SUPLEMENTAÇÃO DA PASTAGEM NA PRODUÇÃO E NA COMPOSIÇÃO DO LEITE DE VACAS MESTIÇAS HOLANDÊS X ZEBU EM LACTAÇÃO

GRAZING SUPPLEMENTATION ON YIELD AND MILK COMPOSITION OF CROSSBRED HOLSTEIN X ZEBU LACTATING DAIRY COW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511201044


Breno Mourão de Sousa¹
Helton Mattana Saturnino²
Antônio Gabriel Neves de Moura Richard³
Ana Luiza Costa Cruz Borges²
Maria Clara de Morais Pessoa³


Resumo

O objetivo deste trabalho foi estudar o efeito da suplementação da pastagem de Urochloa (Brachiaria) sp. com diferentes níveis de concentrado na produção e composição do leite de vacas manejadas no sistema de líder e seguidoras (desponta e repasse). Foram utilizadas 48 vacas mestiças Holandês x Zebu em lactação, divididas em dois experimentos. No primeiro, 24 vacas na metade inicial de lactação foram distribuídas em três tratamentos, segundo o nível de suplementação: 4,0; 6,0 e 8,0 kg/dia de concentrado na matéria natural. No segundo experimento, outras 24 vacas na metade final de lactação foram distribuídas em outros três tratamentos: suplementação com 1,0; 2,0 e 4,0 kg/dia de concentrado na matéria natural. Para as 48 vacas, amostras de leite foram coletadas nas ordenhas da manhã e tarde, por dois dias consecutivos, para registro das produções diárias e para avaliação da composição do leite para sólidos. O delineamento utilizado nos dois experimentos foi o de blocos ao acaso. Nos dois experimentos, e para as variáveis testadas (produção e composição do leite), não houve diferença (P<0,05) entre os tratamentos. Houve tendência da produção de leite corrigida (P=0,08) e do teor de lactose do leite (P=0,10) ser maior para o tratamento com 8,0 kg/dia de concentrado do experimento de desponta.

Palavras-chave: bovino, Brachiaria, leite, pasto, nutrição

Abstract

The aim of this study was to evaluate the effect of grazing supplementation [Urochloa (Brachiaria) sp.] with different levels of concentrate on production and milk composition in dairy cows managed in the system of leaders and followers. We evaluated 48 crossbred Holstein x Zebu dairy cows were divided into two experiments. At first, 24 cows in the first half of lactation were divided into three groups according to level of supplementation: 4.0, 6.0 and 8.0 kg/day of concentrate as fed. In the second experiment, another 24 cows in the second half of lactation were divided into three other treatments: supplementation with 1.0, 2.0 and 4.0 kg/day of concentrate as fed. For 48 cows, milk samples were collected in the morning and afternoon milking for two consecutive days to record the daily production and to assess the composition of milk solids. The design in both experiments was a randomized blocks design (eight blocks of three animals each). In all the two experiments, and all tested variables (production and milk composition), no differences (P<0.05) among treatments were observed. There were a trend of corrected milk (P=0.08) and the lactose content of milk (P=0.10) higher for treatment with 8.0 kg/day of concentrate from the first experiment.

Keywords: Brachiaria, dairy cattle, grazing, milk yield, nutrition 

Introdução

O uso de sistemas de pastejo rotacionado tem aumentado em fazendas destinadas à produção leiteira intensiva, no intuito de melhorar a qualidade da forragem ofertada aos animais e aumentar a lotação, reduzindo os custos de produção. Mesmo assim, muitas dúvidas acerca do manejo adequado e de suas consequências precisam ser esclarecidas.

Os bovinos possuem a habilidade de selecionar a dieta a partir da forragem disponível, sendo que a prioridade é para as folhas mais novas, as quais possuem maior valor nutritivo, seguida das folhas dos extratos inferiores e do colmo. O pastejo seletivo permite ao ruminante compensar o baixo valor nutritivo da forragem disponível, por possibilitar o pastejo das partes mais nutritivas da planta. Para que o pasto apresente alta disponibilidade de folhas verdes, é necessário manejá-la adequadamente, de modo a permitir que o animal colha boa parte da forragem produzida, mantendo-se um resíduo de forragem suficiente para garantir uma rebrota vigorosa e de boa qualidade (Gomide et al., 2001).

