hipótese 1: O legado da Estrada de Ferro Madeira Mamoré funciona como um elemento central na construção da identidade local, refletindo dinâmicas culturais e memórias comunitárias que se revelam em narrativas divergentes.

Hipótese 2: Os vestígios físicos da ferrovia atuam como referências históricas que fomentam a formação de espaços de pertencimento e práticas culturais nas comunidades.

O Objetivo geral deste artigo foi analisar, por meio de uma abordagem historiográfica, como o patrimônio histórico e cultural da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM) contribui para a construção da identidade das comunidades de Porto Velho.

Os Objetivos Específicos são: Examinar as fontes históricas que documentam a construção e operação da EFMM, assim como suas memórias associadas; Identificar e analisar narrativas e memórias coletivas relacionadas à Estrada de Ferro Madeira Mamoré na historiografia local; Investigar a relação entre o patrimônio ferroviário e as práticas culturais contemporâneas das comunidades locais.

2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA MEMÓRIA COLETIVA E PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Neste tópico foi realizado uma análise dos conceitos de memória coletiva e patrimônio histórico, apresentando as contribuições de Pierre Nora, Halbwachs e Jacques Le Goff entre outros. 

É amplamente aceito entre os historiadores que o debate sobre memória se inicia com os estudos de Halbwachs, especialmente em suas obras “Lês cadres sociaux de la mémoire” (1925) e “La mémoire collective” (1950). Halbwachs se fundamenta na tradição da sociologia francesa, particularmente nas ideias de Émile Durkheim, que prioriza o social em relação ao individual. Para Halbwachs, a distinção entre o psicológico e o social se reflete na dualidade entre a memória individual e a memória social. A memória de cada pessoa é limitada a sua própria percepção, enquanto a memória coletiva é uma recriação distorcida e seletiva das lembranças que um grupo considera comuns e pertencentes a si (HALBWACHS, 1990).

De um lado, existe a memória pessoal, influenciada pelas experiências vividas; do outro, estão as recordações compartilhadas por membros de um grupo ou da sociedade em geral, que se configuram como memória coletiva ou histórica. Halbwachs argumenta que há uma interação fundamental entre a memória individual e a coletiva, pois as experiências pessoais se apoiam na memória coletiva para formar a visão compartilhada do grupo, ao mesmo tempo em que as memórias coletivas moldam a percepção individual (HALBWACHS, 1990).

Dessa maneira, estabelece-se um laço entre o indivíduo e o grupo, um vínculo que se transmite de geração em geração. Esta transmissão representa a experiência de uma época, manifestando-se em testemunhos e práticas que incorporam  as formas de pensar e de agir de outrora que se registram na memória (HALBWACHS, 1990). Além disso, o autor diferencia memória coletiva de história: enquanto a última se ocupa da “compilação de fatos” dispostos de forma sistemática para formar um “quadro total”, a memória coletiva é concebida como uma sequência de pensamentos contínuos, com definições flexíveis e coexistindo com outras memórias coletivas.

A dualidade memória/história foi também reafirmada anos depois por Le Goff em “Documento/Monumento”, entre “a memória coletiva e a sua forma científica, a história” (LE GOFF, 1998. p. 535). O texto aborda a etimologia de termos relacionados ao conceito de testemunho, partindo do termo “monumentum” como um sinal do passado e alcançando a ascensão do documento no século XIX, que passa a ser visto como um testemunho escrito. No século XX, a concepção de documento se expande para incluir qualquer tipo de testemunho referente às ações humanas, indo além da mera palavra escrita. Monumentos são inicialmente vistos como objetos (como obras de arquitetura ou peças funerárias), considerados “legados da memória coletiva” que representam um passado.

Conforme Le Goff (1998), os documentos se tornam o foco principal da história e, ao mesmo tempo, são coletados e conservados pela memória coletiva. A história, por sua vez, se apresenta como uma análise crítica dos documentos, considerando suas edições, depurações e críticas. A história compreende os documentos como produtos das sociedades que os criaram e das épocas nas quais existiram, o que revela que o princípio metodológico mais relevante é investigar as condições sob as quais esses documentos foram produzidos. Por outro lado, a memória coletiva se apoia nesses documentos como suas bases fundamentais; sua periodização é modificada à medida que suas formas e modos de armazenamento mudam, especialmente quando a memória é valorizada por meio de obras ou construções que são consideradas patrimônio cultural.

Para Le Goff (1998), a memória está intimamente ligada à materialidade do documento, enquanto a história extrai seu significado dessa relação. Assim, a dualidade entre memória e história se revela como um elemento essencial para a produção de conhecimento.

Nesse contexto, Pierre Nora (1993) propõe uma distinção entre memória e história. Ele descreve a memória como “a vida”, sempre aberta às dinâmicas da lembrança e do esquecimento.

Em contrapartida, a história é entendida como uma reconstrução problemática e incompleta do que já não existe. A memória, então, representa um espaço de eternidade no presente, enquanto a história é uma representação do passado. A memória é coletiva, ao passo que a história é universal; a memória se fundamenta em elementos concretos, como objetos e ações, enquanto a história se relaciona com a continuidade no tempo. Nora (2012) posiciona a memória como um absoluto, em contraste com a história, que é relativa. Assim, se configura uma crítica da memória histórica.

O atual esforço historiográfico destaca a necessidade de se aprofundar nos lugares de memória, especialmente em um momento em que a consciência comemorativa das sociedades do Antigo Regime diminui, fazendo com que esses lugares deixem de ser “espontâneos” e passem a ser elementos necessários à história, como museus, arquivos, coleções e monumentos. Para Nora (2012), essa busca por preservar a memória se intensifica diante de um sentimento de perda na sociedade contemporânea, resultando naquilo que ele chama de uma “obsessão pelo arquivo”.

A história se configura através de uma análise crítica da memória, além de exigir, explicar e preservar os locais que guardam essa memória. Como bem observa Nora, essa “obsessão pelos lugares da memória” é uma característica distintiva da sociedade contemporânea e do entendimento histórico.

Duby, por sua vez, aborda a memória de forma oposta, focando na memórianação, entendida como uma memória coletiva que age como um discurso ideológico. Utilizando a definição althusseriana de ideologia, Duby (1976, p. 131-132) argumenta que a conduta dos indivíduos é guiada por “imagens que constroem”, formando um “sistema de representações”. Todo testemunho, seja ele textual ou visual, resulta de uma representação que é ao mesmo tempo parcial, deformada e influenciada por um grupo social. 

Assim, tanto os modelos culturais (sejam estéticos ou morais) quanto as memórias do passado são produzidos dentro de sistemas ideológicos. Diante disso, a história possui a função de desmistificar esses sistemas; ao constituí-los como objetos de estudo, deve reconstruí-los em sua totalidade para revelar sua divergência em relação às realidades vividas e a outras ideologias, evidenciando as condições materiais que permeiam as imagens mentais (DUBY, 1976).

Para o próprio historiador, é fundamental que, durante a pesquisa, ele se liberte “das pressões ideológicas das quais ele próprio é prisioneiro” (DUBY, 1976, p. 136). Portanto, a memória pode ser entendida como uma construção social, que representa uma operação ideológica, enquanto a história é uma forma de conhecimento, uma prática cognitiva que focaliza a memória como seu objeto.

Um conjunto de hipóteses é relevante para a presente exposição bibliográfica: a dicotomia entre memória coletiva e memória individual; as questões referentes à construção social da memória; a contrapartida entre memória e história; a memória enquanto uma dimensão de caráter ideológico; e a observação da contínua apropriação e reinterpretação da memória nas práticas sociais e políticas. Essas hipóteses são significativas, pois não apenas levantam questões que buscamos discutir, como também estabelecem “pontos de confluência” teóricos (nos termos de Vesentini) nos estudos históricos relacionados ao tema da história.

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré emerge como um marco ao enfrentar os desafios da floresta amazônica e ao explorar o interior do Brasil. Sua história é repleta de drama e, por isso, se torna um dos patrimônios mais representativos da história de Rondônia, sendo frequentemente associada a sentimentos de nostalgia e paixão em uma época em que a ferrovia simbolizava o progresso nacional.

A produção historiográfica relacionada à Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, até a presente pesquisa, concentrou-se principalmente na narrativa do empreendimento, na construção da ferrovia e na biografia de seus investidores. A obra mais importante sobre a E.F.M.M. é “A Ferrovia do Diabo”, escrita por Manoel Rodrigues Ferreira. Este livro abrange um período extenso, que vai do final do século XVIII ao final do século XX, e conta com uma variedade de documentos, tanto visuais quanto textuais, sendo fundamental para o entendimento da implementação da ferrovia e do imaginário que a rodeia, incluindo a experiência de seus trabalhadores (FERREIRA,2005).

“A Ferrovia do Diabo” permite a análise do contexto e das condições de trabalho enfrentadas pelos antepassados dos ferroviários entrevistados, além de ilustrar como a cidade se formou e passou a ter significado para estes trabalhadores, baseado em suas vivências e no ambiente social ao seu redor. Outra referência relevante para esta pesquisa é “Trem Fantasma: a ferrovia Madeira-Mamoré e a modernidade na selva”, do historiador  Francisco Foot Hardman (HARDMAN, 2005).   Este autor investiga o processo de industrialização e os projetos de modernização no Brasil, estabelecendo uma conexão entre o “maquinismo fantasmagórico” e a modernidade. Ele discute também os aspectos socioeconômicos das grandes cidades europeias no século XIX, traçando um paralelo com os projetos desenvolvidos na Amazônia, incluindo a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Hardman (2005) analisa a modernidade como um período caracterizado pelo espetáculo urbano-industrial, onde a máquina e o consumismo se destacam, e as ferrovias se tornam elementos centrais na paisagem urbana brasileira dos séculos XIX e início do XX. Para ele, o trem não apenas simboliza um meio de transporte urbano por excelência, mas também possui características misteriosas, incorporando uma espécie de “feição sobrenatural” que se inscreve no imaginário coletivo da sociedade industrial como um “trem fantasma”.

O autor também argumenta que a narrativa da ferrovia é envolta em uma construção ilusória, resultado da visão empreendedora de capital estrangeiro, que se manifestou em dois momentos: o primeiro, ligado às necessidades econômicas da investida estrangeira, que impôs sua visão sobre “homens e ideias, forças de trabalho e conhecimentos”; o segundo, que envolve a realização desse projeto, marcado por “repetidas encenações” e por discursos dos empreendedores que priorizavam o lucro sobre o custo humano, representado pelos operários não reconhecidos.

