EFFECTS OF TRANSCRANIAL PHOTOBIOMODULATION ON COGNITIVE FUNCTION: A SYSTEMATIC REVIEW
EFECTOS DE LA FOTOBIOMODULACIÓN TRANSCRANEAL EN LA FUNCIÓN COGNITIVA: REVISIÓN SISTEMÁTICA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202508151319
Mateus Castro de Souza1
Mauricio Barbosa de Oliveira Filho2
Ana Luisa da Silva Souza3
Carolina Pontes Soares4
Resumo:
Introdução: A fotobiomodulação transcraniana (tPBM) utiliza luz na faixa do vermelho e infravermelho próximo para modular processos biológicos neuronais. Estudos sugerem que a tPBM pode melhorar funções cognitivas e atuar sobre mecanismos fisiopatológicos da Doença de Alzheimer (DA) e do comprometimento cognitivo leve (CCL). Objetivo: Avaliar a eficácia e segurança da tPBM na função cognitiva em humanos, integrando achados de ensaios clínicos randomizados (RCTs) e evidências pré-clínicas. Métodos: Revisão sistemática conduzida em PubMed, ScienceDirect, LILACS e BVS, sem restrição de data. Foram incluídos RCTs que avaliaram tPBM em adultos com desfechos cognitivos. O risco de viés foi analisado pelo Cochrane RoB 2.0. Evidências pré-clínicas relevantes foram discutidas para suporte mecanístico. Resultados: Dos 1083 artigos identificados, 23 RCTs preencheram os critérios. A maioria utilizou luz NIR (627–810 nm), potência entre 20–250 mW/cm², duração de 10–20 minutos, 3–5 vezes/semana, por 8–12 semanas. Comparado ao sham, a tPBM apresentou melhora significativa principalmente em memória e atenção. Eventos adversos foram raros e leves. Estudos pré-clínicos sugerem que os efeitos podem estar relacionados ao aumento da produção de ATP, modulação do estresse oxidativo e melhora da perfusão cerebral. Conclusão: A tPBM mostra potencial como terapia não farmacológica para melhorar a função cognitiva, especialmente em CCL e DA leve. No entanto, a heterogeneidade dos protocolos e o número limitado de estudos de longo prazo exigem mais pesquisas para confirmar a eficácia.
Palavras-chave: Fotobiomodulação transcraniana; Função cognitiva; Comprometimento cognitivo leve; Doença de alzheimer; Ensaio clínico randomizado.
Abstract:
Background: Transcranial photobiomodulation (tPBM) uses red and near-infrared light to modulate neuronal biological processes. Evidence suggests that tPBM may improve cognitive functions and target pathophysiological mechanisms in Alzheimer’s disease (AD) and mild cognitive impairment (MCI).Objective: To evaluate the efficacy and safety of tPBM on cognitive function in humans, integrating findings from randomized clinical trials (RCTs) and preclinical evidence.Methods: A systematic review was conducted in PubMed, ScienceDirect, LILACS, and BVS without date restrictions. We included RCTs assessing tPBM in adults with cognitive outcomes. Risk of bias was assessed with Cochrane RoB 2.0. Relevant preclinical evidence was discussed to support mechanistic plausibility. Results: Out of 1083 identified articles, 23 RCTs met inclusion criteria. Most used NIR light (627–810 nm), power between 20–250 mW/cm², sessions of 10–20 minutes, 3–5 times/week, for 8–12 weeks. Compared to sham, tPBM significantly improved memory and attention in most trials. Adverse events were rare and mild. Preclinical studies suggest these effects may relate to increased ATP production, oxidative stress modulation, and improved cerebral perfusion. Conclusion: tPBM shows potential as a non-pharmacological intervention to enhance cognitive function, particularly in MCI and mild AD. However, protocol heterogeneity and the limited number of long-term trials warrant further investigation.
Keywords: transcranial photobiomodulation; cognitive function; mild cognitive impairment; Alzheimer’s disease; randomized clinical trial.
Resumen:
Introducción: La fotobiomodulación transcraneal (tPBM) utiliza luz en el rango rojo e infrarrojo cercano para modular procesos biológicos neuronales. La evidencia sugiere que la tPBM puede mejorar funciones cognitivas y actuar sobre mecanismos fisiopatológicos de la enfermedad de Alzheimer (EA) y el deterioro cognitivo leve (DCL). Objetivo: Evaluar la eficacia y seguridad de la tPBM sobre la función cognitiva en humanos, integrando hallazgos de ensayos clínicos aleatorizados (ECA) y evidencia preclínica. Métodos: Revisión sistemática realizada en PubMed, ScienceDirect, LILACS y BVS sin restricción de fechas. Se incluyeron ECAs que evaluaran tPBM en adultos con desenlaces cognitivos. El riesgo de sesgo se evaluó con Cochrane RoB 2.0. Se discutió evidencia preclínica relevante para sustentar la plausibilidad mecanística. Resultados: De 1083 artículos identificados, 23 ECAs cumplieron los criterios. La mayoría utilizó luz NIR (627–810 nm), potencia de 20–250 mW/cm², sesiones de 10–20 minutos, 3–5 veces/semana, durante 8–12 semanas. En comparación con el grupo sham, la tPBM mejoró significativamente la memoria y la atención en la mayoría de los estudios. Los eventos adversos fueron raros y leves. Los estudios preclínicos sugieren que estos efectos podrían estar relacionados con el aumento de producción de ATP, la modulación del estrés oxidativo y la mejora de la perfusión cerebral. Conclusión: La tPBM muestra potencial como intervención no farmacológica para mejorar la función cognitiva, especialmente en DCL y EA leve. Sin embargo, la heterogeneidad de los protocolos y el número limitado de estudios a largo plazo requieren más investigación.
Palabras clave: fotobiomodulación transcraneal; función cognitiva; deterioro cognitivo leve; enfermedad de Alzheimer; ensayo clínico aleatorizado.
Introdução:
O uso da luz com fins terapêuticos tem raízes históricas que remontam à fototerapia no final do século XIX, quando Niels Ryberg Finsen recebeu o Prêmio Nobel de Medicina (1903) por seus estudos sobre luz concentrada no tratamento de doenças cutâneas. No entanto, o conceito moderno de fotobiomodulação surgiu na década de 1960, com as descobertas de Endre Mester sobre os efeitos de lasers de baixa potência na cicatrização e regeneração tecidual (Mester et al., 1967). O interesse em aplicações neurológicas, particularmente na cognição, intensificouse nas últimas duas décadas, à medida que estudos pré-clínicos e clínicos evidenciaram que a luz na faixa do infravermelho próximo pode penetrar o crânio e atingir estruturas cerebrais profundas, modulando funções neuronais e processos patológicos (Hamblin, 2016).
Nesse sentido, a fotobiomodulação transcraniana (tPBM) surge como uma modalidade terapêutica não invasiva que utiliza luz na faixa do vermelho (≈ 600–700 nm) e do infravermelho próximo (≈ 700–1100 nm) capaz de modular processos biológicos a nível celular e tecidual. O princípio central baseia-se na absorção da luz por cromóforos intracelulares, especialmente a citocromo c oxidase (CCO), uma enzima-chave da cadeia respiratória mitocondrial, resultando no aumento da produção de trifosfato de adenosina (ATP), modulação do estresse oxidativo, alteração de vias de sinalização celular e melhora da perfusão cerebral. Esses efeitos podem levar a mudanças funcionais e estruturais no sistema nervoso central, incluindo melhora na plasticidade sináptica e na função cognitiva (Hamblin, 2018).
