REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202509131241
Bárbara Sousa e Silva; Carolina Pinheiro; Eduarda Sousa Guimarães de Queiroz; Eduardo Barreto Cavalcanti; Gustavo Coimbra Ferraz; Maria Victoria Franco Frescura; Vitor Hugo Ferreira Andrade; Orientadora: Lilian dos Anjos Carneiro.
Resumo
As doenças neurodegenerativas como Doença de Alzheimer (DA), Doença de Parkinson (DP) e Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) apresentam alta prevalência e impacto clínico, sem opções terapêuticas capazes de alterar o curso da doença. A terapia com células-tronco surge como uma abordagem promissora, com potencial para exercer funções de neuroproteção, regeneração neuronal e modulação do microambiente inflamatório. Esta revisão analisa os principais avanços na aplicação de células-tronco (embrionárias, pluripotentes induzidas e mesenquimais) em modelos pré-clínicos e ensaios clínicos, destacando mecanismos de ação, evidências de eficácia e os principais desafios a serem superados. Embora os resultados iniciais sejam encorajadores, persistem questões relativas à segurança, controle de diferenciação celular e eficácia funcional duradoura.
Palavras-chave: Alzheimer; Parkinson; ELA; terapia celular; células-tronco.
Abstract
Neurodegenerative diseases such as Alzheimer’s disease (AD), Parkinson’s disease (PD), and amyotrophic lateral sclerosis (ALS) remain incurable conditions with high morbidity and limited therapeutic options. Stem cell therapy has emerged as a promising approach, potentially offering neuroprotection, neuronal regeneration, and modulation of the inflammatory microenvironment. This review examines the latest advancements in the use of embryonic stem cells, induced pluripotent stem cells (iPSCs), and mesenchymal stromal cells (MSCs) applied to these diseases, focusing on mechanisms of action, preclinical data, and early-phase clinical trials. Although preliminary results are promising, significant issues remain regarding safety, controlled differentiation, and sustained functional benefits.
Keywords: Alzheimer’s disease; Parkinson’s disease; amyotrophic lateral sclerosis; cell therapy; stem cells.
Introdução
As doenças neurodegenerativas representam um desafio crescente à saúde pública global devido à sua alta prevalência, impacto funcional e carga socioeconômica significativa. Entre elas, a Doença de Alzheimer (DA), a Doença de Parkinson (DP) e a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) estão entre as mais estudadas. A DA é caracterizada pelo acúmulo de placas de β-amiloide e emaranhados de proteína tau, resultando em declínio cognitivo progressivo e demência. A DP envolve degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra, causando sintomas motores como tremor, rigidez e bradicinesia. Já a ELA provoca degeneração de neurônios motores superiores e inferiores, levando à fraqueza muscular progressiva e comprometimento respiratório. Atualmente, os tratamentos disponíveis são essencialmente sintomáticos, oferecendo apenas controle parcial dos sinais e sintomas sem alterar o curso das doenças [1,4].
Nesse contexto, a terapia com células-tronco surge como uma abordagem inovadora, capaz de oferecer neuroproteção, regeneração neuronal e modulação do microambiente inflamatório. Diferentes tipos celulares, incluindo células-tronco embrionárias, células pluripotentes induzidas (iPSCs) e células estromais mesenquimais (MSCs), têm sido estudados em modelos pré-clínicos e ensaios clínicos, demonstrando potencial para reduzir acúmulo de proteínas patológicas, melhorar funções cognitivas e motoras e promover sobrevivência neuronal [5,10].
Metodologia
Esta revisão narrativa sistemática foi conduzida a partir de pesquisa bibliográfica realizada entre junho e agosto de 2025 nas bases de dados PubMed, PMC, ScienceDirect e Google Scholar. Utilizaram-se descritores em inglês e português como: “stem cell therapy”, “neurodegenerative diseases”, “Alzheimer’s disease”, “Parkinson’s disease”, “amyotrophic lateral sclerosis”, “mesenchymal stem cells”, “induced pluripotent stem cells” e “embryonic stem cells”, com combinações booleanas (AND, OR). Foram incluídos artigos originais, revisões e meta-análises publicados entre 2010 e 2025, em inglês ou português, abordando dados pré-clínicos ou clínicos em Alzheimer, Parkinson e ELA. Excluíram-se relatos de caso isolados, estudos sem dados experimentais e artigos referentes a outras doenças neurodegenerativas.
Fundamentos e Aplicações da Terapia Celular
As células-tronco apresentam capacidade de auto aperfeiçoamento e diferenciação em múltiplos tipos celulares. Nos estudos com doenças neurodegenerativas, destacam-se três tipos principais: células-tronco embrionárias (ESCs), células pluripotentes induzidas (iPSCs) e células estromais mesenquimais (MSCs) [1,4]. Os mecanismos de ação incluem substituição neuronal, secreção de fatores neurotróficos, modulação do microambiente inflamatório e integração funcional com os circuitos neuronais [5,7].
Na Doença de Alzheimer, o objetivo principal das terapias celulares é reduzir depósitos de β-amiloide e proteína tau, além de proteger neurônios corticais e hipocampais. Estudos pré-clínicos mostraram que MSCs secretam fatores neurotróficos, reduzem inflamação e melhoram a plasticidade sináptica, enquanto iPSCs diferenciadas podem substituir neurônios perdidos [5].
Na Doença de Parkinson, a meta é restaurar a função dopaminérgica. ESCs e iPSCs têm sido diferenciadas em neurônios dopaminérgicos, que em modelos animais demonstram integração sináptica e melhora da motricidade. Ensaios clínicos confirmam segurança e benefícios funcionais parciais, embora persistam riscos de discinesia [6,8].
Na Esclerose Lateral Amiotrófica, a estratégia é neuroprotetora, com MSCs e progenitores neurais liberando fatores tróficos e modulando a inflamação microglial, retardando a degeneração neuronal em modelos animais. Ensaios clínicos de fase inicial mostram segurança, mas eficácia clínica limitada [7,9,10].
| Doença | Tipo de célula usada | Mecanismos de ação | Modelo experimental/ensaio s clínicos | Resultados principais |
| Alzheimer | MSCs, IPSCs | Redução de β-amiloide e tau, secreção de BDNF e GDNF, neuroproteção | Modelo experimental/ensaios clínicos | Redução da neuroinflamação, melhora cognitiva parcial em modelos animais, segurança clínica |
| Parkinson | ESCs, IPSCs e MSCs | Substituição de neurônios dopaminérgico s, neuroproteção | Modelo animal, ensaios fase 1 e 2 | Integração funcional, melhora motora, risco de discinesias |
| ELA | MSCs e progenitore s neurais | Secreção de fatores tróficos, modulação microglial | Modelos animais, ensaios clínicos fase 1 | Retardamento da degeneração neuronal, melhora limitada na função motora |
Resultados e Discussão
A terapia com células-tronco em doenças neurodegenerativas representa um campo promissor, mas ainda permeado por desafios translacionais.
Na Doença de Alzheimer (DA), embora estudos com MSCs e iPSCs tenham demonstrado capacidade de reduzir neuroinflamação, modular depósitos de β-amiloide e promover plasticidade sináptica, a complexidade patogênica da doença marcada por deposição difusa de placas de β-amiloide, emaranhados neurofibrilares de tau e perda sináptica generalizada, limita a eficácia de abordagens puramente substitutivas [5]. Ensaios pré-clínicos recentes mostram que a combinação de MSCs com fatores neurotróficos, biomateriais e técnicas de edição genética pode potencializar a sobrevida neuronal e a melhora cognitiva, ainda que de forma parcial e transitória [5,9]. Além disso, exossomos derivados de células-tronco vêm sendo estudados como alternativa menos invasiva, apresentando efeitos neuroprotetores sem os riscos associados ao transplante celular direto [7].
Na Doença de Parkinson (DP), os resultados têm sido mais encorajadores. Transplantes de neurônios dopaminérgicos derivados de ESCs e iPSCs em modelos animais demonstraram integração sináptica funcional e melhora motora sustentada por meses [6,8]. Ensaios clínicos iniciais já relataram casos de melhora significativa em pacientes refratários, indicando viabilidade translacional, embora complicações como discinesia e risco de formação tumoral ainda exijam cautela [6]. MSCs, por sua vez, parecem exercer papel adjuvante principalmente por meio da modulação da neuroinflamação e secreção de fatores tróficos, prolongando a sobrevivência dos neurônios dopaminérgicos remanescentes [9].
Na Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a abordagem tem se concentrado em efeitos neuroprotetores. Estudos com MSCs e progenitores neurais evidenciam a secreção de fatores tróficos (BDNF, GDNF, VEGF), além de redução da ativação microglial, retardando a degeneração neuronal em modelos animais [7,9,10]. Ensaios clínicos de fase inicial indicam segurança, mas os efeitos clínicos sobre função motora e sobrevida permanecem modestos [10]. No entanto, avanços recentes sugerem que protocolos com múltiplas administrações ou o uso de exossomos derivados de MSCs podem prolongar a sobrevida dos neurônios motores [7]. Além disso, a aplicação de biomateriais como scaffolds tem melhorado a taxa de sobrevivência e integração das células transplantadas, representando uma perspectiva relevante para otimizar resultados [9].
No conjunto, os dados reforçam que as terapias celulares apresentam maior potencial quando associadas a estratégias multimodais como fatores de crescimento, biomateriais, terapia gênica e edição genômica, do que de forma isolada. O futuro da área depende não apenas de comprovar eficácia clínica em larga escala, mas também de padronizar protocolos, desenvolver métodos de monitoramento de integração celular e garantir segurança a longo prazo [5,10].
Conclusão
A terapia com células-tronco representa uma estratégia inovadora e promissora para doenças neurodegenerativas, com potencial de promover neuroproteção, modulação inflamatória e até substituição celular em alguns contextos. Ensaios clínicos iniciais confirmam segurança, mas os resultados de eficácia ainda são inconsistentes. O futuro da área depende de estudos multicêntricos, protocolos padronizados e integração com novas tecnologias como biomateriais e terapia gênica [5,10].
Referências
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