EFICÁCIA E SEGURANÇA DAS TERAPIAS EMERGENTES PARA INFECÇÕES POR BACTÉRIAS MULTIRRESISTENTES NA UTI: UMA REVISÃO DA LITERATURA

EFFICACY AND SAFETY OF EMERGING THERAPIES FOR MULTIDRUG-RESISTANT BACTERIAL INFECTIONS IN THE ICU: A REVIEW OF THE LITERATURE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509071408


Maurício Oliveira Boschilia1


Resumo 

Introdução: A resistência antimicrobiana (RAM) representa uma ameaça crítica em Unidades de  Terapia Intensiva (UTI), onde infecções por bactérias multirresistentes (BMR) estão associadas a  elevada mortalidade e opções terapêuticas escassas. A lacuna no desenvolvimento de novos fármacos  torna urgente a avaliação de tratamentos inovadores. Objetivo: Identificar e analisar a eficácia e  aplicabilidade de terapias emergentes contra bactérias resistentes para pacientes adultos hospitalizados  em UTI. Metodologia: Foi realizada uma revisão da literatura, com critérios com base na diretriz  PRISMA. As buscas foram conduzidas nas bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science e  SciELO, incluindo ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e meta-análises publicados  entre 2015 e 2025. Os desfechos primários avaliados foram mortalidade, cura clínica e erradicação  microbiológica. Resultados: A análise dos estudos demonstrou consistentemente que as novas  combinações de β-lactâmicos/inibidores de β-lactamase (ex: ceftazidima-avibactam, meropenem vaborbactam) e a cefalosporina siderófora cefiderocol apresentam maiores taxas de cura clínica, menor  mortalidade e, notavelmente, menor incidência de nefrotoxicidade em comparação com terapias  convencionais (ex: colistina) para o tratamento de infecções por Gram-negativos resistentes. Terapias  não tradicionais, como a fagoterapia, mostraram alta eficácia em estudos preliminares, e agentes  biológicos, como a lisina exebacase, demonstraram benefício como terapia adjuvante em infecções  graves por S. aureus resistente. Conclusão: Existem evidências robustas que suportam uma mudança  de paradigma no tratamento de infecções por BMR na UTI, favorecendo o uso de novos  antimicrobianos mais seguros e eficazes. Terapias inovadoras representam uma fronteira promissora,  mas necessitam de mais estudos de alta qualidade para sua plena incorporação na prática clínica. 

Palavras-chave: Terapia Intensiva, Resistência a Múltiplos Medicamentos, Terapias Emergentes,  Novos Antibióticos, Fagoterapia. 

Abstract 

Introduction: Antimicrobial resistance (AMR) represents a critical threat in Intensive Care Units (ICUs), where  infections by multidrug-resistant (MDR) bacteria are associated with high mortality and scarce therapeutic  options. The gap in the development of new drugs makes the evaluation of innovative treatments urgent.  Objective: To identify and analyze the efficacy and applicability of emerging therapies against resistant bacteria  for adult patients hospitalized in the ICU. Methods: A literature review was carried out, with criteria based on  the PRISMA guideline. Searches were conducted in the PubMed, Scopus, Web of Science, and SciELO  databases, including randomized controlled trials, systematic reviews, and meta-analyses published between  2015 and 2025. The primary outcomes evaluated were mortality, clinical cure, and microbiological eradication.  Results: The analysis of the studies consistently demonstrated that new beta-lactam/beta-lactamase inhibitor  combinations (e.g., ceftazidime-avibactam, meropenem-vaborbactam) and the siderophore cephalosporin  cefiderocol are associated with higher rates of clinical cure, lower mortality, and notably, a lower incidence of  nephrotoxicity compared to conventional therapies (e.g., colistin) for the treatment of resistant Gram-negative  infections. Non-traditional therapies, such as phage therapy, showed high efficacy in preliminary studies, and  biological agents, like the lysin exebacase, demonstrated benefit as an adjunctive therapy in severe resistant S.  aureus infections. Conclusion: There is robust evidence to support a paradigm shift in the treatment of MDR  infections in the ICU, favoring the use of newer, safer, and more effective antimicrobial agents. Innovative  therapies represent a promising frontier but require further high-quality studies for their full incorporation into  clinical practice. 

Keywords: Intensive Care, Drug Resistance, Multiple, Emerging Therapies, New Antibiotics, Phage Therapy.

