REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202508052146
Eduardo Henrique Oliveira Toledo1
RESUMO
A traqueostomia é um procedimento cirúrgico amplamente utilizado em pacientes adultos submetidos à cirurgia geral, especialmente naqueles que necessitam de ventilação mecânica prolongada ou apresentam obstrução das vias aéreas superiores. Apesar de oferecer benefícios, como facilitar o desmame ventilatório e otimizar o manejo das vias aéreas, o procedimento está associado a complicações imediatas e tardias, que podem impactar os desfechos hospitalares. Entre as complicações mais frequentes destacam-se sangramentos, infecções locais, obstrução da cânula, deslocamento acidental e lesões traqueais, incluindo perfurações e estenoses. Diante disso, a identificação precoce de complicações e o uso de critérios clínicos para desmame e decanulação são fundamentais para reduzir a morbidade e mortalidade. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com descritores em português, inglês e espanhol, utilizando operadores booleanos “AND” e “OR”. Foram incluídos artigos originais publicados entre 2019 e 2025, disponíveis na íntegra e que abordassem complicações, indicadores de desmame ou desfechos hospitalares da traqueostomia em adultos submetidos à cirurgia geral. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, cinco estudos compuseram a amostra final da revisão. Os resultados evidenciaram que o tempo de ventilação mecânica e os critérios clínicos de estabilidade hemodinâmica e proteção das vias aéreas são os principais indicadores de desmame. Observou-se também que a traqueostomia contribui para redução do tempo de internação e melhora do sucesso na decanulação, embora não elimine o risco de mortalidade. Conclui-se que o manejo seguro do paciente traqueostomizado exige protocolos bem estruturados e acompanhamento multiprofissional para otimizar os resultados clínicos e reduzir complicações.
Palavras-chave: Traqueostomia; Cirurgia Geral; Complicações; Desmame; Desfechos Hospitalares.
ABSTRACT
Tracheostomy is a widely used surgical procedure in adult patients undergoing general surgery, particularly those requiring prolonged mechanical ventilation or presenting with upper airway obstruction. Although it offers benefits such as facilitating ventilatory weaning and optimizing airway management, the procedure is associated with immediate and late complications that can impact hospital outcomes. The most frequent complications include bleeding, local infections, cannula obstruction, accidental dislodgement, and tracheal injuries, such as perforations and stenoses. Therefore, early identification of complications and the use of clinical criteria for weaning and decannulation are essential to reduce morbidity and mortality. This study is an integrative literature review conducted in the PubMed and BVS databases, using descriptors in Portuguese, English, and Spanish, combined with the Boolean operators “AND” and “OR.” Original articles published between 2019 and 2025, available in full text, and addressing complications, weaning indicators, or hospital outcomes of tracheostomy in adult general surgery patients were included. After applying the inclusion and exclusion criteria, five studies composed the final review sample. The results showed that the duration of mechanical ventilation and clinical criteria, such as hemodynamic stability and airway protection, are the main weaning indicators. It was also observed that tracheostomy contributes to a reduction in hospital stay and improves decannulation success, although it does not eliminate mortality risk. In conclusion, safe management of tracheostomized patients requires well-structured protocols and multidisciplinary follow-up to optimize clinical outcomes and reduce complications.
Keywords: Tracheostomy; General Surgery; Complications; Weaning; Hospital Outcomes.
1. INTRODUÇÃO
A traqueostomia é um procedimento cirúrgico amplamente utilizado em pacientes adultos submetidos à cirurgia geral, principalmente naqueles que necessitam de suporte ventilatório prolongado ou apresentam obstrução das vias aéreas superiores. Historicamente, esse procedimento foi associado à melhora da ventilação e à facilitação do desmame da ventilação mecânica, tornando-se uma estratégia importante para reduzir complicações respiratórias em pacientes críticos (Reinaldo et al., 2020).
