AVANÇOS NA SUPERFÍCIE DE IMPLANTES DENTÁRIOS DE TITÂNIO E SUA INFLUÊNCIA NA OSSEOINTEGRAÇÃO: UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511142135


Daylane Da Silva Cezario
Sorlandina Marques Fortes
Victória Rocha Pinto
Orientadora: Márcia Regina Lima de Souza


RESUMO

A implantodontia tem se consolidado como uma das áreas mais inovadoras da odontologia, proporcionando soluções eficazes para a reabilitação oral. O sucesso clínico dos implantes dentários está diretamente relacionado à osseointegração, processo influenciado pelas características do material e, principalmente, pela superfície do implante. Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com o objetivo de analisar os avanços nas superfícies de implantes dentários e seu impacto na osseointegração. A busca bibliográfica foi realizada nas bases Google Acadêmico e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), considerando publicações de 2021 a 2025. Foram selecionados 10 artigos que abordavam diretamente a temática. Os resultados evidenciaram que superfícies tratadas, especialmente aquelas revestidas com hidroxiapatita, apresentam maior bioatividade, favorecendo a adesão celular, a mineralização óssea e a estabilidade primária do implante. No entanto, observou-se que fatores como padronização da rugosidade, qualidade óssea do paciente e condições sistêmicas interferem na previsibilidade clínica. Conclui-se que a evolução tecnológica no tratamento das superfícies tem potencial para otimizar a osseointegração, embora ainda sejam necessárias pesquisas mais rigorosas e padronizadas para consolidar essas evidências e guiar a prática clínica.

Palavras-chave: Implantes dentários; Hidroxiapatita; Osseointegração; Biocompatibilidade. 

INTRODUÇÃO

     A implantodontia consolidou-se como uma das áreas de maior avanço na odontologia moderna, possibilitando soluções eficazes e duradouras para a reabilitação oral. A crescente demanda por tratamentos que promovam estética, função mastigatória e qualidade de vida tem incentivado a busca por aperfeiçoamentos constantes nos implantes dentários, principalmente no que se refere ao processo de osseointegração. Esse processo é fundamental para garantir a estabilidade e a longevidade clínica dos implantes, sendo diretamente influenciado pelas características de sua superfície. (Ferreira, et al. 2023). 

    Desde a introdução do conceito de osseointegração por Brånemark na década de 1960, a odontologia passou a contar com uma base científica sólida para o desenvolvimento da implantodontia. A constatação de que o titânio poderia estabelecer uma conexão íntima e duradoura com o tecido ósseo marcou uma revolução, permitindo avanços clínicos significativos. Entretanto, a evolução não estagnou, pois a ciência passou a investigar formas de potencializar ainda mais a interação entre o implante e o osso receptor. (Elias, C. N.; Galiza, J. A, 2025).

     Com o progresso da bioengenharia e das técnicas de fabricação, surgiram diferentes métodos de modificação superficial dos implantes. O jateamento, o ataque ácido, a anodização, o uso de laser e a deposição de biomateriais representam algumas das estratégias que vêm sendo estudadas e aplicadas.            Essas alterações promovem modificações físico-químicas e topográficas, capazes de influenciar a adesão celular, a atividade osteoclástica e a formação óssea ao redor do implante. (Coelho, 2022, p.5).

     A relevância desses avanços se explica pelo impacto direto na prática clínica. Pacientes com diferentes condições sistêmicas, baixa qualidade óssea ou necessidades específicas de reabilitação podem se beneficiar de superfícies otimizadas, que aceleram o processo de cicatrização e aumentam as taxas de sucesso dos tratamentos. Além disso, reduzir o tempo de espera entre a instalação do implante e sua carga funcional é um desafio importante que tem sido enfrentado com essas novas tecnologias. (Gomes, 2023).

      A problemática que norteia este estudo pode ser sintetizada na seguinte questão: de que forma os avanços nas superfícies dos implantes dentários impactam o processo de osseointegração e contribuem para o sucesso clínico a longo prazo.

     Essa indagação reflete a necessidade de avaliar criticamente a literatura disponível, considerando tanto os benefícios relatados quanto os limites ainda existentes no campo da implantodontia.

     Face exposto, este artigo tem como objetivo revisar a literatura científica sobre os avanços em superfícies de implantes dentários e sua influência na osseointegração, Pretende-se, assim, identificar as principais técnicas de modificação utilizadas, compreender seus mecanismos de ação biológica e discutir os resultados obtidos em diferentes contextos clínicos.

MATERIAL E MÉTODOS 

     Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, com o objetivo de analisar os avanços nas superfícies de implantes dentários e sua influência no processo de osseointegração. A revisão integrativa é uma metodologia que possibilita reunir, sintetizar e interpretar resultados de pesquisas previamente publicadas, favorecendo uma compreensão ampla da temática e fornecendo suporte para práticas clínicas fundamentadas em evidências científicas (Creswell, 2014).      A coleta de dados foi realizada a partir da busca das palavras-chave, com critério temporal e no Google Acadêmico e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), contemplando publicações disponíveis entre os anos de 2021 e 2025, de modo a garantir a atualidade dos conhecimentos. Para a busca, foram utilizados os seguintes descritores: Implantes dentários; Hidroxiapatita; Osseointegração; Biocompatibilidade.

Após a aplicação dos critérios de inclusão – relevância, qualidade metodológica e pertinência ao objeto de estudo – três artigos foram selecionados para análise detalhada. A seleção contemplou tanto pesquisas experimentais quanto revisões sistemáticas, a fim de proporcionar um panorama consistente sobre as técnicas de modificação de superfície e seus impactos clínicos. Foram excluídos estudos duplicados, publicações sem texto completo disponível, artigos que não apresentavam relação direta com superfícies de implantes dentários ou com o processo de osseointegração, bem como trabalhos de baixa qualidade metodológica, como relatos de caso isolados, resumos de congressos e materiais sem revisão por pares.

     A análise dos artigos selecionados foi conduzida a partir da leitura crítica e da sistematização dos resultados, com enfoque nas principais tecnologias de tratamento superficial, nas evidências de sua eficácia e nos desafios ainda existentes quanto à previsibilidade clínica da osseointegração em diferentes contextos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Os implantes de titânio têm sido amplamente utilizados na odontologia e na ortopedia devido à sua biocompatibilidade e resistência mecânica. Contudo, nos últimos anos, o foco das pesquisas e do mercado tem se voltado para o aperfeiçoamento das superfícies desses implantes, com o objetivo de potencializar a osseointegração e acelerar o processo de cicatrização óssea. 

Diversos tipos de modificações superficiais têm sido desenvolvidos como tratamentos químicos, físicos e por jateamento cada um, prometendo melhorar a adesão celular e a integração do implante ao tecido ósseo. Entretanto, surge a discussão sobre até que ponto essas alterações realmente oferecem benefícios comprovados cientificamente, ou se parte dessas inovações representa apenas estratégias de marketing para aumentar o valor comercial dos produtos.

 Dessa forma, é fundamental analisar criticamente os diferentes tipos de superfícies existentes no mercado e avaliar, com base em evidências, se as mudanças aplicadas ao titânio contribuem de fato para uma melhor cicatrização óssea ou se carecem de respaldo técnico e científico. Neste sentido, abaixo faremos uma breve discussão sobre a temática baseada em artigos. 

O primeiro artigo de Heck et al., 2024, reportam que o uso de implantes dentários de titânio revolucionou a odontologia ao proporcionar uma solução duradoura para a reabilitação oral, graças às suas propriedades mecânicas e biocompatibilidade. No entanto, sua superfície nativa nem sempre garante a osseointegração ideal, definida como a ligação direta entre o osso e o implante sem tecido fibroso.  Para superar essa limitação, surgiram diversas técnicas de modificação, entre elas o revestimento com hidroxiapatita (HA), amplamente estudado por sua semelhança química com a matriz óssea natural. Assim como o artigo de (Pepla et al., 2014; Amaechi et al., 2019) apresentado destaca de forma abrangente o potencial da nanohidroxiapatita (nHA) na odontologia moderna, enfatizando suas vantagens estruturais e funcionais em comparação à hidroxiapatita convencional (HA). A composição altamente mineralizada do esmalte e a natureza parcialmente orgânica da dentina justificam o interesse em biomateriais capazes de reproduzir a composição química e morfológica desses tecidos, e a nHA surge como uma alternativa promissora nesse contexto (Pepla et al., 2014; Amaechi et al., 2019).

A hidroxiapatita (HA), um fosfato de cálcio cristalino, atua como um material bioativo capaz de interagir com proteínas plasmáticas e células osteoprogenitoras, estimulando a adesão, proliferação e diferenciação celular. Esses efeitos promovem a formação precoce de tecido ósseo ao redor do implante, acelerando a osseointegração e potencialmente melhorando a estabilidade primária e secundária do dispositivo. Além disso, estudos indicam que a hidroxiapatita pode aumentar a absorção de proteínas essenciais do plasma sanguíneo, criando um microambiente favorável à mineralização óssea. (Heck et al. 2024). Os resultados da revisão de literatura sobre os tratamentos de superfície em implantes dentários evidenciam avanços significativos na busca por uma osseointegração mais rápida, estável e previsível.

 Observou-se que a rugosidade e a hidrofilicidade da superfície dos implantes são fatores determinantes para o sucesso da integração entre o implante e o tecido ósseo, uma vez que favorecem a adesão celular, a formação da matriz óssea e o contato direto osso-implante (Bottino et al., 2002; Wennerberg e Albrektsson, 2009). Diversos tipos de tratamentos — como jateamento, ataque ácido, anodização, plasma spray e modificações a laser — foram analisados, cada um apresentando características e resultados específicos (Coelho e Jimbo, 2014).

Os implantes com superfícies tratadas por jateamento seguido de ataque ácido (SLA e SLActive) demonstraram resultados clínicos superiores, especialmente em pacientes com baixa qualidade óssea, devido à sua maior capacidade de promover uma osseointegração precoce (Rupp et al., 2014). 

Da mesma forma, as superfícies modificadas quimicamente e nanotexturizadas mostraram maior potencial para acelerar a adesão celular e aumentar o torque de remoção, o que indica uma fixação mais resistente (Granato et al., 2020). Em contrapartida, os implantes com superfície lisa, embora ainda apresentem bons resultados em condições ósseas favoráveis, mostraram desempenho inferior em relação à taxa e à qualidade da formação óssea (Albrektsson e Wennerberg, 2004).

Outro resultado relevante é a constatação de que os tratamentos de superfície baseados em tecnologias biomiméticas, com deposição de fosfato de cálcio ou hidroxiapatita, favorecem uma integração mais próxima da fisiologia natural do osso, aumentando a biocompatibilidade e a osteocondutividade (Osman et al., 2015). No entanto, apesar do progresso tecnológico e da variedade de métodos disponíveis, a literatura científica ainda não apresenta consenso sobre qual seria o melhor tipo de tratamento de superfície, visto que os resultados podem variar conforme o tipo de osso, a condição clínica do paciente e as técnicas cirúrgicas empregadas (Lima et al., 2021; Pigozzo et al., 2022).

De modo geral, conclui-se que os tratamentos de superfície em implantes dentários aprimoram significativamente o processo de osseointegração, reduzindo o tempo de cicatrização, permitindo o carregamento precoce dos implantes e aumentando o conforto do paciente (Coelho e Jimbo, 2014). Contudo, é essencial considerar que o sucesso clínico não depende exclusivamente da modificação superficial, mas também de fatores como a estabilidade primária, a densidade óssea e a técnica cirúrgica utilizada (Wennerberg e Albrektsson, 2009; Lima et al., 2021).

Complementando a discussão do primeiro artigo, este segundo trabalho, O artigo de Moreschi (2022) reforça a importância da hidroxiapatita (HA) como o biomaterial mais utilizado no revestimento de implantes dentários, destacando seu papel essencial no processo de osseointegração. A HA, por ser quimicamente semelhante à matriz mineral do osso humano, apresenta excelente biocompatibilidade, bioatividade e capacidade osteocondutiva, promovendo adesão e proliferação de osteoblastos, o que acelera a formação de tecido ósseo ao redor do implante. Essa característica faz com que o revestimento com HA crie uma interface mais favorável entre o implante e o osso, reduzindo o tempo de cicatrização e aumentando a estabilidade inicial do implante.

Além disso, o artigo destaca que a hidroxiapatita favorece a absorção de proteínas plasmáticas e o recrutamento celular, fatores fundamentais para o início da regeneração óssea. Tais propriedades tornam a HA não apenas um material eficiente na implantodontia, mas também um biomaterial de relevância translacional, com potencial para aplicação em outras áreas médicas, como na ortopedia, em substituições ósseas e revestimentos de próteses metálicas. Assim, a versatilidade da HA evidencia seu papel central no avanço dos biomateriais aplicados à regeneração tecidual (Moreschi, 2022).

Contudo, o artigo também aponta que, embora a hidroxiapatita seja amplamente utilizada, ainda há limitações quanto à padronização dos métodos de revestimento e à durabilidade dessa camada bioativa a longo prazo. Em alguns casos, o descolamento do revestimento ou sua degradação precoce pode comprometer a estabilidade do implante. Outro ponto é que a HA não é discutida em comparação direta com outros tratamentos de superfície, como o titânio texturizado, biocerâmicas híbridas ou nanotecnológicas, o que limita uma avaliação mais abrangente das opções disponíveis (Moreschi, 2022).

De forma geral, o estudo de Moreschi (2022) contribui para consolidar a hidroxiapatita como um dos biomateriais mais promissores e eficazes para o revestimento de implantes dentários. Sua biocompatibilidade, capacidade de estimular a regeneração óssea e semelhança química com o osso humano sustentam sua relevância científica e clínica. Entretanto, o artigo também evidencia a necessidade de estudos comparativos e de longo prazo que avaliem a resistência, durabilidade e efetividade clínica da HA em diferentes contextos de reabilitação oral.

O terceiro artigo “Influência dos tratamentos de superfície em implantes dentários no processo de osseointegração” (Oliveira & Pereira, 2023), as superfícies modificadas quimicamente e nanotexturizadas vêm demonstrando resultados promissores na literatura recente, especialmente no que se refere à aceleração da cicatrização óssea e à estabilidade inicial dos implantes (Rupp et al., 2014; Oliveira e Pereira, 2023). O estudo de Heck et al. (2024) destaca que a modificação da superfície dos implantes de titânio com revestimentos bioativos, como a hidroxiapatita (HA) e a nanohidroxiapatita (nHA), que tem como objetivo principal otimizar o processo de osseointegração, favorecendo a adesão de proteínas plasmáticas e células osteoprogenitoras, o que resulta em maior velocidade de formação óssea e estabilidade mecânica precoce.

Comparando com Oliveira e Pereira (2023), nota-se que ambos os estudos reconhecem a importância dos tratamentos de superfície na melhoria da osseointegração; contudo, enquanto Heck et al. (2024) enfatizam a composição química e a bioatividade dos revestimentos, Oliveira e Pereira (2023) aprofundam-se na influência da topografia e da rugosidade superficial sobre o comportamento celular. Estes últimos autores destacam que modificações macro, micro e nanotexturizadas aumentam significativamente a captação de proteínas e a fixação do coágulo, elementos cruciais para a adesão celular e o início do processo de regeneração óssea.

Heck et al. (2024) ressaltam que a hidroxiapatita e sua forma nano estruturada, e apresentam excelente compatibilidade com os tecidos duros, simulando a composição mineral do osso e criando um ambiente propício à diferenciação osteoblástica.  Por outro lado, Oliveira e Pereira (2023) observam que o sucesso da osseointegração não depende apenas da composição do material, mas também da morfologia superficial e da energia de superfície, que afetam diretamente a molhabilidade e a adesão celular. Dessa forma, enquanto o estudo de Heck et al. (2024) foca em biomateriais de natureza bioativa, o de Oliveira e Pereira (2023) apresenta uma visão mais ampla e multifatorial, considerando os efeitos combinados entre tratamentos físicos, químicos e topográficos sobre o desempenho clínico dos implantes.

Outra diferença relevante entre os dois estudos está na abordagem metodológica. Heck et al. (2024) realizam uma análise mais voltada à biocompatibilidade e aos avanços tecnológicos dos revestimentos, enquanto Oliveira e Pereira (2023) apresentam uma revisão narrativa que integra resultados clínicos e laboratoriais, destacando a importância de alinhar inovação científica com viabilidade clínica e custo-benefício. Ambos, contudo, concordam que a modificação de superfície é uma ferramenta essencial para reduzir o tempo de cicatrização e aumentar a previsibilidade dos resultados na reabilitação oral.

Em síntese, os artigos de Heck et al. (2024) e Oliveira e Pereira (2023) convergem ao indicar que os tratamentos de superfície em implantes dentários representam um avanço fundamental na odontologia contemporânea. Todavia, Heck et al. (2024) priorizam a eficácia biológica dos biomateriais como a nanohidroxiapatita, enquanto Oliveira e Pereira (2023) ressaltam a relevância estrutural das texturas e das modificações topográficas. A integração dos resultados de ambos o trabalho demonstra que o futuro dos implantes dentários depende da combinação equilibrada entre bioatividade química e engenharia de superfície, visando uma osseointegração mais rápida, estável e duradoura.

Ao comparar os resultados apresentados por Oliveira e Pereira (2023) com os achados de Oliscovicz et al. (2016) e demais autores, observa-se que ambos os estudos convergem na ideia de que a modificação da superfície dos implantes dentários é um fator decisivo para o sucesso da osseointegração. Contudo, enquanto Oliveira e Pereira (2023) realizam uma análise geral das superfícies tratadas — englobando macro, micro, nano e biomiméticas —, os autores supracitados aprofundam-se especificamente nas superfícies macrotexturizadas, discutindo os processos de fabricação, os materiais empregados e seus impactos na resposta óssea.

As macrotexturas, segundo Oliscovicz et al. (2016) e Silva et al. (2016), englobam principalmente o desenho das roscas do implante (quadradas, triangulares ou trapezoidais), sua geometria tridimensional (cilíndrica ou cônica) e as tecnologias de retenção desenvolvidas para otimizar a estabilidade inicial. Esse tipo de superfície visa não apenas o encaixe mecânico, mas também a criação de espaços ósseos volumosos que favorecem a deposição mineral e o crescimento ósseo ao redor do implante. Tal abordagem complementa os achados de Oliveira e Pereira (2023), que ressaltam a importância das modificações físicas para aumentar a área de contato e a firmeza primária entre o osso e o implante.

Enquanto Oliveira e Pereira (2023) destacam os benefícios das superfícies micro e nanotexturizadas por sua capacidade de promover uma interação celular mais eficiente, os estudos sobre macro texturização enfatizam os métodos de jateamento e aspersão por plasma como estratégias fundamentais para criar rugosidades controladas (Pilliar et al., 1998; Cordioli et al., 2000). Essas técnicas alteram a topografia em escala micrométrica, o que melhora a ancoragem mecânica inicial do implante e estimula a diferenciação dos osteoblastos — efeito também descrito por Guéhennec et al. (2007).

Outro ponto de intersecção entre os estudos é o papel dos materiais utilizados no processo de modificação. Oliveira e Pereira (2023) descrevem que as superfícies tratadas com titânio e hidroxiapatita apresentam vantagens significativas em termos de bioatividade e estabilidade biomecânica, enquanto Oliscovicz et al. (2016) e Naves et al. (2015) detalham os processos de spray de plasma de titânio (SPT) e spray de plasma de hidroxiapatita (SPH), que produzem camadas rugosas capazes de intensificar a interação osso/implante. Entretanto, o SPT foi gradualmente abandonado devido ao risco de contaminação bacteriana em superfícies com rugosidade excessiva (Brandão, 2010), o que reforça a necessidade de equilíbrio entre rugosidade e biocompatibilidade — tema igualmente discutido por Oliveira e Pereira (2023).

Adicionalmente, a macrotexturização por laser, citada por Traini et al. (2008) e Berardi et al. (2011), representa um avanço tecnológico importante, pois permite a criação de rugosidades padronizadas e controladas, com menor risco de contaminação e excelente reprodutibilidade. Essa técnica, segundo os autores, oferece precisão tridimensional e reduz a necessidade de tratamentos subsequentes, além de permitir o controle sobre a angulação e profundidade das ranhuras — aspectos que se alinham à tendência de engenharia de superfície de alta performance mencionada por Oliveira e Pereira (2023).

Portanto, ao comparar ambos os trabalhos, pode-se afirmar que Oliveira e Pereira (2023) fornecem uma visão global das modificações de superfície voltadas à osseointegração, enquanto os estudos sobre macrotexturização aprofundam os aspectos estruturais e tecnológicos dos processos físicos e químicos aplicados aos implantes. Juntos, esses trabalhos evidenciam que a eficácia dos implantes dentários depende de uma integração entre a macroengenharia de superfície, responsável pela estabilidade mecânica, e as micro e nanotexturas, voltadas à estimulação biológica e à adesão celular.

A pesquisa de Prior et al. (2023) amplia significativamente a discussão sobre o desenvolvimento de implantes dentários, ao introduzir a aplicação da nanotecnologia como estratégia de funcionalização de superfície, com o objetivo de aprimorar tanto a osteointegração quanto a resistência antimicrobiana. Essa abordagem representa uma evolução em relação aos métodos tradicionais de modificação superficial descritos por Oliscovicz et al. (2016) e Silva et al. (2016), que se concentram nas macrotexturizações físicas, como as roscas, geometrias e jateamentos. Enquanto essas técnicas visam aprimorar a estabilidade mecânica inicial do implante, o estudo de Prior et al. (2023) busca resultados biológicos mais específicos, como a interação celular aprimorada e a inibição da formação de biofilmes bacterianos, objetivos alcançados por meio de nanoestruturas e nanopartículas incorporadas à superfície do titânio.

Em contraste com os tratamentos de superfície convencionais — como o spray de plasma de titânio (SPT) e o spray de plasma de hidroxiapatita (SPH), citados por Cordioli et al. (2000) e Naves et al. (2015) —, que focam na rugosidade e na adesão óssea mecânica, Prior et al. (2023) evidenciam que o uso de nanotubos de dióxido de titânio (TiO₂) e nanopartículas metálicas, como óxido de zinco (ZnO), óxido de prata (AgO) e fluoreto de estrôncio (SrF₂), agrega funcionalidades biológicas adicionais. Essas modificações permitem não apenas a osteocondução e osteoindução mais rápidas, mas também criam uma barreira antibacteriana ativa na superfície do implante, reduzindo infecções pós-operatórias (hossain et al., 2022; huo et al., 2013; su et al., 2018, apud prior et al., 2023).

O estudo também demonstra que a anodização controlada do titânio, seguida por tratamento térmico, possibilita a formação de nanoestruturas altamente reprodutíveis, com controle de diâmetro e profundidade, semelhante à precisão obtida com o processamento a laser descrito por traini et al. (2008) e berardi et al. (2011). Contudo, enquanto os autores das técnicas a laser visavam apenas melhorar a integridade estrutural e a padronização da rugosidade, prior et al. (2023) utilizam a nanoengenharia da superfície para adicionar novas propriedades físico-químicas e farmacológicas, capazes de influenciar diretamente os mecanismos de proliferação celular e regeneração óssea.

Outro ponto relevante é que, embora oliveira e pereira (2023) já tivessem abordado o potencial das superfícies tratadas para intensificar a resposta biológica, sua revisão ainda se mantém em nível macro e microestrutura. Já prior et al. (2023) avançam ao investigar o nível nanométrico, destacando que as superfícies funcionalizadas não se limitam a aumentar a rugosidade, mas também modificam a energia de superfície e a molhabilidade, favorecendo a adesão e diferenciação dos osteoblastos. Essa observação é corroborada pelos resultados de guéhennec et al. (2007), que associam a rugosidade e a energia superficial ao aumento da fixação celular e à aceleração da osseointegração.

Enquanto as técnicas macrotexturizadas discutidas por oliscovicz et al. (2016) e silva et al. (2016) ainda apresentam limitações quanto ao risco de contaminação bacteriana em superfícies muito rugosas (brandão, 2010), prior et al. (2023) propõem uma solução oposta: a criação de superfícies ativas, que não apenas evitam a adesão bacteriana, mas também promovem a morte microbiana direta, sem comprometer a biocompatibilidade. Essa característica confere aos implantes uma função terapêutica adicional, especialmente útil em pacientes com condições clínicas complexas, como diabetes, que apresentam dificuldades de cicatrização óssea.

Dessa forma, a comparação entre os estudos evidencia uma linha evolutiva clara: das superfícies macrotexturizadas voltadas à estabilidade mecânica (oliscovicz et al., 2016; cordioli et al., 2000) e à padronização estrutural (traini et al., 2008; berardi et al., 2011), para as superfícies nanotecnológicas funcionalizadas (prior et al., 2023), que integram simultaneamente propriedades mecânicas, biológicas e antimicrobianas. Essa convergência entre engenharia de materiais e biotecnologia redefine o conceito de osseointegração, que passa a ser entendido não apenas como ancoragem física, mas como interação bioativa e controlada entre o implante e o tecido ósseo hospedeiro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da revisão da literatura, constatou-se que os avanços nas superfícies de implantes dentários têm contribuído significativamente para o aprimoramento da osseointegração, tanto em nível macroestrutural quanto nanométrico. As técnicas de macrotexturização, como o jateamento, o spray de plasma e o processamento a laser, demonstraram eficácia em promover a fixação inicial do implante e criar condições favoráveis para a formação óssea (oliscovicz et al., 2016; cordioli et al., 2000; traini et al., 2008). No entanto, tais métodos ainda apresentam limitações relacionadas à contaminação bacteriana e à ausência de controle biológico direto sobre o microambiente ósseo (brandão, 2010).

Em contrapartida, as tecnologias nanotecnológicas e biofuncionalizadas representam um avanço substancial, ao integrar propriedades físico-químicas e biológicas à superfície do implante. Estudos recentes indicam que modificações em escala nanométrica, como a incorporação de nanotubos de dióxido de titânio (TiO₂) e nanopartículas metálicas de prata, zinco ou estrôncio, promovem não apenas a adesão e diferenciação dos osteoblastos, mas também um efeito antimicrobiano ativo, reduzindo complicações infecciosas e melhorando o prognóstico clínico (prior et al., 2023).

Dessa forma, os resultados permitem concluir que a evolução das superfícies de implantes dentários caminha em direção à integração entre engenharia de materiais e biotecnologia, possibilitando a criação de implantes mais inteligentes, capazes de interagir biologicamente com o tecido ósseo e de acelerar a regeneração óssea. 

Assim, o objetivo proposto neste artigo  identificar as principais técnicas de modificação, compreender seus mecanismos de ação e discutir seus resultados  foi plenamente alcançado, evidenciando que o futuro da implantodontia depende da continuidade das pesquisas em nanotecnologia aplicada aos biomateriais, com foco na segurança, durabilidade e bioatividade das superfícies implantáveis.

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