EFEITOS DO EXERCÍCIO NO TROFISMO E QUALIDADE DE VIDA DE DO PACIENTES RENAIS CRÔNICOS DURANTE A HEMODIÁLISE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509062250


Melissa Cristina da Silva Mamede1; Gabrielly Waleska Silva de Souza2; Vera Klyvia de Sousa da Silva3; Noemia dos Santos Dias4; Luis Felipe Pantoja Siqueira5; Vinicius Rodrigues dos Reis Amorim6; Carmem Orlandina Gonçalves Figueiredo7; Sarah Maria dos Santos Nunes8; Armando Filho Gonçalves da Silva9; Maria Jackeline Dias Maciel10; Rodrigo Fernandes de Carvalho11; Axell Lins12


Resumo

Introdução: A doença renal crônica é caracterizada pela deterioração progressiva da função renal, e essa progressão está frequentemente associada a sintomas físicos, como fadiga, cãibras musculares, dores ósseas e edema de membros inferiores, os quais comprometem a qualidade de vida dos pacientes, sendo assim, o exercício pode dar uma maior sobrevida, além de benefícios metabólicos, fisiológicos e mentais Objetivo: Analisar os efeitos do exercício durante o período intradialítico, no trofismo e qualidade de vida de doentes renais crônicos Métodos: o presente estudo se configura como um ensaio clínico randomizado, cego, corte prospectivo, longitudinal. Foi executado um protocolo de exercícios com cicloergômetro em pacientes durante cada sessão de hemodiálise, 3 vezes por semana por 8 semanas. Onde foram divididos em 2 grupos: Grupo Intervalado e grupo Controle, ambos iniciaram com avaliação diafragmática de taxa de espessamento, a partir dos dados obtidos se avaliou o grau de trofismo do músculo diafragma e sua contratilidade, sendo avaliadas também a força muscular respiratória inspiratória e expiratória através do manovacuômetro. Resultados: Ademais, os indivíduos do G1 foram submetidos a exercícios físicos no cicloergômetro, já os indivíduos do G2 não receberam essa abordagem. Conclusão: Evidenciamos que a incorporação do exercício físico da musculatura respiratória intradialítico se mostrou uma estratégia promissora para a melhoria do estado clínico desses pacientes, resultando em benefícios tanto no aspecto metabólico quanto no funcional quando comparado aos pacientes que não praticaram nenhum tipo de exercício físico durante as sessões de diálise. 

Palavras-chave: Diálise Renal, Exercício Físico, Qualidade de Vida, Força Muscular.

Abstract

Introduction: Chronic kidney disease is characterized by progressive deterioration of renal function, and this progression is often associated with physical symptoms such as fatigue, muscle cramps, bone pain, and lower limb edema, which compromise patients’ quality of life. Therefore, exercise can improve survival, in addition to providing metabolic, physiological, and mental benefits. Objective: To analyze the effects of exercise during the intradialytic period on the trophism and quality of life of chronic kidney patients. Methods: This study is a randomized, blinded, prospective, longitudinal clinical trial. A cycle ergometer exercise protocol was performed on patients during each hemodialysis session, three times a week for eight weeks. They were divided into two groups: the Interval Group and the Control Group. Both began with diaphragmatic thickening rate assessment. Based on the data obtained, the degree of diaphragm trophism and its contractility were assessed. Inspiratory and expiratory respiratory muscle strength were also assessed using a manometer. Results: Furthermore, individuals in G1 underwent physical exercise on a cycle ergometer, while individuals in G2 did not receive this approach. Conclusion: We demonstrated that incorporating intradialytic respiratory muscle exercise proved to be a promising strategy for improving the clinical status of these patients, resulting in benefits in both metabolic and functional aspects when compared to patients who did not practice any type of physical exercise during dialysis sessions.

Keywords: Renal Dialysis, Exercise, Quality of Life, Muscler Contraction.

