SAÚDE E MIGRAÇÃO INDÍGENA: A EXPERIÊNCIA DOS INDÍGENAS WARAO EM TERESINA (PI)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601221221


Lílian Gabriella Castelo Branco Alves de Sousa1
Amanda Machado Lima Carreiro2
Enzo Francisco Nogueira Macedo Mendes3
Gentil de Aquino Dantas Neto4
João Gabriel Ferro Lopes5
João Queiroz Serra e Sena6
Mateus Ghedini Dal Pupo7
Maria Lydia Nascimento Ribeiro8
Pedro Antonio Alcantara de Sousa9


Resumo 

Este artigo analisa a experiência dos indígenas Warao nos sistemas de saúde brasileiros, a partir do contexto de migração forçada e do acolhimento institucional na cidade de Teresina (PI). A discussão centra-se na forma como as práticas tradicionais de cura desse povo se relacionam com a medicina ocidental, evidenciando tensões interculturais, conflitos simbólicos e situações de violência institucional presentes no atendimento em saúde. A investigação adota uma abordagem qualitativa, sustentada por levantamento bibliográfico e por pesquisa de campo realizada entre outubro e novembro de 2025, nos abrigos Miguel Rosa e Poty Velho, utilizando entrevistas semiestruturadas e observação direta. A análise evidencia obstáculos recorrentes no acesso aos serviços de saúde, tais como discriminação institucional, deslegitimação dos saberes indígenas, precariedade estrutural dos espaços de acolhimento e fragilidades das políticas públicas interculturais. Além disso, demonstra-se que as condições ambientais insalubres, a incidência de doenças infecciosas e o consumo de álcool e outras drogas estão diretamente relacionados à violência estrutural, ao racismo institucional e aos processos de marginalização social vivenciados pelos Warao. O estudo ressalta a importância de práticas em saúde fundamentadas no diálogo intercultural, no reconhecimento da autonomia indígena e na garantia de acesso digno e integral ao cuidado em saúde.

Palavra-chave: Indígenas Warao. Saúde indígena. Migração forçada. Interculturalidade. Racismo institucional. 

Abstract 

This article examines the experience of the Warao Indigenous people within the Brazilian health care system, considering the context of forced migration and institutional reception in the city of Teresina, Piauí. The study discusses how traditional healing practices are articulated with Western medicine, highlighting intercultural tensions, symbolic conflicts, and forms of institutional violence present in health care services. The research adopts a qualitative approach, based on bibliographic review and fieldwork conducted between October and November 2025 in the Miguel Rosa and Poty Velho shelters, using semistructured interviews and direct observation. The analysis reveals recurring obstacles to access to health services, including institutional discrimination, the delegitimization of Indigenous knowledge, structural precariousness of reception spaces, and weaknesses in intercultural public policies. Furthermore, the study demonstrates that unhealthy environmental conditions, the prevalence of infectious diseases, and the use of alcohol and other drugs are closely linked to structural violence, institutional racism, and the social marginalization experienced by the Warao people. The findings highlight the need for intercultural health approaches that recognize Indigenous autonomy and ensure dignified and comprehensive access to health care. 

Keywords: Warao Indigenous people. Indigenous health. Forced migration. Interculturality. Institutional racism.

Introdução 

Desde a chegada dos Warao ao Brasil, sobretudo a partir de 2019, profundas transformações passaram a marcar seus modos de vida, suas formas de relação com o território urbano e o acesso aos sistemas de atenção à saúde. Apesar dessas mudanças, observa-se entre os mais velhos certas resistências à medicina ocidental, a qual não deve ser compreendida como ignorância ou recusa arbitrária, mas como resultado de experiências históricas e traumáticas acumuladas ao longo do processo migratório. Conforme relatam os próprios warao, o hospital é frequentemente associado à presença de “muita doença”, sendo percebido como um espaço inabitável, uma vez que muitos parentes internados retornavam apenas dentro de caixões. Essa associação simbólica entre hospital e morte precisa ser compreendida a partir do sistema cultural warao, o que dialoga diretamente com a perspectiva de Lévi-Strauss (1975), ao afirmar que cada sociedade constrói simbolicamente suas próprias categorias de doença, sofrimento e cura. 

Para além da resistência à biomedicina, identifica-se entre os warao a existência de um tempo próprio para a busca pelos serviços de saúde. A decisão de procurar o hospital ocorre, em geral, após a avaliação dos wiseratu, rezadores especializados responsáveis por distinguir se o adoecimento decorre de causas espirituais ou de feitiço (daño). Quando compreendem que a enfermidade não se insere no campo espiritual, autorizam a busca pelo atendimento biomédico. Essa lógica de circulação entre diferentes sistemas de cuidado pode ser compreendida à luz do conceito de “trânsitos terapêuticos”, proposto por Maluf et al. (2020), que descreve os percursos múltiplos e articulados pelos quais os sujeitos acessam distintos sistemas de cura sem que um substitua necessariamente o outro. 

Entretanto, mesmo quando recorrem aos serviços hospitalares, a experiência nem sempre se mostra positiva. Em muitos casos, os warao dependem da disposição individual dos profissionais de saúde, enfrentando recusas, atrasos ou encaminhamentos marcados por práticas discriminatórias, inclusive quando dominam a língua portuguesa. Durante as visitas realizadas nos abrigos Miguel Rosa e Poty Velho, por exemplo, um dos interlocutores relatou ter levado sua filha pequena ao hospital e recebido a orientação de que o atendimento só ocorreria caso estivesse acompanhado por um membro da equipe do abrigo. Situações como essa exemplificam o que Langdon (1994) denomina de violência simbólica institucional, caracterizada pela desqualificação dos saberes e práticas indígenas pelo sistema biomédico, que estabelece hierarquias de legitimidade entre diferentes modos de cuidar. 

Essa dinâmica de tensão entre o Estado e os povos indígenas também é analisada por Carmen Rial (2011), ao destacar que o campo da saúde indígena é atravessado por disputas entre controle institucional e autonomia cultural. Nessa mesma direção, Madeleine Leininger (1991), por meio da Teoria da Enfermagem Transcultural, ressalta que as intervenções em saúde precisam considerar os valores, crenças e práticas dos grupos atendidos, reconhecendo que os processos de adoecimento e cura são culturalmente mediados e não podem ser reduzidos a dimensões exclusivamente biológicas. 

Essa análise pode ser aprofundada a partir do conceito de habitus, desenvolvido por Pierre Bourdieu (1998), que permite compreender como as disposições incorporadas ao longo da vida, como as formas de interpretar o adoecimento, a autoridade atribuída aos wiseratu e o temor dos espaços hospitalares, orientam as práticas e percepções dos Warao. Quando esse habitus indígena se confronta com instituições biomédicas que não reconhecem suas lógicas próprias, produzem-se situações de desajuste, manifestadas em conflitos, silenciamentos e desigualdades no atendimento em saúde. 

Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo compreender como os warao articulam suas práticas tradicionais de cura com a medicina ocidental, analisar os obstáculos enfrentados no acesso aos serviços de saúde e discutir de que maneira cultura, estrutura institucional e desigualdades sociais se entrecruzam na produção dessas experiências. Metodologicamente, o estudo baseia-se em pesquisa bibliográfica, fundamentada em autores da antropologia, da sociologia da saúde e dos estudos interculturais, articulada à pesquisa de campo realizada com indígenas warao acolhidos nos abrigos Miguel Rosa e Poty Velho, no município de Teresina, entre os meses de outubro e novembro de 2025.  

A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, com o objetivo de apreender sentimentos, percepções e opiniões dos entrevistados acerca de suas vivências relacionadas ao cuidado em saúde. A escolha desses abrigos deu-se a partir do direcionamento da coordenação local, que indicou tais espaços em função de apresentarem melhores condições de insalubridade, o que possibilitou maior permanência e acesso aos interlocutores durante o trabalho de campo. 

O artigo está estruturado de modo a articular fundamentos teóricos da antropologia da saúde e dos estudos interculturais com a análise empírica da experiência dos warao no contexto do acolhimento institucional em Teresina. Após a contextualização inicial, o texto discute as tensões entre práticas tradicionais de cura e a medicina ocidental, examinando os obstáculos enfrentados no acesso aos serviços de saúde. Em seguida, são analisadas as condições de acolhimento nos abrigos e seus impactos sobre a saúde e o bem-estar da população warao. O artigo encerra-se com reflexões analíticas que sistematizam os principais achados e apontam desafios e possibilidades de enfrentamento das vulnerabilidades identificadas. 

