SEGURANÇA NO USO DE ANTIBIÓTICOS: REVISÃO INTEGRATIVA SOBRE REAÇÕES ADVERSAS

SAFETY IN THE USE OF ANTIBIOTICS: AN INTEGRATIVE REVIEW ON ADVERSE REACTIONS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511171653


Marcos Andrey Mendes Silva1
Cynthia Emanuelly Santos Nobre1
João Vitor Alquimim Souza1
Talita Antunes Guimarães2


RESUMO

O uso de antibióticos representa um marco na história da medicina, sendo essencial para o controle de infecções bacterianas e a redução da mortalidade associada a essas doenças. No entanto, o uso inadequado e indiscriminado desses medicamentos tem favorecido o surgimento de reações adversas e o aumento da resistência bacteriana, configurando um grave problema de saúde pública. Este estudo teve como objetivo identificar e sintetizar evidências científicas sobre os tipos e a frequência de reações adversas associadas ao uso de antibióticos, bem como analisar as estratégias de prevenção e promoção da segurança do paciente. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), abrangendo publicações de 2020 a 2025. Foram identificados 312 artigos, dos quais 12 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final. Os resultados revelaram que as reações adversas mais comuns foram gastrointestinais, alérgicas e dermatológicas, destacando-se a ocorrência de eventos graves, como anafilaxia e toxicidade hepática. Crianças e idosos foram os grupos mais vulneráveis, e o uso concomitante de múltiplos antibióticos elevou o risco de reações adversas. A literatura reforça o papel do farmacêutico clínico na detecção precoce, no acompanhamento terapêutico e na promoção do uso racional desses fármacos. Conclui-se que o fortalecimento da farmacovigilância, a educação continuada dos profissionais de saúde e a implementação de protocolos institucionais são fundamentais para reduzir os riscos e garantir a segurança do paciente no uso de antibióticos.

Palavras-chave: Antibióticos. Reações adversas. Segurança do paciente. Uso racional de medicamentos. Farmacovigilância.

ABSTRACT

The use of antibiotics represents a milestone in the history of medicine, being essential for controlling bacterial infections and reducing related mortality rates. However, the improper and indiscriminate use of these drugs has contributed to the emergence of adverse reactions and increased bacterial resistance, posing a major public health challenge. This study aimed to identify and synthesize scientific evidence on the types and frequency of adverse reactions associated with antibiotic use, as well as to analyze prevention strategies and actions promoting patient safety. This is an integrative literature review conducted in the PubMed, SciELO, and Virtual Health Library (BVS) databases, covering publications from 2020 to 2025. A total of 312 studies were identified, and 12 met the inclusion criteria for final analysis. The findings revealed that the most common adverse reactions were gastrointestinal, allergic, and dermatological, with severe events such as anaphylaxis and hepatic toxicity also reported. Children and elderly patients were identified as the most vulnerable groups, while the concomitant use of multiple antibiotics increased the risk of adverse effects. The literature highlights the crucial role of the clinical pharmacist in early detection, therapeutic monitoring, and promoting the rational use of antibiotics. It is concluded that strengthening pharmacovigilance systems, ensuring continuous education for healthcare professionals, and implementing institutional protocols are essential measures to minimize risks and ensure patient safety in antibiotic therapy.

Keywords: Antibiotics. Adverse reactions. Patient safety. Rational drug use. Pharmacovigilance.

INTRODUÇÃO

Os antibióticos representam um dos maiores avanços da medicina moderna, sendo essenciais no tratamento de infecções bacterianas e na redução da morbimortalidade associada a essas doenças. No entanto, o uso inadequado e indiscriminado desses medicamentos tem aumentado significativamente a ocorrência de reações adversas e a resistência bacteriana, fenômeno que constitui um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea (Brito, 2022; Dalmolin et al., 2022; Pinho et al., 2024).

As reações adversas a antibióticos configuram eventos não intencionais que variam de manifestações leves, como náuseas e diarreia, a quadros graves, incluindo anafilaxia, insuficiência renal e hepatotoxicidade (Silva Farias, 2025; Camargo, Riveiro-Vaz e Silva, 2023; Prado Souza et al., 2021). Crianças e idosos compõem grupos mais vulneráveis, em razão de características fisiológicas específicas que aumentam a sensibilidade a esses efeitos (Silva, Braga e Lima, 2024). Além disso, falhas na prescrição, administração e monitoramento clínico contribuem para o agravamento dos eventos adversos em ambientes hospitalares (Soares, Pires e Gomes, 2023; Ferreira, De Souza Pinheiro e De Andrade, 2025).

Nesse cenário, o farmacêutico clínico tem papel fundamental na promoção do uso seguro de antibióticos, atuando na revisão de prescrições, ajuste de doses, identificação de interações medicamentosas e acompanhamento da resposta terapêutica. A utilização de instrumentos de registro e monitoramento de reações adversas fortalece a farmacovigilância e permite intervenções precoces, reduzindo danos ao paciente (Ferreira, De Farias e Neves, 2021; Silva, 2024; Oliveira et al., 2025).

O uso abusivo de antibióticos fora de contextos clínicos adequados, como automedicação ou interrupção precoce do tratamento, também tem contribuído para o aumento de eventos adversos e da resistência bacteriana (Brito, 2022; Silva e Nogueira, 2021; Santos et al., 2023). Esse cenário se agravou durante e após a pandemia de COVID-19, quando o consumo sem indicação comprovada aumentou expressivamente, comprometendo a eficácia dos tratamentos antimicrobianos (Santos et al., 2023).

A promoção do uso racional de antibióticos exige estratégias integradas, como prescrição baseada em evidências, educação em saúde, protocolos institucionais e atuação multiprofissional (Camargo, Riveiro-Vaz e Silva, 2023; Pinho et al., 2024). Entretanto, como destacam Diogo, Rodrigues e Antunes (2023), o desenvolvimento de novos antibióticos não será suficiente para conter a resistência microbiana se não houver mudanças comportamentais e educativas quanto ao uso desses fármacos.

Diante desse contexto, torna-se essencial identificar os tipos e a frequência das reações adversas associadas ao uso de antibióticos, compreender seus fatores de risco e avaliar as estratégias de prevenção adotadas em diferentes cenários clínicos. Este estudo tem como objetivo identificar e sintetizar evidências sobre os tipos e a frequência de reações adversas associadas ao uso de antibióticos, bem como analisar medidas voltadas à prevenção e à promoção da segurança do paciente.

O aprofundamento nesse tema contribui para o fortalecimento da prática clínica baseada em evidências, para a redução de eventos adversos e custos hospitalares, e para a qualificação das ações multiprofissionais voltadas à segurança do paciente (Ferreira, De Souza Pinheiro e De Andrade, 2025; Oliveira et al., 2025; Prado Souza et al., 2021).

Diante da crescente preocupação com a resistência bacteriana e os eventos adversos relacionados ao uso de antimicrobianos, justifica-se a realização deste estudo pela necessidade de ampliar o conhecimento científico sobre a segurança na antibioticoterapia e fortalecer as práticas clínicas baseadas em evidências. A carência de revisões atualizadas que integrem dados sobre frequência, gravidade e fatores de risco das reações adversas reforça a importância desta investigação para subsidiar políticas de farmacovigilância e promover o uso racional desses medicamentos. Assim, este estudo tem como objetivo identificar e sintetizar evidências científicas acerca dos tipos e da frequência de reações adversas associadas ao uso de antibióticos, bem como analisar as estratégias de prevenção e as ações voltadas à promoção da segurança do paciente.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida com o objetivo de reunir e analisar evidências científicas sobre as reações adversas associadas ao uso de antibióticos e as estratégias propostas para a promoção da segurança do paciente. Esse tipo de revisão permite integrar resultados de diferentes abordagens metodológicas, ampliando a compreensão sobre o tema e subsidiando práticas clínicas baseadas em evidências atualizadas.

A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) entre os dias 10 e 15 de agosto de 2025. Essas bases foram selecionadas por sua relevância na área da saúde, abrangendo periódicos nacionais e internacionais que publicam estudos de alto impacto sobre farmacovigilância e segurança do paciente. Foram utilizados descritores e palavras-chave em português e inglês combinados por operadores booleanos, conforme a seguinte estratégia de busca: (“antibiotic*” OR “antibiótico*”) AND (“adverse reaction*” OR “reação adversa*”) AND (“safety” OR “segurança do paciente”).

Foram aplicados filtros para limitar os resultados a artigos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis em texto completo e nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram incluídos estudos originais e revisões sistemáticas ou integrativas que abordassem a identificação, frequência, gravidade e manejo de reações adversas a antibióticos, bem como estratégias de prevenção e segurança. Foram excluídos relatos de caso isolados, editoriais, cartas ao editor, revisões narrativas sem critérios explícitos, estudos duplicados e publicações em outros idiomas.

O processo de seleção dos artigos foi conduzido em quatro etapas sucessivas, envolvendo a identificação dos registros nas bases de dados, a triagem por meio da leitura de títulos e resumos, a avaliação da elegibilidade dos textos completos e, por fim, a inclusão dos estudos que atendiam aos critérios previamente definidos. Ao todo, foram identificados 312 registros, dos quais 114 foram excluídos por duplicidade, restando 198 artigos para triagem. Após a leitura dos títulos e resumos, 74 trabalhos foram considerados potencialmente relevantes e analisados na íntegra, resultando em 12 estudos que compuseram a amostra final desta revisão. 

De cada artigo selecionado, foram extraídas informações sobre autor, ano de publicação, país, tipo de estudo, população analisada, classe de antibiótico avaliada, tipo e gravidade da reação adversa, desfechos clínicos e estratégias de prevenção ou manejo. Esses dados foram organizados em um quadro comparativo, que sintetiza os principais achados e facilita a análise das evidências disponíveis.

A avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos foi conduzida de forma descritiva, considerando a clareza dos objetivos, a adequação metodológica e a coerência entre resultados e conclusões. Embora não tenha sido empregada uma escala quantitativa de risco de viés, as limitações metodológicas identificadas foram reconhecidas e consideradas na interpretação dos achados.

A síntese dos resultados foi elaborada de forma narrativa e descritiva, o que permitiu identificar padrões de ocorrência, fatores de risco e medidas preventivas associadas às reações adversas aos antibióticos. Essa abordagem possibilitou compreender o panorama atual das evidências sobre o tema e reforçar a importância do uso racional desses medicamentos, além de destacar o papel essencial da equipe multiprofissional na promoção da segurança do paciente.

Para a etapa de coleta e organização das informações, foi elaborado um instrumento estruturado em formato de planilha, contendo campos específicos para o registro do título do artigo, autores, ano de publicação, base de dados, tipo de estudo, população analisada, antibióticos investigados, tipo e gravidade das reações adversas, desfechos clínicos e principais conclusões. Esse instrumento permitiu padronizar a extração de dados e facilitar a comparação entre os estudos incluídos.

A síntese dos dados foi realizada de forma descritiva e integrativa, agrupando as evidências conforme os tipos de reações adversas, populações afetadas e estratégias de prevenção relatadas. A análise buscou identificar convergências e divergências entre os resultados, bem como lacunas de pesquisa e tendências observadas nas publicações mais recentes. Essa abordagem garantiu maior rigor metodológico e contribuiu para a elaboração de conclusões consistentes sobre a segurança do paciente no uso de antibióticos.

RESULTADO 

Foram selecionados doze estudos científicos para compor a amostra desta pesquisa, contemplando diferentes delineamentos metodológicos, entre eles revisões integrativas, revisões narrativas, um estudo de coorte prospectivo e um relato de caso. A seleção abrangeu publicações recentes, entre os anos de 2021 e 2025, que investigaram as reações adversas associadas ao uso de antibióticos, suas causas, consequências clínicas e estratégias de prevenção. 

Os trabalhos analisados abordam tanto o contexto hospitalar quanto a atenção básica, incluindo populações específicas como crianças e pacientes internados em unidades de terapia intensiva, além de estudos que discutem o papel do farmacêutico clínico e da farmacovigilância no uso racional desses medicamentos. A seguir, apresenta-se o Quadro 1, que sintetiza as principais informações dos estudos incluídos, destacando seus autores, objetivos, metodologias e resultados.

Quadro 1. Estudos selecionados  

Autor/ AnoObjetivoDesenhoPaísPrincipais Resultados
Soares et al. (2023)Identificar os erros relacionados às prescrições de antibióticos no âmbito hospitalar no Brasil.Revisão integrativa de 100 artigos, com 10 selecionados conforme critérios de inclusão e exclusão.BrasilForam observados erros frequentes nas prescrições, como ilegibilidade, ausência de forma farmacêutica e posologia incorreta. Destaca-se o papel do farmacêutico na análise técnica e clínica.
Brito et al. (2022)Identificar as principais consequências do uso indiscriminado de antibióticos.Revisão integrativa em bases SciELO e BVS; 11 artigos analisados.BrasilO uso inadequado causa reações adversas, intoxicação, aumento de custos e resistência bacteriana.
Oliveira et al. (2025)Discutir o impacto do uso irracional de antibióticos e resistência bacteriana no país.Revisão integrativa da literatura.BrasilEvidenciou práticas inadequadas como automedicação e prescrição empírica. Reforça a importância da bioética, políticas públicas e atuação interdisciplinar do farmacêutico.
Ferreira et al. (2021)Descrever a atuação do farmacêutico clínico na UTI e seu papel no combate à resistência bacteriana.Revisão bibliográfica nas bases BVS, Science Direct e PubMed.BrasilA atuação do farmacêutico clínico melhora o tratamento, reduz reações adversas e promove o uso racional de antibióticos.
Silva Farias et al. (2025)Identificar as reações adversas em crianças e estratégias de prevenção.Revisão integrativa de literatura.BrasilAs reações mais comuns foram erupções cutâneas, distúrbios gastrointestinais e alergias. Ressalta a importância da vigilância e educação dos profissionais de saúde.
Ferreira et al. (2025)Evidenciar a importância da assistência farmacêutica no uso racional e prevenção da resistência.Revisão bibliográfica (2020–2025) com descritores “Resistência Bacteriana a Medicamentos” e “Uso de Antibacterianos”.BrasilO farmacêutico é fundamental na prescrição segura e no controle da resistência. Defende diagnóstico preciso e educação da população.
Ramos et al. (2022)Caracterizar o perfil clínico e epidemiológico de crianças com RAM causadas por antibióticos.Estudo de coorte prospectivo em cinco hospitais públicos, com 152 crianças acompanhadas.BrasilA maioria dos casos ocorreu em meninos de até dois anos com doenças respiratórias e uso de múltiplos antibióticos. Reforça a importância do monitoramento hospitalar.
Silva et al. (2024)Desenvolver uma ferramenta de consulta sobre reações adversas a antimicrobianos.Revisão bibliográfica com 28 artigos em bases como PubMed, LILACS, SciELO e BVS.BrasilForam identificadas 489 reações adversas, destacando diarreia, vômito e anafilaxia. Reforça a importância da farmacovigilância.
Caldas et al. (2022)Ressaltar os riscos do uso indevido e as causas da resistência bacteriana.Pesquisa de campo com 48 voluntários na cidade de Redenção (PA).BrasilConstatou-se desconhecimento sobre o uso racional e automedicação frequente. Reforça a necessidade de educação sanitária e orientação médica.
Silva Miranda et al. (2022)Analisar dados científicos sobre as consequências do uso inadequado de antibióticos.Revisão narrativa nas bases SciELO, LILACS e MEDLINE.BrasilO uso incorreto favorece o surgimento de bactérias multirresistentes e aumento da mortalidade por infecções. Enfatiza a necessidade de prescrição responsável e orientação ao paciente.
Alves et al. (2022)Analisar a atuação do farmacêutico clínico no manejo de paciente com encefalopatia causada por antibióticos.Relato de caso em ambiente hospitalar.BrasilA presença do farmacêutico clínico reduziu o tempo de internação e aprimorou a farmacovigilância, prevenindo reações adversas.
Silva et al. (2024)Analisar os padrões de uso de antibióticos em crianças e propor estratégias para o uso racional.Revisão integrativa com 19 estudos (2016–2024) nas bases SciELO e PubMed.BrasilIdentificou automedicação e prescrição excessiva. Reforça a necessidade de políticas públicas, diretrizes clínicas e educação continuada para o uso racional.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base nos estudos selecionados.

DISCUSSÃO

A análise dos estudos selecionados evidencia de forma clara que as reações adversas decorrentes do uso de antibióticos representam um problema clínico e sanitário de grande magnitude, com impacto direto sobre a qualidade da assistência e a segurança do paciente. Os resultados apontam que, embora os antibióticos constituam recursos terapêuticos indispensáveis no tratamento de infecções bacterianas, seu uso inadequado, seja por prescrição incorreta, automedicação ou ausência de acompanhamento profissional,  tem gerado consequências clínicas graves e um cenário crescente de resistência microbiana, considerado atualmente uma ameaça global à saúde pública.

Os trabalhos de Brito et al. (2022) e Silva Miranda et al. (2022) são consistentes ao afirmar que o uso indiscriminado de antibióticos compromete a eficácia terapêutica e pode causar uma série de reações adversas, desde manifestações leves, como irritações gastrointestinais, até eventos graves, como toxicidade renal e hepática. Esses autores destacam que a falta de orientação adequada ao paciente e o uso prolongado de antibióticos sem prescrição médica favorecem o surgimento de bactérias multirresistentes, fenômeno que limita progressivamente as opções de tratamento e eleva a mortalidade por infecções. 

Em linha semelhante, Caldas et al. (2022) demonstram, a partir de uma pesquisa de campo, que a população apresenta conhecimento insuficiente sobre os riscos do uso inadequado desses medicamentos, com alta prevalência de automedicação e crença equivocada de que antibióticos são indicados para qualquer tipo de infecção. Esse dado é preocupante porque evidencia falhas na educação em saúde e reforça a urgência de políticas de conscientização pública.

Ao se analisar os estudos de natureza hospitalar, observa-se que os erros de prescrição e a ausência de revisão técnica constituem fatores determinantes para o aumento das reações adversas. Soares et al. (2023) identificaram nas prescrições hospitalares uma série de inconformidades, como ilegibilidade, omissão de forma farmacêutica, posologia incorreta e uso excessivo de abreviaturas, aspectos que comprometem o processo de dispensação e elevam o risco de eventos adversos. 

Esses achados reforçam a importância da análise técnica e clínica das prescrições e da atuação do farmacêutico como agente de segurança dentro das instituições de saúde. Além disso, Oliveira et al. (2025) acrescentam que a prescrição empírica e o uso off-label de antibióticos, agravados por falhas estruturais no sistema de saúde, favorecem não apenas a resistência bacteriana, mas também a ocorrência de reações adversas decorrentes da falta de acompanhamento farmacoterapêutico contínuo.

