UM ESTUDO SOBRE A MOTIVAÇÃO PARA O USO DE CIGARRO ELETRÔNICO EM MOMENTOS DE ANSIEDADE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202509190959


Bruna Corredato Periotto1
Leticia Inglez Gomes2
Emilene Dias Fiuza Ferreira3


RESUMO

Ao contrário do que muitos pensam, o uso de dispositivos eletrônicos para fumar é tão prejudicial quanto aos formatos convencionais. Devido a facilidade de acesso e utilização das tecnologias, a internet e redes sociais, o público de jovens estudantes é o que mais tem oportunidade de conhecer os dispositivos eletrônicos para fumar. Esses dispositivos são operados por meio de baterias que em sua utilização permitem a inalação de um aerossol composto por substâncias químicas como a nicotina acrescidos de sabor e aroma. O estudo problematiza a motivação que os indivíduos com transtorno de ansiedade possuem para buscar alívio usando cigarros eletrônicos. Para atender a este propósito, o projeto teve como objetivo analisar a relação do uso de cigarros eletrônicos e a existência do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), como fator desencadeador na população. Este estudo é do tipo transversal, de caráter descritivo, exploratório de abordagem qualitativa no qual foi usado o método “Snowball” para recrutar participantes com idade entre 18 a 45 anos que residam na cidade de Maringá. Foi aplicado um questionário com perguntas objetivas no formato on-line.  O estudo toma como suporte teórico a abordagem de transtornos de ansiedade e a relação com o uso de cigarro eletrônico. Para isso, foi  utilizado informações atualizadas e estudos recentes publicados em bases de dados Scielo, Pubmed, Up to Date e Google acadêmico. Os resultados mostraram que 59,3% dos entrevistados relataram diagnóstico de ansiedade, sendo que 62,9% afirmaram recorrer ao cigarro eletrônico em momentos de ansiedade. Além disso, 42,9% relataram uso de medicamentos sem prescrição médica e 70,3% associaram o uso do dispositivo ao consumo de álcool. Conclui-se que os dispositivos eletrônicos para fumar estão fortemente associados à ansiedade, especialmente em jovens, revelando-se um problema emergente de saúde pública que requer medidas preventivas, educativas e terapêuticas adequadas.

Palavras-chave: Ansiedade, dispositivos eletrônicos para fumar, transtorno de ansiedade generalizada.

ABSTRACT

Contrary to what many believe, the use of electronic smoking devices is just as harmful as conventional cigarettes. Due to the ease of access, the internet, and social media, young students are the group most exposed to these products. These devices are battery-operated and allow the inhalation of an aerosol composed of chemical substances such as nicotine, often combined with flavors and aromas. This study addresses the motivations of individuals with anxiety disorders who seek relief through the use of electronic cigarettes. The objective was to analyze the relationship between the use of electronic cigarettes and the presence of Generalized Anxiety Disorder (GAD) as a triggering factor in the population. This is a crosssectional, descriptive, and exploratory qualitative study that used the “Snowball” method to recruit participants aged 18 to 45 years, residing in the city of Maringá. Data were collected through a validated online questionnaire with objective questions. The results showed that 59.3% of respondents reported a diagnosis of anxiety, and 62.9% reported using electronic cigarettes during moments of anxiety. In addition, 42.9% reported the use of medication without medical prescription, and 70.3% associated the use of these devices with alcohol consumption. In conclusion, the use of electronic smoking devices is strongly associated with anxiety, especially among young people, representing an emerging public health problem that requires preventive, educational, and therapeutic measures.

KEYWORDS: Anxiety, Electronic Smoking Devices. Generalized Anxiety Disorder

INTRODUÇÃO

O uso de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), cuja aparência se aproxima dos cigarros tradicionais ou em uma versão mais moderna possuem design semelhante a um pen drive ou caneta, que tem se apresentado de forma muito popular principalmente entre adolescentes e jovens, de acordo com a Associação de controle do tabagismo (ACT). 

