TROMBOEMBOLISMO PULMONAR INDUZIDO POR ANTICONCEPCIONAIS: UMA ABORDAGEM INTEGRATIVA

PULMONARY THROMBOEMBOLISM INDUCED BY ORAL CONTRACEPTIVES: NA INTEGRATIVE APPROACH

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202509210101


Carlos Pablo Quintanilha Gonçalves¹
Lawrence Monteiro de Oliveira Pio²
Vitória Mendonça Mendes³
Eduardo Dionathas Firmino⁴


Resumo

O tromboembolismo pulmonar (TEP) constitui uma das principais emergências médicas na prática clínica, caracterizado pela obstrução parcial ou total da circulação arterial pulmonar por êmbolos, geralmente provenientes de trombos venosos profundos. O uso de anticoncepcionais orais combinados (AOCs), sobretudo aqueles que contêm estrogênio associado a progestágenos de 3ª e 4ª geração, é reconhecido como fator predisponente para fenômenos tromboembólicos, em especial em mulheres jovens sem comorbidades. A fisiopatologia envolve um estado de hipercoagulabilidade induzido pelo estrogênio, que aumenta a produção de fatores pró-coagulantes (fibrinogênio, fatores VII, VIII e X), reduz proteínas anticoagulantes naturais (proteína S, antitrombina) e altera o equilíbrio fibrinolítico. Diante disso, a presente pesquisa objetiva sistematizar os achados da literatura entre 2021 e 2024, enfatizando fisiopatologia, apresentação clínica, métodos diagnósticos e estratégias de manejo. Essa revisão integrativa reuniu publicações entre 2021 e 2024, a busca bibliográfica foi realizada em bases eletrônicas relevantes como PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e Embase. Incluíram-se artigos sobre mulheres em idade reprodutiva, usuárias de anticoncepcionais orais combinados com TEP, abordando aspectos fisiopatológicos, diagnósticos, terapêuticos ou prognósticos. Excluíram-se estudos pediátricos, geriátricos, experimentais em animais, sem acesso completo ao texto ou revisões sem embasamento científico. A análise evidenciou que a maioria dos casos ocorre em mulheres jovens, muitas vezes previamente saudáveis, com desfechos variando desde recuperação completa até óbitos por falência cardiorrespiratória. Destaca-se a importância da estratificação de risco, diagnóstico precoce com angiotomografia pulmonar e tratamento oportuno com anticoagulação ou trombólise em casos graves. 

Palavras-chave: Tromboembolismo pulmonar. Anticoncepcionais orais. Estrogênio. Contraceptivos combinados. Risco trombótico.

1 INTRODUÇÃO

O tromboembolismo venoso (TEV), que inclui a trombose venosa profunda (TVP) e o tromboembolismo pulmonar (TEP), representa importante causa de morbimortalidade em mulheres em idade reprodutiva. Embora a incidência de TEV nessa população seja baixa em termos absolutos, o uso de anticoncepcionais orais combinados (AOCs) aumenta significativamente o risco relativo, variando de 2 a 6 vezes conforme a formulação utilizada (STALAS et al., 2024). O impacto clínico é potencializado pelo fato de que a maioria das usuárias é composta por mulheres jovens e previamente saudáveis, o que torna a ocorrência de TEP um evento inesperado e frequentemente subdiagnosticado.

A fisiopatologia do TEP associado a AOCs é complexa e multifatorial. O estrogênio exerce efeito pró-trombótico por meio da indução de fatores de coagulação (fibrinogênio, fatores VII, VIII e X), da redução de anticoagulantes naturais (proteína S, antitrombina) e da supressão parcial do sistema fibrinolítico (GRIS et al., 2022). Progestágenos de 3ª e 4ª geração, como drospirenona e desogestrel, também estão implicados no aumento do risco, em contraste com formulações à base de levonorgestrel, consideradas de menor impacto trombogênico (THACHIL et al., 2022). Além disso, a presença de trombofilias hereditárias, como mutações do fator V Leiden ou da protrombina, pode amplificar o risco quando associadas ao uso de AOCs (JUNIOR et al., 2023).

