NEW FRONTIERS IN MIGRAINE MANAGEMENT: AN INTEGRATIVE REVIEW ON THERAPIES TARGETING CGRP AND THE 5-HT1F RECEPTOR
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511171208
Maria Luiza Cronemberger de Faria; Enzo Fernandes Andriola; Pedro Vinicius Ostrowski Cesar; Luca Rodrigues Pereira Mundim; Milena Nunes Gil; Felipe Meira de Oliveira; Fernando Gabriel Vieira Nogueira; Lucas Dounis Mariano; Beatriz Estrella Souza1; João de Sousa Pinheiro Barbosa2
RESUMO
A enxaqueca, caracterizada por cefaleia latejante e disfunção sensorial, tem seu manejo farmacológico e não farmacológico. Após um longo período de estagnação, a compreensão aprofundada da fisiopatologia, em particular do sistema trigeminovascular e do papel do neuropeptídeo CGRP, impulsionou o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas. Este artigo elucida e avalia os mecanismos de ação, eficácia clínica e perfil de segurança das novas terapias medicamentosas, que incluem os agonistas seletivos de 5-HT1F (ditans) e os antagonistas do CGRP e seus receptores (gepants e anticorpos monoclonais anti-CGRP). Os ditans oferecem uma ação antimigranosa sem efeitos vasoconstritores, tornando-se uma opção para pacientes com contraindicações aos triptanos, apesar de apresentarem efeitos adversos. Os gepants atuam como antagonistas orais do CGRP, inibindo a sinalização sem causar vasoconstrição, e demonstraram eficácia tanto no tratamento agudo quanto na profilaxia. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP bloqueiam o CGRP ou seu receptor para prevenção da enxaqueca, mostrando melhora progressiva em tratamentos prolongados e boa tolerabilidade, embora seu alto custo limite o uso como primeira linha. A metodologia utilizada é uma revisão integrativa da literatura, que buscou nas bases de dados PubMed e SciELO, artigos publicados em inglês e português entre 2006 e 2025, focando em terapias farmacológicas emergentes da enxaqueca. Apesar dos avanços na especificidade molecular e segurança, o estudo destaca desafios como a ausência de estudos comparativos diretos entre as novas classes, a limitação de dados de longo prazo em populações específicas, a falta de biomarcadores validados para personalização do tratamento, e as barreiras de acesso em nível global. Conclui-se que o futuro do manejo da enxaqueca dependerá da integração entre farmacologia de precisão, estratificação de pacientes e políticas públicas que garantam acesso equitativo a essas inovações, promovendo uma medicina mais personalizada, segura e baseada em evidências.
Palavras-chave: Enxaqueca; CGRP; 5-HT1F; Terapias.
1. INTRODUÇÃO
A enxaqueca gera diversos impactos na vida do paciente, sendo a mais comum das cefaleias primárias e a que mais motiva a busca por serviços de saúde. É classificada como a sexta doença mais incapacitante, mas sobe para o terceiro lugar nos pacientes com menos de 50 anos (GOADSBY et al., 2018) e a principal causa de incapacidade em mulheres entre 15 a 49 anos. (KUNG et al., 2023).
Estudos brasileiro sobre prevalência da doença obtiveram resultados que variam entre 22,1% e 36,8%, com uma prevalência maior em mulheres. (NAVARRO-PÉREZ et al., 2020). Afeta mais de um bilhão de pessoas mundialmente por ano e é uma das queixas mais tratadas por neurologistas no ambiente ambulatorial. (KUNG et al., 2023).
Manifestada clinicamente como a combinação de uma cefaleia latejante, de intensidade moderada a grave, com uma disfunção no processamento sensorial que pode ser percebido como uma fotofobia ou uma fonofobia. (WATTIEZ et al., 2020).
Há 9 anos, a enxaqueca tem seu manejo com medidas farmacológicas e não farmacológicas. Dentre as farmacológicas, tem-se o uso de analgésicos simples e compostos como paracetamol, aspirina, e paracetamol com codeína, entre outros; anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) como o ibuprofeno; além das terapias mais específicas para a enxaqueca, como a ergotamina e diidroergotamina (DHE), pertencente à classe dos alcaloides do ergot; e os triptanos que são agonistas do receptor se serotonina 5-HT 1B e 1D. Também são utilizadas terapias adjuvantes, como metoclopramida, para o tratamento de sintomas gastrointestinais. (RAMADÃ et al., 2006).
Entre os tratamentos não farmacológicos, incluem-se o controle dos gatilhos, as mudanças de comportamento, a terapia de relaxamento, controle postural, fisioterapia e acupuntura (RAMADÃ et al., 2006), com evidências que a acupuntura pode ser tão eficaz quanto a terapia farmacológica.
O manejo da enxaqueca manteve-se estagnado por anos até que uma nova classe de medicamentos mostrou-se promissora: os ditanos, agonistas específicos de 5-HT1F, com o lasmiditano em um estado avançado nos testes clínicos, estando em fase III para enxaqueca. Os ditanos apresentam vantagem sobre os triptanos por não terem efeitos adversos cardiovasculares que limitam o uso dos triptanos, uma vez que o receptor 5-HT 1D está presente também nos vasos sanguíneos. (GOADSBY et al., 2018).
Outra descoberta revolucionária foi uma investigação maior sobre o neuropeptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) que se encontra elevado durante as crises. Com isso novas tentativas de medicamentos que têm como alvo o CGRP foram iniciadas e foi desenvolvido os “gepants”, antagonistas do receptor CGRP, e anticorpos monoclonais anti CGRP (mAbs). (WATTIEZ et al., 2020).
2. OBJETIVO
Elucidar e avaliar, à luz das evidências científicas mais recentes, os mecanismos de ação, eficácia clínica e perfil de segurança das novas terapias medicamentosas desenvolvidas para o tratamento da enxaqueca, incluindo agonistas seletivos de 5-HT1F (ditans) e antagonistas do CGRP e seus receptores (gepants e anticorpos monoclonais anti-CGRP).
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, elaborada com base nos referenciais metodológicos de Whittemore e Knafl (2005), que compreendem as seguintes etapas: definição da questão norteadora, estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão, busca nas bases de dados, extração das informações relevantes, avaliação crítica dos estudos selecionados e síntese dos resultados. A questão que orientou esta revisão foi: “Quais são os avanços mais recentes nas terapias medicamentosas desenvolvidas para o tratamento da enxaqueca?” A busca foi realizada nas bases de dados PubMed e SciELO, utilizando descritores controlados dos vocabulários DeCS/MeSH, combinados com operadores booleanos. As expressões utilizadas foram:
- “migraine” AND “new therapies”
- “migraine” AND “epidemiology”
Foram incluídos artigos publicados nos idiomas inglês e português, no período de 2006 a 2025, com foco principal em estudos sobre terapias farmacológicas emergentes e epidemiologia da enxaqueca. A busca foi conduzida entre março e maio de 2025.
Critérios de inclusão:
- Artigos originais, revisões sistemáticas ou integrativas, ensaios clínicos e relatos de caso;
- Estudos disponíveis na íntegra e de acesso gratuito;
- Trabalhos que abordassem terapias medicamentosas ou aspectos epidemiológicos da enxaqueca;
- Publicações em português ou inglês.
Critérios de exclusão:
- Artigos duplicados, editoriais, cartas ao editor, resumos de congresso e revisões narrativas sem base metodológica clara;
- Estudos com foco exclusivo em terapias não farmacológicas ou distúrbios de cefaleia secundários.
Inicialmente foram identificados 132 artigos. Após a leitura de títulos e resumos, 48 estudos foram selecionados para leitura na íntegra. Destes, 27 preencheram integralmente os critérios de elegibilidade e foram incluídos na revisão.
Os estudos foram organizados em duas categorias principais:
- Epidemiologia e impacto da enxaqueca, incluindo análises populacionais e de prevalência;
- Terapias medicamentosas emergentes, com ênfase em ditans, gepants e anticorpos monoclonais anti-CGRP.