Esses dispositivos eletrônicos para fumar são originários do XXI e disponíveis no mercado de forma mais acessível desde 2004. Os DEFs é um outro formato de se comercializar produtos fumígenos que possuem nicotina, que assim como os cigarros comuns, também levam a dependência à nível de sistema nervoso central (Oliveira, 2016). 

Ao contrário do que a indústria do tabaco prega, os DEF são tão ou mais nocivos que os cigarros convencionais pois em suas substâncias de composição, possuem metais pesados como óxido de propileno, compostos inorgânicos de arsênio e a acroleína que podem provocar patologias ao sistema cardiovascular e respiratório (LIU et al., 2020), (PIPER et al., 2020)

Conforme apresenta a ACT, os usos de dispositivos eletrônicos para fumar são tão prejudiciais quanto aos formatos convencionais. Devido à facilidade de acesso e utilização das tecnologias e a internet, redes sociais, o público de jovens estudantes é o que mais tem oportunidade de conhecer os dispositivos eletrônicos para fumar. Seu formato, cores, sabores e aromas, atraem a atenção e o gosto dos mais jovens que em seu meio social passam a consumir os DEFs como estratégia de inserção e pertencimento, deixando de lado todas as possíveis consequências à saúde física e emocional que o dispositivo pode causar. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (2024). 

Esses dispositivos são operados por meio de baterias que em sua utilização permite a inalação de um aerossol composto por substâncias químicas como a nicotina acrescidos de sabor e aroma. Além dessas substâncias, há também aquelas oriundas da composição do dispositivo que são geradas durante o seu acionamento e processo de vaporização que são as nano partículas de metal, aquecidos em temperaturas aproximadas de 100-259 °C (GONIEWICZ et al., 2018). 

Sua estrutura é composta por quatro elementos, reservatório ou cartucho onde fica armazenada uma solução líquida composta por nicotina, e outros elementos como aromas, dissolvidos em solventes como propilenoglicol e/ou glicerina vegetal.  Um mecanismo de aquecimento, uma bateria de íons de lítio e o bocal por onde ocorre a inalação (GONIEWICZ et al., 2014; CONNELL et al., 2016). Ainda a respeito da composição e os produtos químicos que causam prejuízo à saúde, cabe destacar as substâncias citotóxicas, que causam doenças pulmonares e cardiovasculares. Vale ressaltar que os DEFs são comercializados em diferentes formas, os mais populares atualmente são os cigarros eletrônicos de 4ª geração – pods ou pendrives, consoante ao Instituto Nacional do Câncer (INCA) um pod contém uma média de nicotina equivalente a 20 cigarros ou 1 maço porém há outros modelos que podem ser proporcionais até 3 maços. Dessa forma, 51,9% (n=19) dos indivíduos responderam que seus DEFs duram mais de uma semana, assim, de acordo com o INCA, a maioria dos participantes fumaria em média 40 cigarros convencionais por semana.

Mesmo sabendo das diferentes implicações e prejuízos patológicos que os usos de dispositivos eletrônicos para fumar provocam, nesta pesquisa em específico o estudo se limitará a investigar como a ansiedade pode ser a motivação para se fazer do uso do dispositivo. 

Entendida como um sistema complexo envolvendo cognição, afetividade, necessidades fisiológicas e comportamentais a ansiedade pode se tornar uma patologia quando o indivíduo diante de determinada situação não consegue distinguir, em momentos que antecedem um evento ou condição, o que pode ser ou não uma ameaça, levando a um prejuízo no relacionamento social e ocupacional no cotidiano do indivíduo (Clark; Beck, 2012). 