A história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré está profundamente entrelaçada com o imaginário social que a cerca até os dias de hoje. Esta pesquisa busca enfatiza a importância da ferrovia não apenas sob o prisma econômico, mas, sobretudo, na esfera cultural. Assim, apresento um breve histórico de sua construção com o intuito de compreender a formação da identidade local, analisando as transformações históricas e as práticas de patrimonialização promovidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

2.1 ESTRADA DE FERRO MADEIRA-MAMORÉ: UM BREVE HISTÓRICO

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (E.F.M.M.) é um projeto que se destacou por seus elevados custos e pela complexidade dos acordos internacionais, além de envolver empréstimos de capital estrangeiro. Segundo o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, desde 1867, com o “Tratado de Amizade, Limites, Navegação, Comércio e Extradição” entre Brasil e Bolívia, havia uma intenção de construir uma estrada de ferro ou de rodagem que pudesse superar as partes do rio Madeira e Mamoré que eram repletas de cachoeiras, os quais dificultavam significativamente o custo da importação e exportação de mercadorias entre os dois países.

Embora diversas tentativas tenham sido feitas anteriormente, foi somente no início do século XX que a construção de uma ferrovia binacional se tornou viável, com a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903, onde Brasil e Bolívia se comprometeram a resolver o litígio referente à posse da área que hoje corresponde ao estado do Acre. 

Dentro desse contexto de disputa territorial, o governo brasileiro lançou uma concorrência pública para a construção da ferrovia, a qual era considerada essencial para o escoamento da borracha, que era o principal produto de exportação do Brasil. O transporte fluvial da época sofria com altos custos e desencadeava sacrifícios de vidas – especialmente de indígenas brasileiros e bolivianos – além de resultar na perda de mercadorias. O engenheiro Joaquim Catrambi venceu a concorrência para a construção da ferrovia. Por meio de acordos com o empresário Percival Farquhar, Catrambi atribuiu a administração da ferrovia à Madeira-Mamoré Railway Company, fundada por Farquhar, estabelecendo assim as bases para a operação da E.F.M.M: 

Justificou o investimento na arriscada EFMM porque as 40 mil toneladas de borracha exportadas pela Amazônia representavam 90% da produção mundial, gerando 1,50 dólar por libra de borracha adquirida pelas indústrias de eletricidade e de pneus de automóveis, em franca expansão. A produção das seringueiras asiáticas era de apenas 1.500 toneladas e parecia não constituir ameaça (GAULD, 2006, p. 179).

A construção da ferrovia teve seu ponto de início na vila de Santo Antônio, devido à sua localização natural que marcava o fim do trecho encachoeirado do rio Madeira. Contudo, enfrentando problemas de insalubridade e complicações no porto, a empresa optou por iniciar as obras em um local a sete quilômetros da vila, onde foram concentrados os estabelecimentos industriais e a infraestrutura necessária para garantir as condições de produtividade do trabalho (FONSECA, 1998). A narrativa da cidade de Porto Velho está intrinsecamente ligada à história da ferrovia, uma vez que as principais estruturas do complexo tombado da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, incluindo galpões e oficinas, estão integradas ao espaço urbano dessa cidade.

A cidade de Porto Velho nasceu exatamente assim, como novo marco inicial escolhido para a ferrovia, a partir das instalações da empresa construtora; podemos imaginar essa futura capital da fronteira oeste brasileira surgindo de uma estação ferroviária que marcava o ponto de partida da linha, além das oficinas mecânicas, de 18 um cais muito bem localizado no rio Madeira e das primeiras casas do pessoal técnico-administrativo. Ao mesmo tempo, sua condição de cidade ainda não se distinguia muito bem; pois permanecia, nesse momento, a rigor, como núcleo isolado sob controle e jurisdição de uma empresa privada, algo distante do conceito formal de espaço público (HARDMAN, 2005, p. 167).

A futura cidade de Porto Velho se desenvolveu gradualmente como um centro econômico regional, a partir da instalação de oficinas, armazéns e moradias para os operários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Segundo o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, havia a expectativa inicial de que a cidade seria apenas um ponto de transbordo de cargas, e que seriam impostas dificuldades para a residência de pessoas não diretamente associadas à ferrovia (FERREIRA, 2005).

Com o aumento do investimento de capital, a ferrovia começou a atrair um grande número de trabalhadores de diversas nacionalidades. A construção da ferrovia levou ao crescimento econômico e demográfico significativo da cidade de Porto Velho, que se tornou o local da estação inicial e do centro administrativo da empresa. Assim, a expansão populacional não foi o fator que possibilitou a realização do empreendimento industrial, mas, na verdade, ocorreu o contrário (FERREIRA, 2005).

A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré teve início em 1908, durante o governo de Affonso Penna, e representa um dos mais significativos eventos na história da ocupação da Amazônia, simbolizando a intenção de integrá-la ao comércio global. A obra contou com a participação de trabalhadores de diversos países, incluindo Espanha, Barbados, Trinidad, Jamaica, Panamá e Colômbia, além de um contingente maior de brasileiros, que eram em sua maioria, acompanhados por italianos, franceses, indianos, húngaros, poloneses, dinamarqueses e gregos (GARCIA, 2009).

Destinada a viabilizar o transporte de borracha e outros produtos da Amazonia até os portos do Atlântico, a ferrovia enfrentou desafios ao longo do tempo, como a queda nos preços do látex no mercado internacional e a competição de outras ferrovias localizadas no Chile e na Argentina, além do Canal do Panamá, que entrou em operação em 15 de agosto de 1914 (ALENCAR, 2012).

