SELAMENTO CORONÁRIO EM ENDODONTIA: MATERIAIS, TÉCNICAS E EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS PARA O SUCESSO CLÍNICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511290951


Thayná Da Silva Barros
Orientadora: Dra. Karlinne Maria Martins Duarte


RESUMO

O selamento coronário exerce papel fundamental no prognóstico do tratamento endodôntico, por atuar como barreira física contra a penetração de microrganismos e toxinas provenientes da cavidade bucal. Este estudo consiste em uma revisão narrativa de literatura cujo objetivo foi analisar criticamente os materiais restauradores, as técnicas clínicas e as evidências científicas disponíveis sobre o selamento coronário. A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Acadêmico, utilizando os descritores DeCS “Endodontia”, “Materiais Restauradores do Canal Radicular”, “Obturação do Canal Radicular”, “Infiltração Dentária” e “Falha de Restauração Dentária”. Os resultados apontam que os cimentos biocerâmicos, particularmente o MTA, apresentam desempenho superior em testes de microinfiltração, seguidos pelos compósitos flowable. A implementação de barreiras intra-orifício mostrou-se eficaz na redução da infiltração coronária, sendo recomendada a remoção de 1 a 2 mm do material obturador para sua inserção. Evidências clínicas indicam taxas de sucesso acima de 95% quando protocolos adequados de selamento coronário são empregados. Conclui-se que a escolha adequada do material restaurador e a execução precisa das técnicas clínicas são determinantes para a longevidade do tratamento e a preservação da saúde periapical.

Palavras-chave: Endodontia; Materiais Restauradores do Canal Radicular; Infiltração Dentária; Falha de Restauração Dentária; Obturação do Canal Radicular

ABSTRACT

Coronal sealing is a determining factor for the success of endodontic treatment, as it prevents reinfection of the root canals through adequate sealing of the tooth–restoration interface. This literature review aimed to analyze restorative materials, clinical techniques, and scientific evidence related to coronal sealing in endodontics. The methodology consisted of a critical analysis of the literature addressing glass ionomer cements, resin composites, mineral trioxide aggregate, temporary sealers, and alternative cements, as well as the clinical strategies employed to optimize coronal sealing. The bibliographic search used the following Health Sciences Descriptors (DeCS): “Endodontics,” “Root Canal Restorative Materials,” “Root Canal Obturation,” “Dental Infiltration,” and “Dental Restoration Failure.” The results indicated that bioceramic materials—especially MTA—exhibit superior performance in microleakage tests, followed by flowable resin composites. The use of intra-orifice barriers proved effective in reducing coronal contamination, with the removal of 1 to 2 mm of root filling material being recommended. Clinical studies report success rates above 95% when appropriate coronal sealing protocols are followed. It is concluded that the careful selection of materials, associated with the application of appropriate clinical techniques, is essential for the longevity of endodontic treatment and the preservation of periapical health.

Keywords: Endodontics; Root Canal Restorative Materials; Dental Infiltration; Dental Restoration Failure; Root Canal Obturation

1 INTRODUÇÃO

A endodontia contemporânea reconhece que o êxito do tratamento depende não apenas da adequada descontaminação e obturação dos canais radiculares, mas também da manutenção da esterilidade do sistema endodôntico através de vedação coronária eficaz. O selamento coronário é um fator fundamental para o sucesso do tratamento endodôntico, atuando na proteção dos tecidos periapicais contra a penetração de microrganismos. Sua efetividade influencia diretamente a longevidade do tratamento e o prognóstico clínico (Grewal & Rani, 2011; Pisano et al., 2022).

 Estudos demonstram que a microinfiltração coronária pode comprometer o prognóstico do tratamento mesmo quando a terapia endodôntica inicial foi tecnicamente adequada, evidenciando que o selamento coronário frequentemente supera em importância o próprio selamento apical para o sucesso clínico a longo prazo (Mandke, 2016; Santos et al., 2020; Oliveira, 2016; Araújo et al., 2022).