Os transtornos ansiosos de acordo com Bernstein et al. (1996) e Anderson et al. (1987) são comuns em crianças e adultos, ou seja, não há um limite de idade para ansiedade. O sentimento de desconforto, medo, apreensão, antecipação do perigo, sentimento vago, são característica da ansiedade que é mais fácil para um adulto identificar ou entender (Allen et al., 1995; Swedo et al., 1994). Os transtornos ansiosos são quadros clínicos em que esses sintomas são primários, ou seja, não são derivados de outras condições psiquiátricas (depressões, psicoses, transtornos do desenvolvimento, transtorno hipercinético) (Castillo ARGL et al., 2000). 

Situações cotidianas que muitas vezes são suportadas de forma dolorosa quando não entendidas, podem provocar ansiedade. Na busca por superar o abandono, ausência ou rompimento de um relacionamento social, ou seja, qualquer outra atividade que cause desconforto e compromete independência e a qualidade de vida do indivíduo pode favorecer o desenvolvimento da doença (Barnhill, 2023). 

São múltiplos os fatores que podem ser identificados como estressores psicossociais e ambientais que apresentam como desencadeadores da ansiedade. No Brasil, 9,3% da população geral foi diagnosticada com transtorno de ansiedade. Esse percentual coloca o país com o maior número de casos de ansiedade (WHO, 2017). Quando se fala a respeito de saúde mental e física uma interfere na outra pois nosso estado emocional reflete em nossa saúde física. 

Pessoas com estado emocional comprometido ou em situações que lhes causam insegurança, stress ou mesmo para se sentir parte de um grupo social, tendem a fazer uso de estratégias com a bebida e o cigarro. Momentaneamente isso pode parecer uma solução bemvinda, mas com o tempo a situação pode se agravar pois as substâncias contidas na bebida e no cigarro causam dependência física e emocional. 

Diante deste cenário o objetivo desta pesquisa é a analisar a relação do uso de cigarros eletrônicos e a existência do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) como fator desencadeador na população, esse trabalho encontra sua justificativa.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal descritivo e observacional, com ênfase em estudo de campo, com a finalidade de identificar quanto o Transtorno da Ansiedade tem atuado como fator motivacional para o uso de cigarros eletrônicos

Foi realizado uma pesquisa exploratória mediante coleta de dados por meio de um questionário estruturado previamente validado e adaptado para essa finalidade. Este, por sua vez, é composto por perguntas no formato on-line utilizando como ferramenta, o Google Forms. O questionário levantou dados sobre o perfil do entrevistado, se faz uso de cigarro eletrônico e, o que o leva a usá-lo tendo como uma das alternativas no questionário, a ansiedade. O mesmo foi aplicado utilizando o método “Snowball” para recrutar participantes.

O universo amostral incluiu participantes do sexo masculino e feminino da cidade de Maringá-PR, que manifestaram o desejo de participar da pesquisa por espontaneidade. O critério de inclusão foi a aceitação de participação, jovens e adultos do sexo feminino e masculino, com idade entre 18 a 45 anos, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias de igual teor e forma. Os critérios de exclusão são participantes fora da faixa etária estipulada e aqueles que não aceitaram participar da pesquisa. 

O sigilo foi certificado aos participantes, igualmente lhe foram explicados o objetivo e os métodos empregados. Foi-lhe explanado sobre os riscos ou o desconforto para com o questionário, sobre os benefícios desejados e sobre o material a ser utilizado. Foi-lhe assegurada a preservação de sua identidade e que seus dados serão utilizados somente para estudo.  Este projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da UNICESUMAR e aprovado sob número do Parecer: 7.118.169 e CAAE: 1 83549724.8.0000.5539.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Considerando a variável sexo e idade, de acordo com as resposta, pode-se observar que no universo de 27 pessoas entrevistadas, (n = 19) são mulheres o que representa 70,4%  e (n = 8) são homens o que é relativo a 29,6%. Destaca-se ainda que a grande maioria dos entrevistados ou seja, 96,3% têm idade entre 19 a 25 anos (n = 26) e somente (n = 1) com idade entre 25 a 32 anos representando 3,70%. 

Estudos já realizados no Brasil, apontam que o uso dos DEF é mais incidente entre jovens com alta escolaridade e acesso às tecnologias da informação (BERTONI et al., 2019). Mesmo sabendo dos riscos e consequências a saúde física e mental. Considerando que o acesso à informação e os recursos tecnológicos aliados ao apelo midiático, independente da classe social ou fator escolaridade, os jovens e adolescentes estão expostos ao risco da iniciação ao tabagismo (BARUFALDI, 2020; LUCHERINI et al., 2019).

O consumo do tabaco é algo que há muito preocupa a saúde pública. Intensas foram as campanhas de alerta e conscientização da população  porém, os altos índices levantados com relação ao uso de cigarros eletrônicos por adolescentes cresce significativamente e se configura como um problema que requer solução de urgência devido a dependência e aos danos à saúde que ele provoca (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025).

Conforme Agência Nacional de Vigilância Sanitária (2024), pesquisas já realizadas, revelam que o uso de DEF mesmo proibido no Brasil são facilmente adquiridos e a maioria dos consumidores o fazem no entendimento de que estes são menos prejudiciais à saúde em comparação com o consumo do cigarro comum. O fato é que os DEF, provocam muito mais riscos e patologias como por exemplo ansiedade, depressão e outras síndromes, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (2024). 

Quando questionados sobre se possuíam algum diagnóstico de ansiedade, 16 deles afirmaram que sim, o que representa 59,25% porém, somente (n = 10) pessoas ou seja, 30,03% fazem tratamento. Em contrapartida 22,22%, sendo (n = 6) pessoas, mesmo com o diagnóstico não estão realizando tratamento.  Cabe aqui ressaltar que os 30,03% que possuem diagnóstico e estão realizando tratamento, fazem uso de medicamentos sob orientação médica. 

A prevalência de pessoas com ansiedade, pode ser dimensionada através do estudo de (Costa et al.,2019) cujo público alvo investigado foi de 1.953 adultos entre 18 e 35 anos residentes na região sul do Brasil, realizado entre os anos de 2011 e 2014. Deste público, 54,9% (n = 1.073) eram mulheres e em 45,1% (n = 880) homens. Pode-se observar a prevalência de transtorno de ansiedade, dentre os quais a agorafobia 17,9% (n=350), TAG 14,3% (n=278), e em menor proporção a fobia social 5,4% (n=105), TOC 4,2% (n=82), transtorno de pânico 3,6% (n = 71) e TEPT 3,0% (n = 58). 

As mulheres tiveram maior prevalência de ansiedade de modo geral, quando comparadas aos homens; o sexo feminino alcançou (n = 13), enquanto o masculino, (n = 3). Embora o universo de pesquisa aqui seja limitado, porém no que se refere ao transtornos de ansiedade, o quantitativo entre as mulheres é muito expressivo, sem contar com a soma de ambos os gêneros que apontou para (n = 16) o que representa mais de 50% dos entrevistados. 

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (2023) (DSM-IV), a agorafobia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de pânico, fobia social,  transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) são entendidos como transtornos de ansiedade e precisam de investigação e tratamentos específicos. Nesta mesma perspectiva, o Relatório Mundial de Saúde, defende a importância de estudos e discussões para a criação de serviços e políticas públicas destinadas à saúde mental, estejam entre as prioridades (SILVA et al., 2023; FALCÃO  et al., 2023). 

Com relação a mulheres e homens, a prevalência de transtorno de ansiedade considerando os fatores genéticos e hormonais são mais evidentes entre as mulheres (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025). Estudos já apontam que ao longo da vida a tendência para o desenvolvimento do transtorno de ansiedade é maior entre as mulheres.  Isso demonstra a  necessidade de um olhar diferenciado para os tratamentos entre homens e mulheres que necessitam ser investigados com cautela e maior atenção (LOPES, 2021). 

