SAÚDE MENTAL DO POLICIAL MILITAR E SEUS REFLEXOS NA EFICIÊNCIA DO SERVIÇO OPERACIONAL: IMPLICAÇÕES PARA A POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO PARÁ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602121628


Carlos Alexandre Duarte das Neves1
Max Oliveira da Silva2


RESUMO

A atividade policial militar ocorre em contexto de elevada exposição a risco, violência e pressão decisória, fatores associados ao desgaste emocional dos profissionais. No âmbito da Polícia Militar do Estado do Pará (PMPA), essas condições assumem relevância estratégica por influenciarem a prontidão operacional e a qualidade das decisões em serviço. Este estudo tem como objetivo analisar a relação entre saúde mental e desempenho operacional do policial militar, considerando o equilíbrio psicológico como variável da eficiência institucional. Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e analítico, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica sistematizada, com análise de produções científicas publicadas entre 2010 e 2024 nas bases Google Acadêmico, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde. Os achados evidenciam que o estresse ocupacional crônico e o sofrimento psíquico interferem em funções cognitivas essenciais à atividade policial, como julgamento, controle emocional e tomada de decisão, impactando a segurança das ações e a qualidade do serviço prestado. Conclui-se que
a saúde mental constitui componente estratégico da eficiência operacional e da sustentabilidade institucional da atividade policial.

Palavras-chave: saúde mental; policial militar; estresse ocupacional; eficiência operacional; segurança pública.

ABSTRACT:

Military police work takes place in a context of high exposure to risk, violence, and decisionmaking pressure, factors associated with emotional strain among professionals. Within the scope of the Military Police of the State of Pará (PMPA), these conditions gain strategic relevance as they influence operational readiness and the quality of decisions made in service. This study aims to analyze the relationship between mental health and operational performance of military police officers, considering psychological balance as a variable of institutional efficiency. This is a qualitative study with a descriptive and analytical approach, conducted through a systematized bibliographic review of scientific publications from 2010 to 2024, retrieved from Google Scholar, SciELO, and the Virtual Health Library databases. The findings indicate that chronic occupational stress and psychological distress interfere with cognitive functions essential to police work, such as judgment, emotional regulation, and decision-making, impacting operational safety and service quality. It is concluded that mental health constitutes a strategic component of operational efficiency and institutional sustainability in police activity.

Keywords: mental health; military police officer; occupational stress; operational efficiency;
public security.

1 INTRODUÇÃO

A atividade policial militar insere seus profissionais em um contexto ocupacional marcado por exposição contínua a riscos físicos, elevada pressão decisória, contato frequente com a violência e intensa cobrança social por respostas rápidas e eficazes. Diferentemente de outras profissões, o policial atua em cenários de imprevisibilidade, nos quais a preservação da ordem pública e da vida de terceiros frequentemente se sobrepõe às próprias condições emocionais do agente. Nesse cenário, a saúde mental deixa de ser apenas questão individual e passa a constituir variável relacionada à qualidade do serviço prestado e à eficiência
institucional.

Estudos na área da saúde do trabalhador indicam maior incidência de adoecimento psíquico em profissões com elevada carga de estresse, especialmente quando associadas à violência, jornadas extensas e ausência de suporte institucional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011). Na segurança pública, esse quadro é agravado por uma cultura organizacional que valoriza a resistência emocional como atributo profissional, muitas vezes
em detrimento do reconhecimento de fragilidades psicológicas, favorecendo a subnotificação do sofrimento psíquico e a dificuldade de busca por apoio (DEJOURS, 1992; VIOLANTI et al., 2017).

O desgaste emocional contínuo pode resultar em ansiedade, depressão, transtornos relacionados ao estresse e esgotamento profissional (burnout), comprometendo julgamento, tomada de decisão e equilíbrio comportamental (MASLACH; JACKSON, 1981; WHO, 2019). Considerando que o serviço policial exige respostas técnicas sob elevada tensão, tais impactos assumem relevância estratégica, pois decisões inadequadas podem gerar consequências operacionais, jurídicas e sociais.

Embora o discurso institucional reconheça a complexidade da função policial, observa-se lacuna histórica na consolidação de políticas estruturadas de cuidado psicossocial contínuo. Os impactos das atividades policiais na saúde física e mental ainda não recebem a mesma prioridade que o treinamento técnico-operacional, evidenciando assimetria entre preparo para o enfrentamento externo e suporte para o enfrentamento interno das pressões do trabalho (MINAYO et al., 2011).

Diante desse contexto, o estudo parte do seguinte problema de pesquisa: de que maneira as condições de saúde mental do policial militar influenciam a eficiência do serviço operacional e a missão institucional de defesa social, especialmente na Polícia Militar do Estado do Pará (PMPA)? A investigação justifica-se pela relevância do tema para o planejamento estratégico das corporações, contribuindo para a reflexão sobre práticas de prevenção, acompanhamento psicossocial e políticas internas voltadas à sustentabilidade humana da atividade policial.

Embora a temática possua abrangência nacional, a análise é direcionada ao contexto da PMPA, considerando especificidades operacionais, dinâmica do policiamento ostensivo e desafios estruturais da corporação. A proposta busca alinhar saúde mental, desempenho operacional e eficiência institucional no âmbito da defesa social estadual.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A saúde mental, no campo da saúde do trabalhador, refere-se ao equilíbrio psicológico, à capacidade de adaptação ao estresse e à preservação das funções cognitivas e emocionais necessárias ao desempenho laboral (WHO, 2019). No contexto policial, essa condição assume maior complexidade, pois o estado psíquico do agente influencia decisões com impacto direto na segurança coletiva e na qualidade do serviço prestado.
A análise da saúde mental do policial militar, portanto, exige abordagem integrada que considere fatores individuais, organizacionais e sociais envolvidos na produção do adoecimento ou na manutenção do bem-estar ocupacional, conforme abordagens contemporâneas da saúde do trabalhador (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011).

2.1 A ATIVIDADE POLICIAL MILITAR COMO PROFISSÃO DE RISCO PSICOSSOCIAL

O trabalho policial é reconhecido como uma das ocupações com maior exposição a estressores crônicos, incluindo risco de morte, enfrentamento da violência, pressão social e elevada responsabilidade decisória sob condições adversas. Essas características inserem o policial militar em ambiente de alta demanda emocional, no qual a vigilância constante e o estado de alerta permanente integram a rotina profissional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017).

Os impactos dessas atividades na saúde física e mental revelam desgaste progressivo, relacionado não apenas às ocorrências violentas, mas também às condições organizacionais de trabalho, como jornadas extensas, insuficiência de recursos e limitações estruturais (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011).

A Organização Mundial da Saúde define qualidade de vida como a percepção do indivíduo sobre sua posição na vida, considerando contexto cultural, objetivos e expectativas pessoais (OMS, 2001; WHO, 2019). No contexto policial, essa noção evidencia o desequilíbrio entre exigências profissionais e condições de bem-estar, sobretudo diante da sobrecarga emocional e da escassez de políticas institucionais de cuidado contínuo.

Estudos em saúde ocupacional indicam que a qualidade de vida no trabalho está associada ao desempenho organizacional, especialmente em atividades de alta complexidade e risco, como a segurança pública, reforçando que a saúde do profissional constitui elemento funcional da eficiência institucional (WHO, 2019; DEJOURS, 1992).

2.2 SOFRIMENTO PSÍQUICO E ADOECIMENTO MENTAL NA SEGURANÇA PÚBLICA

O sofrimento psíquico entre policiais militares tende a ser invisibilizado por uma cultura organizacional que associa manifestações de fragilidade emocional à falta de preparo profissional, favorecendo o silenciamento de sintomas de ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao estresse (DEJOURS, 1992; VIOLANTI et al., 2017). Essa lógica naturaliza o sofrimento e transforma o adoecimento em fenômeno silencioso, cujos efeitos emergem
tardiamente por meio de afastamentos, conflitos interpessoais e comprometimento do desempenho profissional.