A hemorragia digestiva, a gestação, o puerpério e a imobilização prolongada são descritos como fatores adicionais, mas o uso de AOCs destaca-se como fator isolado em relatos de TEP maciço em mulheres sem outros riscos predisponentes (LEWCZUK et al., 2022). O diagnóstico clínico é dificultado pela inespecificidade dos sintomas, como dispneia súbita, dor torácica pleurítica e síncope, frequentemente confundidos com outras condições. Exames laboratoriais, como o dímero-D, têm sensibilidade elevada, mas baixa especificidade, tornando a angiotomografia computadorizada de tórax com contraste o padrão-ouro para confirmação (SHIBA & VAN KEER, 2024). Diante da gravidade e da possibilidade de prevenção, torna-se essencial compreender as evidências mais recentes sobre a relação entre AOCs e TEP. Por isso, a presente pesquisa objetiva sistematizar os achados da literatura entre 2021 e 2024, enfatizando fisiopatologia, apresentação clínica, métodos diagnósticos e estratégias de manejo.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O tromboembolismo pulmonar (TEP) é uma condição clínica extremamente grave que ocorre quando um coágulo sanguíneo, frequentemente originado nas veias profundas das pernas, se desprende e viaja até os pulmões, obstruindo uma ou mais artérias pulmonares, o que pode causar sérios danos à oxigenação do sangue e à função respiratória (ALYOUSEFI, 2021). Esse bloqueio pode resultar em insuficiência respiratória aguda, falência de múltiplos órgãos e, em casos graves, morte súbita, caso o tratamento não seja iniciado precocemente (THACHIL et al., 2022). A principal causa do TEP é a trombose venosa profunda (TVP), e essa condição é um risco significativo para a saúde pública, especialmente entre indivíduos que apresentam fatores de risco predisponentes, como a imobilização prolongada, doenças cardíacas e o uso de anticoncepcionais orais (LEWCZUK et al., 2022).

Os anticoncepcionais orais são compostos por hormônios sintéticos, geralmente estrogênio e progesterona, que têm a função de prevenir a ovulação e, portanto, a gravidez (GRIS et al., 2022). Eles podem ser de duas categorias principais: os anticoncepcionais combinados, que contêm tanto estrogênio quanto progesterona, e os anticoncepcionais de apenas progesterona, conhecidos como “minipílulas” (STALAS et al., 2024). Embora esses contraceptivos sejam extremamente eficazes na prevenção de gravidez, seu uso tem sido associado a um aumento no risco de trombose e tromboembolismo pulmonar, especialmente entre mulheres com predisposição genética ou condições médicas que favoreçam a coagulação excessiva (LEWCZUK et al., 2022). O estrogênio presente nos anticoncepcionais combinados é o principal responsável por essa alteração no sistema de coagulação, promovendo um estado protrombótico que pode resultar em trombose venosa profunda e, subsequente, tromboembolismo pulmonar (JUNIOR et al., 2023).

O mecanismo pelo qual os anticoncepcionais orais aumentam o risco de tromboembolismo pulmonar está diretamente relacionado aos efeitos do estrogênio no sistema hemostático. O estrogênio induz um aumento na produção de vários fatores de coagulação no fígado, como o fibrinogênio e o fator VII, que são fundamentais na formação de coágulos (LEWCZUK et al., 2022). Além disso, o estrogênio pode modificar a função das plaquetas, células sanguíneas que promovem a formação de coágulos, e reduzir a capacidade do organismo de dissolver esses coágulos, o que potencializa o risco de trombose e embolismo (THACHIL et al., 2022). Este efeito combinando aumento da coagulação sanguínea e diminuição da fibrinólise resulta em um estado de maior propensão à formação de trombos, que podem se deslocar para os pulmões e causar tromboembolismo pulmonar (GRIS et al., 2022).

