SEQUENCIAMENTO GENÉTICO COMO FERRAMENTA ESTRATÉGICA NO MONITORAMENTO E CONTROLE DA DENGUE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

GENETIC SEQUENCING AS A STRATEGIC TOOL IN DENGUE SURVEILLANCE AND CONTROL: AN INTEGRATIVE REVIEW.

REGISTRO DOI:10.69849/revistaft/pa10202511161555


Júlia Lira Piovesan1
Thaís Duarte Bifano2


Resumo

A dengue é uma arbovirose de elevada relevância em saúde pública global, transmitida predominantemente pelo mosquito Aedes aegypti. Estima-se que aproximadamente metade da população mundial esteja sob risco de infecção, com registros crescentes de incidência e expansão geográfica nas últimas décadas. Clinicamente, a doença pode manifestar-se desde um quadro febril autolimitado até formas graves, como a dengue grave (anteriormente denominada febre hemorrágica da dengue) e a síndrome do choque da dengue. A heterogeneidade clínica relaciona-se, entre outros fatores, à circulação dos quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV-1 a DENV-4) e à ocorrência de infecções heterotípicas subsequentes, as quais aumentam significativamente o risco de evolução para quadros graves. Diante desse cenário epidemiológico, este estudo analisou o sequenciamento genético como ferramenta estratégica para o monitoramento da diversidade viral, detecção de novas variantes e aprimoramento das ações de vigilância e controle da dengue. O objetivo geral consistiu em avaliar de que maneira o sequenciamento genético contribui para a compreensão das características moleculares do vírus, permitindo a identificação de mutações associadas à virulência, transmissibilidade e adaptação viral. Especificamente, buscou-se correlacionar dados genômicos com a prevalência de cepas emergentes. Novas abordagens terapêuticas foram discutidas através desta revisão crítica da literatura científica recente. A metodologia adotada consistiu em uma revisão integrativa de estudos publicados entre 2010 e 2025, utilizando bases de dados como Scielo, PubMed e Science Direct, com critérios rigorosos de inclusão e exclusão para assegurar a qualidade das evidências analisadas.

Palavras-chave: Aedes aegypti, dengue, sequenciamento genético, sorotipos virais, vigilância epidemiológica, variantes emergentes.

1 INTRODUÇÃO

A dengue é uma doença viral causada pelo vírus da dengue (DENV), do grupo flavivírus. Ela é transmitida por mosquitos do gênero Aedes e está presente em mais de 100 países. Os sintomas que a doença ocasiona vão de uma febre leve até formas mais graves, como a febre hemorrágica da dengue (FHD) ou a síndrome do choque da dengue (SCD), que são acompanhadas por trombocitopenia, leucopenia e aumento da permeabilidade vascular (ROY E BHATTACHARJEE, 2021).

O DENV é endêmico em regiões tropicais e subtropicais no mundo todo, representando uma ameaça importante à saúde pública, aproximadamente 50% da população global corre o risco de infecções anuais. Nas últimas quatro décadas a incidência da dengue aumentou de forma alarmante nas Américas essa tendência crescente foi acompanhada por surtos significativos de dengue na Região das Américas da OMS, sendo um marco notável. A dengue foi nomeada como a mais importante doença transmitida por mosquitos reemergente no mundo (CASTILHO DE ARRUDA et al., 2023). Devido ao rápido aumento da incidência, a dengue representa uma alta ameaça para o sistema de saúde brasileiro, embora existam várias medidas implementadas para controlar a propagação de doenças arbovirais, ainda há uma lacuna significativa de conhecimento sobre a prevalência e circulação de diferentes cepas de dengue em várias regiões do Brasil (RAMALHO et al., 2020). A vigilância da diversidade de sorotipos circulantes é fundamental para a saúde pública, pois infecções heterotípicas representam o maior risco de resultados clínicos graves. (CASTILHO DE ARRUDA et al., 2023).

