REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510190823
Betina Taiar Aguillar1
Gabriel Junqueira Guimarães2
Enrico Taiar Aguillar3
Giovana Naccarato Ferreira de Camargo4
Bárbara Diniz Greco de Melo5
Resumo
A Síndrome de Stevens-Johnson (SSJ) e a necrólise epidérmica tóxica (NET) constituem reações mucocutâneas graves, majoritariamente induzidas por fármacos, com elevada morbimortalidade. Embora a fase aguda seja amplamente descrita, as manifestações clínicas tardias permanecem subcaracterizadas e subtratadas. Esta revisão analisou criticamente estudos publicados entre 2013 e 2025 nas bases PubMed, Scielo e Web of Science sobre sequelas crônicas em sobreviventes de SSJ/NET, incluindo acometimento ocular, respiratório, geniturinário, cutâneo e repercussões psicossociais. Os achados mostram que as sequelas oculares são as mais prevalentes e incapacitantes (olho seco grave, simbléfaro, ceratopatia cicatricial, deficiência de células-tronco limbais), seguidas por bronquiolite obliterante, estenoses genitais, alterações pigmentares e onicodistrofias. A carga psicossocial é elevada, com depressão, ansiedade e sintomas de TEPT persistentes. A adoção de protocolos de acompanhamento multidisciplinar, rastreamento de alto risco e intervenção precoce reduz a morbidade e melhora qualidade de vida a longo prazo. Conclui-se que a SSJ deve ser entendida como condição crônica multissistêmica que requer vigilância estruturada pós-alta, integração de especialidades e pesquisa translacional para padronização de cuidados na fase crônica.
Palavras-chave: Síndrome de Stevens-Johnson; complicações tardias; sequelas oculares; bronquiolite obliterante; qualidade de vida.
Introdução
A SSJ/NET compreende um espectro de dermatotoxicidades imunomediadas caracterizadas por necrose epidérmica maciça, descolamento cutâneo e erosões mucosas extensas, geralmente precipitadas por anticonvulsivantes, antibióticos e AINEs. Apesar da redução da mortalidade com manejo agudo especializado, a sobrevida expõe pacientes a um conjunto heterogêneo de sequelas crônicas que comprometem visão, função pulmonar, integridade urogenital, homeostase cutânea e saúde mental. A ausência de protocolos padronizados para a fase crônica e a heterogeneidade metodológica dos estudos dificultam a estimativa da verdadeira carga de doenças. Este trabalho expande criticamente os Resultados com base em 20 publicações relevantes, descrevendo em profundidade a natureza, a frequência e o impacto das complicações tardias, além de apontar direções práticas para vigilância e manejo.
Objetivo
Descrever e analisar criticamente as manifestações clínicas tardias em sobreviventes de SSJ/NET, conectando evidências de 20 estudos relevantes para orientar seguimento e manejo.
Metodologia
Foi realizada uma revisão narrativa da literatura entre janeiro de 2013 e outubro de 2025. As buscas foram conduzidas nas bases PubMed, Scielo e Web of Science, utilizando descritores em português e inglês: ‘Síndrome de Stevens-Johnson’, ‘Stevens-Johnson syndrome’, ‘late complications’, ‘sequelas’ e ‘long-term outcomes’. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, consensos e estudos observacionais que descrevessem complicações crônicas em sobreviventes de SSJ, com amostras mínimas de 20 pacientes e acesso a texto completo. Excluíram-se relatos de casos isolados, estudos experimentais em animais e artigos sem análise de sequelas tardias.
A busca inicial identificou 184 artigos. Após exclusão de duplicados (n=32) e triagem por título e resumo (n=98), 54 artigos foram avaliados integralmente. Destes, 42 não preenchiam os critérios de inclusão, resultando em 12 artigos selecionados para análise final. Os dados extraídos incluíram características da população estudada, tipos de complicações relatadas, tempo de seguimento e impacto funcional.
Resultados
A literatura converge que as sequelas oculares são as mais frequentes e incapacitantes na fase crônica. Revisões e coortes descrevem olho seco refratário, simbléfaro, triquíase, ceratopatia cicatricial, deficiência de células-tronco limbais e neovascularização corneana como determinantes de baixa acuidade visual e cegueira legal. Estratégias de prevenção iniciadas na fase aguda (lubrificação intensiva, remoção de pseudomembranas, lentes terapêuticas, corticoterapia tópica criteriosa) se associam a menor gravidade crônica, mas a necessidade de reabilitação ocular permanece alta nos sobreviventes.
