EFICÁCIA DOS EXERCÍCIOS RESISTIDOS NA REABILITAÇÃO DA TENDINITE DO MANGUITO ROTADOR

EFFICACY OF RESISTANCE EXERCISES IN THE REHABILITATION OF ROTATOR CUFF TENDINITIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512042124


David Moisés Santos Silva, Gislene Guimarães Garcia Tomazini, Helena Santos Botelho, Lívia de Melo Maciel, Mariana Borsato Batista, Thalles Thier Fernandes, Tiago Silva Rocha


RESUMO

A tendinopatia do manguito rotador (TMR) é uma condição musculoesquelética comum em adultos, caracterizada por degeneração tendínea, dor crônica e limitação funcional. O tratamento fisioterapêutico com exercícios resistidos é essencial para a recuperação funcional e prevenção da progressão da lesão. O presente estudo teve como objetivo revisar a atuação fisioterapêutica na Tendinopatia do Manguito Rotador, destacando estratégias de prevenção e tratamento baseadas em programas de exercícios estruturados e individualizados, bem como a associação de técnicas complementares, com ênfase na eficácia clínica para redução da dor, melhora funcional e prevenção da progressão da condição. Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, por meio de diferentes tipos de documentos publicados entre os anos de 2020 e 2025, nas línguas inglesa e portuguesa. Para elaboração deste estudo, foram utilizadas as bases de dados eletrônicas como: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed e Google Scholar. Os exercícios resistidos supervisionados e com progressão adequada reduzem a dor, melhoram a amplitude de movimento e restauram a força muscular. A associação com técnicas como liberação miofascial e estimulação transcraniana potencializa os resultados. O exercício resistido é uma intervenção eficaz e segura na reabilitação da TMR, devendo ser adaptado à condição clínica de cada paciente.

Palavras-chave: Tendinopatia. Lesões do Manguito Rotador. Técnicas de Fisioterapia. Exercício de Reabilitação. Qualidade de Vida. 

ABSTRACT

Rotator cuff tendinopathy (RCT) is a common musculoskeletal condition in adults, characterized by tendon degeneration, chronic pain, and functional limitation. Physiotherapeutic treatment with resistance exercises, is essential for functional recovery and prevention of injury progression. This study aimed to review the physiotherapeutic approach to rotator cuff tendinopathy, highlighting prevention and treatment strategies based on structured and individualized exercise programs, as well as the association of complementary techniques, emphasizing clinical efficacy for pain reduction, functional improvement, and prevention of condition progression. This is a narrative literature review, using different types of documents published between 2020 and 2025, in English and Portuguese. For this study, electronic databases such as Scientific Electronic Library Online (SciELO), Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences (LILACS), PubMed, and Google Scholar were used. Supervised resistance exercises with appropriate progression reduce pain, improve range of motion, and restore muscle strength. Combining them with techniques such as myofascial release and transcranial stimulation enhances the results. Resistance exercise is an effective and safe intervention in the rehabilitation of rotator cuff injuries (RMSI), and should be adapted to each patient’s clinical condition.

Keywords: Tendinopathy; Rotator Cuff Injuries; Physical Therapy Modalities; Exercise Therapy; Quality of Life.

INTRODUÇÃO

A Tendinopatia do Manguito Rotador (TMR) é uma condição musculoesquelética frequente, caracterizada por dor persistente, limitação de movimento e prejuízo funcional, especialmente em atividades diárias, esportivas e laborais. Sua prevalência aumenta com o envelhecimento e comorbidades metabólicas, representando grande parte das queixas de dor no ombro em adultos (Oliveira, 2023; Giri; O’Hanlon; Jain, 2023). 

Entre 70% e 80% das dores no ombro têm origem no manguito rotador, com maior incidência em mulheres entre 40 e 60 anos. Fatores como movimentos repetitivos, tarefas acima da cabeça e esportes de arremesso ampliam o risco e reforçam a necessidade de intervenções eficazes (Hodgetts et al., 2021; Ullern et al., 2025).