1. INTRODUÇÃO

A Doença Renal Crônica (DRC) é caracterizada pela deterioração progressiva da função renal, resultando na retenção de substâncias nitrogenadas no sangue e no acúmulo de toxinas que deveriam ser excretadas pelo organismo (Mishra et al., 2022). E essa progressão está frequentemente associada a uma ampla gama de sintomas físicos, como fadiga, cãibras musculares, dores ósseas, edema de membros inferiores, desidratação e problemas gastrointestinais, os quais comprometem a qualidade de vida dos pacientes e exigem adaptações em suas rotinas e planos futuros (Shedden-Mora; Abdel-Kader, 2022).

Entre as principais causas da DRC, destacam-se a hipertensão e a diabetes, condições que frequentemente levam à falência renal e à necessidade de terapia renal substitutiva. Nesse contexto, a hemodiálise é a modalidade mais empregada, abrangendo 91% dos casos, sendo responsável pela filtração do sangue por meio de um dialisador (Lockridge; Bennett; Olyaei, 2023; Oliveira; Santos, 2021).

Para tanto, além dos desafios físicos, os pacientes com DRC enfrentam dificuldades emocionais, sociais e econômicas significativas, visto que, a Terapia de Hemodiálise (HD) compromete não apenas a saúde física, mas também a qualidade de vida, a função respiratória e a capacidade de sustento econômico dos indivíduos (Shaik; Sechassayana; Kalidoss, 2023). E esse impacto físico e emocional contribui para uma piora geral na qualidade de vida, aumentando a necessidade de intervenções terapêuticas mais eficazes.

Por conseguinte, o transplante renal é considerado o tratamento padrão-ouro para pacientes com DRC em estágio final. Esse procedimento cirúrgico transfere um rim saudável para o receptor, visando restaurar a função renal (Kochhann; Figueiredo, 2020). E ainda segundo os autores, comparado à hemodiálise, o transplante é a melhor opção terapêutica em termos médicos, sociais e econômicos, proporcionando maior sobrevida a longo prazo e melhor qualidade de vida.

Cabe ressaltar que a hemodiálise continua sendo uma intervenção crucial para inúmeros pacientes com DRC, no entanto, é necessário fomentar a discussão acerca de intervenções durante a HD que visem a manutenção e melhoria da capacidade funcional e qualidade de vida desses pacientes, como a intervenção fisioterapêutica que visa empregar exercícios de força muscular dos membros inferiores aliados ao treinamento da musculatura respiratória.

De acordo com Bastos, Oliveira Ferreira e Silva (2023) o exercício físico pode mudar a morbidade e a sobrevida dos pacientes renais crônicos, além de proporcionar benefícios metabólicos, fisiológicos e mentais, sendo que, os exercícios executados durante a hemodiálise, quando devidamente orientados, são adequados e seguros para esses pacientes, embora ainda não tenham se tornado rotina nos centros de hemodiálise.

Já segundo Moraes e Cunha (2022) a reabilitação fisioterapêutica durante a HD apresentou efeitos positivos em diversos domínios físicos e de qualidade de vida dos pacientes, e esses benefícios são evidenciados principalmente no sistema musculoesquelético, com melhora na força de musculatura periférica e diminuição do processo de sarcopenia. Ou seja, em consequência dos efeitos gerados pela diálise, a Fisioterapia melhora a capacidade funcional desses indivíduos com destaque para a locomoção e tolerância às atividades de vida diária (Cunha et al., 2023).

E tendo em vista os aspectos citados acima, a presente pesquisa teve como objetivo geral aprimorar as intervenções e abordagens fisioterapêuticas durante a terapia de Hemodiálise, e especificamente analisar os efeitos do exercício físico no período intradialítico, bem como, verificar estratégias de melhoria da força muscular e qualidade de vida do paciente renal crônico propiciando um bom prognóstico a esses pacientes com doença renal crônica.

2. MÉTODO 

2. 1 DELINEAMENTO DO ESTUDO

A presente pesquisa se trata de um ensaio clínico randomizado, cego, coorte prospectivo, longitudinal. Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade da Amazônia, pelo parecer de número 6.567.417/2023. Seguindo ainda os preceitos éticos de acordo com as normas de pesquisas com seres humanos do Conselho Nacional de Saúde 466/2012.

