REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511191126
Andréa Cristina Silva de Paula
Gabriela de Medeiros Palhano
RESUMO
Animais domésticos têm se tornado cada vez mais comuns no Brasil e, de acordo com o CRMVPR, o Brasil ocupa atualmente o 3º lugar no ranking mundial de países com mais animais de estimação. Dentre os 149,6 milhões de pets, 39% são não convencionais, sendo as aves as mais populares. A alimentação de aves ainda é tratada como tabu, com a prática enraizada de oferecer misturas prontas, cujas consequências são pouco conhecidas. Este estudo buscou compreender a dinâmica entre tutores e aves por meio de questionário online com 55 respostas, abordando dados demográficos, manejo nutricional, ambiental, sanitário e conhecimento sobre bem-estar animal. A maioria dos tutores (45,45%) tem entre 25 e 45 anos, com alto nível de escolaridade (85,45% com ensino superior ou pós-graduação). Observou-se adesão significativa à ração extrusada (32,73%) e oferta diária de alimentos frescos (43,64%), mas persistem práticas de risco, como reutilização de ração (36,36%) e higienização inadequada (49,09% sem desinfetantes). O estudo reforça a importância do perfil do tutor no bem-estar das aves e sugere campanhas educativas.
Palavras-chave: tutores, manejo nutricional, aves pets, bem-estar animal, guarda responsável, psitacídeos.
ABSTRACT
The number of domestic animals in Brazil has grown significantly, and according to the CRMV-PR, the country currently ranks third in the world in pet population. Among the 149.6 million pets, 39% are classified as non-conventional, with birds being the most popular group. The feeding of these birds is still surrounded by taboos and traditional practices, such as offering ready-made seed mixtures, whose nutritional and sanitary consequences are often unknown to their caregivers.
This study aimed to understand the relationship between caregivers and birds kept as pets through an online questionnaire answered by 55 participants. The survey addressed demographic data, nutritional, environmental, and sanitary management, as well as knowledge regarding animal welfare. Most caregivers (45.45%) were between 25 and 45 years old and had a high educational level, with 85.45% holding a university degree or postgraduate education. A growing adherence to extruded feed (32.73%) and the daily offer of fresh foods (43.64%) was observed. However, inadequate practices still persist, such as feed reuse (36.36%) and insufficient hygiene of utensils (49.09% without disinfectants).
The results highlight the importance of the caregiver’s profile in the welfare of pet birds and point to the need for educational campaigns aimed at promoting safer management practices and raising awareness about responsible ownership of these animals.
Keywords: caregivers, nutritional management, pet birds, animal welfare, responsible ownership, psittacines.
INTRODUÇÃO
A criação de aves, especialmente psitacídeos e passeriformes, como pets tem se tornado cada vez mais popular no Brasil, pois são animais apreciados por sua inteligência, sociabilidade e beleza. Contudo, a manutenção inadequada e o desconhecimento sobre suas necessidades fisiológicas e comportamentais predispõem esses animais a enfermidades, comprometendo sua saúde e bem-estar.
Aves raramente mostram sinais clínicos precoces, mascarando doenças até estágios graves (MARIETTO-GONÇALVES, 2021). Assim, tutores frequentemente procuram atendimento tardiamente, reduzindo chances de recuperação.
METODOLOGIA
Para a coleta de dados foi aplicado um questionário on-line via Google Forms, estruturado contento perguntas relacionadas aos aspectos socioeconômicos e ao manejo nutricional ofertados às aves. O questionário ficou disponível por 15 dias, foi divulgado por redes sociais e respondido de forma anônima e voluntária.
Os dados obtidos foram analisados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram obtidas 55 respostas válidas, o que nos permitiu traçar um perfil detalhado dos tutores de aves pets e avaliando ainda as práticas de manejo nutricional e sanitário adotadas. Os resultados demonstram uma correlação entre o perfil socioeconômico dos tutores e a adoção de práticas mais adequadas, ao mesmo tempo em que revelam a persistência de manejos de risco, especialmente no que tange à higiene.
4.1 Perfil Socioeconômico e Educacional dos Tutores
A maioria dos tutores (45,45%) encontra-se entre faixa etária de 25 a 45 anos, indicando que a guarda de aves como pets é popular entre adultos jovens e de meia idade.
Mais relevante é o alto nível de escolaridade, com 58,18% dos participantes possuindo formação universitária.
Este dado indica que o público-alvo deste estudo tende a possuir um maior acesso à informação e, teoricamente, uma maior capacidade de discernimento sobre a qualidade e as fontes de informação a respeito do manejo animal. A dominância de renda familiar está entre 3 a 5 salários-mínimos (45,45%) complementa este perfil, indicando um grupo com recursos financeiros estáveis, o que pode influenciar diretamente a capacidade de investir em alimentos de melhor qualidade (como rações extrusadas, como foi indicado pelo gráfico 5) e em cuidados veterinários especializados. A alta escolaridade e renda são fatores que, conforme a literatura (BRAGANÇA et al., 2021; MACHADO, 2019), tendem a correlacionar-se positivamente com a adoção de práticas de guarda responsável e maior preocupação com o bem-estar animal.
4.2 Práticas de Manejo Nutricional
A avaliação das práticas nutricionais (Gráficos 5 e 6) revela um cenário de transição, onde o conhecimento técnico começa a superar as práticas tradicionais.
Tipo de Alimento Seco Adquirido (Gráfico 5): Observou-se que 50% dos tutores adquirem Ração extrusada. A ração extrusada é amplamente recomendada por médicos veterinários e especialistas em aves por ser nutricionalmente balanceada e evitar a seleção de sementes, um comportamento que leva à deficiência de nutrientes (MALTA; SANCHES; SANCHES). A alta adesão a este tipo de alimento (50%) é um indicador positivo da influência da informação técnica e da busca por produtos de qualidade.
Tipo de Alimento Seco Oferecido (Gráfico 6): Apesar da alta taxa de aquisição de ração extrusada, o Gráfico 6, que questiona o principal tipo de alimento seco oferecido, mostra uma divisão quase igual: 42% oferecem Ração extrusada e 41% oferecem Mistura de sementes/grãos específica para sua espécie de ave. Esta divergência entre o alimento adquirido e o alimento oferecido (ou a persistência do uso de sementes) é um ponto crítico. Embora a mistura de sementes específica seja melhor que a não específica, ela ainda permite a seleção alimentar, o que pode levar a um desequilíbrio nutricional, principalmente deficiência de vitamina A e excesso de gordura, predispondo a doenças hepáticas e obesidade (TULLY JR.; DORRESTEIN; JONES, 2010). A diferença de apenas 1% entre a ração extrusada e a mistura de sementes sugere que, mesmo entre tutores com alto nível educacional, a transição completa para a extrusada ainda enfrenta resistência, possivelmente devido à palatabilidade ou ao hábito.
Oferta de Alimentos Frescos (Gráfico 10): O Gráfico 10, que aborda a frequência de oferta de alimentos frescos (frutas, verduras, legumes, etc.), demonstra uma prática positiva: 43,64% dos tutores oferecem esses alimentos diariamente.
A inclusão diária de alimentos frescos é fundamental para o enriquecimento nutricional e comportamental das aves, quando falamos de psitacídeos, fornecendo vitaminas, minerais e água, além de estimular o forrageamento natural. Este resultado, combinado com a alta adesão à ração extrusada, reforça a tendência de um manejo nutricional mais consciente entre os participantes.
4.3 Práticas de Manejo Ambiental e Higiene
O manejo ambiental e sanitário, embora com pontos positivos, revela as maiores lacunas de conhecimento e prática.
Frequência de Troca de Água (Gráfico 8): A maioria dos tutores (74,55%) realiza a troca diária da água, o que é uma prática sanitária essencial para prevenir a proliferação de microrganismos patogênicos.
Higiene de Comedouros e Bebedouros: Apesar da troca diária de água, a higienização dos utensílios apresenta falhas. Apenas 56,36% lavam comedouros com água e sabão, e um preocupante 49,09% não utiliza desinfetantes na limpeza.
A falta de desinfecção adequada é um risco sanitário significativo. Comedouros e bebedouros são superfícies de contato constante com alimentos, água e fezes dos animais, tornando-se potenciais reservatórios de bactérias, fungos e leveduras, que podem causar doenças respiratórias e digestivas graves em aves. A persistência dessa prática inadequada, mesmo em um grupo de tutores com alto nível educacional, indica que a importância da desinfecção química (com hipoclorito de sódio diluído ou outros desinfetantes veterinários) não é uma informação de conhecimento geral.
Local de Oferta do Alimento Seco (Gráfico 9): O Gráfico 9 mostra que 44% dos tutores utilizam comedouros suspensos e 31% utilizam brinquedos interativos/forrageamento. O uso de comedouros suspensos seria a melhor opção, pois esta minimiza a chance de contaminação do alimento com fezes e substrato do fundo da gaiola.
O uso de brinquedos interativos/forrageamento por quase um terço dos tutores é um excelente indicador de preocupação com o enriquecimento ambiental, fundamental para o bemestar psicológico das aves, prevenindo o estresse e comportamentos destrutivos como a automutilação (NASCIMENTO et al., 2023).
Gráfico 1 Distribuição Percentual do Estado de residência dos Tutores

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 2 Distribuição Percentual dos Tutores por Idade

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 3 Distribuição Percentual dos Tutores por escolaridade

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 4 Distribuição Percentual dos Tutores por renda Familiar

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 5 Qual a forma de apresentação do alimento seco você geralmente adquire

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 6 Qual o principal tipo de alimento seco você oferece à(s) sua(s) ave(s)?

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 7 Onde você costuma adquirir a alimentação principal para sua(s) ave(s)?

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 8 Com que frequência você troca a água do bebedouro?

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 9 Qual a forma de apresentação do alimento seco você geralmente adquire?

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 10 Com que frequência você oferece alimentos frescos (frutas, verduras, legumes, massas, proteína de origem animal) à(s) sua(s) ave(s)?

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 11 Você reutiliza a ração seca que sobre o comedouro para o dia seguinte?

Fonte: Pesquisa (2025)
Gráfico 12 com que frequência você troca a ração seca no comedouro?

Fonte: Pesquisa (2025)
CONCLUSÃO
Os resultados indicam que o perfil do tutor (adulto, alta escolaridade, renda estável) está associado a práticas nutricionais mais modernas e adequadas, como a preferência pela ração extrusada e a oferta diária de alimentos frescos. No entanto, o estudo identifica uma lacuna crítica no manejo sanitário, especificamente na desinfecção de utensílios. Esta falha representa um risco à saúde das aves que pode anular os benefícios de uma dieta balanceada.
A alta escolaridade dos tutores sugere que as campanhas educativas devem focar não apenas em que tipo alimento deve ser oferecido para as aves (Ração extrusada), mas no porquê e como fazer (a importância da desinfecção para a prevenção de doenças).
O estudo confirmou que o perfil do tutor de aves pets no grupo amostrado é predominantemente adulto, com alto nível educacional e renda média. Observou-se uma tendência positiva na adoção alimentação com ração extrusada e alimentos frescos, alinhada às recomendações veterinárias. Contudo, a persistência de práticas de risco, como a higienização inadequada de utensílios, representa um ponto de atenção para a saúde pública e animal. O trabalho reforça a necessidade de campanhas educativas direcionadas, que explorem a correlação entre manejo sanitário e prevenção de doenças, visando aprimorar a guarda responsável e o bem-estar das aves pets.
REFERÊNCIAS
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BRAGANÇA, D. R. et al. Perfil dos tutores e a importância da correta nutrição dos animais de companhia no estado de Rondônia. **PUBVET**, v. 15, n. 10, p. 1-6, out. 2021.
DUTRA, D. R. et al. Preferência e percepções do tutor pelo modo de transporte dos animais de companhia em voos comerciais. **Research, Society and Development**, v. 10, n.1, e7610111353, 2021.
JIMÉNEZ, J. et al. **Manual clínico de animais exóticos**. 1. ed. São Paulo: MedVet, 2023.
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MALTA, P. V.; SANCHES, T. M.; SANCHES, L. Erros no manejo nutricional de psitacídeos de cativeiro. [S. l.: s. n.], [20–?].
MARIETTO-GONÇALVES, G. A. **Manual de Emergências Aviárias**. 2ª ed. São Paulo: MedVet, 2021.
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NASCIMENTO, B. K. F. et al. Panorama da criação de psitacídeos que convivem como pet em domicílios de Rio Branco, Acre. **Scientia Naturalis**, Rio Branco, v. 5, n. 1, p. 125134, 2023.
SIPP, J. **Papagaios (Gênero Amazona – aves tropicais): um guia de alimentação e cuidados para promover saúde e longevidade para sua ave!** 2025.
TULLY JR., T. N.; DORRESTEIN, G. M.; JONES, A. K. **Clínica de aves**. 2. ed.Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
