SÍNDROME DO DESFILADEIRO TORÁCICO (SDT): SOB O OLHAR DO PROFISSIONAL E DO PACIENTE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510222132


Renati Schneider1
Chancarlyne Vivian2
Volnei Olszeski3
Jamir João Sardá Junior4
Diogo Alberto Lopes Bader5
Álvaro Cielo Mahl6


Resumo:

A Síndrome do Desfiladeiro Torácico (SDT) é designada por sinais e sintomas provocados pela compressão de estruturas neurovasculares. O estudo tem por objetivo compreender como a SDT interfere e é vivenciada pela pessoa com a síndrome, bem como, pelos profissionais que a acompanham. Pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, realizada com onze pessoas, selecionadas por conveniência. Sete participantes eram mulheres e quatro homens, com idades entre 30 e 48 anos, sendo 6 pacientes e cinco profissionais. A coleta de dados ocorreu em clínicas em um município do extremo oeste de Santa Catarina e outro município do norte do Paraná. Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada, e analisados por meio da análise de conteúdo. O estudo cumpriu integralmente os aspectos éticos. O trabalho interdisciplinar é imprescindível para atenção integral à saúde mental e física da pessoa com a síndrome, e que o diagnóstico precoce e o autoconhecimento são preditores do êxito do tratamento. Para tanto, o profissional da psicologia pode contribuir resgatando aspectos da subjetividade de pessoas diante desse contexto, além de auxiliar na compreensão e alívio do sofrimento psíquico. O estudo identificou que a pessoa com SDT adquire limitações em seu cotidiano alterando os mecanismos fisiológicos e psicológicos, tanto a forma neurogênica, venosa ou arterial, e eventualmente são acompanhadas por dor intensa. Entre a complexidade e multifatorialidade da síndrome, diversos fatores podem influenciar o impacto negativo da dor, incluindo intensidade, duração e sintomas, que consequentemente comprometem de forma significativa a qualidade de vida da pessoa com síndrome. O diálogo e a comunicação destacam-se como fator primordial, no desenvolvimento de vínculo, na compreensão e interpretação das vivências na SDT, tornando-se uma ferramenta fundamental para a efetividade do tratamento, somado ao trabalho interdisciplinar.

Palavras-Chave: Síndrome do Desfiladeiro Torácico. Psicologia. Interdisciplinaridade. Saúde. Dor.

1. INTRODUÇÃO 

A Síndrome do Desfiladeiro Torácico (SDT) é caracterizada por sinais e sintomas provocados pela compressão de estruturas neurovasculares, envolvendo o plexo braquial e vasos subclávios, localizada anatomicamente na parte inferior da região do desfiladeiro torácico. A síndrome foi descrita inicialmente em 1950 por Peet et al.,(1) é definida clinicamente em 1970, por Gilliatt et al.,(2) Essa condição  clínica surge a partir da existência de anormalidades congênitas, traumáticas e/ou adquiridas funcionalmente. As regiões neurovasculares percorrem os estreitos espaços do desfiladeiro torácico, entre ossos e músculos, desencadeando a compressão das estruturas.(3,4,5,6,7)

A forma mais comum da SDT é neurogênica em 95% dos casos, já a forma venosa representa 3%, e a arterial cerca de 1% dos casos, sendo a mais rara. A incidência média varia de três a oitenta casos por 1.000 pessoas, e a incidência venosa é de 1:100.000 pessoas ano.(7,8) A SDT, descrita como uma síndrome consideravelmente grave, normalmente atinge pessoas entre 20 e 40 anos, sendo de 1:4 proporção homem-mulher.(9,10,11) Às doenças raras podem ser definidas como crônicas e degenerativas e, se não tratada pode resultar em morbidade significativa.(12) Em estudos recentes(13,7) às estatísticas revelam que a SDT não é considerada uma síndrome rara pois seus achados são maiores que destacados na literatura. 

Os sintomas de SDT dependem do mecanismo fisiopatológico envolvido, tanto a forma neurogênica, venosa ou arterial, eventualmente são acompanhadas por dor intensa.(14,10) Os mecanismos podem ser considerados multifatoriais, relacionados a variações anatômicas, sendo caracterizada por uma condição debilitante, degenerativa, progressiva e crônica, envolvendo diversos fatores internos e externos, costelas cervicais, faixas fibrosas, músculos e ossos anômalos, hipermobilidade articular do pescoço e cintura escapular, além dos traumas considerados os mais comuns.(15) 

Ocasionalmente, é possível manifestar sintomas variados, ocorrendo redução da funcionalidade e comprometimento na qualidade de vida, com alterações físicas e/ou emocionais, como:  bloqueio de movimentos, atrofia muscular, dor, preocupações, sentimento de incapacidade, incerteza, medo, fadiga, frustração, dificuldade em concentração, humor, sono e em muitos casos, depressão. Contudo, não há dúvidas que a dor é uma experiência traumática e subjetiva, com repercussões na vida da pessoa. Conhecer os sintomas da síndrome é importante para o diagnóstico precoce e tratamento eficaz. (16, 17,18,10,11,7)

A interpretação da dor varia as condições causais, envolvendo aspectos cognitivos, comportamentais, culturais e sensitivos, com influência de natureza biológica e ambiental, em um complexo de emoções e sensações, para os quais a pessoa não encontra palavras ou representações, estas são baseadas em experiências vivenciadas.(19) Nessa direção, em 2019, o conceito e classificação da dor crônica foi acrescentada na Classificação Internacional de Doenças (CID-11).(20) Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), a dor é conceituada como “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada à, ou semelhante àquela associada, uma lesão tecidual real ou potencial”. (21)

Frequentemente, o tratamento clínico e conduta inicial da síndrome, procuram aliviar os sintomas e prevenir complicações, pois suas manifestações são variadas (4,6). O início do tratamento é conservador, com medidas farmacológicas, associadas a um programa de reabilitação e mudanças de hábitos, e em casos de agravo da patologia, é recomendado procedimento cirúrgico.(22,16, 3,4)

O procedimento cirúrgico ocorre quando há anomalias ósseas, complicações vasculares, parestesia do membro, perda de força, atrofia progressiva, aumento gradativo da dor, podendo causar prejuízos às atividades do cotidiano. Recentemente, o banco de dados do Programa Nacional de Melhorias da Qualidade Cirúrgica, American College of Surgeons, analisando alguns estudos, observou que a descompressão cirúrgica foi positiva para a síndrome.(23,10,11) Ainda, eventos recorrentes a complicações vasculares podem ocorrer, como trombose venosa, isquemia e aneurisma, sendo recomendado o uso de anticoagulantes para melhor passagem do fluxo sanguíneo.(4,10)

As implicações da SDT, podem deixar a pessoa em desequilíbrio com suas tarefas cotidianas, como a incapacidade física, aumento do nível de ansiedade, insônia e isolamento social, o qual pode influenciar o seu estado emocional, desencadeando sentimentos de desamparo e desesperança, que facilmente induzem à depressão, resultando em impactos significativos, sendo considerado frequentes os sintomas depressivos em pacientes com doenças físicas.(24,25)

Diante dos desafios da síndrome, a pessoa pode se encontrar em um vazio existencial, o que lhe impulsiona a reconstruir o sentido de sua existência. O caminhar da reconstrução subjetiva é único e pessoal, viabiliza que a pessoa realize mudanças e implique no seu processo de cura. No momento que a pessoa se encontra adoecida, ela também pode se reconhecer como confiante e redescobrir valores da vida, refletindo, assim, sobre quais são eles e qual a sua importância.(26,27)

O enfrentamento da síndrome depende dos recursos que cada pessoa possui, desenvolvendo estratégias para lidar com o desconforto da dor, como a busca por profissionais capacitados a orientar, com possíveis mudanças de hábitos e principalmente, preservando o equilíbrio emocional.(28,29)

Embora a síndrome seja uma condição física, a intervenção psicológica é fundamental no tratamento, pois auxilia a pessoa a lidar com a dor utilizando técnicas como: gerenciamento de estresse, ressignificação de crenças e valores, tomada de decisão, prevenção, adaptação, adesão ao tratamento e até mesmo uma nova visão sobre a patologia. Sabe-se que o estresse possui manifestações orgânicas e psicológicas, que podem contribuir no aumento do nível da dor.(17)

Em síntese, as reações psicológicas diante do adoecimento e diversas condições complexas associadas à dor, geram sentimentos antagônicos no ser humano. Reações essas, que podem afetar o funcionamento físico e psicossocial da pessoa.(24) Nesse sentido, é importante destacar que as pessoas com SDT recebam atenção não apenas para a sua condição física, mas também para sua saúde mental, pois é natural ter sentimentos contraditórios e conflitantes diante da patologia. Se a dor da pessoa está relacionada à dimensão emocional, cognitiva e interpessoal, faz sentido que o tratamento psicológico possa abordar estas nuances.(17)

É congruente destacar que olhar para a SDT remete pensar no cuidado e manejo da condição de forma interdisciplinar. Desta forma, compreendendo a interdisciplinaridade no sentido de intensificar o diálogo e integrar as metodologias de cuidado nos diferentes campos do saber, incorporando resultados de várias especialidades com o intuito de contribuir para a eficácia e assertividade do tratamento. Esta proposta sugere romper com as fragmentações das disciplinas, ciências e conhecimento e possibilitar diálogos interdisciplinares como contributos para pensar a saúde dessas pessoas, bem como, o desenvolvimento de estratégias de promoção e prevenção de agravos em saúde.(30,31)

A partir do exposto, o estudo objetivou compreender como a SDT interfere e é vivenciada pela pessoa com a síndrome, bem como, pelos profissionais que a acompanham. Diante disso, delineou-se a seguinte pergunta de pesquisa: Como a Síndrome do Desfiladeiro Torácico (SDT) é vivenciada pela pessoa com a síndrome e pelo profissional que o acompanha?

Estudar esse cenário é de suma importância, tendo em vista que a psicologia pode auxiliar com olhares e intervenções nesse campo, a fim de compreender os fatores emocionais experienciados pelas pessoas com SDT, sua relação com as experiências de dor, além dos significados dessas experiências, tanto para a pessoa com a síndrome, quanto para o profissional que a acompanha.  O debate contribuirá ainda para o campo científico, uma vez que a literatura expressa escassez de estudos sobre a temática na interface com a psicologia, além de avançar nas áreas do conhecimento da psicologia, da síndrome e de atuações interdisciplinares.

