SÍFILIS CONGÊNITA NO ESTADO DO CEARÁ ENTRE 2020 E 2025: PERFIL EPIDEMIOLÓGICO E FATORES ASSOCIADOS

CONGENITAL SYPHILIS IN THE STATE OF CEARÁ BETWEEN 2020 AND 2025: EPIDEMIOLOGICAL PROFILE AND ASSOCIATED FACTORS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202507191125


Mariana Araújo Fernandes1; José Victor Dantas dos Santos2; Sofhia Feitosa Alexandrino3; Amábile Giovana Marcarini4; Raiana Coutinho Novaes5; Felipe Ian Mota Pivatto6; Arthur Gomes Afonso Oliveira7; Alanna Rosa Mota Carvalho Pivatto8; Francisca Sulene Araújo Medeiros9


Resumo

Este estudo analisa o perfil epidemiológico da sífilis congênita (SC) no estado do Ceará e os fatores associados à sua persistência. Objetivou-se descrever o perfil epidemiológico dos casos de sífilis congênita no Ceará, Brasil, entre 2020 e 2024, e identificar os fatores associados à sua persistência. Para isso, realizou-se uma pesquisa descritiva, transversal e retrospectiva, baseada na análise de 6.210 dados secundários de casos notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) durante o período, utilizando-se exclusivamente distribuições de frequência na análise estatística. Os resultados revelaram que a sífilis congênita se manteve como um grave problema de saúde pública, com 6.210 casos notificados no Ceará entre 2020 e 2024. A maior ocorrência da infecção foi observada em mães jovens, predominantemente na faixa etária de 20 a 24 anos (34,1%) e entre 15 e 19 anos (20,7%). Observou-se um aumento de casos de 2020 para 2021, seguido por uma redução significativa em 2024. A ausência de acompanhamento pré-natal em 29,4% das gestantes e o perfil socioeconômico de mães jovens com baixa escolaridade foram identificados como fatores críticos para a manutenção da doença. Conclui-se que a sífilis congênita permanece um desafio substancial no Ceará, com alta prevalência em populações maternas jovens e vulneráveis, associada a falhas no acesso e adesão ao pré-natal. Embora os dados de 2024 sugiram um sinal de melhora na redução de casos, são essenciais intervenções contínuas e abrangentes, incluindo o fortalecimento da vigilância epidemiológica, o aprimoramento do diagnóstico e a garantia de tratamento adequado para todas as gestantes e recém-nascidos, visando à eliminação da doença e à melhoria dos indicadores de saúde materna e infantil na região.

Palavras-chave: Epidemiologia clínica, Estudos longitudinais, Sífilis congênita.

1. INTRODUÇÃO

A sífilis congênita (SC) é uma infecção resultante da transmissão vertical do Treponema pallidum da mãe para o feto, que pode ocorrer durante a gestação ou no momento do parto. Apesar de ser uma condição prevenível e tratável, a SC continua a ser um grave problema de saúde pública em diversas regiões, especialmente em países em desenvolvimento. As consequências clínicas dessa infecção são amplamente documentadas, abrangendo desde aborto espontâneo e natimortalidade até complicações neonatais severas, como manifestações neurológicas e ósseas, que podem impactar negativamente a qualidade de vida dos sobreviventes (Séder, 2023). Dados recentes indicam um aumento da incidência de sífilis congênita no Brasil, particularmente entre 2009 e 2018, evidenciando a persistência de desafios relacionados à sua prevenção e manejo (Moraes et al., 2021).

Os avanços no diagnóstico da sífilis congênita incluem o uso de técnicas laboratoriais de alta sensibilidade, como a reação em cadeia da polimerase (PCR). Este método, aplicado em amostras de sangue e líquido cefalorraquidiano, tem se destacado por sua capacidade de detectar o Treponema pallidum em recém-nascidos expostos, permitindo intervenções precoces em casos suspeitos (Melo et al., 2024). Contudo, apesar dessas inovações, a mortalidade infantil associada à infecção permanece elevada. Um estudo nacional conduzido no Brasil revelou taxas alarmantes de mortalidade em crianças menores de cinco anos de idade com sífilis congênita, ressaltando a gravidade da condição e as limitações das estratégias atualmente empregadas (Paixão et al., 2023).