Há de se considerar que não se deve pautar apenas na diferença de gênero para um diagnóstico ou diferenciação na conduta de tratamento em razão do gênero, todas as possíveis variáveis devem ser investigadas a fim de se consolidar um diagnóstico e a conduta do tratamento.  No contexto social onde a mulher muitas vezes sofre maior pressão, recebe menores salários e realizam duplas jornadas de trabalho em razão da necessidade de ocuparem o cargo de chefe da família, é comum que elas apresentem sintomas mais graves e transtornos de ansiedade crônicos, o que as deixam em recorrentes estados de angústia e medo (HALLERS-HAALBOOM et al., 2020).

De acordo com a  Organização Mundial da Saúde (OMS) 9,3% da população brasileira sofre com transtornos de ansiedade, o que representa 18 milhões de pessoas (OMS, 2024). Esse percentual escala o país em uma alta posição no ranking entre cinco países com maior registro de casos de transtorno de ansiedade onde o Paraguai apresenta (7,6%),  seguido pela Noruega (7,4%), Nova Zelândia (7,3%) e por fim  Austrália (7%). Essa liderança negativa é alarmante uma vez que a falta de investimentos em saúde mental, profissionais qualificados, além do preconceito que se tem em torno dos transtornos mentais é algo ainda deficitário diante das discussões da política pública para a saúde. (AMARAL et al.,  2022; ROHR et al., 2021).   

Dentro do universo aqui investigado, 59,3% entre homens e mulheres informaram já serem diagnosticados com ansiedade enquanto que 40,7% responderam que não (gráfico 1). 

Gráfico 1. Porcentagem dos pacientes diagnosticados com ansiedade

Para Ridley (2024), problemas econômicos também podem estar relacionados à alta prevalência desses quadros, em virtude da dificuldade de cumprir com a responsabilidade de efetuar pagamentos, comprar bens necessários e manter hábitos ( HONDA et al., 2023).

Pode-se observar que apenas 37% dos entrevistados realizavam tratamento e 63% não o faz (gráfico 2). Isso mostra que mesmo com um diagnóstico as pessoas não se dedicam a um tratamento. Isso é algo preocupante pois num cenário de ansiedade sem tratamento o quadro pode se agravar evoluindo para outros problemas de saúde mental mais graves.  Esse cenário pode alcançar de forma negativa as relações pessoais e profissionais podendo comprometer o desempenho no trabalho, baixa produtividade e em caso mais graves chegar até o isolamento social.  

Gráfico 2. Porcentagem dos pacientes que fazem tratamento para ansiedade

Ainda referente a ter um diagnóstico e se dedica a um tratamento, um percentual representativo de 42,9% indicou que faz uso de medicamentos sem receita médica. Isso mostra que não há um tratamento com orientações de um médico ou profissional da saúde. A automedicação, pode trazer sérios riscos à saúde assim como mascarar a doença (LOPES, 2021). 

Levando em consideração a alta prevalência dos transtornos de ansiedade, investigou-se os possíveis motivos, e se o uso de DEF se relacionava com os mesmos. 

Ao responderem o questionário referente aos motivos que o  levaram a fazer uso do DEF, 16 homens e mulheres responderam que o fazem quando estão ansiosos. Isto representa 62,96% (n = 17) pessoas. Além da prevalência de transtorno de ansiedade pode-se identificar que além do uso do DEF, 70,37% (n = 19) também informaram que faziam uso de bebidas alcóolicas e possuíam outros padrões associados como pode ser observado no Gráfico 3. 

Gráfico 3. Situações associados ao uso de DEFs

De acordo com os dados de Hefner (2019), a população jovem que é usuária de cigarros eletrônicos é mais propensa a usar cigarros combustíveis e álcool, já os que fazem uso concomitante de ambos tipos de cigarro são mais propensos a associar com bebidas alcoólicas. Apesar da atenção limitada dada à relação dos DEFs e ao álcool torna-se uma preocupação quando é relacionada ao consumo excessivo, no Brasil, em 2022, duas pessoas morreram a cada hora devido a fatores relacionados ao uso nocivo de álcool (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2024).

