REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311357
Moisés Ivan Carvalho Mota
Ruan Pablo Bomfim
Profa. Lorena Andrade
Resumo
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma condição crônica de alta prevalência e um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, renais e cerebrovasculares. Entre os medicamentos utilizados no tratamento, os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) se destacam pela eficácia na redução da pressão arterial e na proteção cardiovascular. Contudo, efeitos adversos como tosse seca e angioedema podem levar à descontinuação do tratamento, exigindo alternativas terapêuticas seguras. Neste contexto, os bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA) surgem como opção eficaz, uma vez que promovem controle pressórico equivalente, com menor ocorrência de reações adversas. O presente trabalho, desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica narrativa, analisou estudos publicados entre 1992 e 2021 nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico, com o objetivo de comparar a eficácia e a segurança dos BRA em pacientes intolerantes aos IECA. Os resultados apontam que os BRA apresentam perfil terapêutico semelhante aos IECA na prevenção de complicações cardiovasculares, com melhor tolerabilidade e adesão ao tratamento. Assim, se conclui que os BRA representam uma alternativa válida e fundamentada para pacientes que não toleram o uso de IECA, contribuindo para o manejo eficaz da hipertensão arterial e a melhoria da qualidade de vida.
Palavras-chave: hipertensão arterial; inibidores da ECA; bloqueadores dos receptores de angiotensina II; efeitos adversos; terapêutica anti-hipertensiva.
Abstract
Systemic arterial hypertension (SAH) is a chronic condition with high prevalence and one of the main risk factors for cardiovascular, renal, and cerebrovascular diseases. Among the drugs used for treatment, angiotensin-converting enzyme inhibitors (ACEIs) stand out for their effectiveness in reducing blood pressure and providing cardiovascular protection. However, adverse effects such as dry cough and angioedema may lead to treatment discontinuation, requiring safer therapeutic alternatives. In this context, angiotensin II receptor blockers (ARBs) emerge as an effective option, offering equivalent blood pressure control with fewer adverse reactions. This study, developed through a narrative literature review, analyzed studies published between 1992 and 2021 in the PubMed, SciELO, LILACS, and Google Scholar databases, aiming to compare the efficacy and safety of ARBs in patients intolerant to ACEIs. The results indicate that ARBs have a therapeutic profile similar to ACEIs in preventing cardiovascular complications, with better tolerability and treatment adherence. Therefore, it is concluded that ARBs represent a valid and well-founded alternative for patients who cannot tolerate ACEIs, contributing to the effective management of hypertension and improvement of quality of life.
Keywords: arterial hypertension; ACE inhibitors; angiotensin II receptor blockers; adverse effects; antihypertensive therapy.
Introdução
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma das condições crônicas mais prevalentes no mundo, representando um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e insuficiência renal (World Health Organization, 2021). No Brasil, estima-se que aproximadamente um terço da população adulta seja hipertensa, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado (Malachias et al., 2016).
O manejo da HAS envolve tanto medidas não farmacológicas quanto terapêuticas. Entre os medicamentos disponíveis, os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) se destacam por sua eficácia no controle da pressão arterial, redução da mortalidade cardiovascular e proteção renal, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca e nefropatia diabética.
Apesar de seus benefícios, os IECA podem provocar efeitos adversos importantes, como tosse seca persistente e angioedema, levando a intolerância e, consequentemente, à necessidade de suspensão do tratamento em parte dos pacientes.
Nesse contexto, os bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRA) representam uma alternativa terapêutica eficaz e segura. Ao antagonizarem seletivamente os receptores AT₁ da angiotensina II, os BRA promovem vasodilatação, redução da secreção de aldosterona e menor remodelamento cardiovascular, sem aumentar os níveis de bradicinina. Essa característica confere melhor perfil de tolerabilidade, com baixa incidência de tosse e angioedema, mantendo eficácia comparável aos IECA na redução da pressão arterial e na prevenção de desfechos cardiovasculares.
Metodologia
Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica narrativa que teve como propósito reunir e analisar criticamente as evidências científicas sobre o uso de bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRA) em pacientes intolerantes aos inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA). A revisão narrativa é uma modalidade de pesquisa que permite sintetizar o conhecimento disponível sobre determinado tema, proporcionando uma visão ampla e contextualizada das informações existentes (Rother, 2007).
A busca pelos materiais foi realizada entre os meses de setembro e outubro de 2025, nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico. Foram utilizados descritores em português e inglês relacionados ao tema, como: hipertensão arterial sistêmica, inibidores da enzima conversora da angiotensina, bloqueadores do receptor da angiotensina II, efeitos adversos, intolerância e tratamento anti-hipertensivo.
Os critérios de inclusão compreenderam artigos originais, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e consensos científicos publicados entre 2000 e 2025, em português e inglês, com acesso ao texto completo. Foram excluídos estudos experimentais em animais, artigos que não abordassem diretamente a substituição de IECA por BRA, duplicatas e publicações incompletas.
Após a triagem pelos títulos e resumos, os textos completos obtidos nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico foram analisados em profundidade. As informações consideradas relevantes foram agrupadas em categorias temáticas: impacto da hipertensão arterial na saúde pública, mecanismos de ação dos IECA e BRA, efeitos adversos relacionados aos IECA, uso de BRA em pacientes intolerantes e orientações das diretrizes clínicas nacionais e internacionais.
