TOXOPLASMOSE GESTACIONAL NO AMAZONAS: PERFIL EPIDEMIOLÓGICO E AVANÇOS NA VIGILÂNCIA DE 2019 A 2022

GESTATIONAL TOXOPLASMOSIS IN AMAZONAS: EPIDEMIOLOGICAL PROFILE AND SURVEILLANCE ADVANCES FROM 2019 TO 2022

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508151310


Diego da Silva Queiroz1
Tatyana Costa Amorim Ramos2
Alexsandro Xavier de Melo3
Lilian Furtado Farias4
Robson Aleçander Francisco de Oliveira5
Fabricio de Souza Melo6
Pedro Zanata Lima dos Santos7
Erika Schramm Araújo8
Noelia Araujo Medeiros da Silva9
Samyly Coutinho de Aguiar Silva10


Resumo

A toxoplasmose é uma zoonose de distribuição mundial, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, cuja infecção primária durante a gestação representa risco significativo de transmissão vertical. Este estudo descreve o perfil epidemiológico dos casos de toxoplasmose gestacional no estado do Amazonas, entre 2019 e 2022, analisando dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Trata-se de um estudo descritivo com abordagem quantitativa, incluindo todas as notificações registradas sob os códigos CID B58 e O98.6. As variáveis analisadas compreenderam município de residência, ano do primeiro sintoma, faixa etária, raça/cor, escolaridade, trimestre gestacional, critério de confirmação e evolução. Foram registrados 437 casos suspeitos, sendo 386 confirmados (88%). A faixa etária predominante foi de 20 a 29 anos (52%), seguida de 10 a 19 anos (25%). A maioria das gestantes se autodeclarou parda (82%) e possuía ensino médio completo (38%). O segundo (44%) e terceiro (42%) trimestres concentraram a maior parte das notificações. O critério laboratorial foi responsável por 99% das confirmações em 2022. Manaus concentrou 77% dos casos confirmados. Observou-se melhoria na completude dos dados e maior adesão aos critérios laboratoriais de encerramento, indicando avanços na vigilância e diagnóstico. Os resultados reforçam a necessidade de estratégias para ampliar a detecção precoce e o manejo adequado, com ênfase na atenção pré-natal e na integração dos serviços de saúde.

Palavras-chave: Toxoplasmose gestacional; Vigilância epidemiológica; Toxoplasma Gondii; Zoonoses.

Introdução

A toxoplasmose é uma zoonose de distribuição mundial, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii. A infecção pode ocorrer por ingestão de alimentos ou água contaminados por oocistos esporulados, por ingestão de carne crua ou malcozida contendo cistos, ou ainda por contato com fezes de felinos infectados (Walcher; Comparsi; Pedroso, 2016). Na gestação, a infecção primária representa um importante risco de transmissão vertical, sendo considerada uma das principais causas de infecção congênita em humanos (Figueiró-Filho et al., 2005).

A toxoplasmose gestacional, quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode levar à transmissão do parasito para o concepto, resultando em desfechos adversos como aborto, parto prematuro, natimortalidade ou nascimento de crianças com sequelas neurológicas e oftalmológicas (Barros et al., 2024). A detecção precoce da infecção durante o pré-natal, aliada ao manejo clínico adequado, é fundamental para prevenir a forma congênita da doença (Rozin et al., 2021).

No Brasil, a toxoplasmose gestacional passou a integrar a lista de doenças e agravos de notificação compulsória a partir de 2016 (Brasil, 2023). Essa mudança tem impacto direto na vigilância epidemiológica do agravo e demanda maior atenção das equipes de saúde quanto à identificação, investigação e notificação dos casos. O estado do Amazonas, devido à sua vasta extensão territorial, desigualdades regionais no acesso ao pré-natal e diversidade sociocultural, apresenta desafios particulares para o enfrentamento da toxoplasmose durante a gestação (Guimarães et al., 2018).

Considerando a importância da vigilância ativa da toxoplasmose gestacional como estratégia para reduzir a carga da doença congênita, a análise do perfil dos casos notificados pode oferecer subsídios relevantes para a gestão em saúde, a qualificação da atenção pré-natal e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à saúde materno-infantil. Neste contexto, o presente artigo tem por objetivo analisar o cenário epidemiológico da toxoplasmose gestacional no estado do Amazonas no período de 2019 a 2022, com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), buscando contribuir para o aprimoramento das ações de vigilância e prevenção da transmissão vertical da infecção.