2.2 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS 

O estudo foi realizado no setor de hemodiálise do Hospital Regional Dr. Abelardo Santos (HRAS) na cidade de Belém-PA, Brasil, sendo que a coleta de dados foi realizada nos meses de março a setembro de 2024.

O processo de captação dos pacientes ocorreu no setor de hemodiálise, abrangendo os quatro turnos de atendimento, para tanto, o projeto foi previamente apresentado à equipe multidisciplinar, incluindo médicos, enfermeiros e demais profissionais envolvidos no cuidado dos pacientes. 

Através do auxílio da equipe de enfermagem e do médico responsável foi realizada uma reunião explicativa, na qual os pacientes foram informados sobre os objetivos e o formato do projeto, destacando-se a importância de sua participação e os possíveis benefícios para sua saúde. 

Após a aceitação dos pacientes e assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e assim, foram randomizados através do software Randomizer®, independentes de gêneros, cor, raça, etnia e classe social durante a sessão de hemodiálise de acordo com a avaliação da equipe multiprofissional do setor. Sendo divididos em 2 grupos G1 (Grupo Intervalado) e G2 (Grupo Controle).

Cabe salientar que como critérios de inclusão, foram selecionados pacientes com idade ≥ 18 anos, hemodinâmicamente estáveis, frequência cardíaca > 60 bpm e < 130bpm; Pressão arterial sistólica > 90mmHg < 180mmHg; Pressão arterial média > 60mmHg < 120mmHg. Do ponto de vista respiratório, os critérios de inclusão serão: frequência respiratória > 10irpm e < 25irpm e saturação periférica de oxigênio > 88%. Temperatura corporal < 38,5°; glicemia > 70 ou < 200 mg/dl; lactato < 2 mmol/l; hemoglobina ≥ 7 g/dl; Plaquetas ≥ 50.000 cel/mm3. 

Já quanto aos critérios de exclusão, foram excluídos da pesquisa os pacientes com amputação de membros inferiores, em uso de oxigenoterapia, com lesão por pressão sacral, infecções ativas ou oclusão da fístula arteriovenosa.

2.2.1 AVALIAÇÃO DA FORÇA MUSCULAR RESPIRATÓRIA

Foi realizado manovacuometria com o aparelho Manovacuômetro Analógico InspiraMed® +-300 com o paciente executando três inspirações máximas e três expirações máximas. Após registrar os valores obtidos em cada tentativa, foi calculada a média dos resultados, que foi descrita como a Pimáx (Pressão Inspiratória Máxima) e Pressão Expiratória Máxima (Pemáx), com o objetivo de avaliar a força muscular respiratória dos participantes.

2.2.2 AVALIAÇÃO ULTRASSONOGRÁFICA

Para a realização da avaliação diafragmática foi realizada primeiramente a identificação do paciente através de códigos a fim de garantir o máximo de sigilo e segurança ao paciente, sendo que o exame foi executado com o aparelho de ultrassonografia da marca Sonosite M-TURBO®

E para realização do procedimento o paciente ficou posicionado em 30 a 45° no leito e o protocolo iniciou com a Avaliação Diafragmática da Taxa de Espessamento, foi utilizado o transdutor retilíneo no plano sagital com o Probe Mark® direcionado para cabeça do voluntário. Por conseguinte, o transdutor foi posicionado sobre a zona de aposição (za) (nono espaço intercostal) e entre as linhas axilar anterior e axilar média. 

Após o avaliador descobrir os valores referentes a taxa de espessamento durante a inspiração e expiração através de 3 medidas utilizou-se a média para o cálculo da taxa de espessamento. Sendo que, a taxa de espessamento é calculada por meio da divisão da média da espessura do diafragma no momento da inspiração pela média da espessura do diafragma no momento da exalação do ar. Além desta, calculou-se  também a fração de espessamento do diafragma por meio de equação onde foi dividido o valor da média de espessura do diafragma na inspiração e subtraído pela média de espessura do diafragma na expiração após ser dividido  o resultado pela média da espessura do diafragma na expiração e multiplicado o valor por 100. 

