RESISTÊNCIA BACTERIANA E SEU IMPACTO NA SAÚDE PÚBLICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509071415


Pedro Negreiros Lemos1
Ana Beatriz Martins Gervásio2
Maria Luiza Mota Vidal3
Laurita Soares Zica4


Resumo

A resistência bacteriana aos antimicrobianos constitui-se como uma das mais graves ameaças globais à saúde, implicando elevação das taxas de morbimortalidade, aumento significativo dos custos hospitalares e redução da eficácia terapêutica de antibióticos consagrados. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que, até 2050, infecções por microrganismos resistentes poderão ocasionar aproximadamente 10 milhões de mortes anuais, superando os óbitos por câncer. O presente trabalho objetiva discutir os determinantes da resistência bacteriana, seus impactos clínicos, epidemiológicos e econômicos, bem como as estratégias de vigilância e controle aplicáveis ao Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de uma revisão integrativa da literatura que evidenciou que a resistência bacteriana está associada principalmente ao uso indiscriminado de antibióticos em ambientes hospitalares, comunitários e na agropecuária. A análise aponta que o fortalecimento das políticas públicas de antimicrobianos, a implementação de programas de stewardship, a vigilância epidemiológica e o investimento em pesquisa e inovação são medidas fundamentais para mitigar seus efeitos. Conclui-se que a resistência bacteriana é um desafio multifatorial e crescente, exigindo respostas articuladas entre diferentes setores da sociedade e políticas de saúde.

Palavras-chave: Resistência bacteriana; Saúde pública; Antimicrobianos; Infecções relacionadas à assistência à saúde; Vigilância epidemiológica.

Introdução

A resistência bacteriana a antimicrobianos (RAM) é definida como a capacidade de microrganismos anteriormente sensíveis a determinado fármaco desenvolverem mecanismos de escape que reduzem ou anulam sua eficácia. Esse fenômeno tem sido considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez maiores ameaças à saúde pública global, com projeções alarmantes de até 10 milhões de mortes anuais até 2050, caso medidas efetivas de controle não sejam adotadas.

No Brasil, dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) demonstram que as infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) causadas por bactérias multirresistentes, como Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemases e Acinetobacter baumannii, permanecem elevadas, especialmente em hospitais de alta complexidade. Contudo, o problema não se restringe ao ambiente hospitalar, alcançando também a comunidade e o setor agropecuário, onde antibióticos ainda são utilizados de forma indiscriminada. Esse contexto evidencia a necessidade de se compreender a resistência bacteriana dentro do paradigma da saúde única (One Health), que integra saúde humana, animal e ambiental.

Objetivo

Analisar o fenômeno da resistência bacteriana e discutir seus impactos na saúde pública, destacando fatores determinantes, consequências clínicas e econômicas, além de estratégias de prevenção, controle e vigilância no âmbito do SUS.

Metodologia

O presente estudo trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada entre junho e agosto de 2025. Foram consultadas as bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando os descritores em saúde (DeCS/MeSH): antimicrobial resistance, public health, multidrug-resistant bacteria e infection control.

Foram incluídos artigos publicados entre 2014 e 2025, em português e inglês, que abordassem a resistência bacteriana sob as perspectivas clínica, epidemiológica ou de saúde pública. Foram excluídos estudos exclusivamente laboratoriais, sem interface com a saúde coletiva. No total, 58 artigos foram selecionados para leitura integral, dos quais 32 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a análise final. Documentos oficiais da OMS, OPAS, ANVISA e Ministério da Saúde foram incorporados como fontes complementares.

Resultados e Discussão

A análise da literatura permitiu constatar que a resistência bacteriana decorre de uma multiplicidade de fatores interligados. O uso indiscriminado de antimicrobianos constitui-se como um dos principais determinantes, sendo frequente tanto na comunidade, por meio da automedicação e da prescrição inadequada, quanto nos ambientes hospitalares, onde muitas vezes há emprego excessivo de antibióticos de amplo espectro. Outro aspecto relevante identificado foi a utilização de antimicrobianos na agropecuária, prática ainda disseminada no Brasil e em outros países, com o intuito de promover crescimento animal e prevenir doenças, o que contribui para a seleção e disseminação de cepas resistentes.

O ambiente hospitalar se configura como um dos principais cenários de emergência e disseminação da resistência, especialmente em unidades de terapia intensiva, onde o uso intensivo de antimicrobianos se associa a falhas em medidas de prevenção e controle de infecção. Nesse contexto, microrganismos como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemases, Pseudomonas aeruginosa multirresistente e Acinetobacter baumannii são particularmente relevantes pela gravidade das infecções que ocasionam e pela escassez de opções terapêuticas disponíveis.

Do ponto de vista clínico, a resistência bacteriana tem implicado em maior mortalidade, prolongamento da permanência hospitalar, aumento do risco de complicações, necessidade de utilização de antibióticos de última linha — frequentemente mais caros e com perfil de toxicidade elevado — e redução significativa das opções terapêuticas. Já no âmbito da saúde pública, seus efeitos ultrapassam a esfera individual e repercutem em sobrecarga financeira aos sistemas de saúde, maior demanda por internações, comprometimento da segurança do paciente e ameaça à efetividade de procedimentos médicos de rotina, como cirurgias, quimioterapias e transplantes, os quais dependem da profilaxia antimicrobiana eficaz.

As evidências analisadas apontam ainda que programas de antimicrobial stewardship têm se mostrado eficazes na promoção do uso racional de antibióticos, na redução das taxas de resistência e na melhoria dos desfechos clínicos. No Brasil, destaca-se a atuação da ANVISA por meio da Rede Nacional de Vigilância de Resistência Microbiana em Serviços de Saúde (BR-GLASS), que integra esforços nacionais de monitoramento e subsidia a formulação de políticas públicas.

Por fim, a literatura enfatiza a necessidade de estratégias intersetoriais alinhadas ao conceito de saúde única (One Health), integrando os setores de saúde humana, animal e ambiental, uma vez que a resistência bacteriana ultrapassa fronteiras entre espécies e ecossistemas.

Conclusão

A resistência bacteriana representa um desafio crescente, complexo e multifatorial à saúde pública mundial e brasileira. Seus impactos vão além do campo clínico, comprometendo a eficácia de terapias antimicrobianas, elevando custos hospitalares e ameaçando conquistas essenciais da medicina moderna.

O enfrentamento dessa problemática demanda ações articuladas em múltiplos níveis, incluindo políticas públicas consistentes para o uso racional de antimicrobianos, fortalecimento da vigilância epidemiológica, capacitação contínua de profissionais de saúde, estímulo à pesquisa e inovação no desenvolvimento de novos antibióticos e terapias alternativas, além de estratégias de educação em saúde direcionadas à população.

Somente com uma abordagem coletiva, integrada e sustentada em escala global será possível reduzir a disseminação de bactérias multirresistentes e mitigar seus efeitos deletérios sobre a saúde pública.

Referências (ABNT)

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Boletim Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde: Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde. Brasília: ANVISA, 2023.

BRASIL. Ministério da Saúde. Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no âmbito da Saúde Única – PAN-BR. Brasília: MS, 2018.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global action plan on antimicrobial resistance. Geneva: WHO, 2015.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE (OPAS). Resistência aos antimicrobianos: relatório de situação na Região das Américas. Washington, D.C.: OPAS, 2021.

VENTOLA, C. L. The antibiotic resistance crisis: part 1: causes and threats. Pharmacy and Therapeutics, v. 40, n. 4, p. 277-283, 2015.

WILSON, H.; HOLMES, A. Antimicrobial stewardship interventions: a practical guide. Clinical Medicine, v. 20, n. 2, p. 124-128, 2020.


1negreirospedro291197@gmail.com. Centro Universitário Governador Ozanam Coelho – Unifagoc
2anabiamg@gmail.com. Universidade federal São João del rei
3mlmvidal@hotmail.com. Faculdade de Minas – FAMINAS BH
4Lauritasoares.zica@gmail.com. Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais