MANAGEMENT OF IRRITABLE BOWEL SYNDROME: REVIEW ON THE EFFECTIVENESS OF LACTOBACILLUS RHAMNOSUS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511171243
Leila Ismail Hamed Karaja; Nicole Beck Bonatto; Vitoria de Macedo Ferraz; Giovanna Etchechurry Barros; Giordano Scheis; Joao Victor Barbosa Magalhães; Aline Oliveira Aguiar; Lucas Dounis Mariano; Beatriz Estrella Souza1; Lelia Cristina Tenorio Leoi Romeir2
RESUMO
Introdução: a Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma das condições gastrointestinais (GI) mais debilitantes, tendo grande impacto na qualidade de vida. O desequilíbrio da microbiota intestinal é apontado como fator importante em sua origem, por contribuir para alterações na barreira da mucosa intestinal e inflamação local. Nesse contexto, os probióticos surgem como alternativa terapêutica promissora. Entre eles, o Lactobacillus rhamnosus destaca-se por reduzir sintomas gastrointestinais e melhorar o bem-estar. Contudo, ainda existem lacunas quanto às cepas, doses e ao tempo de uso ideal. Objetivo: avaliar a eficácia do probiótico Lactobacillus rhamnosus no manejo da SII. Metodologia: revisão integrativa nas bases PubMed e LILACS, abrangendo publicações entre 2015 e 2025. Utilizaram-se os descritores “Irritable Bowel Syndrome”, “Probiotic” e “Lactobacillus rhamnosus”. Incluíram-se 10 artigos em português, espanhol e inglês que atenderam aos critérios metodológicos. Resultados: o Lactobacillus rhamnosus apresenta eficácia significativa no manejo da SII, especialmente quando associado a outros probióticos, como Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium spp. Cepas como WL11 e WL17 reduzem a inflamação, aliviam os sintomas gastrointestinais e melhoram a qualidade de vida, destacando-se a WL17 por seus efeitos mais consistentes. Ensaios clínicos com a cepa RH 3201 evidenciaram melhora da constipação, desconforto e distensão abdominal, com modulação positiva da microbiota intestinal. O LGG também apresenta resultados promissores, fortalecendo a barreira intestinal, regulando a resposta imunológica e reduzindo a inflamação, resultando em alívio dos sintomas e melhor qualidade de vida. Conclusão: o uso de Lactobacillus rhamnosus no manejo da SII mostrou resultados promissores, especialmente quando combinado com outros probióticos. Destaca-se por modular a microbiota, fortalecer a barreira intestinal e reduzir a inflamação. Contudo, a diversidade entre estudos quanto às cepas, doses e tempo de uso limita a padronização terapêutica. Assim, mais estudos são necessários para estabelecer recomendações claras sobre seu uso na SII.
Palavras-chave: Síndrome do Intestino Irritável; Lactobacillus rhamnosus; Probióticos
1. INTRODUÇÃO
As doenças gastrointestinais (GI) representam um desafio significativo na prática clínica, sendo a Síndrome do Intestino Irritável (SII) uma das condições mais debilitantes. Caracterizada por dor abdominal recorrente associada a alterações nos hábitos intestinais, a SII impacta profundamente a qualidade de vida dos indivíduos. A compreensão da etiologia da SII tem evoluído consideravelmente, com foco crescente no eixo intestino-cérebro e no papel da microbiota intestinal. Evidências acumuladas indicam que o desequilíbrio desta comunidade microbiana, denominado disbiose intestinal (CARÍAS DOMÍNGUEZ et al., 2024) está intrinsecamente ligado à patogênese de várias doenças gastrointestinais. Essa disfunção microbiana pode levar ao aumento da permeabilidade da mucosa intestinal, um alvo terapêutico promissor (BARBARO et al., 2025). Essa visão abre espaço para intervenções que visem modular a microbiota intestinal como forma de prevenir ou tratar a síndrome.
Entre essas abordagens, os probióticos têm recebido destaque crescente. Definidos como microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro, eles são estudados pela sua capacidade de restaurar o equilíbrio microbiano, reforçar a barreira intestinal e modular a resposta imunológica (BARBUTI et al., 2020). Em especial, cepas de Lactobacillus rhamnosus têm sido amplamente investigadas em ensaios clínicos e revisões sistemáticas devido ao seu potencial de atenuar sintomas gastrointestinais e promover bem-estar geral. Estudos recentes têm explorado sua eficácia em subtipos específicos de SII, como a SII com constipação (KWON et al., 2024), e investigado a ação de formulações multicepas, tanto em pacientes com SII pura quanto naqueles com sintomas sobrepostos a doenças inflamatórias intestinais (BARBARO et al., 2025).
Ensaios clínicos e revisões sistemáticas recentes demonstram resultados heterogêneos quanto à melhora de sintomas como dor abdominal, distensão, constipação e diarreia, além de apontarem fatores individuais, como o perfil da microbiota basal, que podem influenciar a resposta ao tratamento (KWON et al., 2024). Assim, embora haja consenso sobre o potencial dos probióticos no manejo da SII, ainda permanecem lacunas acerca da seleção ideal de cepas, dosagem e tempo de intervenção.
Desse modo, esse resumo de literatura tem como objetivo sintetizar os achados mais atuais sobre o papel dos probióticos, com ênfase nas cepas de Lactobacillus rhamnosus no manejo da Síndrome do Intestino Irritável, abordando tanto a evidência clínica de eficácia quanto os mecanismos fisiopatológicos subjacentes.
2. OBJETIVO
Avaliar a eficácia do probiótico Lactobacillus rhamnosus na abordagem da Síndrome do Intestino Irritável (SII).
3. METODOLOGIA
Realizou-se uma revisão sistemática nas bases de dados PubMed e LILACS, entre os anos 2015 a 2025, utilizando os descritores: “Irritable Bowel Syndrome”, “Probiotic”, “Lactobacillus rhamnosus”. Foram incluídos artigos publicados entre janeiro de 2015 e outubro de 2025, nos idiomas português, espanhol e inglês. A seleção dos estudos ocorreu em três etapas: leitura dos títulos, análise dos resumos e avaliação dos textos completos, com base em critérios previamente estabelecidos. Foram excluídos artigos duplicados, revisões sem descrição metodológica, editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos e estudos com foco exclusivo em outros microrganismos. Ao final da triagem, foram incluídos 10 artigos na análise.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é um distúrbio gastrointestinal marcado por sintomas como desconforto ou dor abdominal associados a alteração dos hábitos intestinais, ou seja, diarréia e/ou constipação. Afeta, em média, de 7% a 22% da população mundial, sendo uma síndrome comum, de caráter crônico e de curso intermitente (MORAES-FILHO et al., 2015).
A fisiopatologia da doença ainda não é totalmente compreendida, porém há diversos estudos que indicam a possibilidade de uma desregulação do eixo cérebro-intestino, que envolve anormalidades nos sistemas entérico, autonômico e/ou nervoso central. Há alguns fatores que podem contribuir para os sintomas da SII como alterações na motilidade intestinal, resposta imune intestinal desregulada, inflamação de baixo grau, aumento da permeabilidade gastrointestinal e desequilíbrio da microbiota intestinal (MORAES-FILHO et al., 2015).
Nos últimos anos, tem crescido o interesse científico em torno da hipótese de que a microbiota intestinal desempenha um papel relevante tanto na sintomatologia da doença quanto na própria fisiopatologia. Diversas evidências apoiam essa relação, incluindo diferenças observadas na composição da microbiota colônica entre indivíduos com SII e aqueles sem a síndrome, o aparecimento de sintomas após episódios de gastroenterite infecciosa e as respostas clínicas ao uso de antibióticos, prebióticos e probióticos (MORAES-FILHO et al., 2015). Além disso, há relatos de melhora sintomática em pacientes submetidos ao transplante de microbiota fecal. Entre essas evidências, destaca-se o fato de que pessoas que tiveram uma infecção gastrointestinal prévia apresentam um risco até sete vezes maior de desenvolver SII, reforçando a influência das bactérias intestinais no desenvolvimento da doença. Assim, de forma geral, fatores que provocam alterações no equilíbrio ecológico do intestino podem contribuir para o surgimento da SII.
Atualmente, os critérios diagnósticos utilizados em pesquisas e na prática clínica são os critérios de Roma IV, que define a SII por meio da manifestação de dor ou desconforto abdominal recorrente, por pelo menos 3 dias no mês, nos últimos 3 meses, com início há pelo menos 6 meses e que incluam pelo menos duas das seguintes características: melhora dos sintomas com a evacuação, alteração na frequência das evacuações e alteração na forma (aparência) das fezes.
A SII possui grande relevância social não apenas por ser um distúrbio muito frequente, mas também porque provoca sintomas intensos e persistentes em muitos pacientes, o que prejudica a qualidade de vida e o convívio social. Um diagnóstico correto e realizado precocemente é fundamental para evitar a realização de exames desnecessários ou com possíveis riscos. Desse modo, a definição do padrão intestinal predominante é um parâmetro importante para o desenvolvimento de estratégias de manejo para a SII e, para isso, o Comitê da Fundação Roma para Transtornos Funcionais Intestinais propôs quatro subtipos de SII, relacionados ao hábito intestinal: SII com predominância de constipação (SII-C), SII com predominância de diarreia (SII-D), SII mista (SII-M) e SII não classificada (MORAES-FILHO et al., 2015).
A microbiota intestinal é composta por trilhões de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal humano desde o nascimento, formando um ecossistema complexo e essencial para o equilíbrio do organismo. Em indivíduos adultos, a composição da microbiota pode ser modificada por fatores como o uso de antibióticos, dieta, localização geográfica e envelhecimento. A microbiota exerce diversas funções fundamentais, incluindo a manutenção da integridade da mucosa intestinal, a proteção contra patógenos, a modulação do sistema imunológico, a produção de vitaminas e o metabolismo de ácidos biliares e componentes alimentares não digeríveis (MORAES-FILHO et al., 2015). Na SII, acredita-se que a microbiota influencia diretamente no desenvolvimento e no curso da doença e, por esse motivo, os probióticos têm sido estudados como potenciais opções terapêuticas, com o objetivo de possivelmente restaurar o equilíbrio intestinal.
Os estudos com probióticos como opção terapêutica na SII enfrentam obstáculos na qualidade metodológica, o que contribui para uma evidência clínica limitada. Os resultados dos estudos variam bastante, já que os probióticos utilizados diferem em espécie, cepa e combinações, o que dificulta comparações diretas. Ainda assim, algumas cepas específicas demonstraram benefícios clínicos. O uso de Bifidobacterium infantis, B. brevis e B. animalis tem sido associado à melhora do inchaço e da constipação, enquanto Lactobacillus plantarum, L. casei, L. reuteri, L. acidophilus e L. rhamnosus mostraram redução de dor abdominal, diarreia, constipação e distensão abdominal (MORAES-FILHO et al., 2015).
O Lactobacillus rhamnosus está sendo amplamente estudado e é uma das espécies probióticas mais utilizadas atualmente como terapia na SII. No estudo conduzido por Zhang et al. (2024), foram isoladas e caracterizadas 21 cepas de Lactobacillus rhamnosus, com o objetivo de avaliar seu potencial probiótico e seus efeitos sobre a Síndrome do Intestino Irritável (SII) e a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC). As análises genômicas revelaram grande diversidade genética entre as cepas, com um pan-genoma aberto e capacidade variável de metabolizar carboidratos e resistir a condições adversas do trato gastrointestinal. Dentre as cepas avaliadas, L. rhamnosus WL11 e WL17 apresentaram melhor desempenho, com rápido crescimento, alta tolerância à acidez e produção significativa de ácidos graxos de cadeia curta, especialmente ácido acético e láctico. Em modelos murinos, ambas as cepas reduziram marcadores inflamatórios, como TNF-α e IL-6, além de atenuarem a hipersensibilidade visceral e comportamentos ansiosos associados à SII. Em animais com SFC, essas cepas também melhoraram o ganho de peso, a coordenação motora, a memória espacial e reduziram o estresse oxidativo. Entre as duas, a cepa WL17 demonstrou resultados mais consistentes e expressivos na melhora dos sintomas. Esses achados sugerem que determinadas cepas de L. rhamnosus, em especial a WL17, podem exercer efeitos benéficos sobre distúrbios intestinais e neurocomportamentais, reforçando o potencial terapêutico dos probióticos no manejo da SII.
Esses resultados em modelos animais foram complementados por evidências clínicas em humanos, por exemplo em um estudo randomizado duplo-cego com grupo controle com placebo realizado por Kwon et al. (2024), no qual busca compreender os efeitos do Lactobacillus rhamnosus na Síndrome do Intestino Irritável com Constipação (SII-C). Para o estudo, foram selecionados 30 participantes selecionados pelos critérios de inclusão e exclusão. Os participantes foram aleatoriamente distribuídos em dois grupos de 15 indivíduos cada, utilizando uma lista de randomização gerada por computador. Tanto o processo de alocação quanto a codificação dos produtos investigacionais foram realizados de forma automatizada, assegurando o duplo cegamento. O grupo experimental recebeu cápsulas contendo o probiótico RH 3201, na dosagem de 1×10¹⁰ UFC por cápsula, enquanto o grupo controle recebeu placebo idêntico em aparência e cor.
A coleta de dados foi realizada nos momentos basal (semana 0), 4 e 8, utilizando três instrumentos: o questionário de hábitos intestinais, que avaliou frequência e características das evacuações, dor abdominal, desconforto e gases; o IBS-SSS (Irritable Bowel Syndrome Severity Scoring System), que mensurou a gravidade dos sintomas e o impacto nas atividades diárias; e o IBS-QOL (Irritable Bowel Syndrome Quality of Life), que avaliou a qualidade de vida em oito domínios, como disforia, imagem corporal, alimentação e relações sociais. Os resultados mostraram que o grupo tratado com o probiótico RH 3201 apresentou melhora significativa nos hábitos intestinais, com redução da constipação, do desconforto pós evacuação e da distensão abdominal, além de maior satisfação com o hábito intestinal e menor interferência dos sintomas nas atividades cotidianas. Também houve melhora nos escores de qualidade de vida, abrangendo aspectos emocionais, sociais e alimentares.
Ademais, verificou-se uma modulação positiva do microbioma intestinal, com aumento de espécies como Bacteroides cellulosilyticus e Akkermansia muciniphila, bem como correlação entre metabólitos fecais específicos (como N-acetilornitina, xantina e 3- fenilpropanoico) e a melhora clínica observada. Esses achados sugerem que o RH 3201 exerce efeito benéfico sobre o ecossistema intestinal, contribuindo para o alívio dos sintomas e a melhoria da qualidade de vida em pacientes com SII-C.
A eficácia dos probióticos no tratamento da SII continua sendo um assunto amplamente debatido na literatura. Apesar de vários estudos apontarem melhora dos sintomas com o uso de cepas específicas de Lactobacillus e Bifidobacterium, os resultados ainda são bastante variados. Estudos clínicos recentes enfatizam a importância de identificar os biomarcadores de resposta e de entender mais profundamente os mecanismos envolvidos.
Em um ensaio clínico randomizado e duplo-cego realizado por Shin et al. (2022), que investigou o uso de uma formulação multiespécie com L. rhamnosus em pacientes com SII com predominância de diarreia (SII-D), constatou-se, após 8 semanas de tratamento, uma diminuição significativa nas abundâncias relativas de Proteobacteria e Bacteroides, associadas a melhora sintomática em parte dos participantes. Os autores também identificaram Enterococcus faecalis e Lactococcus lactis como possíveis marcadores de não resposta e Fusicatenibacter saccharivorans ssp como marcador associado à melhora clínica, podendo ser um dos novos alvos terapêuticos para o tratamento da SII-D. Apesar dos resultados adquiridos, o estudo possui limitações que dificultam a avaliação do efeito isolado do Lactobacillus rhamnosus GG, como a amostra reduzida (n= 50), a falta de controle dietético e o uso de uma formulação multiespécie. Além disso, a ausência de alteração significativa na diversidade microbiana global sugere que os benefícios observados podem ser resultado de mecanismos indiretos, como a produção de ácidos graxos de cadeia curta, modulação da barreira epitelial intestinal e controle da resposta imune local.
De forma semelhante, Fenessy et al. (2025) conduziram um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, para investigar os efeitos de um probiótico multicepa em pacientes com sobreposição de sintomas de Síndrome do Intestino Irritável (SII) em contexto de Doença Inflamatória Intestinal (DII) em remissão. No total, 61 participantes foram alocados para receber o probiótico (n = 40) ou placebo (n = 21) por um período de 3 meses. O produto ativo era um probiótico contendo quatro cepas (Lactobacillus rhamnosus NCIMB 30174, L. plantarum NCIMB 30173, L. acidophilus NCIMB 30175 e Enterococcus faecium NCIMB 30176), enquanto o placebo era uma suspensão líquida idêntica em aparência e sabor. O desfecho primário foi a redução de 100 pontos no escore IBS-SSS após a intervenção (avaliando severidade dos sintomas da SII). Os resultados mostraram que 45 % dos pacientes no grupo ativo alcançaram essa meta, contra 33 % no placebo (P = 0,42), e a redução média do IBS-SSS foi de 90 pontos no grupo probiótico versus 61 pontos no placebo (P = 0,31). Não foram observadas diferenças significativas em relação a desfechos da DII (como recidiva ou necessidade de terapias adicionais). O probiótico foi bem tolerado e não houve piora nos parâmetros inflamatórios. O estudo sugere que essa fórmula probiótica multicepa pode oferecer alívio de sintomas de SII em pacientes com DII remissiva, sem impactar negativamente o controle da doença inflamatória, embora os resultados não tenham alcançado significância estatística robusta.
Esses achados estão em concordância parcial com as conclusões de revisões sistemáticas recentes, que apontam benefícios modestos e heterogêneos dos probióticos em pacientes com SII. Na revisão sistemática realizada por Ceccherini et al. (2022), a qual analisou 104 ensaios clínicos publicados entre 2011 e 2021 sobre o uso de probióticos no tratamento da SII, constatou-se que o Lactobacillus rhamnosus foi uma das cepas mais estudadas, principalmente em formulações com Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium animalis subsp. lactis. Por meio de uma análise multicritério (MCDA), os autores identificaram que a combinação L. rhamnosus – L. acidophilus apresentou grande impacto na melhora da qualidade de vida e redução de sintomas gastrointestinais, como distensão e dor abdominal. No entanto, assim como o estudo de Shin et al. (2022), existem obstáculos na revisão sistemática de Ceccherini et al. (2022). A análise dos autores aponta que a diversidade de métodos utilizada nos ensaios clínicos dificulta a comparação direta entre os estudos e pode comprometer a significância estatística dos resultados. Além disso, há uma predominância de mulheres nas amostras (média de 82% dos participantes), ou seja a sub-representação do sexo masculino sugere um viés de gênero, uma vez que sintomas como distensão abdominal e dor são percebidos de maneira diferente por mulheres.
A microbiota atua de muitas maneiras, direta e indiretamente, exercendo ações protetoras, traduzidas pela capacidade de bactérias “boas” de nos proteger de infecções por microrganismos patogênicos, além de promover a digestão de vários alimentos. Por exemplo, as bactérias boas secretam bacteriocinas (antibióticos naturais) e outras colicinas, e geram – a partir da fermentação de carboidratos não digeríveis – ácidos graxos de cadeia curta, como butirato, propionato, lactato e acetato, que reduzem o pH colônico, dificultando assim a proliferação bacteriana, já as bactérias do gênero Lactobacillus podem produzir beta galactosidase e, assim, facilitar a quebra da lactose, diminuindo os sintomas de intolerância a esse dissacarídeo. O microbioma intestinal de pacientes com SII tem uma disbiose acentuada, consistindo em uma redução geral da diversidade microbiana. Diante disso, a correção desse desequilíbrio de microbiota é uma abordagem lógica que deve fazer parte do tratamento dessa síndrome, mesmo que a suplementação probiótica não seja capaz de controlar todos os sintomas da condição em questão (BARBUTI et al., 2020).
Dentre as cepas recomendadas pela Organização Mundial de Gastroenterologia para uso na SII, os Lactobacillus rhamnosus estão listados, porém não é recomendado que apenas uma cepa seja usada, justamente pelas diferentes apresentações clínicas dessa síndrome, tendo uma resposta melhor ao ser associada a outras cepas como a Bifidobacterium bifidum e os Lactobacillus plantarum (BARBUTI et al., 2020). Estudos mais recentes descobriram um desempenho melhor dos lactobacilos no tratamento de distensão e inchaço, quando comparado com as bifidobactérias. Como a SII é uma condição crônica, a suplementação probiótica também deve ser realizada por um longo período (BARBUTI et al., 2020). Além dos estudos clínicos, experimentos in vitro também reforçam os mecanismos de ação propostos dos probióticos na SII. Por exemplo, foi realizado um estudo in vitro conduzido por Barbaro et al. (2025) com o objetivo de investigar os efeitos de uma mistura probiótica composta por Lactobacillus rhamnosus LR 32, Bifidobacterium lactis BL 04 e Bifidobacterium longum BB 536 (produto comercial denominado Serobioma) sobre a permeabilidade epitelial intestinal estimulada por mediadores mucosos de pacientes com Síndrome do Intestino Irritável (SII). Para o experimento, foram reunidos 28 pacientes com SII (divididos nos subtipos SII Diarréia (IBS-D, n = 10), SII-Constipação (IBS-C, n = 9) e SII-Mista (IBS-M, n = 9)) diagnosticados pelos critérios de Roma IV, além de 7 controles assintomáticos (ACs). De cada indivíduo foram coletados mediadores liberados espontaneamente pelas biópsias colônicas (supernatantes). Células Caco-2 (modelo de epitélio intestinal) foram incubadas com esses supernatantes com ou sem a adição de duas concentrações diferentes de Serobioma (10³ e 10⁶ CFU/mL) para avaliar os efeitos sobre a permeabilidade paracelular e a expressão de junções apertadas (tight junctions), com foco especial na proteína ZO-1. Nos resultados, os supernatantes de pacientes com SII aumentaram significativamente a permeabilidade das células Caco-2 comparados aos controles (indicando disfunção da barreira). A co-incubação com Serobioma a 10⁶ CFU/mL preveniu essa alteração de permeabilidade (p < 0,001), especialmente nos supernatantes de IBS-D e IBS-M. Adicionalmente, a presença de Serobioma + supernatantes de IBS-D promoveu um aumento significativo na expressão de ZO-1 (em comparação à incubação apenas com os supernatantes) conforme qPCR (p < 0,05), sugerindo um mecanismo de reforço das junções epiteliais. Os autores concluem que a mistura probiótica Serobioma é capaz de atenuar os efeitos deletérios dos mediadores mucosos de pacientes com SII sobre a permeabilidade intestinal, possivelmente modulado a expressão de ZO-1 e fortalecendo a integridade da barreira epitelial. Essa intervenção in vitro sugere que a modulação da barreira intestinal pode ser um dos mecanismos pelos quais probióticos multiestratégicos exercem benefícios em SII