Micrografias eletrônicas revelaram que os vírions da dengue são esféricos e caracterizados por uma superfície relativamente lisa, com um diâmetro de aproximadamente 50 nm, uma camada de proteína externa bem organizada na superfície de uma bicamada lipídica e um núcleo interno do nucleocapsídeo (ROY E BHATTACHARJEE, 2021). O DENV é um vírus de RNA de fita simples e sentido positivo com um genoma de ~11.000 kb, seu genoma codifica uma poliproteína que é processada pós-traducionalmente em três proteínas estruturais (capsídeo, pré-membrana ou membrana e envelope) e sete não estruturais (NS1, NS2a, NS2b, NS3, NS4a, NS4b e NS5). O DENV é classificado em quatro sorotipos antigenicamente distintos e geneticamente relacionados (DENV1-4), cada um dos quais abriga vários genótipos filogeneticamente definidos que não excedem 6% de divergência de nucleotídeos e frequentemente com diferentes distribuições espaço-temporais. Até o momento, 19 genótipos DENV foram identificados, cinco em DENV1 (1I-V), seis em DENV2 (2I-VI) e quatro em DENV3 (3I, 3II, 3III, 3V) e DENV4 (4I-IV). Como as infecções heterotípicas de sorotipo são o maior fator de risco para desfecho clínico grave, a vigilância da diversidade de sorotipos circulantes é fundamental para a saúde pública. (ADELINO et al., 2021). Estudos epidemiológicos clássicos sugeriram que a imunidade a um dos quatro sorotipos do DENV pode aumentar a gravidade da doença após o desafio subsequente com um sorotipo diferente, levando, em alguns casos, à dengue grave. Acredita-se que anticorpos reativos cruzados mal neutralizantes criados em resposta a um sorotipo anterior contribuem para a patogênese da dengue grave ao promover a entrada do vírus por meio de receptores Fcγ (FcγR) e infecção de células mieloides levando ao aumento dependente de anticorpos (ADE) da infecção. (BELTRAMELLO et al., 2010)

A dengue tornou-se uma ameaça significativa à saúde humana, com sua incidência aumentando constantemente, o que destaca a necessidade urgente de vigilância e monitoramento contínuos dos sorotipos do vírus. Isso é fundamental para as intervenções de saúde pública e estratégias preventivas. Várias razões tornam essenciais essas iniciativas de vigilância e monitoramento, sendo a mais importante a capacidade de identificar mudanças nos sorotipos predominantes em populações específicas. A variabilidade na virulência, transmissibilidade e potencial de causar doenças graves entre os diferentes sorotipos do DENV exige sua identificação para a alocação eficiente de recursos e previsão de surtos. Além disso, a análise genômica das cepas circulantes pode fornecer informações sobre a introdução de novas mutações ou variantes virais. Algumas dessas alterações genéticas podem ajudar o vírus a escapar da detecção pelo sistema imunológico ou aumentar sua capacidade de infectar o hospedeiro. A detecção precoce dessas mudanças permite que as organizações de saúde pública ajustem suas estratégias e desenvolvam intervenções direcionadas. (CASTILHO DE ARRUDA et al., 2023).

A distinção do vírus é fundamental tanto para o aprofundamento da compreensão científica acerca da manutenção e evolução do DENV, quanto para o aprimoramento das estratégias de controle da doença. Embora diversas medidas tenham sido implementadas para conter a disseminação de arboviroses, ainda persiste uma lacuna significativa de conhecimentos sobre a circulação e a incidência de diferentes cepas em diversas regiões do Brasil. Nesse contexto, a integração de informações genéticas ao monitoramento epidemiológico torna-se essencial, uma vez que o conhecimento acerca das características genômicas das cepas do vírus da dengue permite identificar novas variantes e compreender sua dinâmica de transmissão e virulência.

O brasil se tornou um líder mundial em vigilância genômica em tempo real de arbovírus, contribuindo muito para a quantidade de dados genéticos disponíveis em bancos de dados públicos, bem como para a compreensão da evolução molecular, disseminação e persistência de tais vírus (SALLES et al., 2018) o uso do sequenciamento genético permite identificar variantes virais especificas junto com virulência, nível de propagação, maior resistência a tratamentos e diferentes formas de trata-las, podendo mudar o rumo de prevenção e monitoramento da doença e compreensão da epidemiologia.

O presente estudo teve como objetivo principal explorar o uso do sequenciamento genético na compreensão do vírus da dengue, destacando sua relevância para a vigilância epidemiológica e o aprimoramento das estratégias de controle da doença. Especificamente, buscou-se analisar o papel do sequenciamento genético na caracterização do vírus da dengue, discutir sua importância para a identificação de novas cepas e variantes emergentes, fortalecer o embasamento científico destinado à implementação de medidas preventivas e potenciais estratégias de erradicação, além de realizar uma revisão bibliográfica abrangente sobre o tema proposto.