Fundamentação Teórica

A toxoplasmose gestacional é um agravo de notificação compulsória no Brasil, com implicações importantes para a saúde materno-infantil. A infecção primária pelo Toxoplasma gondii durante a gestação pode resultar em transmissão transplacentária e causar uma série de desfechos adversos ao feto, como prematuridade, baixo peso ao nascer, alterações neurológicas e oculares, além de natimortalidade (Barros et al., 2024; Walcher; Comparsi; Pedroso, 2016). Diante de seu potencial impacto, a vigilância da toxoplasmose gestacional é fundamental para a detecção precoce dos casos, acompanhamento clínico adequado das gestantes infectadas e prevenção da forma congênita da doença.

A partir de 2016, a toxoplasmose gestacional e congênita foi oficialmente incorporada à Lista Nacional de Doenças de Notificação Compulsória, conforme Portaria nº 204, de 17 de fevereiro de 2016. Esta inclusão representa um marco na estruturação da vigilância do agravo, permitindo que os serviços de saúde monitorem, em tempo oportuno, os casos suspeitos e confirmados, e adotem as medidas clínicas e epidemiológicas adequadas. A notificação deve ser realizada por profissionais de saúde da rede pública ou privada em até 7 dias após a suspeita, utilizando o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Brasil, 2016).

A vigilância da toxoplasmose gestacional envolve a identificação precoce da infecção por meio da triagem sorológica durante o pré-natal, o monitoramento laboratorial das gestantes suscetíveis, e a investigação clínica e epidemiológica dos casos notificados. Cabe ainda às equipes de vigilância epidemiológica municipais e estaduais a análise crítica da qualidade dos dados inseridos no sistema, a verificação de duplicidades, o encerramento adequado dos casos com base nos critérios definidos, e a articulação com os serviços de assistência e diagnóstico laboratorial (Brasil, 2024).

Entretanto, a operacionalização da vigilância da toxoplasmose gestacional no Brasil ainda enfrenta diversos entraves. A ausência de exames confirmatórios disponíveis em tempo oportuno, a fragilidade na coleta e transporte de amostras para diagnóstico molecular, a dificuldade de vinculação entre os serviços de atenção primária e os centros de referência, além da insuficiência de capacitação contínua das equipes envolvidas, limitam a efetividade da vigilância em muitos territórios. Além disso, a baixa completude de campos essenciais nas fichas de notificação, como escolaridade, raça/cor, idade gestacional e critério de confirmação, compromete a qualidade das análises epidemiológicas e a tomada de decisão informada.

Na região Norte, tais desafios são amplificados por fatores geográficos, logísticos e estruturais (Guimarães et al., 2018). O estado do Amazonas, por sua vasta extensão territorial e dificuldades de acesso entre os municípios (Garnelo; Sousa; Silva, 2017), possui características peculiares que impactam diretamente a vigilância da toxoplasmose gestacional. A maioria dos municípios não possuíam fluxos laboratoriais estabelecidos para diagnóstico confirmatório, o que levava ao encerramento de casos por critério clínico-epidemiológico. Essa prática, embora permitida, pode resultar em subestimação da real magnitude do agravo ou em encerramentos precoces sem confirmação, limitando a resposta em saúde pública.

Assim, o fortalecimento da vigilância epidemiológica da toxoplasmose gestacional requer investimento na ampliação do acesso a exames diagnósticos de qualidade, capacitação das equipes de saúde sobre os fluxos de notificação e encerramento, articulação com os serviços de atenção pré-natal e monitoramento contínuo da completude e consistência dos dados. Estudos que analisem a evolução dos casos notificados, seu perfil sociodemográfico, os critérios utilizados para confirmação e os desfechos informados, são essenciais para subsidiar estratégias mais efetivas e regionalizadas de prevenção da transmissão vertical da toxoplasmose.

Metodologia

Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem quantitativa, realizado a partir da análise de dados secundários referentes aos casos de toxoplasmose gestacional no estado do Amazonas, no período de 2019 a 2022. As informações foram obtidas do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), por meio da plataforma TABWIN, disponível no site do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

Foram incluídas todas as notificações registradas com os códigos CID B58 (utilizado até 2020) e CID O98.6 (adotado a partir da padronização específica para toxoplasmose gestacional). Os dados foram extraídos com base nas variáveis disponíveis no banco: município de residência, ano do primeiro sintoma, faixa etária, raça/cor, escolaridade, evolução e critérios de confirmação/descarte.

A tabulação inicial foi realizada no software Microsoft Excel®, para organização e estruturação das bases de dados. Em seguida, os dados foram importados e analisados no ambiente RStudio 4.4.1, utilizando pacotes estatísticos voltados à análise descritiva e visualização gráfica. Foram elaboradas tabelas de frequência para caracterização do perfil epidemiológico dos casos.

