TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA SAÚDE COLETIVA: UMA REVISÃO DAS ESTRATÉGIAS DE IMPLEMENTAÇÃO NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS)

TECHNOLOGIES OF INFORMATION AND COMMUNICATION IN PUBLIC HEALTH: A REVIEW OF IMPLEMENTATION STRATEGIES WITHIN THE BRAZILIAN UNIFIED HEALTH SYSTEM (SUS)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202507191820


Taís de Lima Castro1; João Gabriel Amin Sampaio2; Ana Paula Lelis Morais3; Kleyton Pereira de Lima4; Bruna Ravena Bezerra De Sousa5; Lívia Nápoles Drumond de Souza Gontijo6; Thaís Marchand Ribeiro7; Ana Karolina do Amor Divino Barros8; Alda Tâmara Lira Pereira9; José Anselmo de Carvalho Pires10


Resumo

A ampliação das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) no Sistema Único de Saúde configura-se como uma diretriz estratégica para modernização da gestão, qualificação da assistência e integração de dados clínicos e administrativos. Este estudo tem como objetivo analisar criticamente a implementação da Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028, problematizando os fatores que influenciam sua eficácia prática nos serviços públicos, sobretudo no contexto da atenção primária. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, estruturada por meio de revisão narrativa da literatura, utilizando documentos oficiais, artigos científicos indexados e relatórios técnicos publicados entre 2020 e 2025. Os resultados indicam que, embora os sistemas como o PEC, o SISAB e o e-SUS APS estejam formalmente implantados em grande parte dos municípios, sua utilização permanece restrita, frequentemente limitada ao cumprimento de exigências burocráticas, em vez de operar como instrumento articulado ao cuidado e ao planejamento em saúde. O principal obstáculo identificado refere-se à ausência de investimento contínuo em formação profissional, à desarticulação entre os entes federativos e à dificuldade de ressignificar o dado como ferramenta estratégica de escuta e decisão. Conclui-se que a consolidação da saúde digital no SUS exige não apenas infraestrutura tecnológica e sistemas interoperáveis, mas também transformação organizacional, pactuação federativa estável e valorização das práticas locais, de modo que a tecnologia seja incorporada como meio de garantir a integralidade e a equidade no cuidado.

Palavras-chave: Saúde digital. Sistema Único de Saúde. Tecnologias da informação. Atenção primária. Gestão em saúde.

1 INTRODUÇÃO

A introdução das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), no campo da saúde coletiva brasileira tem sido apresentada como uma promessa de reorganização dos processos de cuidado, gestão e monitoramento no âmbito do SUS. A Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028, embora represente um marco normativo robusto, carrega consigo uma complexidade operacional significativa, especialmente nos territórios mais frágeis em infraestrutura básica (Brasil, 2020). Tal estratégia, que visa à digitalização ampla dos serviços de saúde e à integração dos sistemas de informação, não se limita ao uso de softwares mas propõe uma reestruturação profunda dos fluxos, dos vínculos profissionais‑usuário e da própria lógica de produção de cuidado.

Contudo, a realidade concreta marcada por desigualdades históricas entre os municípios brasileiros impõe desafios que vão além da simples capacitação técnica. Segundo o 4º Relatório de Monitoramento da própria estratégia (Brasil, 2023), a maioria das metas intermediárias — especialmente as relacionadas à interoperabilidade e conectividade — permanece em estágio incipiente. Embora ferramentas como o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) e o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) tenham sido amplamente difundidas, ainda hoje existem dificuldades estruturais que comprometem sua plena utilização, desde a baixa qualidade da internet até a resistência subjetiva de trabalhadores que, por vezes, não se reconhecem como parte ativa do processo de inovação.

A literatura recente aponta que o PEC‑eSUS APS representa, ao longo de seus dez anos, tanto um avanço quanto também uma lacuna. Estudos como o de Postal et al. (2024) mostram que a implementação do prontuário eletrônico é marcada por adesão expressiva, porém com uso limitado das funções analíticas e de longitudinalidade, o que evidencia o descompasso entre implantação e apropriação. Celuppi et al. (2024), igualmente, ressaltam que há melhorias na rastreabilidade das informações mas a capacitação contínua dos profissionais é inconstante, o que enfraquece o potencial transformador do sistema.

