REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511171237
Giovana Graceliano da Silva Bonfim¹
Nathalia Ribeiro Trivellatto¹
Orientador: Silvana Flora de Melo²
Coorientador: Kátia Pereira da Silva³
RESUMO
Introdução: O envelhecimento populacional no Brasil tem crescido rapidamente e traz novos desafios à saúde pública, entre eles o aumento das Infecções Sexualmente Transmissíveis na terceira idade. A sífilis apresenta impacto relevante nesse contexto, com maior número de casos em idosos, muitas vezes associado ao diagnóstico tardio e à dificuldade de abordagem da sexualidade nessa fase da vida. Objetivo: Analisar os fatores relacionados ao aumento da sífilis adquirida em idosos, destacando o papel do enfermeiro na prevenção, diagnóstico, tratamento e educação em saúde na Atenção Primária. Metodologia: Estudo bibliográfico descritivo, baseado em artigos científicos e documentos oficiais publicados em português nos últimos dez anos, selecionados em bases de dados nacionais. Foram incluídas 11 publicações alinhadas ao tema e aos objetivos propostos. Resultados: Identificou-se que o aumento da doença está ligado ao maior engajamento sexual dos idosos, baixa adesão ao preservativo, desconhecimento sobre ISTs e barreiras culturais que limitam o diálogo sobre sexualidade. Também se observou atraso na identificação dos casos devido a sintomas inespecíficos, presença de comorbidades e menor busca por atendimento voltado à saúde sexual. Discussão: Tais fatores reforçam a necessidade de estratégias preventivas e melhoria no cuidado ofertado na Atenção Primária. A atuação do enfermeiro é essencial no acolhimento, diagnóstico oportuno, acompanhamento terapêutico e realização de ações educativas que reduzam tabus e promovam o autocuidado. Conclusão: O enfrentamento da sífilis na velhice requer aprimoramento das práticas de prevenção, qualificação profissional e atenção integral, reconhecendo a sexualidade como parte do bem-estar do idoso e promovendo cuidado sem preconceitos para redução da incidência e melhoria da qualidade de vida.
Descritores: Sífilis, Saúde do idoso, Prevenção Primária, Cuidados de enfermagem, Atenção Primária à Saúde.
1. INTRODUÇÃO
O aumento da expectativa de vida e a melhoria das condições de saúde nas últimas décadas, resultaram em um envelhecimento populacional significativo no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), durante o Censo Demográfico ocorrido em 2022, foram registrados novos parâmetros referentes ao total de pessoas idosas que possuem 60 anos ou mais de idade, correspondendo a 15,6% da população brasileira, com aumento significativo em relação aos últimos 10 anos anteriores, em que correspondia ao valor de 10,8% da população em mesma faixa etária (IBGE, 2022).
Consequentemente, por meio dos dados mais atuais fornecidos pelo IBGE, a população idosa deve ultrapassar 73 milhões de pessoas até 2060, representando cerca de 32% dos brasileiros (IBGE, 2024). Este cenário, embora seja positivo por um lado, traz consigo novos desafios para a saúde pública, entre eles, o aumento das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) afetando pessoas com 60 anos ou mais, com destaque para a sífilis, que segundo o Boletim epidemiológico, publicado pelo Ministério da Saúde no ano de 2024, atualmente, a sífilis vem alcançando altos números de novos casos, identificados na população idosa, ocasionando repercussões no estado de saúde dessa faixa etária, a qual frequentemente carece de orientações adequadas e apresenta limitações quanto ao conhecimento sobre a doença.
A sífilis, causada pela bactéria Treponema pallidum, é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) com diagnóstico simples e tratamento eficaz. No entanto, quando não tratada, pode evoluir para formas graves, acometendo diversos órgãos e sistemas, especialmente o nervoso e cardiovascular, pois a infecção se desenvolve em diferentes fases. Sendo elas, a sífilis recente (primária, secundária e latente recente: até um ano de evolução) e sífilis tardia (latente tardia: mais de um ano de evolução e terciária). Além disso, cada fase pode apresentar sintomas diferentes. Logo, permanece como um relevante problema de saúde pública no Brasil, especialmente ao abordarmos a população idosa (BRASIL, 2024).
