REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511141958
Vanessa Fernandes Lourenço
Orientador: Lara Alves Moreira
RESUMO
A saúde respiratória é um tema de grande relevância na atualidade, especialmente diante do aumento de doenças crônicas associadas a fatores ambientais e comportamentais, como o tabagismo. Este estudo teve como objetivo analisar a relação entre os hábitos de fumo e a saúde respiratória de estudantes universitários de Foz do Iguaçu. Trata-se de um estudo descritivo e analítico, de abordagem quantitativa, realizado com 66 universitários de diferentes cursos de instituições de ensino superior do município. A coleta de dados ocorreu por meio de questionário estruturado, contendo informações sociodemográficas, clínicas e comportamentais. Os dados foram analisados estatisticamente com o uso de testes de associação (Qui-quadrado de Pearson, α = 0,05). Observou-se que 15,1% dos participantes eram fumantes ativos, 18,2% ex-fumantes e 66,7% nunca haviam fumado. A prevalência de sintomas respiratórios foi de 34,8%, com maior frequência entre os fumantes e indivíduos expostos à poluição. Não houve associação estatisticamente significativa entre tabagismo e sintomas respiratórios (p = 0,714), mas verificou-se relação entre prática de atividade física e ausência de sintomas (p = 0,011), sugerindo efeito protetor do exercício sobre a função pulmonar. Conclui-se que, embora a prevalência de fumantes ativos seja relativamente baixa, há um número expressivo de sintomas respiratórios entre os universitários, o que reforça a necessidade de políticas preventivas, ações educativas e incentivo a hábitos de vida saudáveis no ambiente acadêmico.
Palavras-chave: Saúde Respiratória. Estudantes. Tabagismo. Universitários. Prevenção em saúde. Hábitos de vida.
Respiratory health has become a major global concern due to the increasing incidence of chronic diseases associated with environmental and behavioral factors such as smoking. This study aimed to analyze the relationship between smoking habits and respiratory health among university students in Foz do Iguaçu, Brazil. A descriptive and analytical quantitative study was conducted with 66 university students from different higher education institutions. Data were collected through a structured questionnaire covering sociodemographic, clinical, and behavioral variables and analyzed using the Chi-square test (α = 0.05). Results showed that 15.1% of participants were active smokers, 18.2% former smokers, and 66.7% had never smoked. Respiratory symptoms were reported by 34.8% of students, more frequently among smokers and those exposed to pollution. There was no significant association between smoking and respiratory symptoms (p = 0.714), but a significant relationship was found between physical activity and absence of symptoms (p = 0.011), indicating a protective effect of regular exercise. It was concluded that, although the prevalence of active smokers is relatively low, respiratory symptoms remain common among university students, highlighting the importance of preventive actions, health education, and the promotion of healthy lifestyles in academic environments.
Keywords: Respiratory health. Students. Tobacco use disorder. Health prevention. University students. Lifestyle habits.
1 INTRODUÇÃO
A saúde respiratória tem se destacado, no século XXI, como uma preocupação global relevante, assumindo papel de prioridade nos debates em saúde pública. Milhões de pessoas em todo o mundo são afetadas por doenças respiratórias, independentemente do nível socioeconômico, o que contribui para a sobrecarga dos sistemas de saúde. Fatores comportamentais, como o tabagismo, e ambientais, como a poluição do ar, exercem influência significativa na origem e agravamento dessas condições (GREENE & ABDULKADIR, 2024).
O tabagismo é uma das principais causas de doenças respiratórias e é caracterizado pelo uso habitual de produtos derivados do tabaco, sendo a nicotina a principal substância responsável pela dependência. Embora o consumo de cigarros convencionais tenha diminuído, o uso de dispositivos eletrônicos para fumar e o narguilé tem aumentado, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. Esses produtos liberam aerossóis com substâncias tóxicas que afetam diretamente o sistema respiratório, estando associados a inflamações, lesões pulmonares e maior risco de desenvolvimento de doenças crônicas. No Brasil, a experimentação de cigarros eletrônicos entre adolescentes já ultrapassa 16%, o que representa um desafio para as políticas públicas de controle do tabagismo, uma vez que o uso desses dispositivos pode favorecer a iniciação ao cigarro convencional (SILVA et al., 2022).
Os universitários são considerados um grupo vulnerável à adoção de comportamentos de risco, uma vez que a entrada na universidade pode estar associada ao afastamento da família, ao aumento da autonomia e à vivência de uma nova experiência de liberdade. Essas transformações, somadas a outras mudanças próprias dessa fase da vida, contribuem para a adoção de novos hábitos, especialmente relacionados ao consumo de substâncias, à má alimentação e ao sedentarismo, os quais podem se manter ao longo do tempo e impactar negativamente a saúde (MOTA et al., 2025).
A poluição do ar é um importante fator de risco para a saúde respiratória, estando associada a efeitos tanto agudos quanto crônicos no sistema respiratório. A exposição a partículas poluentes contribui para o aumento da incidência de doenças como asma, DPOC e até câncer de pulmão. Evidências indicam que mesmo exposições moderadas à poluição estão relacionadas a uma maior demanda por consultas médicas, internações hospitalares e aumento da mortalidade por doenças respiratórias, especialmente entre populações mais vulneráveis, como crianças, idosos e portadores de enfermidades crônicas (SANTOS et al., 2021).
Foz do Iguaçu, localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, é composta por uma região estrategicamente organizada sob os aspectos geopolítico e sanitário. O município integra um aglomerado urbano com intenso fluxo de intercâmbio cultural e econômico, reunindo mais de 72 grupos étnicos e uma população estimada em mais de um milhão de pessoas nas áreas lindeiras da fronteira. Esse cenário favorece uma intensa circulação de pessoas, serviços e mercadorias, o que influencia diretamente os processos de saúde e doença, exigindo abordagens específicas de vigilância e atenção à saúde. A presença simultânea de diferentes culturas, associada às dificuldades de articulação entre os sistemas de saúde dos países vizinhos, torna a região especialmente relevante para o estudo de comportamentos de risco à saúde, como o tabagismo entre universitários e seus impactos na saúde respiratória (SILVA-SOBRINHO et al., 2022).
1.1 Justificativa
Em Foz do Iguaçu, cidade localizada na tríplice fronteira, observa-se uma diversidade cultural e social que pode influenciar os comportamentos relacionados ao uso de substâncias fumígenas. Apesar disso, são escassos os estudos locais que investigam o impacto desses hábitos na saúde respiratória de universitários. Compreender esse cenário é essencial para nortear ações preventivas e educativas no contexto acadêmico, além de contribuir com dados regionais sobre saúde pública.
1.2 Objetivo Geral
Analisar a relação entre os hábitos de fumo e a saúde respiratória de estudantes universitários de Foz do Iguaçu.
1.3 Objetivos Específicos
– Identificar a prevalência de uso de diferentes tipos de fumo entre os estudantes.
– Avaliar a presença de sintomas respiratórios associados aos hábitos de fumo.
– Comparar a saúde respiratória entre fumantes e não fumantes.
– Investigar fatores ambientais e comportamentais que possam interferir na função pulmonar.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A saúde respiratória é considerada um dos pilares fundamentais do bem-estar humano, sendo fortemente influenciada por fatores ambientais, sociais e comportamentais. As doenças respiratórias, como asma, bronquite crônica, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e infecções respiratórias agudas, estão entre as principais causas de morbimortalidade no mundo. Segundo Greene e Abdulkadir (2024), a transição demográfica e o crescimento urbano têm ampliado a exposição a agentes poluentes e ao tabagismo, contribuindo para o agravamento dessas condições. De forma semelhante, a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2023) destaca que as doenças respiratórias crônicas estão entre as dez principais causas de morte no planeta, com o tabagismo sendo responsável por mais de 8 milhões de óbitos anuais, incluindo fumantes ativos e passivos.
O tabagismo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como a principal causa evitável de morte no planeta. Apesar da redução no consumo de cigarros convencionais, o uso de produtos alternativos, como narguilé e cigarros eletrônicos, vem crescendo significativamente entre adolescentes e jovens adultos. Conforme Silva et al. (2022), esses dispositivos contêm nicotina e outras substâncias tóxicas que causam inflamações, lesões pulmonares e risco aumentado de doenças crônicas respiratórias, mesmo entre usuários ocasionais. Além disso, o uso precoce de cigarros eletrônicos pode atuar como porta de entrada para o tabagismo convencional. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA, 2024), o Brasil ainda enfrenta desafios na contenção do uso de produtos derivados do tabaco, especialmente entre os jovens, o que reforça a necessidade de políticas públicas contínuas de prevenção e controle.
Entre universitários, o tabagismo e outros hábitos prejudiciais à saúde se associam a mudanças na rotina, maior autonomia e vivência de novos ambientes sociais. De acordo com Mota et al. (2025), esse público tende a adotar comportamentos de risco, como o consumo de álcool, tabaco e a inatividade física, o que pode comprometer a saúde respiratória e o bem-estar geral. Ainda segundo o autor, o estilo de vida adquirido durante a vida acadêmica pode se manter ao longo do tempo, consolidando padrões comportamentais que aumentam o risco de doenças crônicas. Viegas e Godoy (2023) complementam que a dependência nicotínica, associada a fatores emocionais e sociais, torna a cessação do tabagismo um desafio que exige estratégias integradas de educação, apoio psicológico e acompanhamento multiprofissional.
A poluição do ar também é um fator relevante para a saúde respiratória. Santos et al. (2021) apontam que a exposição contínua a partículas poluentes está associada ao aumento de sintomas respiratórios e à redução da função pulmonar. Mesmo exposições moderadas em áreas urbanas podem causar inflamações das vias aéreas e agravar doenças preexistentes. Segundo o Ministério da Saúde (2022), a Política Nacional de Promoção da Saúde reconhece a poluição ambiental como um determinante social que impacta diretamente as condições de saúde da população, devendo ser monitorada e combatida por meio de ações intersetoriais. Esse cenário é ainda mais preocupante em cidades de fronteira, como Foz do Iguaçu, onde há intenso fluxo de veículos, turismo e atividades comerciais.
A região de Foz do Iguaçu, segundo Silva-Sobrinho et al. (2022), apresenta características singulares por ser uma área de tríplice fronteira, o que acarreta desafios adicionais para a vigilância e a promoção da saúde. O intercâmbio cultural e econômico, aliado à diversidade populacional, influencia diretamente os comportamentos de risco e o acesso aos serviços de saúde. Nesse contexto, compreender os hábitos de fumo entre universitários e seus impactos sobre a saúde respiratória torna-se essencial para subsidiar ações de prevenção e educação em saúde.
Além dos fatores ambientais e comportamentais, é importante considerar os aspectos fisiológicos da função pulmonar. Conforme Pereira (2022), a avaliação funcional respiratória, realizada por meio de testes como a espirometria, é fundamental para detectar precocemente alterações pulmonares, mesmo em indivíduos aparentemente saudáveis. Isso reforça a importância de ações preventivas e educativas que visem conscientizar os jovens sobre os efeitos cumulativos do tabaco e da poluição no sistema respiratório.
Em síntese, a literatura evidencia que fatores comportamentais, como o tabagismo e o sedentarismo, e fatores ambientais, como a poluição do ar, interagem de forma complexa e cumulativa sobre a função respiratória. Assim, investigar esses aspectos entre universitários contribui para a formulação de estratégias de promoção da saúde que possam ser aplicadas em ambientes acadêmicos, reduzindo a incidência de sintomas respiratórios e incentivando estilos de vida mais saudáveis.
3 MATERIAL E MÉTODOS
3.1 Materiais
O estudo foi desenvolvido utilizando um questionário estruturado on-line, elaborado com base em instrumentos previamente validados na literatura científica sobre saúde respiratória e hábitos de fumo. O questionário foi criado na plataforma Google Forms e dividido em três blocos principais: variáveis sociodemográficas (sexo, idade, curso), clínicas (presença de doenças respiratórias e sintomas como tosse, chiado e falta de ar) e comportamentais (hábito de fumar, frequência de prática de atividade física, exposição à poluição atmosférica e ao uso de incenso ou velas).
Os dados coletados foram exportados para planilhas do Microsoft Excel e posteriormente analisados no software Python, por meio das bibliotecas Pandas e SciPy, que permitiram o cálculo das estatísticas descritivas e inferenciais. Todo o material de coleta e análise foi digital, não havendo necessidade de instrumentos físicos ou laboratoriais.
3.2 Caracterização do Objeto de Estudo
O objeto de estudo deste trabalho consistiu em universitários matriculados em instituições de ensino superior de Foz do Iguaçu (PR), de ambos os sexos, maiores de 18 anos, pertencentes a diferentes áreas do conhecimento. O foco da investigação recaiu sobre os hábitos de fumo (cigarro convencional, narguilé e cigarros eletrônicos) e a saúde respiratória, com ênfase na presença de sintomas como tosse, chiado e falta de ar.
Foram incluídos estudantes que aceitaram participar voluntariamente da pesquisa, mediante leitura e concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A amostra foi não probabilística por conveniência, contemplando apenas aqueles que responderam integralmente ao questionário.
3.3 Caracterização da Área
O estudo foi realizado no município de Foz do Iguaçu, localizado no extremo oeste do estado do Paraná, na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. O município possui características socioculturais singulares, marcadas pela presença de diversos grupos étnicos e pelo intenso intercâmbio econômico e populacional. A população estimada da cidade é de aproximadamente 260 mil habitantes, com forte presença de estudantes vindos de outras regiões e países.
O clima local é classificado como subtropical úmido, com verões quentes e invernos amenos, fatores que podem influenciar a qualidade do ar e a saúde respiratória. A atividade econômica diversificada, o tráfego intenso e a presença de indústrias na região contribuem para níveis elevados de poluição atmosférica urbana, tornando o local particularmente relevante para o estudo de fatores ambientais e comportamentais associados à saúde pulmonar.
3.4 Metodologia da Pesquisa
Trata-se de um estudo descritivo e analítico, de abordagem quantitativa, realizado com universitários de diferentes cursos de instituições de ensino superior de Foz do Iguaçu (PR).
A população-alvo foi composta por estudantes regularmente matriculados, maiores de 18 anos, de ambos os sexos e pertencentes a diferentes áreas do conhecimento. A amostra foi selecionada por conveniência, incluindo participantes que aceitaram voluntariamente contribuir com a pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado com base em instrumentos validados na literatura, contemplando variáveis sociodemográficas (sexo, idade, curso), clínicas (presença de doença respiratória e sintomas respiratórios) e comportamentais (hábito de fumar, prática de atividade física, exposição à poluição e uso de incenso ou velas).
A aplicação do questionário ocorreu de forma on-line, por meio do envio do link aos estudantes via canais institucionais, grupos acadêmicos e redes sociais. A participação foi voluntária e anônima, sendo condicionada à assinatura eletrônica do TCLE, disponibilizado no início do formulário.
Este instrumento de coleta é o mesmo utilizado em outro projeto de pesquisa em trâmite no Comitê de Ética em Pesquisa, registrado sob o número de Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 90358125.8.0000.0107. Ambas as investigações foram aplicadas à mesma população-alvo, mas com recortes e objetivos distintos, justificando o uso do mesmo questionário e público de interesse, uma vez que cada estudo aborda aspectos diferentes dentro do contexto acadêmico.
As análises estatísticas foram conduzidas no software Python, utilizando as bibliotecas Pandas e SciPy. Foram aplicadas estatísticas descritivas (frequências absolutas e relativas, médias e desvios-padrão) e testes de associação (Qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de α = 0,05) para comparar grupos de fumantes e não fumantes quanto à presença de sintomas respiratórios.
3.5 Procedimentos Metodológicos/Procedimento Experimental
A coleta de dados seguiu uma sequência padronizada. Inicialmente, o questionário foi testado em um grupo reduzido de estudantes, a fim de verificar a clareza das perguntas e o tempo médio de resposta. Após o teste piloto, o formulário foi disponibilizado para ampla divulgação entre as instituições de ensino superior participantes.
Os dados foram automaticamente armazenados na planilha digital da plataforma Google Forms, garantindo a integridade das respostas. Em seguida, as informações foram exportadas para o ambiente Python, onde passaram por uma etapa de limpeza e organização, excluindo respostas incompletas.
Na fase de análise estatística, aplicaram-se métodos descritivos para caracterizar a amostra e testes inferenciais para identificar possíveis associações entre as variáveis de interesse, especialmente entre o tabagismo e os sintomas respiratórios relatados.
Por fim, os resultados foram interpretados com base em referências científicas recentes, permitindo discutir os achados à luz das evidências atuais sobre saúde respiratória, hábitos de fumo e comportamentos de risco entre universitários.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A amostra deste estudo foi composta por 66 universitários, sendo 71,2% do sexo feminino e 28,8% do masculino, com faixa etária predominante entre 21 e 25 anos (50%), principalmente de cursos das áreas da saúde e humanas, assim como representado na tabela 1.
TABELA 1 – Perfil dos participantes
| Total de participantes: 66 |
| Sexo: 71,2% feminino; 28,8% masculino |
| Faixa etária predominante: 21-25 anos (50%) |
Esses achados são semelhantes aos observados por Sáez et al. (2021), no estudo Tobacco consumption in Chilean university students and associations with anthropometry, eating habits and sleep quality, que também identificou predominância feminina (57%) e média etária de 21 anos entre universitários chilenos, indicando um perfil regional de maior participação de mulheres jovens em cursos da área da saúde.
A prevalência de doenças e sintomas respiratórios entre os universitários deste estudo foi de 31,8% e 34,8%, respectivamente. Esses achados indicam que cerca de um terço dos participantes apresentou algum tipo de comprometimento respiratório, como tosse, chiado ou falta de ar. Tal resultado reflete uma tendência global de aumento das condições respiratórias em populações jovens e economicamente ativas, como mostrado na tabela 2.
TABELA 2 – Prevalência de Doenças e Sintomas Respiratórios
| Doenças respiratórias diagnosticadas: 31,8% |
| Presença de sintomas (tosse, chiado, falta de ar): 34,8% |
| Sem sintomas relatados: 65,2% |
De acordo com Greene e Abdulkadir (2024), as doenças respiratórias crônicas e os sintomas associados têm se tornado mais frequentes devido a fatores ambientais e comportamentais, como a poluição atmosférica e o tabagismo, reforçando a necessidade de estratégias preventivas e de promoção da saúde respiratória também no ambiente universitário.
A maioria dos participantes deste estudo relatou nunca ter fumado (66,7%), enquanto 18,2% se declararam ex-fumantes e 15,1% fumantes ativos. Entre os fumantes, observou-se maior uso de cigarros convencionais, seguido por narguilé e vape, o que indica a presença de produtos alternativos ao tabaco tradicional (Tabela 3).
TABELA 3 – Hábitos de Fumo
| Categoria | Percentual (%) |
| Nunca fumaram | 66,7 |
| Ex-fumantes | 18,2 |
| Fumantes ativos | 15,1 |
De modo semelhante, Mota et al. (2025) observaram que, mesmo entre estudantes da área da saúde, o tabagismo e o uso de narguilé permanecem presentes como hábitos de risco à saúde. Além disso, Silva et al. (2022) destacam que o uso de cigarros eletrônicos aumenta significativamente a probabilidade de iniciação ao tabagismo convencional, reforçando a necessidade de ações educativas voltadas à prevenção desses comportamentos entre universitários.
A exposição à poluição atmosférica foi relatada por 70% dos participantes, de forma frequente ou ocasional. A maioria afirmou praticar atividade física regularmente (≥ 3 vezes por semana), o que representa um fator protetor para a saúde respiratória. No entanto, a literatura aponta que os efeitos benéficos do exercício podem ser reduzidos em ambientes com altos níveis de poluição (Tabela 4).
TABELA 4 – Fatores Ambientais e de Estilo de Vida
| Exposição à poluição: 70% (frequente ou ocasional) |
Prática de atividade física: maioria relatou prática regular (≥3x/semana) |
| Tipo de fogão: predominância de gás (não houve exposição relevante à fumaça de biomassa) |
Segundo Santos et al. (2021), mesmo exposições ambientais de baixa intensidade estão associadas a alterações na função pulmonar e sintomas respiratórios leves em indivíduos saudáveis. De modo semelhante, Mota et al. (2025) destacam que, embora muitos universitários adotem hábitos saudáveis, fatores ambientais e comportamentais continuam a representar desafios à manutenção da saúde respiratória.
Na análise estatística, não houve associação significativa entre tabagismo e sintomas respiratórios (p = 0,714), nem entre exposição à poluição e sintomas (p = 0,375). No entanto, observou-se uma relação significativa entre prática de atividade física e ausência de sintomas respiratórios (p = 0,011), sugerindo que a atividade física exerce um papel protetor (Tabela 5).
TABELA 5 – Teste de Associação
| Relação Avaliada | Valor-p | Significância (a=0,05) | Interpretação |
| Tabagismo x Sintomas Respiratórios | 0.714 | Não significativa | Não houve relação estatisticamente significativa entre o hábito de fumar e a presença de sintomas respiratórios. |
| Exposição à Poluição x Sintomas Respiratórios | 0.375 | Não significativa | A poluição mostrou tendência a aumentar sintomas, mas sem significância estatística. |
| Atividade Física x Sintomas Respiratórios | 0.011 | Significativa | Estudantes fisicamente ativos apresentaram menos sintomas respiratórios, indicando possível fator protetor. |
Esses achados são sustentados por Santos et al. (2021), que apontam a influência da qualidade do ar sobre a função pulmonar, embora a intensidade dos efeitos dependa da frequência e do tempo de exposição. De forma complementar, Mota et al. (2025) identificaram que estudantes fisicamente ativos apresentam menor prevalência de sintomas respiratórios, enquanto Silva et al. (2022) reforçam que o uso de cigarros eletrônicos e narguilé pode contribuir para irritação das vias aéreas, mesmo entre usuários ocasionais.
Os resultados deste estudo revelam uma prevalência relevante de sintomas e doenças respiratórias entre universitários, grupo geralmente considerado jovem e saudável. Cerca de um terço dos participantes relatou algum sintoma respiratório, o que reforça a importância de investigar fatores ambientais e comportamentais mesmo em populações sem histórico clínico significativo.
Apesar de não ter sido observada associação estatisticamente significativa entre tabagismo e sintomas respiratórios, deve-se considerar o baixo número de fumantes ativos (15,1%) na amostra, o que pode ter limitado o poder estatístico da análise. Ainda assim, conforme destacado por Silva et al. (2022), o uso de produtos alternativos como narguilé e cigarros eletrônicos vem crescendo entre jovens e universitários, sendo práticas socialmente aceitas, mas que oferecem riscos comprovados à saúde pulmonar.
A atividade física mostrou associação significativa com menor prevalência de sintomas respiratórios, o que reforça o papel protetor da prática regular de exercícios sobre a função pulmonar, conforme observado também por Mota et al. (2025), que apontam que estilos de vida mais ativos estão relacionados a melhor qualidade de vida e menor vulnerabilidade a doenças crônicas.
Outro aspecto relevante é a exposição ambiental à poluição, relatada por 70% dos participantes. Ainda que a associação estatística não tenha sido significativa, estudos como o de Santos et al. (2021) evidenciam que mesmo exposições ocasionais à poluição urbana podem provocar inflamação das vias aéreas e aumento da sensibilidade respiratória. Esses resultados dialogam com as observações de Greene e Abdulkadir (2024), que ressaltam o impacto crescente do estilo de vida urbano e da qualidade do ar sobre a saúde respiratória de populações jovens e economicamente ativas.
Assim, os achados deste estudo se alinham às evidências mais recentes sobre o papel combinado de fatores comportamentais (fumo e sedentarismo) e ambientais (poluição e ar contaminado) no surgimento de sintomas respiratórios em jovens adultos, destacando a necessidade de políticas educativas e preventivas voltadas ao público universitário.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo evidenciou que, embora a maioria dos estudantes não seja fumante, há uma presença significativa de ex-fumantes e fumantes ativos (15%), refletindo o impacto do uso de produtos alternativos como narguilé e vape.
A prevalência de sintomas respiratórios foi expressiva (35%), mesmo entre uma população jovem e predominantemente saudável, o que sugere influência de fatores ambientais e comportamentais.
A atividade física regular demonstrou-se associada a melhor saúde respiratória, reforçando seu papel protetor frente a doenças pulmonares. Por outro lado, fatores ambientais, como a exposição à poluição atmosférica e à fumaça, podem contribuir para o surgimento de sintomas respiratórios, embora sem correlação estatística direta.
Os resultados reforçam a importância de ações preventivas e programas educativos sobre hábitos saudáveis e riscos respiratórios, especialmente no ambiente universitário, visando promover uma melhor qualidade de vida e reduzir a incidência de doenças respiratórias entre jovens adultos.
REFERÊNCIAS
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GREENE, C. M.; ABDULKADIR, M. Global respiratory health priorities at the beginning of the 21st century. European Respiratory Review, [S.l.], v. 33, n. 172, p. 1–9, 10 abr. 2024. DOI: https://doi.org/10.1183/16000617.0205-2023. Disponível em: Acesso em: 23 maio 2025.
INCA – Instituto Nacional de Câncer. Tabagismo: dados e números no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2024. Disponível em: https://www.inca.gov.br. Acesso em: 6 nov. 2025.
MOTA, G. O. et al. Estilo de vida entre universitários: um desafio para os futuros profissionais da saúde. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, v. 49, n. 1, p. e031, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-5271v49.1-2024-0148. Acesso em: 23 maio 2025.
PEREIRA, C. A. C. Avaliação funcional respiratória. 3. ed. São Paulo: Atheneu, 2022.
SÁEZ, J. M. et al. Tobacco consumption in Chilean university students and associations with anthropometry, eating habits and sleep quality. Nutrients, v. 13, n. 12, p. 4332, 2021. Disponível em: https://www.mdpi.com/2072-6643/13/12/4332. Acesso em: 24 out. 2025.
SANTOS, U. P. et al. Poluição do ar ambiental: efeitos respiratórios. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, v. 47, n. 1, p. e20200267, 2021. DOI: https://doi.org/10.36416/1806-3756/e20200267. Acesso em: 22 maio 2025.
SILVA, S. T. da et al. Risco de iniciação ao tabagismo com o uso de cigarros eletrônicos: revisão sistemática e meta-análise. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 27, n. 5, p. 1801–1814, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/7KBmCMtjrGhs6Fgr5bxksQP/?lang=pt. Acesso em: 24 maio 2025.
SILVA-SOBRINHO, R. A. et al. Risk areas for the occurrence of leprosy in border countries of South America – Brazil and Argentina. PLOS ONE, [S.l.], v. 17, n. 11, p. e0276977, 2022. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0276977. Acesso em: 24 maio 2025.
VIEGAS, C. A. A.; GODOY, I. Tabagismo: abordagem, prevenção e cessação. São Paulo: Manole, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Report on the Global Tobacco Epidemic 2023: Protect people from tobacco smoke. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240073046.
APÊNDICE
APÊNDICE A: Questionário “Estudo da Saúde Pulmonar de Universitários de Foz do Iguaçu – PR”
1 Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
De acordo com o termo acima, gostaria de participar da pesquisa?
( ) Aceito participar
( ) Não aceito participar
Qual sua idade?
( ) 18 a 20 anos
( ) 21 a 25 anos
( ) 26 a 30 anos
( ) 31 a 35 anos
( ) 36 a 40 anos
( ) Acima de 40 anos
Qual seu sexo?
( ) Masculino
( ) Feminino
( ) Outro
( ) Prefiro não dizer
Em qual instituição de ensino superior você estuda?
Qual curso você está fazendo?
Em que período/semestre você está?
Você tem ou já teve alguma doença respiratória diagnosticada? (ex: asma, bronquite, DPOC, pneumonia)
( ) Sim
( ) Não
Se sim, qual(is)?
Com que frequência você sente falta de ar?
( ) Nunca
( ) Raramente
( ) Às vezes
( ) Frequentemente
Você costuma tossir com frequência?
( ) Sim
( ) Não
Já teve episódios de chiado no peito nos últimos 12 meses?
( ) Sim
( ) Não
Já foi internado por problemas respiratórios?
( ) Sim
( ) Não
Se sim, quando e qual o motivo?
Você é fumante?
( ) Sim, atualmente
( ) Já fui, mas parei
( ) Nunca fui
Com que frequência você fuma ou fumava?
( ) Menos de 1 vez por semana
( ) 1 a 5 vezes por semana
( ) Diariamente
Você faz uso de cigarro eletrônico (vape)?
( ) Sim
( ) Não
Com que frequência você pratica atividade física?
( ) Nunca
( ) 1 a 2 vezes por semana
( ) 3 ou mais vezes por semana
Você costuma se expor à poluição do ar ou fumaça (ex: trânsito, queimada, fumaça de cigarro)?
( ) Sim, frequentemente
( ) Às vezes
( ) Raramente
( ) Nunca
Você sente que o ar em Foz do Iguaçu é:
( ) Muito bom
( ) Bom
( ) Regular
( ) Ruim
( ) Muito ruim
Você mora próximo a áreas com queima de lixo, tráfego intenso ou fábricas?
( ) Sim
( ) Não
Seu ambiente residencial é bem ventilado?
( ) Sim
( ) Não
Você ou alguém da sua casa costuma usar incenso, velas ou fumaça para fins religiosos ou aromáticos frequentemente?
( ) Sim
( ) Não
Você trabalha com queima de materiais como carvão, plástico, borracha, ou passa grande parte do dia expostos a esses materiais?
( ) Sim
( ) Não
Na sua casa, qual tipo de fogão você usa?
( ) A gás
( ) A lenha
Você já realizou algum exame de função pulmonar (espirometria)?
( ) Sim
( ) Não
Como você avalia sua saúde pulmonar atualmente?
( ) Muito boa
( ) Boa
( ) Regular
( ) Ruim
( ) Muito ruim
Já deixou de frequentar aulas ou atividades por sintomas respiratórios?
( ) Sim
( ) Não
