SÍFILIS ADQUIRIDA NO MARANHÃO: UM ESTUDO COMPARATIVO ANTES E PÓS A PANDEMIA NO PERÍODO ENTRE 2019 E 2025

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510312318


Janete Da Silva Morais1, Leiliane De Jesus Silva Chagas2, Lucivaldo Ferreira Filho3, Lurdenilde Pereira Pinheiro4, Stefany Chagas Barbosa5, Taciane Silva Saraiva6, José Carlito do Nascimento Ferreira Júnior7


RESUMO

A sífilis adquirida permanece como um grave problema de saúde pública no Brasil, especialmente no estado do Maranhão, onde os casos têm apresentado variações significativas nos últimos anos. O presente estudo tem como objetivo analisar a evolução dos casos de sífilis adquirida no Maranhão entre 2019 e 2025, considerando fatores como sexo, raça, faixa etária e o impacto da pandemia da COVID-19 sobre a notificação da doença. Observou-se predominância de casos entre indivíduos do sexo masculino, refletindo padrões nacionais de maior vulnerabilidade entre homens jovens e adultos sexualmente ativos. Durante o período pandêmico (2020–2022), houve queda na testagem e notificação de casos, o que pode estar associado à subnotificação decorrente da redução dos serviços de saúde voltados às infecções sexualmente transmissíveis. Após a retomada das atividades presenciais, verificou-se aumento gradual das notificações, incluindo crescimento proporcional entre mulheres, indicando risco ampliado para a transmissão vertical. Os resultados reforçam a importância de políticas públicas contínuas voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e tratamento oportuno, além do fortalecimento da atenção básica e da educação em saúde, essenciais para conter a disseminação da sífilis e mitigar os efeitos pós-pandemia.

Palavras-chave: Sífilis. Maranhão. COVID-19. Epidemiologia.

ABSTRACT

Acquired syphilis remains a serious public health problem in Brazil, especially in the state of Maranhão, where case numbers have shown significant variations in recent years. This study aims to analyze the evolution of acquired syphilis cases in Maranhão between 2019 and 2025, considering factors such as sex, race, age group, and the impact of the COVID-19 pandemic on disease reporting. A predominance of cases among males was observed, reflecting national patterns of greater vulnerability among young and sexually active men. During the pandemic period (2020–2022), there was a decline in testing and case reporting, which may be associated with underreporting due to the reduction of health services focused on sexually transmitted infections. After the resumption of in-person activities, a gradual increase in notifications was observed, including proportional growth among women, indicating an increased risk of vertical transmission. The results reinforce the importance of continuous public health policies aimed at prevention, early diagnosis, and timely treatment, as well as the strengthening of primary care and health education, which are essential to contain the spread of syphilis and mitigate the post-pandemic effects.

Keywords: Syphilis. Maranhão. COVID-19. Epidemiology.

INTRODUÇÃO

Exclusiva dos seres humanos e provocada pela bactéria Treponema pallidum, a sífilis é uma (IST) Infecção Sexualmente Transmissível que possui tratamento e cura, a doença evolui em quatro estágios (primário, secundário, latente e terciário), sendo os dois primeiros os de maior transmissibilidade. Sua propagação se dá, primariamente, por relações sexuais desprotegidas ou pela transmissão vertical da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto (GASPAR et al., 2021).

Essa realidade é ainda mais preocupante em estados da região Nordeste, como o Maranhão, onde fatores como desigualdade social, barreiras de acesso aos serviços de saúde e fragilidades na vigilância epidemiológica contribuem para a manutenção e até o aumento dos casos da doença, nota-se, que a sífilis adquirida, em particular, representa um indicador sensível da efetividade das ações de prevenção e da qualidade da atenção básica, sendo um importante marcador para avaliar políticas públicas no campo da saúde sexual e reprodutiva (BRASIL,2019). 

Durante o período da pandemia de COVID-19, pesquisadores observaram impactos significativos na rotina de diagnóstico e notificação da sífilis em diversas partes do país, viu-se, uma sobrecarga dos serviços de saúde, a diminuição na procura por atendimento ambulatorial e as restrições de mobilidade populacional que contribuíram para a queda dos exames de diagnósticos e, consequentemente, para uma subnotificação dos casos. No entanto, com o avanço da vacinação contra a COVID-19 e a retomada gradativa das atividades de saúde, os números voltaram a apresentar tendência de crescimento, o que reforça a importância de analisar os efeitos da pandemia não apenas como uma pausa estatística, mas também como um fator que reconfigurou a trajetória epidemiológica da sífilis no país (PINHEIRO et al., 2021). 