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Diversidade genética do vírus da dengue e suas implicações para saúde pública

A dengue é uma doença endêmica em países tropicais e subtropicais, sendo atualmente a arbovirose de disseminação mais rápida nessas regiões. Em contextos favoráveis, a doença pode assumir caráter epidémico, o que está diretamente relacionado à ampla infestação pelo mosquito Aedes aegypti, à alta suscetibilidade da população humana e à introdução ou circulação simultânea de múltiplos sorotipos da dengue (DENV) (GUZMAN, E ISTÚRIZ, 2010).

Estudos evolutivos demostram que a diversidade genética do DENV tem aumentado significativamente, impulsionada por mutações espontâneas e eventos de recombinação. A recombinação ocorre quando diferentes genótipos de um mesmo sorotipo infectam simultaneamente um indivíduo, possibilitando a formação de moléculas hibridas de RNA. Durante surtos e epidemias, a alta taxa de replicação viral dentro do vetor favorece o surgimento de variantes genéticas com maior capacidade de transmissão e potencial patogênico (SILVA et al., 2012).

A RNA polimerase viral, por não possuir mecanismo de correção de erros, é um dos principais fatores responsáveis pela elevada variabilidade genética do vírus, gerando em média uma mutação a cada ciclo de replicação. Os genótipos virais são definidos como grupos geneticamente relacionados, com até 6% de divergência na sequência genômica analisada, sendo esta classificação influenciada pela região do genoma selecionada e pelo comprimento do fragmento de RNA avaliado (FAYE et al; 2014).

Dentre os componentes virais, destaca-se a proteína NS1 (non-structural protein 1), uma glicoproteína essencial tanto para o ciclo viral quanto para a patogênese. A NS1 pode estar associada a membranas intracelulares, à superfície celular e, em sua forma hexamérica solúvel, é secretada na corrente sanguínea dos indivíduos infectados. Evidências sugerem que a NS1 modula o sistema complemento, favorecendo a replicação viral. Por interagir com lipídios, acredita-se que ela desempenhe papel relevante em processos como inflamação vascular e coagulação, embora sua estrutura e funções específicas ainda não estejam completamente elucidadas (CHUANG et al., 2013; AVIRUTNAN et al., 2006; KUROSU et al., 2007).

Estudos mais recentes indicam que a NS1 intracelular, em forma dimérica, atua como cofator da replicação, interagindo com o RNA viral e outras proteínas estruturais do retículo endoplasmático (RE). Nessa organela, forma-se o complexo de replicação (RC), essencial para a multiplicação ativa dos vírus, a partir da reorganização de membranas do RE em estruturas chamadas pacotes de vesículas (VPs) (BHATT et al., 2021).

O sequenciamento genômico é a ferramenta, mas precisa para caracterizar diferenças entre as cepas virais, mas exige tempo e recursos. Como alternativa, técnicas como RT-PCR associada à RSS-PCR têm sido utilizadas para identificação rápida de genótipos virais. Esse método, baseado em primers específicos para regiões do gene do envelope, oferece um diagnóstico eficiente, de baixo custo e aplicável em laboratórios de vigilância virológica (SILVA et al., 2001).

Na América Latina, os quatro sorotipos do DENV circulam simultaneamente, e a predominância de cada um pode variar conforme a localização geográfica e o período. Essa diversidade sorotípica e genética contribui para uma resposta heterogênea nas populações, o que pode aumentar o risco de formas clinicas graves da doença. Além disso, diferenças genéticas entre os genótipos influenciam diretamente sua virulência e potencial endêmico, sendo alguns genótipos mais associados a manifestações graves da dengue (FAYE et al., 2014; BHATT et al., 2021).

2.2 Dengue no brasil: evolução, desafios e estratégias de enfrentamento

A primeira epidemia de dengue no Brasil foi registrada em 1986. Desde então, a doença tem se espalhado de forma acelerada por todo território nacional. Atualmente, os quatro sorotipos do vírus circulam simultaneamente, e o mosquito transmissor, Aedes aegypti, está presente em todas as regiões do país. Entre 2008 e 2019, cerca de 6.429 brasileiros perderam a vida em decorrência da dengue. (GURGEL-GONÇALVES et al., 2024).