Para a análise espacial da distribuição dos casos, foi utilizada a variável Município de residência. A partir dessa informação, foram elaborados mapas temáticos com o uso do software QGIS® 3.34 Prizren, permitindo a visualização geográfica da ocorrência da toxoplasmose gestacional no território do Amazonas durante o período analisado.

Por se tratar de estudo com dados secundários, de acesso público e sem dados sensíveis, esta pesquisa está dispensada de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme dispõe a Resolução nº 674, de 6 de maio de 2022, do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados e Discussão

Durante o período de 2019 a 2022, foram notificados 437 casos suspeitos de toxoplasmose gestacional no estado do Amazonas, dos quais 386 (88%) foram confirmados, 39 (8,9%) descartados e 12 (2,7%) considerados inconclusivos. Observou-se uma tendência crescente na proporção de casos confirmados ao longo dos anos, com destaque para os anos de 2020 e 2021, que apresentaram 94% e 98% de confirmação, respectivamente. Em 2022, embora tenha havido um leve declínio proporcional (91%), o número de confirmações foi o mais elevado do período (Tabela 1). 

Tabela 1. Número de casos confirmados de toxoplasmose gestacional por município de residência e ano de notificação. Amazonas, 2019 a 2022.

Ano de notificaçãoClassificação Final
ConfirmadoDescartadoInconclusivo
    201964 (67%)24 (25%)7 (7,4%)
    202087 (94%)2 (2,2%)4 (4,3%)
    2021109 (98%)1 (0,9%)1 (0,9%)
    2022126 (91%)12 (8,7%)0 (0%)
Total386 (88%)39 (8,9%)12 (2,7%)

Esse aumento pode refletir a maior sensibilidade dos profissionais de saúde, após a implantação da vigilância epidemiológica do agravo em 2019 com ampliação de informações técnicas sobre toxoplasmose gestacional, e também pela ampliação da triagem neonatal, conhecido popularmente como teste do pezinho, que incluiu o rastreio da Toxoplasmose congênita (Brasil, 2023). A elevação progressiva dos registros também pode estar relacionada à qualificação dos fluxos de notificação nos municípios, à intensificação das ações de capacitação para os profissionais da atenção básica e vigilância (FVS-RCP, 2023).

Em relação ao perfil etário, a maioria dos casos ocorreu entre gestantes de 20 a 29 anos, totalizando 203 casos confirmados (52%), faixa etária compatível com uma das maiores concentrações de mulheres em idade fértil e maior número de gestações (Fernandes; Santos; Barbosa, 2019). Essa predominância está em consonância com achados de outros estudos realizados no Brasil, que apontam essa faixa etária como a mais vulnerável à infecção primária, especialmente em contextos de baixa escolaridade e condições socioambientais precárias (Mello et al., 2022; Santos et al., 2025). 

A faixa de 10 a 19 anos concentrou 97 casos (25%), revelando a importância de estratégias específicas voltadas à gestante adolescente, público com maior risco de descontinuidade do pré-natal e de atraso diagnóstico (Nascimento et al., 2021). É importante pontuar, que a região norte apresenta um dos maiores percentuais de gravidez nesse estrato etário (Fernandes; Santos; Barbosa, 2019), tornando-se essencial políticas públicas voltadas a essa população. Gestantes entre 30 e 39 anos somaram 78 casos (20%), enquanto mulheres com 40 anos ou mais representaram apenas 2% (8 casos), o que pode estar relacionado à menor frequência de gravidez nessa faixa etária (Gomes; Domingueti, 2021), ou a uma possível proteção preexistente por exposição anterior ao T. gondii.

Quanto à raça/cor, a predominância foi de mulheres autodeclaradas pardas (317 casos; 82%), o que reflete o perfil étnico predominante da população amazonense (Radicchi, 2020). Gestantes brancas totalizaram 22 casos (5,7%), seguidas por pretas (6 casos; 1,6%) e indígenas (3 casos; 0,8%). Embora o número de casos entre indígenas tenha sido reduzido, é importante considerar a possibilidade de subnotificação ou barreiras de acesso à atenção pré-natal em populações tradicionais (Guimarães et al., 2018). A proporção de registros com raça/cor ignorada apresentou queda expressiva, de 41% em 2019 para 0% em 2022, o que sugere melhora na qualidade do preenchimento das fichas de notificação, possivelmente decorrente de ações de qualificação da vigilância nos territórios.