Após uma série de prejuízos financeiros, em 1919, Percival Farqhuar transferiu suas ações para investidores britânicos, os quais, em virtude de um contrato com o governo brasileiro, foram obrigados a gerir a ferrovia durante doze anos. Em junho de 1931, a empresa inglesa suspendeu o tráfego entre Porto Velho e Guajará-Mirim, alegando perdas decorrentes da redução do comércio de borracha. (FONSECA, 2017).

Passados dez dias sem retomada das operações, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foi nacionalizada em 10 de julho de 1931, através do Decreto Lei nº 20.200, que conferia ao Governo Federal o controle total da ferrovia, delegando a gestão ao capitão Aluízio Pinheiro Ferreira, que se tornou o primeiro diretor brasileiro da empresa. Sob a administração do Ministério da Justiça, a ferrovia enfrentou prejuízos contínuos (ALENCAR, 2012).

Em 1957, a Estrada de Ferro passou a fazer parte da Rede Ferroviária Federal, instituída por meio da Lei nº 3.115, com o intuito de facilitar o desenvolvimento socioeconômico através do transporte ferroviário, operando por mais de 40 anos até ser desativada em 1998 pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Durante o governo do marechal Castello Branco, em 25 de maio de 1966, o Decreto nº 58.501 transferiu a responsabilidade pela ferrovia para a Diretoria de Vias de Transporte do Ministério da Guerra, prevendo a desativação devido à sua condição de “antieconômica” (ALENCAR, 2012).

A partir de 1º de julho de 1972, sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici, a ferrovia foi oficialmente encerrada, com o tráfego completamente interrompido, e iniciou-se a construção da rodovia BR-364 como substituta. Com o fim das operações, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tornou-se um símbolo de sucateamento e perda, enquanto o discurso de “progresso” e “modernidade” passou a estar associado às rodovias, relegando as ferrovias a um status de atraso. Essa transição trouxe profundas mudanças sociais para a população ligada ao “passado do trem”, gerando um novo cenário recheado de lutas para preservar os ramais ferroviários e o que restava da memória ferroviária dos trabalhadores (FERREIRA, 2005).

2.2 VESTÍGIOS FÍSICOS E SIMBÓLICOS DA ESTRADA DE FERRO MADEIRA MAMORÉ

Neste tópico buscou-se investigar os vestígios materiais deixados pela EFMM e suas implicações simbólicas para a memória coletiva dos portovelhenses. Este tópico abordará a importância das estruturas, paisagens e documentos associados à ferrovia na constituição da identidade local, utilizando referência às obras de Pacheco (2020) e outros estudiosos.

O projeto de revitalização e restauração da EFMM, iniciado em 2007, foi criado com o objetivo de redefinir os usos dos espaços desse patrimônio, conectando-os à economia local e promovendo o turismo em Porto Velho. No entanto, na prática, surgiram diversos obstáculos que impediram a realização de um dos principais objetivos do projeto: integrar a memória dos antigos ferroviários às exigências do mercado, buscando assim uma convivência entre a revitalização de uma identidade e a preservação do espaço da EFMM (ALENCAR, 2012).

Segundo Pacheco (2020) a execução do projeto com foco turístico acabou resultando na alteração significativa das características originais do complexo ferroviário. Isso refletiu a tendência do poder público local de priorizar o novo e o moderno sobre o patrimônio histórico, um fenômeno que se intensificou devido às transformações capitalistas que marcaram Porto Velho nas últimas décadas. Essa abordagem levou à adoção de uma variedade de estilos com a intenção de modernizar, mas que, na prática, resultou na degradação e até na destruição do patrimônio.

Esse problema é evidente em espaços revitalizados pela administração local, como o antigo mercado municipal, que foi demolido e substituído por uma versão simulada do original. De acordo com Borzacov, essa situação ilustra as contradições enfrentadas na busca por um equilíbrio entre preservação e desenvolvimento.

Em 2008, a municipalidade  derrubou  os  remanescentes  –  os  três boxes e edificou no local, o Mercado Cultural, inaugurado em 15 de maio  de  2009  (…).  Mesmo sendo  uma  pálida  amostra do  Mercado Público  Municipal, ‘sem  nenhum  valor  histórico’,  como  Alberto Bertagna assim se expressou (BORZACOV, 2016, p. 99).

Em decorrência de intervenções inadequadas e da falta de atenção do poder público ao longo do tempo, uma parte significativa dos componentes ferroviários da EFMM, que fazia parte do cotidiano de Porto Velho, acabou sendo suprimida pelo desenvolvimento (PACHECO,2020). Neste contexto, o progresso “absorveu” esses elementos, sufocando-os e destruindo-os, assim como ocorreu com outras construções tradicionais da cidade (BORZACOV, 2016).

É importante destacar que, ainda existe uma falta de estudos aprofundados que abordem a complexa questão que muitos autores têm levantado “como preservar”, ou seja, como identificar de forma criteriosa quais testemunhos ferroviários, relacionados ao processo de industrialização, devem ser considerados dignos de preservação para as gerações atuais e futuras (FREITE; LACERDA, 2017).