A TMR compromete tarefas simples, como pentear o cabelo ou carregar objetos, afetando também o desempenho no trabalho. A fisioterapia é a principal abordagem conservadora, visando restaurar a função, reduzir a dor e evitar procedimentos invasivos (Fahy et al., 2022; Muñoz et al., 2024; Powell et al., 2024). Programas de exercícios individualizados mostram benefícios consistentes, e exercícios de fortalecimento em diferentes cadeias cinéticas compõem a estratégia mais recomendada (Longo et al., 2021).

Exercícios resistidos em diversas modalidades demonstram eficácia na melhora da dor e função, com melhores resultados associados a maior intensidade e resistência externa, o que reforça a necessidade de protocolos progressivos e adaptados ao indivíduo (Ullern et al., 2025). Protocolos com maior carga, volume e progressão adequada tendem a gerar melhores desfechos, desde que individualizados e baseados em evidências (Malliaras, 2020). 

Assim, a fisioterapia desempenha papel essencial no manejo da TMR, especialmente por meio de exercícios estruturados, podendo ser potencializada pela combinação com técnicas complementares, como a terapia manual.

Objetivo

Revisar a eficácia dos exercícios resistidos na reabilitação fisioterapêutica da tendinopatia do manguito rotador, destacando seus efeitos sobre a dor, a força muscular e a funcionalidade do ombro.

Metodologia

Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, desenvolvida a partir de artigos científicos e duas dissertações publicados entre os anos de 2020 e 2025, nas línguas inglesa e portuguesa. Foram utilizadas as bases de dados eletrônicas: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed e Google Scholar. Consultou-se o Descritor em Ciências da Saúde (DeCS): Tendinopatia; Lesões do Manguito Rotador; Técnicas de Fisioterapia; Exercício de Reabilitação; Qualidade de Vida.

Referencial Teórico

As lesões do manguito rotador são altamente prevalentes e constituem uma das principais causas de dor e disfunção do ombro. Entre os fatores de risco, destacam-se envelhecimento, microtraumas repetitivos, sobrecarga ocupacional e esportiva, além de predisposições anatômicas (Eckers et al., 2023). Clinicamente, manifestam-se por dor, limitação de movimento, fraqueza muscular e prejuízos funcionais. O diagnóstico baseia-se na avaliação clínica com testes específicos, complementada por exames de imagem que auxiliam na identificação da extensão e gravidade da lesão (Desmeules et al., 2025).

Segundo a American Academy of Orthopaedic Surgeons – AAOS (2025), o tratamento pode ser conservador ou cirúrgico, variando conforme tipo da lesão, idade, nível de atividade e sintomas do paciente. O manejo conservador envolve analgesia, anti-inflamatórios, infiltrações e fisioterapia, enquanto o reparo cirúrgico é reservado para rupturas extensas, falha do tratamento clínico ou demandas funcionais elevadas. Em ambos os cenários, a reabilitação fisioterapêutica é fundamental, iniciando pela redução da dor e recuperação da mobilidade, seguida por fortalecimento progressivo do manguito rotador e estabilizadores da escápula, além da reintegração funcional (Malliaras et al., 2024).

Anatomia e Biomecânica do Manguito Rotador

O manguito rotador é um complexo músculo-tendíneo composto por quatro músculos cujos tendões envolvem a cabeça do úmero, estabilizando-a contra a cavidade glenoidal da escápula (Akhtar; Richards; Monga, 2021; Cavanaugh et al., 2024). Biomecanicamente, ele contribui para dois princípios essenciais da estabilidade glenoumeral: a compressão concêntrica e o equilíbrio dos pares de força (force couples) nos planos superior-inferior e anterior-posterior. Déficits tissulares prejudicam esse equilíbrio, permitindo migração superior da cabeça umeral e reduzindo a eficiência da alavanca do deltoide. De forma semelhante, lesões póstero-inferiores ou anteriores alteram os pares de força rotacionais, promovendo deslocamentos, mudanças de carga e acelerando a degeneração articular (Yuri et al., 2023; Sheth; Shah, 2023).

A origem e progressão das lesões envolvem fatores biomecânicos, biológicos e morfométricos. Evidências recentes demonstram que cargas cíclicas de baixa intensidade podem induzir fadiga tecidual e microlesões, comprometendo a resistência mecânica do tendão antes mesmo do estabelecimento de rupturas completas (Sripathi; Agrawal, 2024; Garcia et al., 2025).

