REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511201023
Autora: Maria Letícia de Araújo da Silva
Co-autora: Karime Tavares Lima da Silva
RESUMO
O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na interação social, na comunicação e por padrões de comportamento repetitivos e restritos. Este estudo tem como objetivo descrever as estratégias de manejo não farmacológico utilizadas em crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), durante a assistência odontológica. A presente pesquisa será caracterizada como uma revisão narrativa da literatura, utilizando como descritores do DECS (Descritores em Ciências da Saúde): “Manejo Não Farmacológico”, “Odontopediatria” e “Ansiedade Infantil”. A coleta de dados foi realizada través de bases de dados científicas, como PubMed, Scielo e Google Acadêmico. Os critérios de inclusão foram aqueles publicados entre 2015 a 2025, que abordaram especificamente o tema do manejo não farmacológico em odontopediatria e que estavam disponíveis em português, espanhol ou inglês. Já os critérios de exclusão, foram estudos que não trataram diretamente do manejo não farmacológico na odontopediatria, estudos que não apresentaram dados, trabalhos que não estavam disponíveis em texto completo e nem dentro da cronologia de pesquisa. Ao total, foram selecionados 200 artigos, no entanto, utilizados apenas 15. Em um ponto de vista odontológico, o manejo não farmacológico em odontologia, refere-se ao conjunto de técnicas e abordagens utilizadas para controlar o comportamento da criança durante o atendimento odontológico sem o uso de medicamentos sedativos. Seu objetivo é criar um ambiente acolhedor, compreensivo e adaptado às necessidades da criança, promovendo conforto, segurança e colaboração durante os procedimentos clínicos. O manejo não farmacológico no atendimento odontológico de pacientes com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma abordagem humanizada para promover um cuidado eficaz. Nesse contexto, pode-se citar as técnicas de dizer-mostrar-fazer; controle de voz; contação de história; reforço positivo e modelagem; relaxamento; estabilização protetora – contenção física; mão sobre a boca (desde que com a autorização por escrito dos pais ou responsáveis) e a dessensibilização.
Palavras-Chaves: Manejo Não Farmacológico; Odontopediatria; Ansiedade Infantil.
ABSTRACT
Autism Spectrum Disorder (ASD) is a neurodevelopmental disorder characterized by difficulties in social interaction, communication, and by repetitive and restricted behavior patterns. This study aims to describe the non-pharmacological management strategies used in children with Autism Spectrum Disorder (ASD) during dental care. The present research will be characterized as a narrative literature review, using DECS (Health Sciences Descriptors) descriptors: “Non-Pharmacological Management,” “Pediatric Dentistry,” and “Child Anxiety.”. Data collection was conducted through scientific databases such as PubMed, Scielo, and Google Scholar. The inclusion criteria were studies published between 2015 and 2025 that specifically addressed the topic of non-pharmacological management in pediatric dentistry and were available in Portuguese, Spanish, or English. The exclusion criteria were studies that did not directly address non-pharmacological management in pediatric dentistry, studies that did not present data, works not available in full text, and those outside the research chronology. In total, 200 articles were selected; however, only 15 were used. From a dental perspective, non-pharmacological management in dentistry refers to the set of techniques and approaches used to control a child’s behavior during dental care without the use of sedative medications. Its goal is to create a welcoming, understanding environment adapted to the child’s needs, promoting comfort, safety, and cooperation during clinical procedures. Non-pharmacological management in the dental care of patients with Autism Spectrum Disorder (ASD) is a humanized approach aimed at providing effective care. In this context, one can mention the techniques of tell-show-do; voice control; storytelling; positive reinforcement and modeling; relaxation; protective stabilization – physical restraint; hand over the mouth (as long as with written authorization from parents or guardians); and desensitization.
Keywords: Non-Pharmacological Management; Pediatric Dentistry; Childhood Anxiety.
1 INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na interação social, na comunicação e por padrões de comportamento repetitivos e restritos (Pinto et al., 2016). A condição pode se manifestar nos primeiros anos de vida e apresentar variados graus de comprometimento, que vão desde dificuldades sutis até deficiências significativas que demandam suporte especializado (Chandrashekhar & Bommangoudar, 2018).
As características principais do Transtorno do Espectro Autista é a falta de comunicação social e um déficit na interação social, que estão presentes desde o início da infância podendo prejudicar o funcionamento diário do sujeito. A manifestação do transtorno vária de acordo com a gravidade da condição do autista, da sua idade e de seu nível de desenvolvimento, daí surgindo o termo espectro (Costa et al., 2020).