Além disso, experiências locais reforçam que a efetividade das TICs depende diretamente do engajamento institucional. Em estudo de caso, Holdefer e Zara (2025) relatam que o sucesso da implantação do e‑SUS em um município goiano se deu mais por iniciativas de gestão local do que por apoio estruturado da esfera federal. Na mesma linha, Rodrigues, Lima e Santos (2023) demonstram que, mesmo em cenários adversos, a consolidação do PEC é viável quando há planejamento mínimo e envolvimento da equipe — embora não se possa desconsiderar os limites tecnológicos, como a oscilação de energia ou ausência de TI local.

Por fim, o SISAB, que deveria oferecer dados qualificados para vigilância e planejamento, ainda é percebido como uma plataforma de registro burocrático. Silva e Costa (2024) discutem sua subutilização, apontando que muitos profissionais compreendem o sistema como um fim administrativo e não como uma ferramenta de cuidado. Essa dissociação funcional compromete a finalidade da tecnologia e reforça a ideia de que inovação sem escuta e mediação pedagógica tende a fracassar — mesmo que bem planejada. Em paralelo, iniciativas como a logística digital reversa de medicamentos (Paludetti et al., 2025) mostram que o uso de TICs pode ser eficaz quando aplicado de forma articulada com a realidade local e objetivos claros.

Portanto, o presente trabalho tem por objetivo revisar as estratégias de implementação das Tecnologias da Informação e Comunicação no SUS, com foco nos avanços e entraves observados nos últimos anos. Pretende-se, assim, oferecer uma análise crítica e atualizada que contribua para o aperfeiçoamento da política de saúde digital no Brasil — não apenas no plano técnico, mas sobretudo no plano ético-político da atenção coletiva à vida.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 constitui não só um marco normativo para o setor público, mas um documento orientador que busca redesenhar o funcionamento dos serviços, propondo conexões entre sistemas, interoperabilidade entre bases e racionalização de processos que tradicionalmente operavam de forma fragmentada (Brasil, 2020). Em meio à ambição projetada, identifica-se um tensionamento constante entre diretrizes técnicas e condições reais de execução, sobretudo nos municípios de pequeno porte, nos quais a infraestrutura de conectividade permanece limitada – e a capacitação das equipes, quando ocorre, não raro se dá em contextos de rotatividade alta e pressões assistenciais diárias que tornam difícil a assimilação contínua da tecnologia incorporada. Conforme descrito no quarto relatório de monitoramento da estratégia nacional (Brasil, 2023), as metas associadas à estrutura mínima para informatização básica permanecem incompletas; e, ao mesmo tempo, cresce a defasagem entre unidades que conseguem implantar os sistemas de forma integrada e aquelas que ainda dependem de registros manuais ou duplicados, revelando desigualdades persistentes e negligenciadas.

Outrossim, estudos que se debruçaram sobre a trajetória do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) demonstram que, apesar da disseminação nacional do sistema, sua funcionalidade permanece subaproveitada por parte expressiva dos usuários – os registros se concentram em campos obrigatórios, ignorando recursos como consolidação de longitudinalidade, resgates clínicos ou emissão de relatórios epidemiológicos (Postal et al., 2024).

Segundo Celuppi et al. (2024) essa subutilização, mais do que um problema técnico, evidencia a ausência de política formativa contínua – além de refletir o modo como a tecnologia é incorporada de maneira verticalizada, sem mediação pedagógica nem diálogo com a realidade local dos serviços. Cumpre acrescentar que esse descompasso se intensifica nas unidades em que a carga burocrática se sobrepõe ao tempo destinado ao cuidado, tornando os sistemas informatizados ferramentas de preenchimento compulsório – e não instrumentos vivos de qualificação da prática assistencial, o que esvazia suas potencialidades transformadoras.

Demais disso, experiências municipais vêm indicando que a efetividade das TICs depende menos da presença dos equipamentos em si e mais da articulação política entre gestão local, profissionais e usuários, o que exige pactuação contínua e planejamento participativo. Holdefer e Zara (2025), por exemplo, relatam que o êxito na implantação do e-SUS em determinado município goiano se deu por meio da construção de um ambiente institucional favorável, ancorado na escuta das equipes, na oferta de suporte técnico próximo e na clareza quanto aos objetivos pretendidos – ainda que em meio a restrições orçamentárias e limitações estruturais. Da mesma forma, Rodrigues, Lima e Santos (2023) evidenciam que a consolidação do PEC em Horizonte-CE não decorreu de soluções prontas, mas de adaptações que envolveram redesenho de rotinas internas, reestruturação de prioridades e comprometimento da gestão com o acompanhamento das dificuldades que emergiam no cotidiano, sobretudo aquelas ligadas à instabilidade de conexão e à ausência de pessoal técnico com domínio pleno dos sistemas.

Por conseguinte, o desafio colocado à saúde digital no Brasil ultrapassa a esfera do desenvolvimento tecnológico e se insere no campo da justiça informacional – uma vez que o acesso desigual às ferramentas digitais compromete não só a gestão de dados, mas a própria universalidade do cuidado ofertado pelo SUS. Como argumentam Silva e Costa (2024), o SISAB, sistema criado para monitorar a produção da atenção básica, tem sido utilizado com baixa capacidade analítica – funcionando mais como registro compulsório para fins de financiamento do que como plataforma estratégica para planejamento local, o que distorce sua função inicial e compromete a tomada de decisão baseada em evidência.

Em contraponto, Paludetti et al. (2025) descrevem a experiência de implantação da logística reversa de medicamentos no estado de São Paulo, demonstrando que, quando inseridas de forma coerente e articulada, as TICs são capazes de produzir benefícios objetivos na vigilância sanitária, na sustentabilidade e na qualidade da informação gerada – desde que acompanhadas de processos reflexivos e de uma governança comprometida com o cuidado e não com a simples digitalização de procedimentos.

Diante do exposto, a literatura converge para a constatação de que a saúde digital não se constrói por meio de decretos normativos ou da simples aquisição de equipamentos, mas por um processo gradual e participativo que exige investimento político, escuta ativa dos profissionais e fortalecimento das capacidades institucionais em todos os níveis de gestão – conforme sustentam o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e o Instituto Veredas (2023), que apontam a necessidade de políticas estruturantes que integrem financiamento, formação e responsabilização federativa em torno de metas pactuadas. Destarte, a construção de um ecossistema digital no SUS requer, mais que conectividade técnica, uma arquitetura institucional sensível às dinâmicas do território, às contradições do trabalho em saúde e aos limites da racionalidade tecnocrática aplicada à complexidade da vida coletiva.

3 METODOLOGIA

Tendo em vista a complexidade inerente à implementação das Tecnologias da Informação e Comunicação no Sistema Único de Saúde e reconhecendo os múltiplos fatores que atravessam sua operacionalização — como infraestrutura, governança federativa, qualificação de profissionais e adesão institucional — optou-se por conduzir uma pesquisa de natureza qualitativa, com abordagem descritiva e analítica, baseada na técnica de revisão narrativa da literatura, conforme sistematizada por Rother (2007), que define esse tipo de estudo como aquele voltado à articulação crítica de conhecimentos já disponíveis sobre um objeto delimitado, permitindo interpretar o estado do conhecimento de forma ampla, sem se restringir aos critérios exaustivos da revisão sistemática.

O corpus da pesquisa foi composto por documentos institucionais oficiais, artigos científicos indexados nas bases SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), além de relatórios técnicos emitidos pelo Ministério da Saúde, pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS) e pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). A seleção das fontes foi orientada por critérios de relevância institucional e atualidade temporal, priorizando materiais publicados entre os anos de 2020 e 2025, período compreendido pela vigência da Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 (Brasil, 2020), cujo impacto sobre a estrutura organizacional do SUS constitui o eixo central deste estudo.

O processo de identificação das fontes foi conduzido manualmente, utilizando descritores controlados como “saúde digital”, “e-SUS”, “PEC”, “SISAB” e “informação em saúde pública”. A leitura inicial contemplou os resumos e palavras-chave; na sequência, os textos integralmente selecionados foram analisados segundo categorias temáticas derivadas da literatura de referência sobre gestão em saúde coletiva, particularmente aquelas referentes à estruturação dos sistemas de informação, à avaliação de desempenho, às dificuldades de adesão por parte dos profissionais e às barreiras logísticas de implementação (Celuppi et al., 2024; Silva; Costa, 2024; Postal et al., 2024).

Adicionalmente, foram utilizados relatórios analíticos, como o 4º Relatório de Monitoramento da Estratégia de Saúde Digital (Brasil, 2023), e estudos de caso documentados em periódicos científicos (Holdefer; Zara, 2025; Rodrigues; Lima; Santos, 2023), que contribuíram para compor um panorama mais concreto das condições enfrentadas por municípios de distintos portes e regiões do país. A utilização dessas fontes foi guiada pela intenção de compreender, a partir de registros técnicos e científicos, a complexidade prática da integração das TICs à lógica cotidiana da atenção primária, conforme proposto por Mendes (2015), para quem a análise das políticas de saúde exige articulação entre evidências documentais e a prática real observável nos sistemas de gestão.