2. MÉTODOS

2.1 Desenho do Estudo

Este estudo de abordagem qualitativa e caráter descritivo, tem por intuito interpretar e compreender as vivências experienciadas, de pessoas com o diagnóstico da SDT, bem como, da equipe interdisciplinar. Para Minayo (2017),(32) a pesquisa qualitativa possibilita compreender, significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos, de modo a exprimir suas subjetividades. Assim, uma das vantagens da pesquisa qualitativa está em ser especialmente eficaz no estudo de nuances sutis da vida humana e na análise dos processos sociais ao longo da vida. É importante ressaltar que a pesquisa qualitativa, nessa não linearidade, possibilita que o investigador faça uma imersão na realidade (ambiente natural) e produza sobre este uma perspectiva interpretativa.

Com o objetivo de compreender os sentimentos atribuídos às experiências deste público, os dados foram coletados por meio de uma entrevista com roteiro semiestruturado, que permitiu aos participantes a expressão de suas vivências. Participaram do estudo seis pessoas com SDT e cinco profissionais, destas sete mulheres e quatro homens, com idades entre 30 e 48 anos. A seleção das participantes foi realizada por conveniência.

Figura 1. Caracterização dos participantes e cenário do estudo (ilustração elaborada pelos autores).

Inicialmente, foram localizadas pessoas que atendiam aos objetivos e critérios do estudo. Como critério de inclusão, foram convidadas pessoas, com idades entre dezoito (18) e sessenta (60) anos, incluindo neste estudo, profissionais que atuam em intervenções da SDT e pessoas com o diagnóstico. O cenário do estudo ocorreu em clínicas em um município do extremo oeste de Santa Catarina que é um município do norte do Paraná.  Para a realização das entrevistas os participantes foram consultados quanto ao local e disponibilidade de horário. As entrevistas foram agendadas antecipadamente, e realizadas em um único encontro, sendo que cada entrevista durou em média 45 minutos. Estas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas na íntegra, sem que haja exposição e identificação pessoal de cada participante envolvido. Ressalta-se que as entrevistas aconteceram mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Autorização de Gravação de Voz. 

A análise dos resultados, foi submetida a Análise de Conteúdo de Bardin (2016)(33) que abarca um conjunto de técnicas de análise de comunicações e interpretações, a qual também se define por uma análise de significados. Diante disso, o investigador deve buscar a compreensão das estruturas, características, mensagens ocultas, que são inerentes das propostas de comunicação, levando em consideração a análise dos significantes presentes.

Assim, com o intuito de preservar a identidade dos participantes da pesquisa, estes foram nomeados por letras, seguidas por números: P1, P2, P3, P4 e P5 (profissionais); e S1, S2, S3, S4, S5 e S6 (pessoas com SDT), com idades entre 30 e 48 anos. Destes, três homens e duas mulheres fazem parte da equipe interdisciplinar, e seis mulheres e um homem são pessoas com a síndrome. 

O estudo cumpriu integralmente as Resoluções nº 466 e nº 510 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), com todos os princípios éticos sugeridos em pesquisas com seres humanos.(34,35) Além disso, a proposta de investigação foi registrado na Plataforma Brasil sob o CAAE: 69314723.4.0000.5367, e submetida e aprovada sob parecer 6.134.869  pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise e discussão dos resultados dar-se-á a partir de cinco categorias de análise, nomeadamente: Diagnóstico e sintomas; Sentimentos e emoções; Desafios e tratamento; Estratégias de enfrentamento; Autoconhecimento e o cuidado em saúde frente a SDT.

3.1 Diagnóstico e sintomas

Para a pessoa com síndrome, desconhecer a condição clínica ou ignorá-la, pode gerar aumento do nível de estresse e sentimentos negativos de impotência. As entrevistas propagam o desespero e o medo diante do diagnóstico, resultando em impactos emocionais significativos. Dessa maneira, pensar na condição da pessoa com SDT, remete a deparar-se com desafios, frente ao novo, ao desconhecido: 

“Eu tive que investigar de onde estava vindo tanta dor! Tinha dor desde os 12 anos […] a busca do diagnóstico, não sabendo o que é […] é desesperador! […] realizei a cirurgia em 2017” (S3).
“[…] realizei o procedimento cirúrgico em 2012 […] o início foi uma montanha russa, medo do que estava por vir […] a palavra síndrome me causou pavor […]” (S5).

Diante do diagnóstico, as pessoas podem se encontrar em um vazio de significados afetando a vida pessoal, profissional e social da pessoa,(26) o que lhe impulsiona a buscar reconstruir o sentido de sua existência. O caminhar da reconstrução subjetiva é único e pessoal, viabiliza que a pessoa realize mudanças e implique no seu processo de cura. 

O medo do desconhecido, sob o olhar de pessoas com síndrome objetiva uma sensação de preocupação, incertezas e incapacidades em relação ao futuro. O medo caracteriza-se na pessoa pelo aumento do estado de alerta, sendo compreendido pela resposta emocional frente às situações percebidas como ameaçadoras, podendo gerar evitação a tais eventos vivenciados. Diante da confirmação do diagnóstico, os conflitos internos prevalecem o medo do desconhecido, o qual remete pensar nos desafios e enfrentamentos diante da doença.(36)  Neste sentido, foi possível perceber as dificuldades das pessoas com SDT em encontrar um profissional com expertise para o diagnóstico correto. Sob a visão profissional, fica evidente essa percepção: 

“[…] um diagnóstico sindrômico, e nem todo mundo está atualizado […] a maioria dos pacientes que pega aqui, tem mais de um ano que estão pipocando de médico em médico, até chegar em um diagnóstico […] então aí, quando ele chega, ele já está com uma dor crônica de difícil tratamento, de difícil reversão!” (P1).

