SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICÍSTICOS (SOP): OS IMPACTOS PSICOSSOCIAIS, METABÓLICOS E REPRODUTIVOS NA VIDA DA MULHER

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511171630


Ana Clara Rodrigues Costa1
Rafael Gomes de Almeida2
Magda Rogéria Pereira Viana3


Resumo 

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma endocrinopatia multifatorial com etiopatogenia complexa, envolvendo predisposição genética, desregulações hormonais e fatores ambientais, caracterizada pela tríade de hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e morfologia ovariana policística. Este estudo, uma revisão integrativa da literatura, buscou identificar os principais impactos psicossociais, metabólicos e reprodutivos da SOP na vida das mulheres. A metodologia envolveu a coleta e análise de artigos científicos nas bases de dados SciELO e PubMed, publicados entre 2019 e 2025, utilizando descritores específicos e critérios de inclusão definidos. Os resultados evidenciam a ampla gama de manifestações clínicas da SOP, incluindo irregularidades menstruais e sinais de hiperandrogenismo, que impactam a saúde física e psicológica. As alterações metabólicas, como resistência à insulina e obesidade, elevam o risco de comorbidades a longo prazo, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. No âmbito reprodutivo, a SOP é uma causa primária de infertilidade devido à disfunção ovulatória, além de aumentar o risco de complicações obstétricas. Os impactos psicossociais incluem baixa autoestima, problemas de imagem corporal e maior prevalência de ansiedade e depressão. Assim, a SOP apresenta impactos interconectados nas esferas psicossocial, metabólica e reprodutiva da vida da mulher. A heterogeneidade da síndrome exige uma abordagem multidisciplinar para o manejo eficaz, considerando as necessidades individuais das pacientes e visando a melhora da qualidade de vida e a prevenção de comorbidades a longo prazo.

Palavras-Chave: Síndrome dos ovários policísticos. Revisão de literatura. Abordagem multidisciplinar. 

ABSTRACT

Polycystic Ovary Syndrome (PCOS) is a multifactorial endocrinopathy with a complex etiopathogenesis, involving genetic predisposition, hormonal dysregulations, and environmental factors, characterized by the triad of hyperandrogenism, ovulatory dysfunction, and polycystic ovarian morphology. This study, an integrative literature review, aimed to identify the main psychosocial, metabolic, and reproductive impacts of PCOS on women’s lives. The methodology involved the collection and analysis of scientific articles in the SciELO and PubMed databases, published between 2019 and 2025, using specific descriptors and defined inclusion criteria. The results highlight the wide range of clinical manifestations of PCOS, including menstrual irregularities and signs of hyperandrogenism, which impact physical and psychological health. Metabolic alterations, such as insulin resistance and obesity, increase the risk of long-term comorbidities, such as type 2 diabetes and cardiovascular diseases. In the reproductive sphere, PCOS is a primary cause of infertility due to ovulatory dysfunction, in addition to increasing the risk of obstetric complications. Psychosocial impacts include low self-esteem, body image issues, and a higher prevalence of anxiety and depression. Thus, PCOS presents interconnected impacts in the psychosocial, metabolic, and reproductive spheres of women’s lives. The heterogeneity of the syndrome requires a multidisciplinary approach for effective management, considering the individual needs of patients and aiming to improve quality of life and prevent long-term comorbidities.

Keywords: Polycystic ovary syndrome; Literature review; Multidisciplinary approach

1 INTRODUÇÃO 

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é reconhecida como uma endocrinopatia, cuja etiopatogenia multifatorial envolve uma interação entre predisposição genética, desregulações hormonais e fatores ambientais. A característica da SOP reside na tríade de hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e, frequentemente, a presença de múltiplos folículos nos ovários. A gênese dessa síndrome está ligada a alterações no eixo hipotálamo-hipófise-ovário, culminando em um aumento da produção de andrógenos ovarianos e, em muitos casos, resistência à insulina, estabelecendo um ciclo vicioso que perpetua as manifestações clínicas e aumenta o risco de comorbidades a longo prazo (Escobar-Morreale, 2018). 

O espectro das manifestações clínicas da SOP é heterogêneo, dificultando, por vezes, o diagnóstico e exigindo a avaliação de múltiplos critérios. As irregularidades menstruais, abrangendo desde ciclos infrequentes até a ausência de menstruação, são frequentemente os primeiros sinais da disfunção ovulatória. O hiperandrogenismo se expressa clinicamente através de sinais como o hirsutismo, acne inflamatória persistente e, em algumas mulheres, a alopecia androgênica. Esses sintomas não apenas impactam a saúde física, mas também pode gerar sofrimento psicológico e afetar a qualidade de vida das pacientes (Teede et al., 2023). 

Para além das manifestações clínicas clássicas, a SOP está associada a diversas alterações metabólicas que elevam o risco de comorbidades de longo prazo. A resistência à insulina, presente em muitas mulheres com SOP, é um fator chave na patogênese da síndrome e contribui para a hiperinsulinemia compensatória. Essa condição metabólica aumenta o risco de desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia, hipertensão arterial e, consequentemente, um aumento do risco de eventos cardiovasculares. A obesidade, especialmente a adiposidade visceral, é uma comorbidade frequente na SOP e pode exacerbar a resistência à insulina e as demais complicações metabólicas (Medeiro, 2023). 

No que concerne à saúde reprodutiva, a SOP é uma das principais causas de infertilidade feminina em idade reprodutiva. A disfunção ovulatória crônica, caracterizada pela anovulação ou oligo-ovulação, dificulta a concepção espontânea. Adicionalmente, mesmo em gestações bem-sucedidas, mulheres com SOP apresentam um risco aumentado de complicações obstétricas, como diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e parto prematuro. As irregularidades menstruais também podem gerar ansiedade e incerteza em relação à fertilidade e ao planejamento familiar. Logo, a compreensão dos impactos da SOP na esfera reprodutiva é fundamental para oferecer suporte adequado e estratégias de manejo que visem otimizar a fertilidade e a saúde materno-fetal (Oliveira, 2022). 

Diante disso, este estudo busca responder à seguinte pergunta norteadora: Quais são os principais impactos psicossociais, metabólicos e reprodutivos da SOP na vida das mulheres, segundo a literatura científica atual? O objetivo geral deste trabalho é investigar, por meio revisão de literatura científica, os principais impactos da SOP nos aspectos psicossociais, metabólicos e reprodutivos da vida da mulher, com os objetivos específicos de analisar o impacto na saúde mental, autoestima e imagem corporal; avaliar as alterações metabólicas associadas; discutir as implicações na fertilidade e ciclos menstruais; e identificar propostas de abordagem multidisciplinar.

2 METODOLOGIA

Este estudo configura-se como uma revisão integrativa da literatura, de natureza descritiva e exploratória, acerca dos impactos psicossociais, metabólicos e reprodutivos da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) na vida da mulher.  A coleta de dados foi realizada nas bases de dados eletrônicas Scientific Electronic Library Online (SciELO) e PubMed®, utilizando o operador booleano “AND” para otimizar a busca. Os termos de busca empregados foram “Síndrome dos Ovários Policísticos”, “Impacto Psicossocial”, “Impacto Metabólico” e “Impacto Reprodutivo”, combinados de forma a abranger as diferentes dimensões de interesse desta pesquisa. A seleção dos descritores considerou os termos indexados no DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), visando garantir a relevância e abrangência da busca.

Os critérios de inclusão para a seleção dos estudos foram: artigos científicos completos e com texto integral disponível online, publicados no idiomas inglês ou português, e que abordavam diretamente os impactos psicossociais, metabólicos e/ou reprodutivos da SOP na vida da mulher. Foram excluídos estudos que não atendiam ao objetivo central desta pesquisa.

Após a etapa de identificação e seleção dos artigos, os estudos incluídos foram submetidos a uma análise crítica para avaliar sua qualidade metodológica e relevância para a questão norteadora. Os dados extraídos dos estudos foram então sintetizados e agrupados em categorias temáticas predefinidas, alinhadas aos objetivos específicos da pesquisa: impacto na saúde mental, autoestima e imagem corporal; alterações metabólicas associadas; implicações na fertilidade e ciclos menstruais; e propostas de abordagem multidisciplinar. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir do cruzamento de todos os dados foram encontrados um N = 450 artigos (Universo) e foram selecionados, após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão,  uma amostra de n = 15 artigos. A análise dos estudos incluídos na amostra dessa revisão integrativa aponta para a relevância do tema, uma vez que entender os impactos psicossociais, metabólicos e reprodutivos da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) na vida da mulher pode contribuir para ampliar o leque de estratégias para lidar com esse problema de saúde e ajudar a apontar caminhos possíveis para a condução do tratamento deste tipo de agravo. 

A análise dos achados foi conduzida com base em um diálogo crítico com os autores que abordam essa temática. A discussão dos estudos selecionados como amostra está estruturada em categorias baseadas nos aspectos centrais dessa temática e alinhadas com os objetivos do presente estudo.

3.1 Síndrome dos Ovários Policísticos

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), conforme abordado no artigo de Rangel et al. (2024), emerge como uma condição endocrinológica de alta prevalência em mulheres na idade reprodutiva, com implicações que transcendem a esfera reprodutiva, englobando disfunções metabólicas e endócrinas interconectadas. A definição diagnóstica, ancorada nos critérios de Rotterdam (hiperandrogenismo, anovulação crônica e morfologia ovariana policística), sublinha a heterogeneidade da síndrome e a necessidade de uma avaliação clínica abrangente para diferenciá-la de outras condições com manifestações semelhantes. A associação da SOP com um risco aumentado de doenças cardiovasculares, especialmente em presença de distúrbios metabólicos, reforça a importância de uma abordagem terapêutica que vá além do controle dos sintomas imediatos, visando a prevenção de comorbidades a longo prazo.

A exploração da etiopatogenia da SOP no artigo revela a complexa interação entre fatores genéticos e ambientais, com destaque para o papel central da esteroidogênese anormal e as alterações na liberação de gonadotrofinas e na resistência insulínica. A identificação de múltiplas variantes genéticas associadas à síndrome sugere uma predisposição poligênica, enquanto a resistência insulínica emerge como um fator chave que exacerba a produção de androgênios e interfere na regulação do ciclo menstrual. A ação sinérgica do IGF-1 com a insulina e o LH na produção de androgênios e na proliferação celular contribui para a compreensão da formação dos cistos ovarianos e das alterações na função reprodutiva. Essa intrincada rede de mecanismos fisiopatológicos ressalta a necessidade de estratégias de manejo clínico individualizadas e multidisciplinares, conforme enfatizado por Santos (2022), para otimizar a qualidade de vida das pacientes com SOP.

3.2 Epidemiologia da SOP

A predominância da faixa etária entre 20 e 30 anos, alinha-se com outros estudos que indicam uma maior probabilidade de diagnóstico durante o período reprodutivo ativo. Essa concentração etária sugere que as manifestações clínicas da SOP, como irregularidades menstruais e dificuldades para engravidar, motivam a busca por assistência médica nessa fase da vida. Compreender a distribuição etária é crucial para direcionar estratégias de rastreamento e intervenção precoce, a qual visa minimizar os impactos a longo prazo da síndrome (Ross; Godinho, 2023). 

Segundo Alves et al., (2022) a alta proporção de mulheres sem filhos (73,5%) na amostra estudada destaca um dos principais desafios associados à SOP: a infertilidade anovulatória. Esse achado corrobora outros estudos que também observaram uma elevada taxa de nuliparidade entre mulheres com SOP. A infertilidade, juntamente com o risco aumentado de aborto e complicações na gravidez, representa um impacto na saúde reprodutiva e no bem-estar emocional dessas pacientes. A compreensão da prevalência da infertilidade na SOP é essencial para o desenvolvimento de abordagens terapêuticas eficazes e para o suporte psicológico adequado às mulheres que desejam engravidar.

A distribuição étnica observada no estudo, com predominância de mulheres brancas, seguida por pardas, levanta questionamentos sobre a representatividade da amostra e o acesso aos serviços de saúde para diferentes grupos. Embora a SOP afete todas as etnias, a concentração em um grupo específico pode indicar disparidades no acesso ao diagnóstico e tratamento. Adicionalmente, a escolaridade predominante no ensino médio sugere um possível impacto do nível educacional na conscientização sobre a SOP, na busca por cuidados médicos e na adesão a tratamentos. Estratégias de informação e educação em saúde direcionadas a diferentes níveis de escolaridade podem ser cruciais para melhorar o manejo da síndrome em toda a população afetada (Steffen et al., 2024).

3.3 Impactos Psicossociais da SOP

A esfera psicossocial da vida da mulher com SOP é significativamente afetada, conforme consistentemente demonstrado na literatura analisada. A revisão sistemática conduzida por Rocha (2022) estabelece uma correlação entre a SOP e uma maior incidência de transtornos de humor debilitantes, como ansiedade e depressão. A etiologia dessa vulnerabilidade é complexa, envolvendo os desequilíbrios hormonais característicos da SOP, as manifestações clínicas visíveis e muitas vezes angustiantes (hirsutismo e acne, detalhadamente explorados por Martins et al., 2024), e os desafios frequentemente enfrentados no âmbito da fertilidade. Esses fatores, em sinergia, podem minar a autoestima e fomentar sentimentos de inadequação e desesperança. 

Adicionalmente, o estudo de Machado e Wichoski (2022), evidencia como as escolhas de estilo de vida desfavoráveis podem atuar como catalisadores, exacerbando tanto os sintomas físicos da SOP quanto seus correlatos psicológicos, intensificando o impacto negativo sobre a percepção da imagem corporal e o bem-estar emocional geral. As manifestações dermatológicas, que servem como sinais externos visíveis do desequilíbrio hormonal subjacente (Martins et al., 2024), frequentemente se tornam focos de angústia e autoconsciência, reforçando a necessidade de uma abordagem terapêutica que transcenda o puramente físico e abarque as dimensões emocionais e de autoimagem. 

A recomendação de uma abordagem integrada entre ginecologia e dermatologia no manejo da SOP (Martins et al., 2024) ressalta a importância de reconhecer e tratar as manifestações visíveis da síndrome como parte integral do cuidado psicossocial.

3.4 Alterações Metabólicas na SOP

O processo fisiológico da maturação folicular, essencial para a ovulação e regulação do ciclo menstrual, depende da orquestração hormonal precisa do eixo hipotálamo-hipófise-ovários. Em mulheres com ciclos regulares, a secreção pulsátil de GnRH pelo hipotálamo estimula a hipófise a liberar LH e FSH, hormônios que atuam sinergicamente nos ovários. O LH induz a produção de andrógenos nas células da teca, enquanto o FSH promove a conversão desses andrógenos em estrógeno pelas células da granulosa, hormônio crucial para o desenvolvimento folicular. Essa interação hormonal equilibrada resulta na maturação adequada do folículo de Graaf e na subsequente ovulação, um evento fundamental para a fertilidade feminina (Coelho, 2023).

Na Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), essa intrincada regulação hormonal é perturbada, culminando em um desequilíbrio caracterizado por níveis elevados de LH em relação ao FSH. O excesso de LH estimula uma produção exacerbada de andrógenos nos ovários, os quais, devido à relativa deficiência de FSH, não são totalmente convertidos em estrógeno. Essa deficiência de estrógeno prejudica o processo normal de maturação folicular, levando à formação de múltiplos cistos e à interrupção da ovulação. Consequentemente, mulheres com SOP frequentemente apresentam ciclos menstruais irregulares ou ausentes, o que representa a principal causa da infertilidade associada a essa complexa condição endócrina (Albernaz et al., 2024).

As alterações metabólicas representam um pilar central na patofisiologia da SOP e exercem um impacto na saúde a longo prazo das mulheres afetadas, conforme destacado nos estudos revisados. A resistência à insulina emerge como um fator patogênico chave (Cavalcante et al., 2021; Alves et al., 2022; Rangel et al., 2024), frequentemente coexistindo com a obesidade, e atuando entre os desequilíbrios hormonais e o aumento do risco de desenvolvimento de comorbidades metabólicas sérias, como o diabetes mellitus tipo 2 e a síndrome metabólica. 

A análise da etiopatogenia da SOP por Rangel et al. (2024) observa a complexa interação entre a predisposição genética, as alterações hormonais e os distúrbios metabólicos que caracterizam a síndrome. Em contrapartida, a pesquisa de Morawski et al. (2023) enfatiza o papel terapêutico fundamental das intervenções nutricionais no manejo da SOP, demonstrando o potencial de estratégias alimentares direcionadas para melhorar a sensibilidade à insulina, facilitar o controle do peso corporal e modular favoravelmente os níveis hormonais. Essa perspectiva reforça a ideia de que o manejo das alterações metabólicas não é apenas crucial para o alívio dos sintomas da SOP, mas também para a prevenção de complicações cardiovasculares e metabólicas a longo prazo, melhorando assim a saúde global e a qualidade de vida das pacientes.

3.5 Implicações Reprodutivas e Menstruais na SOP: Desafios à Fertilidade e ao Bem-Estar Ginecológico 

Os impactos da SOP na função reprodutiva e na regularidade dos ciclos menstruais são documentados na literatura analisada (Cavalcante et al., 2021; Alves et al., 2022; Rangel et al., 2024). A disfunção ovulatória, que se manifesta clinicamente por ciclos menstruais irregulares, infrequentes ou pela completa ausência de menstruação, constitui um dos critérios diagnósticos primários da SOP e representa uma das principais causas de infertilidade nessas mulheres. O ambiente hormonal alterado, caracterizado pelo hiperandrogenismo, interfere diretamente no processo delicado da foliculogênese ovariana, culminando na anovulação e, por conseguinte, em dificuldades para a concepção. 

As estratégias terapêuticas discutidas por Alves et al. (2022) e Rangel et al. (2024) abordam essas questões de forma direcionada, variando desde a prescrição de contraceptivos orais para a regularização dos ciclos menstruais até a implementação de tratamentos específicos para induzir a ovulação em mulheres que expressam o desejo de engravidar. A individualização do plano de tratamento, levando em consideração as necessidades específicas e os objetivos reprodutivos de cada paciente, emerge como um princípio fundamental para o manejo eficaz das implicações da SOP na fertilidade e na saúde menstrual, visando otimizar os resultados e melhorar o bem-estar ginecológico global. 

3.6 Tratamentos da SOP

A ausência de cura definitiva para a SOP direciona as intervenções terapêuticas para o alívio dos sintomas e o manejo das complicações metabólicas associadas. Não existe um medicamento específico para a SOP; os fármacos utilizados visam modular a ovulação, os níveis de andrógenos e a resistência à insulina. Anticoncepcionais orais atuam na regularização do ciclo menstrual, enquanto a metformina é empregada em pacientes diabéticas. O clomifeno induz a ovulação, e análogos do GnRH bloqueiam a síntese de andrógenos. A combinação de dimetildiguanida com citrato de clomifeno demonstra resultados promissores em análise clínica, com melhora no desenvolvimento folicular e taxas de ovulação (Silva et al., 2020).

Em casos de resistência ao tratamento medicamentoso, a perfuração ovariana laparoscópica surge como alternativa para induzir a ovulação. Esse procedimento minimamente invasivo envolve pequenas perfurações nos ovários por calor ou laser. Embora o mecanismo exato de sua eficácia não seja totalmente elucidado, a teoria predominante sugere uma queda nos andrógenos intraovarianos, que resulta em aumento da secreção de FSH e um ambiente folicular mais favorável à maturação e ovulação normal (Neves, 2022). 

Contudo, a intervenção no estilo de vida permanece a principal estratégia terapêutica, com a prática de atividades físicas e hábitos alimentares saudáveis contribuindo para a melhora dos perfis lipídicos e hormonais, além da redução do risco cardiovascular. A natureza fenotípica diversa da SOP exige um tratamento individualizado, considerando planos de gravidez, riscos metabólicos e complicações a longo prazo (Carvalho; Soares, 2022).

4 CONCLUSÃO

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma condição endócrina complexa, resultante de uma interação multifatorial entre predisposição genética, desregulações hormonais e fatores ambientais. Caracterizada pela tríade de hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e, frequentemente, pela presença de múltiplos folículos ovarianos, a SOP impacta significativamente a saúde da mulher em diversas esferas, com consequências que transcendem as manifestações clínicas imediatas.

No âmbito psicossocial, a SOP está associada a uma maior incidência de transtornos de humor, como ansiedade e depressão, além de afetar negativamente a autoestima e a imagem corporal. As manifestações físicas do hiperandrogenismo, como hirsutismo e acne, somadas aos desafios relacionados à fertilidade, contribuem para o sofrimento psicológico e a diminuição da qualidade de vida. No plano metabólico, a resistência à insulina desempenha um papel central na patogênese da SOP, influenciando a produção de andrógenos e elevando o risco de comorbidades a longo prazo, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, sendo a obesidade um fator que pode exacerbar essas alterações.

Em relação à saúde reprodutiva, a SOP é uma das principais causas de infertilidade feminina devido à disfunção ovulatória crônica. Mulheres com SOP também apresentam um risco aumentado de complicações obstétricas durante a gravidez, e as irregularidades menstruais impactam o bem-estar ginecológico e o planejamento familiar. Dada a complexidade e os múltiplos impactos da SOP, a literatura científica enfatiza a importância de uma abordagem multidisciplinar envolvendo ginecologistas, endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos para um manejo integral e eficaz, visando a melhora da qualidade de vida e a prevenção de comorbidades a longo prazo.

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1 Graduanda em Medicina. Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: anaclaracc97@gmail.com
2 Graduando em Medicina. Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: g.rafaell@yahoo.com
3 Doutora em Engenharia Biomédica pela Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP). Docente do curso de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: adgamairegor@gmail.com