O estudo de Silva et al (2022) revelou uma tendência estacionária do coeficiente de incidência, com oscilações períodos de alta e baixa, fortemente influenciadas pelas estações chuvosas. A reprodução do vetor está intimamente ligada às condições climáticas, sendo favorecida por temperaturas elevadas e acúmulo de água, além de questões estruturais, como o saneamento precário, que contribuem para proliferação do mosquito (SILVA et al., 2022).

Diversos fatores explicam a recorrência e agravamento das epidemias de dengue, como o aumento das temperaturas e das chuvas em decorrência das mudanças climáticas, a ineficiência no controle do vetor, falhas nas políticas públicas, escassez de profissionais de saúde e dificuldades da população em eliminar focos do mosquito. A presença simultânea dos quatro sorotipos em circulação em áreas endêmicas também favorece reinfecções e formas graves da doença. O Aedes aegypti é altamente adaptável, depositando ovos em diferentes tipos de recipientes com água, mesmo limpa, e resistindo a períodos de seca, além de suportar climas mais quentes e altitudes elevadas (GURGEL-GONÇALVES et al., 2024).

Dados preliminares do ano de 2024 até meados do mês de junho, apontam cerca de 6 milhões de casos prováveis de dengue, cinco vezes mais do que no mesmo período de 2023. A incidência média saltou de 69 para 187 casos por 100.000 habitantes nos primeiros três meses do ano. Somente no primeiro semestre de 2024, foram registrados cerca de 80.000 casos com sinais de alerta e complicações, além de 6.791 casos graves, número cinco a seis vezes maior em junho de 2024, comparada ao mesmo período anterior (GURGEL- GONÇALVES et al., 2024).

Devido à sua extensão territorial, o Brasil apresenta diferentes padrões regionais de ocorrência da doença. As epidemias tornaram-se recorrentes, inclusive em áreas anteriormente não afetadas. A mortalidade por dengue vem crescendo desde 1986, e os dados atuais apontam 2024 como o ano mais crítico. A região Centro-Oeste tem registrado as maiores taxas de incidência e letalidade. Além disso, municípios com histórico de surtos apresentam o dobro de risco de novos episódios (GURGEL-GONÇALVES et al., 2024).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso de tecnologias e a estratificação territorial baseada em dados epidemiológicos e ambientais como ferramentas para orientar de forma mais eficaz as ações de vigilância e controle. Essa abordagem permite otimizar os recursos locais e considerar os padrões sazonais da doença. O monitoramento contínuo, a análise rápida dos dados e resposta ágil são pilares para enfrentar a dengue de forma eficiente Brasil. (GURGEL-GONÇALVES et al., 2024).

O controle eficaz da dengue requer uma abordagem integrada, que inclui o uso de vacinas e tecnologias de combate ao vetor. Contudo, é fundamental o envolvimento ativo da população e do poder público. A educação e a mobilização da sociedade para a eliminação de criadouros são essenciais. Campanhas educativas, ações em redes sociais, mutirões comunitários, como o “Dia D contra a Dengue” e outras iniciativas de conscientização são fundamentais para o sucesso dessa estratégia coletiva (GURGEL-GONÇALVES et al., 2024).

As doenças transmitidas por mosquitos causam um tremendo impacto na saúde humana e nas economias, especialmente em países do Terceiro Mundo. Como vacinas e medicamentos eficazes estão disponíveis apenas para algumas dessas doenças, o principal meio de controle é a redução das populações de mosquitos vetores. No entanto, os métodos tradicionais, como o uso de inseticidas, têm se tornado menos eficazes e aceitáveis, o que impulsiona a busca por alternativas. Nesse contexto, o uso de vetores transgênicos surge como uma nova abordagem promissora, capaz de reduzir a densidade ou a capacidade vetorial das populações de mosquitos (ARAÚJO et al; 2015).

A urbanização descontrolada e a formação de megacidades, frequentemente associadas a condições precárias de saneamento e pobreza extrema, favorecem o surgimento de criadouros de vetores e o aumento das epidemias de dengue. Além disso, as mudanças climáticas intensificaram a prática doméstica de armazenar água em recipientes, criando ambientes ideais para a reprodução de mosquitos. A ocorrência de surtos frequentes nos últimos anos evidencia a necessidade de um novo sistema lógico e eficiente de controle da dengue, baseado em estratégias inovadoras e adaptadas às características locais e aos hábitos da população, de modo a combater o vetor e sua doença de forma mais eficaz.