Para igualdade das avaliações foram registrados os valores da Frequência (Hz), Pós Foco, Num Foco, Densidade, Potência e Tom claro, para assim serem repetidos na avaliação final.

2.2.3 AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA

Para avaliação da qualidade de vida foi utilizado o Questionário de Doença Renal e Qualidade de Vida Short-Form (KDQOL-SFTM), sendo utilizados nas avaliações iniciais e finais do estudo. Para tanto, este instrumento validado no Brasil compreende 80 itens, incluindo o Short Form Health Survey (SF-36) e 43 itens específicos sobre doença renal crônica (DRC). Ademais, O SF-36 avalia oito dimensões, como: capacidade física, limitações físicas, limitações emocionais, funcionamento social, saúde mental, dor, vitalidade e percepções de saúde geral. 

Já os itens relacionados à DRC são divididos em 11 dimensões, abordando sintomas, impacto na vida diária, sobrecarga, trabalho, função cognitiva, interações sociais, função sexual, sono, apoio social, estímulo da equipe de diálise e satisfação do paciente. 

Além disso, uma escala de 0 a 10 avalia a saúde geral, e os escores variam de 0 a 100, onde maiores valores indicam melhor qualidade de vida relacionada à saúde (QRVS), cabendo frisar que o instrumento também fornece pontuações resumidas para componentes físico e mental, calculadas a partir de itens específicos (PRETTO et al., 2020). 

Durante o processo de avaliação da qualidade de vida dos pacientes participantes da pesquisa, o fisioterapeuta realizou uma conversa individual com cada participante, buscando esclarecer dúvidas e promover um ambiente de confiança para garantir respostas precisas e genuínas. Sendo que, essa abordagem permitiu uma melhor compreensão das condições e percepções dos pacientes em relação à sua saúde e qualidade de vida.

2.2.4 PROTOCOLO DE EXERCÍCIO FÍSICO

O protocolo de exercícios foi estruturado de forma progressiva, em 10 sessões, aplicadas 3 vezes por semana. Realizando exercícios, em caráter intervalado, utilizando um cicloergômetro durante as primeiras duas horas da sessão de hemodiálise.

  • Primeira semana: O paciente realizava o exercício seguindo uma relação de esforço de “1 para 1”, com um tempo máximo de 5 minutos, intercalado por 1 minuto de descanso entre cada série;
  • Segunda semana: O tempo total de exercício aumentava para um intervalo de 5 a 10 minutos, mantendo 1 minuto de descanso entre as séries, com incremento gradual da frequência de uso do cicloergômetro;
  • Terceira semana: O paciente realizava o procedimento por um tempo total de 5 a 15 minutos, divididos em 4 séries. Cada série era intercalada por 1 minuto de descanso, garantindo o máximo de 15 minutos de esforço;
  • Quarta semana: O tempo de exercício variava entre 5 e 20 minutos, mantendo a divisão em séries com 1 minuto de descanso entre elas.

Essa progressão permitiu uma adaptação gradual ao esforço físico, respeitando os limites individuais de cada paciente e promovendo a melhora progressiva da capacidade física.

2.2.5 ANÁLISE DE DADOS E ESTATÍSTICA

Para o procedimento de análise de dados, inicialmente os mesmos foram organizados e processados através do método de estatística descritiva através da elaboração de planilhas do programa Excel (Microsoft Office® 365), determinando média e desvio padrão. Para tanto, a análise inferencial foi realizada após a determinação da normalidade dos dados através do teste paramétrico ANOVA e um critério com post-hoc de Tukey para análise comparativa intergrupos. 

Em todos os testes foi utilizado como significância estatística o p≤0,05 e intervalo de confiança de 95%, sendo que, os testes foram realizados no programa SPSS® 24.

3. RESULTADOS

Na presente pesquisa foram selecionados 50 pacientes, dentre eles, foram excluídos um total de 10 pacientes por: desistência do estudo (n=3); lesão de membros inferiores (n=1); óbito por complicações da doença (n=1); fratura de arco costal (n=1); desconforto respiratório com necessidade de oxigenoterapia (n=2); lesão por pressão em região sacral (n=1); instabilidade durante a aplicação (n=1). Totalizando 40 voluntários, distribuídos em 20 participantes no G1 (Grupo Intervalado) e 20 no G2 (Grupo Controle), de acordo com a randomização. 