No Brasil, elevar a produtividade leiteira de forma sustentável e competitiva consiste no maior desafio para a pesquisa, uma vez que há grande demanda por informações sobre o uso de forrageiras tropicais manejadas intensivamente para produção de leite visando a redução dos custos de produção, e que a especialização da pecuária leiteira envolve o uso mais intensivo e racional de forrageiras tropicais. Nesse aspecto, vale ressaltar que a formação e o manejo de pastagens produtivas e adaptadas ao ambiente tropical com forragem suficiente para suprir as exigências nutricionais dos animais devem fazer parte da busca por eficiência, pois o desempenho de rebanhos leiteiros está intimamente associado, entre outros, ao seu manejo nutricional (Vilela et al., 2006).

Uma série de fatores condiciona a produção de leite em pastagens manejadas intensivamente: aptidão leiteira da vaca, a qualidade do pasto, a disponibilidade de pasto (pressão de pastejo), o rendimento forrageiro da pastagem (capacidade suporte), o sistema de pastejo e a suplementação da pastagem (Gomide, 1993). Neste ínterim, a estimativa de consumo de nutrientes por vacas a pasto é difícil devida às interações animal vs planta e fatores ambientais. Por isso, a suplementação de vacas de alta produção em pastagens manejadas intensivamente é complexa. O desafio para a utilização eficiente da pastagem é o ajuste entre o programa de suplementação da pastagem e a disponibilidade da gramínea pastejada (Hoffman et al., 1993; Santos et al., 2007).

A estratégia de utilização de um lote de animais de desponta e outro lote de repasse é um instrumento valioso no manejo da pastagem, e no manejo dos animais devido a possibilidade de disponibilizar alimento de melhor qualidade para categoria de maior exigência, otimizando assim, o sistema de produção (Gomide, 1993). Entretanto, existem poucos dados na literatura nacional sobre o desempenho produtivo de vacas em lactação em pastos submetidos a essa estratégia de manejo.

Buscando fornecer substrato para uma lacuna da pesquisa, o presente trabalho objetivou avaliar o efeito da suplementação da pastagem de Urochloa (Brachiaria) sp. com diferentes níveis de concentrado sobre a produção de leite de vacas em lactação, em manejo de pastejo do tipo líder e seguidora.

Material e Métodos

O experimento foi realizado em propriedade particular de bovinos leiteiros no município de Leandro Ferreira, Minas Gerais, a cerca de 100 km a oeste de Belo Horizonte, latitude 19º 43’ S, longitude 45º 01’ O e altitude de 707 m. O experimento abrangeu um período experimental de 21 dias.

Quarenta e oito vacas (n=48) foram utilizadas e divididas em dois experimentos ou lotes experimentais: Lote 1 (Experimento de desponta) com 24 vacas mestiças Holandês x Zebu com produção média de 16 kg/dia de leite, 155 dias em lactação, pesando 513 kg e com escore da condição corporal de 2,0 (de 1 a 5); Lote 2 (Experimento de repasse) com 24 vacas mestiças Holandês x Zebu com produção média de 8 kg/dia de leite, 311 dias em lactação, pesando 523 kg e escore da condição corporal de 2,25.

As 24 vacas do experimento de desponta foram distribuídas em três tratamentos em delineamento de blocos ao acaso (oito blocos, 3 vacas para cada bloco), segundo a produção de leite, os dias em lactação e o peso corporal. O período experimental foi de 21 dias, sendo 14 dias de adaptação e sete dias de amostragem. Foram avaliadas três quantidades de suplemento concentrado, com base na matéria natural (MN): 4,0; 6,0 e 8,0 kg/dia concentrado. As 24 vacas remanescentes foram alocadas para o experimento de repasse, seguindo o mesmo modelo experimental das vacas do experimento de desponta. A diferença foi o tratamento, pois o nível de suplementação foi de 1,0; 2,0 e 4,0 kg/dia de concentrado, também na matéria natural.

Durante cada uma das ordenhas, os animais foram individualmente suplementados com 50g de mistura mineral-vitamínica marca PRODAP®¹. O alimento concentrado foi formulado com 75,5% de fubá de milho, 22,5% de farelo de soja tostada, 1% de ureia agrícola e 1% de calcário calcítico, com base na matéria natural.