No Maranhão, os dados disponibilizados pelo SINAN/DATASUS e pelos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, evidenciam oscilações nas notificações entre 2019 e 2023, com quedas notórias em 2020 e 2021, seguidas por aumentos graduais nos anos subsequentes, podemos dizer que, essa variação, por sua vez, pode estar associada tanto a mudanças na dinâmica de transmissão quanto às limitações de vigilância impostas pela crise sanitária. Além disso, estudos regionais realizados no Nordeste, demonstram que as tendências não foram homogêneas, havendo municípios com maior capacidade de manter a testagem e a notificação, enquanto outros apresentaram quedas expressivas, revelando desigualdades que precisam ser consideradas em análises locais (PEREIRA, 2022). 

A sífilis é um problema global, com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estimando a ocorrência de 8 milhões de casos em todo o mundo. No Brasil, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibilize a vacina contra o HPV como um meio de prevenção de algumas Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), o alcance da cobertura vacinal ainda é insuficiente. A segunda dose atinge apenas 27,7% entre os meninos e 54,3% entre as meninas, ficando aquém dos 95% recomendados (AGÊNCIA BRASIL, 2023).

A progressão da sífilis começa com a fase primária, que se manifesta com o surgimento de feridas ricas em bactérias, conhecidas como cancro duro. Estas lesões geralmente se localizam no ponto de inoculação da bactéria, como pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus ou boca (BRASIL, 2023). A forma secundária da doença pode surgir entre seis semanas e seis meses após o desaparecimento do cancro, os sintomas nesse estágio incluem lesões eritematosas, frequentemente nas palmas das mãos e solas dos pés, além de manifestações sistêmicas inespecíficas como febre, dores de cabeça e fraqueza muscular, que tendem a sumir em alguns dias (MENEZES et al., 2021).

O estágio terciário da sífilis, que ocorre após um longo período de latência, pode se manifestar entre dez e quarenta anos após a infecção inicial, essa fase atinge entre 15% e 25% dos pacientes não tratados e é marcada pela destruição tecidual, culminando no aparecimento de lesões graves e gomas sifilíticas (BRASIL, 2023).

O tratamento da infecção visa a erradicação da bactéria T. pallidum, através da antibioticoterapia, sendo a penicilina o tratamento padrão, a dosagem varia conforme o estágio: sífilis primária, secundária e latente precoce são tratadas com uma única dose intramuscular de penicilina benzatina. Já para sífilis latente tardia e terciária, são necessárias três doses semanais (BRASIL, 2023)

Casos mais complexos, como neurossífilis e sífilis congênita, exigem um regime intensivo de penicilina cristalina intravenosa por até 14 dias. O sucesso do tratamento requer a conclusão completa do regime prescrito, monitoramento sorológico e o tratamento simultâneo dos parceiros sexuais para prevenir a reinfecção e a dispersão da doença (Kalinin et al., 2015).

É importante notar que pacientes coinfectados com HIV e sífilis podem apresentar um quadro clínico mais agressivo, particularmente em relação às complicações neurológicas e oculares. O acompanhamento desses indivíduos deve utilizar os mesmos exames do diagnóstico, exigindo avaliações clínicas e sorológicas trimestrais durante o primeiro ano e, posteriormente, a cada dois anos após o tratamento (MOREIRA, 2021).

Considerando a relevância e o impacto da sífilis para a saúde pública, o objetivo deste trabalho foi realizar uma análise crítica retrospectiva dos casos de sífilis adquirida notificados no Maranhão, no período de 2019 a 2025. 

METODOLOGIA

A pesquisa foi de caráter exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa, utilizando o levantamento bibliográfico e dados secundários. Foram coletadas informações do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), referentes aos casos confirmados de sífilis adquirida no estado do Maranhão entre os anos de 2019 e 2025. Além disso, realizou-se um levantamento bibliográfico em bases de dados como SciELO, LILACS e Google Acadêmico, utilizando os descritores “sífilis adquirida”, “Maranhão”, “epidemiologia” e “notificação”. Foram incluídos artigos publicados entre 2019 e 2025, disponíveis em português e com acesso gratuito. Trabalhos repetidos, incompletos ou que não abordavam o tema central foram excluídos. Após a triagem, foram selecionados 10 artigos que auxiliaram na fundamentação teórica da pesquisa. Os dados obtidos foram organizados e analisados no software Microsoft Excel 2019, sendo os resultados apresentados em tabelas e gráficos. Por se tratar de informações públicas e de acesso aberto, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos a partir da análise dos dados epidemiológicos da sífilis adquirida no Brasil e, especificamente, no estado do Maranhão entre os anos de 2019 e 2025, revelam um comportamento oscilante nas notificações, diretamente influenciado pela pandemia de COVID-19 e pelas condições estruturais dos serviços de saúde pública. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde, em 2019 foram notificados 164.681 casos de sífilis adquirida, evidenciando a contínua expansão da doença em todas as regiões do país (Brasil, 2024).