1. INTRODUÇÃO 

A resistência antimicrobiana (RAM) representa uma das mais proeminentes ameaças à  saúde pública global, com potencial para reverter décadas de avanços médicos e inaugurar  uma “era pós-antibiótica” (World Health Organization, 2022). Projeções indicam que, na ausência de intervenções eficazes, infecções causadas por patógenos resistentes poderão resultar  em 10 milhões de óbitos anuais até 2050, superando a mortalidade por câncer (O’Neil, 2016).  Este cenário é particularmente exacerbado nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), que funcionam como epicentros para a seleção e disseminação de bactérias multirresistentes (BMR).  A combinação de pacientes imunocomprometidos, uso frequente de procedimentos invasivos  e alta pressão seletiva por antibióticos de amplo espectro cria um ambiente ideal para a proliferação desses microrganismos. 

Nas UTIs, as infecções associadas a patógenos do grupo ESKAPE (Enterococcus faecium, Staphylococcus aureus, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii, Pseudomo nas aeruginosa e espécies de Enterobacter) agravam significativamente os desfechos clínicos.  Pacientes acometidos por essas bactérias apresentam taxas de mortalidade mais elevadas, prolongamento do tempo de internação e um substancial aumento nos custos assistenciais, impondo um pesado fardo aos sistemas de saúde (Bassetti et al., 2018; Zhen et al., 2019). A velocidade com que esses microrganismos desenvolvem novos mecanismos de resistência supera o ritmo de desenvolvimento de novos fármacos, gerando um hiato terapêutico crítico. 

Em resposta a essa crise, um conjunto de terapias emergentes têm sido desenvolvido, incluindo novos antimicrobianos, fagoterapia e estratégias de imunoterapia. Embora promissoras, a aplicabilidade clínica dessas novas abordagens no ambiente da UTI ainda é um desafio,  visto que sua implementação segura e eficaz depende de uma compreensão aprofundada de  suas propriedades farmacocinéticas, espectro de ação e adequação ao paciente crítico (Theure tzbacher et al., 2020). A ausência de diretrizes clínicas consolidadas para guiar o uso dessas  novas ferramentas terapêuticas evidencia uma lacuna de conhecimento que precisa ser urgentemente preenchida. 

Diante do exposto, o presente estudo justifica-se pela necessidade de sistematizar as evidências científicas disponíveis. O objetivo desta revisão é identificar e analisar criticamente as  terapias emergentes contra bactérias resistentes, avaliando sua eficácia e aplicabilidade para o  tratamento de pacientes em Unidades de Terapia Intensiva.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1. A Resistência Antimicrobiana no Ambiente de Terapia Intensiva 

A resistência antimicrobiana (RAM) é um fenômeno evolutivo pelo qual  microrganismos, notadamente as bactérias, adquirem a capacidade de sobreviver à exposição  a fármacos que antes seriam letais. A base genética dessa resistência reside em mecanismos  intrínsecos ou adquiridos, que incluem a produção de enzimas inativadoras de antibióticos  (como as beta-lactamases de espectro estendido e carbapenemases), modificações no sítio alvo do fármaco que impede sua ligação (a exemplo de alterações em proteínas ligadoras de  penicilina – PBPs) e a superexpressão de bombas de efluxo que removem ativamente o  antimicrobiano do interior da célula bacteriana (Murray; Rosenthal; Pfaller, 2022). 

Nesse contexto, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) configura-se como um  ecossistema de alta pressão para a seleção e disseminação da RAM. A combinação de  pacientes em estado crítico, frequentemente imunocomprometidos e submetidos a  procedimentos invasivos (como ventilação mecânica e cateterização vascular), com o uso  intensivo de antibióticos de amplo espectro, cria as condições ideais para a emergência de  cepas multirresistentes (Bassetti et al., 2018). Neste cenário, os patógenos do grupo ESKAPE  (Enterococcus faecium, Staphylococcus aureus, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter  baumannii, Pseudomonas aeruginosa e espécies de Enterobacter) destacam-se por sua  notória capacidade de “escapar” do arsenal terapêutico convencional, sendo responsáveis por  uma parcela significativa das infecções nosocomiais graves e de difícil manejo clínico (Zhen  et al., 2019). 