Para tanto, após a alocação nos grupos foram realizados os processos avaliativos para coleta dos dados de ambos os grupos e foi constatado conforme descrito na Tabela 1 que os resultados da avaliação do questionário KDQOL-SFTM, onde está presente a estratificação dos domínios para comparação intragrupos ao final da aplicação do protocolo, com base nos valores obtidos na avaliação inicial.

Sabendo disso, observou-se uma alta taxa de diferença nas variáveis com relevância estatística (p <0,05), demonstrando um impacto da abordagem utilizada, nesses domínios. Porém, a diferença entre o grupo intervalado e o grupo controle foi de 34.79, com um IC de -50.00 a 119.59 e um valor-p ajustado de 0.59, indicando que essa diferença não é estatisticamente significativa.

Tabela 1 – Distribuição dos domínios do KDQOL-SFTM em comparação intragrupos.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

Gráfico 1 – Comparação entre os grupos nos domínios do SF36.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

O Gráfico 1 demonstra a comparação dos valores totais do SF-36 estratificado do KDQOL-SFTM entre o G1 e o G2, onde a diferença entre eles foi de 185.84, com um IC de -123.82 a 495.50 e um valor-p ajustado de 0.3260391, indicando que essa diferença não é estatisticamente significativa, ou seja, não houve um alto impacto da abordagem utilizada nessas variáveis, quando analisado de forma geral conforme observamos em seus domínios na Tabela 1. 

Diferente do Gráfico 2, onde os valores totais do QRVS foi de 527.24 (IC 193.36 a 861.12/p-value 0.0011009), o que prova que a abordagem utilizada apresentou melhora no contexto específico da qualidade de vida dos pacientes com repercussão negativa na qualidade de vida advinda diretamente da DRC.

Gráfico 2 – Comparação entre os grupos nos domínios do QRVS.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

Quanto a Pimáx (Gráfico 3), a diferença na avaliação final entre os grupos foi de -8.19, com um IC de -35.16 a 18.78 (p-value 0.7470992), demonstrando que apesar da atividade ter demandado do controle respiratório e da manutenção da capacidade contrátil do diafragma, ainda assim não houve um impacto direto nessa variável a ponto de ter uma significância estatística relevante. 

Assim como a Pemáx, que em sua avaliação final resultou em uma diferença de 8.10 (IC de -4.76 a 20.96/p-value 0.29), novamente sem diferença estatisticamente significante (Gráfico 4).

Gráfico 3 – Comparação entre os grupos dos valores finais da Pimáx.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

Gráfico 4 – Comparação entre os grupos dos valores finais da Pemáx.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

Tabela 2 – Comparação dos grupos com valores finais da ultrassonografia diafragmática.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

A comparação dos valores da ultrassonografia diafragmática (Tabela 2), na posição contraída, entre os grupos resultou em uma diferença de -0.16, com um IC de -1.69 a 1.38 e um valor-p de 0.97, o que demonstra uma alteração não substancial dessa variável, ou seja, o protocolo não apresentou alteração significativa no aumento da espessura desse músculo na fase contraída, bem como na fase relaxada (diferença 0.11/IC de -1.28 a 1.51/p-value 0.98). 

Tabela 3 – Comparação dos grupos com valores finais da ultrassonografia do tríceps sural.

Fonte: Dados da pesquisa, 2024.

A comparação entre os grupos Intervalado e Controle, pela mensuração de 2 pontos em nas duas fases conforme apresentado na Tabela 3, resultou em uma diferença de -1.05 (IC de -4.15 a 2.05/p-value de 0.70), demonstrando que a atividade não repercutiu no trofismo muscular do tríceps sural na fase contraída. Bem como na posição relaxada, em que a diferença foi de 2.02, com um IC de -7.92 a 11.97 e um p-value de 0.88.