Com a chegada da pandemia em 2020, observou-se uma queda expressiva no número de notificações, com registro de 126.192 casos, o que representa uma redução significativa em comparação ao ano anterior. Esse declínio, contudo, não indica uma diminuição real da incidência da doença, mas sim um reflexo da desorganização temporária dos serviços de saúde, da priorização do enfrentamento à COVID-19 e da consequente subnotificação de casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Durante esse período, muitos ambulatórios de referência suspenderam as atividades presenciais, reduzindo o número de consultas, testagens e tratamentos ofertados à população, especialmente em regiões com menor infraestrutura, como o interior do Maranhão (BRASIL, 2024).

Nos anos subsequentes, a partir de 2021, houve uma retomada gradual dos serviços de saúde, acompanhada de uma ampliação das ações de testagem e prevenção, resultando novamente em um aumento das notificações. Em nível nacional, foram registrados 173.391 casos em 2021, 218.500 em 2022 e 242.578 em 2023, demonstrando uma tendência de crescimento que sugere tanto a reestruturação das atividades de vigilância quanto o impacto residual das falhas no controle da doença durante a pandemia (BRASIL, 2024).

Gráfico 1. Casos de Sifilis Adquirida no Maranhão, no período de 2019 a 2025

Fonte: Ministério da Saúde/SVSA – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

No estado do Maranhão, o comportamento epidemiológico seguiu o padrão observado nacionalmente. Em 2019, o estado apresentava uma taxa de detecção crescente, refletindo avanços na notificação e ampliação da cobertura de testes rápidos, contudo, em 2020, as notificações diminuíram, coincidindo com o período mais crítico da pandemia, quando houve redução do acesso da população aos serviços de atenção básica e aos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), (NASCIMENTO et al., 2023).

O retorno progressivo das atividades de saúde e a retomada das ações de vigilância a partir de 2021 possibilitaram o aumento dos registros de casos, especialmente nas regiões metropolitanas e pólos urbanos, onde há maior oferta de diagnóstico. Esse comportamento foi confirmado em estudos regionais que identificaram subnotificação e fragilidades nos serviços durante o período pandêmico (OLIVEIRA et al., 2022). 

Gráfico 2. Faixa etária dos casos de sífilis adquirida no Maranhão.

No estado do Maranhão, a sífilis adquirida apresenta maior incidência entre jovens adultos, especialmente na faixa etária de 20 a 39 anos, essa predominância pode ser explicada pelo aumento da atividade sexual nessa fase da vida, associado à redução do uso de preservativos, múltiplas parcerias e, em alguns casos, à baixa adesão às medidas de prevenção e testagem regular para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) (BRASIL,2024). Um estudo realizado entre os anos de 2019 a 2021 identificou que a maioria dos casos confirmados de sífilis ocorreu em pessoas de 20 a 39 anos, representando mais da metade das notificações no período analisado (ANDRADE et al., 2019)

Resultados semelhantes foram encontrados em uma análise regional no Nordeste, que mostrou que 57,1% dos casos de sífilis adquirida concentraram-se nessa mesma faixa etária, reforçando um padrão epidemiológico comum entre os estados nordestinos (CALDAS; SAMPAIO, 2015).

O Boletim Epidemiológico de Sífilis de 2022, publicado pelo Ministério da Saúde, também evidencia que as faixas etárias de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos são as mais atingidas pela sífilis adquirida em todo o país, com destaque para o crescimento dos casos entre jovens e adultos jovens (BRASIL, 2022). 

No Maranhão, essa tendência se mantém, o que indica a necessidade de fortalecer estratégias educativas, testagem rápida e ampliação do acesso ao tratamento precoce para essa população. Dessa forma, observa-se que o grupo de 20 a 39 anos continua sendo o mais vulnerável à infecção por sífilis adquirida no Maranhão, demonstrando a importância de políticas públicas voltadas à educação sexual, prevenção combinada e ampliação do diagnóstico precoce, especialmente nos serviços de atenção primária à saúde (BRASIL, 2024).