Observa-se que, através dos processos de tombamento e de valoração cultural, o entendimento do patrimônio ferroviário tem se restringido, basicamente, aos elementos físicos da arquitetura principalmente as estações ferroviárias sem considerar a lógica funcional da rede em que estão inseridas, bem como sem levar em conta o contexto territorial. É inegável que as estações possuem relevância como símbolos das memórias individuais e coletivas.

No entanto, elas, por si sós, não conseguem expressar a importância histórica e cultural do transporte ferroviário, que atuou como um propulsor do desenvolvimento, tecnológico, social, cultural e urbano de uma nação. Essa visão reducionista acerca dos elementos que compõem uma rede ferroviária tem deixado à margem do processo de preservação as paisagens industriais, as estruturas de conexão, além de fontes documentais e equipamentos, todos considerados fundamentais para entender a funcionalidade dessa rede (CORDEIRO, 2011).

É imprescindível abordar o conjunto desses elementos, especialmente as relações socioespaciais e seu funcionamento, para conhecer e tutelar os atributos que levam ao reconhecimento desses bens culturais em uma configuração em rede. Portanto, a prática reducionista tem se mostrado inadequada e insuficiente diante da complexidade funcional e da natureza específica dos artefatos ferroviários (MENEGELLO, 2011).

Como resultado, observa-se, por um lado, a perda de elementos essenciais para a compreensão do funcionamento da rede e, por outro lado, o “apagamento” de artefatos que são testemunhos da memória coletiva do trabalho e da história da configuração espacial das cidades e territórios.

Kühl (1998), ao se referir ao patrimônio da industrialização, ressalta que tais “apagamentos” não significam apenas a perda de bens materiais, mas, principalmente, o desaparecimento dos modos de produção e da organização do trabalho, que representam um legado social e cultural das comunidades. 

O patrimônio histórico que concerne à indústria é especialmente sensível por ocupar, geralmente, vastas áreas em centros urbanos e sua obsolescência e falta de rentabilidade tornam bastante delicada a questão de sua preservação. Desaparecem não apenas os edifícios industriais em si, mas também os vestígios dos produtos ali fabricados, dos métodos de produção, das condições de trabalho e moradia do operariado, das relações sociais e espaciais em uma cidade ou região (KÜHL, 1998).

Explorar essa trajetória histórica é fundamental para perceber como as memórias associadas à ferrovia são incorporadas nas identidades locais contemporâneas. Muitas vezes, os indivíduos e grupos sociais se apropriam dos vestígios materiais deixados pela ferrovia, transformando-os em ícones de pertencimento e resistência. Portanto, a pesquisa não apenas resgata a importância da Estrada de Ferro Madeira Mamoré como um componente central da memória cultural da região, mas também propõe uma reflexão crítica sobre o papel do patrimônio na construção de subjetividades e identidades no presente.

Ademais, é crucial que esse estudo contribua para o reconhecimento e a valorização do patrimônio ferroviário como um recurso significativo não apenas para a academia, mas também para as políticas públicas voltadas ao turismo e à educação. O entendimento das narrativas identitárias, que emergem a partir da interação com elementos patrimoniais, pode orientar a elaboração de estratégias que promovam a preservação e a divulgação do patrimônio cultural regional, estimulando, assim, um turismo responsável e consciente que respeite e valorize a história local. 

2.2 NARRATIVAS E MEMÓRIAS COLETIVAS 

O processo de patrimonialização da ferrovia foi influenciado por representantes do poder político, tanto em níveis nacional quanto central, além de intermediários que conectaram diferentes esferas de decisão e a distribuição de recursos disponíveis. Também houve a atuação de profissionais do campo acadêmico e científico, tanto em âmbito nacional quanto local, que enxergaram nos projetos de preservação uma oportunidade de ampliar seu mercado de trabalho e avançar em suas carreiras.

Além desses grupos, há uma parte da comunidade que se sente ligada a esse patrimônio cultural, com experiências que conferem significado a esse espaço. Os trabalhadores da ferrovia estão incluídos nesse cenário, como aqueles que reivindicam o reconhecimento de sua profissão e que possuem o conhecimento necessário para implementar as ações de recuperação e conservação da estrada de ferro(ALENCAR, 2012).

A preservação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (E.F.M.M.) para os trabalhadores do setor ferroviário está relacionada a narrativas que evocam a memória vivida, expressa através de objetos que simbolizam suas experiências no ambiente de trabalho. Essa reflexão ocorre em espaços que valorizam a autoestima, evidenciando a importância social do patrimônio cultural. Envoltos pelo processo de patrimonialização, esses trabalhadores se esforçam para proteger elementos que estavam em risco devido às políticas de modernização e urbanização implementadas pelas autoridades públicas.

A refuncionalização do passado que as políticas urbanas promovem adquire formas diversas. Oscilando entre a reativação, e reinvenção e a idealização, os processos de patrimonialização manifestam-se quando uma consciência patrimonial e o patrimônio subsistem uma identidade vivida e partilhada, ou quando uma identidade é branqueada, depurada ou imaginada. Mas o patrimônio não corresponde necessariamente à versão mais essencialista de uma identidade. Elementos da vida quotidiana, propositadamente concebidos para funcionarem como identificadores, não estão, muitas vezes, protegidos pela logística de conservação que define o espírito da indústria do patrimônio (PEIXOTO, 2004, p. 184-185).

Os trabalhadores ferroviários, que têm uma conexão profunda com suas experiências passadas, atribuem um valor significativo aos objetos relacionados ao seu ofício, considerando que esses itens são mais valorizados na medida em que continuam a cumprir sua função original de manter a ferrovia em operação, ou seja, sua utilidade prática.

