TABAGISMO EM PACIENTES INTERNADOS EM ENFERMARIA DE CLÍNICA MÉDICA DE HOSPITAL TERCIÁRIO DA ZONA NORTE DE SÃO PAULO

SMOKING IN PATIENTS HOSPITALIZED IN A CLINICAL WARD AT A TERTIARY HOSPITAL IN THE NORTH  ZONE OF SÃO PAULO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202512041819


Luís Della Vecchia Freschi
Breno Mazetto Cunha
Francisco Norberto Netto
Angelo Sapagnol Tomasi Keppen
Rodrigo Aragão Andrade
Maurício Ricardo Golfetto dos Santos


RESUMO 

Introdução: Tabagismo é um problema de saúde pública associado com diversas  comorbidades que influenciam em internações hospitalares, sendo a abordagem  terapêutica ainda negligenciada em ambiente hospitalar, com evidências apontando  para maiores taxas de cessação mesmo com abordagem mínima, sendo necessário  conhecimento do perfil do paciente, grau de dependência e estágio motivacional  para tal. Objetivo: Avaliar a prevalência e o perfil do tabagismo em pacientes  internados em enfermaria de clínica médica de hospital terciário da zona norte de  São Paulo. Métodos: Estudo descritivo transversal com pacientes maiores de 18  anos hospitalizados há mais de 24h. Os pacientes foram entrevistados em momento  único. Dados demográficos, socioeconômicos e ligados ao tabagismo foram  coletados. Resultados: Foram realizados 150 entrevistas, totalizando 145 válidas  após critérios de exclusão: 20 (13,8%) eram tabagistas; 45 (31%) eram ex-tabagistas; 59 (40,7%) eram não tabagistas e 21 (14,1%) eram tabagistas passivos.  Conclusão: O tabagismo possui alta prevalência em ambiente hospitalar, e a  internação constitui uma janela de oportunidade para abordagem deste problema,  sendo que esta abordagem dirigida ao tratamento da dependência à nicotina ainda  não faz parte da rotina assistencial. Tornando-se necessário estratégias para  capacitação da equipe, conhecimentos e disponibilização do tratamento  medicamentoso e comportamental, e redes de apoio após a alta hospitalar, para  garantir abstenção ao tabaco a longo prazo. 

Palavras-chave: Tabagismo. Epidemiologia. Clínica Médica. Enfermaria.  Hospitalização.

ABSTRACT 

Introduction: Smoking is a public health problem associated with several  comorbidities that influence hospital admissions, with the therapeutic approach still  being neglected in the hospital environment, with evidence pointing to higher  cessation rates even with a minimal approach, requiring knowledge of the patient’s  profile, degree of dependence and motivational stage for this. Objective: To evaluate  the prevalence and profile of smoking in patients hospitalized in a clinical ward of a  tertiary hospital in the north of São Paulo. Methods: Cross-sectional descriptive  study with patients over 18 years of age hospitalized for more than 24 hours. Patients  were interviewed at a single time. Demographic, socioeconomic and smoking-related  data were collected. Results: 150 interviews were carried out, totaling 145 valid  interviews after exclusion criteria: 20 (13.8%) were smokers; 45 (31%) were former  smokers; 59 (40.7%) were non-smokers and 21 (14.1%) were passive smokers. Conclusion: Smoking has a high prevalence in a hospital environment, and  hospitalization constitutes a window of opportunity to address this problem, as this  approach aimed at treating nicotine dependence is not yet part of routine care.  Strategies for team training, knowledge and availability of drug and behavioral  treatment, and support networks after hospital discharge are necessary to ensure  long-term tobacco abstention.

Keywords: Smoking. Epidemiology. Medical Clinic. Infirmary. Hospitalization.

1. INTRODUÇÃO 

O tabagismo é um importante problema de saúde pública com alta  prevalência e mortalidade, decorrente das doenças relacionadas ao tabaco, sendo  considerada a maior causa evitável de morbidades, implicando, consequentemente,  em maiores taxas de invalidez e mortes prematuras, conforme se verifica dos dados  extraídos da Organização Mundial da saúde, em pesquisa realizada por Rafael Barreto e outros(2)