O uso de anticoncepcionais orais é particularmente arriscado em mulheres que possuem fatores predisponentes adicionais, como obesidade, tabagismo, ou doenças autoimunes, como a síndrome antifosfolípide (STALAS et al., 2024). O tabagismo, por exemplo, aumenta a viscosidade do sangue e a ativação do sistema de coagulação, o que, quando combinado com os efeitos dos anticoncepcionais, aumenta significativamente o risco de trombose (THACHIL et al., 2022). Mulheres obesas também apresentam maior risco de trombose devido a fatores circulatórios alterados, e o uso de anticoncepcionais orais em tais pacientes pode elevar ainda mais a probabilidade de formação de coágulos, aumentando o risco de tromboembolismo pulmonar (GRIS et al., 2022). Além disso, as mulheres com histórico de trombose ou condições autoimunes como lupus eritematoso sistêmico ou síndrome antifosfolípide têm um risco substancialmente maior ao utilizarem anticoncepcionais orais (JUNIOR et al., 2023).

Os anticoncepcionais orais que contêm estrogênio estão diretamente associados a um aumento do risco de tromboembolismo pulmonar, especialmente nas formas de anticoncepcionais combinados, que possuem doses mais elevadas desse hormônio (LEWCZUK et al., 2022). O risco de tromboembolismo pulmonar é exacerbado quando os anticoncepcionais são utilizados em conjunto com outros medicamentos que afetam a coagulação sanguínea, como anticoagulantes, ou quando há presença de outras condições predisponentes, como doenças vasculares ou síndromes genéticas que aumentam a tendência à coagulação (GRIS et al., 2022). A associação entre o uso de anticoncepcionais orais e doenças autoimunes ou trombofilia, como a síndrome antifosfolípide, é particularmente perigosa, pois essas condições por si só já elevam o risco de trombose, e os anticoncepcionais potencializam esse efeito (STALAS et al., 2024).

Além dos fatores clínicos preexistentes, condições inflamatórias também podem aumentar o risco de tromboembolismo pulmonar em mulheres que utilizam anticoncepcionais orais. A infecção por vírus, como o SARS-CoV-2, demonstrou ser um fator de risco adicional, pois a resposta inflamatória causada por tais infecções pode ativar ainda mais o sistema de coagulação do corpo (ALYOUSEFI, 2021). Estudos mostraram que mulheres que utilizam anticoncepcionais orais e contraem infecções virais como a COVID-19 enfrentam um risco aumentado de trombose devido à combinação dos efeitos da inflamação viral com os efeitos pró-coagulantes dos anticoncepcionais (SONG et al., 2021). Mulheres jovens, que geralmente têm risco mais baixo de tromboembolismo, podem, portanto, enfrentar um risco substancialmente mais elevado de desenvolver essas condições, se estiverem fazendo uso de anticoncepcionais orais e contraírem infecções virais (ALYOUSEFI, 2021).

A abordagem do risco de tromboembolismo pulmonar em mulheres que utilizam anticoncepcionais orais deve ser multifatorial, levando em consideração não apenas o uso do contraceptivo, mas também a presença de outros fatores de risco, como histórico de trombose, doenças autoimunes, obesidade, tabagismo, e a combinação com outras terapias que afetam a coagulação (THACHIL et al., 2022). Mulheres com histórico de trombose, condições genéticas predisponentes, ou doenças autoimunes devem ser especialmente monitoradas, e o uso de anticoncepcionais orais deve ser reavaliado com frequência, sendo consideradas alternativas contraceptivas com menor risco, como métodos de barreira ou anticoncepcionais contendo apenas progesterona (JUNIOR et al., 2023). A monitorização clínica regular de pacientes que utilizam anticoncepcionais orais é essencial para detectar precocemente sinais de trombose ou embolia, permitindo a intervenção precoce antes que o quadro se torne grave (SHIBA & VAN KEER, 2024)..

3 METODOLOGIA 

Este estudo consiste em uma revisão integrativa de literatura, uma metodologia que permite reunir, analisar e sintetizar de forma crítica os resultados de pesquisas relevantes, proporcionando uma compreensão ampla e atualizada sobre um fenômeno clínico. Ao contrário das revisões sistemáticas, a revisão integrativa possibilita a inclusão de diferentes tipos de estudos, como ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais, relatos de caso e consensos de especialistas, o que permite uma visão mais abrangente sobre o impacto dos anticoncepcionais orais combinados (AOCs) no desenvolvimento do tromboembolismo pulmonar (TEP). A busca bibliográfica foi realizada em bases eletrônicas relevantes, como PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e Embase, utilizando descritores controlados e não controlados, em inglês e português, como “pulmonary embolism”, “oral contraceptives”, “estrogen”, “combined contraceptives” e “thrombotic risk”. Foram aplicados operadores booleanos (AND, OR) para refinar ou ampliar os resultados. A pesquisa considerou publicações de janeiro de 2021 a abril de 2024, abrangendo estudos recentes que refletem os avanços na área.