As complicações mais frequentes relacionadas à traqueostomia incluem sangramentos, infecções locais, obstrução da cânula, deslocamento acidental e lesões traqueais, como perfurações e estenoses. A identificação precoce desses eventos adversos e o manejo adequado são essenciais para reduzir a morbidade e a mortalidade associadas ao procedimento (Soares et al., 2023). Além disso, os indicadores de desmame, como tempo de ventilação mecânica, estabilidade hemodinâmica e capacidade de proteção das vias aéreas, são fundamentais para definir o momento seguro de decanulação, otimizando a recuperação do paciente e prevenindo complicações adicionais (Barros et al., 2019)
Nesse contexto, torna-se relevante analisar os principais desfechos hospitalares relacionados à traqueostomia em adultos submetidos à cirurgia geral, considerando complicações, indicadores de desmame e resultados clínicos, como tempo de internação e mortalidade. Assim, este estudo tem como objetivo revisar as complicações, os indicadores de desmame e os desfechos hospitalares da traqueostomia em adultos submetidos à cirurgia geral.
2. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura. Para a condução deste estudo, formulou-se a seguinte pergunta norteadora: Quais são as complicações mais frequentes, os indicadores de desmame e os desfechos hospitalares associados à realização de traqueostomia em pacientes adultos submetidos à cirurgia geral? A busca foi realizada nas bases de dados PubMed e BVS, utilizando combinações de descritores cadastrados nos DeCS e MeSH, em português, espanhol e inglês, com a aplicação dos operadores booleanos “AND” e “OR” para ampliar e refinar os resultados. (traqueostomia OR tracheostomy OR traqueostomía) AND (cirurgia geral OR general surgery OR cirugía general) AND (complicações OR complications OR complicaciones OR desfechos hospitalares OR hospital outcomes OR resultados hospitalários OR desmame OR weaning)
Os critérios de inclusão compreenderam artigos originais, publicados entre 2019 e 2025, envolvendo pacientes adultos, disponíveis na íntegra e que abordassem ao menos um dos aspectos de interesse: complicações, indicadores de desmame ou desfechos hospitalares relacionados à traqueostomia. Foram excluídos estudos de revisão, relatos incompletos, trabalhos duplicados, pagos ou que não apresentassem relação direta com o tema investigado. Após a aplicação desses critérios, cinco estudos foram selecionados para compor a amostra final da revisão. O processo de triagem e seleção dos artigos foi detalhado na Figura 1, que ilustra o fluxo de identificação, exclusão e inclusão dos estudos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Quadro 1: Descrição da amostra.



Com base na análise dos estudos incluídos nesta revisão, é possível identificar que as complicações mais frequentes relacionadas à traqueostomia em pacientes adultos submetidos à cirurgia geral envolvem, principalmente, lesões traqueais, sangramentos e infecções locais. O relato de caso de Ryo et al. (2025) evidencia a gravidade de uma perfuração traqueal após lobectomia, demonstrando a importância do manejo rápido e adequado das vias aéreas para evitar desfechos fatais. Do mesmo modo, Staibano et al. (2023), ao analisar pacientes graves com COVID-19 em uso de oxigenação por membrana extracorpórea, destacaram o risco de complicações hemorrágicas e infecciosas, especialmente em situações de suporte ventilatório prolongado, que tornam o manejo do paciente traqueostomizado ainda mais desafiador.
No que diz respeito aos indicadores de desmame, os estudos apontam que o tempo de ventilação mecânica e a capacidade de decanulação são parâmetros fundamentais para o acompanhamento desses pacientes. A pesquisa de Mota, Rodrigues e Souza (2021) demonstra que a traqueostomia precoce pode reduzir o tempo de ventilação mecânica e favorecer a retirada do respirador, indicando que o momento da realização do procedimento influencia diretamente o sucesso do desmame. Além disso, Mallmann (2019) destaca que o papel do intensivista na avaliação contínua e no uso de critérios clínicos bem estabelecidos, como estabilidade hemodinâmica e capacidade de proteção das vias aéreas, é essencial para uma decanulação segura e eficaz.