A prevalência de tabagismo no Brasil apresenta-se em queda nas últimas  décadas, em vigência de estratégias implementadas pela Política Nacional de  Controle ao Tabaco, porém ainda se mantém em níveis significativos, sendo que os  dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), apontam um  percentual total de adultos fumantes de 12,6% no ano de 2019. Em relação a  população jovem (<18 anos), em 2019 a proporção total de fumantes entre alunos  de 13 a 17 anos foi de 6,8%, de acordo com os dados da PeNSE (Pesquisa  Nacional de Saúde do Escolar), apresentando discreto aumento em relação ao ano  de 2015 (6,6%). Entre os escolares de 13 a 15 anos, o percentual daqueles que  experimentaram cigarro alguma vez na vida reduziu entre os meninos (19,20% em  2015 para 15,61% em 2019), sendo que entre as meninas não foi observada  alteração expressiva (18,90% em 2015 para 18,43% em 2020). Em comparação aos  dados mundiais, segundo relatórios da OMS, em 2020, 22,3% da população mundial  utilizava tabaco, 36,7% dos homens e 7,8% das mulheres no mundo.(12) 

Uma meta-análise apontou que o aconselhamento, mesmo que mínimo,  aumenta as chances de interrupção do tabagismo, com taxas de abstinência  chegando a 10,9% quando tentado o processo sem ajuda profissional, contra 13,4%  com aconselhamento mínimo (menor do que 3 minutos), 16% quando entre 3-10  minutos e 22,1% se aconselhamento intensivo (>10 minutos); outro estudo revela  que 80% dos tabagistas possuem o desejo da cessação, porém apenas 3% a cada  ano conseguem de maneira efetiva. A hospitalização, portanto, constitui uma boa  janela de oportunidade para abordagem e início do tratamento do tabagismo,  devendo ser identificada e valorizada a dependência ao tabaco.(8) 

Durante a prática clínica, observa-se certa negligência em relação ao tema,  tanto no referente às abordagens ao tratamento, quanto para episódios de  abstinência, visto que a interrupção abrupta, imposta pela hospitalização, pode desencadear a síndrome de abstinência. Dessa forma, torna-se imperativo um maior  entendimento a respeito das características dos pacientes tabagistas hospitalizados,  para melhor compreensão da magnitude do problema, com o objetivo de  implementar uma abordagem sistematizada e rotineira aos pacientes tabagistas  internados. 

É fundamental identificar a prevalência e características relacionadas ao  tabagismo nessa população como fonte de informação para implementação e  adequação pelos profissionais da saúde da assistência necessária, enquadrando-se  no contexto de prevenção primária, secundária e terciária em saúde. 

2. OBJETIVOS 

Analisar a prevalência de tabagismo e fatores associados em pacientes  internados por diversas causas em uma Enfermaria de Clínica Médica. 

2.1. Objetivos específicos: 

a) Caracterizar o perfil sociodemográfico, dados clínicos e comorbidades  relacionadas ao tabagismo. 

b) Definir a prevalência de síndrome de abstinência ao tabaco durante  hospitalização. 

c) Documentar as tentativas de abordagens prévias sobre cessação do  tabagismo. 

d) Determinar o estágio motivacional no momento da internação, e compará lo ao estágio imediatamente prévio à hospitalização. 

e) Conscientizar para promover a mudança comportamental dos profissionais  de saúde na abordagem do tabagismo, tratando este como uma doença crônica.

3. METODOLOGIA 

3.1. Desenho de Estudo 

Realizado estudo descritivo transversal baseado em entrevista e aplicação de  questionário, em momento único para cada voluntário. Sendo a população estudada  composta de pacientes internados, por diversas causas, em enfermaria de clínica  médica, no período de 01/01/2023 à 31/01/2024, em hospital terciário da Zona  Norte, objetivando um “N” de 150 pacientes.  

O instrumento de pesquisa foi um questionário com perguntas fechadas,  envolvendo dados de identificação, sociodemográficos, hábitos de vida e  características específicas relacionadas ao tabagismo, para o grupo dos fumantes  (idade de início, carga tabágica, estágio motivacional anteriormente e durante  internação, grau de dependência por escore de Fagerström, abordagens sobre  cessação, ocorrência de abstinência durante internação, sintomas e comorbidades  relacionadas ao tabaco). Foi considerado como fumante, aquele que consome, ao  menos, um cigarro diário por período maior que um mês ou que cessou uso em  período menor que trinta dias. Foi considerado como ex-fumante, aquele que cessou  o uso há mais de 1 mês. E por fim, considerado como tabagista passivo aquele  indivíduo não fumante que possui inalação de fumaça de derivados do tabaco, pois  convivem com fumantes em diferentes ambientes. 

A coleta de dados foi realizada pelos próprios pesquisadores, no período do  ano de 2023, após aprovação pelo comitê de ética médica. 