No campo das doenças neurodegenerativas, especialmente o comprometimento cognitivo leve (CCL) e a Doença de Alzheimer (DA), a tPBM tem emergido como uma abordagem promissora. Essas condições representam desafios globais de saúde pública, com impacto crescente devido ao envelhecimento populacional. As opções terapêuticas farmacológicas atuais para a DA oferecem apenas benefícios sintomáticos limitados e não alteram substancialmente a progressão da doença (Cummings et al., 2019). Nesse contexto, terapias não farmacológicas que possam retardar o declínio cognitivo, melhorar funções cognitivas e atuar sobre mecanismos fisiopatológicos são fortemente desejáveis (Salehpour et al., 2021).
Nesse sentido, a fotobiomodulação transcraniana (tPBM) surge como uma modalidade terapêutica não invasiva que utiliza luz na faixa do vermelho (≈ 600–700 nm) e do
Desse modo, o presente estudo baseia-se no crescente corpo de evidências que indica que a tPBM pode melhorar o desempenho cognitivo em humanos e modificar processos patológicos centrais da DA, como a deposição de placas amiloides, a hiperfosforilação da proteína tau, a neuroinflamação e a disfunção mitocondrial. Ensaios clínicos recentes, embora ainda heterogêneos em protocolos e amostras, apontam para ganhos em memória, atenção e função executiva, enquanto estudos pré-clínicos reforçam a plausibilidade biológica desses efeitos. No entanto, a literatura apresenta lacunas significativas, incluindo a falta de padronização de parâmetros de irradiação, o número reduzido de estudos com amostras amplas e o acompanhamento de longo prazo.
Assim, torna-se relevante sintetizar criticamente as evidências disponíveis sobre a eficácia e segurança da tPBM na função cognitiva, integrando resultados de ensaios clínicos e dados mecanísticos de estudos pré-clínicos, a fim de oferecer uma visão abrangente do seu potencial terapêutico.
Portanto, essa revisão sistemática busca avaliar os efeitos da fotobiomodulação transcraniana sobre a função cognitiva em humanos, considerando ensaios clínicos randomizados e não randomizados, e discutir as evidências pré-clínicas que possam sustentar os mecanismos subjacentes aos efeitos observados.
Metodologia
Esta revisão sistemática foi conduzida de acordo com as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020), garantindo rigor metodológico e transparência em todas as etapas.
A estratégia de busca foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e Embase, Science Direct e LILACS abrangendo publicações até julho de 2025, sem restrição de idioma. Foram utilizados descritores controlados (MeSH) e termos livres, combinados com operadores booleanos, da seguinte forma: (“photobiomodulation” OR “transcranial laser stimulation” OR “near infrared light” OR “transcranial photobiomodulation” OR “LED therapy”) AND (“cognitive function” OR “executive function” OR “mild cognitive impairment”).
Além disso, foi feita triagem manual das referências dos artigos incluídos para identificar estudos adicionais.
Foram considerados elegíveis estudos que incluíssem indivíduos adultos (≥18 anos) com comprometimento cognitivo leve (CCL), Doença de Alzheimer (DA) leve a moderada ou idosos saudáveis com queixas subjetivas de memória. A intervenção deveria consistir em fotobiomodulação transcraniana (tPBM) com luz vermelha ou infravermelha próxima. Os comparadores aceitáveis foram grupos controle sham/placebo ou ausência de intervenção. Os desfechos primários incluíram medidas objetivas de função cognitiva, como ADAS-Cog, MoCA, MMSE e testes específicos de memória, atenção e função executiva. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (RCTs), ensaios clínicos não randomizados e estudos préclínicos que investigassem mecanismos relacionados à cognição. Foram excluídos estudos de revisão, relatos de caso, séries de casos e pesquisas sem avaliação objetiva da função cognitiva.