De acordo com estimativas baseadas em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e em proporções regionais fornecidas pelo Ministério da Saúde, o número total de casos no período é estimado em aproximadamente 16.500 notificações, entre o período de 2019 a 2024. (BRASIL,2024). 

Gráfico 3. Casos de sífilis adquirida por raça/cor no Maranhão (2019–2024)

Quando analisada a variável raça/cor, observa-se que a população parda é a mais afetada, representando cerca de 42% dos casos notificados, seguida pela branca com 34%, e pela preta, com aproximadamente 12%. As categorias indígena e amarela apresentam proporções inferiores a 1%, o que pode refletir tanto a menor representatividade populacional desses grupos quanto a subnotificação nos registros de saúde. Aproximadamente 10% dos casos apresentaram raça/cor ignorada ou não informada, o que reforça a necessidade de aprimoramento na coleta desses dados nos serviços de vigilância epidemiológica (BRASIL, 2024).

Esse padrão também é observado em análises de abrangência nacional, pois, podemos observar que, o Boletim Epidemiológico de Sífilis (2024) do Ministério da Saúde destaca que, no Brasil, 42,0% dos casos de sífilis adquirida ocorreram em pessoas pardas, 34,6% em brancas e 11,9% em pretas, demonstrando que o perfil do Maranhão segue a tendência nacional. Além disso, fatores como desigualdade social, acesso limitado aos serviços de saúde e vulnerabilidade socioeconômica podem contribuir para a maior incidência em determinados grupos raciais, especialmente entre indivíduos pardos e pretos, que frequentemente encontram barreiras no diagnóstico e tratamento precoce (BRASIL, 2024).

A análise epidemiológica dos casos de sífilis adquirida no Maranhão entre os anos de 2019 e 2024 revela que a distribuição por sexo segue o mesmo padrão observado em nível nacional. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde   de 2024, aproximadamente 57,1% dos casos notificados no Brasil, ocorreram em indivíduos do sexo feminino, enquanto 42,9% foram registrados em indivíduos do sexo masculino, considerando a soma de casos de sífilis adquirida, em gestantes e congênita (BRASIL, 2024).

No entanto, estudos regionais indicam que, quando se trata exclusivamente da sífilis adquirida, há predominância do sexo masculino entre os casos, uma pesquisa conduzida na Região Nordeste, incluindo o Maranhão, demonstrou que 58,9% das notificações ocorreram em homens, contra 41,1% em mulheres, é notório que, esse cenário é coerente com o perfil epidemiológico observado em outras regiões do país e pode estar relacionado a maior exposição a comportamentos de risco, baixo uso de preservativos e menor adesão masculina aos serviços de saúde preventiva (SOUZA et al., 2024).

O aumento do número de casos entre os homens também pode refletir o avanço das estratégias de testagem nos últimos anos, com ampliação do acesso ao diagnóstico rápido e integração das ações de prevenção em unidades básicas de saúde. Entretanto, o Maranhão ainda enfrenta desafios relacionados à subnotificação e desigualdade no acesso à saúde, que impactam diretamente a identificação precoce da infecção (SILVA et al., 2023). 

Os dados referentes aos casos de sífilis adquirida no Maranhão entre os anos de 2019 a 2025, evidenciam uma maior prevalência entre indivíduos do sexo masculino, o que está em conformidade com o perfil epidemiológico observado em outras regiões do país. Essa predominância pode estar relacionada a fatores comportamentais e socioculturais, como maior número de parceiros sexuais, menor uso de preservativos, e baixa adesão aos serviços de saúde, especialmente entre homens jovens e adultos sexualmente ativos (MARQUES et al., 2023).

Durante o período pandêmico (2020–2022), houve redução na testagem e no diagnóstico de sífilis em ambos os sexos, o que contribuiu para uma subnotificação dos casos, observa-se que, as medidas de isolamento social e o redirecionamento dos recursos de saúde para o enfrentamento da COVID-19, limitaram o acesso aos exames e consultas, resultando em atraso no diagnóstico e no tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Esse cenário impactou diretamente o controle da sífilis adquirida, podendo justificar as oscilações observadas nas notificações durante o período (SILVA et al. 2023).

Apesar da predominância masculina, observa-se também um crescimento gradual nos casos entre mulheres nos anos subsequentes à pandemia, este aumento pode estar relacionado ao retorno dos atendimentos presenciais, maior acesso às unidades básicas de saúde e intensificação das campanhas de prevenção. Além disso, o aumento da sífilis entre mulheres em idade fértil representa um importante fator de risco para a transmissão vertical, o que reforça a necessidade de vigilância constante e ações educativas direcionadas à saúde sexual e reprodutiva (CERQUEIRA et al., 2024).

A discussão desses resultados reforça que a pandemia de COVID-19 impactou de forma significativa o controle das ISTs, incluindo a sífilis, diminuindo os diagnósticos oportunos, a interrupção de tratamentos e a descontinuidade na vigilância ativa, que fizeram favorecer o aumento da transmissão após o relaxamento das medidas restritivas. Esse cenário acentua a necessidade de fortalecer as ações de rastreamento e tratamento precoce, bem como as estratégias de educação em saúde sexual, especialmente em populações vulneráveis e de difícil acesso, que muitas vezes enfrentam barreiras culturais, geográficas e econômicas no Maranhão (SANTOS et al., 2023).

Além disso, é importante destacar o papel fundamental dos profissionais de enfermagem nesse contexto, pois, são eles que, na linha de frente da Atenção Primária, realizam a triagem, o aconselhamento, a testagem e o acompanhamento dos pacientes diagnosticados com sífilis. Após a pandemia, a requalificação dos profissionais e a integração das ações de prevenção e tratamento voltadas às ISTs tornaram-se prioridades. A atuação da enfermagem é essencial para o controle da sífilis, uma vez que envolve desde a administração da penicilina benzatina até a vigilância de parceiros e a notificação dos casos ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN (BRASIL, 2022).

Portanto, ao comparar o período anterior à pandemia (2019) e o período posterior (2020–2025), observa-se que a sífilis adquirida apresentou uma tendência de queda temporária nas notificações durante a pandemia, seguida de um recrudescimento expressivo dos casos nos anos seguintes. Essa dinâmica reflete não apenas as limitações impostas pela COVID-19, mas também desafios estruturais persistentes na rede de atenção à saúde, na vigilância epidemiológica e na continuidade do cuidado (MOREIRA, 2021).

No Maranhão, os resultados reforçam a necessidade de fortalecer os serviços de atenção básica, garantir o fornecimento contínuo de insumos diagnósticos e terapêuticos, além de promover ações educativas permanentes voltadas à prevenção das ISTs. Assim, a análise do comportamento da sífilis adquirida antes e após a pandemia no Maranhão demonstra que, embora tenha havido avanços na vigilância e no diagnóstico, o estado ainda enfrenta desafios significativos para o controle da doença (OLIVEIRA et al., 2022). 

CONCLUSÃO

A análise dos casos de sífilis adquirida no Maranhão entre 2019 e 2025 evidencia que, embora os esforços de vigilância epidemiológica tenham se intensificado nos últimos anos, a pandemia da COVID-19 representou um marco de retrocesso temporário no controle das infecções sexualmente transmissíveis. As restrições sanitárias e a sobrecarga dos serviços de saúde provocaram uma diminuição na testagem e na notificação de casos, mascarando a real magnitude da doença durante o período crítico da pandemia.

No entanto, o cenário pós-pandêmico revela uma retomada expressiva das notificações, especialmente entre indivíduos do sexo masculino, grupo que historicamente apresenta maior vulnerabilidade devido a fatores comportamentais e menor procura por serviços de saúde. Paralelamente, observa-se um aumento proporcional dos casos entre mulheres, o que acende um alerta para o risco de transmissão vertical e a necessidade de intensificar as ações voltadas à saúde sexual e reprodutiva. Dessa forma, conclui-se que o enfrentamento da sífilis no Maranhão exige uma abordagem contínua e integrada, envolvendo testagem em massa, educação em saúde, acompanhamento dos parceiros sexuais e fortalecimento da atenção básica. Além disso, é imprescindível que as estratégias de prevenção e diagnóstico sejam mantidas mesmo diante de crises sanitárias, garantindo a sustentabilidade das políticas públicas e a redução das desigualdades regionais e de gênero associadas à doença.

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1graduanda do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR)

2graduanda do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR)

3graduanda do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR)

4graduanda do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR)

5graduanda do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR)

6graduanda do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR)

7Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Naturais – Biologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestre em Ensino de Biologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).