RUPTURA PARCIAL DE URETRA PROSTÁTICA EM CÃO MACHO: RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510212313


João Victhor Aparecido Borges
Roberta Matias Delgado


RESUMO 

Relata-se o caso de um cão, macho, não castrado, SRD (sem raça definida), com  sete anos de idade, atendido no Hospital Veterinário DOK apresentando anúria,  hematúria, apatia e anorexia. Os exames de imagem revelaram presença de  cistolitíases e possível ruptura uretral. A abordagem inicial consistiu na realização de  cistocentese e fixação de cateter uretral, seguida de cistostomia exploratória.  Durante o procedimento, observou-se espessamento vesical, presença de pus e  ausência de parte dos cálculos previamente visualizados, posteriormente  identificados em região prostática com auxílio de ultrassonografia transoperatória.  Exames contrastados confirmaram ruptura parcial de uretra prostática. Diante da  ausência de resposta ao tratamento conservativo inicial, optou-se por prostatectomia  parcial com anastomose uretrovesical. A evolução foi favorável, com cicatrização  confirmada por radiografia contrastada, é possível incontinência da associação de  exames de imagem e abordagem cirúrgica individualizada em rupturas uretrais. 

Palavras-chave: ruptura uretral próstata, uretrocistografia, cistolitíases, cão.

ABSTRACT 

This case report describes a 7-year-old, intact, male mixed-breed dog treated at DOK  Veterinary Hospital presenting anuria, hematuria, apathy, and anorexia. Imaging  exams revealed cystolithiasis and suspected urethral rupture. Initial treatment  included cystocentesis and urethral catheter placement, followed by exploratory  cystotomy. During surgery, vesical wall thickening and purulent content were noted,  but not all calculi were retrieved. Ultrasonographic examination revealed stone  migration into the prostatic region. Contrast studies confirmed partial rupture of the  prostatic urethra. Due to lack of improvement with conservative treatment, a  prostatectomy and urethrovesical anastomosis were performed. The patient had a  favorable recovery, with full urethral healing confirmed and potential urinary  incontinence as sequela. This case highlights the relevance of combining imaging  techniques and tailored surgical intervention in managing urethral ruptures. 

Keywords: urethral rupture, prostate, urethrocystography, cystolithiasis, dog.

1. INTRODUÇÃO 

A uretra é um órgão tubular que serve como canal condutor para o sêmen e  secreções reprodutivas. Anatomicamente a uretra masculina compreende três  grandes áreas: a uretra prostática, a uretra membranosa e a uretra peniana.  Juntas, as porções prostáticas e membranosas compõem a porção pélvica da  uretra (DONALD E. THRALL, 2024). A uretra membranosa é envolvida por  tecido cavernoso e pelo músculo uretral. A uretra peniana estende-se do arco  isquiático à extremidade do pênis. Esta parte da uretra também é conhecida  como uretra cavernosa, pois a maior parte dela é envolvida pelos tecidos  eréteis do pênis. a porção mais distal da uretra peniana está inserida e  protegida pelo sulco uretral ventral do osso peniano. O arranjo muscular uretral  e tecido esponjoso circundante conferem um mecanismo alternado do esfíncter  uretral em cães machos (DONALD E. THRALL, 2024). 

A medicina veterinária tem evoluído significativamente na abordagem de  afecções urológicas em cães, especialmente aquelas que envolvem estruturas  como a uretra. A uretra prostática, localizada na porção intrapélvica do trato  urinário de machos, pode ser acometida por traumas diretos ou indiretos que  resultam em sua ruptura, uma condição grave que exige diagnóstico e  intervenção imediata (FOSSUM,2021). 

A ruptura da uretra prostática leva ao extravasamento de urina para os tecidos  periuretrais, o que pode ocasionar complicações severas, como infecção  secundária, celulite, abscessos e uroperitônio (TIGGES etal…,2020). Essa  condição clínica é considerada uma emergência cirúrgica e exige, além de  diagnóstico rápido, um plano terapêutico adequado para restaurar a  continuidade urinária e minimizar o risco de sequelas (STRAW; WITHROW,  2017). 

O diagnóstico pode ser dificultado pela apresentação clínica e requer a  utilização de exames de imagem, como ultrassonografia, uretrocistografia  contrastada, para uma avaliação anatômica precisa  (NYLAND;MATTOON,2014). A terapêutica envolve a estabilização do paciente,  antibioticoterapia, sondagem urinária ou cirurgia reconstrutiva, dependendo da  extensão da lesão(FOSSUM,2019).

Esse tipo de lesão, embora relativamente rara, representa um grande desafio  diagnóstico e terapêutico para o clínico veterinário. Dificuldades no diagnóstico  precoce e a necessidade de intervenção cirúrgica imediata demandam  conhecimento técnico e abordagem multidisciplinar, incluindo exames de  imagens, suporte clínico intensivo e técnicas cirúrgicas adequadas para a  reconstituição do trato urinário. 

A escassez de relatos clínicos específicos sobre ruptura de uretra prostática  em cães evidencia a relevância de estudos que abordem este tipo de  ocorrência, contribuindo para o aperfeiçoamento da conduta médica veterinária  frente a situações de emergência urológica. Além disso, compreender os  mecanismos etiológicos, as manifestações clínicas, os métodos diagnóstico e  o tratamento cirúrgico aplicável é fundamental para promover o bem-estar e o  sucesso terapêutico.

1.1 Anatomia 

O trajeto uretral de cães e gatos machos é dividido anatomicamente em porção  prostática, membranosa e peniana. A ruptura de uretra é mais comum em suas  porções prostática e membranosa e frequentemente como consequência de  fraturas pélvicas causadas secundariamente à traumas (FOSSUM, 2014). 

A uretra é um órgão tubular que serve como saída para a urina da bexiga  urinária e, no homem, para o sêmen e as secreções reprodutivas.  Anatomicamente, a uretra masculina compreende três áreas principais: a uretra  prostática, a uretra membranosa e a uretra peniana ( Fig. 1 ). Juntas, as  porções prostática e membranosa constituem a parte pélvica da uretra. A  uretra prostática é completamente circundada pela próstata no cão, embora  apenas dorsolateralmente no gato. A uretra membranosa é envolvida por  tecido cavernoso e pelo músculo uretral. A uretra peniana se estende do arco  isquiático até a ponta do pênis. Essa parte da uretra também é conhecida como  uretra cavernosa porque a maior parte dela é revestida por tecidos eréteis do  pênis. A parte mais distal da uretra peniana é recebida e protegida pelo sulco  uretral ventral do osso peniano. A disposição do músculo uretral e dos tecidos  esponjosos circundantes confere um mecanismo esfincteriano difuso à uretra  em cães machos.

Figura. 1 Uretrografia retrógrada em um cão macho normal. Um cateter de Foley está  presente na uretra peniana distal e um meio de contraste iodado foi injetado. A uretra  compreende (A) a uretra prostática, (B) a uretra membranosa e (C) a uretra peniana. A uretra normal é lisa e com margens distintas, com variação normal de diâmetro  observada na uretra prostática e membranosa.

James C. Brown, Jr( veterian key ) 27 MAIO DE 2016 ( THE URETHRA)

FIG.1-1 Uretra de cão macho, sendo composta de segmento prostático, membranosa  (pélvica) e peniana. 
(fonte: FOSSUM.2019, Livro de Cirurgia de Pequenos Animais). 

1.2 Radiografia e Uretrografia 

A radiografia da uretra deve incluir imagens abdominais e/ou pélvicas caudais  para garantir uma avaliação completa da uretra. Em cães machos, radiografias  pélvicas laterais com os membros pélvicos em extensão e flexão do quadril  também são recomendadas para evitar a ausência de lesões na uretra peniana  causadas pela sobreposição dos membros pélvicos. Em um cão normal, a  uretra não é visível nas radiografias. Devido à posição mais cranial da bexiga  urinária em gatos, a uretra pré-pélvica pode ser visualizada, desde que haja  gordura circundante adequada. 

A uretrografia retrógrada é uma técnica para examinar a uretra utilizando meio  de contraste positivo. Deve ser utilizado apenas meio de contraste iodado  solúvel em água. O meio de contraste pode ser diluído com solução salina estéril até uma concentração final de 15% (150 mg de iodo [I]/mL).Os pacientes  geralmente requerem sedação, e a evacuação do cólon e reto por meio de  evacuação ou enemas de limpeza é recomendada. Uma bexiga urinária  totalmente distendida fornece contrapressão à injeção de meio de contraste  para permitir a distensão máxima da uretra. Frequentemente, a cistografia é  realizada inicialmente, e a distensão da bexiga com meio de contraste deve ser  mantida para a uretrografia. Se necessário, a solução salina estéril pode ser  infundida em uma bexiga inadequadamente distendida. Além das projeções  radiográficas mencionadas anteriormente, as incidências ventro-dorsal  esquerda direita e ventrodorsal esquerda, as esquerdas devem ser incluídas  porque a projeção ventrodorsal padrão pode ser menos informativa devido à  sobreposição da uretra pélvica e peniana. 

Em cães e gatos machos, o procedimento é realizado inserindo um cateter na  uretra peniana distal. Um cateter com ponta de balão (Foley) é preferível em  cães, embora um cateter de borracha vermelha também possa ser usado. O  bulbo do cateter de Foley é inflado suavemente e deixado inflado por não mais  que 15 minutos, porque a pressão excessiva e prolongada pode danificar a  uretra. Em gatos machos, um cateter de borracha vermelha ou Tomcat pode  ser usado (Fig.2) . Dependendo do tamanho do paciente, uma injeção de 5 a  20 mL de meio de contraste é administrada e radiografias são adquiridas  durante a administração dos últimos 1 a 2 mL da injeção. A uretra normal deve  ter margens suaves ao longo de todo o seu comprimento. A uretra prostática é  mais larga do que a uretra membranosa, embora cada uma possa ter diâmetro  variável dependendo do grau de distensão. A uretra peniana tem um diâmetro  geralmente uniforme em cães; em gatos, é relativamente estreita.  Estreitamento luminal com margens afiladas pode ser visto normalmente no  arco isquiático em cães.

Fig. 2 Uretrografia retrógrada em um gato macho normal. Um cateter Tomcat é inserido  na uretra peniana distal e um meio de contraste iodado é injetado. A uretra pélvica (setas  pretas) é larga e com margens lisas. A uretra peniana (setas brancas) tem um diâmetro  menor e não se distende tanto. (preciso da referência)
Figura 2-2 – Anatomia da uretra canina: seções prostática, membranosa (cavernosa) e  peniana
(fonte: Brown Jr., Textbook of Veterinary Diagnostic Radiology) 

1.3.Anatomia da uretra do cão (ênfase na porção prostática) 

A uretra canina é dividida em três porções: prostática, membranosa e peniana.  A porção prostática, que atravessa a glândula prostática, é completamente  circundada pelo tecido glandular e representa um ponto anatômico crítico tanto  para o fluxo urinário quanto para o desenvolvimento de patologias (Nyland &  Mattoon, 2014). O colliculus seminalis, presente na região dorsal da uretra prostática, é um marco anatômico importante, pois recebe os ductos deferentes  e prostáticos, além de influenciar a passagem de cálculos e a formação de  estenoses (Evans & de Lahunta, 2017). Essa disposição anatômica faz com  que qualquer alteração prostática, seja inflamatória, infecciosa ou neoplásica,  possa impactar diretamente o lúmen uretral, predispondo a obstruções e  rupturas. 

1.4 Tipos de cálculos/urólitos na uretra (e trato inferior) 

A maioria dos urólitos caninos são encontrados na bexiga ou na uretra.  Cálculos de estruvita (fosfato de amônio e magnésio) e de oxalato de cálcio são os urólitos mais comuns em cães, seguidos por urato, silicato, cistina e  tipos mistos. Ao longo dos últimos 20 anos, um aumento em longo prazo na  proporção de cálculos urinários caninos que contêm oxalato de cálcio tem sido  observado, juntamente com um decréscimo a longo prazo na proporção de  cálculos urinários caninos que contém estruvita (Low et al., 2010). 

Cálculos de oxalato de cálcio ocorrem mais comumente em cães com  hipercalcemia e hipercalciúria, transitória e pós-prandial. Muitos cães  acometidos têm concentração de paratormônio sérico entre baixa e normal.  Embora raros, estes cálculos também podem ocorrer em cães com reabsorção  tubular de cálcio deficiente, hiperparatireoidismo primário, linfoma, intoxicação  com vitamina D, concentração diminuía de citrato ou aumento de oxalato na  dieta. É rara a infecção concomitante do trato urinário. A urina ácida favorece a  formação de cristais de oxalato de cálcio. Dietas alimentares em conserva para  cães com uma elevada quantidade de carboidratos foram consideradas um  risco maior para a formação de urólitos de oxalato de cálcio; cães alimentados  com dietas secas formuladas contendo concentrações elevadas de proteínas,  cálcio, fósforo, magnésio, sódio, potássio e cloreto pareceram ter menos  cálculos de oxalato de cálcio. (FOSSUM, 2019) 

Os cálculos de estruvita estão frequentemente associados a infecções urinárias  por bactérias urease-positivas, que alcalinizam a urina e favorecem a  precipitação de cristais. A composição e a localização variam de acordo com fatores como idade, sexo, dieta e condição clínica do animal. Em particular, os  cálculos uretrais apresentam maior risco de obstrução, sendo frequentemente  encontrados na uretra prostática ou peniana. A análise morfológica dos urólitos  permite prever sua composição: cálculos espiculados tendem a ser de sílica,  enquanto cálculos com superfície lisa ou laminada são geralmente de estruvita  ou oxalato de cálcio (Lulich et al., 2016). Esse conhecimento auxilia o clínico a  adotar medidas terapêuticas específicas, incluindo dieta e tratamentos  minimamente invasivos, como a litotripsia a laser, que tem mostrado excelentes  resultados em urólitos caninos. 

1.5. Diagnóstico por imagem em ruptura de uretra 

Do ponto de vista diagnóstico, a uretrocistografia retrógrada continua sendo o  método padrão para detecção de rupturas uretrais, permitindo a visualização  direta do extravasamento de contraste e a localização exata da lesão (Fossum,  2019). Além disso, esse exame possibilita a avaliação de estreitamentos,  deslocamentos e cálculos retidos. Técnicas mais avançadas, como a  tomografia computadorizada com contraste e o uso de ultrassonografia  contrastada, têm mostrado sensibilidade elevada para a identificação de  pequenas rupturas e estenoses, sendo alternativas promissoras na rotina  clínica (Côté, 2002; Tigges et al., 2020). O emprego de métodos de imagem  modernos é particularmente importante nos casos em que a clínica é  inespecífica, já que sinais como hematúria e anúria podem se confundir com  outras patologias urinárias. 

Portanto, o conhecimento da anatomia uretral, dos calibres fisiológicos e da  composição dos cálculos mais frequentes em cães é essencial para  compreender a etiopatogenia das rupturas de uretra prostática. Esse  embasamento teórico permite que o clínico veterinário não apenas  diagnostique com maior precisão, mas também planeje intervenções cirúrgicas  mais seguras e estratégias terapêuticas individualizadas, aumentando as  chances de recuperação e reduzindo complicações pós-operatórias.

2. OBJETIVO 

– Relatar detalhadamente os sinais clínicos e exames complementares  realizados no paciente com ruptura parcial de uretra prostática. 

– Descrever os procedimentos cirúrgicos aplicados, destacando a técnica de prostatectomia parcial associada à anastomose uretrovesical. 

– Comparar a conduta adotada com relatos da literatura, destacando  indicações, limitações e complicações potenciais. 

– Discutir as implicações clínicas e prognósticas do tratamento cirúrgico em  comparação ao manejo conservativo. 

3. Metodologia 

O presente trabalho trata-se de um estudo observacional descritivo, do tipo  relato de caso, realizado com base no atendimento clínico e cirúrgico de um  paciente canino atendido no Hospital Veterinário DOK, situado em Guarulhos,  no ano de 2025. 

O paciente, um cão sem raça definida (SRD), macho, não castrado, com sete  anos de idade, foi encaminhado à instituição com histórico de anúria,  hematúria, apatia e anorexia. 

Este caso clínico foi documentado a partir de anamnese, exames físicos,  exames laboratoriais, exames de imagem (ultrassonografia abdominal e  uretrocistografia retrógrada), além do acompanhamento do tratamento  conservativo e cirúrgico realizado. 

Os dados foram organizados e descritos com base nos registros clínicos,  imagens diagnósticas e procedimentos terapêuticos empregados, com o  objetivo de relatar detalhadamente a evolução do quadro clínico do paciente. 

A metodologia seguiu a abordagem qualitativa e descritiva, fundamentada na  revisão de literatura sobre o tema, utilizando livros-textos de clínica cirúrgica  veterinária e artigos científicos relevantes à temática de ruptura uretral em  cães.

Durante a triagem inicial, foram realizados exames clínicos e laboratoriais,  seguidos de exames de imagem, como ultrassonografia abdominal e  radiografias abdominais contrastadas. 

Após detecção de obstrução uretral e múltiplas cistolitíases, foi realizado  procedimento de cistocentese para alívio imediato, seguido da implantação de  cateter uretral. Com base nos achados da ultrassonografia transoperatória e da  uretrocistografia retrógrada, diagnosticou-se ruptura parcial de uretra prostática  com presença de cálculo migrado da bexiga para o interior da próstata. 

O tratamento inicial foi conservativo, com manutenção de sonda uretral por 15  dias, regime de internação, e monitoramento por exames de imagem. Diante  da persistência da lesão, foi indicada e realizada uma prostatectomia parcial  associada à anastomose uretrovesical. 

A evolução clínica foi acompanhada por meio de exames radiográficos e  observação dos sinais clínicos do paciente, com foco na recuperação funcional  do trato urinário e prevenção de complicações pós-operatórias. 

3.1 Relato de Caso 

Paciente Bidu, SRD (sem raça definida), macho, 7 anos, não castrado. 

O paciente foi encaminhado para regime de internação devido a um quadro de  anúria pós hematúria, anorexia e prostração. Em um hospital colega foram  realizados exames complementares de imagem, onde foi identificada a  presença de urolitíases em vesícula urinária, além de uma delas em trajeto de  uretra peniana, causando um processo obstrutivo. 

Na admissão, foi realizado o procedimento de cistocentese de alívio, onde foi  retirado um volume total de 270 mL de urina com aspecto intensamente  sanguinolento e com presença de coágulos. Após, realizou-se passagem e  fixação de catéter uretral n°10, conforme orientação da equipe cirúrgica,  seguida de realização de novos exames de imagem.

Figura 3. Cistolitíases em vesícula urinária (Fonte: Hospital Veterinário DOK).
Figura 3.1. Espessamento de vesícula urinária indicando cistite importante (Fonte:  Hospital Veterinário DOK).
Figura 3-2. Hidronefrose bilateral discreta (Fonte: Hospital Veterinário DOK).

Ao exame radiográfico não foram observadas litíases radiopacas em vesícula  urinária ou trajeto uretral, apenas discreta quantidade de conteúdo gasoso,  provavelmente proveniente do procedimento de sondagem uretral. 

Figura 3-3. Radiografia abdominal realizada sem achados dignos de nota (Fonte: Hospital  Veterinário DOK).

Diante dos resultados encontrados nos exames supracitados foi indicada a  realização de cistotomia para retirada dos cálculos. 

Durante o procedimento cirúrgico, a equipe relata que ao abrir a vesícula  urinária esta encontrava-se com paredes bastante espessas, presença de pus  em região interna e pontos tendendo à início de necrose. Porém, não foram  encontrados todos os cálculos anteriormente visualizados em exames de  imagem, apenas um deles, que foi retirado. 

Com auxílio da ultrassonografia transoperatória, foi identificado que os cálculos  haviam migrado ao interior da lesão prostática, portanto, foi realizado tentativa  de hidropulsão através do catéter uretral na tentativa de retorná-los à vesícula  urinária, mas sem sucesso com a técnica. O paciente foi então encaminhado  para a realização de exame de Uretrocistografia Retrógrada, para confirmar a  suspeita levantada de ruptura de uretra em sua porção prostática. 

Para a realização do exame contrastado, foi administrado através do catéter  uretral o contraste iodado Omnipaque® na dose de 6 ml/kg, diluído na  proporção de 1:1 em solução fisiológica seguido da realização de radiografias abdominais sequenciais imediatas e após 5 minutos da administração do  contraste. 

Figura 3-4. Uretrocistografia Retrógrada evidenciando um extravasamento de contraste  em topografia de uretra prostática e confirmando o quadro de ruptura parcial (Fonte:  Hospital Veterinário DOK).

Através da Uretrocistografia Retrógrada foi visualizado um ponto de  extravasamento de contraste para a cavidade abdominal advindo de uretra  prostática, porém ainda havendo repleção da vesícula urinária pelo contraste,  o que indicava que havia uma ruptura uretral, mas que esta seria parcial. 

Diante de todo o quadro, a princípio optou-se pela tentativa de tratamento  conservativo, acompanhando através de exames de imagem a cicatrização da  uretra, mantendo o paciente em regime de internação e com catéter uretral  fixado para esvaziamento da vesícula urinária, controle de débito urinário e  impedir a ocorrência de retardo na cicatrização pela contaminação por urina. 

Após aproximadamente 15 dias em que o paciente permaneceu com catéter  uretral fixado, foi realizado um novo exame radiográfico contrastado, em que  os achados foram similares ao primeiro realizado, observando ainda a  presença de um ponto de extravasamento de contraste em topografia de uretra  prostática. 

Com isso, foi indicada a realização de um novo procedimento cirúrgico, desta  vez o de prostatectomia e anastomose uretrovesical ( Prostatectomia parcial:  Ressecção cuidadosa da porção da próstata e da uretra gravemente lesada. 

Preservação máxima de estruturas vasculares e do tecido prostático viável,  para minimizar riscos de hemorragia e incontinência./ Anastomose  uretrovesical: A uretra remanescente é aproximada ao colo vesical (base da  bexiga).Realização de anastomose término-terminal com sutura delicada,  geralmente absorvível (ex: polidioxanona 4-0 ou 5-0).Técnica em pontos  simples interrompidos ou contínuos simples, garantindo vedação sem causar  estenose. Em muitos casos, mantém-se um cateter uretral durante a sutura,  que ajuda a alinhar os cotos e a manter a luz uretral patente. ) 

Após o procedimento, o paciente apresentou boa recuperação, sem  complicações pós-cirúrgicas, com bom controle de dor e mantendo a sonda  uretral por 7 dias pós-procedimento, para garantir uma boa cicatrização da  região. 

Após os 7 dias, foi realizada a última radiografia contrastada, que não  evidenciou sinais de extravasamento de contraste e confirmou a cicatrização  do ponto de ruptura. 

Figura 3-5. Uretrocistografia Retrógrada. Não foi observado extravasamento de  contraste em cavidade abdominal indicando uma boa cicatrização do ponto de ruptura  em uretra prostática (Fonte: Hospital Veterinário DOK).

4. Discussão 

O paciente relatado apresentou sinais compatíveis com ruptura parcial de  uretra prostática, condição que, embora rara, tem sido descrita como potencial  complicação secundária à presença de urolitíases migratórias (FOSSUM,  2019). A opção inicial pelo tratamento conservativo, com manutenção de  cateter uretral e monitoramento radiográfico, é recomendada em casos de  ruptura parcial e está alinhada a relatos prévios que sugerem possibilidade de  cicatrização espontânea quando há preservação parcial da continuidade uretral  (TIGGES et al., 2020). 

No entanto, diante da ausência de evolução favorável, a conduta cirúrgica  tornou-se necessária. A técnica de prostatectomia parcial associada à  anastomose uretrovesical empregada neste caso está de acordo com os  protocolos descritos por Straw e Withrow (2017), que ressaltam a importância  da preservação de estruturas vasculares e do tecido prostático viável para  reduzir complicações pós-operatórias. A literatura destaca que, embora a  cirurgia apresente riscos de incontinência urinária permanente, a escolha  cirúrgica pode ser determinante para a restauração da função urinária e a  sobrevivência do paciente. 

Quanto à composição dos cálculos, confirmou-se tratar-se de urólito de  oxalato de cálcio, tipo frequentemente relatado em cães machos de meia idade a idosos (KOPECNY et al., 2021; LULICH et al., 2016). Estudos apontam  que os urólitos de oxalato de cálcio apresentam maior incidência nessa  população e estão associados a fatores dietéticos, metabólicos e  predisposições individuais. Em contrapartida, os urólitos de estruvita tendem a  ocorrer em associação a infecções do trato urinário por bactérias urease positivas, sendo mais comuns em fêmeas (MERCK VETERINARY MANUAL,  2025). Nesse contexto, os achados do presente relato reforçam o padrão  descrito na literatura, visto que o paciente, um macho idoso, apresentou  justamente a forma mais prevalente da afecção. 

As complicações mais comuns da cicatrização das feridas uretrais são a formação de estenoses e o vazamento urinário. Cateteres permanentes podem permitir infecções bacterianas ascendentes ou podem causar fibrose e estenose. Cateteres maiores que o normal (aqueles que distendem a uretra) devem ser evitados. As complicações de cateterização pré-púbica (cistostomia  temporária) podem incluir perfuração intestinal pela colocação percutânea  inapropriada, infecção do trato urinário, hematúria transitória, uroabdome,  remoção prematura de cateter e obstrução ou remoção incompleta do cateter.  (FOSSUM, 2019). 

Pode ocorrer incontinência fecal e urinária, se os nervos forem lesados durante  a dissecção ao redor da uretra pélvica. A uretrostomia perineal está associada  a uma alta ocorrência de infecção pós-operatória do trato urinário.  Uretrostomias pré-púbica, subpúbica e pélvica devem ser consideradas apenas  como procedimentos de salvamento porque estão associadas a diversas  complicações, incluindo infecção do trato urinário, irritação da pele periestomal  ou necrose, e incontinência urinária. Prolapso retal também tem sido reportado  como consequência de uretrostomia perineal em gatos. Pielonefrite, falência  renal causada por estágio final de doença renal, disfunção neurológica,  alcalose metabólica hiperclorêmica e diarreia com irritação perineal  subsequente são comuns às complicações de desvio urinário ureterocolônico  (FOSSUM, 2019). 

O prognóstico em casos semelhantes está diretamente associado à  precocidade do diagnóstico, à extensão da lesão e à técnica cirúrgica  empregada (NYLAND; MATTOON, 2014). Neste trabalho, a utilização de  exames de imagem, especialmente a uretrocistografia retrógrada, foi  fundamental para a confirmação diagnóstica, corroborando a literatura que  reconhece este exame como padrão-ouro para a avaliação de rupturas uretrais  (CÔTÉ, 2002). 

Em comparação a outros relatos, o presente caso reforça que a associação  entre técnicas de imagem, análise do tipo de urólito e abordagem cirúrgica  individualizada aumenta as chances de recuperação, apesar das possíveis  sequelas urinárias. Dessa forma, evidencia-se a importância de considerar tanto o manejo conservativo quanto a intervenção cirúrgica, avaliando  criteriosamente cada caso. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O caso descrito demonstra que a ruptura parcial de uretra prostática em cães,  embora rara, deve ser considerada em pacientes com histórico de urolitíase e  sinais de obstrução urinária grave. O diagnóstico precoce por meio de exames  contrastados e ultrassonografia transoperatória mostrou-se essencial para a  definição da conduta terapêutica. 

A tentativa inicial de tratamento conservativo é válida em rupturas parciais, mas  a ausência de cicatrização adequada pode demandar abordagem cirúrgica. A  prostatectomia parcial associada à anastomose uretrovesical apresentou-se  como alternativa eficaz, permitindo recuperação funcional satisfatória do  paciente. 

Este estudo contribui para a literatura veterinária ao reforçar a necessidade de  integração entre diagnóstico por imagem, suporte clínico e técnicas cirúrgicas  avançadas, além de evidenciar a importância de se ampliar os relatos clínicos  sobre esta condição, para consolidar protocolos de diagnóstico e tratamento  mais precisos.

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