A análise do material foi conduzida com base na técnica de análise temática de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2016), sendo as informações organizadas em eixos interpretativos que permitiram estabelecer conexões entre a normativa vigente, os objetivos declarados e os dados empíricos relatados nos estudos examinados. Dessa maneira, os principais agrupamentos semânticos foram estruturados em torno dos seguintes núcleos: “política nacional de saúde digital”, “informação e planejamento em saúde”, “barreiras operacionais”, “formação e sensibilização profissional” e “experiências locais de implementação”.

Convém destacar que, por tratar-se de uma investigação de base documental e bibliográfica, não foram utilizados instrumentos de coleta primária, como entrevistas ou questionários; tampouco se realizou levantamento estatístico com dados originais. O enfoque reside na articulação crítica entre documentos, evidências institucionais e produção científica indexada, permitindo identificar regularidades discursivas, incongruências operacionais e elementos interpretativos capazes de sustentar a compreensão do fenômeno investigado — conforme perspectiva metodológica defendida por Gil (2019), segundo a qual a análise documental possibilita construir quadros explicativos sólidos a partir de fontes secundárias, desde que a seleção, organização e interpretação sejam conduzidas com coerência metodológica e densidade analítica.

Diante do exposto, a metodologia adotada buscou assegurar a reprodutibilidade da investigação, bem como sua coerência com os objetivos propostos, estruturando o percurso analítico de modo a respeitar a complexidade do objeto empírico, sem reduzir suas múltiplas dimensões a simplificações operacionais, garantindo assim, a consistência da abordagem e a validade interpretativa do estudo.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Partindo da leitura crítica dos documentos analisados, constatou-se que, embora a Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 tenha sido formulada com objetivos amplos e estruturados — contemplando conectividade plena das unidades, interoperabilidade entre sistemas e centralidade da informação em saúde como suporte para decisões clínicas, administrativas e epidemiológicas — o percurso de sua implementação revela um cenário heterogêneo, fragmentado e permeado por lacunas operacionais importantes (Brasil, 2020); de acordo com o 4º Relatório de Monitoramento e Avaliação da mesma estratégia, publicado três anos após sua edição, menos da metade das metas intermediárias foi plenamente executada até 2023, evidenciando que o hiato entre planejamento e execução persiste mesmo quando há diretrizes normativas e financiamento previsto (Brasil, 2023).

Demais disso, os sistemas que integram a lógica da saúde digital no âmbito do SUS, embora estejam formalmente implantados na maioria dos municípios brasileiros, continuam sendo utilizados de forma limitada e, por vezes, meramente instrumental — o que compromete seu potencial transformador. O Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), por exemplo, segundo análise de Postal et al. (2024), é operado frequentemente como uma plataforma de registro mínimo, vinculada à lógica de produtividade e repasse de recursos, enquanto suas funcionalidades mais avançadas, como geração de relatórios automatizados, acompanhamento longitudinal ou vínculo entre diferentes níveis assistenciais permanecem pouco exploradas. Celuppi et al. (2024) complementam essa leitura ao destacar que, mesmo após uma década de vigência, o PEC continua sendo percebido por muitos profissionais como ferramenta burocrática — e não como recurso clínico — dificultando sua integração ao cotidiano do cuidado.

Outrossim, estudos de abordagem local revelam que a resistência ao uso pleno das TICs em saúde não se origina apenas da ausência de infraestrutura tecnológica ou conectividade – embora esses elementos sejam obstáculos evidentes –, mas decorre, sobretudo, da ausência de investimento continuado em formação profissional, da rotatividade de equipes e da baixa devolutiva institucional do uso dos dados coletados. Conforme descrito por Holdefer e Zara (2025), a implantação bem-sucedida do e-SUS em um município goiano exigiu um processo de sensibilização progressiva dos profissionais, combinado à presença de suporte técnico local permanente e à reorganização dos fluxos de trabalho; nesse sentido, a tecnologia não foi introduzida como imposição, mas como ferramenta de reorganização prática que só pôde ser sustentada mediante pactuação interna e acompanhamento sistemático da gestão.

Ainda nesse escopo, Rodrigues, Lima e Santos (2023) analisaram a experiência de um município cearense e verificaram que, embora houvesse dispositivos eletrônicos e acesso intermitente à internet, a ausência de pessoal com formação adequada e a inexistência de uma política clara de apoio técnico comprometiam profundamente o uso do PEC; os dados, quando registrados, eram inseridos fora do tempo real do atendimento, o que gerava sobrecarga, retrabalho e perda da fidedignidade clínica das informações. Esse cenário, conforme argumentado por Silva e Costa (2024), está longe de ser isolado, pois reflete uma estrutura ainda orientada pela lógica da coleta de dados para prestação de contas, e não pela valorização da informação como instrumento de planejamento, decisão clínica ou gestão territorial.

Convém ressaltar que, embora os estudos indiquem falhas sistemáticas de adesão e operacionalização, há experiências que apontam caminhos possíveis para superação das barreiras citadas. A iniciativa descrita por Paludetti et al. (2025), sobre a implantação de um sistema informatizado de logística reversa de medicamentos no estado de São Paulo, demonstra que, quando a tecnologia é inserida com objetivos claros, planejamento prévio e articulação entre os setores envolvidos, os resultados alcançados ultrapassam a eficiência administrativa e passam a repercutir diretamente na segurança sanitária, na rastreabilidade e no controle de riscos. Nessa direção, observa-se que o uso estratégico das TICs não se resume a digitalizar processos analógicos, mas exige sua reconfiguração completa — articulando os sistemas aos objetivos do cuidado e integrando os dados à prática cotidiana.

De acordo com o levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (2023), o Brasil já dispõe de arcabouço técnico-institucional suficientemente desenvolvido para sustentar a expansão de um ecossistema digital integrado, porém, o entrave fundamental continua sendo de natureza política e institucional – pois, mesmo diante da existência de recursos, os ciclos de descontinuidade administrativa, a ausência de pactuação federativa duradoura e a fragmentação entre os entes comprometem a consolidação de qualquer política pública digital sustentada. A mesma pesquisa aponta que, em muitas regiões, a utilização dos sistemas ocorre sem clareza de finalidade, sem alinhamento com os fluxos locais e sem mecanismos de responsabilização compartilhada, o que torna os instrumentos inócuos ou, pior, fatores adicionais de sobrecarga.

Diante do apresentado, evidencia-se que os resultados da estratégia de saúde digital no Brasil são marcados por um paradoxo: de um lado, observa-se a presença de sistemas, protocolos e plataformas tecnicamente bem estruturadas – como o PEC, o SISAB e o e-SUS APS –; de outro, nota-se que sua funcionalidade depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade política, pedagógica e institucional de ressignificá-la dentro dos serviços. A inserção plena das TICs no cotidiano do SUS, portanto, exige não só conectividade e sistemas interoperáveis, mas, sobretudo, uma transformação na lógica da gestão, da formação e da produção do cuidado, de forma que o dado deixe de ser um fim e volte a ser um meio para ampliar a escuta, qualificar as decisões e aproximar os sistemas das pessoas que deles dependem.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do apresentado, torna-se inegável que a Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 representa um marco organizacional de considerável importância para a modernização dos serviços públicos de saúde, estabelecendo diretrizes robustas voltadas à ampliação da conectividade, à construção de um ecossistema informacional interoperável e à centralidade da informação como fundamento da gestão clínica e administrativa.

Contudo, a trajetória concreta da sua implementação revela um paradoxo estrutural que permanece tensionando a promessa de transformação digital do Sistema Único de Saúde. Se por um lado, constata-se a presença de sistemas normativamente implantados — como o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) e a plataforma e-SUS APS — por outro, observa-se que sua efetividade operacional está condicionada menos à tecnologia em si e mais à existência de estratégias formativas, mecanismos de acompanhamento, pactuação federativa coerente e capacidade institucional para ressignificar o dado como instrumento vivo de cuidado e planejamento.

A análise empreendida ao longo desta investigação evidenciou que as principais barreiras à consolidação de uma política pública digital em saúde não se situam exclusivamente nos campos da infraestrutura ou do financiamento — embora essas dimensões continuem sendo relevantes — mas residem sobretudo na ausência de uma cultura informacional sustentada, na fragilidade da governança federativa e na baixa valorização simbólica das TICs por parte de gestores e trabalhadores dos serviços, que muitas vezes percebem as plataformas digitais como imposições externas, alheias ao processo real de trabalho e dissociadas das necessidades concretas do território.

Essa dissonância entre planejamento normativo e prática cotidiana, longe de ser um problema técnico, configura-se como obstáculo político e institucional, que só poderá ser enfrentado por meio de políticas permanentes de formação, estratégias de engajamento participativo e acompanhamento contínuo da adesão e apropriação dos sistemas nos diferentes níveis de atenção.

Adicionalmente, os estudos de caso demonstraram que, nos contextos em que houve êxito na implantação das tecnologias analisadas, a variável determinante não foi a simples disponibilidade de equipamentos ou conectividade, mas a capacidade das gestões locais de articular dispositivos pedagógicos, canais de escuta ativa e planejamento compartilhado, estabelecendo uma mediação entre as funcionalidades técnicas e o sentido atribuído ao cuidado no cotidiano das equipes. A tecnologia, nesses casos, deixou de ser instrumento de controle externo e passou a ser incorporada como ferramenta de mediação do cuidado — integrando-se aos fluxos do serviço e contribuindo para ampliar a capacidade resolutiva, a gestão territorial e o acompanhamento de usuários com condições crônicas, o que só foi possível graças ao enraizamento institucional da política e à clareza quanto à sua finalidade.

Por conseguinte, reafirma-se que a inserção plena das Tecnologias da Informação e Comunicação no cotidiano do SUS não poderá ser alcançada apenas por meio de investimentos em conectividade ou aquisição de equipamentos, pois a estrutura digital somente se torna efetiva quando articulada a um projeto político-pedagógico de transformação da gestão e da prática assistencial, em que o dado não se reduza a indicador de produtividade, mas funcione como elemento de escuta qualificada, organização do cuidado e vigilância da desigualdade.

Conforme alertado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (2023), a sustentabilidade das estratégias digitais dependerá da capacidade dos entes federados de instituir processos contínuos de monitoramento, pactuação e correção de rumos, evitando que as plataformas se tornem instrumentos ociosos, desconectados das necessidades reais da população e dos trabalhadores.

À guisa de conclusão, considera-se que o avanço da saúde digital no Brasil requer mais do que tecnologia, exige visão de sistema, continuidade de políticas públicas, valorização do trabalho em saúde e escuta ativa das singularidades territoriais; enquanto o dado for tratado como um fim em si mesmo e não como um meio para reorganizar o cuidado, a política informacional permanecerá refém da sua própria promessa, repetindo-se em ciclos de adesão formal, uso mínimo e desmobilização posterior. A consolidação de um SUS digital, inclusivo e funcional dependerá, portanto, da capacidade de reconhecer que tecnologia não transforma sozinha, mas transforma, sim, quando se alia à formação crítica, à gestão democrática e à centralidade ética da saúde como direito de todos.

REFERÊNCIAS

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PALUDETTI, D. X. et al. Implantação de logística reversa de medicamentos em SP: avanços em 2021. Ciência & Saúde Coletiva, v. 30, n. 6, 2025. 


1 Enfermeira pela Universidade Estadual do Ceara, MBA em Auditoria, Acreditação e Gestão da Qualidade aos Serviços de Saúde e-mail: taisdelimacastro500@gmail.com

2 Graduando em Enfermagem pela Uniesamaz e-mail: Enf.gabamin@gmail.com

3 Bióloga e Mestranda em Gastroenterologia pela Universidade federal de São Paulo – UNIFESP e-mail: Ana.lelis@ufjf.br

4 Enfermeiro pela Universidade Regional do Cariri – URCA, Esp. em Urgência e Emergência e Saúde Pública com ênfase em Vigilância em Saúde e-mail: Kleyton.lima13@gmail.com

5 Mestre em Psicologia da Saúde pela UEPB e-mail: brunaravena28@gmail.com

6 Médica e Esp. em Saúde Da Família e Comunidade na modalidade de Residência pela Unimontes e-mail: liviands@yahoo.com.br

7 Graduada em Odontologia pela UFRGS e Mestre em Clínica Odontológica – Universidade Federal do Rio Grande do Sul e-mail: thais.marchand@gmail.com

8 Graduanda em Enfermagem pela Universidade do Estado do Pará e-mail: Divinokarol2003@gmail.com

9 Graduanda em Enfermagem pela UNINASSAU – Mossoró- RN e-mail: aldalira15@gmail.com

10 Graduando em Biomedicina pela Faculdade Estácio de Sá | São Luís – Maranhão e-mail: anselmocarvalho432@gmail.com