Esse entendimento fortalece a importância da preservação desse patrimônio cultural, pois envolvem de maneira mais ativa as práticas cotidianas dos trabalhadores, ao invés de se limitar à musealização dos bens culturais da ferrovia para responder a necessidades de outros segmentos da sociedade.

Atualmente, a ferrovia está assumindo uma nova forma como patrimônio cultural brasileiro, por meio de iniciativas preservacionistas promovidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Essas iniciativas estão inseridas em um contexto onde novos projetos estão sendo desenvolvidos para dar novos usos ao complexo ferroviário (ALENCAR, 2012).

Quando são estabelecidas políticas preservacionistas, que têm como foco principal fomentar o turismo relacionado a esse patrimônio cultural, é essencial que exista uma conexão pré-existente de identidade e memória com a comunidade local, sustentada por projetos de educação patrimonial e por uma articulação efetiva entre as políticas de patrimônio e outras políticas públicas (ALENCAR, 2012). Assim, as diretrizes voltadas para o patrimônio devem ser construídas de maneira mais democrática, envolvendo mediações e negociações, e devem refletir o significado que o patrimônio cultural tem para a população, respeitando os diferentes modos como ele é utilizado pela sociedade.

O complexo ferroviário tombado da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, atualmente, se configura como um espaço público que recebe investimentos provenientes de compensações geradas por projetos hidrelétricos no rio Madeira, seguindo o que foi estabelecido no Termo de Ajustamento de Conduta para revitalização e restauração (ALENCAR, 2012).

À medida que esse complexo deixa para trás seu estado de abandono e é integrado a uma nova realidade voltada para investimentos turísticos, surgem novas expectativas de diferentes grupos sociais em relação a esses locais. Há uma clara demarcação no espaço físico do complexo ferroviário, onde representantes do poder público e outros atores sociais buscam estabelecer seus próprios territórios, criando fronteiras e definindo critérios de pertencimento (PEIXOTO, 2004).

Entretanto, esses espaços se inserem em uma complexa rede de relações de poder dinâmicas, que envolvem diversos interesses e muitas vezes se mostram unilaterais, onde a gestão do patrimônio cultural é liderada pelo órgão responsável, que neste caso é a Prefeitura de Porto Velho. O conceito de patrimônio cultural reflete o nível de valorização atribuído a determinados bens culturais dentro de uma política de reconhecimento e valorização. Nesse sentido, o patrimônio cultural deve ser encarado como uma construção social, intimamente ligada às estratégias de poder e aos discursos que emergem entre o Estado e os sujeitos que o configuram, mantêm e reconfiguram (ALENCAR, 2012).

O reconhecimento dos bens culturais a serem patrimonializados está intimamente associado aos conceitos de identidade e diferença, que se entrelaçam de forma indissociável (PEIXOTO, 2004). A identidade de um bem implica sua distinção em relação a outros, de modo que a preservação do patrimônio cultural pode ter grande importância para certos grupos, mas não necessariamente para outros. 

As particularidades da memória refletem o cotidiano de uma época, dando sentido ao presente e contribuindo para a formação de uma identidade tanto individual quanto coletiva. Lembrar não equivale a reviver o passado, mas sim a reconstruí-lo e reflexionar sobre ele. A  memória é um processo social que resulta das interações sociais e institucionais que moldam e redefinem indivíduos e seus grupos ao longo do tempo.

2.3  RELAÇÃO ENTRE PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E PRÁTICAS CULTURAIS CONTEMPORÂNEAS

 A relação entre o patrimônio ferroviário e as práticas culturais contemporâneas em Porto Velho é rica e multifacetada, refletindo as vivências e a identidade dos trabalhadores que, por tanto tempo, estiveram ligados à Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O patrimônio ferroviário, além de ser um testemunho da história e do desenvolvimento da região, serve como um espaço onde diferentes manifestações culturais podem prosperar. As festividades locais, por exemplo, frequentemente incorporam elementos da herança ferroviária, celebrando as contribuições de antigos ferroviários e trazendo à tona memórias coletivas associadas ao cotidiano dessa atividade.

 Neste ano de 2025, ocorreu um evento denomindado de “uma noite no múseu”  que contou a história de Porto Velho de forma interativa na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré no dia 16 e 17 de maio em alusão ao dia do museu.  Também ocorreu em Porto Velho o FestivalMadeira-Mamorérealizado entre 1 e 3 de agosto de 2025 que comemorou os 113 anos da EFMM, oferecendo música, cultura e encontros no Complexo (PREFEITURA DE PORTO VELHO, 2025).

As expressões artísticas também encontram inspiração nesse patrimônio, com artistas locais utilizando a ferrovia como pano de fundo para suas obras, seja por meio da música, da dança ou das artes visuais. Esse intercâmbio se reflete em eventos culturais que não apenas homenageiam a história ferroviária, mas também promovem uma reflexão sobre o passado e o futuro da cidade. Assim, as práticas culturais contemporâneas tornam-se um veículo para a preservação da memória ferroviária e uma maneira de engajar a comunidade em discussões sobre identidade e pertencimento (PREFEITURA DE PORTO VELHO, 2025).