Uma revisão de 2022 enfatizou a natureza inflamatória crônica da superfície ocular pós-SSJ/NET, sustentada por alterações conjuntivais e de margem palpebral, que alimentam um ciclo de dano epitelial e fibrose. A presença de queratinização e de disfunção meibomiana agrava a instabilidade do filme lacrimal. Intervenções como transplante de membrana amniótica e terapia de reposição de mucina foram associadas a ganhos funcionais parciais, ainda que heterogêneos.
Uma auditoria multicêntrica francesa publicada em 2023 identificou variabilidade expressiva nas condutas crônicas e propôs consenso terapêutico escalonado, incluindo higiene palpebral, imunomodulação tópica, próteses esclerais e abordagem cirúrgica de estenoses conjuntivais. A padronização visou reduzir cicatrização progressiva e preservar visão residual quando o transplante de limbo não é viável.
Estudos multicêntricos mostram que protocolos estruturados na fase aguda, com classificação de severidade ocular, avaliação diária por oftalmologia e uso precoce de membrana amniótica, reduzem significativamente a taxa de sequelas severas na crônica, traduzindo-se em melhor acuidade visual final e menor necessidade de cirurgias reconstrutivas.
Em conjunto, as publicações corroboram que a prevenção secundária agressiva e o seguimento especializado são determinantes para mitigar cegueira. Persistem lacunas sobre o timing ótimo de intervenções e sobre o papel de terapias biológicas na inflamação crônica da superfície ocular.
A BO é rara, porém devastadora. Revisões e relatos de séries ampliadas documentam dispneia progressiva, obstrução fixa ao fluxo aéreo e hiperinsuflação, frequentemente refratárias à broncodilatação. A fisiopatologia sugere dano epitelial brônquiolar imunomediado, com fibrose concêntrica dos bronquíolos. Casos pediátricos e adultos mostram necessidade de oxigenoterapia de longa duração e risco de insuficiência respiratória crônica.
Alguns pacientes evoluem para falência respiratória terminal, sendo o transplante pulmonar considerado em centros especializados. Relatos recentes indicam que, embora desafiador, o transplante pode oferecer sobrevida aceitável e melhora funcional, mas faltam coortes prospectivas para definir critérios de seleção e prognóstico pós-transplante em SSJ/NET.
Apesar de a BO ser incomum, revisões de 2019–2023 consolidaram pelo menos uma dezena de casos bem documentados, sugerindo subdiagnóstico. Espirometria seriada e TCAR anual nos primeiros 2–3 anos pós-alta podem detectar declínio funcional precoce, viabilizando reabilitação pulmonar e imunomodulação onde aplicável.
O envolvimento genital pode alcançar dois terços dos casos na fase aguda e evoluir com estenoses, sinéquias e dispareunia. Estudos observacionais reportam sequelas persistentes, com impacto na sexualidade, fertilidade e qualidade de vida. Protocolos de prevenção com estrogênios tópicos, dilatadores e fisioterapia do assoalho pélvico mostraram benefício, embora a adesão de longo prazo seja variável.
Diretrizes ressaltam documentação inconsistente do acometimento vulvovaginal e ausência de fluxos assistenciais padronizados, o que atrasa intervenções. O seguimento conjunto dermatologia–ginecologia–urologia reduz estenoses tardias e favorece recuperação funcional sexual.
Pesquisas transversais e qualitativas indicam elevada prevalência de depressão, ansiedade e sintomas de TEPT meses a anos após a alta. Escore de qualidade de vida dermatológica permanece abaixo do da população geral, impulsionado por dor crônica ocular/cutânea, limitação visual e estigma. A integração de cuidado psicológico desde a fase aguda está associada à melhor reabilitação global.
Levantamentos de 2023–2025 reforçam que as repercussões mentais são sub-reconhecidas e subtratadas. Programas de acompanhamento estruturado com triagem periódica para depressão, ansiedade e TEPT são recomendados, com encaminhamento para psicoterapia e, quando indicado, farmacoterapia.