O processo de seleção foi conduzido por dois revisores independentes utilizando o software CADIMA, com divergências resolvidas por consenso. Inicialmente, foram identificados 274 artigos. Após remoção de duplicatas, todos os registros seguiram para triagem de título e resumo. Destes, 243 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Os 31 artigos restantes foram avaliados em texto completo e 8 foram excluídos por não preencherem integralmente os critérios. Assim, 23 estudos compuseram a amostra final, sendo 11 RCTs, 2 estudos clínicos não randomizados e 5 estudos pré-clínicos, além de 2 protocolos clínicos ainda sem resultados publicados. O fluxograma PRISMA (Figura X) resume o processo de seleção dos estudos.
A extração de dados foi realizada por dois revisores de forma independente, utilizando uma planilha padronizada contendo informações sobre autores, ano, país, características da amostra, desenho do estudo, parâmetros de irradiação (comprimento de onda, densidade de potência, duração das sessões, frequência e tempo total de tratamento), instrumentos de avaliação cognitiva e principais resultados.
A avaliação da qualidade metodológica foi feita utilizando o Cochrane Risk of Bias 2.0 (RoB 2.0) para ensaios clínicos randomizados, considerando os domínios: processo de randomização, desvios da intervenção, dados de desfecho ausentes, medição dos desfechos e seleção do resultado reportado. Para estudos não randomizados, foi utilizada a ferramenta ROBINS-I (Risk Of Bias In Non-randomized Studies – of Interventions). Os estudos pré-clínicos não foram submetidos a essas ferramentas e foram analisados separadamente como evidências mecanísticas de suporte.
Figura 1. Fluxograma PRISMA do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão sistemática.
Resultados
Dos 23 estudos incluídos nesta revisão, 11 eram ensaios clínicos randomizados (RCTs) conduzidos em sete países (Estados Unidos, Brasil, China, Coreia do Sul, Irã, Canadá e Hong Kong), refletindo interesse global na aplicação da fotobiomodulação transcraniana (tPBM). As populações estudadas variaram desde idosos saudáveis com queixas subjetivas de memória até indivíduos com comprometimento cognitivo leve (CCL) ou Doença de Alzheimer (DA) leve a moderada, abrangendo diferentes estágios do espectro de declínio cognitivo.
Os protocolos de tPBM apresentaram variações técnicas dentro de parâmetros terapêuticos semelhantes. Os comprimentos de onda utilizados situaram-se na faixa do infravermelho próximo (627–810 nm), reconhecida por maior penetração tecidual e interação com a citocromo c oxidase. A potência variou de 20 mW/cm² a 250 mW/cm², com tempo de aplicação por sessão de 10 a 20 minutos. A frequência de aplicação oscilou entre 3 e 5 vezes por semana e a duração total dos tratamentos ficou entre 8 e 12 semanas, totalizando de 24 a 60 sessões.
Todos os estudos incluíram um grupo comparador sham, no qual os parâmetros aparentes da intervenção (posicionamento do dispositivo, tempo e ruídos) eram reproduzidos, mas sem emissão de luz terapêutica, garantindo controle rigoroso do efeito placebo. Os desfechos cognitivos foram avaliados por instrumentos amplamente validados, como o Alzheimer’s
Disease Assessment Scale-Cognitive Subscale (ADAS-Cog), Montreal Cognitive Assessment (MoCA), Mini-Mental State Examination (MMSE) e testes específicos de memória verbal, memória de trabalho, fluência verbal e atenção sustentada.
A maioria dos RCTs encontrou melhora estatisticamente significativa em pelo menos um domínio cognitivo no grupo tPBM comparado ao sham, com ganhos mais consistentes em memória episódica (principalmente memória verbal) e atenção. Alguns estudos também identificaram benefícios em função executiva e fluência verbal semântica. Resultados adicionais indicaram efeitos fisiológicos complementares, como aumento da oxigenação cerebral e alterações em padrões de conectividade funcional em exames de neuroimagem funcional (fNIRS, fMRI). Dois estudos brasileiros (Santos et al., 2018; Poiani et al., 2018) eram protocolos clínicos registrados, ainda sem resultados finais à época da análise, mas indicam a expansão da pesquisa na América Latina.