O tratamento da sífilis congênita baseia-se no uso da penicilina, que continua sendo a terapia de escolha devido à sua eficácia comprovada. Entretanto, fatores como diagnóstico tardio, tratamento inadequado de gestantes e falhas no manejo dos parceiros sexuais comprometem os esforços de controle da infecção. A abordagem dos parceiros, fundamental para interromper o ciclo de transmissão e reinfecção, ainda é subutilizada, conforme identificado em uma revisão que apontou deficiências significativas nessa estratégia (Laurentino et al., 2024). Além disso, desafios estruturais e lacunas na implementação das políticas de saúde pública reforçam a necessidade de maior atenção a essa problemática (Sankaran, Partridge e Lakshminrusimha, 2023).

Nesse contexto, torna-se evidente que, apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento, a sífilis congênita persiste como um importante desafio epidemiológico e clínico. Este estudo tem como objetivo descrever o perfil epidemiológico dos casos de sífilis congênita no estado do Ceará entre 2020 e 2025, além de identificar os fatores associados à manutenção dessa condição no período analisado. Os resultados desta pesquisa poderão contribuir para o aprimoramento das estratégias de prevenção e controle da sífilis congênita em âmbito regional e nacional.

2. METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, transversal e retrospectiva, baseada na análise de dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram analisados os casos notificados de sífilis congênita no estado do Ceará no período de 2020 a 2025. O SINAN foi escolhido por ser a principal base de dados epidemiológicos utilizada no Brasil, oferecendo informações detalhadas sobre os casos notificados, incluindo aspectos sociodemográficos, clínicos e epidemiológicos. Para assegurar o rigor metodológico, o estudo seguiu diretrizes estabelecidas para pesquisas com grandes bancos de dados epidemiológicos, conforme descrito por Che et al. (2023).

A seleção dos casos incluiu todas as notificações de sífilis congênita em crianças menores de um ano de idade, considerando os critérios diagnósticos estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Foram excluídos registros com dados incompletos ou inconsistências que inviabilizassem a análise, como ausência de informações sobre a realização de pré-natal ou resultados laboratoriais. As variáveis analisadas abrangeram características maternas (idade, escolaridade, realização de pré-natal, tratamento durante a gestação), neonatais (idade gestacional, peso ao nascer, manifestações clínicas) e desfechos clínicos (cura ou óbito). A limpeza dos dados foi realizada manualmente, com revisão cuidadosa para identificar duplicidades e corrigir inconsistências, seguindo os princípios de gestão de dados epidemiológicos (Che et al., 2023).

A análise estatística foi realizada utilizando exclusivamente métodos descritivos. Os dados foram organizados em tabelas e gráficos de distribuição de frequências relativas e absolutas, com a finalidade de identificar tendências ao longo dos anos estudados. A comparação entre os anos de notificação foi realizada visualmente, a partir da construção de gráficos lineares e de barras, permitindo identificar mudanças na incidência e na distribuição das características maternas e neonatais ao longo do período analisado. Não foram aplicadas análises inferenciais ou cálculos de média, moda ou mediana, devido ao objetivo descritivo do estudo.

A interpretação dos dados baseou-se em uma abordagem contextualizada, comparando os resultados obtidos com evidências disponíveis na literatura nacional e internacional. A metodologia empregada foi elaborada para garantir a reprodutibilidade do estudo e para contribuir com o entendimento das dinâmicas relacionadas à sífilis congênita no estado do Ceará. A comparação com estudos prévios, como aqueles mencionados por Che et al. (2023), buscou evidenciar lacunas no manejo e prevenção da doença, contribuindo para subsidiar políticas públicas mais eficazes voltadas à redução dos casos de transmissão vertical de sífilis na região.

3. RESULTADOS

Entre 2020 e 2024, foram notificados 6.210 casos de sífilis congênita no estado do Ceará, e a análise da faixa etária das mães revelou importantes padrões de distribuição. O maior número de casos foi observado em mães na faixa de 20 a 24 anos, com 2.116 casos (34,1%), seguido pelas faixas de 15 a 19 anos, com 1.283 casos (20,7%), e 25 a 29 anos, com 1.332 casos (21,5%). Mães com idades entre 30 e 34 anos somaram 730 casos (11,8%), enquanto faixas etárias mais avançadas, como 35 a 39 anos (353 casos, ou 5,7%) e 40 a 44 anos (125 casos, ou 2%), apresentaram menores taxas de ocorrência. A faixa de 45 a 49 anos (8 casos) e 50 a 54 anos (1 caso) tiveram registros pontuais, reforçando que a maioria dos casos ocorreu em mães jovens.