Essa abordagem possibilitou a construção de uma síntese abrangente e atualizada sobre o tema, destacando evidências clínicas, aspectos de segurança e fatores que influenciam a adesão terapêutica.
Resultados e discussões
Ao todo, foram analisados 10 estudos que atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos, sendo artigos originais, revisões sistemáticas e diretrizes clínicas publicadas entre 1992 e 2021. As evidências encontradas reforçam que os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) continuam sendo uma das terapias mais eficazes no controle da hipertensão arterial sistêmica, se destacando por reduzir a mortalidade cardiovascular e prevenir complicações renais e cardíacas (Yusuf et al., 2000; Malachias et al., 2016).
Entretanto, os efeitos adversos associados ao aumento da bradicinina, como tosse seca persistente e angioedema, representam uma limitação importante para o uso prolongado desses fármacos, o que leva à necessidade de substituição terapêutica em parte dos pacientes (Dicpinigaitis, 2006; Brown & Ray, 1996). Diversos autores relatam que entre 5% e 20% dos indivíduos em tratamento com IECA desenvolvem tosse seca, enquanto uma parcela menor, mas clinicamente relevante, apresenta angioedema, evento potencialmente grave e de recorrência imprevisível (Israili & Hall, 1992).
Diante desse cenário, os bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA) surgem como uma alternativa eficaz e bem tolerada. Esses fármacos bloqueiam seletivamente os receptores AT₁ da angiotensina II, promovendo vasodilatação e redução da secreção de aldosterona, sem interferir nos níveis de bradicinina, o que explica a menor ocorrência de tosse e angioedema (Burnier & Brunner, 2000).
Além disso, estudos comparativos demonstram que tanto os IECA quanto os BRA apresentam eficácia semelhante na redução da pressão arterial e na prevenção de desfechos cardiovasculares, como insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (Matchar et al., 2008; Whelton et al., 2018). No entanto, a melhor tolerabilidade dos BRA representa uma vantagem clínica relevante, principalmente em pacientes com histórico de reações adversas aos IECA, o que favorece a adesão ao tratamento e, consequentemente, melhores resultados terapêuticos a longo prazo.
Outra questão importante é o papel dos BRA na proteção renal. Assim como os IECA, esses medicamentos reduzem a progressão da nefropatia diabética e melhoram o perfil hemodinâmico renal, sendo indicados para pacientes com diabetes mellitus tipo 2 e microalbuminúria (Malachias et al., 2016). Esse efeito protetor ocorre devido à redução da pressão intraglomerular e da proteinúria, o que contribui para o retardo da insuficiência renal crônica.
As diretrizes internacionais, como as da American College of Cardiology/American Heart Association (ACC/AHA) e as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, reforçam que os BRA devem ser indicados como primeira escolha alternativa para pacientes intolerantes aos IECA, já que mantêm benefícios clínicos equivalentes (Whelton et al., 2018; Malachias et al., 2016). A escolha entre as duas classes deve considerar não apenas a eficácia, mas também a tolerabilidade individual, o custo e o perfil de comorbidades do paciente.
De forma geral, a literatura evidencia que a substituição dos IECA por BRA é uma prática segura e eficaz, principalmente em pacientes com histórico de tosse persistente ou angioedema. Essa mudança terapêutica, quando realizada sob acompanhamento médico e farmacêutico, contribui para o controle adequado da pressão arterial, a redução de complicações cardiovasculares e a melhora na qualidade de vida. Além disso, reforça a importância da individualização do tratamento anti-hipertensivo, levando em conta tanto a eficácia quanto a tolerabilidade de cada paciente.
Conclusão
A análise da literatura demonstrou que os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) continuam sendo uma das terapias mais eficazes no controle da hipertensão arterial sistêmica, especialmente por seus benefícios cardiovasculares e renoprotetores. No entanto, os efeitos adversos relacionados ao aumento da bradicinina, como tosse seca persistente e angioedema, limitam o uso contínuo dessa classe em uma parcela significativa dos pacientes.
Nesse contexto, os bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA) se consolidam como uma alternativa terapêutica eficaz e segura. Os estudos revisados evidenciam que os BRA apresentam eficácia comparável aos IECA na redução da pressão arterial e na prevenção de eventos cardiovasculares, com melhor perfil de tolerabilidade. Essa característica contribui para maior adesão ao tratamento e redução do risco de abandono terapêutico, fatores essenciais para o controle adequado da hipertensão.
Além disso, os BRA também demonstram efeitos renoprotetores, beneficiando especialmente pacientes com diabetes mellitus e doença renal crônica. As principais diretrizes clínicas nacionais e internacionais reforçam sua indicação como opção preferencial em casos de intolerância aos IECA, sustentando o papel dessa classe como parte fundamental no manejo individualizado da hipertensão arterial.
Dessa forma, conclui-se que a substituição dos IECA pelos BRA em pacientes intolerantes representa uma estratégia terapêutica eficaz, segura e baseada em evidências, promovendo o equilíbrio entre controle pressórico, prevenção de complicações e qualidade de vida.
Referências
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