2.2. O Vácuo Terapêutico e a Crise no Desenvolvimento de Novos Antibióticos 

Paralelamente à escalada da RAM, observa-se um declínio acentuado no  desenvolvimento de novas classes de antibióticos. A “era de ouro” das descobertas, entre 1940  e 1960, deu lugar a um período de estagnação. Este fenômeno é multifatorial, derivado de  desafios científicos na identificação de novos alvos moleculares e, principalmente, de um  modelo econômico insustentável. O alto custo, o longo tempo de pesquisa e desenvolvimento  e o baixo retorno financeiro tornaram o investimento em novos antimicrobianos pouco  atraente para a indústria farmacêutica (Theuretzbacher et al., 2020). Essa dissonância entre a  crescente demanda clínica por tratamentos eficazes contra bactérias multirresistentes (BMR) e a escassez de novas moléculas no pipeline de desenvolvimento criou um perigoso vácuo  terapêutico, impulsionando a busca por estratégias inovadoras. 

2.3. Paradigmas de Terapias Emergentes para Superar a Resistência 

Em resposta a este vácuo terapêutico, diversas estratégias emergentes buscam  contornar os mecanismos de resistência estabelecidos, explorando novos modos de ação. 

A primeira abordagem consiste em otimizar o arsenal existente. As novas  combinações de β-lactâmicos com inibidores de β-lactamase (BL/BLI), como ceftazidima avibactam e meropenem-vaborbactam, exemplificam essa estratégia. Nelas, o componente  inibidor (avibactam, vaborbactam) protege o antibiótico β-lactâmico da degradação por  enzimas como as carbapenemases (ex: KPC), restaurando sua atividade contra patógenos  antes resistentes. O inibidor liga-se ao sítio ativo da β-lactamase, neutralizando-a e permitindo que o β-lactâmico exerça sua função de inibir a síntese da parede celular bacteriana (Brunton;  Chabner; Knollmann, 2012). Dentro dessa linha de inovação, destaca-se o cefiderocol, uma  cefalosporina siderófora que emprega uma estratégia de “Cavalo de Troia”. Sua molécula se  liga ao ferro e utiliza os sistemas de transporte ativo deste íon para penetrar no espaço  periplasmático bacteriano, contornando barreiras de resistência como porinas e bombas de  efluxo. No interior da bactéria, o fármaco se dissocia do ferro e inibe a síntese da parede  celular (Choi; Mccarthy, 2018). 

Um segundo paradigma, ainda mais inovador, afasta-se dos antibióticos clássicos. A  fagoterapia utiliza vírus bacteriófagos que infectam e lisam bactérias de forma altamente  específica. O ciclo lítico se inicia com a adsorção do fago a receptores na superfície  bacteriana, seguida pela injeção de seu material genético. O vírus assume o controle da  maquinaria celular para se replicar e, ao final, produz endolisinas, enzimas que degradam a  parede celular por dentro, causando a lise e morte da bactéria (Brunton; Chabner; Knollmann,  2012). A lisinoterapia representa uma evolução dessa abordagem: em vez de usar o fago  inteiro, utiliza-se a enzima (endolisina) de forma isolada, como a exebacase. Esta enzima,  aplicada externamente, cliva ligações essenciais no peptidoglicano, causando uma rápida  destruição da parede celular e morte bacteriana, inclusive em células em estado de dormência  metabólica (Hetzler et al., 2022). 

Finalmente, um terceiro paradigma foca em “desarmar” a bactéria em vez de matá-la. As  terapias anti-virulência, como os anticorpos monoclonais (mAbs), neutralizam fatores de virulência essenciais para a patogênese. O suvratoxumabe, por exemplo, é um mAb que se  liga especificamente à alfa-toxina do S. aureus, uma citotoxina que forma poros nas  membranas das células do hospedeiro. Ao neutralizar a toxina, o anticorpo impede o dano  tecidual e facilita a ação do sistema imune para eliminar a infecção. A vantagem teórica dessa  abordagem é a menor pressão seletiva para o desenvolvimento de resistência, uma vez que a  sobrevivência do patógeno não é diretamente ameaçada (Brunton; Chabner; Knollmann,  2012). 

Esses diferentes paradigmas representam as principais vias de pesquisa e desenvolvimento  que podem fornecer as ferramentas necessárias para enfrentar as infecções por BMR em  pacientes críticos na UTI. 

3. METODOLOGIA  

Esta revisão é estruturada com base em critérios da diretriz PRISMA (Preferred  Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analysis) para assegurar transparência,  rigor e reprodutibilidade metodológica. 

Critérios de Elegibilidade 

  • Período: Serão consideradas publicações dos últimos 10 anos. 
  • Tipos de Estudos: Serão incluídos ensaios clínicos randomizados (ECRs), revisões  sistemáticas e meta-análises que investigam a eficácia e segurança de terapias  emergentes contra bactérias multirresistentes em ambiente de UTI. Estudos pré clínicos e relatos de caso serão excluídos. Para terapias radicalmente novas onde ECRs  são inexistentes, revisões sistemáticas de estudos observacionais ou séries de casos  poderão ser consideradas para descrever o estado da arte, com a devida análise crítica  do nível de evidência. 
  • Línguas: Serão incluídos estudos publicados em inglês, português ou espanhol.
  • População (P): Pacientes adultos (≥18 anos) hospitalizados em Unidade de Terapia  Intensiva (UTI) com infecções documentadas por bactérias Gram-negativas ou Gram positivas resistentes a múltiplos fármacos (MDR), extensivamente resistentes (XDR)  ou pan-resistentes (PDR). 
  • Intervenção (I): Administração de terapias antimicrobianas emergentes, incluindo,  mas não se limitando a: 

o Novos antibióticos (ex: cefiderocol, meropenem-vaboractam, plazomicina).

o Terapia com fagos. 

o Anticorpos monoclonais contra alvos bacterianos ou toxinas. 

o Inibidores de virulência.

  • Comparador (C): O comparador será o tratamento padrão (standard-of-care) para  infecções por bactérias resistentes na UTI, que pode incluir polimixinas (ex: colistina),  tigeciclina, ou os melhores agentes disponíveis com base em testes de suscetibilidade  in vitro.  
  • Outcomes (Desfechos) (O): 

o Primários: 

1. Mortalidade em 28 dias (ou mortalidade hospitalar). 

2. Cura clínica (resolução de sinais e sintomas da infecção). 

3. Erradicação microbiológica (desaparecimento do patógeno inicial). 

o Secundários: 

1. Tempo de internação na UTI e hospitalar. 

2. Eventos adversos graves, com destaque para nefrotoxicidade e  neurotoxicidade. 

3. Desenvolvimento de resistência secundária à terapia emergente. 

Estratégia de Busca 

Será realizada uma busca metódica nas bases de dados eletrônicas  PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e SciELO. A estratégia será adaptada para a  sintaxe de cada base, combinando descritores controlados (como MeSH terms no PubMed) e  termos livres. 

  • Combinações de Termos (inglês): 

o (“Drug Resistance, Multiple, Bacterial” [MeSH] OR “Multidrug-Resistant” OR  “MDR” OR “XDR” OR “Pan-Resistant”) 

o AND (“Intensive Care Units” [MeSH] OR “ICU” OR “Critically Ill”)

o AND (“Phage Therapy” [MeSH] OR “Bacteriophage Therapy” OR  “Cefiderocol” OR “Meropenem-vaboractam” OR “Antibodies, Monoclonal”  [MeSH] OR “Virulence Factors/antagonists & inhibitors” [MeSH] OR  “emerging therapies”) 

  • Filtros: A busca será limitada a estudos em humanos, adultos (≥18 anos) e publicados  nos últimos 10 anos. 

Seleção dos Estudos

A seleção foi realizada em duas fases por dois revisores independentes.

1. Fase 1 (Triagem): Análise de títulos e resumos. Artigos que não atenderem  claramente aos critérios de inclusão serão excluídos. 

2. Fase 2 (Elegibilidade): Leitura completa dos artigos pré-selecionados para  confirmação da elegibilidade. 

Divergências entre os revisores em qualquer uma das fases serão resolvidas por  consenso ou, se necessário, com a avaliação de um terceiro revisor. 

Extração de Dados 

Os dados dos estudos selecionados serão extraídos por dois revisores de forma  independente, utilizando um formulário padronizado em planilha eletrônica. As informações  extraídas incluirão: 

  • Identificação do estudo: Autores, ano, periódico e país. 
  • Desenho do estudo: Tipo de estudo (ECR, coorte, etc.). 
  • Características da população: Tamanho da amostra, idade média, sexo, escores de  gravidade (ex: APACHE II, SOFA), tipo de infecção (ex: pneumonia associada à  ventilação, sepse de foco abdominal) e patógeno(s) isolado(s). 
  • Detalhes da intervenção e do comparador: Fármaco(s), dose, via de administração e  duração do tratamento. 
  • Dados de desfechos: Dados numéricos para os desfechos primários e secundários,  incluindo mortalidade, taxas de cura, eventos adversos e tempo de internação.
  • Financiamento e conflitos de interesse: Fontes de financiamento e potenciais  conflitos de interesse declarados pelos autores. 

Síntese dos Dados 

A síntese dos resultados será predominantemente narrativa, organizando os achados  por tipo de terapia emergente. 

1. Novos Antibióticos (ex: Cefalosporinas sideróforas, combinações β lactâmico/inibidor de β-lactamase): Análise comparativa de eficácia e segurança  frente às terapias padrão. 

2. Terapias Não-Tradicionais (Fagos, Anticorpos Monoclonais): Descrição dos  resultados de ensaios clínicos, com foco na aplicabilidade prática (ex: necessidade de  fagos específicos, custos) e perfil de segurança.

Os dados quantitativos de ECRs e meta-análises serão apresentados em tabelas-resumo  para facilitar a comparação direta dos desfechos. A discussão integrará os achados com as  diretrizes clínicas atuais sobre o manejo de infecções resistentes e destaca as lacunas de  conhecimento e as direções para pesquisas futuras. 

4. RESULTADOS 

4.1. Quadro Comparativo de Artigos

5. DISCUSSÕES 

A análise agregada dos estudos selecionados fornece um panorama robusto sobre o  impacto clínico das terapias emergentes para bactérias multirresistentes, com implicações  diretas para a prática em Unidades de Terapia Intensiva. Os resultados indicam um ponto de  inflexão no manejo de infecções graves, especialmente as causadas por Gram-negativos  resistentes a carbapenêmicos (CRE), ao mesmo tempo que revelam os desafios e as promessas  de abordagens terapêuticas não convencionais. 

5.1 A Consolidação dos Novos Inibidores de β-Lactamase e Cefalosporinas Sideróforas 

O conjunto de evidências mais forte e consistentes emerge dos estudos sobre as novas  combinações de β-lactâmicos/inibidores de β-lactamase (BL/BLI) e o cefiderocol. O ensaio  clínico TANGO II (Wunderink et al., 2018) estabeleceu um marco ao demonstrar a superioridade do meropenem-vaborbactam sobre a melhor terapia disponível (frequentemente  à base de polimixinas) para infecções por CRE, com benefícios duplos: aumento da taxa de  cura clínica e, crucialmente, redução da mortalidade e da nefrotoxicidade. Este achado é  fortemente corroborado por múltiplas meta-análises. O estudo de Chen et al. (2024) reforça  essa conclusão para a ceftazidima-avibactam, que não só reduziu a mortalidade em mais de  50% em comparação com as polimixinas, mas também diminuiu drasticamente o risco de  lesão renal aguda. A análise de custo-efetividade de Bianchini et al. (2022) sintetiza o impacto  prático desses achados, concluindo que, apesar do custo de aquisição mais elevado, esses  novos agentes são custo-efetivos precisamente por reduzirem a mortalidade e os eventos  adversos graves, como a insuficiência renal. 

O cefiderocol, por sua vez, demonstrou não inferioridade ao meropenem para o  tratamento de pneumonia nosocomial no estudo APEKS-NP (Wunderink et al., 2021),  validando seu uso nesse cenário crítico. Além disso, a meta-análise de Risco-Risco et al.  (2024) sugere um benefício de sobrevida com o cefiderocol, especialmente em infecções por  Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos (CRAB), um patógeno de extrema  dificuldade terapêutica. Coletivamente, esses dados de alta qualidade (ECRs e meta-análises)  fundamentam uma mudança de paradigma, posicionando os novos BL/BLIs e o cefiderocol  como a terapia de escolha em detrimento das polimixinas para infecções graves por CRE e  outros Gram-negativos resistentes em pacientes críticos. 

5.2 Terapias Não Convencionais: Sinais Promissores e Lições Importantes

As terapias que fogem do mecanismo de ação dos antibióticos tradicionais  apresentaram resultados heterogêneos, porém instrutivos. A fagoterapia, avaliada na revisão  sistemática de Aranaga et al. (2022), demonstrou uma taxa de eficácia notável (85%) e um  perfil de segurança excelente em mais de 150 pacientes, a maioria em uso compassivo. Este  achado é extremamente promissor, sugerindo que os fagos podem ser uma ferramenta  poderosa. Contudo, a natureza dos estudos incluídos (majoritariamente séries de casos)  impede conclusões definitivas sobre sua eficácia comparativa, reforçando a necessidade  urgente de ensaios clínicos randomizados e controlados para validar essa abordagem. No campo dos agentes biológicos, observa-se uma dicotomia. A lisina exebacase,  utilizada como terapia adjuvante no estudo de Fowler Jr. et al. (2020), alcançou uma melhora  clínica e de mortalidade surpreendentemente alta em pacientes com bacteremia por S. aureus  resistente à meticilina (MRSA). Este é um forte sinal de que agentes com atividade lítica  direta podem potencializar significativamente o efeito dos antibióticos convencionais em infecções de alta gravidade. Em contrapartida, o anticorpo monoclonal suvratoxumab não  conseguiu prevenir a pneumonia por S. aureus em pacientes de UTI colonizados (François et  al., 2021). O fracasso dessa estratégia profilática sugere que a neutralização de um único fator  de virulência pode ser insuficiente para impedir a progressão da doença em um hospedeiro  criticamente enfermo, onde a interação patógeno-hospedeiro é multifatorial e complexa. 

5.3 Limitações da Evidência e Implicações Futuras 

Esta revisão apresenta limitações importantes que devem ser reconhecidas. Observou-se heterogeneidade metodológica entre os estudos (diferenças de desenho, critérios de  desfecho, doses e seguimento). Também há escassez de ECRs de fase 3 para terapias não  convencionais (fagoterapia, lisinas), e muitos estudos são de fase precoce ou séries de casos  com pequeno tamanho amostral, limitando a generalização. Além disso, dados de seguimento  são curtos, impedindo avaliação adequada da emergência de resistência aos novos agentes e  de efeitos adversos de longo prazo. Por fim, fatores pragmáticos — custo, disponibilidade  local e capacidade de vigilância microbiológica — nem sempre foram abordados, o que  compromete a aplicabilidade das recomendações a diferentes contextos. 

Essas limitações reforçam a necessidade de ECRs multicêntricos de fase 3, estudos de  seguimento longitudinal e programas de farmacovigilância e vigilância microbiológica pós introdução. Recomenda-se também que estudos futuros adotem definições operacionais  padronizadas para desfechos clínicos (por exemplo, mortalidade em 28 dias; IRA segundo  KDIGO) e incluam avaliações formais do risco de viés. 

6. CONCLUSÃO 

A presente revisão evidencia que as terapias emergentes contra bactérias multirresistentes  representam um avanço promissor na abordagem de infecções graves em pacientes internados  em unidades de terapia intensiva. Diversos agentes, como ceftazidima-avibactam,  meropenem-vaborbactam, cefiderocol, plazomicina, bem como estratégias inovadoras como  terapia fágica, endolisinas recombinantes e anticorpos monoclonais, têm demonstrado eficácia  clínica superior, melhor perfil de segurança e, em alguns casos, custo-efetividade favorável  em comparação às terapias tradicionais. 

Os achados reforçam a necessidade de integrar essas alternativas ao arsenal  terapêutico das UTIs, especialmente frente à ameaça crescente dos patógenos do grupo  ESKAPE e de cepas produtoras de carbapenemase. Contudo, apesar dos avanços, persistem  desafios importantes quanto à disponibilidade desses tratamentos em larga escala, à validação em subgrupos específicos de pacientes críticos e à necessidade de protocolos clínicos  padronizados para seu uso racional. 

Portanto, recomenda-se que futuras pesquisas priorizem estudos multicêntricos e  controlados com desfechos clínicos robustos, além de investimentos em vigilância  epidemiológica, políticas de acesso equitativo e educação continuada das equipes de saúde. A  incorporação consciente dessas terapias emergentes poderá, assim, representar um divisor de  águas no enfrentamento da resistência antimicrobiana em ambientes hospitalares de alta  complexidade.

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1Médico Residente de Clínica Médica do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Votuporanga-SP; e-mail:  mauricioboschilia@hotmail.com

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