SOBRECARGA DE TRABALHO DA EQUIPE DE ENFERMAGEM EM UTI E SEUS IMPACTOS NA SEGURANÇA DO PACIENTE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509291457


Viviane Honorio da Silva Alves
Thais Lazarino Maciel da Costa


RESUMO 

O ambiente de terapia intensiva caracteriza-se pela alta complexidade assistencial, demandando monitorização contínua e tomada de decisão rápida, o que torna a equipe de enfermagem particularmente suscetível à sobrecarga de trabalho. Essa condição pode comprometer a qualidade da assistência e aumentar o risco de incidentes relacionados à segurança do paciente crítico. O objetivo deste estudo foi analisar a relação entre a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e a ocorrência de eventos adversos. Trata-se de uma revisão integrativa realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e CINAHL, considerando publicações entre 2014 e 2024. Foram selecionados 25 artigos, que evidenciaram que a elevada demanda assistencial, aliada ao subdimensionamento de recursos humanos, está diretamente associada ao aumento de erros de medicação, falhas em procedimentos e infecções relacionadas à assistência. Os estudos também indicaram que escores elevados no Nursing Activities Score (NAS) e no TISS-28 correlacionam-se com maior risco de incidentes. Conclui-se que a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em UTIs constitui um fator crítico para a segurança do paciente, reforçando a necessidade de dimensionamento adequado, educação permanente e estratégias de gestão que favoreçam ambientes mais seguros e humanizados. 

Palavras-chave: Cuidados intensivos; Dimensionamento de pessoal; Eventos adversos; Qualidade da assistência à saúde. 

1. INTRODUÇÃO 

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um setor hospitalar caracterizado pela elevada complexidade assistencial, reunindo pacientes em estado crítico que demandam monitorização constante, tecnologias avançadas e tomada de decisão rápida e precisa. Nesse ambiente, a equipe de enfermagem representa o maior contingente profissional, sendo responsável por atividades que vão desde a vigilância clínica até a execução de procedimentos de alta complexidade. Essa atuação contínua torna a enfermagem protagonista no cuidado intensivo, garantindo tanto a manutenção da vida quanto a prevenção de riscos relacionados à hospitalização. 

No entanto, esse protagonismo convive com um desafio crescente: a sobrecarga de trabalho da equipe. Tal condição é definida pela discrepância entre a demanda assistencial e os recursos humanos disponíveis, e tem sido apontada como um dos principais fatores de risco para incidentes e eventos adversos em pacientes críticos (Silva et al., 2019; Cho et al., 2020). A literatura internacional revela que a inadequação da proporção enfermeiro-paciente está diretamente associada ao aumento de erros de medicação, falhas em registros clínicos e omissões de cuidados básicos, colocando em risco a segurança e a qualidade da assistência (Griffiths et al., 2019). 

No Brasil, a realidade não se mostra diferente. Pesquisas nacionais evidenciam que o subdimensionamento de pessoal compromete a adesão a protocolos de segurança, eleva a incidência de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) e dificulta a implementação de práticas de cuidado seguras (Oliveira et al., 2021). Esse cenário reflete uma fragilidade estrutural nos serviços de saúde, que sobrecarrega a equipe de enfermagem, aumenta a chance de falhas na assistência e potencializa os riscos de desfechos negativos para os pacientes internados em UTI. 

A avaliação objetiva da carga de trabalho é uma estratégia essencial para compreender essa realidade. Instrumentos validados, como o Nursing Activities Score (NAS) e o Therapeutic Intervention Scoring System (TISS-28), são amplamente utilizados para estimar a demanda assistencial em UTIs, permitindo quantificar as atividades executadas por cada profissional em um período específico. Esses indicadores constituem ferramentas fundamentais para subsidiar gestores e equipes no planejamento de recursos humanos, garantindo a adequação do dimensionamento de pessoal e a promoção de ambientes de cuidado mais seguros (Queijo & Padilha, 2009; Silva et al., 2019). 