4. DISCUSSÃO

Após a análise dos resultados da pesquisa constatou-se que quanto à distribuição dos domínios do KDQOL-SFTM em comparação entre o grupo controle e o grupo intervalado, os domínios energia/fadiga, função física, função social, funcionamento físico, sono, saúde geral e sobrecarga da doença renal tiveram melhores resultados no grupo intervalado em comparação ao grupo controle.

E quanto ao domínio qualidade de vida, os valores totais desse domínio indicaram uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos pesquisados, indicando que a abordagem utilizada apresentou melhora no contexto específico com repercussão negativa na qualidade de vida advinda diretamente da DRC.

De acordo com Bastos, Oliveira Ferreira e Silva (2023) um programa de exercícios intradialíticos, além de melhorar a função física e psicológica do DRC, pode ser integrado a uma rotina de HD com um alto padrão de aderência em longo prazo, principalmente nos primeiros anos de realização, tirando estes indivíduos de um estado de inatividade e sedentarismo.

Já de acordo com Moraes e Cunha (2022), o processo de reabilitação realizado pelo fisioterapeuta aparece como uma proposta na melhora de diversos aspectos da DRC, uma vez que o exercício físico promove benefícios fisiológicos, que refletem em melhor QV e sobrevida desses indivíduos.

E conforme salientam Santos; Barbosa; Lobato, 2022), os exercícios fisioterapêuticos e os alongamentos musculares, que quando realizados no meio hospitalar, quando internados ou quando vão nas sessões de Hemodiálise, permitem uma assistência completa aos pacientes assegurando o bem-estar e reintegrando sua capacidade física e psicossocial. 

No que diz respeito às pressões inspiratória e expiratória máxima, os resultados da pesquisa demonstram que apesar da atividade ter demandado do controle respiratório e da manutenção da capacidade contrátil do diafragma, ainda assim não houve um impacto direto nessa variável a ponto de ter uma significância estatística relevante. Já a comparação dos valores da ultrassonografia diafragmática na posição contraída entre os grupos não demonstrou uma alteração substancial dessa variável, ou seja, o protocolo não apresentou alteração significativa no aumento da espessura desse músculo na fase contraída, bem como na fase relaxada.

E tendo vista com os achados da presente pesquisa, o estudo de Silva et al. (2021) que avaliou a força muscular respiratória e a qualidade de vida em pacientes em HD, descrevem que pacientes com DRC submetidos à HD apresentam redução na PEmáx, além de um maior comprometimento da PImáx, bem como, as sessões de hemodiálise podem causar comprometimento muscular respiratório e limitações das atividades de vida diária, o que pode comprometer a qualidade de vida dos pacientes.

Ademais, conforme assinala Gurgel et al. (2021), que avaliaram a força muscular respiratória e a função pulmonar em 41 pacientes com DRC em hemodiálise, descrevem que em relação à força muscular respiratória, os pacientes com doença renal crônica em hemodiálise apresentam maior fraqueza muscular respiratória e muitas vezes desencadeiam doenças pulmonares crônicas.

E tendo em vista o aspecto indicado acima, o estudo de Gloeckl et al. (2023) que verificaram a prescrição do treinamento físico em pacientes com doenças respiratórias crônicas, indicaram que esses pacientes apresentam inúmeras limitações, como a fraqueza muscular, o descondicionamento físico e o desconforto muscular periférico, sendo que, o treinamento físico (seja como uma intervenção autônoma ou como parte de um programa de reabilitação pulmonar) promove efeitos benéficos e a melhora da qualidade de vida.

E quanto à comparação entre os valores da ultrassonografia do tríceps sural entre os grupos Intervalado e Controle, após mensuração percebeu-se que a atividade não repercutiu no trofismo muscular do tríceps sural na fase contraída, assim como na posição relaxada.

A pesquisa de Santana et al. (2020) que analisou a utilidade da ultrassonografia na avaliação da função diafragmática, abordando os detalhes da técnica, os principais achados e as aplicações clínicas, assinalou que a ultrassonografia diafragmática possui vantagens consideráveis sobre outras técnicas usadas para avaliar a função diafragmática, tais como o fato de que não é invasiva e não emprega radiação ionizante, além de ser viável, reproduzível, repetível e financeiramente acessível. Além disso, há na literatura evidências convincentes sobre a utilidade da ultrassonografia na avaliação da função diafragmática em diversos contextos clínicos.