A transmissão do vírus da dengue é influenciada por diversos fatores, como a densidade populacional do vetor, o perfil imunológico da população humana, os sorotipos virais em circulação, além das condições climáticas e ambientais. A presença de outros vetores potenciais, como o Aedes albopictus, também desempenha papel relevante nesse processo. De acordo com as diretrizes do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), os métodos de controle de vetores são classificados em três categorias: mecânicos, biológicos e químicos. O controle mecânico consiste na eliminação de possíveis criadouros de mosquitos, impedindo o desenvolvimento das formas imaturas do vetor. Já o controle biológico busca reduzir as populações de larvas utilizando agentes naturais, como predadores, parasitas ou micro- organismos que afetam o ciclo de vida do mosquito. Além desses, as estratégias genéticas

representam uma abordagem moderna para o controle de vetores e são divididas em duas etapas principais. A primeira envolve a supressão, contenção ou erradicação populacional, que visa reduzir ou eliminar espécies específicas por meio da introdução de genes letais ou que induzem esterilidade. A segunda etapa refere-se à transformação ou substituição populacional, cujo objetivo não é exterminar o vetor, mas modificar geneticamente a população para introduzir genes capazes de bloquear ou reduzir a transmissão do vírus (ARAÚJO et al; 2015).

2.3 Abordagens genéticas e biológicas na supressão de populações de Aedes aegypti

O desenvolvimento de linhagens de sexagem de mosquitos pode ser realizado por diferentes métodos, todos baseados na introdução e manutenção de uma modificação genética estável na linhagem destinada à liberação. Essas alterações podem ser obtidas por meio de agentes mutagênicos químicos, irradiação, técnicas de genética clássica ou, mais recentemente, por biotecnologia moderna, especialmente a transformação genética. Cada uma dessas abordagens apresenta vantagens e limitações, que variam quanto à estabilidade das modificações em condições de criação em larga escala, à possibilidade de aplicação em diferentes espécies e à aceitação regulatória (GILLES et al; 2014).

Nos últimos anos, métodos que empregam a esterilização de mosquitos machos têm ganhado destaque como parte de programas de manejo integrado de pragas, visando à supressão das populações de mosquitos selvagens. As liberações de campo de mosquitos irradiados ou geneticamente modificados (MGMs) representam uma abordagem inovadora e promissora para diminuir a transmissão de diversas doenças vetoriais (ARAÚJO et al; 2015).

Uma das estratégias mais consolidadas é a Técnica do Inseto Estéril (SIT – Sterile Insect Technique), amplamente utilizada na agricultura para o controle de pragas, como no caso da mosca-das-frutas-do-Mediterrâneo (Ceratitis capitata). Essa técnica baseia-se na criação em massa de insetos machos que são submetidos a doses controladas de radiação, capazes de causar danos irreversíveis ao material genético, tornando-os estéreis. Quando liberados no ambiente, esses machos estéreis competem com os machos selvagens pelas fêmeas, reduzindo gradualmente a população do inseto alvo ao longo do tempo (OLIVEIRA et al; 2011).

O desenvolvimento de linhagens de seleção de sexo (GSS) em mosquitos pode ser obtido por diferentes métodos, todos baseados na introdução de alterações genéticas estáveis que precisam ser mantidas na linhagem. Cada abordagem apresenta vantagens e limitações quanto à aplicabilidade entre espécies, estabilidade em criação massal e aprovação regulatória. Métodos alternativos de separação de sexo também existem, mas são adequados

apenas para operações de pequena escala. Assim, torna-se essencial desenvolver estratégias de sexagem avançadas, genéticas, moleculares e mecânicas, adequadas para programas de larga escala, com ou sem o uso da Técnica do Inseto Estéril (TIE). A eliminação precisa das fêmeas é crucial, pois sua liberação acidental representa alto risco de fracasso e pode gerar rejeição pública (GILLES et al; 2014).

A maior biofábrica do mundo de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, a WOLBITO inaugurou no dia 19/07/2025 sua moderna unidade para criação de Wolbitos que vão ajudar a combater dengue, zika e chikungunya no país. Instalada em Curitiba com equipamentos de ponta para automação e criação dos mosquitos, e equipe especializada em entomologia, vai atender todo o Brasil, com a expectativa de proteger ao menos 14 milhões de pessoas por ano (FIOCRUZ; 2025).

A Wolbachia pipientis é uma bactéria intracelular obrigatória comum que infecta diversas espécies de insetos, embora não ocorra naturalmente no Aedes aegypti. A introdução estável (transinfecção) de determinadas cepas de Wolbachia nesse mosquito tem demonstrado conferir resistência à infecção disseminada pelo vírus da dengue (DENV) e por outros arbovírus. Dessa forma, a introgressão de cepas de Wolbachia capazes de bloquear vírus em populações de A. aegypti no ambiente tem se destacado como uma estratégia inovadora e promissora de controle da dengue. Essa abordagem consiste na liberação periódica, ao longo de vários meses, de mosquitos infectados com Wolbachia em áreas onde existem populações selvagens. A bactéria favorece sua própria disseminação populacional ao manipular os resultados reprodutivos entre mosquitos infectados e não infectados, promovendo gradualmente o aumento da frequência dos indivíduos portadores de Wolbachia na população e, consequentemente, reduzindo a capacidade de transmissão do vírus da dengue (UTARINI et al; 2021).

O Método Wolbachia para o controle de arboviroses foi desenvolvido em 2008 na Monash University, na Austrália, com participação do pesquisador da Fiocruz, Luciano Moreira. Na época, a Wolbachia foi transferida da mosca-da-fruta para o Aedes aegypti, processo que hoje não é mais necessário, pois os mosquitos atuais são descendentes desses primeiros exemplares. Os estudos chegaram ao Brasil em 2012, após decisão da Fiocruz de implementar a técnica no país. Em 2014, iniciaram-se as liberações em áreas piloto, nos bairros de Tubiacanga (Rio de Janeiro) e Jurujuba (Niterói). A partir desses testes, o método foi gradualmente expandido nacionalmente, com apoio e investimentos contínuos da Fiocruz (FIOCRUZ; 2025).

Antes da liberação dos mosquitos, a equipe da Wolbito, em parceria com as prefeituras, realiza ações informativas e educativas em escolas, unidades de saúde, espaços públicos e comunidades, além de campanhas em rádios, TVs, redes sociais e mídias impressas. O objetivo é garantir que a população compreenda o método, seu funcionamento e seus benefícios. Após essa fase de comunicação e engajamento, ocorre a liberação dos mosquitos com Wolbachia, feita semanalmente por um período determinado, sob supervisão técnica e com uso de veículos e equipamentos próprios. Com o passar dos meses, espera-se que a presença da bactéria se estabeleça de forma natural e estável nas populações locais de Aedes aegypti (FIOCRUZ; 2025).

3 METODOLOGIA

Este estudo consiste em uma revisão integrativa da literatura, cujo objetivo foi reunir e sintetizar evidências científicas disponíveis sobre o sequenciamento genético do vírus da dengue. A revisão integrativa permite a incorporação de estudos com diferentes abordagens metodológicas, possibilitando uma compreensão ampla do tema investigado. A questão norteadora da pesquisa foi: “Como o sequenciamento genético tem sido utilizado para o monitoramento e compreensão do vírus da dengue?”. Para a busca dos estudos, foram utilizadas as seguintes bases de dados: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Science Direct e PubMed (National institutes of health), selecionadas por sua relevância e abrangência em publicações científicas da área da saúde.

O processo de seleção dos artigos seguiu critérios rigorosos de inclusão e exclusão. Foram incluídos artigos originais, disponíveis na integra, publicados entre os anos de 2010 e 2025, redigidos em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos artigos duplicados, incompletos, com mais de cinco anos sem atualização relevante, além de revisões da literatura, teses, dissertações e publicações que não apresentavam evidência científica adequada.

Após a triagem inicial, foi realizada uma análise crítica dos estudos selecionados (Quadro 1), considerando a relevância, qualidade metodológica e contribuição para o tema. Em seguida, os dados extraídos foram organizados e categorizados conforme os objetivos da pesquisa, servindo de base para a discussão dos resultados e elaboração das conclusões.

Quadro 1 – Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre o uso do sequenciamento genético na vigilância do DENV (2010-2025).

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A presente revisão integrativa permitiu identificar que o sequenciamento genético tem se consolidado como uma ferramenta estratégica para o monitoramento da dengue, contribuindo para a compreensão da diversidade viral, detecção de variantes emergentes e aprimoramento das estratégias de saúde pública. Os estudos analisados evidenciam que o avanço das tecnologias de sequenciamento, aliado à expansão da vigilância genômica, tem possibilitado identificar mutações relevantes, rastrear rotas de dispersão viral e detectar precocemente sorotipos e genótipos com maior potencial de transmissibilidade e virulência.