Para fins comparativos, os estudos foram classificados como pré-pandemia (antes de 2020) e pós-pandemia (2020–2025), a fim de observar possíveis diferenças de abordagem e volume de publicações no período recente.
Os artigos selecionados foram avaliados quanto à qualidade metodológica, relevância clínica e nível de evidência. Utilizou-se como referência a Jadad Scale para ensaios clínicos randomizados, o AMSTAR-2 para revisões sistemáticas e critérios de clareza e consistência metodológica para estudos observacionais e relatos de caso.
Os dados foram organizados em planilha, contemplando: autor, ano de publicação, tipo de estudo, amostra, intervenção avaliada, principais achados e conclusões. Em seguida, realizou-se uma análise comparativa temática, agrupando-se os resultados de acordo com o tipo de fármaco e o impacto terapêutico observado.
Por tratar-se de uma revisão integrativa baseada em dados secundários de domínio público, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução CNS nº 510/2016.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1. A necessidade de novas terapias – Bases fisiopatológicas
A enxaqueca é uma condição conhecida desde a antiguidade. Hipócrates (460-370 A.C), foi o primeiro a documentar informações científicas a respeito da doença, descrevendo-a como uma luz brilhante no olho direito seguida por uma cefaleia intensa que eventualmente se estendia por todo o crânio. Adicionalmente, Ibn Sina (980-1037 D.C), famoso médico iraniano, descreveu em sua obra – O Cânone da Medicina – um tipo de cefaleia severa, que piorava com a atividade física e era caracterizada por fotofobia e fonofobia. Entretanto, a despeito dos registros precoces a respeito da migrânea, seu tratamento ao longo da história era escasso. Algumas das terapêuticas propostas eram ervas, como urticas, loureiro, arrudas e mostarda. Ademais, o racional por trás da prescrição desses agentes era meramente especulativo, distante de bases científicas ou observacionais. (AMIRI et al., 2021).
No início do século XX, a ergotamina foi sintetizada e utilizada para o manejo das crises agudas de enxaqueca, mudando o panorama das estratégias medicamentosas. Posteriormente, Moskovitz postulou, ao final da década de 80, a participação do sistema trigeminovascular na fisiopatologia da migrânea, possibilitando a criação dos triptanos, a primeira terapia específica para enxaqueca, logo após. (KOWACS et al., 2023).
Atualmente, considera-se que a ativação da via trigeminovascular e a sensibilização central-periférica constituem a base fisiopatológica da cefaleia a enxaqueca. Fibras nociceptivas originárias do gânglio trigêmeo inervam as meninges e as principais artérias cerebrais. Após a estimulação desses neurônios, são produzidos neuropeptídeos vasoativos, como o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) e o polipeptídeo ativador da adenilato ciclase hipofisária, essa sinalização leva à dilatação arterial, à degranulação dos mastócitos e ao extravasamento plasmático. Adicionalmente, acredita-se que substâncias locais como trifosfato de adenosina (ATP), glutamato, K+, H+, CGRP e óxido nítrico se difundem e ativam os nociceptores meníngeos. Essa estimulação sensibiliza os neurônios trigeminovasculares periféricos, diminuindo o limiar de sua resposta e aumentando a sua magnitude. Por fim, sugere-se que a sensibilização dos neurônios trigeminovasculares centrais no complexo trigeminocervical (TCC) e nos núcleos talâmicos leva à alodinia cefálica, aumentando a capacidade de resposta a estímulos benignos e à atividade cerebral espontânea. (GAWDE et al., 2023).
A partir dos achados descritos e da investigação contínua acerca da fisiopatologia da doença, novas abordagens terapêuticas, a exemplo dos CGRP, gepants e ditans têm sido propostas.
4.2. Anticorpos monoclonais anti-CGRP
Vários novos tratamentos direcionados à via do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) foram desenvolvidos para a prevenção da enxaqueca. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP são uma classe medicamentosa de tratamento preventivo da migrânea que atuam bloqueando o Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina (CGRP) ou o seu receptor, essenciais na fisiopatologia da migrânea. Atualmente, a classe é composta de quatro principais fármacos: erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe, eptinezumabe. (HAGHDOOST et al., 2023).
Em um estudo multicentrico, prospectivo, envolvendo 212 pacientes previamente diagnosticados com enxaqueca crônica refratária a pelos menos três opções terapêuticas, incluindo betabloqueadores, antiepilépticos e toxina botulínica, foram administrados três ciclos consecutivos de 12 meses de anti-CGRP subcutâneos, sendo os períodos de descontinuação (D1, D2 e D3), definidos como como o primeiro mês após cada ciclo de tratamento de 12 meses (T1, T2, T3, respectivamente). Sob esta perspectiva, o estudo demonstrou resultados expressivos em D3, comparativamente a D2, com redução das taxas de frequência mensal de cefaleias (-2.1±1.7 dias mensais), redução da ingestão mensal de analgésicos (-2.6±2.4) e diminuição das taxas de recidiva (2.3 vs 18%).Nesse sentido, o estudo fornece fortes evidências de que o tratamento prolongado com mAbs anti-CGRP por três anos leva a uma melhora progressiva e significativa nos resultados da enxaqueca, sugerindo um potencial efeito modificador da doença na enxaqueca crônica. (BARBANTI et al., 2025).
Além disso, uma revisão sistemática que incluiu 19 ensaios clínicos randomizados destinados a avaliar a segurança e a tolerabilidade dos anticorpos monoclonais direcionados à via CGRP para a prevenção da enxaqueca concluiu que são considerados opções seguras e bem toleradas para a prevenção da enxaqueca,raramente levando a descontinuação do tratamento. Nenhuma diferença significativa em eventos adversos graves foi observada entre os tratamentos ativos e o placebo. Os efeitos adversos mais comuns foram eritema, endurecimento e prurido no local da injeção. Tais efeitos foram associados principalmente ao fremanezumabe e ao galcanezumabe. (MESSINA et al., 2023).
Entretanto, apesar de sua natureza inovadora e perfil de segurança promissor em termos de efeitos adversos, os anticorpos monoclonais CGRP (mAbs) ainda não são considerados tratamento de primeira linha para a prevenção da enxaqueca devido a várias limitações, incluindo sua novidade, custo e certas questões de segurança, particularmente em populações específicas de pacientes.
O CGRP está envolvido em vários processos fisiológicos além da enxaqueca, incluindo homeostase cardiovascular, regulação da pressão arterial, fluxo sanguíneo uteroplacentário e processos inflamatórios. Desse modo, seu bloqueio pode potencialmente levar a efeitos colaterais graves em subpopulações específicas. Ademais, a enxaqueca afeta predominantemente as mulheres durante seus anos férteis. Sob essa perspectiva, o CGRP desempenha um papel na regulação do fluxo sanguíneo uteroplacentário, no relaxamento miometrial e uterino e no controle da pressão arterial. Suspeita-se que o bloqueio do CGRP possa causar complicações como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia ou eclâmpsia. (SIMIONI et al., 2022).
4.3. Gepants (antagonistas orais do CGRP)
Os gepants configuram uma estratégia terapêutica moderna no manejo da enxaqueca, atuando como antagonistas seletivos dos receptores do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP). Ao bloquear essa sinalização, inibem a vasodilatação neurogênica e a transmissão nociceptiva trigeminal, sem desencadear efeitos vasoconstritores, característica que os distingue dos triptanos e permite seu uso seguro em indivíduos com risco cardiovascular (EDVINSSON et al., 2024). Entre os fármacos mais estudados destacam-se rimegepant, ubrogepant e atogepant, empregados tanto no tratamento agudo quanto na profilaxia episódica da doença, com diferenças farmacocinéticas que influenciam frequência e duração do efeito (GUPTA et al., 2023; SACCO et al., 2024). Ensaios clínicos de fase III confirmam a eficácia dessa classe. Nos estudos ACHIEVE I e II, o ubrogepant proporcionou alívio significativo da dor em até duas horas e redução do sintoma mais incapacitante relatado pelos pacientes (CONWELL et al., 2019). O rimegepant evidenciou benefícios tanto no contexto agudo quanto preventivo, com diminuição média de até cinco dias de cefaleia por mês em tratamento contínuo. Já o atogepant, voltado prioritariamente à profilaxia, demonstrou redução estável da frequência de crises mensais, reforçando sua consistência clínica. Alguns estudos adicionais também apontam melhora em desfechos relacionados à qualidade de vida e redução dos dias incapacitantes, demonstrando o impacto positivo da classe em desfechos funcionais e sociais (GUPTA et al., 2023; GAO et al., 2023). O perfil de tolerabilidade dos gepants é considerado favorável. Os eventos adversos mais comuns — náusea, fadiga e sonolência — apresentam intensidade geralmente leve a moderada e são transitórios, raramente exigindo descontinuação do tratamento (SACCO et al., 2024). A ausência de efeito vasoconstritor justifica seu uso seguro em pacientes com hipertensão não controlada, histórico de doença cerebrovascular ou outras comorbidades cardiovasculares, consolidando seu papel em contextos clínicos de risco elevado (EDVINSSON et al., 2024). Embora apresentem resultados clínicos promissores, permanecem lacunas relevantes que orientam a necessidade de pesquisa contínua. Dados sobre o uso prolongado em populações especiais — incluindo idosos, gestantes e indivíduos com múltiplas comorbidades — ainda são limitados. Além disso, comparações diretas com anticorpos monoclonais anti-CGRP são escassas, restringindo a definição de estratégias sequenciais ou combinadas. Estudos de seguimento de longo prazo serão fundamentais para consolidar evidências sobre eficácia sustentada, segurança e impacto na qualidade de vida, permitindo decisões clínicas mais fundamentadas (D’HERTOGUE et al., 2023; GAO et al., 2023). Assim, os gepants representam uma evolução conceitual significativa no tratamento da enxaqueca, fornecendo alternativas eficazes tanto para crises agudas quanto para prevenção, com perfil de segurança cardiovascular robusto. O aprofundamento das pesquisas, especialmente em regimes prolongados e em subpopulações vulneráveis, será essencial para consolidar o papel clínico desta classe e possibilitar seu uso otimizado na prática diária.
4.4. Ditans (agonistas 5-HT1F)
Os ditans constituem uma classe inovadora de fármacos antimigranosos cujo principal representante é o lasmiditan, agonista altamente seletivo dos receptores 5-HT1F, desenvolvido para oferecer ação antimigranosa sem efeito vasoconstritor, característica que distingue esta classe dos triptanos (KOWACS et al., 2023). A seletividade do lasmiditan é marcante: sua afinidade pelo 5-HT1F é mais de 450 vezes superior à observada para 5-HT1B e 5-HT1D, resultando em ação predominantemente neuronal e ausência de estímulo contrátil em modelos vasculares (VILA-PUEYO et al., 2018).
Nos ensaios clínicos de fase III SAMURAI, SPARTAN e CENTURION, o lasmiditan demonstrou eficácia significativa em comparação ao placebo. No estudo SAMURAI, as doses de 50 mg, 100 mg e 200 mg atingiram taxas de liberdade da dor em duas horas de 28,6%, 32,2% e 38,8%, respectivamente, contra 21,3% no grupo placebo (VILA-PUEYO et al., 2018). O estudo SPARTAN confirmou esses achados, com melhora adicional no desfecho de ausência do sintoma mais incômodo, observado em até 48,7% dos pacientes tratados com 200 mg (PULEDDA et al., 2023). O ensaio CENTURION, multicêntrico e de múltiplos ataques, reforçou a consistência da resposta ao longo de episódios sucessivos, demonstrando manutenção da eficácia sem perda de efeito cumulativo (PULEDDA et al., 2023).