No que se refere à escolaridade, observou-se predominância de gestantes com ensino médio completo (161 casos; 38%), com crescimento percentual de 19% em 2019 para 60% em 2022. Essa mudança pode refletir tanto a maior frequência de mulheres com esse grau de instrução na população geral (Donate et al., 2022), quanto uma melhoria na completude dessa variável ao longo do tempo. A escolaridade média incompleta foi registrada em 73 casos (17%) e o ensino fundamental completo em 50 casos (12%). Já os níveis de escolaridade superior completo e incompleto somaram apenas 3,9% das notificações, possivelmente indicando menor exposição ao risco ou maior acesso a medidas de prevenção (Santos et al., 2025). O número de registros com escolaridade ignorada foi elevado em 2019 (39%) e caiu substancialmente nos anos seguintes, o que pode evidenciar aprimoramento da qualidade da informação, essencial para orientar intervenções específicas. Os dados do perfil sociodemográfico das gestantes confirmadas para Toxoplasmose constam na tabela a seguir.

Tabela 2. Distribuição dos casos confirmados de toxoplasmose gestacional segundo características sociodemográficas das gestantes, por ano de notificação. Amazonas, 2019 a 2022.

Características Sociodemográficas2019202020212022
N = 64N = 87N = 109N = 126
Faixa Etária    
    10 a 19 anos17 (27%)21 (24%)25 (23%)34 (27%)
    20 a 29 anos33 (52%)48 (55%)58 (53%)64 (51%)
    30 a 39 anos13 (20%)18 (21%)23 (21%)24 (19%)
    40 a 59 anos1 (1,6%)0 (0%)3 (2,8%)4 (3,2%)
Raça/Cor    
    Amarela33 (52%)83 (95%)83 (76%)118 (94%)
    Branca2 (3,1%)1 (1,1%)13 (12%)6 (4,8%)
    Ignorado26 (41%)2 (2,3%)10 (9,2%)0 (0%)
    Indígena2 (3,1%)0 (0%)0 (0%)1 (0,8%)
    Preta1 (1,6%)1 (1,1%)3 (2,8%)1 (0,8%)
Escolaridade    
    1ª a 4ª incompleta1 (1,6%)0 (0%)0 (0%)1 (0,8%)
    4ª completa0 (0%)1 (1,1%)2 (1,8%)0 (0%)
    5ª a 8ª incompleta3 (4,7%)7 (8,0%)13 (12%)7 (5,9%)
    Fundamental completo7 (11%)24 (28%)7 (6,4%)7 (5,9%)
    Ignorado33 (52%)22 (25%)18 (17%)3 (2,5%)
    Médio completo10 (16%)18 (21%)47 (43%)70 (59%)
    Médio incompleto6 (9,4%)10 (11%)18 (17%)26 (22%)
    Sem escolaridade0 (0%)0 (0%)0 (0%)1 (0,8%)
    Superior completo3 (4,7%)4 (4,6%)3 (2,8%)2 (1,7%)
    Superior incompleto1 (1,6%)1 (1,1%)1 (0,9%)1 (0,8%)

Entre os casos confirmados de toxoplasmose gestacional no Amazonas, de 2019 a 2022, a maioria das notificações ocorreu no segundo (44%) e terceiro trimestres gestacionais (42%), enquanto apenas 11% foram registradas no primeiro trimestre (Tabela 3). A distribuição manteve-se estável ao longo dos anos, com discretas variações anuais. A menor proporção de casos no primeiro trimestre indica possível atraso no início do pré-natal ou na triagem sorológica da toxoplasmose (Puccini et al., 2003; Walcher; Comparsi; Pedroso, 2016). Apesar disso, observou-se melhora na completude dos dados, com redução dos registros ignorados sobre idade gestacional, o que reflete avanços na qualidade da vigilância.

Tabela 3. Distribuição dos casos confirmados de toxoplasmose gestacional segundo o trimestre gestacional no momento da notificação, por ano. Amazonas, 2019 a 2022.

Trimestre Gestacional2019202020212022
N = 64N = 87N = 109N = 126
    1º trimestre7 (11%)14 (16%)12 (11%)11 (8,7%)
    2º trimestre29 (45%)36 (41%)49 (45%)57 (45%)
    3º trimestre27 (42%)34 (39%)48 (44%)55 (44%)
Idade gestacional ignorada1 (1,6%)3 (3,4%)0 (0%)3 (2,4%)

Quanto ao encerramento dos casos confirmados de toxoplasmose gestacional no Amazonas, observou-se predominância do encerramento por critério laboratorial, com aumento de 86% em 2019 para 99% em 2022 (Tabela 4). Esses dados podem evidenciar o fortalecimento da vigilância laboratorial no estado, especialmente da capacidade diagnóstica por meio de sorologia específica. Quanto à evolução dos casos, a maior proporção dos casos foi encerrada com cura, variando de 89% em 2019 a 100% em 2020 e 2021, embora em 2022 tenha sido registrado aumento dos casos com evolução ignorada (7,4%), o que pode refletir falhas no acompanhamento clínico final.