Por isso, o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um desafio significativo tanto para os profissionais de saúde quanto para os familiares, devido à sua complexidade e à diversidade de manifestações clínicas. Nos últimos anos, houve um crescimento considerável nas pesquisas voltadas para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas, objetivando melhorar a qualidade de vida dos indivíduos com TEA (Oliveira et al., 2024). É importante que os especialistas estejam sempre atualizados não apenas sobre as necessidades dos pacientes em diferentes estágios de crescimento, mas também sobre técnicas e recursos para lidar eficientemente com pacientes que têm transtornos ou deficiências, como o TEA, cuja incidência tem aumentado ao longo dos anos (Chaves., 2024).
O atendimento odontológico de rotina em pacientes com TEA possui poucas, mas importantes particularidades. O conhecimento acerca dos detalhes e execução do que foi planejado é de extrema importância, visto se tratar de pacientes que se enquadram nas alterações com necessidades especiais. O ambiente odontológico e o atendimento em si podem gerar estímulos que desencadeiam alterações comportamentais por conta da percepção sensório-motora exacerbada desses pacientes (Silva et al., 2024)
Os pacientes com autismo apresentam fobia ao atendimento odontológico, sendo que em se tratando de crianças, ou seja, na Odontopediatria podem ser usadas técnicas de manejo, por exemplo, dizer-mostrar-fazer; controle de voz; comunicação não verbal; reforço positivo; distração; presença/ausência do responsável; estabilização protetora – contenção física; mão sobre a boca (desde que com a autorização por escrito dos pais ou responsáveis) (Régis, 2023).
Essas abordagens têm ganhado espaço como alternativas viáveis para a melhorar a qualidade de vida dessas crianças (Lord et al., 2020). Sendo assim, para estabelecimento da abordagem, é necessário haver sensibilidade às necessidades individuais de cada paciente, sendo importante observar estímulos sensoriais, comunicação clara e objetiva, estabelecimento de uma rotina de atendimento, minimizando ruídos, com controle no tom de voz e utilizando também a comunicação não verbal (PAES et L., 2024).
A implementação dessas estratégias requer adaptações no ambiente e abordagem individualizada, respeitando o ritmo e as necessidades de cada criança (Teixeira, 2016). Portanto, o manejo não farmacológico do TEA é um campo fundamental para a promoção do desenvolvimento e bem-estar de crianças diagnosticadas com esse transtorno. A implementação de abordagens baseadas em evidências permite a construção de um plano terapêutico individualizado, favorecendo a inclusão social e o desenvolvimento integral da criança com TEA (Sant’Anna et al., 2017).
Este estudo tem como objetivo descrever as estratégias de manejo não farmacológico utilizadas em crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), durante a assistência odontológica.
2 METODOLOGIA
A presente pesquisa é caracterizada como uma revisão narrativa da literatura, com o objetivo de analisar estudos recentes que abordam o manejo não farmacológico na odontopediatria. A intenção é compilar e discutir estratégias eficazes para o tratamento e a redução da ansiedade em crianças durante os atendimentos odontológicos.
A coleta de dados foi realizada través de bases de dados científicas, como PubMed, Scielo e Google Acadêmico. Para a busca de artigos na literatura científica, foram utilizados três descritores do DECS (Descritores em Ciências da Saúde): “Manejo Não Farmacológico”, “Odontopediatria” e “Ansiedade Infantil”. Esses termos permitirão uma busca direcionada e eficaz nas bases de dados relevantes. A busca utilizou os descritores mencionados, combinando-os com operadores booleanos (AND, OR) para refinar os resultados e garantir que os artigos selecionados sejam relevantes.
Foram encontrados 200 artigos, no entanto, a partir dos critérios de exclusão, sendo eles, estudos que não trataram diretamente do manejo não farmacológico na odontopediatria, revisões de literatura que não apresentaram dados originais ou novos insights sobre o tema, e trabalhos que não estavam disponíveis em texto completo e nem dentro da cronologia de pesquisa, se excluiu 185 artigos.
Portanto, foram incluídos 15 artigos ao total para a construção desse estudo, sendo que os critérios de inclusão para a seleção dos artigos contemplaram aqueles publicados entre 2015 a 2025 e que abordaram especificamente o tema do manejo não farmacológico em odontopediatria. Além disso, foram considerados apenas estudos que apresentaram dados empíricos e estudos de corte ou revisões sistemáticas, e que estavam disponíveis em português, espanhol ou inglês.