Entre 2011 e 2019, as taxas de detecção de sífilis em pessoas com 60 anos ou mais cresceram aproximadamente seis vezes no país, com um incremento anual médio de 25% (BRASIL, 2024). Ao abordarmos um tipo de doença evitável e que frequentemente é debatida e tratada em nível de atenção básica, ao ser exposta em dados pelo seu crescimento relevante em determinada população, se torna um chamativo para saúde pública, e assim, o entendimento aprofundado deste perfil epidemiológico deve ser imediatamente avaliado.
A baixa adesão ao uso de preservativos durante as relações sexuais pode tornar os idosos alvo de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), entre elas a sífilis. Ademais, outros fatores contribuem para a maior vulnerabilidade de idosos às ISTs: a imunidade prejudicada, o conhecimento deficiente sobre ISTs e métodos de prevenção, o preconceito, a vergonha e os mitos gerados acerca do uso de preservativos bem como as barreiras culturais acerca do tema sexualidade (BARROS et al.,2023)
Apesar da existência de políticas públicas voltadas à prevenção e ao controle das ISTs, a população idosa permanece à margem dessas estratégias, sendo pouco contemplada nos planos de ação da Atenção Primária à Saúde (APS) e pouco abordada de forma integral por profissionais de saúde durante os atendimentos diários que ocorrem nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Ao abordarmos a questão dos profissionais, os enfermeiros possuem conhecimento adequado sobre a sexualidade na velhice, mas difundem ainda atitudes conservadoras (EVANGELISTA et al., 2019).
Por muitas percepções e modos de visualizar a saúde da pessoa idosa em relação a ISTs, acabam por comprometer o proposto pela Lei Orgânica N° 8.080/90, que tem a integralidade como princípio do Sistema Único de Saúde (SUS), preconizando a atenção ao indivíduo em sua totalidade, orientando a necessidade de um olhar ampliado para possíveis diagnósticos e promovendo ações de prevenção e promoção da saúde, de modo a garantir um cuidado verdadeiramente integral ao paciente.
A enfermagem deve estar atenta e preparada para dar o suporte necessário aos idosos acerca das intensas modificações envolvidas na plasticidade do corpo e dos fatores biológicos que interferem na sexualidade. Os profissionais de saúde devem ser isentos de preconceitos, e é essencial que não tratem essa população como um ser em degeneração. Assim, devem criar situações de valorização da autoestima, falar diretamente sobre o assunto, responder a todas as questões, sem rodeios ou constrangimentos, ajudando no seu bem-estar biopsicossocial (EVANGELISTA et al., 2019).
A falta de abordagem sobre sexualidade em consultas, a subnotificação dos casos e a ausência de campanhas educativas específicas evidenciam uma lacuna assistencial significativa (BRASIL, 2024). E tratando da população idosa, em faixa etária mais avançada, é comum encontrar a presença de comorbidades e maior propensão para desenvolver algum problema de saúde, sejam eles simples ou complexos, sua presença pode ser um agravante quando associado a outros tipos de questões que envolvam o comprometimento da saúde e bem-estar, como por exemplo, a contaminação por ISTs (BEZERRA et al., 2022).
Diante desse cenário, torna-se essencial compreender os fatores associados à sífilis na terceira idade e analisar como o enfermeiro dentro da APS pode atuar nesse contexto. Pois, o papel estratégico do enfermeiro destaca-se na prevenção, no diagnóstico precoce, no acompanhamento e na promoção da saúde, sendo fundamental para o enfrentamento desse problema. Assim, evidencia-se a importância de aprofundar a discussão acerca da temática apresentada e contribuir para um entendimento mais detalhado.
2. OBJETIVO
Analisar os fatores que contribuem para o aumento da sífilis adquirida em idosos, destacando o papel do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) na prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e promoção de ações educativas voltadas ao cuidado integral dessa população.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica de caráter descritivo, sendo desenvolvida a partir do levantamento de publicações científicas e documentos oficiais. Foram selecionados os seguintes descritores em saúde extraídos pelo DECS: Sífilis; Saúde do idoso; Prevenção Primária; Cuidados de enfermagem; Atenção Primária à Saúde.
As buscas dos artigos científicos e materiais de relevância acadêmica, foram realizadas nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Research, Society and Development (RSD Journal), Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (Rease), Revista Eletrônica Acervo Mais e Revista Científica Multidisciplinar O Saber (RCMOS). Além disso, foram incluídos documentos normativos e institucionais disponibilizados por órgãos oficiais, como o Ministério da Saúde (MS), a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Também foram consultadas revistas nacionais de reconhecida relevância científica, como a Revista Brasileira de Epidemiologia, a Revista da Escola de Enfermagem da USP e a Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Ao todo, foram levantados 24 artigos e documentos, dos quais 11 foram selecionados para compor a análise e desenvolvimento deste estudo, enquanto 13 foram considerados apenas como leitura de apoio.
Como processo de exclusão, foram retirados os conteúdos que não possuem relação direta com o estudo, duplicatas, estudos não publicados oficialmente, e estudos fora do recorte temporal. O critério de inclusão baseou-se na pertinência ao tema central, sendo a sífilis adquirida na população idosa, bem como na contribuição para a compreensão do papel do enfermeiro no âmbito da Atenção Primária à Saúde. Além disso, foi estabelecido como inclusão artigos disponíveis em língua portuguesa, com delimitação temporal dos últimos 10 anos.
Os materiais selecionados foram analisados de acordo com sua relevância, atualidade e alinhamento com os objetivos propostos, de forma a garantir consistência e fundamentação teórica adequada à discussão desenvolvida.
4. RESULTADOS
Após seleção dos estudos e análise, os mesmos foram dispostos e organizados de acordo com autor, ano em ordem decrescente, título, objetivo, resultados e conclusão. Conforme demonstrado abaixo:
Quadro base para desenvolvimento do estudo
| Autor/Ano | Título | Objetivo | Resultados | Conclusão |
| Secretaria de Saúde de São Paulo – SMS/SP, 2025. | Boletim Epidemiológi co: Sífilis 2025. | Analisar dados epidemiológicos obtidos pelas notificações de diferentes agravos e sua divulgação, para compreender a distribuição da sífilis na população. | O boletim evidencia que mesmo com avanços na ampliação do diagnóstico e tratamento, a sífilis ainda representa um importante desafio de saúde pública no país, pois as taxas de detecção permanecem elevadas. | Os dados evidenciam que ainda permanece a necessidade de fortalecer estratégias de vigilância, ampliação da qualidade e garantia do acesso ao tratamento oportuno e adequado. |
| Serrão et al., 2025. | A enfermagem na prevenção e controle da sífilis: uma análise da importância da educação em saúde. | Compreender a importância da prevenção e o controle da Sífilis nas comunidades em situações de vulnerabilidade da cidade de Manaus. | A pesquisa, que é de caráter bibliográfico qualitativo, aponta que a educação em saúde é ferramenta central para promover conhecimento sobre a sífilis, modos de transmissão, diagnóstico precoce e uso de preservativo. | A educação em saúde, quando articulada com atuação da enfermagem, representa estratégia efetiva para prevenção e controle da sífilis em populações vulneráveis. Contudo, há necessidade de maior aplicação prática de campanhas educativas e fortalecimento da capacitação profissional para que o impacto esperado dessas ações sejam alcançadas. |
| Nunes et al., 2024. | A sífilis no século XXI: Desafios e avanços no diagnóstico e tratamento. | Analisar os principais desafios e os avanços significativos no diagnóstico e no tratamento da sífilis ao longo do século XXI. | Foi realizada uma revisão bibliográfica para compilar e sintetizar dados relevantes de estudos anteriores, proporcionando uma visão abrangente sobre o tema. Desta forma, destacaram-se os testes rápidos e os testes de amplificação de ácidos nucleicos (NAATs), que melhoraram significativamente a capacidade de diagnóstico precoce e preciso da infecção. | Através da análise abrangente dos desafios e avanços no diagnóstico e tratamento da sífilis no século XXI, fundamentada exclusivamente na revisão de literatura, conclui-se o destaque que se deve dar para importância contínua de estratégias eficazes de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento para mitigar sua prevalência e impacto. |
| Martins et al., 2024. | O papel da enfermagem no cuidado ao paciente com sífilis na terceira idade. | Descrever o processo de enfermagem acerca da sífilis na terceira idade. | A revisão de literatura evidenciou que a sífilis na terceira idade é frequentemente subdiagnosticada, necessitando de atenção especial e abordando a importância na atuação da enfermagem, sendo crucial na identificação, prevenção e manejo da doença, promovendo cuidados que considerem as particularidades dos idosos. | O enfermeiro desempenha papel essencial no cuidado ao idoso com sífilis, sendo fundamental na promoção da saúde, educação sobre a doença e suporte emocional. Desta forma, a abordagem acolhedora e respeitosa é necessária para melhorar a qualidade de vida dessa população vulnerável. |
| Barros et al., 2023. | Tendência da taxa de detecção de sífilis em pessoas idosas: Brasil, 2011– 2019. | Analisar a tendência da taxa de detecção de sífilis em pessoas idosas no Brasil no período de 2011 a 2019. | Pelo estudo avaliado, foram notificados 62.765 casos de sífilis em pessoas idosas e verificou-se tendência crescente na taxa de detecção de sífilis em pessoas idosas no Brasil. O aumento na taxa de detecção foi identificado em ambos os sexos. Todas as macrorregiões do país apresentaram tendência crescente, com destaque para as regiões Nordeste. | A tendência crescente da taxa de detecção de sífilis em pessoas idosas em todo território brasileiro evidencia a necessidade de planejamento e desenvolvimento de ações efetivas e multiprofissionais de prevenção e assistência adaptada a esse público. |
| Natário et al., 2022. | Sífilis adquirida em idosos: uma revisão integrativa. | Apresentar uma análise qualitativa e descritiva dos estudos publicados nos últimos dez anos sobre a ocorrência de sífilis adquirida em idosos no Brasil, bem como os dados epidemiológicos desse agravo nessa população. | Os estudos demonstram o crescimento da sífilis no público idoso nos últimos dez anos em diferentes regiões do Brasil, associado à falta de informações quanto a transmissão e formas de prevenção. Além disso, indivíduos do sexo masculino se mostram o público mais afetado pela sífilis em idosos. | Conclui-se que profissionais da saúde tenham melhor compreensão dos dados epidemiológicos de sífilis em idosos em diferentes regiões do Brasil e proporcionem campanhas de conscientização para otimizar a prevenção da sífilis e de outras ISTs neste público. |
| Marques et al., 2022. | Assistência de enfermagem no tratamento de pessoas com sífilis adquirida | Descrever a assistência de enfermagem perante o tratamento de pessoas com sífilis adquirida atendidas na atenção primária. | O estudo resulta em que a assistência de enfermagem deve ser realizada com os pacientes atendidos na atenção primária e seus parceiros, enfatizando o desenvolvimento de ações em saúde pelo enfermeiro e viabilizando uma melhor qualidade, como educação em saúde e monitoramento de casos da patologia. | A assistência de enfermagem no tratamento da sífilis adquirida, na atenção primária à saúde, é de suma importância para o controle da transmissão dessa IST, em virtude da sua alta prevalência. |
| Bezerra et al., 2022. | A percepção dos idosos às medidas de prevenção para infecção sexualmente transmissíveis | Analisar a percepção dos idosos sobre as medidas preventivas para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) | Os resultados apontam que os idosos possuem pouco conhecimento sobre os métodos preventivos, e vivenciam sua sexualidadee consideram o uso de preservativo como algo relacionado aos mais jovens, portanto, os estigmas e tabus sociais sobre a vida sexual dessa parcela da população ainda prevalece no imaginário social. | Estabelece a importante atuação dos profissionais de saúde através da educação e promoção à qualidade de vida, resultando em maior autonomia dos idosos em decidir sobre ações que promovam o aumento do bem-estar. |
| RosaR et al., 2021. | Infecções sexualmente transmissíveis em idosos: revisão integrativa da literatura. | Compreender os fatores que vulnerabiliza a pessoa idosa concernente às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) | Após a realização da Revisão Integrativa da literatura, percebe-se que a disseminação de informação ao grupo de idosos faz-se muito necessária e são de extrema importância, ações que direcionam para educação em saúde adentrando na sexualidade para que obtenham segurança e direito ao prazer sexual. | Os idosos permanecem sexualmente ativos, porém existem informações insuficientes sobre prevenção das IST’S, contribuindo para o aumento da transmissão e contaminação. Além disso, em maior parte, os profissionais de saúde direcionam seus olhares aos mais jovens, colaborando para a falta de conhecimento da pessoa idosa. |
| Evangelista et al., 2019. | Sexualidade de idosos: conheciment o/atitude de enfermeiros da Estratégia Saúde da Família. | Avaliar o conhecimento e a atitude dos enfermeiros da Estratégia Saúde da Família sobre sexualidade na velhice. | Através do estudo transversal, exploratório-descritivo, de abordagem quantitativo, participaram 56 enfermeiros, a maioria do sexo feminino, jovens adultas, que se autodeclaram saber orientar sobre sexualidade. A média dos escores do conhecimento foi de 29,95 em uma variação de 20 a 60; Os participantes que declararam receber educação permanente em saúde e realizar educação em saúde sobre sexualidade detêm um conhecimento significativamente favorável, mas não foi encontrada atitude significante. | Os enfermeiros possuem conhecimento adequado sobre a sexualidade na velhice, mas difundem ainda atitudes conservadoras. Por tanto, investir em processos de educação permanente em saúde pode melhorar todo processo de prevenção e promoção à saúde através dos enfermeiros. |
| Uchôa et al., 2016. | A sexualidade sob o olhar da pessoa idosa. | Identificar a percepção dos idosos acerca da sexualidade. | Foi aplicado questionário de autoria própria, em cima do estudo quantitativo, observacional, do tipo transversal analítico. Assim, os idosos apresentaram idade média de 72 (±5,92) anos. A maioria (62,5%) relatou não estar preparado na juventude para iniciar a vida sexual, tinham reduzido conhecimento sobre doenças sexualmente transmissíveis (41%) e suas formas de prevenção (42,3%). | Há muitos fatores que favorecem o mito de que idosos são assexuados: o acesso limitado à informação desde a juventude até a atualidade, as alterações fisiológicas do próprio envelhecimento, os preceitos religiosos e a opressão familiar. Entretanto, vale ressaltar a importância de mais estudos e ações direcionadas a essa população visando à promoção da saúde integral da pessoa idosa. |
Fonte: autoria própria
5. DISCUSSÃO
A sífilis permanece como uma Infecção Sexualmente Transmissível de grande relevância no cenário brasileiro contemporâneo, repercutindo diretamente na qualidade de vida das pessoas idosas, grupo populacional que cresce de forma acelerada no país. O Boletim Epidemiológico Paulista, publicado pela Secretaria de Saúde de São Paulo (2025), evidencia tanto a persistência de elevados índices de detecção quanto a necessidade de fortalecimento da vigilância em saúde. Esses dados indicam que, embora a sífilis seja de fácil diagnóstico e tratamento, ainda há fragilidades na organização dos serviços e nas estratégias de prevenção direcionadas às faixas etárias mais envelhecidas.
A prática profissional da enfermagem se destaca como eixo fundamental nesse enfrentamento. Para Serrão e Marques (2025), o desenvolvimento de ações educativas contribui para ampliação do conhecimento da população sobre formas de transmissão, sinais clínicos e importância do tratamento precoce, auxiliando no rompimento da cadeia de transmissão. Esse papel educativo é reforçado por Marques et al. (2022), que salientam que a assistência de enfermagem deve ir além do manejo clínico, valorizando a escuta qualificada, a adesão terapêutica e o acompanhamento contínuo, especialmente em situações em que há risco de abandono do tratamento e reinfecção.
Apesar dos avanços tecnológicos e terapêuticos, como destacam Nunes et al. (2024), persistem lacunas no diagnóstico oportuno da sífilis, sobretudo pela inespecificidade de alguns sinais em idosos e pela baixa procura desse público pelos serviços de saúde para questões relacionadas à sexualidade. Isso contribui para atrasos terapêuticos, maior risco de complicações e manutenção da transmissibilidade. Martins et al. (2024) complementam esse entendimento ao apontar que o cuidado ao idoso com sífilis exige abordagem integral, considerando especificidades como comorbidades, uso frequente de medicamentos, limitações funcionais e impactos psicossociais decorrentes do diagnóstico de uma IST em idade avançada.
Do ponto de vista epidemiológico, dados apresentados por Barros et al. (2023) demonstram tendência crescente da taxa de detecção de sífilis em idosos no período de 2011 a 2019, reforçando a urgência de estratégias mais resolutivas e contínuas. As análises de Natário et al. (2022) convergem ao evidenciar aumento expressivo de casos e reforçam que esse fenômeno está associado ao maior engajamento sexual da população idosa, à baixa percepção de risco e a barreiras culturais, que dificultam o diálogo sobre práticas sexuais seguras.
O conjunto dos estudos também revela um problema central: muitos idosos apresentam conhecimento limitado sobre métodos de prevenção das infecções sexualmente transmissíveis. Bezerra et al. (2022) identificam fragilidade nas informações relacionadas à sexualidade na terceira idade, o que repercute negativamente na adoção do preservativo e na procura precoce por atendimento. Esse cenário dialoga com a revisão de Rosa et al. (2021), que reforça a necessidade de ações educativas permanentes e específicas, combatendo preconceitos e estigmas que ainda invisibilizam a vida sexual na velhice.
Outro ponto fundamental destacado pelos artigos diz respeito ao preparo e postura dos profissionais de saúde, especialmente enfermagem. Evangelista et al. (2019) identificaram que muitos enfermeiros ainda possuem conhecimentos e atitudes insuficientes para abordar a sexualidade de idosos de forma natural, o que pode comprometer o cuidado integral e reduzir a efetividade das ações preventivas. Uchôa et al. (2016) também evidenciam que a sociedade, de modo geral, tende a negar ou minimizar a sexualidade da pessoa idosa, contribuindo para que esse tema seja pouco explorado nos serviços de saúde e, consequentemente, para a vulnerabilidade às ISTs, incluindo a sífilis.
De maneira integrada, os estudos analisados revelam um cenário no qual o aumento da incidência de sífilis entre idosos é acompanhado por desafios estruturais, culturais e profissionais. A prevalência crescente, somada ao déficit de conhecimento do público e às limitações de abordagem por parte da enfermagem, reforça a necessidade de estratégias mais assertivas, como educação em saúde contínua, qualificação profissional, fortalecimento da vigilância epidemiológica e acolhimento livre de preconceitos. Ainda que haja evidências de avanços, persiste um caminho desafiador para a consolidação de políticas e práticas que reconheçam plenamente os idosos como sujeitos ativos de sua sexualidade.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo evidenciou que o aumento dos casos de sífilis adquirida na população idosa está diretamente relacionado ao envelhecimento populacional, ao aumento da atividade sexual na terceira idade, ao desconhecimento sobre infecções sexualmente transmissíveis e ao persistente tabu em torno da sexualidade nessa faixa etária. Apesar dos avanços nas políticas públicas de saúde, as ações de prevenção e controle das ISTs ainda se mostram insuficientes para esse público, o que reforça a necessidade de um olhar mais atento e inclusivo dentro da Atenção Primária à Saúde (APS). Nesse contexto, o papel do enfermeiro é essencial, pois atua na linha de frente da APS, sendo responsável por promover o acolhimento, o diagnóstico precoce, o tratamento oportuno e, principalmente, o desenvolvimento de práticas educativas voltadas à conscientização dos idosos. Sua atuação deve estar pautada na integralidade do cuidado, conforme os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), considerando os aspectos biológicos, psicológicos e sociais que envolvem a saúde sexual na terceira idade.
Conclui-se que o enfrentamento da sífilis na população idosa requer o fortalecimento das ações de educação em saúde, a capacitação contínua dos profissionais e a implementação de estratégias específicas de prevenção e acompanhamento voltadas a esse público. Além disso, é fundamental valorizar a sexualidade na velhice como parte do bem-estar integral, promovendo uma abordagem livre de preconceitos que favoreça o diálogo e a conscientização. Somente por meio de um cuidado integral, digno e humanizado será possível reduzir a incidência da doença, garantir o acesso equitativo aos serviços de saúde e promover uma melhor qualidade de vida à população idosa.
7. REFERÊNCIAS
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1Discentes da Universidade Anhembi Morumbi.
2Docente da Universidade Anhembi Morumbi.
3Docente da Universidade Anhembi Morumbi.