Em 2020, foram notificados 1.075 casos de sífilis congênita, com o maior número concentrado na faixa etária de 20 a 24 anos (345 casos), seguida por mães de 15 a 19 anos (257 casos). Já em 2021, o total de notificações aumentou para 1.581, e a maioria dos casos também envolveu mães de 20 a 24 anos (542 casos), com mães de 25 a 29 anos somando 337 casos e de 15 a 19 anos representando 319 registros.

O ano de 2022 manteve os padrões de predominância em mães mais jovens, com 1.453 casos notificados. Mulheres de 20 a 24 anos representaram 522 casos, enquanto as da faixa de 15 a 19 anos totalizaram 283 casos. Mães com idades entre 25 a 29 anos contribuíram com 311 casos, reforçando a vulnerabilidade dessa população.

Em 2023, com 1.420 casos registrados, observou-se que 20 a 24 anos continuaram sendo a faixa etária mais afetada, com 483 casos, seguidas por 314 notificações entre mães de 25 a 29 anos e 293 casos em mães de 15 a 19 anos. Esses dados sugerem que mulheres jovens continuam sendo o grupo mais atingido ao longo dos anos avaliados.

Já em 2024, houve redução significativa no número total de casos, com 675 notificações. A faixa etária de 20 a 24 anos permaneceu com o maior número de notificações (221 casos), seguida por 25 a 29 anos (156 casos) e 15 a 19 anos (131 casos). As faixas etárias mais avançadas apresentaram números muito baixos, com destaque para 10 casos entre mães de 40 a 44 anos e apenas 1 caso na faixa de 50 a 54 anos.

Além disso, 195 casos (3,1% do total) tinham informações de faixa etária materna ignoradas ou não preenchidas. Essa ausência de dados pode impactar o planejamento de políticas públicas dirigidas a grupos vulneráveis, indicando a necessidade de aprimoramento nos registros epidemiológicos. De maneira geral, a maior ocorrência de sífilis congênita em mães jovens reflete falhas nos programas de educação sexual, planejamento familiar e na ampliação do acesso ao pré-natal de qualidade, especialmente para mulheres nas primeiras faixas de idade reprodutiva.

4. DISCUSSÃO

A sífilis congênita permanece um grave problema de saúde pública, especialmente em países em desenvolvimento, onde desafios estruturais no atendimento pré-natal impactam negativamente os índices de detecção e tratamento da infecção (Guedes et al., 2023). No estado do Ceará, os dados evidenciam que a ausência de acompanhamento pré-natal em 29,4% das gestantes foi um fator crítico associado à transmissão vertical (Laurentino et al., 2024).

Além disso, o perfil socioeconômico das mães descrito neste estudo, incluindo a predominância de mulheres jovens com ensino fundamental incompleto, reflete um cenário comum em áreas vulneráveis (Lannoy et al., 2022). Em regiões de fronteira no Brasil, essas características estão diretamente relacionadas à menor adesão ao pré-natal, ao diagnóstico tardio e à continuidade inadequada do tratamento (Carvalho et al., 2023). Esses fatores reforçam a necessidade de políticas públicas específicas para essas populações (Gilmour e Walls, 2023).

O aumento significativo dos casos em 2022, seguido de uma queda nos anos posteriores, sugere tanto o impacto de intervenções em saúde quanto a possível subnotificação, especialmente durante a pandemia de COVID-19 (Moraes et al., 2021). Variações na vigilância epidemiológica e na qualidade do registro dos casos influenciam os dados temporais, destacando a importância de fortalecer os sistemas de notificação para uma melhor compreensão da magnitude do problema (Che et al., 2023).

A mortalidade infantil associada à sífilis congênita continua sendo um indicador alarmante (Paixão et al., 2023). Crianças com menos de cinco anos afetadas pela doença apresentam taxas de mortalidade desproporcionais quando comparadas a outras causas evitáveis (Sankaran et al., 2023). Esses dados apontam para a necessidade urgente de intervenções precoces e ampliação do acesso ao diagnóstico e tratamento adequado (Séder, 2023).