Em relação aos desfechos hospitalares, observou-se que a traqueostomia pode contribuir para a redução do tempo de permanência em UTI e melhorar a taxa de desmame ventilatório, mas não elimina totalmente os riscos associados à mortalidade hospitalar. O estudo multicêntrico de prevalência realizado por Merola et al. (2025) reforça que, embora a traqueostomia seja uma prática frequente em unidades de terapia intensiva, complicações imediatas e tardias ainda ocorrem e impactam diretamente o tempo de internação e a recuperação do paciente. Já Staibano et al. (2023) demonstram que, em populações críticas como pacientes em ECMO, a mortalidade permanece elevada, mesmo com estratégias adequadas de manejo e desmame.
Dessa forma, os achados desta revisão permitem responder ao problema de pesquisa, mostrando que as complicações mais frequentes incluem perfuração traqueal, sangramentos e infecções locais; os principais indicadores de desmame envolvem o tempo de ventilação mecânica e os critérios clínicos para decanulação; e os desfechos hospitalares mais relevantes estão relacionados à redução do tempo de internação, sucesso na decanulação e impacto na mortalidade.
4. CONCLUSÃO
Diante dos estudos analisados, conclui-se que a traqueostomia em pacientes adultos submetidos à cirurgia geral apresenta benefícios no manejo das vias aéreas e no desmame da ventilação mecânica, mas ainda está associada a complicações relevantes, como sangramentos, infecções e lesões traqueais. Os principais indicadores de desmame envolvem o tempo de ventilação mecânica, a estabilidade clínica e os critérios para decanulação, que impactam diretamente os desfechos hospitalares, como tempo de internação, sucesso da retirada da cânula e mortalidade. Dessa forma, a literatura reforça a necessidade de protocolos bem definidos e acompanhamento multiprofissional para reduzir riscos e otimizar os resultados clínicos desses pacientes.
REFERÊNCIAS
BARROS, Arthur Garcia et al. Traqueostomia precoce versus tardia em pacientes críticos: experiência de um hospital geral. RELATOS DE CASOS, v. 63, n. 4, p. 370-373, 2019.
MALLMANN, Lucas Pereira. Manejo do paciente traqueostomizado e decanulação–o papel do intensivista além da UTI. Revista Interdisciplinar Pensamento Científico, v. 5, n. 2, 2019.
MEROLA, Raffaele et al. Prática de traqueostomia nas unidades de terapia intensiva italianas: um estudo de prevalência pontual. Medicina , v. 61, n. 1, p. 87, 2025.
MOTA, Jonas Davi Heiderick; RODRIGUES, Yuri de Souza; SOUZA, Flávia dos Santos Lugão de. Análise do tempo de retirada do respirador artificial no paciente submetido a traqueostomia precoce e após sete dias de ventilação mecânica invasiva. Fisioterapia e Pesquisa, v. 27, p. 306- 311, 2021.
REINALDO, Luis Gustavo Cavalcante et al. Modelo de protocolo para realização de Traqueostomia em leito de UTI no paciente com COVID-19. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 9, p. 67955-67964, 2020.
RYO, Masato et al. Airway Management for Tracheal Perforation After Left Hemi-Thyroid Lobectomy: A Case Report. The American Journal of Case Reports, v. 26, p. e946437, 2025.
STAIBANO, Phillip et al. Tracheostomy in critically ill COVID-19 patients on extracorporeal membrane oxygenation: a single-center experience. Annals of Otology, Rhinology & Laryngology, v. 132, n. 12, p. 1520-1527, 2023.
SOARES, Thaís Helena Veloso et al. Traqueostomia: indicações, técnicas, cuidados, complicações e decanulação. Revista Eletrônica Acervo Médico, v. 23, n. 4, p. e12502-e12502, 2023.
1Médico pela Afya Palmas, TO.
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