Epidemiologia e Fatores de Risco

A TMR é uma das principais causas de dor e disfunção do ombro, apresentando alta prevalência tanto em estudos populacionais quanto em serviços especializados. A incidência anual varia entre 0,3% e 5,5%, enquanto a prevalência anual situa-se entre 0,5% e 7,4%. No banco britânico THIN, estimou-se incidência de 87 casos por 100.000 pessoas-ano, chegando a 198 casos por 100.000 na faixa de 55–59 anos. Em ambulatórios especializados brasileiros, as afecções do manguito rotador corresponderam a 64,3% das queixas de ombro, com a tendinopatia isolada responsável por 41,2% dos casos. A prevalência aumenta com a idade, ultrapassando 50% em populações acima dos 50 anos, especialmente em avaliações por imagem (Lucas et al., 2022).

Os fatores de risco são multifatoriais, envolvendo aspectos biomecânicos, ocupacionais e sistêmicos (Leong et al., 2020). Comorbidades metabólicas elevam o risco de degeneração tendínea por alterações vasculares e metabólicas, enquanto tabagismo e envelhecimento configuram importantes fatores predisponentes (Giri; O’Hanlon; Jain, 2023).

Classificação e Etiologia das Lesões

As lesões do manguito rotador podem ser classificadas segundo extensão, localização, etiologia e tempo de evolução (Yubran et al., 2024; Sripathi; Agrawal, 2024). Quanto à extensão, dividem-se em parciais, que podem acometer a superfície articular, a superfície bursal ou apresentar caráter intersticial sem comunicação com as superfícies, e completas, que envolvem toda a espessura tendínea e variam em amplitude, sendo categorizadas como pequenas, médias, grandes ou maciças conforme mensuração em exames de imagem (Sripathi; Agrawal, 2024).

A localização anatômica determina o déficit funcional: rupturas do supraespinal comprometem a elevação do braço; do infraespinal e redondo menor afetam a rotação externa; e do subescapular resultam em limitação da rotação interna e possível instabilidade anterior da articulação glenoumeral (Yubran, 2024). Quanto à etiologia, lesões traumáticas são mais comuns em indivíduos jovens após eventos de alta energia, enquanto rupturas degenerativas predominam após os 50 anos, relacionadas a sobrecarga crônica, microtraumas repetitivos e hipovascularização (Sripathi; Agrawal, 2024).

Lesões crônicas frequentemente apresentam retração tendínea, degeneração gordurosa muscular e pior resposta ao reparo cirúrgico. Assim, características como padrão da ruptura, grau de retratilidade e presença de degeneração muscular são determinantes para a indicação terapêutica e para o sucesso da reabilitação (Yubran, 2024; Sripathi; Agrawal, 2024).

Manifestações Clínicas

Indivíduos com TMR geralmente relatam dor de início espontâneo, intensa, unilateral e frequentemente pior à noite, o que pode prejudicar o sono e a qualidade de vida. A condição acomete principalmente pessoas entre 30 e 60 anos, com maior prevalência em mulheres (Guido et al., 2025). Os sintomas costumam evoluir gradualmente, variando em intensidade, e a dor é descrita como peso, ardência ou queimação na região lateral ou anterior do ombro, podendo irradiar para o braço. Inicialmente associada a atividades específicas, pode tornar-se persistente em estágios avançados, interferindo em tarefas simples do cotidiano (Desmeules et al., 2025).

Fraqueza muscular e perda de amplitude de movimento são frequentes e tendem a se acentuar com atividades repetitivas esportivas ou ocupacionais. A fraqueza pode decorrer tanto da dor reflexa quanto de alterações estruturais, afetando a função global do ombro. Essas limitações podem gerar compensações no pescoço e coluna torácica, favorecendo dores secundárias e desconfortos posturais (Guido et al., 2025). Outras manifestações incluem dor ântero-lateral irradiada ao cotovelo, estalidos, crepitação e sensação de instabilidade durante os movimentos (NSCA, 2020).

Assim, a TMR configura uma condição multifatorial caracterizada por dor, fraqueza e limitação funcional, com impacto significativo na qualidade de vida e na capacidade laboral. Reconhecer seus sinais clínicos, a progressão dos sintomas e as repercussões funcionais é essencial para o diagnóstico precoce e o estabelecimento de estratégias terapêuticas adequadas (Queiroz et al., 2023).

Diagnóstico

O diagnóstico da TMR combina avaliação clínica detalhada e exames de imagem. A anamnese investiga histórico médico, atividades e fatores de risco, ajudando a identificar a evolução da dor e diferenciar a TMR de outras condições. O exame físico avalia força, amplitude de movimento e dor localizada, além de identificar compensações e alterações estruturais por meio de testes de resistência, palpação e análise da biomecânica funcional. Exames como ultrassonografia e principalmente ressonância magnética confirmam o diagnóstico e descartam outras causas, como bursite ou instabilidade glenoumeral (Desmeules et al., 2025). 

Testes específicos, como o External Rotation Lag Sign a 90° e o Yergason’s Test, aumentam a precisão na identificação de lesões dos tendões do manguito (Zhao et al., 2024).

Tratamento Conservador e Cirúrgico

O tratamento divide-se em duas abordagens principais: conservadora e cirúrgica. O tratamento conservador costuma ser a primeira escolha, oferecendo, na maioria dos casos, recuperação funcional satisfatória e evitando a necessidade de cirurgia imediata (Toigo, 2020; Andrade et al., 2024). Já o tratamento cirúrgico é indicado sobretudo para lesões completas, extensas ou quando não há melhora adequada com o manejo conservador. Entre as técnicas mais utilizadas estão a reparação artroscópica do manguito, a liberação capsular artroscópica e procedimentos reconstrutivos, como a reconstrução da cápsula superior (Teixeira et al., 2022; De Almeida; Neri; Neto, 2025).

A decisão entre intervenção conservadora ou cirúrgica deve considerar a gravidade e extensão da lesão, intensidade dos sintomas, idade, nível de atividade e expectativas do paciente. Estudos demonstram que, em determinados casos, os desfechos clínicos podem ser semelhantes entre ambas as abordagens, reforçando a necessidade de avaliação individualizada e plano terapêutico personalizado (Teixeira et al., 2022; Andrade et al., 2024).

Reabilitação Fisioterapêutica

A reabilitação fisioterapêutica da TMR é organizada em fases progressivas. Na fase aguda, busca-se reduzir dor e inflamação por meio de crioterapia, eletroterapia e repouso relativo (Cerqueira et al., 2022). Após esse período, inicia-se a fase de mobilização e preservação da ADM, que visa prevenir rigidez articular e manter a mobilidade sem sobrecarregar o tendão lesionado. Alongamentos específicos para músculos do manguito e da escápula auxiliam na restauração da flexibilidade, no equilíbrio de forças e na prevenção de compensações posturais (Sciarretta; Moya; List, 2023).

A fase de fortalecimento é progressiva e ajustada à tolerância da dor, utilizando exercícios isotônicos e isométricos para recuperar força e estabilidade, além de exercícios proprioceptivos e funcionais que preparam o paciente para atividades cotidianas, laborais e esportivas (Burns et al., 2021). Como recurso complementar, o uso de correntes excitomotoras, especialmente a Estimulação Elétrica Neuromuscular (NMES), tem se destacado. A combinação entre NMES e exercícios resistidos demonstra potencial para acelerar a recuperação funcional, melhorar a força e ampliar a amplitude de movimento (Silva, 2024).

Resultados

Tabela 1- Distribuição dos estudos encontrados nas bases de dados

Autor / anoMetodologiaResultados
Barros (2024)Estudo: Ensaio clínico randomizado
Amostra: 47 pacientes
GMI: 25;
GTI: 22
Sexo: ♀ = 28; ♂ = 19
Idade: 18 a 60 anos
Intervenção: alongamento e fortalecimento dos músculos periescapulares
Protocolo: 6 semanas (2x/semana, com intervalo mínimo de 48h)
Após 6 semanas: GMI apresentou maior satisfação (p<0,05) com melhora da dor (p<0,05) e função (p<0,05), maior força muscular dos RL (p<0,05) e maior ativação muscular do infraespinal no teste de força de elevação do ombro (p<0,05). 
Cavaggion et al. (2024)Estudo: Ensaio clínico randomizado
Amostra: 43 pacientes
G1: 20;
G2: 23
Sexo: ♀ ♂
Idade: 18 a 65 anos
Intervenção: exercício realizado “até sentir dor” (“exercising into pain”) vs exercícios com pouca ou nenhuma dor
Protocolo: intervenção de 12 semanas com acompanhamento de 6 meses.
Exercícios “até sentir dor” demonstraram ser mais eficazes para redução da dor e incapacidade ao longo de 6 meses (T1 (p=0,33); T2 (p=0,82); e T3 (p=0,33)) comparados com exercícios com pouco ou nenhum desconforto.
Macías-Hernández et al. (2020)Estudo: Ensaio clínico randomizado piloto 
Amostra: 26 pacientes
GEE: 12;
GCC: 14
Sexo: ♀ ♂
Idade: média de 54 anos
Intervenção: fortalecimento excêntrico e concêntrico da cintura escapular
Protocolo: 12 meses
Ambos os programas foram bem tolerados, com melhora da dor, funcionalidade e estrutura do tendão. GEE mostrou melhores resultados nos primeiros meses em funcionalidade (p<0,05) e força (p<0,05) e sinais iniciais de cicatrização do tendão.
Munõz et al. (2024)Estudo: Ensaio clínico randomizado, simples-cego
Amostra: 72 pacientes
GET: 36;
GMPT: 36
Sexo: ♀ ♂
Idade: média de 49 anos
Intervenção: exercícios terapêuticos e liberação miofascial
Protocolo: 2x/semana durante 5 semanas
Ambas as intervenções mostraram melhorias na intensidade da dor e na ADM, sem diferenças significativas entre os grupos na maioria das medidas, exceto no LDP (p>0,0001), onde o ET demonstrou uma maior diminuição na dor induzida por pressão.
Naunton et al. (2025)Estudo: Ensaio randomizado de viabilidade (pilot RCT)
Amostra: 31 pacientes
GAVC: 15;
GBVC: 16 
Sexo: ♀ = 18; ♂ = 13
Idade: média de 49 anos
Intervenção: exercício de alto volume com carga vs baixo volume sem carga extra
Protocolo: 12 semanas
Desfechos primários de viabilidade: taxa de retenção – 84% em 6 semanas e 81% em 12 semanas; desistência – 5 participantes; adesão aos conjuntos de exercícios prescritos – 77%.Desfechos clínicos secundários: dor e função – ambos os grupos apresentaram melhora ao longo do tempo; força (1RM) – GAVC apresentou maior ganho de força em todos os testes.
Silva (2024)Estudo: Ensaio clínico randomizado triplo cego. Amostra: 40 pacientes
ETCC ativa combinada com exercícios físicos: 20;
ETCC simulada combinada com exercícios físicos: 20
Sexo: ♀ ♂ 
Idade: 18 a 65 anos
Intervenção: ETCC associada a exercícios físicos
Protocolo: 2x/semana durante 4 semanas, em dias não consecutivos.
A ETCC ativa associada a um protocolo de exercícios foi significativamente mais eficaz que a ETCC simulada associada aos exercícios físicos.Dor e Incapacidade: diferença significativa e melhora clinicamente importante p=0,001 para dor e p=0,001 para incapacidade na avaliação final. 

Legenda: GMI – grupo isométrico; GTI – grupo isotônico; RL – rotadores laterais; G1 – exercício com dor; G2 – exercício sem dor; T1 – após 9 semanas; T2 – após 12 semanas; T3 – após 6 meses; GEE – grupo experimental excêntrico; GCC – grupo controle concêntrico; GET – grupo exercícios terapêuticos; GMPT: grupo terapia de ponto-gatilho miofascial; ADM – amplitude de movimento; LDP – limiar de dor à pressão; ET – exercício terapêutico; GAVC – grupo alto volume de carga; GBVC – grupo baixo volume de carga; RM – repetição máxima; ETCC: estimulação transcraniana por corrente contínua. 

Fonte: autoria própria

Discussão

O estudo de Barros (2024) demonstrou que o fortalecimento da musculatura periescapular aliado ao treino neuromuscular promoveu melhora significativa na dor e na funcionalidade de pacientes com síndrome do impacto do ombro. De forma semelhante, Cavaggion e seus colaboradores (2024) observaram que o exercício executado até o limiar tolerável de dor também gera adaptações positivas, como redução da hipersensibilidade e melhora da força muscular. Enquanto Barros enfatiza o controle motor e o fortalecimento como base da recuperação, Cavaggion e colaboradores (2024) destacam a importância da exposição gradual à dor como componente de dessensibilização central. 

Comparando os achados de Macías-Hernández e colaboradores (2020) e Naunton e colaboradores (2025), observa-se consenso quanto à eficácia do fortalecimento resistido e progressivo na reabilitação do ombro. Macías-Hernández e seus colaboradores (2020) verificaram que o fortalecimento excêntrico apresentou melhores resultados que o concêntrico em lesões parciais do manguito rotador. Já Naunton e colaboradores (2025) evidenciaram que programas de exercícios resistidos e com progressão de carga são superiores aos não resistidos, especialmente na melhora da força e da função. Assim, ambos destacam o princípio da sobrecarga progressiva como elemento central no tratamento.

Em contrapartida, Muñoz e seus colaboradores (2024) compararam o exercício terapêutico à terapia de pontos-gatilho miofasciais no tratamento das tendinopatias do ombro, identificando superioridade do exercício em termos de funcionalidade e controle da dor. A abordagem ativa mostrou-se mais eficiente por promover estímulo mecânico e reorganização tecidual, enquanto a terapia miofascial apresentou efeito mais imediato e limitado à redução da tensão muscular. Esses achados corroboram com os resultados de Barros (2024), que também defende o protagonismo do exercício ativo e controlado na restauração da mecânica escapular e do controle motor. 

Por outro lado, a pesquisa de Silva (2024) propôs uma estratégia inovadora ao combinar a ETCC com exercícios terapêuticos em pacientes com tendinopatia crônica de manguito rotador. O autor observou que a técnica potencializou os efeitos dos exercícios na redução da dor e da incapacidade. Em comparação, Cavaggion e colaboradores (2024) também abordaram a dor sob uma perspectiva neurofisiológica, mas a partir da prática de exercícios dentro do limite doloroso. Ambos concordam que a modulação neural é um fator determinante para o sucesso da reabilitação.

De modo geral, as evidências apresentadas por Naunton e colaboradores (2025) e Muñoz e colaboradores (2024) corroboram ao demonstrar que o exercício terapêutico é o método mais eficiente para restaurar a função do ombro e reduzir a dor em pacientes com disfunções do manguito rotador. Enquanto Naunton e colaboradores (2025) reforçam a importância da carga controlada para o ganho de força e função, Muñoz e colaboradores (2024) ressaltam que o movimento ativo supera as terapias manuais em resultados duradouros. Assim, ambos sustentam que a base da reabilitação deve ser o fortalecimento gradual, com ênfase na função e na adaptação dos tecidos.

Em síntese, os estudos analisados reforçam que o tratamento fisioterapêutico da síndrome do impacto do ombro deve priorizar o exercício terapêutico supervisionado, com ênfase no fortalecimento periescapular, controle motor e treino excêntrico progressivo. Estratégias complementares, como a ETCC e o manejo ativo da dor, podem potencializar os efeitos do exercício, resultando em melhora funcional mais rápida e duradoura. Dessa forma, o conjunto das evidências aponta para uma abordagem integrada, ativa e progressiva como o padrão-ouro na reabilitação do ombro doloroso.

Considerações finais

Conclui-se que os exercícios resistidos são altamente eficazes no tratamento da TMR, reduzindo dor, restaurando força e melhorando a função. Protocolos individualizados, progressivos e supervisionados apresentam melhores resultados do que abordagens passivas, especialmente quando associados a técnicas complementares, como liberação miofascial e ETCC. Assim, o exercício resistido se consolida como tratamento de primeira escolha, favorecendo recuperação mais rápida e evitando cirurgias desnecessárias.

Entre as limitações do estudo estão o tempo reduzido para realização da pesquisa, a restrição de periódicos consultados e o acesso limitado a textos completos, o que pode ter diminuído a abrangência dos achados. Pesquisas futuras devem ampliar o período de coleta e diversificar as bases de dados para fortalecer a evidência disponível.

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