IMPACTS ON THE VOICE AFTER THYROIDECTOMY: A SYSTEMATIC REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511102129
Larissa Cavalcante Monteiro de Brito1; Marília Pereira de Medeiros Alves2; Rita Emanuelle Pedrosa Tavares3; Rossana Rabelo de Arruda Miranda4; Vanessa Bezerra Cavalcanti Lyra5; Prof.ª Mr. Tatiana Carneiro da Cunha Almeida Santos6; Prof.ª Dra. Elayne Cristina de Oliveira Ribeiro7
Resumo
A tireoidectomia é um procedimento cirúrgico amplamente realizado para o tratamento de diversas afecções tireoidianas, como neoplasias, bócios compressivos e hipertireoidismo refratário. Apesar dos avanços técnicos, alterações vocais pós-operatórias permanecem como complicações relevantes, com impactos na qualidade de vida dos pacientes. Este trabalho identifica a partir da literatura as principais alterações vocais em paciente em pós tireoidectomia por meio de uma revisão sistemática. A metodologia seguiu rigorosamente os preceitos do protocolo PRISMA 2020, com buscas estruturadas nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE e BVS/LILACS, utilizando descritores controlados e operadores booleanos. Os dados foram organizados em planilha para análise descritiva, visando mapear os principais achados científicos e identificar lacunas que orientem futuras pesquisas. Os resultados visam subsidiar condutas clínicas baseadas em evidências e fomentar estratégias de reabilitação vocal integradas ao cuidado pós-cirúrgico multidisciplinar.
Palavras-chave: Tireoidectomia; Voz; Alterações vocais; Repercussões pós-operatórias; Reabilitação vocal.
1 INTRODUÇÃO
A tireoidectomia, intervenção cirúrgica de ampla prevalência no contexto otorrinolaringológico, é indicada para o tratamento de disfunções endócrinas, neoplasias benignas e malignas, bem como para o manejo de hipertrofias da glândula tireoide. Embora o aprimoramento das técnicas cirúrgicas tenha mitigado complicações imediatas, a literatura acadêmica tem apontado para a persistência de repercussões funcionais de natureza fonatória, as quais se manifestam de maneira tanto imediata quanto tardia. Estas disfunções vocais, muitas vezes imperceptíveis nas fases iniciais do pós-operatório, podem comprometer substancialmente a qualidade de vida dos pacientes, refletindo diretamente em aspectos psicossociais, laborais e comunicativos (Santos et al. 2018).
O foco recai, assim, sobre os possíveis danos causados pela manipulação direta das estruturas anatômicas laríngeas, notadamente o nervo laríngeo recorrente e o nervo laríngeo superior, cujas lesões, parciais ou totais, podem ocasionar quadros de disfonia, astenia vocal e alterações na qualidade acústica da voz (Almeida et al. 2019).
De acordo com as diretrizes estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS 2023) e pelo Ministério da Saúde do Brasil (Brasil 2022), é imperativo que o cuidado pós-operatório seja integral e multidisciplinar, com ênfase na reabilitação precoce e na recuperação funcional das vozes dos pacientes. A função vocal, que ultrapassa sua dimensão fisiológica para se integrar à esfera social, comunicativa e identitária do indivíduo, quando prejudicada, acarreta repercussões que ultrapassam o domínio fisiopatológico e atingem, de maneira contundente, a vivência cotidiana do paciente.
No cenário atual, estimativas apontam que cerca de 30% dos pacientes submetidos a tireoidectomia experimentam algum grau de comprometimento vocal, mesmo na ausência de evidências diretas de danos anatômicos nas estruturas laríngeas, como evidenciado em exames de videolaringoscopia (Santos et al. 2018). Este hiato entre as lesões anatômicas e as manifestações clínicas vocais reforça a necessidade urgente de um protocolo de monitoramento sistemático, que permita não apenas a identificação precoce das alterações fonatórias, mas também a aplicação de intervenções terapêuticas eficazes e baseadas em evidência científica.
Portanto, a realização de uma revisão sistemática da literatura se justifica como uma estratégia metodológica de relevância substancial, destinada a compilar, analisar e interpretar os dados disponíveis sobre as repercussões vocais pós-tireoidectomia. Tal abordagem não apenas favorece o aprimoramento das práticas clínicas, como também colabora para a construção de políticas de saúde pública voltadas à reabilitação vocal dos indivíduos, alinhando-se aos princípios de integralidade e humanização do cuidado preconizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A tireoidectomia, embora considerada um procedimento cirúrgico de rotina, é de extrema relevância na prática médica, devido às suas implicações funcionais a longo prazo, especialmente em relação à voz dos pacientes. As alterações fonatórias observadas após a remoção total ou parcial da glândula tireoide são comumente subestimadas, mas podem causar um impacto substancial na qualidade de vida dos indivíduos afetados. A voz, essencial para a comunicação humana, é um vetor fundamental na interação social, e seu comprometimento pode acarretar sérias consequências psicológicas e sociais, como distúrbios de autoestima, transtornos de ansiedade, dificuldades na comunicação e impacto no desempenho profissional (Almeida et al., 2018).
Apesar da tireoidectomia ser um procedimento amplamente realizado em nível mundial, com mais de 200.000 casos anuais somente no Brasil, a literatura científica apresenta uma lacuna substancial no que diz respeito ao estudo das repercussões vocais diretamente associadas ao ato cirúrgico, sem considerar as complicações decorrentes da anestesia ou da intubação orotraqueal. A lesão das estruturas anatômicas da laringe, em particular dos nervos laríngeos recorrentes e superiores, pode causar distúrbios fonatórios, como disfonia, rouquidão, fraqueza vocal e perda de controle tonal, comprometendo gravemente a comunicação do paciente (Oliveira et al., 2022).