Os probióticos podem interagir com o hospedeiro em todo o trato gastrointestinal, várias moléculas ancoradas na superfície que afetam a mucosa intestinal e o sistema imunológico, incluindo o pili, peptidoglicano, ácido lipoteicoico, exopolissacarídeos, bem como as proteínas secretadas p40, p75 e HM0539 foram identificadas no Lactobacillus rhamnosus GG (LGG). Essas moléculas efetoras, apesar de às vezes induzirem respostas imunes aparentemente opostas, contribuem coletivamente para o aprimoramento geral da regulação imunológica e da proteção da mucosa intestinal por esse probiótico. Dessa forma, o LGG atua inibindo a apoptose induzida por citocinas, preservando a função de barreira, regulando positivamente a produção de muco, promovendo a tolerância imunológica e a homeostase e estimulando a produção de imunoglobulina A (IgA), que protege contra a inflamação intestinal (LESER et al., 2024).
Além das recomendações por órgãos reconhecidos, diversos estudos independentes também mencionaram o uso dos Lactobacillus rhamnosus em terapias adjuvantes de doenças que provocam disbiose, como é o caso da SII. É válido destacar que não existe um probiótico padrão ouro no tratamento dessa síndrome, já que a resposta individual varia bastante, porém um consenso foi percebido com relação à validação da eficácia do probiótico em questão por diversos profissionais e organizações (CARÍAS DOMÍNGUEZ et al., 2024).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
De acordo com as evidências atuais disponível, conclui-se que o uso de probióticos no manejo da Síndrome do Intestino Irritável apresenta resultados promissores, uma vez que diversos estudos relatam melhora significativa dos sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, distensão e irregularidade do trânsito intestinal. Entre os probióticos mais estudados, o Lactobacillus rhamnosus tem se destacado por sua capacidade de modular a microbiota intestinal e atuar sobre mecanismos de barreira e inflamação de baixo grau, frequentemente implicados na fisiopatologia da síndrome.
Apesar da variabilidade nos resultados com formulações multicepa, o uso combinado de L. rhamnosus com outros probióticos mostra maior benefício, sugerindo que o manejo ideal da SII envolve a combinação de cepas e espécies que atuam na integridade da barreira intestinal, regulação imunológica e produção de metabólitos benéficos.
Contudo, observou-se heterogeneidade considerável entre os estudos incluídos, tanto em relação às cepas utilizadas e às doses administradas, quanto ao tempo de uso dos probióticos, o que dificulta a definição de protocolos terapêuticos padronizados. Além disso, as metodologias variáveis e o número limitado de ensaios clínicos de alta qualidade ainda restringem a força das evidências disponíveis.
Em síntese, embora os resultados indiquem potencial benefício clínico, são necessários estudos adicionais e amostras amplas, para confirmar a eficácia dos probióticos e estabelecer recomendações claras para sua utilização na Síndrome do Intestino Irritável. Nesse contexto, os probióticos configuram uma alternativa complementar relevante, com potencial de aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto UNICEUB Campus Asa Norte e-mail: leilakaraja@sempreceub.com
2Docente do Curso Superior de ENFERMAGEM do Instituto UNICEUB Campus ASA NORTE. Mestre em Ciências Genômicas e Biotecnologia pela Universidade Católica de Brasília. e-mail: lelia.romeiro@ceub.edu.br