A crescente compreensão sobre a relevância do selamento coronário tem motivado o desenvolvimento de novos materiais restauradores e técnicas clínicas específicas para otimizar a vedação da interface dente-restauração. A odontologia moderna dispõe de uma ampla variedade de materiais restauradores, incluindo ionômeros de vidro, compósitos resinosos, cimentos biocerâmicos e seladores provisórios, que fornecem ao clínico diversas opções terapêuticas para a preservação e restauração dentária (Santos et al., 2020; Oliveira, 2016).

Contudo, os resultados obtidos em diferentes estudos nem sempre apresentam concordância, e limitações metodológicas frequentemente dificultam comparações diretas entre as pesquisas. Essa lacuna evidencia a necessidade de uma análise crítica das evidências disponíveis, com o objetivo de orientar a prática clínica de forma baseada em dados científicos confiáveis (Araújo et al., 2022; Hajaj et al., 2021; Tavakoli et al., 2024; Oliveira et al., 2021).

Nesta perspectiva, o objetivo geral desta revisão de literatura foi analisar criticamente os materiais restauradores, técnicas clínicas e evidências científicas relacionadas ao selamento coronário em endodontia. 

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de literatura. Foram utilizados os descritores: “Endodontia”, “Materiais Restauradores do Canal Radicular”, “Obturação do Canal Radicular”, “Infiltração Dentária” e “Falha de Restauração Dentária”. As bases de dados consultadas incluíram PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Acadêmico. 

Os critérios de inclusão foram: estudos publicados nos últimos 15 anos (2010-2025); artigos em português, inglês ou espanhol; pesquisas experimentais in vitro e in vivo sobre materiais restauradores para selamento coronário; estudos clínicos controlados e observacionais; revisões sistemáticas sobre técnicas de vedação coronária em endodontia; trabalhos que investigassem microinfiltração coronária; e pesquisas sobre eficácia de materiais seladores endodônticos. 

Os critérios de exclusão contemplaram: estudos com metodologia inadequada ou incompleta; artigos de opinião, editoriais e cartas ao editor; trabalhos que não abordassem especificamente selamento coronário em endodontia; publicações duplicadas; estudos em animais não relacionados à odontologia; e pesquisas focadas exclusivamente em selamento apical sem considerar aspectos coronários. 

3 REVISÃO DA LITERATURA

3.1 Selamento Coronário

Esse selamento constitui a vedação da porção cervical do sistema de canais radiculares, estabelecida através da criação de uma barreira física que impede a penetração de microrganismos e seus subprodutos oriundos da cavidade bucal. Este conceito distingue-se fundamentalmente do selamento apical, que visa impedir a migração de conteúdo contaminado em direção aos tecidos perirradiculares, e do selamento lateral, relacionado ao preenchimento tridimensional completo do sistema de canais radiculares (Mandke, 2016).

A efetividade do selamento coronário depende diretamente das propriedades físico-químicas do material restaurador empregado, incluindo sua capacidade de adesão às estruturas dentárias, estabilidade dimensional e baixa solubilidade em meio oral (Mandke, 2016; Santos et al., 2020).

A microinfiltração coronária constitui um dos principais fatores etiológicos das falhas endodônticas, sendo responsável por uma significativa parcela dos insucessos terapêuticos observados na prática clínica. Estudos de Mandke et al. (2016) e Santos et al. (2020) demonstram que a contaminação bacteriana através da superfície oclusal pode ocorrer rapidamente após o término do tratamento endodôntico, especialmente quando não há adequada vedação coronária. 

A penetração de microrganismos orais e suas toxinas no sistema de canais radiculares previamente descontaminado e obturado resulta em reinfecção, comprometendo o prognóstico do tratamento e podendo levar ao desenvolvimento de lesões periapicais (Mandke, 2016; Santos et al., 2020).

A interação entre selamento coronário e apical representa um aspecto fundamental para o sucesso endodôntico. A falha em qualquer um desses componentes pode comprometer a integridade de todo o sistema obturador. Quando ocorre inadequação do selamento coronário, permite-se a entrada de fluidos orais que podem dissolver parcialmente o material obturador, criar espaços vazios e facilitar a progressão bacteriana em direção apical. Reciprocamente, deficiências no selamento apical podem permitir a percolação de exsudatos periapicais em direção coronária, criando um ambiente favorável à proliferação microbiana e comprometendo a estabilidade dimensional dos materiais restauradores coronários (Hajaj et al., 2021).

Essas alterações podem resultar em movimentação do material obturador, criação de gaps na interface material-dentina e estabelecimento de vias de comunicação entre a cavidade bucal e os tecidos periapicais. Desta forma, a manutenção da integridade do selamento coronário torna-se crucial para preservar a efetividade do selamento apical e garantir o sucesso a longo prazo do tratamento endodôntico (Tavakoli et al., 2024).

3.2 Materiais Restauradores

3.2.1 Ionômeros de vidro convencionais e modificados por resina

Os ionômeros de vidro convencionais caracterizam-se pela reação ácido-base entre um pó de vidro fluoroaluminosilicato e uma solução aquosa de ácido poliacrílico, resultando na formação de uma matriz de gel hidratado que confere propriedades adesivas às estruturas dentárias (Wylie et al., 2025).

O mecanismo de adesão ocorre através de ligações iônicas entre os grupos carboxila do ácido poliacrílico e os íons cálcio presentes na hidroxiapatita dentinária, proporcionando uma união química efetiva. Esta característica, aliada à liberação contínua de flúor, confere ao material propriedades anticariogênicas e contribui para a manutenção da saúde dos tecidos dentários adjacentes. A biocompatibilidade dos ionômeros convencionais é amplamente reconhecida, apresentando baixa toxicidade e ausência de reações inflamatórias significativas quando adequadamente manipulados (Wylie et al., 2025).

A principal vantagem dos ionômeros de vidro convencionais reside em sua facilidade de uso, característica que os torna amplamente aceitos na prática clínica para procedimentos de selamento coronário. A capacidade de adesão química às estruturas dentárias, independentemente da presença de umidade, constitui uma propriedade valiosa em situações clínicas onde o controle da contaminação é desafiador. Adicionalmente, a liberação prolongada de flúor contribui para a prevenção de cáries secundárias e pode exercer efeitos bacteriostáticos no ambiente oral. A radiopacidade adequada facilita o acompanhamento radiográfico pós-operatório, permitindo a avaliação da integridade do selamento ao longo do tempo (Oliveira et al., 2021).

As limitações dos ionômeros convencionais incluem propriedades mecânicas inferiores quando comparadas a outros materiais restauradores, especialmente em relação à resistência à compressão e ao desgaste oclusal. A sensibilidade à contaminação por saliva durante as fases iniciais de presa pode comprometer a qualidade do selamento, exigindo cuidados específicos durante a aplicação clínica (Tavakoli et al., 2024).

A solubilidade em meio aquoso, embora reduzida após a maturação completa do material, pode resultar em degradação marginal ao longo do tempo, particularmente em ambientes com pH ácido. Estudos demonstram que, apesar dessas limitações, os ionômeros convencionais ainda apresentam desempenho clinicamente aceitável como material de selamento coronário (Oliveira et al., 2021; Tavakoli et al., 2024)

3.2.2  Compósitos resinosos (flowable e packable)

Os compósitos resinosos flowable caracterizam-se por sua consistência fluida, obtida através da redução do conteúdo de partículas inorgânicas e modificação da matriz resinosa, resultando em um material de fácil inserção e adaptação às irregularidades do substrato dentário. A composição típica inclui uma matriz orgânica baseada em monômeros como Bis-GMA, UDMA ou TEGDMA, associada a partículas de carga inorgânica em menor concentração comparativamente aos compósitos convencionais. Esta formulação confere propriedades mecânicas específicas, incluindo menor módulo de elasticidade, que pode ser vantajoso na absorção de tensões geradas durante as variações térmicas (Rodrigues; Paiva, 2019).

A facilidade de inserção constitui a principal vantagem dos compósitos flowable, permitindo sua aplicação através de ponteiras especiais que facilitam o acesso a áreas de difícil instrumentação, como os orifícios dos canais radiculares. A fluidez do material favorece a eliminação de bolhas de ar e a adaptação íntima às paredes dentinárias, contribuindo para a qualidade do selamento obtido. A polimerização por luz visível permite controle preciso do tempo de trabalho e presa sob demanda, características que facilitam a manipulação clínica (Hajaj et al., 2021).