Processos de cuidado, autonomia warao e violências simbólicas no sistema de saúde 

A realização dos objetivos propostos nesta produção exige compreender de forma integrada como os warao têm articulado suas práticas tradicionais de cura com a medicina ocidental e como essas articulações revelam tensões, desigualdades e violações no atendimento. Tal análise requer a aproximação das perspectivas antropológicas sobre sistemas médicos, das críticas sociológicas sobre poder institucional e das teorias interculturais sobre cuidado. 

De início, compreender como os warao se relacionam com o sistema biomédico implica reconhecer que essa população opera dentro de um campo plural de saberes terapêuticos. Como descreve Soraya Fleischer (2011), os itinerários de saúde dos povos indígenas não seguem uma linearidade, mas compõem “trânsitos terapêuticos”, em que sujeitos acionam curandeiros, rezadores, medicamentos industrializados e instituições biomédicas de modo complementar. Essa lógica corresponde exatamente à prática warao: o hospital só se torna opção quando os wiseratu avaliam que o adoecimento não possui origem espiritual ou como daño. Assim, a ida ao hospital não representa abandono de seu sistema, mas a continuidade de um circuito terapêutico diverso, coerente com sua cosmologia. 

Entretanto, mesmo quando buscam o hospital, enfrentam obstáculos estruturais e morais. As dificuldades de comunicação e a dependência da “boa vontade” dos profissionais revelam o que Bourdieu (1998) denomina violência simbólica: práticas institucionais que, sob aparência de neutralidade, deslegitimam saberes tradicionais e produzem desigualdade. O episódio vivido por Juan José, impedido de obter atendimento para a filha sem estar acompanhado de um técnico do abrigo, é exemplo claro de como o habitus institucional do sistema de saúde estabelece barreiras não previstas na legislação, mas operantes na prática cotidiana. 

Esses obstáculos se intensificam quando observamos os casos envolvendo as mulheres warao na antiga Maternidade Evangelina Rosa. Ao darem à luz, algumas delas foram alvo de denúncias elaboradas por assistentes sociais sob a alegação de que não queriam amamentar. Este tipo de intervenção evidencia o que Langdon (1994) identifica como “medicalização das condutas indígenas”, processo em que profissionais interpretam práticas culturais por códigos morais ocidentalizados, ignorando lógicas próprias de cuidado. 

Na perspectiva warao, a alimentação infantil é um aspecto central da vida familiar. As mães demonstram preocupação constante com o bem-estar e o crescimento dos bebês. Entretanto, muitos acreditam que o leite materno é insuficiente devido à quantidade e à coloração considerada “fraca”, o que as leva a introduzir precocemente fórmulas lácteas. A prática, embora comum entre várias famílias, foi interpretada por médicas como negligência. Em consulta presenciada pela pesquisadora enquanto atuava como técnica operacional do abrigo, uma médica afirmou: “querem se livrar da amamentação, mas tomar remédio para não engravidar não quer”. A frase expressa não apenas desconhecimento cultural, mas juízo moral, reforçando desigualdades de gênero, raça e classe. 

A crítica de Madeleine Leininger (1991) sobre a importância do cuidado cultural ganha aqui especial relevância. A autora afirma que práticas de cuidado só podem ser realmente eficazes quando fundamentadas na compreensão dos valores e crenças do grupo atendido. Ignorar tais valores é produzir etnocentrismo institucional e, consequentemente, sofrimento. Do mesmo modo, Carmen Rial (2011) observa que políticas públicas dirigidas a povos indígenas frequentemente os tratam como incapazes, o que gera intervenções coercitivas e a infantilização das mães. 

Lévi-Strauss (1975) também contribui para essa análise ao defender que cada sociedade organiza simbolicamente seus modos de curar e de interpretar substâncias corporais. O leite materno, para os warao, é avaliado não apenas pela funcionalidade nutricional, mas por atributos visuais que indicam força e vitalidade. Ao rotularem essa interpretação como erro ou negligência, profissionais de saúde deixam de reconhecer que estão diante não de ignorância, mas de uma lógica estrutural distinta. 

Nesse contexto, refletir sobre autonomia warao exige ir além das noções liberais individualistas. Autonomia, aqui, envolve a capacidade de circular entre sistemas de cuidado, tomar decisões baseadas em seus próprios repertórios simbólicos e reconhecer as violências (simbólicas, institucionais e raciais) que sofrem nos espaços de saúde.  

Descortinando a realidade 

No contexto do acolhimento institucional, os warao recebem acompanhamento de saúde realizado quase exclusivamente pela enfermeira Eliene, profissional já conhecida pelas famílias devido ao seu trânsito entre os abrigos e à atuação continuada ao longo dos anos. Sua presença, ainda que esporádica, representa um ponto de referência e confiança para o grupo, sobretudo pela continuidade que estabelece no acompanhamento, na atualização da caderneta de vacinação e nas orientações relacionadas ao cuidado infantil, da família, das mulheres e idosos. Sempre que possível, ela distribui medicamentos básicos, como vermífugos, vitaminas para recém-nascidos e medicamentos para escabiose, quando estes estão disponíveis e quando há condições mínimas para seu deslocamento para os abrigos. 

A despeito de sua dedicação, o trabalho é profundamente limitado: Eliene é a única profissional responsável pelo acompanhamento de diversas famílias distribuídas em diferentes abrigos, e a Fundação Municipal de Saúde, responsável por ceder a enfermeira supracitada e fornecer o serviço enfrenta escassez de insumos, falta de veículos e entre outras questões. Assim, o atendimento ocorre de forma descontínua, sem periodicidade definida e sem condições adequadas para atender a todas as demandas com o tempo e a atenção necessários. 

Esse cenário revela não apenas precariedades administrativas, mas camadas profundas de marginalização estruturada, que precisam ser interpretadas para além do âmbito técnico. As dificuldades não são neutras: elas expressam mecanismos institucionais que naturalizam desigualdades e tratam determinadas vidas como menos urgentes, menos dignas de cuidado e menos merecedoras de investimento estatal. 

Nesse ponto a autora Sueli Carneiro (2023) é fundamental para compreender que essas limitações constituem parte de um dispositivo de racialidade. Mas antes de tudo, ao falar de racismo, é importante enfatizar que em 2003, o STF avança nos discursos sobre o racismo, enquanto construção social, que não apenas se volta a partir da raça, mas também da etnia, da religiosidade e de outros marcadores que classificam os sujeitos em categorias que podem ser protegidas ou descartáveis. De acordo com Carneiro (2023), o dispositivo opera por meio de práticas institucionais que privilegiam certos grupos enquanto precarizam e inviabilizam outros; ele funciona não apenas por ações explícitas, mas sobretudo pelas omissões, negligências e silenciamentos. 

A situação vivida pelos warao nos abrigos, a ausência de profissionais suficientes, a carência de insumos básicos, a dependência da boa vontade individual da enfermeira, a falta de continuidade no acompanhamento e a dificuldade de deslocamento, exemplifica o que Carneiro (2023) denomina de produção institucional da desigualdade. Trata-se de uma estrutura que, ainda que não declare intenção discriminatória, organiza o cuidado de forma assimétrica, relegando populações indígenas migrantes a um lugar de menor prioridade. Assim, a precariedade do atendimento não é apenas um problema técnico: ela evidencia a forma como o sistema reconhece, ou não, o valor de determinadas vidas. 

A marginalização, nesse sentido, não se manifesta apenas na discriminação direta sofrida nos hospitais, mas também na forma como políticas públicas são implementadas de maneira insuficiente, fragmentada e emergencial. A sobrecarga imposta à enfermeira Eliene é sintoma desse sistema: ao depender de um único corpo para sustentar uma rede inteira de cuidado, o Estado transfere responsabilidades estruturais para ações individuais, mascarando a ausência de políticas de saúde intercultural consistentes. 

Esse quadro reforça, portanto, a necessidade de compreender a saúde warao não somente a partir de suas práticas internas e dos obstáculos encontrados na medicina ocidental, mas também a partir da análise das estruturas de poder que determinam quem recebe cuidado pleno e quem recebe apenas aquilo que “é possível” dentro da lógica institucional. Como aponta Sueli Carneiro (2023), o dispositivo de racialidade materializa-se justamente quando grupos racializados e etnicamente marcados são empurrados para espaços precários de proteção social, onde o acesso a direitos é fragmentado e instável. 

Assim, discutir a atuação de Eliene e as limitações do acolhimento não é apenas descrever dificuldades logísticas: é revelar a forma sistemática como o Estado administra vidas indígenas migrantes, reforçando hierarquias racializadas e etnicizadas que atravessam o cotidiano dos warao no Brasil. 

Quando o espaço adoece 

As condições de saúde observadas nos abrigos que recebem famílias Warao, como os casos de tuberculose divulgados pelo G110 em 12 de agosto de 2025 (oito confirmações entre setembro de 2024 e agosto de 2025), bem como os episódios recorrentes de escabiose e um surto de sarna11, evidenciam não apenas a presença de doenças infecciosas, mas a materialização de desigualdades estruturais que moldam quem adoece, onde e de que maneira. Esses agravos não se desenvolvem isoladamente: eles são produzidos e intensificados por condições ambientais precárias, superlotação, ventilação inadequada, falta de higiene imposta pelas circunstâncias e pela insuficiência de políticas públicas eficientes.

A tuberculose, por exemplo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença diretamente associada às iniquidades sociais. Como destaca Michel Foucault (1979), as doenças não podem ser separadas dos dispositivos que organizam a vida social; elas emergem e se ampliam em espaços onde o corpo é submetido a vulnerabilidades políticas, econômicas e estruturais. Assim, quando ambientes são insalubres, superlotados e negligenciados pelo sistema, tornam-se zonas produtoras de adoecimento. 

Para Paul Farmer (2003), considerado uma referência mundial em saúde global, as doenças como a tuberculose não são apenas biológicas: são manifestações de “violência estrutural”, ou seja, das formas institucionais que produzem sofrimento ao restringir acesso a direitos, recursos e cuidados adequados. Nos abrigos dos warao, essas dinâmicas se evidenciam quando a precariedade do espaço e a insuficiência de equipes dificultam a vigilância epidemiológica e o tratamento oportuno. 

No caso da escabiose e das condições semelhantes ao surto de sarna, autores como Didier Fassin (2011) apontam que enfermidades negligenciadas tendem a se espalhar em contextos marcados por pobreza extrema, vulnerabilidade social e ausência de políticas de cuidado adequadas. Ele destaca que o ambiente físico não é neutro: ele atua como um agente epidemiológico. Ambientes superlotados, com alta rotatividade e com limitação de produtos de higiene, tornam-se vetores facilitadores para a proliferação de ácaros e demais agentes infecciosos. 

               Imagem 01: Presença de escabiose na testa de uma criança

Fonte: Acervo da autora (2025). 

Além disso, como observa Mary Douglas (1976), a sujeira e o risco não são apenas condições materiais, mas produções sociais. A persistência de doenças nesses espaços não indica apenas falta de recursos, mas reflete processos de estigmatização, responsabilização e marginalização dos grupos considerados menos dignos de cuidado pelo sistema social. 

Dessa forma, os casos de tuberculose, escabiose e suspeitas de sarna revelam mais do que enfermidades isoladas: expõem a forma como o sistema organiza quem merece saúde e quem permanece à margem. As doenças denunciam a negligência institucional, a ausência de políticas robustas e a reprodução de desigualdades que impactam diretamente a população Warao, cujas vulnerabilidades são acentuadas pelas condições do acolhimento emergencial. 

Uso de álcool e drogas entre os Warao: entre vulnerabilidade, violência estrutural e sofrimento social 

A presença crescente do uso de álcool e drogas entre os warao não pode ser interpretada como um desvio moral ou como um traço cultural isolado, mas como fenômeno enraizado em processos históricos, políticos e estruturais de profunda vulnerabilidade. Os relatos obtidos pela pesquisadora deste capítulo, em situação de confiança e anonimato, mostram que alguns jovens iniciaram o uso de substâncias ainda na infância, antes mesmo da migração, como no caso do jovem que descreveu seu primeiro contato com a maconha na comunidade Mariusa, situada na região do rio Orinoco, Venezuela. Segundo ele, traficantes passaram a circular pela região para utilizar embarcações warao em travessias clandestinas, transformando alguns indígenas em “mulas” sob coerção direta, sob ameaça de morte pela recusa. 

Esse cenário não é exclusivo dos Warao. Entre povos Guarani e Kaiowa no Mato Grosso do Sul, em uma pesquisa de campo realizada por esta autora que vos relata, já era comum ouvir sobre a presença de facções e traficantes rondando os territórios indígenas, intensificando vulnerabilidades, coibindo resistências e aliciando adolescentes (Fleischer, 2018). Essa realidade revela um padrão mais amplo de violência estrutural em territórios indígenas, especialmente aqueles localizados em áreas de fronteira, onde os mecanismos de proteção estatal são frágeis ou inexistentes. 

Assim, compreender o uso de drogas entre os warao implica ultrapassar interpretações moralizantes e aproximar-se do que Paul Farmer (2005) denomina “violência estrutural”, isto é, a forma pela qual arranjos políticos, econômicos e institucionais produzem sofrimento e adoecimento. Para Farmer (2010), a droga não é apenas um sintoma individual, mas reflexo de sistemas sociais que limitam oportunidades, reforçam desigualdades e empurram populações vulneráveis para práticas que funcionam como “escapes de sobrevivência”. 

Da mesma forma, Nancy Scheper Hughes (1992), ao analisar processos de sofrimento social, demonstra que consumo abusivo de álcool e outras substâncias frequentemente emerge como resposta à dor emocional, ao luto, à ruptura de laços comunitários e à perda do sentido de continuidade da vida. No caso dos warao, a migração forçada, a ruptura do território e a precariedade das condições de acolhimento se somam ao trauma dos deslocamentos sucessivos, compondo um terreno fértil para práticas que funcionam como amortecimento simbólico da dor. 

Além disso, a vulnerabilidade dos warao ao tráfico e ao consumo de substâncias está profundamente conectada ao lugar social que lhes é atribuído no Brasil. Como aponta Sueli Carneiro (2023), o racismo opera como um dispositivo de racialidade, construindo determinados grupos como menos humanos, menos dignos de cuidado e mais facilmente descartáveis. Essa lógica atinge povos indígenas há séculos e, no contexto migratório, se intensifica: o indígena estrangeiro passa a ocupar um lugar ainda mais marginal, onde o Estado se ausenta e o crime organizado avança. 

A combinação entre racismo, pobreza extrema e ausência de políticas interculturais de saúde cria o terreno ideal para o aliciamento e disseminação de drogas dentro dos abrigos. Como analisa Pierre Bourdieu (1998), grupos submetidos à dominação estrutural acabam sendo empurrados para práticas que reforçam o estigma, e esse processo não resulta de escolhas individuais, mas de condições sociais profundamente assimétricas. 

Nesse sentido, o fato de drogas terem sido encontradas dentro dos abrigos e de haver tendência de expansão entre jovens e adultos não deve ser lido como falha moral, mas como expressão de um sistema que produz vulnerabilidades e oferece poucas alternativas reais. 

Outro fator que acomete os mais diversos povos indígenas é o álcool. O ato de beber possui dimensões sociais e rituais. Esther Jean Langdon (2001) discute que, para muitos povos indígenas, o beber tradicional envolve práticas coletivas, normas de reciprocidade, controle social e significados cosmológicos. Para Langdon (2001), “beber é uma experiência culturalmente organizada”, e não um simples consumo fisiológico. 

Contudo, o contato com bebidas destiladas, trazidas pelas frentes coloniais, comerciantes e agentes externos, altera profundamente esse sistema. Langdon (2001) observa que a introdução de bebidas industrializadas rompe os mecanismos culturais de regulação, produzindo novas formas de conflito, violência e desagregação comunitária. Sem esquecer de mencionar que diante deste cenário estão as crianças. O que resultará das crianças que vivenciam esse cotidiano, senão também um produto falido. 

Portanto, esse processo é nítido entre os warao que estão no Brasil e por parte daqueles que ainda permanecem na Venezuela, onde a bebida destilada adiciona um componente destrutivo a um quadro já marcado pela precariedade e deslocamento forçado. 

Diagrama 01: Doenças integradas ao cotidiano da vida

Fonte: Elaborado por Carlos Coloma (2001, p. 138), no texto: “O processo de alcoolização no contexto dos grupos indígenas”. IN: Anais do seminário sobre o alcoolismo e vulnerabilidade às DST/AIDS entre os povos indígenas da Macrorregião Sul, Sudeste e Mato Grosso do Sul. 

Esse processo visto no diagrama acima, se articula ao que os indígenas chamam de “doença da alma”, expressão que, como lembram autores da antropologia da saúde, indica não apenas sofrimento psicológico, mas desorganização cosmológica, ruptura dos vínculos e perda da proteção espiritual (Langdon, 2001). 

Byron Good (1994) ressalta que, em muitas culturas, o adoecimento não se separa do social e do espiritual. Ele é a expressão de desequilíbrios mais amplos entre pessoas, espaços e mundos. Assim, o uso de drogas entre os warao deve ser compreendido no interior dessa cosmologia: um sintoma coletivo de profunda ruptura. 

Intervenções paliativas e o fracasso das políticas proibicionistas 

Em anos anteriores, foram impostas medidas recorrentes nos abrigos, como proibição de bebidas, notificações verbais e escritas e ameaça de expulsão, estas são apenas respostas paliativas. Elas não enfrentam a raiz do sofrimento, apenas mascaram momentaneamente os conflitos. Como apontam pesquisadoras da antropologia da saúde (Fleischer, 2011; Langdon, 1994), políticas restritivas sem abordagem comunitária tendem a fracassar, produzindo deslocamento do uso para espaços clandestinos, estigmatização e recrudescimento do sofrimento. 

Refletir sobre o uso de drogas e álcool entre os warao é, portanto, refletir sobre: 

  • sofrimento social; 
  • violência estrutural; 
  • racismo e marginalização; 
  • rupturas cosmológicas; 
  • precarização dos abrigos; 
  • ausência de políticas de saúde interculturais; ● efeitos do colapso venezuelano. 

Ou seja, trata-se de reconhecer que o problema não está no indivíduo, mas nas estruturas que o atravessam. 

Possíveis soluções ao enfrentamento das vulnerabilidades enfrentadas pelos warao 

Diante das profundas vulnerabilidades que atingem a população warao, especialmente no que diz respeito às condições de saúde, habitação e saneamento, torna-se essencial que os órgãos públicos, entidades da sociedade civil e instituições parceiras adotem estratégias integradas, contínuas e intersetoriais. A ocorrência de doenças como tuberculose, escabiose e infecções cutâneas não pode ser compreendida apenas como eventos isolados, mas como resultado direto de condições estruturais precárias que intensificam riscos epidemiológicos. Dessa forma, as respostas precisam ir além do tratamento médico imediato e contemplar ações consistentes de promoção da dignidade, prevenção e inclusão social. 

Uma das primeiras medidas consiste na reestruturação dos espaços de acolhimento, garantindo ventilação adequada, redução da superlotação, acesso contínuo à água potável e processos permanentes de limpeza e desinfecção. Ambientes insalubres favorecem a transmissão de doenças infectocontagiosas e agrava quadros já existentes, motivo pelo qual melhorias na infraestrutura são fundamentais para romper ciclos de adoecimento. Além disso, é necessário preparar as equipes de saúde e assistência social que atuam nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) das microrregiões, nos hospitais para atender populações indígenas e migrantes, assegurando vigilância epidemiológica constante, triagem periódica e tratamento imediato dos casos identificados. 

Outra saída envolve o fortalecimento de programas de educação em saúde desenvolvidos de forma dialógica e culturalmente sensível. A população warao possui modos de vida e concepções próprias sobre corpo e doença e, por isso, ações de caráter impositivo tendem a falhar. É indispensável construir processos educativos com mediação intercultural, garantindo que informações sobre higiene, prevenção de infecções e cuidados diários circulem de modo compreensível e respeitoso. 

Somado a isso, políticas de proteção social devem ser reforçadas. Muitas vulnerabilidades observadas decorrem de dificuldades no acesso ao trabalho, renda, alimentação adequada e documentação civil. Órgãos estaduais e municipais, em parceria com o Governo Federal e com entidades não governamentais, precisam consolidar estratégias que favoreçam autonomia, integração social e acesso a direitos básicos. 

Por fim, recomenda o acompanhamento contínuo da situação warao, com produção de dados, relatórios e avaliações de impacto, permite ajustar as intervenções e garantir respostas mais eficazes diante das demandas emergentes. O enfrentamento das doenças é apenas parte do problema. O foco deve estar na transformação das condições estruturais que perpetuam a vulnerabilidade e comprometem a dignidade desse povo. 

Considerações finais 

A análise realizada ao longo deste artigo evidencia que a experiência dos warao com o sistema de saúde no Brasil ultrapassa a dimensão biomédica e se inscreve em um campo mais amplo de disputas simbólicas, políticas e institucionais. As práticas tradicionais manifestadas por esse grupo revelam que a busca por cuidado é sempre atravessada por lógicas próprias, pelas avaliações dos wiseratu e pela compreensão cultural do adoecimento. Entretanto, quando esses saberes entram em contato com instituições que operam segundo valores ocidentalizados, emergem conflitos, desigualdades e violências que comprometem tanto o acesso quanto a qualidade do atendimento. 