Já para Santana, Cardenas e Albuquerque (2023) que exploraram o uso do diafragma ultrassonografia como técnica não apenas para avaliarem a função do diafragma, reforçaram que a mesma auxilia no monitoramento do esforço diafragmático. Além disso, a ultrassonografia do diafragma pode representar uma possível ferramenta complementar e promissora que poderia ser útil para monitorar a função do diafragma à beira do leito, potencialmente permitindo que você adaptar as configurações do ventilador para fornecer ventilação protetora com diafragma. 

De acordo com Duarte et al. (2023) que analisaram a associação da sarcopenia em pacientes em hemodiálise, esse procedimento gera um impacto deletério na musculatura e geralmente acentuam a sarcopenia em pacientes submetidos a HD. Sendo que, para Cunha et al. (2023), inúmeras investigações indicam o exercício físico como ação terapêutica complementar ao tratamento de diálise, determinam melhoras fisiológicas, funcionais e psíquicas nos dialíticos. E a atuação fisioterapêutica intradialítica, realizada durante a hemodiálise, apresenta inúmeros benefícios como a maior aderência ao tratamento, conveniência de horários, redução da monotonia durante as sessões.

Apesar de benéfica a prática de exercícios físicos intradialíticos ainda encontra algumas barreiras a serem ultrapassadas, como por exemplo a aceitação por parte da equipe e do próprio portador de DRC, a dificuldade de continuidade e escolha do exercício a ser proposto e a manutenção da motivação dos indivíduos à essa prática, lacuna que ainda precisam ser preenchidas pela ciência (Figueiredo et al., 2018; Suhardjono et al., 2019).

5. CONCLUSÃO

O presente estudo abordou a importância do exercício físico para a musculatura de pacientes com DRC, com foco específico no período intradialítico, sendo que, através da análise dos efeitos do exercício no contexto da diálise foi realizada de maneira controlada e orientada apresentando benefícios significativos para esses pacientes. 

Ademais, o exercício físico intradialítico contribuiu para mitigar a perda muscular, que é um dos maiores desafios na DRC, além disso, a implementação de programas de cinesioterapia ativa durante a diálise não só melhora o condicionamento físico, como também está associada a uma diminuição dos sintomas relacionados à fadiga e à qualidade de vida conforme foi demonstrado com os achados da presente pesquisa.

Portanto, a inclusão de programas de cinesioterapia ativa supervisionados pela Fisioterapia no protocolo de cuidados para pacientes renais crônicos durante a diálise pode representar um avanço importante para o tratamento dessa condição, com impactos positivos em múltiplos aspectos da saúde, incluindo a função muscular respiratória desses pacientes. E por fim, é fundamental frisar que os valores totais da qualidade de vida relacionada à saúde foram maiores nos pacientes do grupo intervalado, indicando que a abordagem utilizada apresentou melhora nesse contexto específico, aspecto que indica que os exercícios físicos cuidadosamente adaptados às limitações dos pacientes são relevantes durante o período intradialítico. 

Dessa forma, urge a continuidade da pesquisa nessa área com uma amostra maior, bem como, uma análise comparativa multicentro a fim de refinar as recomendações e maximizar os resultados frente aos pacientes renais crônicos que necessitam de diálise.

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1ORCID 0009-0006-2009-5555. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
2ORCID 0009-0009-1122-9576. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
3ORCID 0009-0005-6371-4304. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
4ORCID 0009-0007-6877-2532. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
5ORCID 0009-0007-6992-9984. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
6ORCID 0000-0002-0873-9374. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
7ORCID 0009-0006-4792-9097. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
8ORCID 0009-0001-8452-5650. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
9ORCID 0009-0004-4066-5135. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
10ORCID 0000-0001-9779-8394. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
11ORCID 0009-0000-5886-9225. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.
12ORCID 0000-0003-0189-7246. Universidade da Amazônia, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Morfofisiologia Belém-PA, Brasil.