Os compósitos resinosos packable, também denominados condensáveis, foram desenvolvidos para combinar as vantagens estéticas dos compósitos convencionais com propriedades de manuseio similares ao amálgama. A formulação inclui partículas de carga com diferentes tamanhos e formas, incluindo fibras que conferem características tixotrópicas ao material, permitindo sua condensação manual.As propriedades mecânicas superiores, incluindo maior resistência à compressão e ao desgaste, tornam estes materiais adequados para aplicações em áreas de maior solicitação mecânica (Oliveira et al., 2021).

3.2.3 Agregado de Trióxido Mineral (MTA) e cimentos biocerâmicos

O Agregado de Trióxido Mineral caracteriza-se como um cimento biocerâmico composto predominantemente por silicato tricálcico, aluminato tricálcico, óxido tricálcico e óxido de bismuto, este último responsável pela radiopacidade do material. A reação de hidratação resulta na formação de hidróxido de cálcio e gel de silicato de cálcio hidratado, conferindo ao material propriedades alcalinizantes e indutoras da biomineralização. O pH elevado (aproximadamente 12,5) proporciona atividade antimicrobiana significativa, contribuindo para a descontaminação do ambiente em que é aplicado. A biocompatibilidade excepcional do MTA tem sido demonstrada através de estudos in vitro e in vivo, evidenciando sua capacidade de promover a regeneração tecidual e a formação de tecido mineralizado (Hench, 2021; De Oliveira Neves et al., 2024).

A principal vantagem do MTA como material de selamento coronário reside em sua capacidade de induzir a formação de barreira mineralizada na interface material-dentina, fenômeno que contribui para o aprimoramento do selamento ao longo do tempo. A estabilidade dimensional do material, com expansão mínima durante a presa, favorece a manutenção da integridade marginal. A resistência à infiltração bacteriana tem sido comprovada em diversos estudos, demonstrando desempenho superior a muitos materiais convencionais .A capacidade de presa em ambiente úmido constitui uma vantagem clínica significativa, eliminando a necessidade de controle rigoroso da umidade durante a aplicação (Tavakoli et al., 2024).

3.3 Estratégias clínicas e técnicas de selamento coronário

A efetividade do selamento coronário em endodontia depende não apenas da seleção adequada do material restaurador, mas também da aplicação de técnicas clínicas apropriadas que garantam a qualidade da vedação. As estratégias clínicas envolvem desde a preparação adequada do substrato dentário até a inserção e adaptação do material selador, considerando fatores como profundidade de remoção do material obturador, métodos de inserção e particularidades anatômicas de cada caso. A padronização dos procedimentos técnicos aumenta a previsibilidade clínica, e o domínio das diferentes técnicas permite ao profissional adequar sua abordagem às especificidades de cada situação (Wylie et al., 2025).

3.4 Barreira intra-orifício: conceito e aplicabilidade 

A barreira intra-orifício consiste na criação de uma vedação na porção cervical do canal radicular através da remoção controlada de material obturador e inserção de material selador biocompatível.

A técnica consiste na remoção de aproximadamente 1 a 2 mm do material obturador da porção cervical do canal radicular, imediatamente após a conclusão da obturação endodôntica, seguida pela inserção de um material selador biocompatível, como ionômero de vidro, cimento de resina composta fluida, MTA (Agregado Trióxido Mineral), Biodentine ou outros cimentos biocerâmicos. Em alguns protocolos, utiliza-se uma fina camada de teflon (PTFE) apenas como base provisória para limitar a profundidade de inserção do material restaurador, evitando sua penetração excessiva no canal. O objetivo é formar uma vedação densa e estável que reduza a microinfiltração coronária e mantenha o selamento apical efetivo, protegendo o sistema de canais radiculares até que seja realizada a restauração definitiva (Araújo et al., 2022).