Após coletado dados, realizado análise estatística, com objetivo de  estabelecer razão de prevalência para os objetivos primários e secundários, visando  com o resultado, conhecer a população tabagista internada por diversas causas em  enfermaria de clínica médica, e comparar os dados com a população geral. 

3.2. Elegibilidade 

3.2.1. Critérios de inclusão 

Incluídos neste estudo pacientes com internação por período maior de 24  horas, em enfermaria de clínica médica do Conjunto Hospitalar do Mandaqui, no período de 01/01/2023 à 31/01/2024, independente do diagnóstico relacionado à  hospitalização, que apresentem idade maior de 18 anos e capacidade funcional e  cognitiva suficiente para responder o questionário. 

3.2.2. Critérios de exclusão 

Excluídos do estudo aqueles menores de 18 anos de idade; que apresentem  incapacidade cognitiva para responder o questionário; ou aqueles que optem por  não aceitação na participação da pesquisa. 

3.3. Coleta de Dados 

A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevista e aplicação de um  questionário nos pacientes incluídos na pesquisa, após submissão do projeto de  pesquisa em plataforma, e aprovação pelo comitê de ética. 

Dessa forma, foi realizada uma entrevista presencial, com assinatura do  TCLE elaborado e coleta de dados a respeito do paciente por dois médicos  residentes do programa de residência de clínica médica do Conjunto Hospitalar do  Mandaqui. 

3.4. Instrumento de Coleta 

Foi desenvolvido um questionário para a coleta de dados, baseado em  características sociodemográficas e clínicas relacionadas ao tabagismo, com todos  os critérios estabelecidos, que posteriormente foram transportados para uma base  de dados da planilha do Excel e os resultados, analisados pelos pesquisadores. 

3.5. Análise Estatística 

As informações coletadas através do questionário aplicado em entrevista,  foram transportadas para um banco de dados em planilha utilizando o software  Microsoft Excel, com o objetivo de identificar a prevalência de tabagismo e o perfil  dos pacientes internados, visando promover uma mudança comportamental dos  profissionais de saúde na abordagem ao tabagismo.

3.6. Aspectos Éticos 

Esse projeto de pesquisa foi submetido à aprovação pelo comitê de ética em  pesquisa do Conjunto Hospitalar do Mandaqui, antes do início da coleta dos dados  (Número do Parecer: 6.112.566). 

Apenas foram utilizados dados de pacientes que foram submetidos a uma  entrevista presencial, para esclarecimento do objetivo do projeto de pesquisa, bem  como as consequências investigadas. Após o consentimento, assinado entre as  partes o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). 

As informações coletadas foram utilizadas única e exclusivamente para a  execução do projeto em questão e somente serão divulgadas de forma anônima,  sendo preservada a privacidade dos sujeitos de pesquisa cujos dados serão  coletados.  

3.7. Riscos  

Os desconfortos e/ou os riscos esperados são mínimos, por envolver risco de  constrangimento, invasão de privacidade, sensação de discriminação e  estigmatização a partir do conteúdo revelado, responder à questões sensíveis,  cansaço (devido tomada de tempo ao responder o questionário), e quebra de sigilo.  Para se evitar tais desconfortos, o voluntário que participar da pesquisa teve a  possibilidade de responder o questionário em um local que lhe agrade, com o tempo  que for necessário, sendo garantida a não violação e integridade dos documentos,  assegurado a confidencialidade e a privacidade, a proteção da imagem e a não  estigmatização, garantindo a não utilização das informações em prejuízo das  pessoas e/ou das comunidades, inclusive em termos de autoestima, de prestígio  e/ou econômico – financeiro. A participação na pesquisa é isenta de despesas, e  também de remuneração. O participante tem o direito de solicitar o ressarcimento de  todos os eventuais gastos ao participar da pesquisa. Tendo direito também a  assistência na instituição, tratamento e indenização por eventuais danos, efeitos  colaterais e reações adversas decorrentes da sua participação.  

3.8. Benefícios 

O(s) benefício(s) com os resultados desta pesquisa está direcionados para  uma parcela de pacientes no futuro, visando delinear melhorar a sistematização da  abordagem e tratamento do tabagismo em pacientes internados. Não trazendo  benefícios diretos para os voluntários que participaram da pesquisa neste momento.

4. DISCUSSÃO 

O tabagismo é considerado uma doença epidêmica devido a dependência à  nicotina e enquadra-se no grupo de transtornos mentais e de comportamento devido  ao uso de substâncias psicoativas(5). É considerado um problema de saúde pública,  visto o elevado número de fumantes e o alto risco de desenvolvimento de doenças  relacionadas ao uso contínuo da nicotina por esta parcela da população e aqueles  expostos de maneira passiva.(11) 

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) a prevalência de  usuários de derivados do tabaco foi de 12,8% em 2019, sendo o percentual de  fumantes passivos de 9,2%. Em 2013, a prevalência de tabagismo era de 14,9%.(3) 

Geralmente é na adolescência em que o consumo do tabaco se inicia, em  média entre 13 e 14 anos de idade. Existindo relação de maior gravidade de  dependência e morbidades associadas quanto mais precoce o início.(9) 

A dependência do tabaco é uma condição crônica, com etiologia multifatorial,  envolvendo fatores genéticos (genes relacionados à intercomunicação celular, à  adesão celular e à matriz extracelular, inferindo relação com a ideia de que a  neuroplasticidade e as rotas de aprendizado são fundamentais nas diferenças que  tentam explicar a vulnerabilidade para a nicotina), havendo também a interação dos  vários genes com o próprio ambiente e as experiências individualizadas de cada  fumante.(8) 

Mais de 50 doenças estão relacionadas ao tabagismo, atingindo  principalmente os aparelhos respiratório (doença pulmonar obstrutiva crônica –  DPOC, algumas doenças intersticiais, agravamento da asma), cardiovascular  (aterosclerose, arterial coronariana, acidente vascular cerebral, aneurisma,  tromboangeíte obliterante, associação tabaco-anovulatório), digestivo (refluxo  gastroesofágico, úlcera péptica, doença de Crohn, cirrose hepática), genitourinário  (disfunção erétil, infertilidade, hipogonadismo, nefrite), neoplasias malignas  (cavidade oral, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, cólon, reto, fígado e vias  biliares, rins, bexiga, mama, colo de útero, vulva, leucemia mieloide), na gravidez e  no feto (infertilidade, abortamento espontâneo, descolamento prematuro da  placenta, placenta prévia, pré-eclâmpsia, gravidez tubária, menor peso ao nascer,  parto prematuro, natimortos, mortalidade neonatal, malformações congênitas, prejuízo no desenvolvimento mental em idade escolar) e outras (envelhecimento da  pele, psoríase, osteoporose, artrite reumatoide, doença periodental, cárie dental,  estomatites, leucoplasias, língua pilosa, pigmentação melânica, halitose, queda das  defesas imunitárias). Além de repercussões socioeconômicas como desvio de renda  (menos gastos com as necessidades básicas) e perda de produtividade (por  retenção no leito, absenteísmo no trabalho, pensões, acidentes, assistência médica,  invalidez e mortes precoces).(9) 

Durante a hospitalização, rotineiramente se é questionado sobre o hábito de  fumar, visto este ser um importante fator de risco para diversas comorbidades, no  entanto não é comum considerar este momento para propor intervenções  relacionadas a este hábito. No entanto estudos apontam que a internação constitui  uma janela de oportunidade para isto, visto à “interrupção tabágica obrigatória”  imposta pela hospitalização, que se bem manejada, com abordagem adequada,  início de tratamento, controle de abstinência e monitoramento, pode se transformar  em uma tentativa bem sucedida de cessação.(2) 

Para a abordagem ao tabagismo, existem ferramentas para auxílio de sua  classificação, devido os vários espectros que compõem o paciente tabagista. Dentre  eles o “Teste de Fagerström”, que possibilita a mensuração do grau de dependência  de nicotina por meio de 6 perguntas, onde a soma da pontuação varia de 0 a 10 e  determina o grau de dependência.(11) O “Modelo Transteórico de Prochaska e  DiClemente” que descreve a prontidão para a mudança como estágios motivacionais  pelos quais o indivíduo transita, inferindo a probabilidade de que uma pessoa iniciar  e manter uma estratégia específica de mudança; sendo este não específico para o  tabagismo, porém bem aplicável nesta situação. Os estágios motivacionais  envolvem: Pré-contemplação: não considera a possibilidade de mudar, nem se  preocupa com a questão; Contemplação: reconhece o problema, é ambivalente e  considera adotar mudanças eventualmente; Preparação: Inicia algumas mudanças,  planeja, cria condições para mudar; Ação: Implementa mudanças, investe tempo e  energia na execução da mudança; Manutenção: Processo de continuidade do  trabalho iniciado com ação; Recaída: falha na manutenção e retomada do hábito ou  comportamento anterior.(6) 

O tratamento do tabagismo por vezes envolve múltiplas tentativas,  envolvendo medidas comportamentais (Terapia cognitivo comportamental), apoio  medicamentoso (1ª linha: terapia de reposição de nicotina, bupropiona e vareniclina;  2ª linha: nortriptilina e clonidina), e seguimento à longo prazo, sendo estes individualizados conforme perfil do paciente, grau de dependência e estágio de  motivação. Não existindo um momento ideal para iniciá-lo, porém sendo evidenciado  melhora da qualidade de vida com cessação, mesmo diante de comorbidades  graves relacionadas ao tabaco.(8) 

As doenças relacionadas ao tabaco correspondem à grande parte das  internações hospitalares e a cessação do tabagismo contribui para a redução da  morbimortalidade. Durante as internações, ocorre uma abstenção forçada ao tabaco,  e na maioria das vezes o paciente não recebe orientações, não se encontra  preparado, independentemente da fase de motivação em que se encontra. E o  tratamento do tabagismo no hospital difere pouco do tratamento extra-hospitalar,  com estudos mostrando que a intervenção hospitalar com duração superior a 15  minutos, associada ao suporte ambulatorial com duração superior a um mês,  aumentam a taxa de cessação do tabagismo (OR: 1,81; CI95%: 1,54-2,15)  (grau/nível A).(8) Uma revisão sistemática também revelou que a intervenção no  paciente hospitalizado e acompanhado no pós-alta, independente da doença que  motivou a internação, associou-se com alta taxa de cessação do tabagismo  comparada com grupos controle (razão de chance 1,65 IC 1,44-1,9). Esta revisão  destaca ainda que o seguimento pós-alta parece ser o componente efetivo da  intervenção.(9) 

Além da redução da morbimortalidade, um adequado tratamento do  tabagismo (abordagem + medicamentos) mostrou-se mais custo-efetivo do que o  tratamento das doenças tabaco-relacionadas. No Brasil, dados do Sistema Único de  Saúde (SUS) referentes ao tratamento das principais doenças tabaco-relacionadas  são da ordem de R$338.692.516,02, em 2005. Em contrapartida, o Ministério da  Saúde gastou R$21.123.032,98 na compra de medicamentos relacionados ao  tratamento do tabagismo disponíveis no SUS, em 2006.(9)

5. RESULTADOS 

Dos 150 pacientes entrevistados, 2 deles não quiseram ceder informações  para entrevista, outros 2 não souberam informar a maioria das características  abordadas em relação ao tabagismo e 1 paciente possuía 16 anos, sendo então  excluídos da pesquisa; totalizando 145 entrevistas válidas para análise. 

No âmbito das características sociodemográficas, em relação à faixa etária, a  maioria dos pacientes são idosos, totalizando 55,2%(80) acima dos 60 anos, sendo  a faixa etária entre 61-70 anos à de maior incidência (29% – 42); e apenas 7,6% (25)  abaixo dos 30 anos de idade, conforme ilustra o gráfico 1. Quanto ao sexo, 48,3%  (70) se declararam como sexo feminino, 51,7% (75) como masculino. O estado civil  relatado pelos entrevistados resultou 29%(42) de solteiros; 32,4%(47) casados;  8,3%(12) em uma união estável; 17,2%(25) viúvos e 13,1% (19) divorciados. Na  avaliação dos anos de escolaridade, foram encontradas taxas de 48,3%(70) para  menos de 8 anos, 24,1% (35) para faixa entre 8-10 anos, e 27,6%(40) para mais de 10 anos.  

Os hábitos de vida atuais foram avaliados, e a prática de atividade física  maior ou igual à 3 vezes por semana, sendo esta a recomendação para maioria da  população para estilo de vida saudável, foi evidenciada em apenas 13,8%(20) da  amostra, e valor considerável 78,6%(114) sequer praticavam alguma atividade física.  Analisando o consumo de bebidas alcoólicas no momento atual, 72,4%(105) dos  participantes negaram consumo; 13,1%(19) relataram uso casual; 10,3%(15) uso  regular; e 4,1%(6) informou uso diário. Conforme descrito em tabela 01. 

Quando a variável avaliada foi o tabagismo, 40,7%(59) dos participantes  negaram uso prévio ou contato indireto com tabaco; 59,3% (86) apresentaram algum  contato, seja ele direto ou indireto, sendo que 13,8%(20) do total são tabagistas  ativos, 31%(45) ex-tabagistas e 14,5%(21) tabagistas passivos, conforme  apresentado no Gráfico 2. 

A Tabela 01 também ilustra a comparação das características  sociodemográficas do grupo que apresentou contato direto ou indireto com o tabaco  em relação ao que não apresentaram. 

As características gerais associadas ao tabagismo foram parte da entrevista  aplicadas apenas ao grupo de tabagistas e ex-tabagistas, totalizando 65 respostas.  Observou-se que a maioria dos entrevistados (61,5%-40) iniciou o hábito de fumar  entre os 11 aos 15 anos. O período de maior prevalência quanto ao tempo de  tabagismo foi de 21-30 anos (27,7%-18). A carga tabágica foi bastante heterogênea  entre os entrevistados, sendo que a maioria apresentou carga menor que 30  anos/maço (53,9%-35), conforme ilustrado no Gráfico 05.  

O estágio motivacional, ferramenta importante na avaliação clínica do  paciente tabagista, que infere individualização e intensidade do tratamento  necessário para manejo, quando comparado estágio pré-hospitalização e durante  hospitalização, foi mostrado aumento dos números de paciente nos estágios de  preparação e ação, com redução nas fases de pré-contemplação e contemplação,  conforme apresentado em Gráfico 06. 

E mais especificamente no grupo de tabagistas ativos, que representam 20  participantes, as taxas de consumo diário de cigarros foi de 20%(4) para até 10  cigarros, 65%(11) para 11-20 cigarros, 20%(4) para 21-30 cigarros e 5%(1) para 31- 40 cigarros. Na avaliação da síndrome de abstinência, conforme critério do DSM-V,  7 entrevistados (35%) apresentaram sintomas de abstinência durante a  hospitalização. Os resultados do questionário de Fagerström apresentou uma taxa  média de 5,1±2,7, com 47,4%(9) dos tabagistas com grau de dependência  elevado/muito elevado (escore ≥6). 

Influência de amigos e familiares foram os principais motivos de iniciação ao  tabagismo relatados em parte significativa dos pacientes (75,4%), conforme ilustra o  Gráfico 07. Quando questionados sobre fatores que foram ou são dificultadores para  cessação do hábito, as respostas mais prevalentes foram “Achar o hábito muito  prazeroso” e “Pessoas fumam ao redor”, totalizando 35,4%(23) e 24,6%(16),  respectivamente, sendo que 23,1%(15) não souberam informar uma justificativa para  tal dificuldade, como demonstrado em Gráfico 08. 

Englobando questões relacionadas ao tratamento do tema, foi-se questionado  sobre abordagem do assunto em serviço de saúde, mesmo que breve, com o  paciente que apresenta ou apresentou contato com tabagismo em algum momento  da sua vida, encontrando-se taxas de 29,2%(19) que não tiveram nenhuma  abordagem, mesmo durante internação; 7,7%(5) apenas durante esta hospitalização, e o restante, 64,5%(42), já possuíam experiências de abordagem  prévia. Em relação à utilização de recurso medicamentoso ou não para auxílio na  cessação, extrema maioria, totalizando 87,7% (57), não utilizou de nenhum,  evidenciado em Gráfico 9. 

Ainda no grupo de tabagistas ativos e ex-tabagistas, foi analisado condições  diretamente relacionadas à situação clínica do paciente, identificando-se presença  de comorbidades relacionadas ao tabaco (dentre as avaliadas: gastrite, DAOP, DAC,  DPOC, AIT/AVC, neoplasias malignas e doença pulmonar intersticial), estando  presente pelo menos 1 comorbidade em 58,5% (38) dos pacientes. (gráfico 10);  coexistindo sintomas respiratórios (dentre os avaliados: dispneia, tosse seca, tosse  produtiva e desconforto faríngeo), em 58,5%(38) dos pacientes também, (gráfico  11).

6. CONCLUSÃO 

A prevalência de tabagismo ativo encontrada na amostra foi de 13,8%,  resultados equiparáveis às taxas evidenciadas na população geral, segundo o PNS Pesquisa Nacional de Saúde (12,8% em 2019, e 14,9% em 2013)(12), resultado  concordante também com outros estudos envolvendo paciente internados, que  variaram entre 11,5% e 22,6%.(7, 10). Quando considerado todo montante que  apresentou contato direto com tabaco, inclui-se o grupo de ex-tabagistas, que  representou 31% da amostra, somando, então, um total de 44,8%, enumerando o  impacto do tabagismo no âmbito dos pacientes hospitalizados. 

Considerando o “N” total de participantes, nos aspectos sociodemográficos,  observa-se que a maioria dos pacientes (55,2%) é idosa (>60 anos), e 72,4% não  concluiu o ensino médio (<10 anos de escolaridade), sendo que 48,3% não concluiu  o ensino fundamental (<8 anos de escolaridade), delineando um perfil  socioeconômico dos paciente que encontram-se internados em uma enfermaria de  clínica médica, hospitalizado por diversas causas, em hospital estadual de nível  terciário da cidade de São Paulo, dando parâmetros para entender o contexto  biopsicossocial o qual estes estão inseridos. 

Os resultados também demonstraram taxas de 47,4% para dependência  elevada ou muito elevada para nicotina, 58,5% apresentaram pelo menos uma  comorbidade relacionada ao tabaco, também 58,5% relatou pelo menos um sintoma  respiratório, que pode ser atribuído ao hábito de fumar, e 35% dos tabagistas ativos  apresentaram síndrome de abstinência durante hospitalização; dados que  demonstram a repercussão na qualidade de vida e saúde em geral no paciente  tabagista, inferindo também maior intensidade nos recursos para tratamento e  monitorização, devido esta ser uma população com características relacionadas ao  insucesso da cessação tabágica.(8)

Uma taxa de prevalência muito pequena da amostra relatou uso prévio de  algum recurso no auxílio da cessação, seja ele medicamentoso ou não, sendo a  extensa maioria de participantes (87,7%) que nunca utilizaram de algum recurso.  Não obstante 29,2% sequer receberam uma abordagem mínima prévia, nem mesmo  durante a internação atual, sobre cessação do tabagismo, que mesmo não  representando a maioria, ainda é considerado um número elevado no mundo  globalizado que hoje vivemos. Informações que geram a hipótese de que, apesar da  redução da prevalência de tabagismo no Brasil, conforme pesquisas nacionais(12),  ainda há espaço para ampliar estratégias e estudos em saúde no intuito de reduzir  ainda mais estas taxas. 

Durante hospitalização foi constatado um aumento do número de pacientes  em estágio motivacional de preparação e ação, quando comparados à períodos  imediatamente anteriores, estágios mais propensos ao sucesso da cessação do  hábito, tornando o período da internação um momento propício para abordagem e  tratamento do tabagismo, visto este não diferir significativamente em ambiente  hospitalar e extra-hospitalar. Sabendo que são necessários mais estudos com  pacientes hospitalizados no Brasil para melhor avaliar o impacto das abordagens  focadas na motivação, cujo objetivo é a cessação tabágica a longo prazo. 

Ao se comparar o grupo de tabagistas e não tabagistas, conforme Tabela 1,  evidenciado faixa etária semelhante entre os dois grupos (62±15 e 62,5±16,  respectivamente), sendo as variáveis: sexo masculino, maior percentual de relações  não conjugais atuais (solteiro, viúvo e divorciado), e maior consumo de álcool (hábito  regular ou diário); mais prevalentes no grupo de tabagistas. 

Uma grande proporção iniciou o tabagismo em idade precoce, sendo que  61,5% deu início entre os 11 e os 15 anos de idade, e os fatores mais relatados  como motivo da iniciação, foram o de influência de amigos e familiares. Faixa etária  onde se supõe haver uma das maiores taxas de neuroplasticidade cerebral, onde as  interações organismo-ambiente gera uma criação de sinapses, circuitos e respostas  neuronais, culminando em propriedades comportamentais e a individualidade de  cada um.(4) Justificando uma possível propensão à dependência, e futuros efeitos  deletérios dos anos de tabagismo. 

A hospitalização gera estresse e ansiedade ao paciente, fatores estes que  costumam ser amenizados com hábito de fumar na população com este vício,  apesar disso ela pode funcionar com indutora da cessação, uma vez que ela torna o  paciente mais reflexivo sobre seus hábitos de vida, é um período que permite iniciar o tratamento e observação mais assídua pela equipe de saúde, tornando ela um  facilitador para cessação e manutenção. 

A metodologia da pesquisa envolveu questionário cujas respostas eram  totalmente dependentes da perspectiva e memória do paciente, podendo ocorrer o  efeito Hawthorne (o entrevistado responde conforme aquilo que ele intui que o  pesquisador gostaria de ouvir), e o viés de memória, em que as respostas podem  sofrer influência pela capacidade de memorização do paciente. 

Resumidamente, o tabagismo possui alta prevalência em ambiente hospitalar,  com grandes impactos na saúde como um todo do paciente, e uma abordagem  dirigida ao tratamento da dependência à nicotina ainda não faz parte da rotina  assistencial. E a internação constitui uma janela de oportunidade para abordagem  deste problema, de forma que a cessação seja iniciada e bem sucedida. Tornando se necessário estratégias para capacitação da equipe, conhecimentos e  disponibilização do tratamento medicamentoso e comportamental, e redes de apoio  após a alta hospitalar, para garantir abstenção ao tabaco à longo prazo.

REFERÊNCIAS 

1- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION ; tradução: Maria Inês Corrêa  Nascimento … et al.] ; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli … [et al.]. Manual  diagnóstico e estatístico de transtornos mentais [recurso eletrônico] : DSM-5 / –  5. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2014. 

2- BARRETO, Rafael Balsini et al. Tabagismo entre pacientes internados em um  hospital universitário no sul do Brasil: prevalência, grau de dependência e  estágio motivacional. Jornal Brasileiro de Pneumologia, [S.L.], v. 38, n. 1, p. 72-80,  fev. 2012. FapUNIFESP (SciELO). <http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37132012000100011>. 

3- BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer José de Alencar  Gomes da Silva. Programa Nacional de Controle do Tabagismo. Rio de Janeiro:  INCA, 2019. 

4- Ferrari, E. A. de M., Toyoda, M. S. S., Faleiros, L. & Cerutti, S. M. (2001).  Plasticidade neural: relações com o comportamento e abordagens  experimentais. Psicologia: Teoria E Pesquisa, 17(2), 187-194.  <https://doi.org/10.1590/S0102-37722001000200011>. 

5– FRANCISCO, Figueiredo de Assis e VIANNA, Denizar. Ministério da saúde  secretaria de atenção especializada à saúde secretaria de ciência, tecnologia,  inovação e insumos estratégicos em saúde. Portaria conjunta nº 16, de 10 de  agosto de 2022. Disponivél em: < https://www.gov.br/saude/ptbr/assuntos/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-pcdt/arquivos/2022/portaria conjunta-n-16-pcdt-esclerose-sistemica.pdf> . Acesso em 08 de mai. 2023. 

6- JUNGERMAN F.S. LARANJEIRA R. Entrevista motivacional: bases teóricas e  práticas. São Paulo: CD UNIAD – UNIFESP, 1999 

7- OLIVEIRA MV, Oliveira TR, Pereira CA, Bonfim AV, Leitão Filho FS, Voss LR.  Smoking among hospitalized patients in a general hospital. J Bras Pneumol.  2008;34(11):936-41. 

8- REICHERT, Jonatas et al. Diretrizes para cessação do tabagismo-2008. Jornal  Brasileiro de Pneumologia, v. 34, p. 845-880, 2008. Disponivél em: < https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/tnNVbyTKq39N9SqMqSpgbyy/> . Acesso em 08 de  mai. 2023.

9- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA et al. Diretrizes  clínicas na saúde suplementar–tabagismo. Rev Assoc Med Bras, v. 56, n. 4, p.  375-93, 2011. Disponivél em:  <https://www.actbr.org.br/uploads/arquivo/1151_tabagismo.pdf> . Acesso em 08 de  mai. 2023. 

10- TANNI SE, Iritsu NI, Tani M, Camargo PA, Sampaio MG, Godoy I, et al.  Evaluation of hospitalized patients in terms of their knowledge related to  smoking. J Bras Pneumol. 2010;36(2):218-23. 

11- VARGAS, LS, Lucchese R, Silva AC et al. Aplicação do Teste de Fagerstrom:  revisão integrativa. Revista de Enfermagem UFPE on line, v. 9 n. 2. Disponível em  <https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/revistaenfermagem/issue/view/1256> 

12- Who Global Report on Trends in Prevalence of Tobacco Use 200-2025. Geneva:  World Health Organization, 2019.

APÊNDICE

Apêndice 1 – Gráfico 01 – “Faixa Etária da Amostra”

Apêndice 2 – Gráfico 02 – “Prevalência Fumantes e Não Fumantes”

Apêndice 3 – Gráfico 03 – “Idade de Início do Tabagismo”

Apêndice 4 – Gráfico 04 – “Tempo de Tabagismo”

Apêndice 5 – Gráfico 05 – “Carga Tabágica”

Apêndice 6 – Gráfico 06 – “Estágio Motivacional Pré E Durante a Internação”

Apêndice 7 – Gráfico 07 – “Motivo da Iniciação”

Apêndice 08 – Gráfico 08 – “Fatores Dificultadores”

Apêndice 09 – Gráfico 09 – “Utilização de recursos para cessação”

Apêndice 10 – Gráfico 10 – “Comorbidades relacionadas ao tabaco”

Apêndice 11 – Gráfico 11 – “Sintomas Respiratórios”

Apêndice 12 – Tabela 01 – “Comparação Entre o Grupo Tabagista e Não Tabagista”

 ¹Valores expressos em n (%), exceto onde indicado. ²Valores expressos em média ± desvio  padrão.