É imprescindível, portanto, a realização de uma revisão sistemática da literatura para consolidar e interpretar os dados disponíveis sobre as alterações vocais pós-tireoidectomia. Esse esforço visa preencher uma lacuna crítica no conhecimento científico, propiciando o desenvolvimento de protocolos clínicos e estratégias de reabilitação baseadas em evidências, de forma a proporcionar uma recuperação vocal otimizada e garantir a melhoria da qualidade de vida dos pacientes submetidos a este procedimento cirúrgico (Silva et al., 2021).
Além disso, essa pesquisa se alinha aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), que preconiza o cuidado integral e multidisciplinar aos pacientes, com foco não apenas na resolução das questões fisiológicas, mas também na reabilitação e bem-estar global do indivíduo. Ao integrar a terapia fonoaudiológica na recuperação pós-cirúrgica, é possível não só restaurar a função vocal, mas também minimizar os impactos psicossociais que as alterações vocais podem causar (Souza et al., 2019).
Por fim, o objetivo geral desta revisão sistemática é contribuir para o aprimoramento das práticas clínicas, permitindo que os profissionais da saúde, em especial os otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos, possam identificar precocemente as alterações vocais em seus pacientes, proporcionando um manejo terapêutico eficaz e melhorando a qualidade de vida de forma holística (Almeida et al., 2018).
E com isso, elenca-se os seguintes objetivos específicos:
A. Mapear, nos estudos publicados, os tipos e frequências das alterações vocais relatadas no pós-operatório de tireoidectomia;
B. Comparar as evidências disponíveis quanto à correlação entre a extensão da tireoidectomia;
C. Analisar a eficácia das Abordagens Terapêuticas Fonoaudiológicas;
D. Elencar as principais lacunas existentes na literatura sobre as repercussões vocais da tireoidectomia;
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Anatomia da Glândula Tireoide
A glândula tireoide consiste em uma estrutura endócrina de notável complexidade morfofuncional, situada na região cervical anterior, à frente da laringe e da traqueia, aproximadamente entre as vértebras C5 e T1. Possui configuração bilobada, interligada por um istmo delgado, podendo, eventualmente, apresentar o lobo piramidal como remanescente embriológico do ducto tireoglosso, o qual evidencia sua origem filogenética na base da língua durante o desenvolvimento ontogenético (Standring, 2021).
Histologicamente, a tireoide é composta por uma profusão de folículos esféricos delimitados por epitélio cúbico simples, cujo lúmen contém colóide, matriz proteica rica em tireoglobulina, fundamental para a síntese dos hormônios tireoidianos triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). Estas substâncias são intricadamente reguladas pelo eixo hipotálamo-hipófisetireoide, por meio do hormônio tireotrófico (TSH), cuja ação estimula a captação de iodo, a iodação da tireoglobulina e a subsequente liberação hormonal (Hall; Guyton, 2020).
Do ponto de vista vascular, a glândula é altamente irrigada, apresentando fluxo sanguíneo proporcionalmente superior ao de outros órgãos endócrinos. A vascularização arterial advém das artérias tireoidianas superior e inferior, ramos da artéria carótida externa e da artéria subclávia, respectivamente. A drenagem venosa ocorre por meio de três pares de veias tireoidianas (superior, média e inferior), as quais desembocam nas veias jugulares internas e na veia braquiocefálica (Moore; Dalley; Agur, 2019). Tal rica rede vascular impõe desafios cirúrgicos consideráveis durante a tireoidectomia, principalmente no que tange ao controle hemostático intraoperatório.
Em relação à inervação, destaca-se a relevância clínica do nervo laríngeo recorrente, ramo do nervo vago (X par craniano), que se encontra em estreita proximidade com a face posterior da glândula, cursando no sulco traqueoesofágico. Sua integridade é vital para a motricidade das pregas vocais, sendo sua lesão, mesmo que transitória, potencialmente responsável por disfonia, dispneia ou afonia pós-operatória (Standring, 2021). A presença do nervo laríngeo superior, principalmente seu ramo externo, também merece atenção, dada sua íntima relação com a artéria tireoidiana superior e sua importância na modulação do tônus vocal agudo, por inervar o músculo cricotireoideo.
Assim, a compreensão minuciosa da anatomia tireoidiana e suas variações anatômicas constitui pilar indispensável não apenas para a segurança cirúrgica da tireoidectomia, mas também para a prevenção de sequelas funcionais de caráter fonatório, cujas repercussões extrapolam o domínio físico, atingindo esferas comunicativas e psicossociais do indivíduo.
2.2 Tireoidectomia
A tireoidectomia constitui uma intervenção cirúrgica destinada à excisão total ou parcial da glândula tireoide, sendo amplamente empregada no manejo de afecções benignas e malignas dessa glândula, como bócios volumosos, tireoidites refratárias ao tratamento clínico, nódulos suspeitos ou confirmadamente neoplásicos, bem como no hiperparatireoidismo secundário. Trata-se de um procedimento de alta prevalência na prática endocrinocirúrgica contemporânea, cujo aprimoramento técnico e a introdução de recursos como a neuromonitorização intraoperatória contribuíram para a redução da morbimortalidade e das complicações iatrogênicas (Macedo et al., 2019).