Tabela 4. Distribuição dos casos confirmados de toxoplasmose gestacional segundo critério de confirmação e evolução clínica, por ano de notificação. Amazonas, 2019 a 2022.

Encerramento dos casos2019202020212022
N = 64N = 87N = 109N = 126
Critério de Confirmação    
    Clínico-epidemiológico9 (14%)9 (10%)6 (5,5%)1 (0,8%)
    Laboratorial55 (86%)78 (90%)103 (94%)125 (99%)
Evolução do Caso    
    Cura57 (89%)86 (100%)107 (100%)113 (93%)
    Ignorado7 (11%)0 (0%)0 (0%)9 (7,4%)

Entre os 386 casos confirmados de toxoplasmose gestacional no estado do Amazonas, notificados entre 2019 e 2022, o município de Manaus concentrou a maior parte dos registros, com 299 casos (77%), evidenciando sua relevância epidemiológica na dinâmica do agravo. Outros municípios com destaque foram Tabatinga, com 23 casos (6%), Itacoatiara, com 15 casos (3,9%), além de Coari e Tefé, ambos com 7 casos (1,8%) cada, e Manacapuru, com 5 casos (1,3%) conforme o mapa a seguir (Figura 1), que demonstra a distribuição espaço-temporal da doença. 

Figura 1. Distribuição espacial dos casos confirmados de toxoplasmose gestacional por município de residência. Amazonas, 2019 a 2022.

Mapa

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A predominância de notificações na capital pode refletir tanto a maior densidade populacional (IBGE, 2022), quanto a maior capacidade de diagnóstico e registro dos casos (Garnelo; Sousa; Silva, 2017). No entanto, os registros em municípios do interior também apontam para a circulação do agravo em diferentes regiões, reforçando a importância de ações de vigilância ativa e qualificação do pré-natal em todo o território estadual.

Considerações Finais

As evidências deste estudo reforçam a importância da toxoplasmose gestacional como agravo de interesse para a saúde pública no estado do Amazonas, com casos confirmados distribuídos em diversas regiões e predominância na capital. Observou-se, ao longo dos anos analisados, uma melhora significativa na completude das informações, o que indica maior sensibilização das equipes de saúde quanto à importância da notificação adequada e do encerramento qualificado dos casos. Esse avanço pode refletir em ações educativas e investimentos na organização da vigilância epidemiológica e laboratorial. 

Apesar dos avanços, ainda persistem desafios relacionados à ampliação da cobertura de diagnóstico oportuno, à integração com os serviços de pré-natal e à padronização das condutas frente aos casos suspeitos. Dessa forma, recomenda-se o fortalecimento contínuo das ações de vigilância, com ênfase na educação permanente dos profissionais e promoção de uma resposta articulada entre os níveis de atenção à saúde, visando à prevenção da transmissão vertical e à proteção da saúde materno-infantil no contexto amazônico.

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1Enfermeiro da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Especialista em epidemiologia e Vigilância em Saúde. E-mail: diegoqueiroz.fvs@hotmail.com
2Enfermeira Diretora Presidente da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) Doutora em Saúde pública. E-mail: dipre@fvs.am.gov.br
3Enfermeiro Diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Especialista em Saúde Pública. E-mail: alexsandrorr@yahoo.com.br
4Enfermeira Gerente da Gerência de Vigilância em Doenças Transmissíveis (GVDT), da Fundação de Vigilância em Saúde Dra Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Especialista em Saúde do Trabalhador, E-mail: furtadofariaslilian@gmail.com
5Médico da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Infectologista, E-mail: robmd34@gmail.com
6Enfermeiro Gerente da Gerência de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis (GVDANT) da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Especialista em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS. E-mail: enf.fabricio.melo@gmail.com
7Biólogo sem filiação, Mestre em Saúde Pública, E-mail: pedrozanatasantos@gmail.com
8Enfermeira da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Especialista em Obstetrícia. E-mail: erika-schramm@hotmail.com
9Enfermeira Subgerente da Gerência de Vigilância em Doenças Transmissíveis (GVDT), da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Especialista em Epidemiologia de Campo, E-mail: noeliaaraujo.fvs@gmail.com
10Médica Veterinária da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Mestra em Saúde Pública. E-mail: samylyvigep@gmail.com