Os dados demonstram que o DENV apresenta elevada variabilidade genética, influenciada por alta taxa de mutação e eventos de recombinação, sobretudo em contextos de circulação simultânea de múltiplos sorotipos. Essa heterogeneidade viral tem implicações diretas na evolução da doença, podendo estar associada a quadros clínicos mais graves, aumento de hospitalizações e maior complexidade no manejo clínico. Estudos recentes também reforçam a importância do monitoramento contínuo da proteína NS1 e demais proteínas não estruturais, devido ao seu papel na patogenicidade e no escape imunológico viral.

Em território brasileiro, as análises revelam que o país se destaca pela adoção precoce de ferramentas de vigilância genômica em larga escala. O Brasil tornou-se referência internacional, contribuindo significativamente com sequências genéticas depositadas em bancos globais e oferecendo suporte às ações epidemiológicas. As plataformas de sequenciamento, integradas a sistemas de notificação e vigilância em tempo real, permitiram identificar introduções de novos genótipos, acompanhar surtos e direcionar medidas de contenção, especialmente em regiões com intensa circulação viral.

Além disso, a literatura aponta para o papel promissor de estratégias complementares, como técnicas genéticas de supressão populacional do vetor e o uso de Wolbachia pipientis. Essas abordagens têm se mostrado eficazes na redução da capacidade vetorial do Aedes aegypti, ampliando as possibilidades de controle integrado da dengue e outras arboviroses. O emprego da Técnica do Inseto Estéril (TIE) e a implementação de biofábricas dedicadas à produção de mosquitos infectados com Wolbachia reforçam a integração entre biotecnologia e vigilância molecular, especialmente em cenários de alta pressão epidemiológica.

Apesar dos avanços, os estudos apontam desafios relacionados à heterogeneidade operacional entre regiões, limitações de infraestrutura laboratorial em áreas endêmicas, custo do sequenciamento e necessidade de capacitação contínua de profissionais de saúde. Ademais, a interpretação de dados genômicos exige protocolos padronizados, integração com informações epidemiológicas e políticas públicas estruturadas, a fim de garantir respostas rápidas e eficazes frente a surtos e emergências sanitárias.

De modo geral, os resultados encontrados corroboram a relevância da vigilância genômica para compreender a dinâmica evolutiva do DENV e antecipar possíveis mudanças nos padrões epidemiológicos. Observa-se que o sequenciamento genético não apenas contribui para a identificação de variantes de preocupação, mas também sustenta o desenvolvimento de vacinas, terapias antivirais e intervenções direcionadas. A literatura revisada destaca que o uso estratégico dessa tecnologia representa um pilar fundamental para o controle sustentado da dengue, especialmente em países tropicais com circulação endêmica do vírus.

5 CONCLUSÃO

A presente revisão evidenciou a importância do sequenciamento genético como ferramenta estratégica para a vigilância epidemiológica e o controle do vírus da dengue. A análise genômica dos diferentes sorotipos demonstrou potencial para identificar mutações relevantes, caracterizar variantes em circulação e compreender a dinâmica evolutiva do vírus em distintos cenários epidemiológicos e geográficos. Tais achados reforçam a contribuição da vigilância genômica integrada para a detecção precoce de variantes com maior transmissibilidade ou gravidade clínica, favorecendo a tomada de decisões em saúde pública e a implementação de ações preventivas mais eficazes.

Além disso, observou-se que o conhecimento gerado por estudos genômicos pode subsidiar o desenvolvimento de terapias antivirais, aprimorar estratégias de controle vetorial e orientar políticas públicas adaptadas às realidades regionais. A integração entre dados genéticos e epidemiológicos configura-se, ainda, como elemento essencial para o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, possibilitando respostas mais rápidas e eficientes diante de novos surtos.

Dessa forma, conclui-se que o emprego contínuo e sistemático de ferramentas de vigilância molecular representa um componente fundamental no enfrentamento da dengue, contribuindo para a redução do impacto da doença sobre a saúde pública e para o aperfeiçoamento das estratégias de prevenção e controle.

REFERÊNCIAS

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1 Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. e-mail: julialirapiovesan@gmail.com
2 Docente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. Doutora em Bioquímica (IQ/USP). e-mail: thais.bifano@univel.br