Estudos em saúde ocupacional na segurança pública indicam que o adoecimento psíquico relaciona-se não apenas à exposição a situações traumáticas, mas também a fatores organizacionais, como pressão hierárquica, déficit de reconhecimento profissional e desequilíbrio entre vida pessoal e trabalho, ampliando a vulnerabilidade emocional dos agentes (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; WHO, 2019). Assim, o desgaste psicológico não decorre exclusivamente da atividade-fim, mas também das dinâmicas institucionais.

Observa-se, portanto, contradição entre a expectativa de controle emocional permanente e a ausência de mecanismos estruturados de suporte psicológico contínuo, reforçando a necessidade de políticas institucionais que integrem a saúde mental ao planejamento estratégico das organizações policiais (VIOLANTI et al., 2017).

2.3 SAÚDE MENTAL E TOMADA DE DECISÃO NO SERVIÇO OPERACIONAL

A atividade policial envolve decisões rápidas sob alta pressão, nas quais fatores emocionais interferem diretamente na avaliação de riscos e na escolha de condutas. Pesquisas sobre estresse ocupacional indicam que o esgotamento mental compromete funções cognitivas, como atenção, memória de trabalho e julgamento, aumentando a probabilidade de respostas impulsivas ou inadequadas (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017). O desgaste psíquico, portanto, configura variável operacional.

O impacto das atividades policiais na saúde mental repercute na forma como os profissionais lidam com conflitos e situações de crise. Associados à ansiedade e à exaustão, esses fatores podem reduzir a capacidade de autocontrole e ampliar reações emocionais, resultando em uso inadequado da força, falhas de comunicação ou decisões precipitadas — fenômenos também descritos em estudos internacionais sobre estresse policial (MINAYO et al., 2011; VIOLANTI et al., 2017; WHO, 2019).

A eficiência do serviço policial relaciona-se não apenas ao domínio técnico, mas também ao equilíbrio emocional do agente. A ausência de cuidado sistemático com a saúde mental pode impactar a legitimidade institucional, uma vez que o desempenho profissional influencia a percepção social sobre a atuação policial (DEJOURS, 1992; WHO, 2019).

2.4 A SAÚDE MENTAL COMO COMPONENTE ESTRATÉGICO DA EFICIÊNCIA INSTITUCIONAL

A literatura em saúde ocupacional e segurança pública indica que o cuidado com o bem-estar psicológico dos agentes deve ser compreendido como investimento institucional, uma vez que a saúde mental influencia o desempenho profissional e a sustentabilidade organizacional (WHO, 2019; DEJOURS, 1992). No trabalho policial, a exposição contínua a estressores repercute não apenas no indivíduo, mas também no funcionamento da instituição, ao afetar a qualidade da atuação operacional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017).

Nesse contexto, a saúde mental assume caráter estratégico, pois interfere em índices de absenteísmo, afastamentos por licença médica, rotatividade e desempenho operacional. Sua negligência compromete a capacidade de resposta institucional e amplia a sobrecarga dos profissionais ativos, produzindo ciclo de desgaste progressivo descrito na literatura sobre estresse ocupacional e organização do trabalho (DEJOURS, 1992; WHO, 2019).

O fortalecimento de políticas de acompanhamento psicológico, programas de prevenção ao estresse e ações de valorização profissional não representa fragilização da estrutura policial, mas medida de sustentabilidade institucional. Assim, o cuidado com a saúde mental deve integrar o planejamento da defesa social como elemento estruturante da eficiência operacional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011).

2.5 CULTURA ORGANIZACIONAL POLICIAL E BARREIRAS AO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL

A cultura organizacional das instituições policiais valoriza atributos como resistência, controle emocional e prontidão permanente, associados à identidade profissional do policial militar. Esse modelo simbólico pode dificultar a busca por apoio psicológico, pois o reconhecimento do sofrimento mental ainda é interpretado, em muitos contextos, como sinal de fragilidade, favorecendo o silenciamento do adoecimento psíquico (DEJOURS, 1992; VIOLANTI et al., 2017).

Estudos em saúde do trabalhador indicam que culturas organizacionais baseadas na ideia de invulnerabilidade tendem a inibir a manifestação de sofrimento emocional, contribuindo para a cronificação de transtornos psíquicos e o agravamento do estresse ocupacional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; WHO, 2019).

No contexto policial, esse cenário amplia o risco de decisões tomadas sob desgaste emocional não reconhecido, afetando a segurança do agente, a qualidade da intervenção policial e a legitimidade institucional (VIOLANTI et al., 2017).

3 METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de abordagem descritiva e analítica, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica sistematizada, de natureza narrativa e interpretativa. Essa abordagem foi escolhida por possibilitar a análise crítica de produções científicas já consolidadas, favorecendo a compreensão de fenômenos complexos relacionados à saúde mental e ao desempenho ocupacional em contextos de segurança pública.

As buscas foram realizadas nas bases Google Acadêmico, SciELO (Scientific Electronic Library Online) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), selecionando publicações entre 2010 e 2024, por serem repositórios reconhecidos de literatura científica nacional e internacional. Utilizaram-se como descritores os termos “saúde mental”, “policial militar”, “estresse ocupacional”, “segurança pública” e “qualidade de vida no trabalho”, combinados por meio de operadores booleanos (AND/OR), de modo a ampliar a sensibilidade da busca e
garantir abrangência temática.

Foram analisados 35 artigos científicos, selecionados conforme critérios de inclusão: pertinência temática, revisão por pares e relação direta com saúde mental e segurança pública.

Excluíram-se textos opinativos sem fundamentação científica e publicações sem vínculo com o objeto de estudo. Autores clássicos da saúde do trabalhador e da psicodinâmica do trabalho foram utilizados como base conceitual, não compondo o recorte temporal da análise.

Os critérios de seleção incluíram publicações em língua portuguesa e inglesa, com enfoque em estudos que abordassem saúde mental, estresse ocupacional, qualidade de vida no trabalho e atividades relacionadas à segurança pública, priorizando artigos revisados por pares, livros acadêmicos e documentos técnicos de organismos reconhecidos. Foram excluídos materiais sem fundamentação científica, textos opinativos não referenciados e publicações que não apresentassem relação direta com o objeto de estudo.

Os dados extraídos foram organizados em categorias temáticas, fatores de risco psicossocial, manifestações de adoecimento mental, impactos no desempenho profissional e implicações institucionais, e analisados de forma interpretativa, estabelecendo-se relações entre saúde mental policial e eficiência do serviço operacional no contexto da Polícia Militar do Estado do Pará. Por se tratar de estudo bibliográfico, os resultados possuem caráter
analítico-interpretativo, não permitindo generalizações estatísticas.

Ressalta-se que, além das publicações do período delimitado (2010–2024), foram utilizados autores clássicos da área de saúde do trabalhador e psicodinâmica do trabalho, por constituírem referenciais teóricos estruturantes para a compreensão do estresse ocupacional, do burnout e do sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. Tais obras foram empregadas como base conceitual, não compondo o recorte temporal da análise empírica.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise das produções científicas evidenciou que a saúde mental do policial militar constitui variável estruturante do desempenho profissional e da eficiência do serviço de segurança pública.

Os estudos revisados convergem ao indicar que a exposição contínua a eventos potencialmente traumáticos, associada a fatores organizacionais como sobrecarga de trabalho, pressão hierárquica e responsabilidade decisória sob risco, favorece o desenvolvimento de estresse ocupacional crônico (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017).

Dados da literatura internacional apontam prevalência significativa de sintomas de ansiedade e depressão entre policiais, enquanto estudos nacionais registram índices relevantes de afastamento por transtornos psíquicos, evidenciando que o adoecimento mental configura variável estratégica para a eficiência operacional e a legitimidade institucional (WHO, 2019; MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011).

Os achados indicam que manifestações como ansiedade, distúrbios do sono, irritabilidade e dificuldades de concentração repercutem diretamente em funções cognitivas essenciais à atividade policial, como julgamento situacional, controle emocional e tomada de decisão sob pressão (VIOLANTI et al., 2017). Dessa forma, a saúde mental assume caráter funcional na atuação operacional.

A revisão também evidenciou que o desgaste psicológico compromete a qualidade da intervenção policial, favorecendo respostas impulsivas, falhas de comunicação e avaliação inadequada de riscos (DEJOURS, 1992; WHO, 2019). Conforme evidenciado nos estudos revisados, o adoecimento mental deixa de ser questão individual e passa a configurar problema institucional., com repercussões na segurança do agente, na qualidade do
atendimento à população e na legitimidade da corporação.

Outro resultado identificado refere-se ao ciclo de sobrecarga institucional: o afastamento de policiais por motivos psicológicos amplia a carga de trabalho dos profissionais ativos, elevando o risco de novos casos de desgaste psíquico. A literatura demonstra que a qualidade de vida no trabalho influencia a eficiência organizacional, indicando que a negligência ao cuidado com a saúde mental produz efeitos sistêmicos e cumulativos (WHO,
2019; DEJOURS, 1992).

Os estudos reforçam que a eficiência do policiamento não depende exclusivamente de preparo técnico-operacional, mas também de estabilidade emocional. A discussão dos achados evidencia contradição estrutural entre a exigência de elevado controle emocional e o investimento historicamente limitado em políticas estruturadas de acompanhamento psicológico contínuo. Essa lacuna aponta para a necessidade de reconhecer a saúde mental como elemento estratégico da gestão da segurança pública (WHO, 2019).

4.1 REPERCUSSÕES DO ESTRESSE OCUPACIONAL NA ATUAÇÃO POLICIAL

A literatura demonstra que a exposição contínua a situações de violência, risco de morte, pressão decisória e elevada cobrança social insere o policial militar em contexto ocupacional de exigência emocional permanente (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017). Ao longo da trajetória profissional, esses fatores acumulam-se e produzem desgaste psíquico progressivo, cujo impacto ultrapassa o campo clínico individual e
alcança o desempenho funcional. O sofrimento mental, frequentemente manifestado por ansiedade, distúrbios do sono, irritabilidade, dificuldades de concentração e sintomas depressivos, associa-se ao estresse ocupacional crônico e compromete funções cognitivas essenciais à atividade policial, como julgamento situacional, controle emocional e tomada de decisão sob pressão (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; WHO, 2019; VIOLANTI et al.,
2017).

4.2 IMPACTOS DO ADOECIMENTO MENTAL NA EFICIÊNCIA INSTITUCIONAL

A literatura em saúde do trabalhador indica que o sofrimento psíquico associado ao estresse ocupacional crônico compromete funções cognitivas como julgamento, atenção e regulação emocional, afetando o desempenho profissional (DEJOURS, 1992; MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; WHO, 2019). No contexto policial, em que decisões ocorrem sob pressão e risco, o desgaste psicológico eleva a probabilidade de respostas impulsivas, falhas
de comunicação e avaliação inadequada de riscos, com repercussões para a segurança da equipe e a legitimidade institucional (VIOLANTI et al., 2017). Sob a perspectiva organizacional, o adoecimento mental ultrapassa o âmbito individual e assume caráter sistêmico. O afastamento de profissionais por transtornos psíquicos intensifica a redistribuição de tarefas, amplia a sobrecarga das equipes ativas e alimenta um ciclo de desgaste progressivo, descrito na literatura sobre burnout e organização do trabalho (MASLACH; JACKSON, 1981; WHO, 2019). Esse cenário demonstra que a negligência ao cuidado com a saúde mental compromete a eficiência institucional, eleva custos indiretos e
afeta a sustentabilidade operacional da corporação (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011).

4.3 SAÚDE MENTAL, LEGITIMIDADE INSTITUCIONAL E RELAÇÃO COM A SOCIEDADE

Sob a perspectiva da defesa social, o desempenho policial ultrapassa a dimensão técnico-operacional, pois fatores emocionais interferem na gestão de conflitos e na qualidade da intervenção (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017). Miranda (2016) destaca que o equilíbrio psicológico do agente influencia a interpretação de situações de tensão, repercutindo na proporcionalidade do uso da força e na capacidade de diálogo em cenários de crise.

A atuação policial constitui elemento central na construção da imagem institucional perante a sociedade, sendo a conduta do agente determinante para a produção de legitimidade (MARCONDES; LAAT, 2021; TYLER, 2006). Nesse sentido, a saúde mental configura variável estratégica da eficiência do serviço, por impactar tanto a segurança operacional quanto a confiança social na instituição policial.

Os achados evidenciam uma contradição institucional recorrente: exige-se elevado controle emocional, mas persistem investimentos limitados em políticas estruturadas de acompanhamento psicológico contínuo (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; WHO, 2019).

Essa lacuna reforça a necessidade de mudança de paradigma, reconhecendo o cuidado com a saúde mental como componente da gestão estratégica da segurança pública.

4.4 APLICABILIDADE PRÁTICA PARA A POLÍCIA MILITAR

Evidências apontam que instituições que investem em programas de apoio psicossocial, prevenção ao estresse ocupacional e promoção da qualidade de vida no trabalho apresentam melhores indicadores de desempenho e menor índice de afastamentos (WHO, 2019; VIOLANTI et al., 2017). No campo da saúde do trabalhador, estudos clássicos já demonstravam que o esgotamento profissional decorre de condições organizacionais adversas
e da ausência de estratégias de proteção psicossocial (MASLACH; JACKSON, 1981; LAURELL; NORIEGA, 1989).

À luz dos achados discutidos, a implementação de núcleos permanentes de apoio psicológico, o acompanhamento periódico da saúde mental e programas educativos de manejo do estresse configuram estratégias preventivas de caráter institucional.

Tais ações contribuem para a preservação da capacidade decisória, para a redução do absenteísmo e para a melhoria do clima organizacional, refletindo diretamente na eficiência do serviço policial e na sustentabilidade humana da atividade operacional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; WHO, 2019).

À luz da literatura analisada, no âmbito da PMPA, recomenda-se a implementação de núcleos permanentes de apoio psicossocial, com acompanhamento periódico da saúde mental dos policiais. Programas educativos de manejo do estresse e treinamentos sobre tomada de decisão sob pressão devem ser incorporados ao planejamento estratégico da corporação. Essas medidas contribuem para reduzir afastamentos, melhorar o clima organizacional e fortalecer a capacidade de resposta da instituição em situações de crise.

4.5 IMPACTOS INSTITUCIONAIS E SOCIAIS DO ADOECIMENTO MENTAL POLICIAL

O adoecimento psíquico de policiais militares produz efeitos que ultrapassam a esfera individual, alcançando dimensões institucionais e sociais. No campo da saúde do trabalhador, o desgaste mental associa-se à redução da capacidade funcional, exaustão e diminuição do desempenho profissional (DEJOURS, 1992; LAURELL; NORIEGA, 1989).

Inserido no contexto policial, esse processo repercute na disponibilidade do efetivo, na sobrecarga das equipes ativas e na qualidade do policiamento ostensivo, conforme indicam estudos sobre saúde mental e atividade policial (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011; VIOLANTI et al., 2017).

O estresse crônico também se relaciona a maior irritabilidade, redução da tolerância à frustração e dificuldades de regulação emocional, fatores que podem intensificar conflitos nas interações com a população (DEJOURS, 1992; MIRANDA, 2016). Nesse sentido, a saúde mental do policial conecta-se à percepção social da corporação, uma vez que o comportamento do agente influencia a construção da legitimidade institucional
(MARCONDES; LAAT, 2021).

Assim, o cuidado psicossocial deixa de se restringir ao campo assistencial e passa a integrar a gestão estratégica da segurança pública, por seus impactos na eficiência operacional e na legitimidade institucional.

4.6 APLICABILIDADE PRÁTICA PARA A POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO PARÁ

À luz da literatura da saúde do trabalhador, a incorporação de políticas permanentes de acompanhamento psicossocial e programas de prevenção ao estresse ocupacional pode ser compreendida como estratégia de gestão institucional, uma vez que contribui para a redução do desgaste mental e para a preservação da capacidade funcional dos profissionais (DEJOURS, 1992; MASLACH; JACKSON, 1981).

No contexto da Polícia Militar do Estado do Pará, tais medidas apresentam potencial para reduzir afastamentos, favorecer maior estabilidade emocional e influenciar positivamente a qualidade das decisões operacionais, considerando a relação entre equilíbrio psicológico e desempenho profissional.

O investimento em saúde mental, nesse sentido, assume caráter preventivo e estratégico, ao fortalecer a sustentabilidade humana e operacional da corporação e ao contribuir para intervenções mais seguras, com reflexos na confiança social e na legitimidade institucional (MINAYO; ASSIS; OLIVEIRA, 2011).

CONCLUSÃO

O desenvolvimento deste estudo permitiu compreender que a saúde mental do policial militar constitui variável estratégica de eficiência do serviço operacional e do cumprimento da missão institucional de defesa social. A literatura evidenciou que a exposição contínua a situações de risco, violência e elevada pressão decisória configura ambiente de intenso desgaste emocional, favorecendo o estresse ocupacional crônico e comprometimentos psíquicos que interferem no desempenho profissional.

Observou-se também que a ausência de políticas estruturadas e contínuas de cuidado psicossocial contribui para ciclos de afastamento, sobrecarga de equipes e redução da capacidade operacional. Esse cenário evidencia que o investimento em saúde mental representa medida preventiva e estratégica para a gestão policial. O cuidado com o bem-estar psicológico do efetivo deve ser compreendido como parte integrante do planejamento institucional, pois fortalece a sustentabilidade humana da atividade policial e qualifica o
serviço prestado à sociedade.

Diante disso, conclui-se que a incorporação de programas permanentes de acompanhamento psicológico, ações de prevenção ao estresse ocupacional e políticas de valorização profissional não se opõe aos princípios de disciplina e hierarquia, mas contribui para decisões mais equilibradas, intervenções mais seguras e maior eficiência operacional.

Assim, a saúde mental do policial militar deve ser reconhecida como componente estruturante da gestão da segurança pública, essencial para a qualidade do serviço, a legitimidade institucional e a sustentabilidade da atividade policial.

Do ponto de vista teórico, o estudo amplia a compreensão da psicodinâmica do trabalho policial, evidenciando a saúde mental como variável estratégica da eficiência institucional. Na dimensão prática, os resultados indicam que a adoção de políticas permanentes de cuidado psicossocial pode reduzir índices de absenteísmo, melhorar a
qualidade das intervenções e fortalecer a legitimidade da PMPA perante a sociedade.

REFERÊNCIAS (ABNT)

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OLIVEIRA, K. L. D.; SANTOS, L. M. D. Percepção da saúde mental em policiais militares da força tática e de rua. Sociologias, v. 12, n. 25, p. 224-250, 2010. DOI: 10.1590/S1517-45222010000300009.

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