A abordagem diagnóstica também enfrenta desafios (Ribeiro et al., 2024). A interpretação dos testes diagnósticos, especialmente em neonatos, pode ser influenciada por fatores como a carga infecciosa materna e a qualidade do tratamento realizado (Melo et al., 2024). O uso de PCR no sangue e líquido cefalorraquidiano de recém-nascidos permite uma maior precisão no diagnóstico de sífilis congênita, indicando uma oportunidade de melhorar os protocolos clínicos (Alqahtani et al., 2024).

Quanto ao impacto clínico da infecção, manifestações graves, como pneumonia congênita e lesões cutâneas, continuam a ser frequentes em locais onde o tratamento materno é inadequado ou ausente (Amayo-Mariño et al., 2024). Casos que apresentam essas condições revelam a gravidade de tais manifestações quando o diagnóstico e o manejo não são realizados em tempo oportuno (Tamayo-Mariño et al., 2024).

Embora a penicilina seja a terapia padrão para a sífilis congênita, ainda existem lacunas no manejo dos casos, especialmente no contexto neonatal, onde as estratégias de tratamento requerem individualização (Guedes et al., 2023). O desafio no Brasil reside na implementação de protocolos que assegurem a administração da terapia completa tanto na mãe quanto no recém-nascido (Sankaran et al., 2023).

As ações integradas, incluindo o manejo dos parceiros sexuais, são fundamentais para reduzir os índices de reinfecção e transmissão vertical (Laurentino et al., 2024). Essa abordagem integrada poderia diminuir significativamente a incidência de sífilis congênita em regiões endêmicas, como o Ceará (Lannoy et al., 2022).

Outro aspecto relevante é o uso de bases de dados epidemiológicas robustas para análise de tendências e avaliação de políticas públicas (Che et al., 2023). Sistemas de vigilância adequados poderiam melhorar a avaliação da extensão da doença e a eficácia das intervenções, contribuindo para uma redução sustentada nos casos (Paixão et al., 2023).

Apesar dos avanços na compreensão da sífilis congênita, permanecem lacunas importantes no conhecimento, principalmente em relação a estratégias de prevenção e manejo em populações vulneráveis (Carvalho et al., 2023). Este estudo busca contribuir para esse debate, ao destacar o perfil epidemiológico do Ceará e os fatores associados à transmissão vertical, com o objetivo de subsidiar políticas públicas mais eficazes no combate à sífilis congênita (Gilmour e Walls, 2023).

5. CONCLUSÃO

A sífilis congênita continua sendo um desafio significativo para a saúde pública no estado do Ceará, com indicadores alarmantes relacionados à falta de acompanhamento pré-natal e ao diagnóstico tardio. A análise dos dados revela padrões de vulnerabilidade, como a alta prevalência de gestantes jovens com baixa escolaridade, e destaca a necessidade urgente de intervenções mais eficazes, especialmente em áreas de risco. A redução dos casos observada nos últimos anos sugere que as medidas adotadas podem estar surtindo efeito, mas ainda há lacunas a serem superadas, principalmente no acesso a cuidados de saúde de qualidade e na implementação de estratégias integradas de prevenção. Este estudo reforça a importância de fortalecer os sistemas de vigilância, aprimorar o diagnóstico e garantir tratamento adequado para todas as gestantes e seus recém-nascidos, visando à eliminação da sífilis congênita e à redução da mortalidade associada.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de  Medicina do Centro Universitário Estácio do Ceará, Campus Iguatu. e-mail: af.mari.26@gmail.com
2Discente do Curso Superior de  Medicina do Centro Universitário Estácio do Ceará, Campus Iguatu. e-mail: jvdantas999@gmail.com
3Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade de Medicina de Quixadá. e-mail: sfeitosa00@gmail.com
4Discente do Curso Superior de Medicina da Fundação Universidade Regional de Blumenal . e-mail: amabilegiovanamar@icloud.com
5Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Nove de Julho, Campus Vergueiro. e-mail: cnraiana@gmail.com
6Discente do Curso Superior de  Medicina da Universidade Ceuma, Campus São Luís. e-mail: pivattofelipe2006@gmail.com
7Discente do Curso Superior de  Medicina da Universidade Vila Velha, Campus Vila Velha. e-mail: arthurafonso.finance@gmail.com
8Faculdade Edufor São Luís, Campus São Luís. allannazen@gmail.com
9Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Estácio do Ceará, Campus Iguatu. Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). e-mail: sulene-araujo@hotmail.com

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