A principal vantagem terapêutica do lasmiditan é a ausência de efeito vasoconstritor, fato comprovado por experimentos in vitro e em modelos animais que mostraram ausência de contração em artérias coronarianas e cerebrais humanas (KOWACS et al., 2023). Essa característica o torna opção terapêutica relevante para pacientes com contraindicação ao uso de triptanos, como aqueles com doença cardiovascular, hipertensão não controlada ou histórico de acidente vascular cerebral. Até o momento, não foram relatados eventos cardiovasculares graves atribuídos ao fármaco em ensaios clínicos (VILA-PUEYO et al., 2018).
Os efeitos adversos são predominantemente centrais, decorrentes da alta lipofilicidade e penetração no sistema nervoso central. Os eventos mais comuns incluem tontura (12–18%), fadiga (6–8%), sonolência (5–7%), náusea (5–8%) e parestesias (3–5%), sendo todos dose dependentes (PULEDDA et al., 2023). Tais manifestações impactam atividades cotidianas, especialmente a capacidade de conduzir veículos ou operar máquinas, razão pela qual recomenda-se evitar tais atividades por pelo menos oito horas após o uso (ANE MÍNGUEZ OLAONDO et al., 2024). Embora a taxa de descontinuação seja baixa (<5%), ocorre aumento proporcional em doses mais elevadas, indicando a necessidade de equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade.
No tocante às lacunas de evidência, ainda não existem estudos comparativos diretos (“head-to-head”) entre ditans e triptanos ou gepants. As comparações disponíveis derivam de metanálises em rede, que apontam eficácia semelhante entre lasmiditan 200 mg e gepants orais (rimegepanto, ubrogepanto), com tolerabilidade inferior devido aos efeitos centrais (PULEDDA et al., 2023). Em contrapartida, as taxas de liberdade da dor em duas horas para os principais triptanos permanecem numericamente superiores, embora o perfil de segurança do lasmiditan seja mais favorável em pacientes com risco cardiovascular (KOWACS et al., 2023).
Os dados de segurança e tolerabilidade em longo prazo ainda são limitados. O estudo GLADIATOR, de extensão aberta, foi projetado para acompanhamento por até um ano, com até 27.000 crises tratadas. Os resultados preliminares indicaram manutenção da eficácia e ausência de toxicidade cumulativa significativa, mas confirmaram a persistência dos efeitos sedativos como principal limitação (VILA-PUEYO et al., 2018). A ausência de dados robustos em populações idosas, pacientes com múltiplas comorbidades e em uso concomitante de outros agentes profiláticos ainda impede extrapolação segura.
Em síntese, o lasmiditan representa um avanço conceitual importante na farmacoterapia antimigranosa. Sua eficácia foi comprovada em múltiplos ensaios e seu perfil de segurança cardiovascular o posiciona como alternativa racional aos triptanos. Entretanto, a ausência de estudos comparativos diretos, as limitações em dados de longo prazo e a alta incidência de efeitos centrais configuram lacunas que devem ser abordadas por futuras pesquisas.
4.5. Perspectivas e desafios futuros
As perspectivas terapêuticas futuras para a enxaqueca caminham no sentido da integração farmacológica entre diferentes alvos moleculares — 5-HT1F, CGRP e seus receptores —, visando estratégias mais eficazes e personalizadas. O potencial uso combinado de ditans, gepants e anticorpos monoclonais anti-CGRP fundamenta-se na complementaridade de mecanismos: os ditans atuam modulando a excitabilidade neuronal e inibindo a liberação de neuropeptídeos, enquanto os gepants e anticorpos bloqueiam a sinalização do CGRP e seus efeitos vasodilatadores e pró-inflamatórios (MESSINA et al., 2023). No entanto, até o momento, não existem ensaios clínicos controlados que avaliem a eficácia ou segurança de tais combinações, representando uma lacuna científica crítica (HAGHDOOST et al., 2023).
Outro eixo promissor é a busca por biomarcadores de resposta terapêutica. A variabilidade individual na resposta aos antagonistas de CGRP, gepants e ditans reflete a heterogeneidade fisiopatológica da enxaqueca. Estudos de revisão e metanálises recentes destacam a necessidade de incorporar abordagens genômicas, neuroquímicas e de neuroimagem na estratificação de pacientes, com o objetivo de predizer resposta terapêutica e minimizar exposição desnecessária a tratamentos ineficazes (HAGHDOOST et al., 2023). Até o presente, contudo, nenhum biomarcador validado foi identificado, reforçando a importância da pesquisa translacional e de coortes fenotipadas com precisão.
A personalização terapêutica surge como uma tendência consolidada. Pacientes com contraindicação a vasoconstritores, intolerância aos triptanos ou múltiplas comorbidades cardiovasculares são candidatos naturais ao uso de ditans (PULEDDA et al., 2023). Já os gepants e os anticorpos anti-CGRP apresentam perfil mais favorável para tratamento preventivo e manutenção da resposta em longo prazo (MESSINA et al., 2023). Apesar dessas indicações teóricas, ainda faltam estratificações clínicas robustas em ensaios que definam quais perfis de pacientes se beneficiam mais de cada classe, o que limita a aplicação de protocolos personalizados na prática clínica.
Por fim, as questões de acesso, custo e desigualdade global configuram desafios éticos e estruturais. Os novos agentes, incluindo ditans, gepants e anticorpos monoclonais, apresentam custos elevados e disponibilidade restrita, especialmente em países de baixa e média renda. Isso cria uma disparidade entre avanços científicos e sua aplicabilidade real na saúde pública (MESSINA et al., 2023). Além disso, políticas de reembolso restritivas e exigência de falha prévia em terapias convencionais limitam o acesso mesmo em sistemas de saúde de alta renda (ANE MÍNGUEZ OLAONDO et al., 2024). Estudos farmacoeconômicos e análises de custo-efetividade são, portanto, indispensáveis para a incorporação sustentável dessas terapias.
Em conclusão, o panorama atual das novas terapias farmacológicas para a enxaqueca demonstra avanços expressivos na especificidade molecular e na segurança terapêutica, particularmente com o desenvolvimento dos ditans. Contudo, a consolidação de uma abordagem integrada — que una eficácia, segurança, personalização e equidade — dependerá de investigações clínicas robustas, comparações diretas entre classes e políticas de saúde que viabilizem o acesso global a essas inovações.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A compreensão ampliada dos mecanismos fisiopatológicos da enxaqueca transformou substancialmente o cenário terapêutico nos últimos anos. A identificação do papel do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) e de seus receptores, associada ao aprofundamento no estudo da via serotoninérgica 5-HT1F, permitiu o desenvolvimento de fármacos com maior seletividade molecular e menor perfil de efeitos adversos. Nesse contexto, os anticorpos monoclonais anti-CGRP, os gepants e os ditans representam marcos importantes na farmacoterapia da enxaqueca, oferecendo opções eficazes tanto para o tratamento agudo quanto para a profilaxia, especialmente em pacientes com contraindicação aos triptanos ou refratários às terapias convencionais.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios significativos. As evidências disponíveis são limitadas em populações específicas, como gestantes, idosos e pacientes com múltiplas comorbidades, e o custo elevado desses tratamentos restringe o acesso em países de média e baixa renda. Além disso, a ausência de ensaios clínicos comparativos entre as novas classes dificulta a definição de protocolos otimizados e de estratégias terapêuticas personalizadas.
O futuro do manejo da enxaqueca depende da integração entre a farmacologia de precisão, a estratificação de pacientes e políticas públicas que garantam o acesso equitativo aos tratamentos inovadores. A continuidade das pesquisas translacionais e de longo prazo será essencial para confirmar a eficácia sustentada, a segurança em diferentes contextos clínicos e o impacto real dessas terapias na qualidade de vida dos pacientes. Em síntese, os avanços recentes marcam um passo decisivo em direção a uma medicina mais personalizada, segura e baseada em evidências no tratamento da enxaqueca.
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1Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto UNICEUB Campus Asa Norte e-mail: if.maria60@sempreceub.com
2Docente do Curso Superior de MEDICINA do Instituto UNICEUB Campus ASA NORTE. Doutor em Ciências e Tecnologias em Saúde pela UNB. e-mail: joaobarbosa@ceub.edu.br