Este conceito fundamenta-se na necessidade de estabelecer uma dupla proteção do sistema de canais radiculares, combinando o selamento apical convencional com uma barreira adicional na região coronária. A aplicabilidade desta técnica estende-se a diversas situações clínicas, incluindo dentes que permanecerão com restauração provisória por períodos prolongados, casos com restaurações extensas e situações onde há risco aumentado de contaminação. A eficácia protetiva da barreira intra-orifício tem sido demonstrada em estudos que evidenciam redução significativa da microinfiltração coronária (Rodrigues e Paiva, 2019; Wylie et al., 2025).

A função protetiva da barreira intra-orifício baseia-se na criação de uma vedação hermética que impede a progressão de contaminantes em direção aos tecidos periapicais. Esta barreira atua como uma proteção adicional ao selamento apical, compensando possíveis deficiências na vedação coronária convencional. A técnica é particularmente valiosa em casos em que a restauração definitiva será postergada, proporcionando proteção adequada durante o período intermediário. Estudos clínicos demonstram que a implementação de barreiras intra-orifício resulta em taxas de sucesso superiores quando comparadas a técnicas convencionais que dependem exclusivamente do selamento coronário superficial (Abusteit et al., 2022).

4 DISCUSSÃO

A análise dos materiais restauradores utilizados para o selamento coronário evidencia que, embora todos apresentem potencial para reduzir a microinfiltração, cada grupo de materiais possui vantagens específicas e limitações que impactam sua indicação clínica. Os ionômeros de vidro convencionais, por exemplo, são amplamente reconhecidos por sua adesão química à estrutura dentária e liberação de flúor, características que favorecem a prevenção da cárie e auxiliar na estabilidade do selamento (Oliveira et al., 2021). 

No entanto, Tavakoli et al. (2024) apontam que sua solubilidade dos cimentos de ionômero de vidro (CIV) em meios aquosos e a consequente degradação marginal permanecem como limitações importantes, principalmente em ambientes com pH ácido. Apesar dessas fragilidades, a literatura converge ao afirmar que esses materiais continuam apresentando desempenho clinicamente aceitável, sobretudo em situações nas quais a facilidade de uso e a tolerância à umidade representam vantagens significativas.

Entretanto, estudos como os de Oliveira et al. (2021) e Tavakoli et al. (2024) confirmam que, mesmo diante dessas fragilidades, seu desempenho clínico como barreira coronária permanece adequado. Isso demonstra concordância quanto à adequação clínica dos ionômeros, mesmo diante de suas limitações físico-químicas.

Com base nessa perspectiva, os ionômeros modificados por resina surgem como alternativa para melhorar propriedades mecânicas, reduzir sensibilidade à umidade e proporcionar maior resistência, conforme discutido por Wylie et al. (2025). A literatura outorga que o mecanismo de polimerização dual contribui para maior estabilidade física. Contudo, existe divergência quanto ao impacto clínico dessas melhorias, já que, não obstante o desempenho superior relatado, sua manipulação mais sensível e dependência de condições ideais podem limitar seu uso rotineiro.

Entre os materiais resinosos, os compósitos flowable apresentam desempenho satisfatório em adaptação marginal e microinfiltração, como demonstrado por Rodrigues e Paiva (2019) e Hajaj et al. (2021). Entretanto, esses autores também destacam limitações importantes, como menor resistência mecânica e maior contração de polimerização, o que compromete sua estabilidade a longo prazo. 

Em contraposição, os compósitos packable, conforme descrito por Oliveira et al. (2021), apresentam maior resistência ao desgaste e à compressão, sugerindo melhor desempenho estrutural. Entretanto, há consenso de que esses materiais são mais sensíveis tecnicamente e exigem rigor no isolamento, o que pode comprometer sua previsibilidade clínica. A literatura demonstra, portanto, consonância quanto ao potencial dos compósitos, mas também evidencia divergências relacionadas à longevidade e ao grau de dependência da técnica.

A discussão sobre os materiais biocerâmicos, especialmente o MTA, evidencia consenso quanto às suas propriedades superiores para o selamento coronário. Hench (2021) e De Oliveira Neves et al. (2024) destacam sua biocompatibilidade, o pH alcalino e a capacidade de indução de biomineralização como fatores determinantes. Apesar disso, persistem divergências sobre seu uso clínico, sobretudo quanto ao longo tempo de presa, ao custo elevado e ao risco de descoloração, conforme Cerqueira et al. (2022). Mesmo diante desses desafios, há concordância de que o MTA permanece como referência por apresentar selamento coronário altamente efetivo.