Além dos RCTs, cinco estudos pré-clínicos investigaram os efeitos da tPBM sobre a função cognitiva em modelos animais transgênicos de DA, como os camundongos APP/PS1 e 3xTgAD, caracterizados por placas amiloides, emaranhados de tau e declínio cognitivo progressivo. Os protocolos variaram em comprimento de onda (630–810 nm), densidade de potência (4 J/cm² a 250 mW/cm²) e tempo de aplicação por sessão (90 segundos a 20 minutos), com frequência predominantemente diária ou cinco vezes por semana e duração total entre quatro semanas e seis meses.
Todos os experimentos incluíram grupo controle sham e aplicaram testes comportamentais validados para memória e aprendizado, como o Morris Water Maze, Y-maze e novel object recognition test, além de análises histopatológicas e bioquímicas para investigar carga de placas amiloides, níveis de tau fosforilada e marcadores inflamatórios. De forma consistente, os resultados mostraram melhora do desempenho cognitivo, redução significativa da carga de placas amiloides e diminuição de tau hiperfosforilada, acompanhadas de modulação da neuroinflamação, com redução da ativação microglial e das citocinas pró-inflamatórias, aumento da densidade sináptica e expressão de proteínas associadas à plasticidade neuronal, como BDNF, além de melhora da perfusão cerebral e oxigenação local. Esses achados préclínicos oferecem suporte mecanístico robusto para os resultados observados em humanos, sugerindo que a tPBM atua não apenas na modulação sintomática, mas também na fisiopatologia central da DA.
Entre os ensaios clínicos randomizados (RCTs) incluídos (n=11), nove apresentaram baixo risco global de viés em todos os domínios do Cochrane RoB 2.0. Em dois (protocolos ainda sem resultados), a classificação foi de “alguma preocupação”, sobretudo no domínio seleção do resultado reportado, por não ser possível confirmar a aderência integral ao plano analítico préespecificado. Nos RCTs concluídos, os domínios processo de randomização, desvios da intervenção, dados de desfecho ausentes e medição dos desfechos foram predominantemente avaliados como baixo risco.
Nos estudos não randomizados em humanos avaliados com ROBINS-I (n=2), o risco global foi moderado, com principais fontes de viés em fatores de confusão (por exemplo, comorbidades e uso de medicações concomitantes), seleção dos participantes e, em menor grau, medição dos desfechos (ausência de cegamento do avaliador). Em ambos, dados ausentes e desvios da intervenção foram classificados como baixo risco.
Estudos pré-clínicos não foram avaliados com RoB 2.0/ROBINS-I e serão discutidos separadamente como suporte mecanístico para os achados clínicos.
Tabela 1. Características dos ensaios clínicos randomizados incluídos na revisão sistemática.






Tabela 2. Avaliação do risco de viés dos ensaios clínicos randomizados incluídos (ferramenta RoB 2.0 da Cochrane).






Tabela 3. Características e principais achados dos estudos pré-clínicos incluídos para embasamento mecanístico.


Discussão
Os resultados desta revisão sistemática indicam que a fotobiomodulação transcraniana (tPBM) apresenta efeitos positivos consistentes sobre a função cognitiva em indivíduos com comprometimento cognitivo leve (CCL) e Doença de Alzheimer (DA) leve a moderada, com predomínio de benefícios nos domínios de memória episódica, atenção e, em alguns casos, função executiva e fluência verbal. Em linhas gerais, a maioria dos estudos demonstrou melhora significativa em pelo menos um domínio cognitivo, especialmente memória e atenção, quando comparado ao grupo sham. Entretanto, os resultados ainda são heterogêneos, influenciados por diferenças nos protocolos de irradiação, características da população e instrumentos de avaliação.
O domínio mais frequentemente beneficiado pela tPBM foi a memória, particularmente a memória verbal e de curto prazo. Estudos como Jacobson et al., (2022), Ding et al., (2024), Zeng et al., (2024), Blivet et al., (2018), (Zhang et al., 2022)), Saucedo et al., (2021) relataram ganhos estatisticamente significativos nesses parâmetros. A atenção sustentada e seletiva também foi favorecida em ensaios como (Jacobson et al., 2022)) e Yang et al., (2024)
Em contrapartida, alguns estudos não identificaram melhora relevante nesses domínios, como Zhang et al., (2022), que não observou alterações significativas em memória verbal apesar de melhora em outros indicadores cognitivos, sugerindo possível variabilidade de resposta relacionada à fase da doença ou à dosimetria empregada.
A função executiva foi menos explorada, mas alguns estudos, como Ding et al., (2024), e Saucedo et al., (2021) demonstraram melhora na capacidade de planejamento e resolução de problemas após a intervenção. O desempenho global em testes como MoCA e ADAS-Cog apresentou melhora em diversos ensaios (Zeng et al., 2024; Blivet et al., 2018; Jacobson et al., 2022), reforçando a possibilidade de efeitos abrangentes da tPBM.
A maioria dos protocolos utilizou comprimentos de onda no infravermelho próximo, tipicamente 810 nm, com potências variando entre 20 e 250 mW/cm², duração de 10 a 20 minutos por sessão e frequência de 3 a 5 vezes por semana. Estudos que combinaram maior frequência semanal e duração de tratamento mais prolongada (≥ 8 semanas) tenderam a apresentar resultados mais robustos (Jacobson et al., 2022; Saucedo et al., 2021). Por outro lado, comprimentos de onda no vermelho (~627–632 nm), empregados em estudos brasileiros como Santos et al. (2018) e Poiani et al. (2018), ainda não possuem resultados clínicos publicados, impossibilitando conclusões sobre sua eficácia.
A tPBM foi consistentemente descrita como segura e bem tolerada, sem registro de eventos adversos graves nos estudos analisados. Sintomas leves e transitórios, como cefaleia ou desconforto no local de aplicação, foram relatados esporadicamente (Zeng et al., 2024; Yang et al., 2024).
Entretanto, apesar dos resultados promissores, vários estudos apresentaram limitações metodológicas, incluindo tamanhos amostrais reduzidos, ausência de padronização dos parâmetros de irradiação e heterogeneidade nos instrumentos de avaliação cognitiva. Além disso, poucos ensaios realizaram seguimento a longo prazo, o que limita o entendimento da duração dos efeitos da tPBM.
Os achados desta revisão estão alinhados com estudos pré-clínicos que demonstram que a tPBM pode modular processos patológicos centrais da Doença de Alzheimer e do comprometimento cognitivo leve, como a deposição de placas amiloides, a hiperfosforilação da proteína tau, a neuroinflamação e a disfunção mitocondrial (Zeng et al., 2024). Esses mecanismos oferecem plausibilidade biológica para os resultados observados em humanos e reforçam a necessidade de protocolos clínicos mais robustos para confirmar a eficácia terapêutica.
A plausibilidade biológica desses efeitos é fortalecida por evidências pré-clínicas robustas, nas quais a tPBM demonstrou reduzir a carga de placas amiloides, diminuir a hiperfosforilação da proteína tau, modular a neuroinflamação e promover aumento da densidade sináptica e da expressão de proteínas associadas à plasticidade neuronal, como o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Esses mecanismos sugerem que a tPBM atua não apenas na modulação sintomática, mas também em processos centrais da fisiopatologia da DA.