Os estudos de Silva Farias et al. (2025) e Ramos et al. (2022) demonstram que a população pediátrica é especialmente vulnerável às reações adversas a antibióticos, o que se explica pela imaturidade fisiológica, pelas dificuldades de ajuste de dose e pela escassez de protocolos específicos para essa faixa etária. O estudo prospectivo conduzido por Ramos identificou que a maioria das crianças com reações adversas eram do sexo masculino e com menos de dois anos, em uso concomitante de três ou mais antibióticos, além de longos períodos de hospitalização. A presença de comorbidades e a exposição prolongada a antimicrobianos também se mostraram fatores de risco relevantes. Esses achados são consistentes com as observações de Silva et al. (2024), que enfatizam que a ausência de protocolos de vigilância ativa e de sistemas de notificação adequados dificulta o reconhecimento precoce dos eventos adversos, resultando em atrasos no manejo clínico e maior morbidade.

As reações adversas relatadas pelos diferentes estudos apresentam padrão semelhante, prevalecem as manifestações gastrointestinais, como diarreia, enjoo e vômitos, seguidas de erupções cutâneas, reações alérgicas e, em menor proporção, eventos graves como anafilaxia e síndrome de Stevens-Johnson (Silva et al., 2024; Silva Farias et al., 2025). Embora nem sempre resultem em complicações fatais, tais reações podem prolongar o tempo de internação, elevar os custos hospitalares e comprometer a adesão terapêutica. Além disso, Ferreira et al. (2025) e Ferreira et al. (2021) destacam que o impacto econômico e clínico dessas reações é significativo, pois exige intervenções farmacêuticas, ajustes de dose e substituição de fármacos, o que prolonga o tempo de tratamento e aumenta o risco de interações medicamentosas.

A atuação do farmacêutico clínico, apontada de maneira recorrente em diversos estudos, surge como elemento central para reduzir os riscos e aprimorar a segurança no uso de antibióticos. Ferreira et al. (2021) mostraram que a presença do farmacêutico em unidades de terapia intensiva contribui para a avaliação de prescrições, detecção de reações adversas, reconciliação medicamentosa e otimização da farmacoterapia. 

O estudo de Alves et al. (2022) reforça essa evidência ao relatar que a intervenção farmacêutica possibilitou a identificação precoce de uma reação adversa grave e a consequente redução do tempo de internação, comprovando que a atuação integrada do farmacêutico com a equipe médica e de enfermagem é fundamental para o sucesso terapêutico. Essa perspectiva é reforçada por Oliveira et al. (2025), ao argumentarem que a prática interdisciplinar, aliada à bioética e à educação continuada dos profissionais, é condição indispensável para o uso racional de antimicrobianos.

Outro ponto importante levantado por Silva et al. (2024) diz respeito ao desenvolvimento de instrumentos de consulta e sistemas informatizados que auxiliam os farmacêuticos na detecção e registro de reações adversas. Ao catalogar 489 eventos adversos em diferentes classes de antimicrobianos, esse estudo evidenciou o potencial da farmacovigilância estruturada para a identificação de padrões de risco e para a elaboração de protocolos de prevenção. De modo semelhante, Ferreira et al. (2025) ressaltam que a implementação de programas de stewardship, que envolvem revisão sistemática das prescrições, ajuste de doses e auditoria de antimicrobianos  é uma das estratégias mais eficazes para minimizar tanto as reações adversas quanto o desenvolvimento de resistência bacteriana.

Os achados de Caldas et al. (2022), Brito et al. (2022) e Silva Miranda et al. (2022) apontam ainda para o papel fundamental da educação em saúde e da conscientização pública. Esses autores defendem que a promoção do uso racional de antibióticos deve extrapolar o ambiente hospitalar, alcançando também a comunidade e as farmácias comerciais, onde a automedicação ainda é prática recorrente. As campanhas educativas, aliadas à fiscalização da dispensação e ao fortalecimento das políticas públicas, são medidas de grande impacto para reduzir o uso indiscriminado e prevenir tanto reações adversas quanto resistência bacteriana.

Sob uma perspectiva comparativa, a literatura analisada demonstra que as classes de antibióticos mais frequentemente associadas às reações adversas são as penicilinas e cefalosporinas, seguidas de aminoglicosídeos, quinolonas e sulfonamidas (Silva et al., 2024).

Essa predominância, no entanto, reflete mais o alto consumo dessas classes do que necessariamente uma maior toxicidade intrínseca. Ainda assim, esses fármacos exigem atenção especial, visto que, conforme Ramos et al. (2022) e Ferreira et al. (2025), a utilização simultânea de diferentes agentes antimicrobianos aumenta exponencialmente o risco de reações adversas e interações medicamentosas, especialmente em populações vulneráveis como crianças e pacientes críticos.

Outro aspecto amplamente discutido nas pesquisas é a necessidade de integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde. Oliveira et al. (2025) defendem que a resistência bacteriana e as reações adversas não são apenas questões clínicas, mas também sociais e éticas, pois refletem desigualdades regionais, falhas no acesso a serviços de qualidade e insuficiência de políticas públicas consistentes. Nessa mesma linha, Ferreira et al. (2021) destacam que a atuação do farmacêutico clínico deve se estender à atenção básica, atuando na orientação da população sobre o uso correto dos medicamentos, fortalecendo o papel da educação como ferramenta de prevenção primária.

Os resultados obtidos pelos diferentes autores convergem para uma conclusão importante, a prevenção das reações adversas a antibióticos depende de um sistema de vigilância estruturado, de protocolos assistenciais bem definidos e do comprometimento coletivo das equipes de saúde. A literatura demonstra que o monitoramento ativo, aliado à notificação contínua dos eventos, permite reduzir significativamente os casos de RAM e contribui para o aprimoramento das práticas clínicas. Entretanto, ainda há desafios a serem superados, como a subnotificação de casos leves, a heterogeneidade metodológica entre estudos e a escassez de pesquisas experimentais que mensurem o impacto quantitativo das intervenções em contextos brasileiros.

Os estudos de Soares et al. (2023), Brito et al. (2022), Silva Miranda et al. (2022), Ferreira et al. (2021), Ferreira et al. (2025), Silva Farias et al. (2025), Oliveira et al. (2025), Silva et al. (2024), Ramos et al. (2022), Alves et al. (2022) e Caldas et al. (2022) são unânimes ao reconhecer que a segurança do paciente no uso de antibióticos requer uma abordagem multidimensional, que combine educação, vigilância e integração profissional. O fortalecimento da prescrição racional, o uso criterioso de antimicrobianos e o acompanhamento farmacêutico sistemático são medidas urgentes e indispensáveis. Assim, a prevenção de reações adversas e o controle da resistência bacteriana devem ser entendidos não apenas como metas clínicas, mas como compromissos éticos com a sustentabilidade dos recursos terapêuticos e a preservação da saúde coletiva.

CONCLUSÃO

A análise das evidências demonstrou que as reações adversas aos antibióticos representam um desafio significativo para a segurança do paciente, exigindo monitoramento contínuo e práticas clínicas rigorosas. Observou-se que o uso racional desses medicamentos, aliado à atuação do farmacêutico clínico e à adoção de protocolos institucionais, é fundamental para reduzir eventos adversos e otimizar resultados terapêuticos. Recomenda-se o fortalecimento das ações de farmacovigilância e a implementação de políticas educativas que promovam a prescrição responsável. Futuras pesquisas devem explorar estratégias inovadoras de prevenção e manejo, ampliando o conhecimento sobre os riscos e benefícios do uso de antibióticos em diferentes contextos clínicos.

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1Acadêmico do curso de Farmácia da UNIFIPMoc. andrey.874@hotmail.com.
2Professora Orientadora do curso de Farmácia da UNIFIPMoc – talita.guimaraes@unifipmoc.edu.br