Hiper/hipopigmentação extensa, cicatrizes atróficas, alterações ungueais (onicomadese, distrofia), alopecia cicatricial localizada e xerose são frequentes. Embora raramente ameacem a vida, causam impacto psicossocial substancial. Fotoproteção, emolientes de alto desempenho e terapias tópicas anti-inflamatórias compõem a base do manejo; casos selecionados podem se beneficiar de procedimentos reparadores.
Os estudos sugerem que a persistência de inflamação de baixo grau e remodelamento fibrótico em superfícies mucosas e epitélios especializados explicam a progressão tardia. Nos olhos, a deficiência de células-tronco do limbo e a queratinização da margem palpebral perpetuam dano. No pulmão, fibrose bronquiolar concêntrica fixa a obstrução. Na genitália, sinequização e estenose resultam de cicatrização exuberante.
Há consenso emergente de que medidas aplicadas nas primeiras semanas (oftalmologia precoce, lubrificação intensiva, membrana amniótica, cuidado genital com estrogênio/dilatadores, reabilitação respiratória inicial) influenciam significativamente a carga tardia. Serviços com protocolos integrados relatam menos sequelas severas em segmentos de 1–5 anos.
Escore SCORTEN e gravidade ocular aguda predizem parcialmente desfechos crônicos, mas há necessidade de marcadores biológicos e clínicos para seleção de alto risco. Propõe-se seguimento mínimo de 24 meses com avaliação oftalmológica, respiratória e geniturinária programadas, além de triagem psicossocial semestral.
Séries contemporâneas descrevem benefícios de próteses esclerais, transplantes de limbo e reconstruções conjuntivais, com melhora de conforto ocular e função visual em subgrupos selecionados. Na via aérea, broncoscopia intervencionista e, raramente, transplante pulmonar são opções para casos graves de BO. Na genitália, cirurgia reconstrutiva pode restaurar função sexual e miccional.
Relatos pediátricos de BO indicam curso particularmente agressivo, com maior probabilidade de hospitalizações reiteradas e atraso no crescimento por limitação funcional. Em contraste, adultos exibem maior carga de sequelas oculares e psicossociais, demandando estratégias de reabilitação diferenciadas por faixa etária.
Há falta de ensaios prospectivos de longo prazo e de registros nacionais que quantifiquem incidência real de sequelas e testem intervenções. Auditorias multicêntricas recentes são passo inicial para consensos terapêuticos; esforços colaborativos internacionais são necessários para estabelecer guidelines para a fase crônica.
Integrando as 20 publicações analisadas, a SSJ/NET deve ser manejada como condição crônica multissistêmica. Protocolos de seguimento estruturado, prevenção secundária precoce e reabilitação interdisciplinar reduzem a carga de incapacidade. A documentação sistemática das sequelas e a educação do paciente são componentes essenciais para resultados sustentáveis a longo prazo.
Conclusão
Sobreviventes de SSJ/NET enfrentam espectro amplo de sequelas tardias, com predomínio de comprometimento ocular, seguido por danos respiratórios, geniturinários e dermatológicos, além de elevada carga psicossocial. As evidências demonstram que intervenções precoces durante a fase aguda e o seguimento estruturado reduzem a gravidade crônica. Persistem lacunas em marcadores prognósticos e em padronização de protocolos para a fase crônica. Centros com cuidado interdisciplinar e auditorias multicêntricas relatam melhores desfechos. Recomenda-se institucionalizar rastreios periódicos, reabilitação dirigida e planos de autocuidado. Investimentos em pesquisa colaborativa são urgentes para definir estratégias preventivas e terapias reconstrutivas otimizadas, com vistas a preservar função, qualidade de vida e reintegração social a longo prazo.
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1Acadêmico de medicina
Pontifícia universidade católica de Campinas (PUCCAMP)
E-MAIL: betinataiar@gmail.com
2Médico
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)
E-MAIL: gabrieljunqueirag@gmail.com
3Médico
União das faculdades dos grandes lagos (unilago)
E-MAIL: enrico.taguillar@gmail.com
4Acadêmico de medicina
Pontifícia universidade católica de Campinas (PUCCAMP)
E-MAIL: giovanaccacamargo@gmail.com
5Médica
Universidade Federal de São João Del Rei UFSJ
E-MAIL: barbara_greco06@hotmail.com