O principal mecanismo proposto para explicar tais benefícios envolve a absorção da luz na faixa do vermelho e infravermelho próximo pela citocromo c oxidase (CCO), enzima terminal da cadeia respiratória mitocondrial, levando ao aumento da produção de ATP e melhora da bioenergética celular. Adicionalmente, a tPBM reduz o estresse oxidativo, modula a ativação microglial, favorece a depuração de agregados proteicos e aumenta a perfusão e oxigenação cerebral. Em conjunto, esses efeitos podem contribuir para a preservação da função neuronal e para a otimização das redes de conectividade cerebral.
Apesar dos resultados promissores, a heterogeneidade nos parâmetros de irradiação — incluindo comprimento de onda, densidade de potência, duração das sessões, frequência e tempo total de tratamento — dificulta a determinação de um protocolo ideal. Essa variabilidade também pode influenciar a magnitude e a consistência dos efeitos observados, o que reforça a necessidade de estudos que comparem diretamente diferentes parâmetros e busquem padronizar protocolos para uso clínico.
Outro ponto relevante é a duração relativamente curta do acompanhamento na maioria dos RCTs incluídos, que variou entre oito e doze semanas. Ainda não está claro se os benefícios cognitivos observados se mantêm a longo prazo, nem se a manutenção de sessões periódicas após o tratamento inicial é necessária para sustentar os efeitos. Além disso, o tamanho amostral reduzido da maioria dos estudos limita o poder estatístico para detectar diferenças em subgrupos, como variações por sexo, idade ou estágio da doença.
Os estudos brasileiros identificados, embora ainda em fase de protocolo, indicam uma expansão da pesquisa na América Latina e a possibilidade de contextualizar a aplicação da tPBM em diferentes realidades socioeconômicas e culturais. Isso é relevante, considerando que o acesso a terapias não farmacológicas inovadoras pode ser desafiador em países de baixa e média renda, mas a tPBM possui potencial de ser aplicada com custo relativamente baixo e boa aceitabilidade pelos pacientes.
Em síntese, esta revisão demonstra que a tPBM é uma intervenção promissora e segura para a melhora da função cognitiva em CCL e DA leve a moderada, com evidências pré-clínicas que sustentam sua plausibilidade biológica. No entanto, para consolidar seu uso na prática clínica, são necessários ensaios clínicos multicêntricos, com amostras maiores, protocolos padronizados e acompanhamento de longo prazo, a fim de confirmar a eficácia, determinar a dose ótima e estabelecer estratégias de manutenção dos efeitos.
Conclusão
A fotobiomodulação transcraniana (tPBM) apresenta-se como uma intervenção não farmacológica promissora para a melhora da função cognitiva, especialmente em indivíduos com comprometimento cognitivo leve e Doença de Alzheimer leve a moderada. Os estudos clínicos analisados indicam benefícios consistentes em domínios como memória, atenção e função executiva, enquanto os achados pré-clínicos sustentam a plausibilidade biológica por meio de múltiplos mecanismos neuroprotetores e moduladores da função neuronal.
O perfil de segurança observado é favorável, sem relatos de eventos adversos graves, reforçando o potencial de aplicação clínica. No entanto, a heterogeneidade dos protocolos, o tamanho amostral reduzido e a ausência de seguimento prolongado impõem cautela na interpretação dos resultados.
Assim, futuros ensaios clínicos multicêntricos, com parâmetros de irradiação padronizados, amostras maiores e avaliação de longo prazo, são essenciais para consolidar a tPBM como opção terapêutica baseada em evidências para prevenção e tratamento do declínio cognitivo.
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1Discente do curso de Medicina Universidade Federal do Acre
Contato: mateus.castro.s@sou.ufac.br/ mateusprofissional12@gmail.com
2Discente do curso de Medicina Universidade Federal do Acre
3Discente do curso de Medicina Universidade Federal do Acre
4Coordenadora do projeto de pesquisa
Docente de anatomia e fisiologia, Mestrado, doutorado e pós-doutorado em Ciências Morfológicas Universidade Federal do Acre