Além disso, a valorização do patrimônio ferroviário abre caminhos importantes para o turismo consciente. O desenvolvimento de políticas que promovem a preservação e a revitalização do complexo ferroviário não apenas atrai visitantes, mas também educa a população local sobre a importância de sua história. Essas iniciativas visam estabelecer uma conexão mais profunda entre os moradores e seu patrimônio, transformando o complexo ferroviário em um espaço de aprendizado e resgate cultural.

Entretanto, a implementação dessas políticas deve ser acompanhada de um diálogo constante com a comunidade, garantindo que as vozes dos trabalhadores e dos cidadãos locais sejam ouvidas e respeitadas. Dessa forma, o patrimônio ferroviário pode se tornar um símbolo de resistência e de identidade, refletindo as histórias de aqueles que laboraram nas trilhas da ferrovia e contribuíram para o desenvolvimento da região.

Em suma, a relação entre o patrimônio ferroviário e as práticas culturais em Porto Velho destaca a importância da preservação histórica e sua capacidade de integrar a comunidade em um processo de revalorização e identidade coletiva. As ações voltadas para a promoção desse patrimônio não devem apenas focar em um lucro econômico, mas buscar de maneira integral o fortalecimento da identidade local e a participação efetiva dos indivíduos que compõem essa rica tapeçaria cultural. 

3. METODOLOGIA 

 O presente estudo se configura como uma investigação que utiliza abordagens historiográficas e documentais, com o objetivo de aprofundar a compreensão sobre a problemática em questão. A pesquisa focou em obras e teorias que discutem o mesmo gênero, buscando assim identificar e analisar as contribuições teóricas mais relevantes sobre o tema. Segundo Cellard ( 2012, p. 296).“[…] a história social ampliou consideravelmente a noção de documento. 

Tudo o que é vestígio do passado, tudo o que é considerado como testemunho, é considerado como documento”. Dessa forma deve se considerar que  “o documento é monumento”, ou seja, que ele “[…] resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro — voluntária ou involuntariamente — determinada imagem de si próprias” (LE GOFF, 1996, p. 538). 

Nesse sentido, cabe ressaltar que “[…] os documentos podem ser interessantes tanto pelo que deixam de fora assim como pelo que contêm. Eles não refletem simplesmente, mas também constroem a realidade social e as versões dos eventos” (May, 2004, p. 213).

Através da revisão cuidadosa de documentos e a interpretação crítica de textos históricos e contemporâneos, o estudo pretendeu mapear as diferentes perspectivas que surgiram ao longo do tempo. Essa análise permitiu não apenas uma visão mais abrangente do assunto, mas também a identificação de lacunas e debates que ainda permanecem em aberto na literatura existente. Dessa forma, o trabalho contribui para um entendimento mais robusto e fundamentado sobre as principais questões relacionadas ao gênero em questão, promovendo uma reflexão crítica sobre as influências e implicações das teorias estudadas. 

A pesquisa se fundamentou em autores como Pierre Nora, com sua teoria sobre os lugares de memória. Também foram considerados conceitos sobre patrimônio cultural e suas reflexões sobre a preservação da memória coletiva.  Abordará o conceito do historiador Michale Pollak (1898 e 1992), sobre a importância da memória individual e coletiva e a construção de identidade social. Nessa mesma linha de pesquisa será utilizado o conceito do historiador Jacques Le Goff (1990), que aborda os vínculos de memória entre as gerações humanas. Também contará com a contribuição dos autores Pedro Paulo Funari e Peregrini (2009),  que abordará  sobre a construção do conceito de patrimônio histórico e cultural.

 A revisão bibliográfica incluiu estudos sobre o impacto da  ferrovia na identidade cultural de comunidades e o legado histórico da construção da Estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré  em contextos regionais. Para tanto, buscará embasamento sobre os vestígios físicos e memória  em obras como de Pacheco (2020)  que enfoca  nos impactos das restaurações sobre  o patrimônio histórico da EFMM,  revelando uma experiência estética que evoca a memória e a ambiência cultural da ferrovia e  fundamenta-se nas teorias de Gumbrecht e Adorno, destacando a presença do passado através dos objetos históricos.  Logo a baixo será apresentado as principais referências que embasaram o estudo e  ajudaram a solucionar o problema apresentado na presente pesquisa. O quadro teórico aborda: ano, autores,  titulo da obra e conceito da obra.

Quadro 1  Quadro teórico com a descrição das principais referências a serem utilizadas no estudo proposto

ANO AUTORES   TÍTULO DA OBRA   CONCEITO DA OBRA
11993Nora, p; Aun Khoury, T.Y“Entre memória e história: a problemática dos lugares”  A problemática central reside na tensão entre a subjetividade da memória e a objetividade da história, questionando a veracidade e a interpretação dos eventos passados. Assim, o texto convida à reflexão sobre como a memória molda a compreensão histórica e a identidade coletiva.
21990Le Goff, J“História e Memória”A memória acaba por estabelecer um vinculo entre as gerações humanas e o tempo histórico que as acompanha. Esse vinculo que se torna afetivo, possibilita que essa população passe a se enxergar como sujeitos da história, que possuem assim direitos como, também deveres para com a sua localidade.
31992POllak, M“Memória e Identidade Social”A memória individual, ou lembranças pessoais, também conhecidas como História Oral, refere-se a narrativas de vida, seja de indivíduos ou grupos, que se configuram como uma nova área de pesquisa. Essas narrativas são construídas a partir de relatos e englobam memórias vividas por tabela, um fenômeno que ocorre quando uma pessoa não testemunha diretamente um evento, mas assimila as experiências de um grupo ao qual pertence. Essa memória pode ser considerada uma espécie de legado, especialmente quando o evento ou período influenciou negativamente a sociedade. 
42009FUNARI, P. P.; PELEGRINI,Patrimônio Histórico e Culturalo patrimônio individual referese aos bens e conhecimentos transmitidos como herança, englobando desde imóveis até objetos de valor sentimental. Por outro lado, o patrimônio coletivo é caracterizado pela diversidade de percepções sobre o que constitui valor, evidenciando o conflito de interesses entre governantes e a sociedade. Essa dualidade ressalta a importância de se considerar a evolução do patrimônio ao longo do tempo e entre diferentes grupos sociais.  
62020Pacheco, A.Restauração, ruínas e experiência estética na estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré em Porto Velho (2007- 2017)  A obra analisa a estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré em Porto Velho, Rondônia, enfocando os impactos das restaurações sobre seu patrimônio histórico. Explora como as falsificações estéticas desses processos interagem com as ruínas da estação, revelando uma experiência estética que evoca a memória e a ambiência cultural da ferrovia. O estudo fundamenta-se nas teorias de Gumbrecht e Adorno, destacando a presença do passado através dos objetos históricos. 
Fonte: Autoral, 2025.

A pesquisa proposta não buscou apenas aprofundar a compreensão sobre a relação entre patrimônio industrial e identidade cultural, mas também pretende ressaltar a importância da preservação da memória coletiva nas comunidades afetadas pela desindustrialização. A partir das teorias de autores renomados como Pierre Nora, Michale Pollak e Jacques Le Goff, será possível entender como a memória individual e coletiva se entrelaçam na construção da identidade social.

Além disso, ao abordar o legado da Estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e as reflexões acerca da restauração do patrimônio histórico, a pesquisa estará contribuindo para um diálogo mais amplo sobre a salvaguarda do patrimônio industrial e sua relevância nas narrativas culturais contemporâneas. As referências apresentadas servirão como alicerces teóricos que subsidiam a investigação e proporcionam uma base sólida para a compreensão das complexidades envolvidas nesse tema.   

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações finais desta pesquisa reafirmam a importância da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) não apenas como um marco histórico, mas também como um elemento vital na formação da identidade cultural das comunidades de Porto Velho. O estudo envolveu uma análise aprofundada de como os vestígios dessa ferrovia, sua história e as memórias associadas a ela moldam a vivência e as práticas contemporâneas da população local.

Em primeiro lugar, a pesquisa buscou responder à questão de como o patrimônio histórico da EFMM contribui para a construção da identidade das comunidades locais. Observou-se que a ferrovia é vista como um símbolo de progresso e resistência, profundamente enraizado na história de Porto Velho e que ainda ressoa na cultura contemporânea. Essa identificação é suportada por dinâmicas culturais que emergem das narrativas de antigos trabalhadores ferroviários e da comunidade em geral, que se sentem conectados a esse legado.  Além disso, a pesquisa abordou a relação entre o patrimônio ferroviário e as práticas culturais atuais, destacando o quanto eventos e festividades locais incorporam elementos da herança ferroviária, servindo como formas de reconhecimento e valorização dessa história. O Festival Madeira-Mamoré e eventos como “Uma Noite no Museu” exemplificam como essas práticas culturais não apenas celebram a memória da ferrovia, mas também estimulam o sentimento de pertencimento e a construção de uma identidade coletiva forte, que resiste às transformações urbanas e sociais.

Outro ponto crucial abordado foi a questão das políticas de preservação e revitalização implementadas a partir de 2007. Apesar das intenções de promover um turismo consciente e de integrar a memória ferroviária às exigências do mercado, o projeto enfrentou diversos obstáculos. As intervenções e adaptações realizadas muitas vezes priorizaram investimentos modernos em detrimento da conservação do patrimônio original, resultando em uma perda de caráter e autenticidade em vários espaços do complexo ferroviário. Essa situação ressalta a necessidade urgente de adotar uma abordagem mais democrática e integrada nas diretrizes de preservação, que considere as vozes da comunidade local e os significados que esses bens culturais têm para ela.

A pesquisa historiográfica ainda destacou que o reconhecimento dos bens culturais a serem patrimonializados está intimamente relacionado aos conceitos de identidade e diferença, o que implica que a valorização do patrimônio pode significar aspectos distintos para diferentes grupos sociais.

Portanto, está pesquisa buscou reafirmar que o patrimônio ferroviário, especificamente a EFMM, não é apenas um testemunho do desenvolvimento econômico da região, mas um elemento social e cultural dinâmico que compõe a construção da identidade de Porto Velho. É essencial que as futuras políticas de patrimônio reexaminem essas narrativas e práticas, respeitando a memória coletiva e promovendo um diálogo contínuo entre o passado e o presente, a fim de garantir que a ferrovia continue a desempenhar um papel significativo na identidade das comunidades locais. Continuar a promover o turismo de forma consciente e integrada pode ser uma forma de honrar esse legado, ao mesmo tempo em que se nutre um senso de pertencimento e resistência entre as gerações atuais e futuras.

REFERÊNCIAS

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1Graduado em Geografia e Pedagogia pela Universidade Federal de Rondônia /UNIR. Mestrando em História da Amazônia pela Universidade Federal de Rondônia.