REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202511110754
Leandro Balestrin
João Guilherme Novis de Souza Avellar
Gustavo Brugnera Borin
Igor Oliveira Ferreira
Rogério Augusto Gomes Silveira
Introduction:
The face is one of the most vulnerable regions to traumatic injuries. When the eyelids are affected, they often present complex and challenging defects that require extensive technical knowledge for proper management. The choice of reconstructive technique depends on several factors, and the combination of multiple surgical methods is frequently necessary.
Case Report:
A 26-year-old female patient, victim of a motor vehicle accident, presented with a left periorbital injury characterized by severe cicatricial retraction and tarsal discontinuity. A three-stage reconstructive procedure was performed, resulting in significant functional and aesthetic improvement.
Discussion:
The eyelid is a delicate and functionally important facial structure, and its reconstruction remains a major surgical challenge. Several techniques have been described in the literature, emphasizing the independent reconstruction of the anterior and posterior lamellae. The choice of method depends on the location and size of the defect, as well as the surgeon’s expertise, and often requires the combination of techniques.
Conclusion:
Eyelid reconstruction is always challenging, particularly in the context of trauma. The surgeon must master the anatomical and reconstructive principles of the region and be familiar with the available surgical options to achieve optimal functional and aesthetic outcomes.
Keywords: ectropion; eyelid trauma; cartilage graft
Introdução
A face, sendo a parte mais exposta do corpo, é vulnerável a lesões traumáticas em cerca de 50 a 70% dos indivíduos envolvidos em acidentes de trânsito. As lesões palpebrais podem acometer a margem ou regiões extramarginais, podendo ou não estar associadas à perda tecidual. Frequentemente, essas lesões vêm acompanhadas de fraturas orbitais. Os defeitos resultantes podem ser complexos e desafiadores, exigindo amplo conhecimento anatômico e domínio técnico para uma reconstrução adequada. A escolha da técnica cirúrgica depende do tamanho, localização e forma do defeito, sendo comum a necessidade de associação de diferentes métodos reconstrutivos.
Método
Trata-se de um relato de caso cirúrgico, retrospectivo e descritivo, baseado em registros médicos e na experiência da equipe responsável pelo tratamento, além de revisão da literatura sobre casos similares e seus desfechos.
Os dados foram coletados em um hospital federal do Rio de Janeiro no ano de 2025.

Relato de Caso
Paciente do sexo feminino, 26 anos, com antecedente de trauma automobilístico há 1 ano, apresentando extenso tecido cicatricial em pálpebras superior e inferior esquerdas, com extensão até a região temporal ipsilateral. Observou-se perda parcial da pálpebra inferior, com descontinuidade do tarso e intensa retração cicatricial local.
Em um primeiro momento, foi realizado enxerto de gordura (microfat), com o objetivo de melhorar a qualidade tecidual local.
Após três meses, procedeu-se à reconstrução da lamela anterior com retalho bilobado, conforme planejamento descrito. A cirurgia foi realizada sob anestesia local, com sutura cutânea em nylon 5-0.
Seis meses depois, a paciente foi submetida a uma nova abordagem visando aprimorar o suporte palpebral. Sob anestesia local, foi colhido enxerto cartilaginoso de concha auricular. Realizou-se incisão na cicatriz pré-existente, criação de pocket até a órbita e posicionamento do enxerto como suporte posterior. Um gap cutâneo foi evidenciado após a colocação do enxerto, sendo necessário um retalho monolobado para fechamento da lamela anterior. A sutura foi realizada com nylon 5-0.
No pós-operatório, observou-se melhora funcional significativa, com adequado posicionamento palpebral e ganho estético. A paciente segue em acompanhamento ambulatorial com perspectiva de novos procedimentos para refinamento estético.

Discussão
A pálpebra é uma estrutura de grande relevância funcional e estética, cuja reconstrução representa um desafio devido à sua anatomia complexa e delicada.
A reconstrução da pálpebra inferior deve respeitar os limites anatômicos, reconstituindo a lamela anterior (pele e músculo orbicular) e a lamela posterior (tarso e conjuntiva) como estruturas independentes.
A lamela posterior deve garantir suporte suficiente para manter a borda palpebral em posição adequada, evitando exposição escleral.
Diversas técnicas são descritas para esse fim, incluindo retalhos tarsoconjuntivais, enxertos condromucosos (palato duro, septo nasal) e enxertos cartilaginosos (concha ou escafa auricular). Esses enxertos apresentam boa integração quando associados a retalhos locais.
A lamela anterior, por sua vez, pode ser reconstruída com fechamento primário em defeitos menores que 25% da largura palpebral; em defeitos maiores, são necessários enxertos cutâneos e/ou retalhos locais.
Nos casos traumáticos, as lesões costumam ser complexas, envolvendo estruturas adjacentes e cicatrizes de retração, o que torna essencial o planejamento cuidadoso e, muitas vezes, o emprego de múltiplas técnicas combinadas para restauração funcional e estética satisfatória.

Conclusão
A reconstrução palpebral requer amplo conhecimento técnico e compreensão anatômica, devido à delicadeza e importância funcional da pálpebra.
Em casos traumáticos, essa complexidade é ainda maior, dada a variedade de apresentações clínicas possíveis.
É fundamental respeitar o conceito das lamelas anterior e posterior como unidades anatômicas independentes e reconstruí-las adequadamente. O arsenal cirúrgico disponível é vasto e permite restaurar a função palpebral, ao mesmo tempo em que busca o melhor resultado estético possível.
Declarações
- Consentimento informado: obtido da paciente para publicação do caso e das imagens.
- Conflitos de interesse: os autores declaram não haver.
- Financiamento: não houve suporte financeiro externo.
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