Os episódios relatados nos hospitais, a interpretação equivocada das práticas maternas, a recusa de atendimento e os julgamentos morais dirigidos às mulheres revelam a presença constante de violência simbólica. Nessas situações, o sistema biomédico não apenas falha em oferecer cuidado adequado, mas produz silenciamentos, constrangimentos e culpabilizações que reforçam hierarquias de raça, gênero e classe. 

A precariedade estrutural observada nos abrigos, marcada pela sobrecarga de uma única enfermeira, pela falta de insumos, pela descontinuidade dos atendimentos e pela emergência constante das doenças infecciosas, revela que o problema não se restringe ao comportamento individual dos profissionais. Trata-se, como argumenta Sueli Carneiro (2023), da atuação de um dispositivo de racialidade que organiza o acesso ao cuidado de forma desigual, relegando populações indígenas migrantes a condições de baixa prioridade dentro da política pública. Assim, a saúde dos warao é atravessada por omissões institucionais que não são acidentais, mas estruturantes, produzindo e reproduzindo vulnerabilidades. 

Do mesmo modo, os indicadores epidemiológicos presentes nos abrigos, como casos de tuberculose, escabiose e suspeitas de sarna, materializam os efeitos diretos da violência estrutural: ambientes que adoecem, corpos submetidos à precariedade e políticas insuficientes que tornam o sofrimento previsível e evitável. A saúde, nesse contexto, não é apenas uma questão biológica, mas expressão de desigualdades sociais e de um Estado que administra vidas de forma hierarquizada. 

Por fim, a presença do uso de álcool e drogas entre jovens warao também não pode ser desvinculada dessas dinâmicas mais amplas. Essas práticas não surgem de maneira isolada, nem podem ser interpretadas como desvios individuais, mas como efeitos de contextos marcados por ruptura de vínculos comunitários, insegurança cotidiana, ausência de políticas continuadas e deslocamentos que fragilizam redes tradicionais de proteção. O sofrimento experimentado pelos jovens e adultos é, portanto, uma expressão direta das condições materiais e simbólicas às quais estão submetidos, revelando como a migração forçada, a pobreza, o racismo e a precarização dos espaços de acolhimento incidem sobre seus modos de vida e produzem respostas de enfrentamento frequentemente patologizadas pelas instituições.  

Assim, a compreensão desses comportamentos exige olhar para a totalidade das experiências vividas nos abrigos e nas cidades brasileiras, reconhecendo que o adoecimento e a vulnerabilidade não podem ser entendidos fora das relações sociais, políticas e estruturais que moldam a existência warao no Brasil. 


10Disponível em: https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2025/08/12/abrigos-para-venezuelanos-em-teresina-tiveram-oito-casos-de-tuberculose-em-quase-um-ano-diz-fms.ghtml. Data de acesso 02.12.2025.

11Após as visitas e já no processo final de escrita, diversas fontes de notícias, entre elas o portal Cidade Verde, divulgaram um surto de sarna no abrigo Poty Velho. Diante do tema que se desenrolava, apresenta se o caso para reforçar a gravidade que a moradia em acolhimento pode representar. Disponível em:
https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2025/12/03/mp-investiga-denuncia-de-sarna-e-falta-de-fornecimento-de-alimentacao-para-abrigo-de-venezuelanos-em-teresina.ghtml. Acesso: 04.12.2025.

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1Docente do Instituto do Ensino Superior – ICEV. Bacharel em Ciências Sociais pela UFPI (2016). Mestra em Antropologia pela UFPI (2019). Especializada em Gestão Escolar com Docência Superior pela FAEX (2019). Especializada em Direitos Humanos e Movimentos Sociais pela UESPI (2023). Especializanda em Práticas Docentes e Metodologias Ativas pela UMFG (2026). E-mail: lilian.sousa@grupocev.com
2Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: amanda.carreiro@somosicev.com
3Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: enzo.mendes@somosicev.com
4Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: gentil.neto@somosicev.com
5Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: joão_gabriel.lopes@somosicev.com
6Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: joão.sena@somosicev.com
7Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
mateus.pupo@somosicev.com
8Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
maria.ribeiro@somosicev.com
9Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
pedro_antonio.sousa@somosicev.com


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