Para o pastejo, foram utilizados 16 piquetes formados por gramíneas do gênero Urochloa (Brachiaria): U. (Brachiaria) brizantha cv. Marandu (oito piquetes), U. (Brachiaria) decumbens cv. Brasilisk (quatro piquetes) e U. (Brachiaria) ruziziensis (quatro piquetes), totalizando uma área de 27,67 hectares. Nessa área, os animais experimentais (24 vacas no lote de desponta e outras 24 vacas no lote de repasse – esquema líder e seguidora) pastejavam juntamente com os animais remanescentes do rebanho e que não foram utilizados neste experimento (outras 48 vacas em lactação, também divididas em dois lotes), apenas para ajuste da taxa de lotação nos piquetes, que foi de 3,5 vacas/ha. Os dias em ocupação foram para os piquetes de U. brizantha de um dia, para U. ruziziensis de três dias e para Urochloa decumbens de dois dias. O número de dias de ocupação foi diferente em virtude da variação na área dos piquetes (U. brizantha: 1,4 ha; U. decumbens: 1,8 ha; U. ruziziensis: 2,4 ha). Ao final do período de pastejo das 96 vacas em lactação da propriedade, um terceiro grupo de animais (vacas secas e novilhas gestantes) fazia o repasse final, perfazendo um número total de 120 animais e uma taxa de lotação total de 4,33 vacas/ha.

As vacas foram ordenhadas duas vezes ao dia, às 06h30min e às 15h00min, ocasião onde o alimento concentrado era ofertado, em duas quantidades iguais, pela manhã e pela tarde. Para avaliação da produção e composição do leite foram coletadas amostras individuais por dois dias consecutivos, na ordenha da manhã e da tarde, sendo a produção individual diária de leite registrada por ordenha. O leite foi conservado em recipientes de polietileno (50 mL) com pastilhas de Bronopol (2-bromo-2-nitro-1,3-propanodiol) (Embrapa, 2011). As amostras foram enviadas para o Laboratório de Análises do Leite da EV-UFMG, onde foram analisadas para: proteína, gordura, lactose, estrato seco total (EST) e desengordurado (ESD).

Tanto para o experimento de desponta quanto para o de repasse, foi utilizado delineado do tipo blocos ao acaso, sendo oito blocos, cada um com três parcelas referentes a três vacas experimentais, sendo que cada parcela/vaca representa um dos três tratamentos. No entanto, três vacas tiveram de ser retiras das análises estatísticas, uma vez que elas saíram do padrão de desempenho produtivo de seus respectivos grupos experimentais. Por segurança estatística, todos os dados produzidos por estes três animais foram integralmente descartados. Ao todo, foi um animal no experimento de desponta, suplementado com 6,0 kg/dia e outros dois no experimento de repasse, suplementados com 4,0 kg/dia. Apesar deste descarte, os resultados experimentais foram analisados como dados não balanceados, sendo mantida a equação de ajuste para as médias das variáveis medidas: Yij = m + Ti + Bj + eij, onde: Yij = Variáveis dependentes (produção de leite, composição do leite); m = média geral; Ti = efeito do tratamento i (i = 4,0; 6,0; 8,0 e 1,0; 2,0; 4,0 kg/vaca/dia de concentrado na matéria natural, respectivamente para os experimentos de desponta e repasse); Bj = efeito do bloco j (j = 1, 2,…8); eij =  erro experimental associado à média; eij Ç NID (0, s2).

As médias das variáveis testadas (respostas medidas para produção e composição do leite) foram analisadas pelo programa Sisvar (DEX / UFLA), Versão 4.6 (2003). O teste de média foi aplicado para um nível de significância de 5%, utilizando-se o teste Tukey. Tendências foram observadas para valores de P<0,10.

Resultados e Discussão

Os valores médios para produção total de leite, produção corrigida para 4% de gordura e composição do leite das vacas em lactação do experimento de desponta e suplementadas com quantidades crescentes de alimento concentrado estão na Tabela 1.

Tabela 1: Produção total de leite (kg/dia), produção de leite corrigido para 4% de gordura (kg/dia) e composição do leite (%) de vacas em lactação do grupo de desponta, suplementadas com quantidades crescentes de alimento concentrado, na matéria natural

1 – PL: produção de leite; LCG: produção de leite corrigido para gordura (NRC, 2001); EST: extrato seco total; ESD: extrato seco desengordurado. 2 – EP: erro padrão; 3 – P: probabilidade pelo teste de Tukey. 4 – CV: coeficiente de variação.