Em outro estudo, foi apresentado que a utilização de DEFs esteve relacionada com outros tipos de drogas ilícitas em estudantes universitários, conforme o autor tais perspectivas demonstram a impulsividade e a jovialidade de universitários em uso de cigarros eletrônicos (GRANT, 2019). Além disso, foi demonstrado que 63% dos participantes (n=17) relataram o uso em momentos de ansiedade, junto a isso, 29,6% (n=9) fumam em momentos de tristeza, concordando com Grant que coloca os sintomas de ansiedade como um fator de risco para a busca ao tabagismo, de igual modo pessoas mais jovens sofrem também um maior impacto.

Em um estudo dos Estados Unidos, pesquisou-se em um universo de 2.316 universitários (calouros) com idade ≥ 18 anos onde 62% eram do sexo feminino, qual era a motivação que os levavam a fazer uso de cigarros eletrônicos. As respostas apontaram para os seguintes motivos: impulsividade, depressão/ansiedade, momentos de vida estressantes, e o uso de outros produtos do tabaco. Os estudos de (Butt et al., 2019; Fuller et al., 2018; Cao et al., 2020) destacam que a inalação de nicotina provoca impactos neurológico ou efeitos pulmonares. (Butt et al., 2019; Fuller et al., 2018; Cao et al., 2020).

Ito (2023) afirma que entre as pessoas com dependência a nicotina mais da metade apresentou depressão e ansiedade graves, segundo a Organização Mundial da Saúde, os transtornos mentais nos dias atuais são a causa mais predominante de incapacidade. Por conseguinte, indivíduos com a saúde mental prejudicada morrem mais cedo do que o resto da população.

Muitos tabagistas acreditam que o vício os auxilia a reduzir os sintomas de transtornos psicológicos, mas, muitas vezes podem atenuar ou até ser a causa de tais problemas. No estudo em questão, a cessação do tabagismo foi associada com um progresso notável na melhora da ansiedade, além de uma melhora na qualidade de vida psicológica dos participantes (TAYLOR, 2014). Dos entrevistados, 70,4% (n=19) relata já ter feito a tentativa de cessar o tabagismo, dentre estes 51,8% (n=14) apresenta o desejo de parar nos próximos 6 meses, considerando que 50,3% dos participantes relatam ter ansiedade com diagnóstico médico, há um benefício claro na saúde mental ao tentar cessar o tabagismo, em especial porque conforme foi exposto por Taylor fumantes que possuem transtornos mentais revelam maior suscetibilidade a dependência e consumo mais elevado. 

CONCLUSÃO

A pesquisa demonstrou que o uso de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs) está fortemente associado à ansiedade, especialmente entre jovens, que muitas vezes utilizam esses produtos como estratégia para lidar com sintomas emocionais. Apesar da percepção equivocada de que os DEFs são menos prejudiciais, eles contêm nicotina e outras substâncias tóxicas, oferecendo riscos significativos à saúde física e mental, como doenças cardiovasculares, pulmonares e transtornos psiquiátricos.

O aumento expressivo do consumo, aliado ao fácil acesso e à atratividade estética desses dispositivos, evidencia um problema emergente de saúde pública que exige medidas urgentes. É fundamental a implementação de políticas preventivas mais rigorosas, fiscalização da comercialização, campanhas de conscientização voltadas para jovens e programas de apoio à cessação do uso. Além disso, o tratamento da ansiedade deve ser priorizado por meio de estratégias terapêuticas adequadas, evitando a automedicação e o agravamento do quadro clínico.

Dessa forma, compreender a relação entre ansiedade e o uso de DEFs é essencial para o desenvolvimento de ações integradas que protejam a saúde física e mental, reduzam a dependência e promovam melhor qualidade de vida à população.

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1https://orcid.org/0009-0001-0714-8767
2https://orcid.org/0009-0002-9944-1326
3https://orcid.org/0000-0002-6235-6462