Além da dimensão operacional, a sobrecarga de trabalho da enfermagem deve ser compreendida também em sua dimensão ética e humana. O excesso de demandas gera não apenas riscos assistenciais, mas também desgaste físico, emocional e moral dos profissionais, que frequentemente vivenciam sentimentos de impotência diante da impossibilidade de atender de forma plena às necessidades dos pacientes. Esse sofrimento moral compromete a qualidade das relações interpessoais, a humanização do cuidado e a própria saúde do trabalhador, configurando um problema que transcende os limites técnicos e alcança aspectos organizacionais e sociais da prática em saúde (Ramos et al., 2021). 

Diante desse contexto, torna-se imprescindível aprofundar a análise sobre como a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em UTI impacta a segurança do paciente. Ao investigar essa relação, busca-se oferecer subsídios não apenas para a prática clínica, mas também para a gestão em saúde, fornecendo evidências que auxiliem na formulação de políticas públicas, na definição de protocolos institucionais e no fortalecimento da cultura de segurança. Este estudo, portanto, pretende contribuir para a construção de uma assistência intensiva mais eficiente, humanizada e eticamente comprometida, na qual pacientes e profissionais sejam igualmente valorizados. 

2. OBJETIVOS 

2.1 OBJETIVO GERAL 

Avaliar a relação entre a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva e a segurança do paciente. 

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 

  • Identificar os principais instrumentos utilizados para mensurar a sobrecarga de trabalho em UTIs. 
  • Analisar como a sobrecarga influencia a ocorrência de eventos adversos e incidentes de segurança. 
  • Discutir estratégias de gestão e dimensionamento de pessoal para mitigar os efeitos da sobrecarga. 
  • Refletir sobre o papel da enfermagem na promoção de uma cultura de segurança em ambientes críticos. 

3. METODOLOGIA 

Neste estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método amplamente reconhecido na área da saúde por permitir a síntese crítica de resultados de diferentes tipos de pesquisa, favorecendo a compreensão abrangente de fenômenos complexos (Whittemore; Knafl, 2005). A escolha desse método justifica-se pela necessidade de reunir evidências nacionais e internacionais sobre a relação entre sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em UTIs e a segurança do paciente, fornecendo subsídios para a prática assistencial e para a gestão hospitalar. 

A revisão seguiu rigorosamente as seis etapas propostas por Whittemore e Knafl (2005): (1) formulação da questão de pesquisa; (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão; (3) busca em bases de dados; (4) avaliação crítica dos estudos selecionados; (5) extração e síntese dos dados; e (6) interpretação e apresentação dos resultados. A questão norteadora definida foi: “Qual a relação entre a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em UTI e a segurança do paciente?” 

A estratégia de busca foi conduzida nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Web of Science e CINAHL, garantindo abrangência nacional e internacional. Foram utilizados descritores controlados dos vocabulários DeCS/MeSH: Nursing Workload, Intensive Care Units, Patient Safety, Adverse Events, combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Como exemplo, utilizou-se a combinação: “Nursing Workload” AND “Intensive Care Units” AND “Patient Safety”

Foram incluídos artigos originais, estudos multicêntricos, revisões sistemáticas e metanálises, publicados no período de 2014 a 2024, em português, inglês e espanhol, disponíveis em texto completo. Excluíram-se editoriais, cartas ao editor, relatos de experiência, dissertações e teses não publicadas em periódicos científicos. 

O processo de seleção foi realizado em três fases: (1) leitura de títulos; (2) leitura de resumos; e (3) leitura completa para verificar a adequação aos critérios de elegibilidade. A triagem foi realizada por dois revisores independentes, e divergências foram solucionadas por consenso. Para garantir a transparência, o processo de seleção foi documentado em um fluxograma baseado no modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). 

A avaliação metodológica dos artigos incluídos foi feita por meio do Critical Appraisal Skills Programme (CASP), adaptado para estudos quantitativos e qualitativos, considerando clareza da questão de pesquisa, adequação do desenho metodológico, rigor na coleta e análise dos dados, e relevância dos achados para a prática. Apenas estudos com qualidade metodológica moderada ou alta foram incluídos. 

Os dados foram extraídos para uma planilha estruturada contendo informações como: autor, ano de publicação, país, tipo de estudo, instrumentos utilizados para medir carga de trabalho (ex.: NAS, TISS-28, razão enfermeiro/paciente), principais resultados e desfechos relacionados à segurança do paciente (ex.: erros de medicação, infecções, omissões de cuidado). A análise dos dados seguiu uma abordagem temática e comparativa, permitindo identificar padrões de resultados e divergências entre os estudos. 

Por fim, os achados foram organizados em tabelas elaboradas pela autora, destacando as características metodológicas, os impactos da sobrecarga sobre a segurança e os fatores associados. Essa forma de apresentação favorece a clareza na síntese e a integração com a discussão crítica. 

4. RESULTADOS 

A busca sistemática nas bases de dados resultou em 632 publicações inicialmente identificadas. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 20 artigos compuseram a amostra final desta revisão. Os estudos foram publicados entre 2014 e 2024, contemplando diferentes contextos nacionais e internacionais, com predominância de pesquisas em unidades de terapia intensiva de adultos. 

A síntese dos artigos mostrou uma associação consistente entre a sobrecarga de trabalho da enfermagem e o aumento de incidentes relacionados à segurança do paciente. A Tabela 1 apresenta as principais características metodológicas dos estudos incluídos. 

Tabela 1 – Características metodológicas dos estudos incluídos na revisão.

Autor/AnoPaísEstudoTipo de Instrumento utilizadoPrincipais achados
Silva et al.,
2019
BrasilObservacionalNAS, TISS-28Sobrecarga associada a em protocolos de 2019 de segurança
Cho et al.,
2020
Coréia do SulMulticêntricoRazão enfermeiro-pacienteCarga excessiva aumentou infecções relacionadas à assistência
Griffiths et
al., 2019
Reino UnidoCoorteNASCorrelação entre sobrecarga e erros de medicação
Oliveira et
al., 2021
BrasilTransversalNASSubdimensionamento elevou taxa de IRAS
Padilha et
al., 2018
BrasilObservacionalTISS-28Alta carga correlacionada com omissões de cuidado
Aiken et al.,
2014
EUA/EuropaCoorteNurse-patient ratioDéficit de pessoal aumentou mortalidade hospitalar
Cho et al.,
2021
JapãoMulticêntricoNASSobrecarga impactou
adesão a protocolos de
segurança
Gonçalves
et al., 2022
BrasilRevisão
integrativa
NAS, TISS-28Sobrecarga eleva riscos e reduz
qualidade da
assistência

Fonte: elaborado pela autora a partir da literatura analisada. 

A Tabela 1 evidencia a diversidade metodológica, mas também a consistência dos resultados: independentemente do país ou desenho de estudo, a sobrecarga de trabalho mostrou-se um fator crítico para a segurança do paciente. 

Outro ponto recorrente nos estudos foi a relação entre altos escores nos instrumentos de carga de trabalho, como o Nursing Activities Score (NAS) e o Therapeutic Intervention Scoring System (TISS-28), e a ocorrência de eventos adversos. A Tabela 2 sintetiza os principais desfechos identificados. 

Tabela 2 – Impacto da sobrecarga de trabalho da enfermagem em UTI na segurança do paciente.

Desfecho analisadoEvidência encontrada
Erros de medicaçãoAumento significativo em turnos com NAS > 70% (Griffiths
et al., 2019)
Infecções relacionadas à
assistência (IRAS)
Maior incidência quando a razão enfermeiro-paciente é
inadequada (Cho et al., 2020; Oliveira et al., 2021)
Omissões de cuidadoAlta frequência quando TISS-28 elevado (Padilha et al.,
2018)
Falhas em registros e
monitorização
Relacionadas à sobrecarga de atividades (Silva et al.,
2019)
Mortalidade hospitalarCorrelação direta com subdimensionamento (Aiken et al.,
2014)

Fonte: elaborado pela autora com base nos estudos analisados. 

A Tabela 2 confirma que a sobrecarga de trabalho compromete diretamente a qualidade da assistência e expõe os pacientes a riscos. Erros de medicação, infecções associadas à assistência e omissões de cuidado apareceram como os incidentes mais recorrentes. 

A análise qualitativa dos estudos também revelou que a sobrecarga de trabalho não decorre apenas da insuficiência de recursos humanos, mas envolve fatores institucionais mais amplos. Entre eles, destacam-se o subdimensionamento da equipe de enfermagem, a sobrecarga administrativa decorrente do excesso de registros manuais, a ausência de protocolos padronizados para distribuição de tarefas e a manutenção de uma cultura organizacional centrada no produtivismo. Esses elementos agravam o desgaste físico e emocional dos profissionais, comprometendo a qualidade assistencial e elevando o risco de incidentes relacionados à segurança. 

Apesar das dificuldades relatadas, alguns estudos apresentaram estratégias que mostraram bons resultados na redução dos impactos da sobrecarga. Entre as principais medidas apontadas estão a adequação do dimensionamento de pessoal com base em instrumentos validados (NAS e TISS-28), o investimento em programas de educação permanente voltados à gestão do tempo e às práticas seguras, a utilização de tecnologias para otimizar registros clínicos e reduzir atividades burocráticas, bem como o fortalecimento do trabalho multiprofissional para dividir responsabilidades no cuidado. Essas estratégias, quando aplicadas de forma integrada, mostraram-se eficazes para reduzir incidentes e criar um ambiente assistencial mais seguro e humanizado. 

5. DISCUSSAO 

Os resultados desta revisão evidenciaram que a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em unidades de terapia intensiva está diretamente relacionada à ocorrência de incidentes e eventos adversos, confirmando achados de estudos anteriores. A inadequação do dimensionamento de pessoal, expressa pela alta relação enfermeiro-paciente ou pela elevação dos escores em instrumentos como NAS e TISS-28, mostrou-se um fator decisivo para o aumento de falhas assistenciais. Esses achados corroboram pesquisas internacionais que associam o déficit de recursos humanos a maiores taxas de erros de medicação, infecções relacionadas à assistência e até mortalidade hospitalar (Griffiths et al., 2019; Aiken et al., 2014). A consistência desses resultados em diferentes contextos aponta para um problema estrutural, que ultrapassa fronteiras e reflete um desafio global para a segurança do paciente em UTIs. 

A literatura nacional reforça esse panorama ao demonstrar que, no Brasil, o subdimensionamento de profissionais compromete não apenas a execução técnica das atividades, mas também a adesão a protocolos de segurança e a implementação de boas práticas assistenciais. Estudos recentes indicam que a falta de recursos humanos, aliada à elevada demanda de pacientes críticos, aumenta a exposição a infecções associadas à assistência à saúde (Oliveira et al., 2021). Esse cenário compromete a qualidade do cuidado e coloca em evidência a necessidade de estratégias gerenciais mais efetivas, baseadas em parâmetros objetivos de dimensionamento, para reduzir os riscos aos quais pacientes e equipes estão submetidos. 

Outro aspecto que merece destaque é a dimensão ética e humana da sobrecarga de trabalho. Quando a equipe de enfermagem não dispõe de condições adequadas para atender às demandas assistenciais, surgem sentimentos de frustração, impotência e sofrimento moral, uma vez que o profissional reconhece as necessidades do paciente, mas não consegue atendêlas de forma plena. Essa vivência fragiliza a autonomia do enfermeiro e compromete a humanização da assistência, revelando que a sobrecarga não é apenas um problema operacional, mas também ético e social (Ramos et al., 2021). Essa perspectiva amplia a compreensão da segurança do paciente, que deve ser analisada não apenas sob a ótica dos indicadores técnicos, mas também das relações humanas que permeiam o cuidado em UTI. 

A análise dos estudos também evidencia que a sobrecarga de trabalho está associada a falhas na comunicação e no registro clínico, fatores que interferem diretamente na continuidade da assistência. Em ambientes críticos, onde decisões rápidas são essenciais, a ausência de registros fidedignos ou a comunicação deficiente entre os membros da equipe multiprofissional aumentam a probabilidade de erros e eventos adversos (Silva et al., 2019; Cho et al., 2020). Nesse sentido, a segurança do paciente depende não apenas do número adequado de profissionais, mas também da qualidade do processo de trabalho, da padronização de protocolos e do fortalecimento da cultura de segurança dentro das instituições hospitalares. 

Apesar dos desafios, os resultados da revisão apontam estratégias que podem mitigar os impactos da sobrecarga. A adoção de instrumentos como NAS e TISS-28 para subsidiar o dimensionamento de pessoal, a implementação de treinamentos em gestão do tempo, o incentivo à educação permanente e o uso de tecnologias que otimizem registros clínicos surgem como alternativas eficazes para reduzir riscos e melhorar a qualidade assistencial (Queijo & Padilha, 2009; Gonçalves et al., 2022). Além disso, o fortalecimento do trabalho em equipe multiprofissional aparece como elemento essencial, uma vez que possibilita a divisão equilibrada das responsabilidades e promove um cuidado mais integral e seguro ao paciente crítico. 

É importante ressaltar que a sobrecarga de trabalho da enfermagem em UTIs não pode ser analisada de forma isolada. Trata-se de um fenômeno que reflete a inter-relação entre fatores estruturais, organizacionais, culturais e políticos do sistema de saúde. Assim, as discussões sobre segurança do paciente precisam incorporar a dimensão do cuidado com o trabalhador, reconhecendo que ambientes de trabalho saudáveis são determinantes para a qualidade da assistência. Investir em políticas públicas que garantam dimensionamento adequado, valorização profissional e suporte emocional às equipes não é apenas uma questão de gestão, mas um compromisso ético com a vida, a dignidade e a humanização do cuidado intensivo. 

A sobrecarga de trabalho também repercute na saúde física e mental da equipe de enfermagem, intensificando quadros de estresse, fadiga e burnout. Esses fatores, além de comprometerem o bem-estar do profissional, impactam diretamente na qualidade do cuidado prestado, já que a exaustão física e emocional aumenta a chance de falhas técnicas e reduz a capacidade de tomada de decisão clínica (Santos et al., 2021). Essa relação entre a saúde do trabalhador e a segurança do paciente reforça a importância de compreender o cuidado em terapia intensiva como um fenômeno interdependente, em que a valorização da equipe é condição essencial para a proteção do paciente crítico. 

Outro ponto relevante refere-se ao papel da liderança e da gestão hospitalar no enfrentamento da sobrecarga de trabalho. Estudos apontam que ambientes organizacionais que valorizam a comunicação aberta, o apoio entre gestores e equipes e a implementação de políticas de segurança apresentam menores taxas de eventos adversos (Carvalho & Rodrigues, 2020). A liderança ética e participativa é capaz de criar um clima organizacional positivo, que favorece o engajamento dos profissionais e a adesão a práticas seguras, reduzindo os efeitos negativos da sobrecarga sobre a assistência. 

A análise crítica dos estudos revisados também evidencia que o desafio do dimensionamento adequado de pessoal não é apenas uma questão de gestão local, mas um reflexo de políticas públicas de saúde. No Brasil, a ausência de normativas claras que garantam parâmetros mínimos de pessoal de enfermagem em UTIs contribui para a perpetuação da sobrecarga (Oliveira et al., 2021). Nesse sentido, a incorporação de diretrizes nacionais que estabeleçam critérios de dimensionamento, baseados em instrumentos como NAS e TISS-28, poderia representar um avanço significativo na padronização da qualidade assistencial e na promoção da segurança do paciente em nível sistêmico. 

Cabe destacar ainda que a sobrecarga de trabalho compromete dimensões fundamentais da humanização do cuidado. A impossibilidade de atender com qualidade às demandas físicas, emocionais e sociais do paciente crítico fragiliza o vínculo terapêutico e limita a prática da enfermagem como profissão centrada no cuidado integral (Ramos et al., 2021). Em contextos de sobrecarga, o cuidado tende a ser reduzido a tarefas técnicas, em detrimento de aspectos subjetivos e relacionais, essenciais para o enfrentamento da hospitalização em terapia intensiva. Dessa forma, discutir a sobrecarga é também discutir a necessidade de resgatar a centralidade do paciente como sujeito de direitos, mesmo em ambientes altamente tecnológicos. 

Por fim, os achados desta revisão dialogam com a perspectiva de que a segurança do paciente não pode ser compreendida de forma fragmentada. Ela deve ser analisada como um sistema integrado, no qual políticas institucionais, práticas assistenciais e condições de trabalho se articulam. A sobrecarga da equipe de enfermagem surge, portanto, como um fator determinante que afeta não apenas a ocorrência de eventos adversos, mas também a qualidade global da experiência de cuidado em UTI. Reconhecer e enfrentar essa realidade constitui um passo essencial para consolidar uma cultura de segurança pautada na ética, na humanização e na excelência técnica, elementos indissociáveis para a melhoria contínua da assistência em saúde. 

6. CONCLUSÃO 

A análise da literatura evidenciou que a sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em unidades de terapia intensiva constitui um dos principais fatores de risco para a ocorrência de incidentes e eventos adversos. O estudo revelou que, em contextos onde a demanda assistencial supera os recursos humanos disponíveis, há aumento expressivo de erros de medicação, falhas em registros clínicos, omissões de cuidados e infecções relacionadas à assistência. Esses achados reafirmam a necessidade urgente de políticas institucionais e públicas que assegurem o dimensionamento adequado de profissionais como estratégia central para a promoção da segurança do paciente crítico. 

Outro ponto importante identificado é que a sobrecarga compromete não apenas a execução técnica da assistência, mas também a dimensão ética do cuidado. A literatura mostrou que enfermeiros expostos a excesso de demandas vivenciam sofrimento moral, frustração e desgaste emocional diante da impossibilidade de atender integralmente às necessidades dos pacientes. Esses aspectos reforçam que a segurança do paciente está intrinsecamente ligada às condições de trabalho da equipe, e que cuidar do trabalhador é condição indispensável para garantir um cuidado intensivo mais seguro, humanizado e de qualidade. 

Os resultados também apontaram que a sobrecarga de trabalho é influenciada por fatores institucionais, como o subdimensionamento da equipe, a ausência de protocolos claros e a sobrecarga burocrática. Esses elementos, associados a uma cultura organizacional centrada no produtivismo, agravam o desgaste dos profissionais e aumentam a vulnerabilidade do paciente a eventos adversos. Assim, torna-se fundamental que os gestores hospitalares reconheçam tais fatores como determinantes da qualidade assistencial e adotem medidas estruturais capazes de modificar esse cenário. 

Entre as estratégias destacadas pela literatura, sobressaem a utilização de instrumentos validados como o NAS e o TISS-28 para apoiar o dimensionamento de pessoal, o fortalecimento da educação permanente, a incorporação de tecnologias que agilizem processos de registro e monitorização, e o incentivo ao trabalho em equipe multiprofissional. Essas iniciativas, quando aplicadas de maneira articulada, contribuem não apenas para a redução de incidentes, mas também para a valorização da enfermagem como profissão essencial na manutenção da vida em ambientes críticos. 

É importante salientar que a discussão sobre a sobrecarga de trabalho não pode ser dissociada do contexto das políticas públicas de saúde. A ausência de regulamentações claras sobre parâmetros de dimensionamento em UTIs brasileiras reforça a necessidade de avanços normativos que garantam maior padronização da assistência. Dessa forma, além de apoiar os gestores hospitalares, tais políticas se tornam instrumentos de proteção ao paciente, à equipe e ao próprio sistema de saúde, promovendo sustentabilidade e qualidade a longo prazo. 

Conclui-se, portanto, que enfrentar a sobrecarga de trabalho da enfermagem em UTI significa investir em segurança, qualidade e humanização do cuidado. A valorização da equipe, aliada ao fortalecimento de estratégias institucionais e políticas, constitui um caminho indispensável para transformar a realidade das UTIs em espaços não apenas de alta tecnologia, mas também de dignidade, ética e respeito à vida. Este estudo, ao sintetizar evidências sobre a relação entre sobrecarga e segurança, contribui para ampliar o debate e oferecer subsídios à prática profissional, à gestão em saúde e à formulação de políticas públicas voltadas à excelência da assistência intensiva. 

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