A análise dos artigos selecionados foi de natureza qualitativa, com foco nos métodos de manejo não farmacológico identificados na literatura, suas aplicações clínicas e eficácia. Como a pesquisa se trata de uma revisão de literatura, é importante reconhecer que a pesquisa pode estar limitada pela disponibilidade de artigos específicos sobre o tema e pela diversidade de métodos de manejo não farmacológico abordados nos estudos.
3 REVISÃO DE LITERATURA
O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um distúrbio comportamental da socialização com início prematuro, afetando primordialmente a interação social e a habilidade de comunicação, bem como dificuldades no contato visual e na decifração de intenções faciais. O diagnóstico do autismo é dado por especialistas, como pediatras, psiquiatras e neurologistas, é classificado conforme o grau de dependência ou necessidade de suporte, podendo ser: autismo leve, moderado e/ou severo (Regis, 2023). Nos últimos anos, os inquéritos epidemiológicos mostraram uma tendência crescente anual de TEA. Autores apontam que a sua prevalência entre os anos de 2008 e 2021 foi de 0,6% de toda a população mundial (Policarpo et al., 2024)
Quanto à etiologia, os indícios científicos apontam que o TEA não apresenta causa única. Possivelmente, seu desenvolvimento deve-se a uma interação entre fatores ambientais e genéticos. A literatura apresenta que os fatores ambientais podem aumentar o risco em pessoas geneticamente predispostas. Dentre os fatores, pode-se descrever a exposição a agentes químicos, uso de ácido valpróico durante a gestação, prematuridade, deficiência de vitamina D, baixo peso ao nascer, idade parental avançada e infecções maternas durante a gravidez (Ferreira et a., 2023)
Em um ponto de vista odontológico, o manejo não farmacológico em odontologia, particularmente na odontopediatria, refere-se ao conjunto de técnicas e abordagens utilizadas para controlar o comportamento da criança durante o atendimento odontológico sem o uso de medicamentos sedativos. Seu objetivo é criar um ambiente acolhedor, compreensivo e adaptado às necessidades da criança, promovendo conforto, segurança e colaboração durante os procedimentos clínicos. Esse tipo de abordagem é especialmente relevante no cuidado de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que frequentemente apresentam dificuldades sensoriais, comunicativas e comportamentais (Chandrashekhar et al., 2018).
Os estudos sobre a temática não relatam problemas de saúde bucal específicos do TEA, mas relatam que crianças autistas apresentam risco elevado de acometimento pela cárie dentária e doenças periodontais. Com base na literatura, isso ocorre pelo fato dos pacientes infantis, geralmente, apresentarem higienização bucal deficiente, comprometimento da coordenação motora, sensibilidade tátil exacerbada, seletividade alimentar, e uso contínuo de medicamentos com diminuição do fluxo salivar (Ferreira et al., 2023).
A odontopediatria, enquanto especialidade voltada ao atendimento de crianças e adolescentes, assume papel fundamental na promoção de saúde bucal preventiva desde os primeiros anos de vida. No caso das crianças com TEA, é essencial considerar suas limitações comportamentais e sensoriais (Amador et al., 2021), levando em consideração que pacientes com TEA têm maior incidência de cárie e doenças periodontais devido à dificuldade na realização da higiene bucal, agravada por fatores como hipersensibilidade oral e rotina alimentar diferenciada (Amaral et al., 2018).
Além disso, pacientes com TEA têm maior prevalência de ansiedade e medo frente ao atendimento odontológico, o que pode dificultar significativamente os procedimentos clínicos. Assim, o manejo não farmacológico, busca minimizar esses estímulos negativos e transformar a experiência odontológica em algo positivo e previsível, utilizando recursos como reforço positivo, ambientação adequada e comunicação visual (Cardoso et al., 2024).
No entanto, é valido ressaltar que cada paciente com autismo vai apresentar sinais indicativos que podem se manifestar de forma e características individuais, portanto, ao identificar os predominantes, os cirurgiões dentistas que lidam com este público, devem conhecer as técnicas de manejo comportamental a fim de eleger e aplicar a mais adequada para cada paciente (Ferreira et al., 2023)
De acordo com a literatura, pacientes com TEA demonstram características bucais semelhantes aos indivíduos sem TEA. Entretanto, eles exibem uma maior predisposição a doenças da cavidade oral, e isso se deve às dificuldades enfrentadas na realização de atividades rotineiras para a manutenção da higiene bucal, tanto pelo paciente quanto pelo seu cuidador, limitações motoras, uso de medicação contínua, o que constitui barreiras encontradas durante os atendimentos odontológicos, tornando-os, um desafio tanto para o profissional quanto para os familiares (Paes et al., 2024).
Além disso, em alguns pacientes, a dificuldade em manter o foco e a coordenação motora limitada podem dificultar a execução adequada de técnicas de higiene bucal (Silva et al., 2024). Por isso, é importante ter sempre em mente a importância da flexibilidade do cirurgião dentista para adaptar as técnicas de atendimento conforme a complexidade de cada caso, com objetivo a conquista da confiança do paciente (Paes et al., 2024)
No ponto de vista medicamentoso, o uso de medicamentos psicotrópicos, comuns em muitos pacientes com TEA, pode alterar o pH bucal e promover condições que favorecem doenças bucais. Isso reforça a necessidade de abordagens preventivas não invasivas, o que torna o manejo não farmacológico uma ferramenta indispensável no acompanhamento odontológico desses pacientes (Bezerra et al., 2023).
O manejo adequado é fundamental para fortalecer o vínculo entre o dentista, a criança e sua família. Esse vínculo facilita a adesão ao tratamento, promove confiança e reduz o estresse associado ao ambiente odontológico. Portanto, o manejo não farmacológico não apenas beneficia o paciente, mas também otimiza o trabalho do profissional (Chaves et al., 2024). Por que entre os desafios encontrados nas consultas odontológicas, destacam-se a dificuldade de comunicação, além do medo e ansiedade em relação ao tratamento. No entanto, esses obstáculos podem ser superados mediante a aplicação de estratégias para adaptar o ambiente do consultório, visando aumentar os níveis de cooperação durante o atendimento (Paes et al., 2024)
Nesse contexto, é importante destacar que o manejo não farmacológico deve ser adaptado às características individuais de cada paciente. A individualização do atendimento é essencial para garantir uma experiência positiva, respeitando o ritmo e as preferências da criança. Isso se torna ainda mais crítico diante da diversidade de perfis comportamentais apresentados por crianças com TEA (Lord et al., 2020).
A abordagem multidisciplinar também é essencial no manejo do Transtorno do Espectro Autista devido à complexidade e variabilidade das manifestações do transtorno. Essa colaboração interdisciplinar permite uma abordagem mais completa e coordenada, garantindo que as intervenções sejam integradas e personalizadas. Como resultado, as crianças com TEA recebem um suporte mais eficaz, promovendo seu desenvolvimento e bem-estar geral, enquanto suas famílias também recebem o apoio necessário para lidar com os desafios do TEA (Borges et al., 2024)
As técnicas de manejo não farmacológico abrangem diversos recursos que visam controlar o comportamento infantil e facilitar a execução dos procedimentos odontológicos. Dentre elas, as mais utilizadas e expostas pela literatura é dizer-mostrar-fazer; controle de voz; contação de história; reforço positivo e modelagem; relaxamento; estabilização protetora – contenção física; mão sobre a boca (desde que com a autorização por escrito dos pais ou responsáveis) e a dessensibilização (Régis, 2023).
As técnicas de distração têm se mostrado eficazes para reduzir a ansiedade de crianças durante os atendimentos. Elas consistem em redirecionar a atenção do paciente para algo mais agradável e menos ameaçador, como músicas favoritas, desenhos animados, brinquedos sensoriais ou histórias lúdicas. Estudos indicam que a distração é especialmente eficaz em crianças com TEA que apresentam hipersensibilidade auditiva ou visual (Chandrashekhar et al., 2018).
As técnicas de relaxamento, por sua vez, incluem respiração profunda, relaxamento muscular progressivo e visualização guiada. Tais técnicas ajudam a controlar o estresse físico e emocional da criança e são mais indicadas para pacientes com nível intelectual mais elevado e capacidade de compreender comandos verbais simples (Ferrazanno et al., 2020).
A contação de histórias é uma estratégia que utiliza narrativas lúdicas para preparar a criança para o atendimento, promovendo entendimento sobre o que vai acontecer de forma leve e didática. Pode-se utilizar livros ilustrados, fantoches ou aplicações digitais com histórias sociais que simulam uma visita ao dentista (Chaves et al., 2024).
O método do “dizer-mostrar-fazer” também é amplamente recomendado. Ele consiste em explicar verbalmente o procedimento, demonstrá-lo de forma lúdica e, em seguida, realizá-lo no paciente. Isso promove previsibilidade e reduz o medo do desconhecido, especialmente em crianças com TEA que se beneficiam de rotinas estruturadas (Régis et al., 2023).
A modelagem é uma técnica na qual o profissional, ou outra pessoa de confiança, executa a tarefa diante da criança para que ela possa imitá-la. Essa técnica se baseia na teoria da aprendizagem social e é especialmente eficaz quando aliada ao reforço positivo, como elogios e recompensas após a colaboração do paciente (Bezerra et al., 2023).
Já a dessensibilização consiste em apresentar gradativamente os estímulos temidos ou desconhecidos, como instrumentos e sons do consultório, promovendo familiarização progressiva. Essa abordagem é crucial para pacientes com hipersensibilidade sensorial e deve ser conduzida com paciência e empatia, respeitando os limites do paciente (Schardosim, Costa & Azevedo, 2015).
Por fim, quando as técnicas básicas não são suficientes para realizar o atendimento com eficácia, pode-se optar por alternativas mais avançadas como a estabilização protetora e mão sobre a boca. Nessas últimas situações, o profissional deve considerar às condições sistêmicas do paciente para evitar complicações no momento do atendimento. A estabilização protetora consiste em restringir a liberdade de movimento da criança, com autorização e consentimento dos pais, evitando ações indesejadas e inseguras durante o procedimento, as quais podem ocasionar lesões ao paciente ou a equipe. A estabilização protetora pode ser realizada de forma ativa pelo dentista, pela equipe ou pelos pais, ou de forma passiva com o auxílio de dispositivos de estabilização (Ferreira et al., 2023).
4 DISCUSSÃO
Os autores Policarpo et al (2024) trouxeram em seus estudos que os profissionais de saúde por muitas vezes enfrentam desafios ao lidar com crianças que possuem limitações físicas e cognitivas, sendo frequentemente necessário adaptar procedimentos ou reduzir a equipe multiprofissional, nos casos de pacientes com TEA. Por isso, em procedimentos que tendem a exigir contato físico vigoroso ou que use sons que possam causar estresse a esses pacientes é importante que o profissional pense em medidas que facilitem o atendimento, mesmo diante das particularidades desse perfil de pacientes.
Nesse mesmo ponto de vista, os autores Chaves et al., (2024) embasam que os especialistas nessa área estejam atualizados não apenas sobre as necessidades dos pacientes em diferentes estágios de crescimento, mas também sobre técnicas e recursos para lidar eficientemente com pacientes que têm transtornos ou deficiências, como o TEA, cuja incidência tem aumentado ao longo dos anos. O que se relaciona com o estudo publicado com o dos autores Policarpo et al., (2024), onde apresentaram que nos últimos anos, os inquéritos epidemiológicos mostraram uma tendência de crescimento anual do TEA, sendo de 0,6% de toda a população mundial.
Ainda nesse contexto, Borges et al (2024) também apresentaram esse crescimento da prevalência do TEA, com dados atuais indicando que cerca de 1 em cada 44 crianças é diagnosticada com o transtorno. Esse aumento pode ter sua origem a uma combinação de fatores, incluindo maior reconhecimento do transtorno e avanços nos critérios diagnósticos.
O autor Oliveira (2024) aponta que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um desafio tanto para os profissionais de saúde quanto para as famílias, devido à sua complexidade e à diversidade de manifestações clínicas. Considerando seus conceitos, Ferreira (2024) relatou que se trata de uma condição congênita caracterizada por alterações nos padrões comportamentais e pela dificuldade de comunicação e interação social. Já Borges (2024), diz que se trata de distúrbio comportamental da socialização com início prematuro. O autor Chaves (2024) já conceitua em seu estudo como uma alteração do neurodesenvolvimento.
De forma geral, as crianças que possuem o Transtorno do Espectro do Autismo apresentam uma alta prevalência de cárie e doença periodontal. No ponto de vista odontológico, isso ocorre devido a uma dieta cariogênica e às dificuldades na escovação. Segundo os autores Chaves et al., (2024), o atendimento odontológico, neste perfil de paciente, é um grande desafio para os cirurgiões-dentistas, sendo de grande relevância o desenvolvimento de estudos multidisciplinares buscando diretrizes que auxiliem a gestão do comportamento durante a consulta e os cuidados caseiros, para a manutenção de uma boa saúde bucal. O que gera um paralelo entre reduzir a equipe multidisciplinar entre os atendimentos exposto pelos autores Policarpo et al (2024) e abranger tal equipe no quesito estudo, exposto pelos autores Chaves et al (2024). No entanto, o autor Borges (2024) ratifica a ideia, uma vez que diz que uma abordagem multidisciplinar é essencial no manejo do Transtorno do Espectro Autista devido à complexidade e variabilidade das manifestações do transtorno.
Em um ponto de vista comportamental e odontológico, segundo os autores Chaves et al (2024), a criança com TEA tem como característica importante a dificuldade de manter o contato visual, e o dentista precisa tentar várias maneiras para conseguir essa comunicação, além disso, esses pacientes apresentam fobia ao atendimento odontológico, sendo que em se tratando de crianças, ou seja, é possível usar técnicas de manejo (Regis et al., 2023).
Borges (2024) relata a importância de adotar uma abordagem totalmente específica e personalizada no manejo dessas crianças, sendo fundamental para atender às necessidades únicas de cada um deles, pois cada pessoa com TEA possui um conjunto distinto de características, habilidades e desafios o que torna indispensável um plano de intervenção que leve em consideração todos os aspectos de sua vida e inclua os familiares para que haja interação.
Nessa perspectiva, os autores Paes et al (2024) reforçam que inadequação no manejo do atendimento pode exacerbar os desafios, resultando em uma intensificação dos comportamentos estereotipados e uma deterioração da qualidade de vida, por isso, a compreensão e o manejo adequados dessas características são cruciais para oferecer um suporte eficaz e reduzir o impacto negativo das dificuldades comportamentais e emocionais. Costa et al (2020) reforçam que a manifestação do transtorno vária de acordo com a gravidade da condição do autista, da sua idade e de seu nível de desenvolvimento.
No que se trata do manejo odontológico, Silva et al (2024) dizem que o uso de frases simples e diretas é crucial para transmitir instruções ao paciente e que, além disso, é importante evitar grandes mudanças no espaço físico do consultório e priorizar consultas no mesmo dia da semana e horário. Os autores Regis et al (2023) abordam que o autista, tem maior sensibilidade a estímulos externos, como ruido, sons de alta frequência e comportamentos inesperados. Isso reforça a técnica de manejo de Modelagem e Dessensibilização que consiste na Introdução gradual do paciente ao ambiente odontológico e aos procedimentos dentários onde pode envolver exposição progressiva a instrumentos odontológicos e simulação de procedimentos (Chaves et al., 2024).
Paes et al (2024) relatam que a rigidez comportamental frequentemente gera desafios na modulação emocional, levando a episódios de desorganização emocional, no entanto, a técnica do “dizer-mostrar-fazer” exposta pelos autores Regis (2023) que promove previsibilidade e reduz o medo do desconhecido e pelo método da modelagem exposta pelos autores Bezerra (2023) onde se baseia na teoria da aprendizagem social e quando é aliada ao reforço positivo, como elogios e recompensas, o atendimento odontológica tende a ser mais produtivo.
5 CONCLUSÃO
O manejo não farmacológico no atendimento odontológico de pacientes com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma abordagem humanizada para promover um cuidado eficaz. A literatura apresenta formas de manejo não medicamentosa a fim de colocar o uso de fármaco em último plano, levando em consideração que as características principais desse transtorno é a falta de comunicação social e um déficit na interação social. Nesse contexto, dentre as abordagens, pode-se citar as técnicas de dizer-mostrar-fazer; controle de voz; contação de história; reforço positivo e modelagem; relaxamento; estabilização protetora – contenção física; mão sobre a boca (desde que com a autorização por escrito dos pais ou responsáveis) e a dessensibilização.
Além dessas técnicas, é importante promover um ambiente acolhedor e tranquilo para que a criança com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) se sinta seguro e confortável, ajudando na utilização das técnicas não farmacológicas citadas anteriormente.
Por isso, compreender e tentar estratégias que não envolvam medicamentos sedativos, no ponto de vista odontológico, pode oferecer um atendimento mais acolhedor de acordo com as características individuais de cada paciente, além disso, melhorando o convívio familiar e o atendimento odontológico.
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