O diagnóstico da SDT é inicialmente clínico, contudo, há necessidade de exames complementares, tais como: Teste de Adson; Ressonância Magnética Nuclear (RMN); Tomografia Computadorizada (TC); Eletroneuromiografia (ENM); Duplex-Scan, Angiotomografia (AT) e Ultrassonografia (USG).(2,3,6,10,18) para contribuir no tratamento precoce e resultado eficaz. Chancelando a verbalização do profissional acima, a literatura ilustra que fatores como falta de consenso clínico quanto ao diagnóstico, pouca conscientização da equipe médica, natureza subjetiva da patologia, pela gama de sintomas amplos como a dor, e indicativos de outras doenças fazem com que seja uma recorrência clínica de difícil diagnóstico.(37)

Os resultados apontam a dor como o maior sinal da síndrome. A dor é definida pela Sociedade Americana de Dor, como quinto sinal vital, elencando como um dos principais fatores de sofrimento.(38) A dor possui fenômenos sensoriais, afetivos e comportamentais podendo ser definida como uma experiência verdadeiramente subjetiva e complexa, influenciada por fatores internos e externos.(39) tais como, experiências de tristeza, desespero e a sensação de que os seus sentimentos não são compreendidos e respeitados, os quais desencadeiam emoções que podem ser desafiadoras e dolorosas. Transparece nas emoções e verbalização das pessoas com síndrome, que o pedido de ajuda feito por elas não eram compreendidos por familiares:

“A dor constante né, é o meu dilema! […] tem a sensação de um peso e dor na cervical, […] é incômodo, e eu não sou uma paralítica! dói muito! […] você se sente impotente, […] e o sentimento, ahh, de não ser amada! (choro) Eu sofri muito! você acaba sendo enrijecida, […] a dor me consumia demais e ninguém me compreendia […]” (S4).
A síndrome me impactou na minha funcionalidade, nos estudos, na concentração […] sinto muita dor, tristeza, angústia, […] essas emoções negativas, com relação ao meu futuro e isso gera medo do que vai ser da minha vida […]” (S6).
“Triste né, comecei a ter dor muito nova né, medicação já forte! […] nossa! dor é muito triste! […] acordava com dor, dormia com dor […] então é desesperador!” (S3). 

Diante dos relatos, a dor não é só invisível, mas incomensurável e imponderável.  A linguagem da dor é mais do que comunicar algo, inclui significados e sentimentos distintos e subjetivos. Caracterizada pela constância de estímulos que causam a dor, podendo resultar em perda de funções biológicas. O sofrimento vivido pela pessoa, desencadeia sintomas pela mudança de rotina como, impotência e estresse que levam a alterações emocionais.

Entre as principais manifestações do sofrimento emocional frente à doença destaca-se a depressão e ansiedade. Essas, podem resultar em prejuízos significativos tais como: aumento de nível da dor, baixo rendimento intelectual, insegurança, rejeição, inferioridade, baixa autoestima, pessimismo, desmotivação, sentimento de abandono e distanciamento das relações pessoais por não compreensão das queixas relacionadas a síndrome, pois as mesmas se manifestam em incertezas de recuperação em relação a doença.(40)

A principal característica da dor é uma sensação que surge quando há ameaça de danos aos tecidos. Reiterando essa afirmativa os autores Cavanna et al.,(18) consideram que a manifestação de sintomas é vasta, representada como neurológica e vascular, podendo também ser uma junção de ambos. O que vai ao encontro a verbalização do profissional quando afirma:

“[…] nos aspectos emocionais […] a dor é vista como um sintoma! Mas ela deveria ser vista como um sentimento! […] os pensamentos, emoções, tudo isso influencia na percepção da dor […]” (P1).

Em função das evidências acima supracitadas, na literatura existe ausência da compreensão da dor como um sentimento.  A relação entre a mente e o corpo é complexa e interconectada, podendo ser influenciada tanto pelos sintomas quanto pelos sentimentos.  Além disso, o estado fisiológico do corpo pode interferir nas emoções.(18) Considera-se uma informação de fundamental importância, no que afirma o participante profissional (P1), para que as pesquisas se intensifiquem em relação à interpretação da dor na SDT e seus respectivos significados.

3.2 Sentimentos e emoções

Emoções podem ser observadas pelos outros, sendo reações do organismo em resposta aos acontecimentos. Já os sentimentos, são os reflexos sobre como nos sentimos em relação a essas emoções, podendo ser acessível somente pela própria pessoa. As reações psicológicas e eclosão dos sentimentos é inevitável diante da experiência da dor e do adoecimento, a qual pode ser vivenciada como uma experiência traumática, vinculada a perda do estado saudável, de sonhos e planos futuros permeados por: tristeza, angústia, impotência, desespero, sofrimento, raiva, frustração, falha, bem como, ansiedade de não saber como lidar com a situação. Conforme ilustrada na verbalização de pessoas com síndrome entrevistadas, denota-se, o receio que outras pessoas enxergassem seus dilemas como fraqueza, bem como, percebeu-se a importância do cuidado em acolhimento, respeito e carinho: 

“Tristeza! É horrível! Eu não desejo isso pra ninguém! […] Sempre tá com dor né, é frustrante! […] Você dorme com dor, acorda com dor, você não consegue relaxar! […] ao mesmo tempo você tá frisando que você quer o acolhimento né! E não o afastamento né! […] eu não aguento mais, estou decepcionada comigo! (emoção)” (S2).
“[…] essa sensação de impotência! […] eu adoro ler, e eu não podia ler! […] Tu se sentes inútil! […] o mais difícil foi quando eu me afastei do trabalho […] pior do que não ser compreendida, é não ser respeitada!” (S5). 

Nas palavras e emoções expressas nos relatos, é possível observar sentimentos subjetivos e singulares, a partir das suas experiências, o que ora acaba por causar sofrimento. Todavia, esses sentimentos diante da patologia, refletem em impactos psicoemocionais, tais como: desordem psíquica, sofrimento intenso, desequilíbrios, conflitos internos, desencadeando preocupações e incertezas em relação ao futuro.(41) O vínculo, o cuidado, a compreensão e o respeito do familiar e pessoas próximas, objetivam ser a rede de apoio diante do enfrentamento da patologia.

Os profissionais verbalizaram que, quando o trabalho não é efetivo nos resultados desejados em relação a síndrome, também gera a sensação de impotência: 

“[…] sabe aquela coisa de impotência […] às vezes eu fico meio mal! […] eu não consigo zerar sua dor! […] Porque o paciente com dor quer atenção, quer resolver aquilo para ontem! […]” (P2).
“[…] e tem a questão do profissional que se frustra também, todo mundo é humano! […] gera uma sensação de impotência […] você recebe, processa, devolve e muitas vezes você não é efetivo, a gente não tem o preparo de trabalhar todos os aspectos, […] é difícil de conseguir essa comunicação e conseguir transformar […]” (P1).
“[…] embora eu saiba que eu esteja fazendo tudo que esteja dentro da minha capacidade, em alguns momentos da minha vida, parecia que eu não era o suficiente […]” (P3).
“[…] precisamos estar bem equilibrados emocionalmente, priorizando o cuidado da saúde mental do profissional e do paciente” (P5).

A abordagem interdisciplinar em saúde consiste no trabalho com diferentes profissões e objetivos comuns relacionados à saúde e ao bem-estar das pessoas com síndrome. Nesse modelo, a colaboração e o trabalho em equipe são fundamentais, compartilhando informações, conhecimentos e habilidades para proporcionar a melhor assistência possível à pessoa com síndrome.(41,22) Foi possível observar essas nuances emocionais expressas nos profissionais entrevistados, percebendo-se a necessidade do cuidado e do olhar, para a equipe interdisciplinar e para a pessoa com síndrome, reconhecendo a importância de o profissional da psicologia estar inserido neste contexto, objetivando melhores resultados no cuidado em saúde mental.(42)

Tal comparação nos leva a refletir e compreender, correlacionando as falas dos profissionais participantes, os quais possuem o sonho da interdisciplinaridade, que aos olhos de Japiassu (1981), citado por Varella e Fazenda (2015),(30) “O esmigalhamento do conhecimento revela uma inteligência esfacelada”. Esse mesmo autor afirma que “[…] devemos continuar acreditando que, para mudar o mundo, precisamos pensá-lo […] e para pensá-lo em profundidade precisamos querer mudá-lo” (Japiassu, 1981).(30)

Outro sentimento, que emergiu durante as entrevistas foi a desesperança, que pode ser considerada uma crença sem perspectiva de futuro, a qual recorre a recursos cognitivos persistentes, os quais podem estar relacionados ao pensamento de morte, ou ato em si. Pessoas sem expectativas, objetivos, metas futuras podem perder a motivação pela vida, desacreditando nos seus valores, no sentido da vivência e potencialidades próprias.(19) No que tange os relatos das pessoas com síndrome, observou-se vivências manifestas de tristeza, desespero, desesperança e esperança com relação a seus sentimentos:

“Visão negativa né! […] um inferno pra mim sabe […] ah eu acho que o sentido da vivência, eu acho que a vida é dor e sofrimento mesmo […]” (emoção) (S1).
“[…] é desesperador, não tenho amor nenhum! Não tenho esperança! Tem vezes que eu já saí daqui, chegando em casa com as receitas na mão falando […] que eu queria desistir! (choro)” (S2).

A depender da intensidade e rigor da vivência, pode levar a quem sofre a pensamentos de morte. Merecendo destaque os estudos de Wenzel et al.,(19) os autores acrescentam que a psicologia deve focar na prevenção do suicídio, na busca por estratégias de valores, os quais provocam esperança, propósitos e objetivos futuros com a pessoa com síndrome. Devido a essa imagem de fragilidade e impactos atribuídos ao olhar das pessoas com SDT, fica visível a importância de o profissional psicólogo estar inserido nesta jornada, sob a ótica de ressignificar e resgatar valores, objetivando o cuidado com a saúde mental. 

Segundo o autor Japiassu (2013 apud Varella; Fazenda, 2015, p. 45)(30) devemos “entender que os pensamentos são múltiplos entre as profissões e é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo”. Diante das vivências dos profissionais, perceber seus próprios limites, se autoconhecer foi fundamental, pois os sentimentos advindos da sobrecarga, pode desencadear sofrimento mental:

“[…] não, a gente não tem uma vara mágica de salvar todo mundo, quando você começa fazer isso aí você começa errar! não é esse o caminho, a gente precisa entender que somos limitados […]” (P5).
“[…]não existe uma barreira entre mente e corpo […] a humildade, o autoconhecimento, se perceber se você está sobrecarregado, isso é fundamental!” (P4).

Tais verbalizações reforçam a importância do papel dos profissionais da saúde no cuidado com os atendidos, uma vez que considerarem a dor como um elemento de orientação do diagnóstico e tratamento, tendo como base a compreensão empática da pessoa e a importância do conteúdo que é expresso na fala das pessoas e de sua comunicação não verbal. Durante as entrevistas, foi possível identificar as expressões faciais, postura, gestos, contato visual, tom de voz,  bem como, sentimentos manifestos por: choro,  raiva, tristeza, evidenciando que a dor é subjetiva e somente a pessoa poderá mensurar sua intensidade. 

3.3 Desafios e tratamento

Nas palavras de pessoas com síndrome entrevistadas, observou-se os impactos e desafios vivenciados: 

[…] a dor me impacta de uma maneira generalizada, no humor, meu sono não é de fato de qualidade […] (S1).
[…] é um desafio todos os dias, conviver com a SDT […] tem dor, tem formigamento, é   noites sem dormir […] (S5).

Considerar as reações desencadeadas pela dor na SDT, reconhecer quais são os limites, visto que os impactos agem diretamente desencadeando problemas de incapacidade, alterando o humor, sono e interferindo na realização de tarefas cotidianas é de extrema relevância. Em função dessas evidências, o sono é um estado fisiológico que ocorre de maneira cíclica e desempenha um papel fundamental na saúde e no bem-estar da pessoa com síndrome. Suas principais funções consistem na restauração física e mental, na consolidação da memória, na regulação do humor, na promoção do crescimento e no fortalecimento do sistema imunológico. Adotar um estilo de vida saudável, estabelecer hábitos regulares de sono com descanso adequado, é essencial para a promoção de saúde e bem-estar físico e emocional.(29)

No cotidiano, o trabalho na visão dos profissionais entrevistados, foi caracterizado como desafiador na compreensão e conscientização para com seus pacientes: 

Você demanda energia! e o paciente de desfiladeiro […] você precisa conversar mais, ouvir mais e é difícil de conseguir conscientizar (P1).
[…] o maior desafio é conseguir passar a ideia ao paciente, de que se manter funcional mesmo com a dor é fundamental […] (P3).

Nessa perspectiva, cuidar de quem cuida, refere-se a equipe interdisciplinar frente aos desafios do cotidiano. Convém não esquecer que todo profissional é antes de tudo um ser humano, e o cuidado com sua saúde física e mental é considerado crucial. As evidências para lidar com a dor crônica na síndrome é um desafio complexo e multidimensional que requer esforços coordenados de profissionais e sistemas de saúde, além da sociedade em geral. É um campo em constante evolução à medida que novas abordagens e tecnologias emergem, e a ênfase na melhoria da qualidade de vida das pessoas com dor crônica permanece essencial.(29)

Os relatos de pessoas com SDT, evidenciaram a importância do autoconhecimento:

É estar em movimento, […] 90 % é a cabeça da pessoa para melhorar (S3).
[…] acho que manter o foco, não menosprezar o problema, buscar autoconhecimento (S4).
[…] aprender a lidar com a sua limitação! encontrar um novo ponto de equilíbrio! (S5).

Nesse sentido, entre limitações e fragilidades para a pessoa com síndrome compreender e aceitar o processo, encontrar equilíbrio mental e manter o foco no tratamento é fundamental para uma abordagem eficaz e compassiva. As ações desempenham um papel significativo na forma como a pessoa percebe, interpreta e lida com a situação vivenciada. Diante dessas vivências e da complexidade do fenômeno doloroso na síndrome, o tratamento interdisciplinar e a compreensão em relação a pessoa como ser único priorizando o cuidado humanizado é considerado vital, com objetivos de promover estratégias de enfrentamento viabilizando reduzir as vulnerabilidades, e aumentando as potencialidades do ser humano. Chancelando a visão dos profissionais, acrescentam: 

[…] o tratamento da dor é atividade física, é compreender o processo […] (P1).
O paciente com dor crônica por vezes é um paciente paliativo, e aí vem a parte emocional, […] precisa de um trabalho interdisciplinar e humanizado (P2).

O diagnóstico precoce continua sendo um preditor no êxito do tratamento, e para a ação efetiva é necessária articular ações interdisciplinares, para analisar o quadro clínico da pessoa com síndrome e diagnóstico eficaz. No tratamento são indicados medicamentos para controle dos sintomas, a fisioterapia e a atividade física, com objetivo de fortalecimento dos músculos e reabilitação, a psicoterapia para compreensão do processo e ressignificação de eventos que ocorrem no decorrer da vida, e o procedimento cirúrgico quando as técnicas anteriores não obtiveram melhoras significativas, ou quando há piora do quadro clínico.(3,15,22) Essas alternativas servem para otimizar o alívio das variadas sintomatologias e modificação de estilo de vida. No entanto, é preciso avançar nas pesquisas, pois há poucos estudos referente aos cuidados da saúde mental na SDT.            

3.4 Estratégias de enfrentamento

As estratégias de enfrentamento, referem-se a um conjunto de técnicas psicológicas e comportamentais diante dos desafios do cotidiano.  No que tange o relato da participante com síndrome: 

[…] quando entendi que não me impossibilitaria, aí fui buscar o equilíbrio […] hoje entendi a concepção dessa doença, que eu e ela temos que conviver até o fim da vida! Não tem divórcio! […] remédio não cura, ele alivia! […] tive coragem e aí adaptei minha vida […] para viver bem! […] aprender a lidar com o meu limite! […] acho que esse é o grande aprendizado! (S5).

Assim, percebe-se sob a ótica dos profissionais, em suas palavras estratégias práticas e adaptativas:

Coragem, de conhecer sua própria história […] flexibilidade física e mental, de como eu vou lidar e compreender aquele processo […] é ampliando o olhar […] o ser humano não é só corpo! […] a mudança acontece dentro de você!” (P4).
[…] é compreender que dor crônica no caso do desfiladeiro não vai ter a solução 100 %! O caminho é interdisciplinar, pois uma andorinha só não faz verão, não! […] (P2).

As estratégias de enfrentamento, a adaptação e os limites, ao olhar de pessoas entrevistadas expressas através dos sentimentos, os quais não são determinados somente pelas situações vivenciadas, mas pelo modo como as pessoas as interpretam. Nesta visão, os transtornos psicológicos decorrem de um jeito distorcido ou disfuncional de perceber os acontecimentos, influenciando os afetos e os comportamentos.(19)

A coragem foi outra estratégia determinante tanto na visão profissional, quanto da pessoa com síndrome, impulsionando um novo olhar e sentido para sua vivência. A coragem é considerada uma qualidade das pessoas, e possui significado de enfrentamento dos desafios. Nas entrevistas ficou claro a importância de compreender, ressignificar, desenvolver habilidades e se potencializar, com o objetivo de alcançar melhores resultados e qualidade de vida.  

Em função das evidências percebidas nas entrevistas, fica claro que o trabalho em equipe interdisciplinar, possa auxiliar a pessoa a desenvolver habilidades e identificar fatores de vulnerabilidade como: os pensamentos automáticos e crenças disfuncionais, apreendendo a administrá-los, promovendo estratégias de enfrentamento em situações de conflito ou desesperança e riscos. Os pontos de apoio e confiança, bem como, de pessoas próximas são fundamentais neste processo.(19)

3.5 Autoconhecimento e o cuidado em saúde frente a SDT

A maneira como a pessoa estrutura as suas experiências determina o modo como ela se sente e se comporta. Os sentimentos nem sempre são determinados por situações, mas pela maneira como as pessoas as interpretam e processam as informações. Nesta visão, os transtornos psicológicos decorrem de um jeito distorcido ou disfuncional de perceber os acontecimentos, influenciando os afetos e os comportamentos.(19) O autoconhecimento e a autoconfiança são fundamentais para crescimento pessoal, no desenvolvimento ao longo da vida. Desenvolver estratégias e se perceber no processo, gera mudanças que proporcionam melhores hábitos de vida diante de relatos das pessoas com síndrome:

“Faço psicoterapia, essa é a maior sorte do mundo! Quando eu entendi a SDT, que eu e ela vamos juntas até o fim, e ela não me define! […] o mais importante, é que meus familiares me cuidam, e eu aceito ser cuidada!” (S6).
“[…] A mente e o corpo têm que trabalhar juntos!” (S3).

Percebe-se nos relatos das participantes, a importância da psicoterapia para pessoas com síndrome. O processo do tratamento psicoterapêutico utiliza-se de técnicas que visam priorizar a relação terapêutica segura, de respeito genuíno, sem julgamentos, com empatia e competência, objetivando promover saúde mental. Neste sentido, defende-se o ponto de vista de autores que a aceitação, a percepção e compreensão de si mesmo, organizando pensamentos automáticos e crenças disfuncionais, as quais podem ser influenciadas pelas construções sociais e culturais, ajudariam nas construções de identidades e ressignificação do ser humano.(43)

A dimensão da espiritualidade diante do que destacam as autoras,(44) dialogam manifestando crenças que potencializam o ser humano, podendo encontrar sentido, significados e maior bem estar espiritual. Visto que a dor pode desencadear perdas de objetivos futuros, bem como desesperança. A espiritualidade demonstram ser fator essencial entre as estratégias de enfrentamento da doença e superação, com a necessidade de obter forças internas, como se evidencia nos depoimentos dos participantes profissionais:

“[…] você tem que passar aquela confiança, o vínculo! […] O conforto da parte familiar, religiosa ajuda muito […]” (P2).
“[…] preciso criar um vínculo, a comunicação é fundamental […] ao conceito que o paciente vem, da dor dele, o que ele acredita […] preciso validar essa crença no momento inicial, para que posteriormente a gente consiga trabalhar a educação em dor de forma gradual […]” (P3).
“[…] você precisa olhar para a dor […] compreendendo o universo na síndrome, isso é fundamental! […] indico psicoterapia sim, é nítido o processo de quem faz esse acompanhamento […] você só consegue fazer escolhas saudáveis […] na medida que se conhece” (P4).

Transmitir um prognóstico é muito mais do que dizer palavras, é a observação minuciosa e a escuta atenta, no cuidado humanizado. A comunicação, o fortalecimento de vínculo e compreender o universo que envolve a síndrome é fundamental, para o processo de ressignificação e escolhas mais assertivas. O fortalecimento do vínculo e as estratégias devem ser construídas no atendimento de psicoterapia, para que em momentos de crise a pessoa com síndrome possa recorrer a sua segurança.(19)

Assim, considera-se fundamental compreender os aspectos emocionais, os significados e sentidos atribuídos pelas pessoas com síndrome em relação às suas vivências. Desse modo, o acompanhamento psicológico pode contribuir para o fortalecimento do paciente e profissional, possibilitando a melhor compreensão do fenômeno a que se refere às emoções atreladas à SDT.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo objetivou compreender como a SDT interfere e é vivenciada pela pessoa com a síndrome, e pelos profissionais que a acompanham, evidencia a presença de demandas emocionais e impactos que afetam o funcionamento físico e psicossocial, gerando consequências relevantes e que se somam a presença da síndrome. Diante disso, foi possível identificar e compreender cada experiência a partir de sua singularidade, observando a realidade a qual espelha os impactos manifestos nas vivências de pessoas com síndrome. O adoecer lembra a pessoa de sua impotência diante do inesperado, o que gera desequilíbrio como: choro, raiva, medo, tristeza, desesperança, angústia, ansiedade, isolamento social e vontade de desistir da vida.

Doravante, verificou-se que o diagnóstico da SDT adquire um caráter limitante, alterando os mecanismos fisiológicos e psicológicos, emergindo sentimentos e emoções distintas, tais como: dificuldade no sono, alterações no humor, afetos, dor, medo, tristeza, desespero, decepção, fragilidade, incapacidade, culpa, raiva, impotência, estresse, dificuldade de concentração, diminuição de funcionalidade, incompreensão, incerteza, ansiedade, angústia, desamparo, preocupação e sintomas depressivos diante dos impactos vivenciados,  comprometendo de forma significativa a qualidade de vida da pessoa com síndrome.

A presença da dor é um elemento que está fortemente presente. Essa dor que é invisível, incomensurável e imponderável, apresentando-se em intensidades distintas, únicas e subjetivas, evidenciadas com impactos físicos e psíquicos. Em suma, a interpretação da dor ilustrada pelos participantes varia sob as condições causais, em um complexo de emoções e sensações, para os quais a pessoa não encontra palavras ou representações, estas são baseadas nas experiências vivenciadas. Se a dor da pessoa está relacionada à dimensão emocional, cognitiva e interpessoal, faz sentido que o tratamento psicológico possa agir por cada uma dessas nuances.

O estudo ainda notabilizou que o trabalho interdisciplinar na síndrome é de suma importância, o que propõe romper com as fragmentações das disciplinas, na construção de um saber inovador, com conexões e vínculos entre si, objetivando o conhecimento abrangente, diversificado e unificado, integrando e dialogando entre metodologias nos diferentes campos do conhecimento. O diálogo e a comunicação destacam-se como fator primordial, no desenvolvimento de vínculo, na compreensão e interpretação das vivências na SDT, tornando-se uma ferramenta fundamental para a efetividade do tratamento. 

Por fim, os relatos ilustram que para desvendar algumas lacunas o processo psicoterapêutico é um momento concludente, uma vez que as intervenções psicológicas são fundamentais no tratamento da pessoa com SDT.  Em síntese, é preciso compreender as alterações emocionais vivenciadas pela pessoa com síndrome, e acompanhar o processo de elaboração dessa vivência. Para que esse fenômeno seja compreendido com profundidade, torna-se imprescindível que sejam realizados outros estudos e publicações que intensifiquem as práticas psicológicas e o trabalho interdisciplinar no contexto da SDT, priorizando o cuidado em saúde mental. 

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1Psicóloga Clínica graduada pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Intercâmbio Internacional (On-line) na Universidade Autônoma de San Luis Potósi (UASLP) México. Pós graduada em Dor pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (Especialista em Dor). Psicóloga Clínica e na Instituição Rede Feminina de Combate ao Câncer (RFCC) de Pinhalzinho, SC. Membro da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SBED. E-mail: psi.renatischneider@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0837-7163 
2Psicóloga Clínica graduada pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Docente no curso de graduação em Psicologia e pós-graduação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Especialista em Avaliação Psicológica pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Mestre em Ciências da Saúde pela UnoChapecó. Pesquisadora do projeto RISE-Health. E-mail: chancarlyne.vivian@unoesc.edu.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3697-4109
3Psicólogo Clínico graduado pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Graduado e Licenciado em Filosofia com habilitação em História e Psicologia da Educação (FAFIMC). Pós Graduado em Metodologia do Ensino de História e Geografia Educon. Licenciado em Ciências da Religião pela Uninter. Docente Coordenador da clínica de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). E-mail: psicologovolneipzo@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6708-760
4Psicólogo graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Gestalt Terapia. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutor em Medicina pela The University of Sydney – Austrália. Docente do Curso de Psicologia pelo programa de Pós Graduação em Psicologia (Mestrado Profissionalizante) da Universidade do Vale do Itajaí – Univali, nos campis FLN, BIG e Itajaí, atuando nas áreas de professor, pesquisa e clínica. Psicólogo clínico da Espaço da ATM, Fluir Saúde e da Uno. É membro atuante da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, sendo coordenador do Comitê de Saúde Mental e Dor e da International Association for the Study of Pain. Docente da Pós Graduação em dor pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Conselheiro da X Plenária do CRP/SC (2019-2022). E-mail: jamirsarda@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9580-8288
5Médico Ortopedista e Traumatologista. Cirurgião especialista em Ombro e Cotovelo. Graduado em Medicina pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Residência Médica em Cirurgia do Ombro e Cotovelo pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atua na área de Ortopedia e Traumatologia com ênfase em Artroscopia e Cirurgia do Ombro e Cotovelo. E-mail: drdiogobader@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0243-991X
6Psicólogo graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenador do curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Docente no curso de graduação em Psicologia e pós-graduação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC).  Pós-graduação em Avaliação Psicológica e Diagnóstico da Fundação Educacional Unificada do Oeste de Santa Catarina. Mestre em Psicologia do Desporto e do Exercício pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal. E-mail: alvaro.mahl@unoesc.edu.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6281-565X