No que tange às estratégias clínicas, há concordância na literatura de que a padronização técnica é fundamental para garantir previsibilidade e reduzir a possibilidade de microinfiltração (Wylie et al., 2025). Entre as abordagens destacadas, a barreira intra-orifício tem recebido atenção significativa. Estudos como os de Abusteit et al. (2022) e Tavakoli et al. (2024) demonstram que a técnica reduz de forma expressiva a infiltração bacteriana e de corantes, corroborando sua eficácia adicional no selamento coronário.

A profundidade de remoção do material obturador representa um ponto de grande importância. Wylie et al. (2025) ressaltam que a maioria dos profissionais opta por profundidades entre 1 e 2 mm, o que parece equilibrar a preservação do selamento apical com a criação de espaço suficiente para o material da barreira. Este ponto é amplamente corroborado pela literatura, embora existam divergências sobre a técnica de remoção mais adequada. 

Enquanto alguns autores recomendam o uso de instrumentos rotatórios de baixa velocidade, outros defendem o emprego de instrumentos manuais aquecidos ou brocas específicas (Abusteit et al., 2022). Ainda assim, permanece o assentimento de que o controle adequado da profundidade, a irrigação e a remoção dos debris são fatores determinantes para a eficácia da técnica.

Ademais, a literatura também enfatiza que a inserção correta do material da barreira, com eliminação de bolhas e controle da espessura, é primordial para garantir selamento eficiente e adaptação adequada às paredes do canal, como discutido por Tavakoli et al. (2024). Dessa forma, há harmonia geral de que o sucesso da barreira intra-orifício depende diretamente da execução precisa do protocolo, ainda que existam divergências quanto a materiais e instrumentos considerados ideais.

De modo geral, os autores convergem ao afirmar que a escolha do material restaurador e a técnica aplicada influenciam diretamente a eficácia do selamento coronário. Oliveira et al. (2021) e Tavakoli et al. (2024) reconhecem o bom desempenho clínico dos ionômeros de vidro, enquanto Wylie et al. (2025) destaca que suas versões modificadas por resina apresentam vantagens mecânicas, embora mais sensíveis tecnicamente. 

Rodrigues e Paiva (2019) e Hajaj et al. (2021) apontam boa adaptação marginal dos compósitos flowable, mas ressaltam suas limitações frente aos compósitos packable descritos por Oliveira et al. (2021). Em paralelo, Hench (2021) e De Oliveira Neves et al. (2024) defendem a superioridade dos biocerâmicos, embora Cerqueira et al. (2022) destaque limitações práticas do MTA. 

No âmbito técnico, Abusteit et al. (2022) e Tavakoli et al. (2024) demonstram a eficácia da barreira intra-orifício, enquanto Wylie et al. (2025) reforça a importância da padronização da profundidade de remoção. Assim, observa-se convergência geral de que a seleção adequada e a execução criteriosa dos procedimentos são fundamentais para a manutenção do selamento coronário e o sucesso endodôntico.” 

5 CONCLUSÃO

Esta revisão de literatura alcançou seu objetivo geral de analisar criticamente os materiais restauradores, técnicas clínicas e evidências científicas relacionadas ao selamento coronário em endodontia. A análise da literatura demonstrou que os materiais biocerâmicos, especialmente o MTA, apresentam desempenho superior em testes de microinfiltração quando equiparados aos ionômeros de vidro e compósitos resinosos, embora estes últimos mantenham relevância clínica devido às suas características físicas adequadas e facilidade de aplicação.

As evidências também demonstram que a aplicabilidade de barreiras intra-orifício constitui estratégia eficiente para a preservação coronária, recomenda-se a remoção do material obturador entre 1 e 2 mm para inserção da barreira, com o intuito de manter o selamento apical.

Assim, conclui-se que a seleção criteriosa de materiais restauradores, associada à aplicação de técnicas clínicas apropriadas e protocolos padronizados, é crucial para assegurar a longevidade do tratamento endodôntico e a preservação da saúde periapical.

REFERÊNCIAS

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