Foram incluídos artigos originais em inglês ou português, disponíveis em texto completo, que envolvessem mulheres em idade reprodutiva usuárias de anticoncepcionais orais combinados e que tivessem desenvolvido TEP. Também foram consideradas publicações que abordassem aspectos fisiopatológicos, diagnósticos, terapêuticos ou prognósticos da relação entre anticoncepcionais e TEP. Foram excluídos estudos com foco em populações pediátricas ou geriátricas exclusivamente, artigos experimentais em animais, trabalhos sem acesso integral ao texto e revisões narrativas sem embasamento científico robusto. A triagem inicial foi feita por meio da leitura de títulos e resumos, seguida da análise integral dos artigos elegíveis. A extração de dados considerou informações como o desenho do estudo, a população avaliada, o tipo de anticoncepcional utilizado, os fatores de risco associados, os métodos diagnósticos empregados, as intervenções terapêuticas realizadas e os principais desfechos clínicos.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Alyousefi (2021) relatou o caso de uma paciente jovem, usuária de anticoncepcional oral combinado (AOC), que desenvolveu tromboembolismo pulmonar (TEP) maciço associado a trombose venosa profunda (TVP) após infecção por COVID-19. A paciente apresentou quadro súbito de dispneia intensa, dor torácica pleurítica, taquicardia e hipoxemia, associado à elevação marcante de dímero-D (> 4.000 ng/mL). A angiotomografia computadorizada de tórax evidenciou êmbolos pulmonares extensos em ambas as artérias pulmonares. O estudo destacou a sinergia patogênica entre o uso de AOCs e estados inflamatórios sistêmicos, como a infecção viral, que potencializam a cascata pró-coagulante por aumento da IL-6, TNF-α e fibrinogênio. O desfecho foi favorável com anticoagulação plena, mas o caso reforça que mesmo em ausência de trombofilia hereditária, o uso de contraceptivos combinados pode predispor a eventos tromboembólicos fatais, especialmente em contexto de inflamação sistêmica.

Gris et al. (2022) analisaram a interação entre AOCs e síndrome antifosfolípide (SAF), condição que amplifica exponencialmente o risco trombótico. Mulheres com anticorpos antifosfolípides em uso de AOCs apresentaram risco oito vezes maior de TEP comparado a não usuárias. Além disso, a taxa de recorrência de TEV nessas pacientes foi significativamente mais alta, mesmo sob anticoagulação, evidenciando o caráter persistente da hipercoagulabilidade. O estudo sugeriu que a contracepção hormonal combinada deve ser absolutamente contraindicada em pacientes com SAF, independentemente da presença de manifestações clínicas prévias. Os autores recomendam a triagem em casos de história pessoal ou familiar de trombose, dada a gravidade dos desfechos quando AOCs são utilizados neste perfil de risco.

Lewczuk et al. (2022) apresentaram um relato dramático de TEP maciço em paciente jovem, previamente saudável, usuária de AOC de 3ª geração. O quadro evoluiu rapidamente para choque obstrutivo, necessitando trombólise sistêmica com alteplase. Apesar da reperfusão parcial e recuperação da função ventricular direita, o caso evidenciou que a mortalidade do TEP maciço pode superar 30% em 30 dias se não houver intervenção imediata. Os autores ressaltam que AOCs contendo drospirenona conferem risco quase três vezes maior de TEV em comparação aos contendo levonorgestrel. O relato enfatiza a importância da anamnese detalhada, incluindo uso de anticoncepcionais, em toda paciente jovem admitida com dispneia aguda e sinais de instabilidade hemodinâmica.

Na revisão sistemática conduzida por thachil et al. (2022), estimou-se que o uso de AOCs é responsável por 10 a 20% dos episódios de TEV em mulheres em idade fértil. O risco relativo variou entre 2 a 6 vezes, dependendo da formulação. Os autores destacaram que contraceptivos contendo drospirenona e desogestrel têm perfil trombogênico significativamente maior, enquanto os que utilizam levonorgestrel apresentam risco reduzido. Fatores adicionais como tabagismo, obesidade e sedentarismo aumentam ainda mais o risco absoluto, podendo elevar a incidência de TEV para até 15 casos por 10.000 mulheres/ano em usuárias de alto risco. O estudo recomenda que a prescrição de AOCs seja acompanhada de estratificação individual de risco, com orientação sobre alternativas não hormonais em pacientes com múltiplos fatores predisponentes.

Junior et al. (2023) reforçaram a necessidade de inclusão do uso de AOCs em escores preditivos de TEP, como o escore de Wells. Os autores salientaram que a omissão deste fator pode levar a subestimação do risco em mulheres jovens, atrasando o diagnóstico. O estudo também comparou estratégias de anticoagulação, destacando que os anticoagulantes orais diretos (DOACs), como rivaroxabana e apixabana, são preferíveis em mulheres jovens, por apresentarem eficácia semelhante à varfarina, menor risco de hemorragia e melhor adesão terapêutica. Dados de acompanhamento mostraram que, após a suspensão do AOC e início da anticoagulação, a recorrência de TEV caiu para menos de 3% em um ano, reforçando a importância da retirada imediata do fator causal.

O estudo de Shiba & Van Keer (2024) relatou um caso de TEP bilateral submaciço em usuária de AOC, tratado com trombólise dirigida por cateter. Essa técnica consiste na infusão local de alteplase associada à reperfusão mecânica, promovendo rápida restauração da circulação pulmonar. O procedimento resultou em melhora imediata da pressão pulmonar e recuperação da função ventricular direita, sem complicações hemorrágicas graves. Os autores ressaltaram que, em pacientes jovens, essa estratégia pode reduzir o risco de evolução para hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC), complicação que ocorre em até 4% dos sobreviventes de TEP. A análise sugere que terapias endovasculares podem ser alternativas seguras à trombólise sistêmica, especialmente em casos intermediários de risco.

Song et al. (2021) realizaram estudo retrospectivo sobre TEP associado a AOCs, evidenciando que a maioria dos casos ocorre nos primeiros 12 meses de uso. O estudo identificou que aproximadamente 60% das pacientes apresentaram sintomas inespecíficos (fadiga, dispneia leve, dor torácica atípica) antes do diagnóstico definitivo, o que contribuiu para atrasos e maior gravidade dos casos. A taxa de mortalidade hospitalar foi de 6%. Os autores recomendam vigilância clínica intensificada no primeiro ano de uso de AOCs e reavaliação periódica da necessidade de manutenção da contracepção hormonal em pacientes com fatores adicionais de risco.

Stalas et al. (2024) conduziram estudo multicêntrico comparando formulações contraceptivas. Usuárias de drospirenona apresentaram risco relativo de TEP três vezes maior, e as de desogestrel, 2,5 vezes maior, em comparação a levonorgestrel. A incidência absoluta variou de 9 a 12 casos de TEV por 10.000 mulheres/ano nas formulações de maior risco, contra 5 a 6 por 10.000/ano nas de levonorgestrel. Esses dados indicam que a escolha do tipo de progestágeno influencia diretamente o risco tromboembólico. Os autores defendem que, em mulheres com predisposição, contraceptivos de 2ª geração devem ser priorizados, e que os profissionais de saúde devem discutir ativamente esses riscos com as pacientes no momento da prescrição.

Quadro 1 – Síntese crítica dos estudos analisados

Autor e AnoMetodologiaPrincipais Conclusões
 ALYOUSEFI, 2021 Relato de caso clínico detalhadoDescreveu TEP maciço em paciente jovem usuária de AOC após COVID-19, com dímero-D > 4.000 ng/mL e êmbolos extensos em angiotomografia. Destacou efeito sinérgico entre fatores transitórios (infecção viral) e hormonais (estrogênio) na hipercoagulabilidade. Evolução favorável com anticoagulação plena, mas evidenciou que mesmo mulheres sem trombofilia hereditária podem evoluir com TEP fatal sob uso de AOCs.
GRIS et al., 2022Revisão integrativa com enfoque em trombofilias adquiridasAnalisou a associação de AOCs com síndrome antifosfolípide (SAF). Demonstrou risco até 8 vezes maior de TEP em mulheres com anticorpos antifosfolípides em uso de AOCs. Concluiu que a contracepção combinada deve ser contraindicada em SAF e recomendou triagem laboratorial em casos de histórico pessoal/familiar de trombose.
LEWCZUK et al., 2022Relato de caso com revisão de literaturaRelatou TEP maciço e choque obstrutivo em usuária de AOC de 3ª geração. Paciente necessitou trombólise sistêmica com alteplase. Estudo reforçou que o risco de TEV é 3x maior com drospirenona em relação ao levonorgestrel. Evidenciou importância da anamnese com ênfase em uso de AOCs em pacientes jovens com dispneia aguda.
THACHIL et al., 2022Revisão sistemática de literaturaEstimou que AOCs são responsáveis por 10–20% dos episódios de TEV em mulheres em idade fértil. Risco relativo variou entre 2–6 vezes. Concluiu que progestágenos de 3ª/4ª geração (drospirenona e desogestrel) aumentam substancialmente o risco, enquanto levonorgestrel apresenta menor impacto. Tabagismo e obesidade ampliam risco absoluto para até 15 casos/10.000 mulheres/ano.
JUNIOR et al., 2023Revisão narrativa críticaReforçou a inclusão do uso de AOCs em escores clínicos de predição de TEP (ex.: Wells). Discutiu estratégias terapêuticas e concluiu que DOACs (rivaroxabana/apixabana) apresentam eficácia semelhante à varfarina, com menor risco hemorrágico e maior adesão. Observou que a suspensão do AOC reduz recidiva de TEV para <3% ao ano.
SHIBA & VAN KEER, 2024Relato de caso com revisão técnicaRelataram TEP bilateral submaciço tratado com trombólise dirigida por cateter, combinando alteplase local e reperfusão mecânica. Técnica promoveu rápida melhora hemodinâmica e prevenção de hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC), complicação presente em até 4% dos sobreviventes de TEP. Sugerem uso preferencial em pacientes jovens com risco intermediário.
SONG et al., 2021Estudo retrospectivo multicêntricoAvaliou casos de TEP em usuárias de AOCs e observou que >60% ocorreram no primeiro ano de uso. Identificou atraso diagnóstico em 60% dos casos devido a sintomas inespecíficos. Relatou taxa de mortalidade hospitalar de 6%. Recomendou vigilância clínica intensificada e reavaliação periódica da indicação de AOCs em pacientes com fatores de risco adicionais.
STALAS et al., 2024Estudo multicêntrico de coorteComparou diferentes formulações de AOCs. Usuárias de drospirenona apresentaram risco 3x maior de TEP, e de desogestrel, 2,5x maior, comparadas a levonorgestrel. Incidência absoluta: 9–12/10.000 mulheres/ano em formulações de maior risco versus 5– 6/10.000/ano em levonorgestrel. Concluíram que contraceptivos de 2ª geração devem ser priorizados em pacientes com fatores trombóticos.
Fonte: Elaborado pelo autor, com base em artigos selecionados, 2025.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, observou-se que o tromboembolismo pulmonar associado ao uso de anticoncepcionais orais combinados representa uma condição de elevada relevância clínica, sobretudo por acometer predominantemente mulheres jovens, muitas vezes sem comorbidades prévias. Os dados da literatura analisada reforçam que a hipercoagulabilidade induzida pelos estrogênios e progestágenos de 3ª e 4ª geração (como drospirenona e desogestrel) aumenta significativamente o risco de eventos tromboembólicos venosos. A fisiopatologia envolve um desequilíbrio entre fatores pró-coagulantes e anticoagulantes, associado à inibição parcial da fibrinólise, favorecendo a formação de trombos que podem migrar para a circulação pulmonar. Dessa forma, o uso de AOCs deve sempre ser avaliado dentro de um contexto de risco individual, considerando fatores adicionais como obesidade, tabagismo, imobilização e presença de trombofilias hereditárias ou adquiridas.

Do ponto de vista diagnóstico e terapêutico, o reconhecimento precoce é fundamental. O atraso no diagnóstico, frequentemente relacionado à inespecificidade dos sintomas (dispneia, dor torácica, síncope), está associado a pior prognóstico e maior mortalidade. Métodos de imagem como a angiotomografia pulmonar constituem o padrãoouro diagnóstico, enquanto o dímero-D mantém papel como marcador sensível, embora pouco específico. O tratamento deve ser instituído de forma imediata e individualizada, com anticoagulação como pilar central, trombólise reservada a casos de TEP maciço ou submaciço com instabilidade hemodinâmica, e terapias endovasculares emergindo como alternativas promissoras em mulheres jovens com risco intermediário. A suspensão imediata do anticoncepcional é mandatória, pois reduz significativamente a recorrência de novos eventos tromboembólicos.

Por fim, torna-se imprescindível a adoção de estratégias preventivas e de políticas de saúde que ampliem a conscientização sobre o risco de TEP induzido por contraceptivos orais. A prescrição deve ser precedida por avaliação clínica detalhada, levando em consideração histórico familiar, presença de trombofilias e estilo de vida da paciente. Contraceptivos de 2ª geração, com menor impacto trombótico, devem ser preferidos em pacientes de maior risco. Além disso, é fundamental que médicos orientem suas pacientes de forma clara sobre sinais e sintomas sugestivos de TEV, garantindo diagnóstico precoce e tratamento oportuno. A integração entre prevenção, estratificação de risco e intervenções terapêuticas adequadas constitui a principal ferramenta para reduzir a morbimortalidade associada ao TEP em usuárias de anticoncepcionais orais.

REFERÊNCIAS

ALYOUSEFI, A. M. Massive pulmonary embolism in a young woman taking oral contraceptive pills after COVID-19 infection: a case report. The Egyptian Journal of Internal Medicine, v. 33, n. 44, p. 1-5, 2021.

GRIS, J. C. et al. Oral contraceptives, antiphospholipid antibodies and the risk of venous thromboembolism: a complex interaction. Thrombosis Research, v. 211, p. 60-67, 2022.

LEWCZUK, J. et al. Massive pulmonary embolism in a young woman using combined oral contraceptives: case report and review of risk factors. Advances in Clinical and Experimental Medicine, v. 31, n. 8, p. 905-910, 2022.

THACHIL, J. et al. Venous thromboembolism in women: impact of oral contraceptives, pregnancy and puerperium. Seminars in Thrombosis and Hemostasis, v. 48, n. 5, p. 451460, 2022.

JUNIOR, J. A. et al. Clinical prediction and management of pulmonary embolism in women using oral contraceptives: a narrative review. Journal of Thrombosis and Thrombolysis, v. 56, p. 321-332, 2023.

SHIBA, N.; VAN KEER, K. Catheter-directed thrombolysis in submassive pulmonary embolism associated with oral contraceptives: a case-based review. Vascular Medicine, v. 29, n. 1, p. 34-42, 2024.

SONG, J. Y. et al. Pulmonary embolism in young women on oral contraceptives: a retrospective analysis of clinical outcomes and diagnostic delay. Clinical and Applied Thrombosis/Hemostasis, v. 27, p. 1-9, 2021.

STALAS, A. et al. Comparative risk of venous thromboembolism with different oral contraceptive formulations: a multicenter cohort study. Thrombosis and Haemostasis, v. 124, n. 2, p. 145-156, 2024.


¹Médico, egresso da Universidade do Vale do Aço – AFYA UNIVAÇO. E-mail: carlospabloqg@gmail.com;
²Médico, egresso da Universidade Federal de Juiz de Fora (Campus GV). E-mail: lawrencemop@gmail.com;
³Médica, egressa da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM – Campus Teófilo Otoni). E-mail: vitoriamendoncam@gmail.com;
⁴Médico, Pneumologista e Coordenador da Residência de Clínica Médica do Hospital Irmã Denise de Casu, em Caratinga, MG. E-mail: edufir@hotmail.com.