Não foi observada diferença na produção e na composição química do leite entre tratamentos para o teor de gordura, proteína, lactose, extrato seco total e extrato seco desengordurado. A produção média de leite das vacas experimentais em manejo de desponta foi de 15,5 kg/dia, e os teores médios de gordura, proteína, lactose estrato seco total e estrato seco desengordurado de 3,9; 3,3; 4,5; 12,6 e 8,7%, respectivamente.

Apesar de existir diferença na quantidade de concentrado fornecida aos animais, houve semelhança estatística entre as produções médias de leite (kg/vaca/dia) e na produção de leite corrigido para gordura (kg/vaca/dia). Neste caso, é provável que o fornecimento de 4,0 kg de concentrado associado à melhor qualidade do pasto, verificada no manejo de desponta, pode ter sido suficiente para garantir a produção de leite das vacas.

Apesar de ausência de significância (P>0,05), houve tendência da produção de leite corrigida para 4% de gordura ser maior para o tratamento com 8,0 kg/dia de concentrado (16,5 kg/dia de leite; P=0,08) em relação aos tratamentos com 4,0 kg/dia (14,4kg/dia) e 6,0 kg/dia (14,8 kg/dia), bem como o teor de lactose: (4,6 x 4,4%; P=0,10). Para a produção de leite, o maior consumo de energia e de proteína pode ter ocasionado aumento nas taxas de secreção de leite (Van Soest, 1994; Hurley, 2000; Silva et al., 2009), haja vista maior concentração de lactose naquelas vacas suplementadas com 8,0 kg/dia de concentrado, responsável pela osmolaridade do leite (Hurley, 2000). Discreta tendência foi observada para a produção total de leite (P=0,11), mas não chega a ter relevância nas análises.

O efeito da suplementação com diferentes níveis de concentrado sobre a produção de leite em pastagens tropicais foi avaliado por Alvim et al. (1999), Deresz (2001), Vilela et al. (2007), Teixeira et al. (2018) e Teixeira et al. (2019). A resposta da suplementação com concentrado em pastagens tropicais variou de 0,6 a 1,2 kg de leite para cada 1,0 kg de concentrado fornecido, na matéria natural. Deresz (2001), trabalhando com vacas mestiças Holandês x Zebu, e Alvim et al. (1999) e Vilela et al. (1996), com vacas da raça Holandesa obtiveram resposta média em torno de 1,0 kg/kg. Nesse experimento, mesmo não havendo diferença para a produção de leite entre os tratamentos, o nível de resposta foi de 0,3 e 0,7 kg/kg para os tratamentos 6,0 e 8,0 kg/dia de concentrado, respectivamente. São valores ligeiramente inferiores aos obtidos pelos autores anteriores, mas que estão dentro da faixa sugerida por Reis e Sousa (2008): 0,2 a 1,8 kg/kg.

Vilela et al. (2006) estudaram o desempenho produtivo de vacas da raça holandesa recebendo diferentes níveis de suplementação de concentrado em pastagem de “Coast Cross. O fornecimento de 6 kg de concentrado possibilitou produção média de 19,1 kg/vaca/dia de leite, enquanto o de 3 kg promoveu produção de 15,5kg de leite/vaca/dia, mantendo-se lotação de 5,0 vacas/ha, sendo esses valores superiores aos encontrados nesse experimento. São valores muito próximos ao encontrado nesse experimento para vacas onde a pastagem foi suplementada com 8,0 kg/dia de concentrado.

Silva et al. (2009) conduziram experimento com o objetivo de verificar o efeito da suplementação da pastagem de capim elefante (Pennisetum purpureum) no desempenho produtivo de vacas mestiças Holandês x Zebu em lactação. O nível de suplementação foi de 0; 1; 3 e 5 kg/vaca/dia de concentrado na matéria natural, obtendo os seguintes resultados de produção de leite: 11,9; 11,7; 13,8 e 13,0 kg/dia de leite, respectivamente. Os autores observaram aumento (P=0,04) na produção com a suplementação da pastagem, e um nível máximo de resposta de 0,6 kg/kg com a suplementação de 3,0 kg/vaca/dia, valores próximos ao desse trabalho. Teixeira et al. (2018) testou diferentes composições e quantidades de suplemento concentrado para vacas Girolando em pastejo de Tifton 85 (Cynodon dactylon L. Pers) no período das águas. Segundo os autores, observaram-se efeitos marginais na produção de leite na ordem de 1,03; 0,84 e 0,44 kg/dia para suplementos proteicos, proteico-energético e energético, sendo este último oferecido na quantidade de 4,0 kg/dia na matéria natural e registrando uma produção de leite de 14,7 kg/dia, resultado muito semelhante ao obtido neste experimento para vacas com igual nível de suplementação.