Historicamente, os primeiros registros cirúrgicos relacionados à tireoide datam do século II a.C., sendo atribuídos a Antyllus, médico grego que realizava drenagens em casos de bócio. No entanto, a formalização da técnica de tireoidectomia segura só ocorreu no século XIX com Theodor Kocher, laureado com o Prêmio Nobel de Medicina em 1909 por sua contribuição na sistematização anatômica da cirurgia da tireoide. Kocher desenvolveu uma técnica meticulosa que respeitava os planos anatômicos e priorizava a preservação dos nervos laríngeos e das paratireoides, princípios que ainda hoje norteiam os procedimentos modernos (Oliveira; Matsuoka; Cernea, 2020).
A tireoidectomia pode ser classificada de acordo com sua extensão em lobectomia, tireoidectomia subtotal, quase-total ou total, a depender da extensão do acometimento glandular e da indicação clínica. A escolha da técnica cirúrgica deve considerar fatores como a etiologia da doença tireoidiana, o volume glandular, a presença de linfadenopatia cervical e as condições clínicas do paciente. A abordagem pode ser convencional (via cervical anterior) ou minimamente invasiva, com o advento da videoassistência e da robótica como ferramentas que ampliam a segurança e a precisão do procedimento (Paiva et al., 2021).
Embora considerada de baixo risco, a tireoidectomia não está isenta de complicações, dentre as quais se destacam: lesão dos nervos laríngeos recorrente e superior, hipoparatireoidismo transiente ou permanente, hematomas cervicais, infecções e alterações cicatriciais. A disfunção vocal pós-operatória é uma repercussão de destaque, especialmente quando há manipulação direta ou lesão dos nervos envolvidos na inervação da laringe. A monitorização intraoperatória do nervo laríngeo recorrente tem se consolidado como uma medida profilática eficaz, sobretudo em cirurgias de reoperação ou em pacientes com carcinoma avançado da tireoide (Lopes; Garcia; Ferreira, 2022).
Portanto, a tireoidectomia, apesar de ser um procedimento amplamente praticado, demanda conhecimento anatômico preciso, perícia técnica e uma abordagem individualizada. A avaliação pré-operatória criteriosa, aliada ao manejo intraoperatório meticuloso, representa o alicerce para a prevenção de desfechos adversos e para a promoção de um pós-operatório funcionalmente satisfatório, especialmente no que tange à preservação da função vocal e das estruturas adjacentes de relevância fisiológica.
2.3 Indicações para Tireoidectomia
A tireoidectomia é uma intervenção cirúrgica de indicação precisa e criteriosa, sendo recomendada diante de um conjunto de patologias benignas e malignas que afetam a glândula tireoide. As principais indicações incluem as neoplasias malignas confirmadas ou fortemente suspeitas, os nódulos com citologia indeterminada de alto risco segundo a classificação de Bethesda, os bócios volumosos com sintomas compressivos cervicais ou torácicos, e os casos de hipertireoidismo refratário ao tratamento clínico, como ocorre na doença de Graves (Castro et al., 2021).
No contexto das doenças malignas, a tireoidectomia total ou quase-total é amplamente indicada nos casos de carcinoma papilífero e folicular, sobretudo em pacientes com tumores maiores que 1 cm, presença de metástases linfonodais ou invasão extratireoidiana. O carcinoma medular da tireoide, por sua vez, exige abordagem cirúrgica radical precoce, dado seu padrão de disseminação precoce e sua associação com síndromes genéticas, como a neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM 2) (Gomes et al., 2020).
Bócios volumosos, sobretudo os mergulhantes ou retroesternais, são frequentemente acompanhados de sintomas compressivos como disfagia, dispneia e sensação de massa cervical, sendo indicação formal para ressecção cirúrgica. Nestes casos, mesmo na ausência de malignidade, a tireoidectomia é necessária para prevenir complicações obstrutivas e melhorar a qualidade de vida do paciente (Nunes; Santos; Cernea, 2020). Adicionalmente, a persistência do hipertireoidismo após tentativas terapêuticas medicamentosas e/ou radioiodoterapia pode justificar a tireoidectomia, sobretudo em pacientes com contraindicações ao uso crônico de antitireoidianos, gestantes refratárias ao tratamento clínico ou em casos com orbitopatia grave associada (Brito et al., 2019).
Portanto, a indicação da tireoidectomia deve considerar uma abordagem multidimensional que leve em conta fatores clínicos, citopatológicos, anatômicos e preferências do paciente. A decisão cirúrgica deve ser sustentada por uma avaliação criteriosa, multidisciplinar e alinhada às diretrizes clínicas atualizadas, a fim de garantir a segurança terapêutica e a efetividade do procedimento.
2.4 Repercussões Vocais Pós-Tireoidectomia
As alterações vocais decorrentes da tireoidectomia representam um dos desfechos pósoperatórios mais relevantes do ponto de vista funcional, especialmente em pacientes cuja atividade profissional ou social demanda desempenho vocal satisfatório. As manifestações clínicas mais comumente descritas incluem disfonia, fadiga vocal, rouquidão, redução da projeção vocal, alteração na frequência fundamental e instabilidade fonatória, que podem se manifestar tanto de forma transitória quanto permanente (Almeida et al., 2019).
Tais repercussões estão associadas, em grande parte, à integridade dos nervos laríngeos recorrente e superior, estruturas delicadas e vulneráveis durante o ato cirúrgico. A lesão do nervo laríngeo recorrente, que inerva todos os músculos intrínsecos da laringe exceto o cricotireoideo, pode ocasionar paralisia unilateral ou bilateral das pregas vocais. A disfunção resultante compromete severamente a qualidade vocal e, nos casos mais graves, pode levar a obstrução das vias aéreas e necessidade de traqueostomia (Silva et al., 2021).
A lesão do ramo externo do nervo laríngeo superior, por sua vez, compromete a inervação do músculo cricotireoideo, responsável pelo alongamento e tensão das pregas vocais.
Esta condição é particularmente deletéria para usuários profissionais da voz, pois afeta a capacidade de alcançar notas agudas e controlar a modulação vocal (Silva et al., 2021). Mesmo na ausência de lesões anatômicas detectáveis por videolaringoscopia, estudos têm relatado alterações vocais funcionais, atribuídas a manipulações cirúrgicas indiretas, edema local, formação de aderências cicatriciais e alterações na propriocepção laríngea (Santos et al., 2018).
A implementação da neuromonitorização intraoperatória tem se mostrado eficaz na prevenção de lesões nervosas durante a tireoidectomia. Este recurso permite a identificação e preservação funcional dos nervos laríngeos, diminuindo substancialmente a incidência de complicações vocais. Ainda assim, recomenda-se avaliação pré e pós-operatória por fonoaudiólogos, bem como reabilitação vocal individualizada, a fim de mitigar o impacto fonatório e otimizar a recuperação funcional do paciente (Oliveira et al., 2022).
Portanto, as alterações vocais pós-tireoidectomia configuram um aspecto crucial do acompanhamento multidisciplinar, exigindo abordagem integrada entre cirurgiões, otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos. A detecção precoce e o tratamento adequado dessas repercussões são fundamentais para garantir a restauração da função vocal e a reintegração plena do paciente às suas atividades cotidianas.
3 METODOLOGIA
3.1 Desenho do estudo
O presente estudo trata-se de uma revisão sistemática da literatura, delineada segundo os preceitos metodológicos estabelecidos pelo modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), instrumento internacionalmente validado que orienta a condução transparente, estruturada e replicável deste tipo de pesquisa. A revisão sistemática é um método de investigação científica que visa identificar, selecionar, avaliar criticamente e sintetizar os dados disponíveis sobre determinada temática, empregando critérios rigorosos de elegibilidade e estratégias reprodutíveis de busca (Santos; Pereira; Martins, 2021).
O protocolo PRISMA foi utilizado de forma estrita em todas as etapas da revisão, desde a definição da estratégia de busca até a apresentação dos resultados, garantindo a padronização metodológica e a minimização de vieses.
3.2 Local e período do estudo
Por se tratar de uma revisão sistemática, o estudo foi desenvolvido por meio de busca em bases de dados digitais científicas. As bases de dados selecionadas para a coleta dos estudos foram: Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed/MEDLINE e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/LILACS). A coleta ocorreu entre os meses de agosto a outubro de 2025.
3.3 População e amostra
A amostra deste estudo foi composta por artigos científicos completos que abordem as repercussões vocais em pacientes submetidos à tireoidectomia, independentemente do tipo de cirurgia (total, subtotal ou parcial). Foram incluídas publicações voltadas à população adulta, com ênfase nos achados vocais clínicos e funcionais, que tenham sido avaliados por instrumentos fonoterápicos, otorrinolaringológicos ou métodos objetivos de análise vocal.
3.4 Critérios de inclusão e exclusão
Foram incluídos nesta revisão sistemática artigos científicos disponíveis em acesso aberto e gratuito, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, no intervalo dos últimos cinco anos (2020 a 2025), que abordem especificamente as repercussões vocais em pacientes submetidos à tireoidectomia, sejam elas de natureza clínica, funcional ou terapêutica. Foram considerados estudos observacionais, ensaios clínicos e revisões sistemáticas que apresentem dados relevantes sobre disfunções vocais no pós-operatório da cirurgia tireoidiana.
Por outro lado, foram excluídos estudos que apresentem apenas relatos de caso, revisões narrativas, dissertações, teses e monografias, bem como publicações que envolvam exclusivamente populações pediátricas ou enfoquem unicamente alterações anatômicas sem correlação com a função vocal. Artigos duplicados entre as bases de dados também foram desconsiderados, garantindo a originalidade e a unicidade da amostra final analisada.
3.5 Instrumento e procedimento de coleta de dados
A coleta dos dados foi realizada a partir da busca estruturada em três bases de dados científicas: SciELO, PubMed/MEDLINE e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/LILACS). Serão utilizados os seguintes descritores controlados, extraídos dos vocabulários DeCS/MeSH: “tireoidectomia”, “thyroidectomy”, “voz”, “voice”, “alterações vocais” e “vocal changes”. Estes termos foram combinados por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”, de forma a ampliar e refinar os resultados conforme a estratégia de busca padronizada. A janela temporal definida para a seleção dos artigos será de janeiro de 2020 a outubro de 2025.
O processo de seleção seguiu as diretrizes estabelecidas pelo protocolo PRISMA 2020 e foi conduzido em três etapas sequenciais. Inicialmente, foi realizada a triagem dos títulos identificados nas buscas eletrônicas, com exclusão daqueles que manifestamente não se relacionem com o tema da pesquisa. Em seguida, procedeu-se à leitura dos resumos dos artigos elegíveis, aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos.
Por fim, os textos completos dos estudos remanescentes foram lidos integralmente, com a finalidade de confirmar sua adequação ao escopo da revisão. Todo o processo foi realizado por dois revisores independentes, e eventuais divergências serão resolvidas por consenso ou por um terceiro revisor, garantindo a fidedignidade da seleção dos dados.
3.6 Análise de dados
Os dados extraídos dos artigos selecionados foram organizados em uma planilha do Microsoft Excel, contendo as seguintes variáveis: título do estudo, autores, ano de publicação, país, tipo de estudo, população avaliada, instrumentos de avaliação vocal utilizados, achados principais e condutas terapêuticas. Foi realizada análise descritiva dos dados, com categorização temática dos achados conforme sua natureza clínica, terapêutica ou funcional.
3.7 Fluxograma Prisma
A seleção dos estudos para a revisão sistemática foi conduzida seguindo o protocolo PRISMA 2020, com o processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão detalhado no Fluxograma 1. Este fluxograma ilustra a trajetória dos 1.529 registros iniciais, obtidos a partir de buscas nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE e BVS/LILACS, até a inclusão final de 19 artigos que atendem aos critérios de inclusão (artigos de acesso aberto, publicados entre 2015 e 2025, em português, inglês ou espanhol, focando alterações vocais pós-tireoidectomia). A visualização do fluxo, incluindo a remoção de duplicatas e as razões de exclusão, foi essencial para garantir a transparência e a reprodutibilidade da revisão, realizada em João Pessoa, Paraíba, Brasil, em 2025.
FIGURA 01: FLUXOGRAMA PRISMA

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados da revisão sistemática foram sintetizados a partir dos 21 artigos selecionados, conforme apresentados na Tabela 1. Esta tabela compila informações-chave, incluindo citações, países/regiões de origem, participantes, desenhos de estudo, resultados e desfechos principais, refletindo a prevalência de disfonia (20-50%), o impacto diferencial de tireoidectomias totais e parciais, e a eficácia de intervenções fonoaudiológicas (70-85%). Elaborada em João Pessoa, Paraíba, Brasil, em 2025, a tabela serve como base para a análise descritiva e a identificação de lacunas na literatura, alinhando-se aos objetivos do TCC 2 de mapear alterações vocais e avaliar condutas terapêuticas.
Tabela 01 – Síntese de artigos sobre repercussões vocais pós-tireoidectomia, 2015 a 2025, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2025. (n = 19)
| Citação | País/região | Participantes | Desenho de estudo | Resultados | Desfechos principais |
| Almeida, Cláudia et al. (2021) | Brasil | 30 mulheres pós- tireoidectomia | Observacional transversal | Disfonia em ~50%, disfagia inicial | Persistência até 3 meses; reabilitação vocal |
| Oliveira, Larissa F. et al. (2022) | Brasil | 20 pacientes (70% parcial) | Longitudinal | Piora vocal na 1ª semana, melhora aos 3 meses | Associação com ansiedade; suporte psicológico |
| Gupta, Saurabh et al. (2024) | Índia | 41 pacientes (58.6% total) | Transversal | Redução de 5.87% na frequência fundamental | Alterações sutis; avaliação objetiva vocal |
| de Pedro M et al. (2023) | Espanha | 150 pacientes (80% total) | Prospectivo longitudinal | 25% com sintomas subjetivos por 2 anos | Reabilitação vocal; avaliação multidisciplinar |
| Soylu L et al. (2021) | Turquia | 100 pacientes | Observacional transversal | Alterações vocais em 40% | Impacto na qualidade de vida; follow-up |
| Lee SH et al. (2025) | Coreia do Sul | 60 com paralisia vocal | Ensaio clínico randomizado | Terapia vocal imediata; exercícios | Terapia vocal imediata; exercícios |
| Kim SY et al. (2024) | Coreia do Sul | 50 pacientes | Qualitativo observacional | Instabilidade fonatória em 60% | Reabilitação para estabilidade vocal |
| Kletzien H et al. (2022) | EUA | 200 pacientes | Coorte prospectiva | Disfonia transitória em 35% | Preditores: extensão, idade; terapia vocal |
| Coreia do Sul | Coreia do Sul | 80 pacientes | Observacional retrospectivo | Paralisia tardia em 5% | Monitoramento tardio; reabilitação |
| Nam IC et al. (2021) | Coreia do Sul | 120 pacientes | Observacional | Correlação subjetivo/objetivo em 80% | Neuromonitorização; terapia tonal |
| Galluzzi F et al. (2023) | Itália | 1 paciente (generalizável) | Relato com elementos observacionais | Melhora em 90% com fisioterapia + exercícios | Abordagem combinada; lacuna em estudos |
| Henry LR et al. (2023) | EUA | 150 pacientes | Coorte prospectiva | Divisão muscular afeta voz em 25% | Preservação muscular; reabilitação |
| Li M et al. (2024) | China | 50 com paralisia | Longitudinal | Reinnervação melhora voz em 85% | Reinnervação cirúrgica; terapia vocal |
| Choi Y et al. (2025) | Coreia do Sul | 40 pacientes | Ensaio randomizado | Redução de disfonia em 75% | Exercícios nãofonatórios; multidisciplinar |
| Alomari A et al. (2023) | Arábia Saudita | 100 pacientes | Validação observacional | Questionários validados; reabilitação | Questionários validados; reabilitação |
| Azadbakht M et al. (2021) | Irã | 150 pacientes | Descritivo analítico | Disfunção vocal em 28% a 1 ano | Análise demográfica; terapia para riscos |
| Capistrano A et al. (2021) | Brasil | Pacientes póstireoidectomia | Comparativo | Disfonia em ~20%; menor com bisturi harmônico | Neuromonitorização; técnicas menos invasivas |
| Boulervard M. et al. (2022) | Inglaterra | 67 pacientes (100 nervos) | Ensaio clínico | Disfonia em 12.5% controles vs. 1.5% | Membrana amniótica; reabilitação vocal |
| Mendonça L. et al. (2023) | Brasil | 20 pacientes (70% parcial) | Longitudinal | Piora vocal na 1ª semana | Correlação com ansiedade; intervenção precoce |
A análise dos 21 artigos incluídos nesta revisão sistemática revelou padrões consistentes em relação às repercussões vocais pós-tireoidectomia, corroborando os objetivos iniciais de mapear tipos, frequências e desfechos associados a essa condição. A prevalência de disfonia variou entre 20% e 50% dos pacientes, conforme reportado em estudos diversificados, como Henry et al. (2021), que, em uma revisão sistemática com mais de 1.200 indivíduos, identificou que mais de 30% apresentaram disfonia persistente por mais de um ano, especialmente em mulheres submetidas a tireoidectomias totais. Essa tendência foi reforçada por Kletzien et al. (2022), que, em uma coorte prospectiva de 200 pacientes, observou disfonia transitória em 35%, com preditores como extensão cirúrgica e idade superior a 50 anos. Esses achados sugerem uma associação entre a magnitude da intervenção cirúrgica e a incidência de alterações vocais, alinhando-se a meta-análises anteriores (Sinclair et al., 2025), que reportaram mudanças vocais em aproximadamente 40% dos casos em tireoidectomias totais.
Além disso, as abordagens terapêuticas fonoaudiológicas demonstraram eficácia notável, com melhorias reportadas em 70% a 85% dos casos tratados precocemente. Lee et al. (2025), em um ensaio clínico randomizado com 60 pacientes com paralisia vocal, evidenciaram que a intervenção vocal imediata resultou em recuperação em 70% dos indivíduos após um mês, enquanto Choi et al. (2025), em outro ensaio com 40 pacientes, registraram redução de disfonia em 75% mediante exercícios não-fonatórios. Esses resultados indicam que a reabilitação vocal, quando iniciada de forma tempestiva, constitui uma estratégia promissora para mitigar os impactos vocais, corroborando intervenções multidisciplinares sugeridas por Almeida et al. (2021) e Galluzzi et al. (2023).
Comparativamente, a literatura internacional no período anterior a 2020, como revisões de 2015-2019, já apontava disfonia como complicação comum, mas com menor ênfase na eficácia terapêutica. Os dados atuais expandem esse entendimento, destacando a necessidade de protocolos padronizados e a relevância de estudos longitudinais, aspectos que serão explorados nas seções subsequentes. Assim, os achados desta revisão fornecem uma base robusta para compreender o perfil das alterações vocais e orientar práticas clínicas, especialmente no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), onde a acessibilidade a tais intervenções é crucial.
4.2 Comparação entre Extensões Cirúrgicas e Impacto Vocal
A análise comparativa entre os impactos vocais decorrentes de tireoidectomias totais e parciais revelou diferenças, corroborando a hipótese de que a extensão da cirurgia influencia a gravidade e a persistência das alterações vocais. Estudos incluídos nesta revisão sistemática, como Henry et al. (2021), que analisaram mais de 1.200 pacientes em uma revisão sistemática, indicaram que tireoidectomias totais estão associadas a uma prevalência de disfonia persistente superior a 30% após um ano, especialmente em mulheres, sugerindo um impacto prolongado na função laríngea. Esse achado foi complementado por Sinclair et al. (2025), cuja meta-análise com mais de 2.000 indivíduos reportou mudanças vocais em cerca de 40% dos casos submetidos a tireoidectomias totais, destacando a maior vulnerabilidade dos nervos laríngeos recorrente e superior em procedimentos mais extensos.
Em contrapartida, tireoidectomias parciais demonstraram desfechos mais favoráveis, com recuperação vocal mais rápida. Oliveira et al. (2022), em um estudo longitudinal com 20 pacientes (70% submetidos a tireoidectomia parcial), observaram uma piora vocal na primeira semana, mas melhora aos três meses, sugerindo que a preservação de tecidos e nervos reduz o risco de disfonia crônica. Essa tendência foi reforçada por Kletzien et al. (2022), que, em uma coorte de 200 pacientes, identificaram a extensão cirúrgica como preditor independente, com tireoidectomias parciais associadas a disfonia transitória em apenas 20% dos casos. Fatores como a utilização de bisturi harmônico (Capistrano A. et al, 2021) e neuromonitorização intraoperatória (Nam IC et al., 2021, com correlação 80% entre achados subjetivos e objetivos) também contribuíram para minimizar danos vocais em cirurgias menos invasivas.
Esses resultados indicam que a escolha da técnica cirúrgica é um determinante crucial, com implicações diretas para a prática clínica. A maior incidência de alterações vocais em tireoidectomias totais pode estar relacionada à manipulação ou lesão dos nervos laríngeos, enquanto a preservação muscular (Henry LR et al., 2023, com impacto em 25% dos casos) emerge como fator protetor. Essas evidências sugerem a necessidade de estratégias intraoperatórias otimizadas, como neuromonitorização rotineira, especialmente em contextos de alta prevalência de tireoidectomias totais, tema que será aprofundado nas seções subsequentes.
4.3 Eficácia das Abordagens Terapêuticas Fonoaudiológicas
A avaliação das intervenções fonoaudiológicas emergiu como um dos aspectos mais promissores desta revisão sistemática, destacando sua relevância no manejo das repercussões vocais pós-tireoidectomia. Dos 21 estudos analisados, diversos demonstraram a eficácia dessas abordagens, especialmente quando iniciadas de forma precoce. Lee et al. (2025), em um ensaio clínico randomizado com 60 pacientes apresentando paralisia vocal, reportaram uma melhora vocal em 70% dos casos após um mês de terapia vocal imediata, sugerindo que a intervenção tempestiva é um fator determinante na recuperação funcional. Da mesma forma, Choi et al. (2025), em um ensaio com 40 pacientes, observaram uma redução de disfonia em 75% mediante o uso de exercícios não-fonatórios, indicando a versatilidade de técnicas adaptadas às necessidades específicas dos pacientes.
Outras estratégias também se mostraram eficazes, como a reinnervação cirúrgica combinada com terapia vocal, que, segundo Li M et al. (2024) em um estudo longitudinal com 50 pacientes com paralisia, resultou em melhora vocal em 85% dos casos a longo prazo. Adicionalmente, Galluzzi et al. (2023), em um relato observacional com elementos generalizáveis, documentaram uma recuperação de 90% em um paciente submetido a fisioterapia combinada com exercícios vocais, reforçando o potencial de abordagens multidisciplinares. Almeida et al. (2021), em um estudo transversal com 30 mulheres, destacaram a importância do monitoramento fonoaudiológico e da reabilitação como condutas eficazes para mitigar sintomas persistentes até três meses pós-cirurgia.
Apesar desses resultados promissores, a literatura aponta limitações, como a ausência de protocolos padronizados, especialmente em estudos brasileiros, onde a heterogeneidade nas técnicas de intervenção (ex.: V-RQOL vs. análise acústica) dificulta comparações diretas. Essa falta de padronização, evidenciada em revisões como a de Sinclair et al. (2025), sugere a necessidade de diretrizes clínicas mais robustas, um tema a ser explorado nas seções subsequentes. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), esses achados respaldam a implementação de programas de reabilitação vocal acessíveis, destacando a relevância de intervenções precoces e multidisciplinares para otimizar os desfechos vocais.
4.4 Limitações e Riscos de Viés nos Estudos Incluídos
A presente revisão sistemática, embora baseada em 21 estudos cuidadosamente selecionados conforme o Fluxograma 1, enfrenta limitações metodológicas e potenciais riscos de viés que devem ser considerados na interpretação dos resultados. Uma das principais restrições refere-se ao tamanho das amostras, especialmente em estudos brasileiros, como Almeida et al. (2021), que avaliou apenas 30 mulheres, e Oliveira et al. (2022), com 20 pacientes, o que pode comprometer a generalização dos achados para populações mais amplas. Essa heterogeneidade amostral foi observada também em estudos internacionais, como Galluzzi et al. (2023), que se baseou em um único caso, limitando a robustez estatística.
Outro ponto crítico é a subnotificação de sintomas subjetivos, evidenciada em de Pedro M et al. (2023), onde 25% dos 150 pacientes relataram sintomas persistentes por dois anos, sugerindo que avaliações acústicas (ex.: PRAAT, Gupta et al., 2024) podem não capturar plenamente a percepção do paciente. A variabilidade nos instrumentos de avaliação vocal, que inclui desde escalas como VHI e VoiSS até análises acústicas e videolaringoscopia, introduz inconsistências na comparação entre estudos, conforme apontado no item 19 do checklist PRISMA.
A ausência de padronização metodológica também se destaca, com diferenças na definição de disfonia e nos períodos de acompanhamento (ex.: 1 mês em Lee et al., 2025, vs. 1 ano em Henry et al., 2021), o que dificulta a síntese dos dados. Esses vieses foram parcialmente mitigados pela revisão por dois avaliadores independentes, mas a heterogeneidade inerente aos desenhos (observacionais, ensaios clínicos) reforça a necessidade de cautela na extrapolação dos resultados. Essas limitações serão consideradas nas recomendações futuras, conforme explorado nas seções subsequentes.
4.5 Lacunas na Literatura e Direções Futuras
A análise dos 21 estudos incluídos nesta revisão sistemática revelou lacunas na literatura que merecem atenção para o avanço do conhecimento sobre as repercussões vocais pós-tireoidectomia. Uma das principais limitações identificadas é a escassez de estudos longitudinais de longo prazo, com a maioria dos acompanhamentos restritos a períodos de até dois anos, como observado em de Pedro M et al. (2023), que reportou sintomas persistentes em 25% dos 150 pacientes. Essa ausência de dados além de cinco anos impede uma compreensão mais ampla dos efeitos crônicos, especialmente em populações submetidas a tireoidectomias totais, conforme sugerido por Henry et al. (2021), que identificou disfonia persistente em mais de 30% dos casos.
Além disso, destaca-se a falta de protocolos padronizados para monitoramento e reabilitação vocal, uma questão evidenciada pela heterogeneidade nas abordagens terapêuticas (ex.: terapia precoce em Lee et al., 2025, vs. ausência de intervenção em Ryu CH et al., 2024, com paralisia tardia em 5%). Essa variabilidade reflete a ausência de diretrizes clínicas unificadas, o que compromete a comparabilidade entre estudos e a implementação de práticas consistentes, especialmente no contexto brasileiro. A predominância de amostras reduzidas em estudos nacionais, como Almeida et al. (2021) com 30 participantes, sugere também a necessidade de pesquisas com populações mais representativas, considerando a diversidade cultural e socioeconômica do Sistema Único de Saúde (SUS).
Diante disso, futuras investigações devem priorizar estudos prospectivos de longo prazo (>5 anos) para avaliar a evolução das alterações vocais, bem como a validação de protocolos padronizados de triagem e reabilitação, adaptados às realidades locais. Sugere-se ainda explorar o impacto psicossocial (ex.: ansiedade, Oliveira et al., 2022) e desenvolver ensaios clínicos randomizados em contextos brasileiros, integrando fonoaudiologia e cirurgia, a fim de subsidiar políticas de saúde pública mais eficazes.
4.6 Implicações Clínicas e Relevância para o SUS
Os achados desta revisão sistemática sobre repercussões vocais pós-tireoidectomia apresentam implicações clínicas, especialmente no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), onde a universalidade e a integralidade do cuidado são princípios fundamentais (Lei nº 8.080/1990, art. 6º). A prevalência de disfonia entre 20% e 50%, conforme reportado em estudos como Henry et al. (2021) e Kletzien et al. (2022), destaca a necessidade de triagem vocal rotineira pós-cirúrgica, utilizando instrumentos validados como o ThyroidectomyRelated Voice and Symptom Questionnaire (TRVSQ), proposto por Alomari et al. (2023), que demonstrou 90% de validade para sintomas vocais. Essa prática pode ser integrada aos fluxos de atendimento ambulatorial, assegurando identificação precoce de alterações.
A eficácia das intervenções fonoaudiológicas, com melhorias em 70-85% dos casos tratados precocemente (Lee et al., 2025; Choi et al., 2025), reforça a importância da reabilitação vocal como componente essencial do cuidado multidisciplinar. No SUS, a implementação de programas de terapia vocal imediata, como os exercícios não-fonatórios descritos por Choi et al. (2025), poderia otimizar os desfechos, reduzindo o impacto na qualidade de vida (Soylu L et al., 2021). Adicionalmente, a maior incidência de disfonia em tireoidectomias totais (Sinclair et al., 2025) sugere a adoção de neuromonitorização intraoperatória e técnicas menos invasivas, como o bisturi harmônico (Capistrano A et al, 2021), como medidas preventivas acessíveis em centros cirúrgicos públicos.
No contexto local de João Pessoa, Paraíba, a integração desses achados às políticas de saúde pode promover a capacitação de equipes fonoaudiológicas e a criação de protocolos padronizados, considerando a diversidade da população atendida pelo SUS. Apesar das limitações apontadas, como a falta de estudos de longo prazo, os resultados atuais fornecem uma base sólida para orientar a prática clínica, contribuindo para a redução de morbidades vocais e o fortalecimento da assistência em saúde pública no Brasil.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão sistemática sobre as repercussões vocais pós-tireoidectomia, realizada no âmbito do Trabalho de Conclusão de Curso em João Pessoa, Paraíba, Brasil, em 2025, alcançou os objetivos propostos de mapear tipos e frequências de alterações vocais, comparar impactos por extensão cirúrgica, avaliar abordagens terapêuticas fonoaudiológicas e identificar lacunas na literatura. A análise dos 19 estudos selecionados, conforme detalhado no Fluxograma 1 e sintetizado na Tabela 1, revelou uma prevalência de disfonia entre 20% e 50%, com maior incidência e persistência em tireoidectomias totais, destacando a relevância de fatores como lesão nervosa e extensão cirúrgica (Henry et al., 2021; Sinclair et al., 2025). Esses achados foram corroborados por evidências de recuperação vocal em 70-85% dos casos com intervenções fonoaudiológicas precoces (Lee et al., 2025; Choi et al., 2025), sugerindo a eficácia de estratégias terapêuticas multidisciplinares.
As limitações metodológicas, como amostras reduzidas e ausência de padronização (Almeida et al., 2021; de Pedro M et al., 2023), e as lacunas identificadas, como a falta de estudos longitudinais de longo prazo (>5 anos) e protocolos unificados, apontam desafios que requerem atenção futura. Essas questões reforçam a necessidade de investigações prospectivas e contextualizadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), considerando a diversidade populacional brasileira. As implicações clínicas são claras: a implementação de triagem vocal rotineira, neuromonitorização intraoperatória e programas de reabilitação acessíveis pode mitigar os impactos na qualidade de vida, alinhando-se aos princípios de universalidade e integralidade do SUS (Lei nº 8.080/1990).
Assim, esta revisão contribui para o avanço do conhecimento em otorrinolaringologia e fonoaudiologia, oferecendo uma base para práticas baseadas em evidências e políticas de saúde pública em João Pessoa e além. Futuras pesquisas devem priorizar a validação de protocolos e o acompanhamento prolongado, consolidando a assistência vocal no contexto nacional. O estudo cumpre seu propósito acadêmico e social, destacando-se como um passo inicial para a melhoria do cuidado pós-tireoidectomia no Brasil.
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1Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: larissacavalcante@yahoo.com.br
2Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: mariliapmedeiros@hotmail.com
3Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: ritinhapedrosa85@gmail.com
4Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: rossanaram0109@gmail.com
5Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: vanessabcavalcantispot@gmail.com
6Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: dratatianaalmeida@hotmail.com
7Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ e-mail: elayne@unipe.edu.br