As concentrações de sólidos (gordura, proteína, lactose) do leite encontrados neste trabalho parecem próximos aos valores normalmente encontrados na literatura para vacas mestiças Holandês x Zebu manejadas em pastagens intensivas durante os primeiros 200 dias de lactação. Segundo Reis e Sousa (2008) e Silva et al. (2009), para produção de leite média de 15 a 16 kg/dia, a concentração de gordura, de proteína e de lactose variou entre 3,4 a 4,2%; de 2,4 a 3,2% e de 4,0 a 4,2%, respectivamente. O presente trabalho foi semelhante à literatura consultada, sendo discretamente superior em 6% ao teor de proteína (3,4% para 8,0 kg/dia de concentrado) e em 9% ao teor de lactose (4,6% para 8,0 kg/dia de concentrado).

Para extrato seco total, Silva et al. (2009) observaram valores extremamente baixos, em torno de 10,5%. No presente trabalho, a concentração de estrato seco total foi de 12,6% em média, 20% maior que dos autores mencionados. A diferença nesses resultados pode ser explicada pelas baixas concentrações obtidas para gordura no experimento de Silva et al. (2009): média de 2,3%, contra os 3,9% desse trabalho.

A Tabela 2 exibe os valores de produção total de leite, produção de leite corrigido para 4% de gordura e composição do leite de vacas mestiças em lactação do grupo de repasse, e suplementadas com quantidades crescentes de alimento concentrado.

Tabela 2: Produção total de leite (kg/dia), produção de leite corrigido para 4% de gordura (kg/dia) e composição do leite (%) de vacas em lactação do grupo de repasse, suplementadas com quantidades crescentes de alimento concentrado, na matéria natural

1 – PL: produção de leite; LCG: produção de leite corrigido para gordura (NRC, 2001); EST: extrato seco total; ESD: extrato seco desengordurado. 2 – EP: erro padrão; 3 – P: probabilidade pelo teste de Tukey. 4 – CV: coeficiente de variação.

Semelhante ao observado para o experimento de desponta, não houve diferença na produção, nem na composição química do leite entre tratamentos para o teor de gordura, proteína, lactose, extrato seco total e extrato seco desengordurado. A produção média de leite das vacas no repasse foi de 7,2 kg/dia, e os teores médios de gordura, proteína, lactose estrato seco total e estrato seco desengordurado de 4,1; 3,6; 4,1; 12,7 e 8,6%, respectivamente. Diferente do observado no experimento de desponta, não houve tendências no experimento de repasse, sendo todas as variáveis medidas diferentes (P>0,10).

A produção de leite total e corrigida para 4% de gordura foram bem menores que a literatura consultada, que variou entre 11,4 a 22,5 kg/dia em pastagens manejadas intensivamente, segundo Reis e Sousa (2008). Essa grande diferença pode ser explicada pelo estádio de lactação que as vacas desse experimento se encontravam, pois os dias em lactação das mesmas foram maiores que 240 dias, momento em que a produção é naturalmente menor. Consequentemente, as concentrações dos constituintes sólidos do leite ficaram maiores, pelo efeito de diluição: na literatura, a concentração de gordura variou entre 3,2 a 4,2%, enquanto a de proteína entre 2,4 a 3,2%. 

No experimento de Signoretti et al. (2013), os resultados observados diferem parcialmente dos observados no presente estudo. Enquanto no trabalho conduzido com vacas mestiças Gir x Holandês mantidas em pastagem de Panicum maximum cv. Tanzânia, a suplementação com 5,0 kg de concentrado/dia promoveu aumento significativo na produção e nos teores de gordura, proteína e sólidos totais do leite, em relação à suplementação de 2,5 kg/dia, no experimento aqui descrito, a elevação do concentrado na faixa de 1 a 4 kg/dia não resultou em incremento significativo na produção de leite. Novamente, essa diferença pode ser explicada, parcialmente, pelas condições fisiológicas das vacas utilizadas no presente trabalho, os animais apresentavam maior número de dias em lactação (DEL) no grupo do repasse, o que naturalmente reduz o potencial produtivo em comparação às vacas em fases mais iniciais, como as avaliadas pelos autores supracitados. Além disso, o uso de pastagem irrigada e altamente adubada no estudo comparativo possivelmente contribuiu para melhor disponibilidade e qualidade de forragem, favorecendo respostas mais expressivas à suplementação.

No experimento de Teixeira et al. (2018) e Teixeira et al. (2019), vacas leiteiras da raça Girolando (n=12) foram suplementadas com 2,5 kg/dia de concentrado, mas com diferentes teores de proteína bruta (PB). A produção de leite média variou entre 10,5 até 13,2 kg/dia, mostrando resultados superiores ao do repasse, provavelmente pelos dias em lactação do experimento dos pesquisadores, que trabalharam com vacas de DEL menores que os desse experimento.

Nesse experimento, o nível de resposta (proporção de aumento na produção de leite para cada quilograma de suplemento fornecido adicionalmente, em kg/kg) das vacas experimentais em repasse à suplementação da pastagem foi de 1,4 e 0,7 kg/kg para os tratamentos com 2,0 e 4,0 kg/dia de concentrado, respectivamente. Novamente, os resultados estão de acordo com os encontrados pela literatura consultada (Reis e Sousa, 2008), entre 0,2 a 1,8 kg/kg. No entanto, comparando-se o nível de reposta à suplementação da pastagem sobre a produção de leite entre os experimentos de desponta e repasse, observa-se certa superioridade para esse último: média de 1,1 vs 0,5 kg/kg.

Tais resultados são no mínimo contraditórios, pois, segundo Assis (1982), quanto maior for o potencial leiteiro da vaca, maior será o nível de resposta. No entanto, as vacas em repasse desse experimento estavam em condição corporal discretamente melhor que as vacas do experimento de desponta (média de 2,3 vs 2,0 pontos, de 1 a 5), mostrando que aquelas poderiam estar com déficits nutricionais, o que pode explicar porque elas foram melhores que as de desponta, no quesito nível de resposta.

Na avaliação realizada durante duas lactações sucessivas de vacas da raça Holandês mantidas em pastagem de “Coast Cross”, Vilela et al. (2004) concluíram que o fornecimento de concentrado proporcionou aumento médio de 1,0 kg de leite por quilo extra de concentrado fornecido, semelhante aos dados médios encontrados no experimento do repasse. De acordo com os autores, pelos custos relativos, essa substituição seria economicamente viável somente se o preço do leite fosse igual ou superior ao do concentrado, considerando-se que a eficiência reprodutiva dos animais não foi afetada.

Pode ser observado nas Tabelas 1 e 2 que os valores relativos de erro padrão e coeficiente de variação foram maiores para o experimento de repasse que para aqueles da desponta. Apenas para título de exemplificação, a produção de leite total e corrigida para 4% de gordura tiveram valores de erro padrão e coeficiente de variação de 0,64 e 11,5% contra 0,97 e 36,6%, para desponta e repasse, respectivamente.

Uma possível explicação para essa observação foi a maior heterogeneidade das vacas no experimento de repasse em relação às de desponta, pois havia vacas com dias em lactação muito avançados, o que pode ter interferido nessas variáveis estatísticas. Ademais, das três vacas que foram removidas do experimento, duas foram justamente do grupo de repasse.

Conclusões

Para as condições em que foram feitos esse experimento, vacas manejadas intensivamente em pastagens na estratégia de líder e seguidoras, os diferentes níveis de suplementação não produziram diferenças na produção leiteira e na composição do leite de vacas mestiças em lactação, demonstrando que a escolha do nível de suplementação está diretamente relacionada ao custo do concentrado e do preço pago por litro de leite.


¹8,0% Ca; 8,0% P; 1,5% Mg; 15,1% Na; 3,9% S; 1.045ppm Mn, 641ppm Fe; 1.567ppm Cu; 4.845ppm Zn; 216ppm I; 133ppm Co; 35ppm Se.

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¹Médico Veterinário, Doutor em Ciência Animal/UFMG. Professor Nível III, Centro Universitário de Belo Horizonte – UNIBH. Parte integrante da tese de doutorado do primeiro autor.;
²Professor, Doutor, Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da UFMG.;
³Graduando em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNIBH.