DOENÇA PERIODONTAL E FÍSTULA INFRAORBITAL EM CÃO: RELATO DE CASO CLÍNICO PERIODONTAL

DISEASE AND INFRAORBITAL FISTULA IN A DOG: CLINICAL CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511110704


Victor Hugo Buzzatto Maia
Professor Diego de Mattos


Resumo

O artigo descreve a ocorrência de doença periodontal avançada associada à formação de fístula infraorbital em um cão da raça Poodle, abordando o diagnóstico clínico e o manejo cirúrgico adotado. O estudo teve como objetivo relatar um caso clínico de periodontite grau IV e discutir a importância do diagnóstico precoce e do tratamento odontológico adequado em cães geriátricos. Foi atendida uma cadela de 10 anos e 9,3 kg, apresentando ferida infraorbital e halitose intensa. Realizaram-se exame clínico, radiografias intraorais e tratamento cirúrgico composto por exodontia dos dentes comprometidos, curetagem alveolar e sutura gengival com retalho. O procedimento foi conduzido sob anestesia multimodal balanceada e acompanhado de cuidados pós-operatórios com analgésicos e anti-inflamatórios. O animal apresentou boa recuperação e completa cicatrização da fístula no período de quinze dias. Os resultados evidenciam que o manejo odontológico adequado e o controle da doença periodontal são fundamentais para prevenir complicações graves, como a formação de fístulas oronasais e infraorbitárias, reforçando a importância da odontologia preventiva e da avaliação periódica na clínica de pequenos animais.

Palavras-chave: odontologia veterinária. fístula infraorbital. periodontite. cães. exodontia.

ABSTRACT

The article describes the occurrence of advanced periodontal disease associated with infraorbital fistula formation in a Poodle dog, addressing the clinical diagnosis and surgical management performed. This study aimed to report a clinical case of grade IV periodontitis and to discuss the importance of early diagnosis and proper dental treatment in geriatric dogs. A 10-year-old, 9.3 kg female dog was presented with an infraorbital wound and severe halitosis. Clinical examination, intraoral radiographs, and surgical treatment consisting of extraction of affected teeth, alveolar curettage, and gingival flap suturing were performed. The procedure was carried out under balanced multimodal anesthesia and followed by postoperative analgesic and antiinflammatory therapy. The animal showed good recovery and complete healing of the fistula within fifteen days. The results demonstrate that proper dental management and control of periodontal disease are essential to prevent severe complications such as oronasal and infraorbital fistulas, emphasizing the relevance of preventive dentistry and regular oral evaluations in small animal practice.

Keywords: veterinary dentistry. infraorbital fistula. periodontitis. dogs. tooth extraction.

1 INTRODUÇÃO

A doença periodontal é uma das enfermidades mais prevalentes na rotina de pequenos animais, sendo considerada a principal causa de perda dentária em cães e gatos adultos. Essa condição caracteriza-se pela inflamação crônica e pela destruição progressiva dos tecidos de suporte do dente — gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso alveolar — resultante da ação de micro-organismos presentes no biofilme bacteriano (Fossum, 2020).

Diversos estudos relatam que mais de 80% dos cães acima de três anos de idade apresentam algum grau de doença periodontal (Harvey & Emily, 2016), o que a torna um importante problema de saúde pública veterinária. Além do comprometimento oral, a doença periodontal pode contribuir para a disseminação sistêmica de bactérias e mediadores inflamatórios, favorecendo o desenvolvimento de alterações cardíacas, renais e hepáticas (Alvarenga et al., 2019).

Entre as complicações decorrentes da progressão da doença, destaca-se a formação de fístulas oronasais e infraorbitárias, frequentemente associadas à infecção periapical de dentes superiores, especialmente do quarto pré-molar (P4). Essas fístulas apresentam-se clinicamente como feridas drenantes abaixo do olho, podendo ser confundidas com afecções oculares ou dermatológicas (Wiggs & Lobprise, 2013).

O diagnóstico preciso da doença periodontal e de suas complicações requer avaliação clínica detalhada, sondagem periodontal e exames radiográficos intraorais, permitindo identificar a extensão da destruição óssea e a presença de comunicação oronasal (Bell, 2020).

A justificativa deste estudo fundamenta-se na elevada prevalência da doença periodontal em cães geriátricos e nas possíveis complicações locais e sistêmicas que ela pode causar. A compreensão dos aspectos clínicos e terapêuticos dessa condição permite aprimorar o manejo odontológico e prevenir consequências mais graves, promovendo melhor qualidade de vida aos pacientes.

Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo relatar um caso clínico de doença periodontal avançada com formação de fístula infraorbital em um cão da raça Poodle, descrevendo os achados clínicos, o protocolo anestésico e o tratamento cirúrgico instituído, além de discutir a importância do diagnóstico precoce e da odontologia preventiva na rotina clínica veterinária.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A doença periodontal (DP) é uma enfermidade inflamatória de origem infecciosa que acomete os tecidos de suporte dentário — gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso alveolar — e constitui a principal causa de perda dentária em cães adultos (Fossum, 2020). É resultado da interação entre o biofilme bacteriano e a resposta inflamatória do hospedeiro, levando à destruição progressiva das estruturas periodontais (Garcia et al., 2020).

A formação do biofilme bacteriano, também conhecido como placa dental, é o evento inicial da doença. Ele é composto por micro-organismos aeróbios e anaeróbios, detritos alimentares e glicoproteínas salivares, aderidos à superfície do dente (Stefaniak et al., 2021). A mineralização desse biofilme origina o cálculo dentário, cuja superfície rugosa favorece o acúmulo de novas bactérias, perpetuando o processo inflamatório gengival (Harvey & Emily, 2016).

De acordo com o American Veterinary Dental College (AVDC, 2018), a DP é classificada em quatro estágios evolutivos:

1. Gengivite — inflamação reversível sem perda de inserção;

2. Periodontite inicial — perda óssea até 25%;

3. Periodontite moderada — perda entre 25% e 50%;

4. Periodontite avançada — perda óssea superior a 50%, com exposição radicular e possível formação de fístulas.

A fístula infraorbital é uma complicação comum nos casos avançados, geralmente associada à infecção periapical do quarto pré-molar superior (P4), cuja raiz distal comunica-se com o seio maxilar. Essa comunicação anormal resulta em drenagem purulenta pela face, abaixo do olho, sendo frequentemente confundida com afecções oculares ou dermatológicas (Jensen et al., 2017; Wiggs & Lobprise, 2013).

O diagnóstico é realizado por meio de exame clínico oral sob anestesia geral, permitindo avaliação minuciosa das superfícies dentárias, sondagem periodontal e radiografias intraorais — consideradas essenciais para determinar o grau de destruição óssea e o envolvimento de raízes (Bell, 2020).

O tratamento da DP depende do estágio da doença. Nos casos iniciais, a terapia consiste em profilaxia e raspagem periodontal; já nos estágios avançados, são necessárias exodontias múltiplas, curetagem alveolar e sutura gengival (Wiggs & Lobprise, 2013). O manejo adequado da dor e o controle da infecção são determinantes para o sucesso do tratamento e para o bem-estar do paciente (Fossum, 2020).

Além do aspecto terapêutico, a odontologia veterinária preventiva desempenha papel fundamental. A escovação diária dos dentes, dietas específicas e avaliações periódicas são medidas eficazes na redução da incidência e progressão da doença (Stefaniak et al., 2021). A prevenção e o diagnóstico precoce não apenas mantêm a saúde oral, mas também contribuem para a saúde sistêmica e longevidade dos cães idosos.

3 METODOLOGIA

O presente trabalho consiste em um relato de caso clínico realizado em uma clínica veterinária privada localizada na cidade de Guarulhos, São Paulo, com o objetivo de descrever o manejo clínico e cirúrgico de uma cadela diagnosticada com doença periodontal grau IV associada à fístula infraorbital.

3.1 Tipo de pesquisa

Trata-se de uma pesquisa descritiva e qualitativa, de caráter observacional, baseada na análise clínica e terapêutica de um caso individual, com abordagem empírico-explicativa. O estudo foi conduzido conforme os princípios éticos de bem-estar animal, com autorização do tutor e sem indução experimental.

3.2 População e amostra

A amostra foi composta por uma cadela da raça Poodle, fêmea, com 10 anos de idade e 9,3 kg, atendida em bom estado geral. O tutor relatou a presença de ferida infraorbital e halitose intensa há aproximadamente quinze dias, motivando a consulta odontológica.

3.3 Procedimentos e instrumentos utilizados

O diagnóstico foi estabelecido por meio de anamnese detalhada, exame físico geral e avaliação odontológica sob anestesia geral. Foram realizadas radiografias intraorais nos planos mediolateral e craniocaudal, as quais evidenciaram destruição óssea alveolar acentuada e comunicação oronasal.

O protocolo anestésico seguiu um esquema multimodal balanceado, utilizando-se os seguintes fármacos:

Pré-anestesia: morfina (0,4 mg/kg), cetamina (0,1 mg/kg), acepromazina (0,02 mg/kg) e xilazina (0,2 mg/kg), administradas por via intramuscular.

Manutenção anestésica: cetamina (0,5 mg/kg/h), midazolam (0,3 mg/kg/h), lidocaína (1 mg/kg/h) e propofol (1 µg/kg/min), mantidos em infusão contínua.

O paciente foi monitorado continuamente quanto à frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio e temperatura corporal.

O procedimento cirúrgico odontológico seguiu as seguintes etapas:

1. Sondagem periodontal para detecção de bolsas e áreas de destruição óssea.

2. Radiografias intraorais para avaliação detalhada do suporte alveolar.

3. Descolamento gengival com descolador de Beckman.

4. Odontosecção dos dentes birradiculares e trirradiculares com broca cirúrgica 702 acoplada à caneta de alta rotação.

5. Luxação e exodontia com alavancas e fórceps curvos.

6. Curetagem alveolar para remoção de tecido necrótico e pus residual.

7. Sutura simples separada com fio poliglecaprone 25 (4-0), formando retalho gengival nos caninos.

8. Profilaxia final com pasta profilática e caneta de baixa rotação.

Durante o procedimento foram utilizados: bisturi nº 15 e 11C, cabo cilíndrico, descoladores Beckman 2 e 3, luxadores 2C, 3C e 4C, fórceps curvo, gaze, pinca Adson Brown, porta-agulha e materiais de assepsia.

Figura 1 – Radiografia intraoral evidenciando perda óssea alveolar.

Fonte: Arquivo pessoal (2025).

Figura 2 – Fístula intraorbital antes do procedimento cirúrgico.

Fonte: Arquivo pessoal (2025).

Figura 3 – Aspecto intraoral após exodontia e sutura.

Fonte: Arquivo pessoal (2025).

3.4 Pós-operatório

Após a cirurgia, o animal foi mantido em observação até a recuperação anestésica completa. A alimentação foi substituída por dieta pastosa por cinco dias, e o tratamento farmacológico incluiu:

– meloxicam (2 mg/kg SID, 5 dias);

– tramadol (2 mg/kg TID, 5 dias);

– dipirona (25 mg/kg BID, 5 dias).

  Foi recomendado repouso por 24 horas e higiene oral com gaze umedecida. O retorno clínico após quinze dias demonstrou cicatrização total da ferida e ausência de secreção purulenta.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Durante o atendimento, foi observada a presença de fístula infraorbital no lado esquerdo da face, associada à halitose intensa, retração gengival severa e acúmulo de cálculo dentário. O exame radiográfico evidenciou destruição óssea alveolar avançada e comunicação entre a cavidade oral e o seio maxilar, confirmando o diagnóstico de doença periodontal grau IV com fístula infraorbital.

Figura 4 – Aspecto oral pré-operatório evidenciando acúmulo de cálculo dentário e retração gengival.

Fonte: Arquivo pessoal (2025).

Figura 5 – Radiografia intraoral evidenciando destruição óssea alveolar e comunicação oronasal.

Fonte: Arquivo pessoal (2025).

Esses achados corroboram as descrições de Harvey & Emily (2016), que relatam a periodontite avançada como a principal causa de comunicação oronasal e fístulas infraorbitárias em cães idosos. O envolvimento do quarto pré-molar superior (P4), cuja raiz distal está próxima ao seio maxilar, foi compatível com a literatura, que identifica esse dente como o mais frequentemente afetado (Wiggs & Lobprise, 2013; Jensen et al., 2017).

Após a exodontia dos dentes comprometidos e a curetagem alveolar, observou-se fechamento imediato da comunicação oronasal e ausência de secreção purulenta. O retalho gengival permitiu o reposicionamento adequado dos tecidos e proteção do alvéolo, técnica amplamente recomendada por Fossum (2020) em casos de fístula infraorbital decorrente de doença periodontal.

No pós-operatório, o paciente apresentou evolução favorável, com retorno da alimentação sólida após cinco dias e cicatrização completa no 15º dia. A ausência de complicações confirma a eficácia do manejo anestésico e do controle pós-operatório, de acordo com as recomendações de Paddleford (2015) para protocolos multimodais em cães geriátricos.

A associação entre doença periodontal avançada e formação de fístula infraorbital demonstra o impacto da odontologia preventiva insuficiente na rotina clínica. Estudos de Stefaniak et al. (2021) reforçam que o acúmulo de biofilme e cálculo mineralizado é o fator determinante para o início da resposta inflamatória, que, quando não controlada, leva à destruição tecidual progressiva.

Os resultados obtidos neste relato estão de acordo com os achados de Garcia et al. (2020), que destacam a participação de mediadores inflamatórios como IL-1β e TNF-α na reabsorção óssea alveolar. Esses mediadores intensificam a inflamação e explicam a rápida evolução da doença em pacientes idosos, como o descrito neste caso.

Além disso, observa-se que cães de pequeno porte apresentam predisposição anatômica à periodontite severa, conforme relatado por Alvarenga et al. (2019), devido à proximidade das raízes dentárias e menor espaço alveolar. Essa característica favorece o acúmulo de biofilme e acelera a perda de suporte ósseo.

A evolução clínica positiva neste caso confirma que a exodontia completa dos dentes comprometidos e a adequada descontaminação alveolar são determinantes para o sucesso terapêutico, como descrito por Fossum (2020). A associação de profilaxia dos dentes remanescentes e orientação ao tutor sobre higiene oral são medidas indispensáveis para evitar recidivas.

Os achados deste trabalho reforçam que o manejo clínico e cirúrgico da doença periodontal deve ser individualizado, considerando idade, condição sistêmica e grau de destruição tecidual. O diagnóstico precoce, o tratamento cirúrgico adequado e a reavaliação periódica são fundamentais para o controle da enfermidade e prevenção de complicações como fístulas oronasais e osteomielite.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo confirma que a doença periodontal avançada é uma das principais causas de fístula infraorbital em cães idosos, especialmente em animais de pequeno porte. A aplicação de diagnóstico clínico detalhado e de radiografias intraorais permite identificar precocemente o comprometimento ósseo e direcionar o tratamento adequado. O manejo anestésico balanceado e a técnica cirúrgica com exodontia completa e retalho gengival garantem resultados favoráveis e recuperação sem complicações.

O objetivo proposto foi plenamente alcançado, demonstrando que o tratamento cirúrgico adequado proporciona resolução completa da fístula e restauração funcional da cavidade oral. A pesquisa contribui para a prática clínica ao evidenciar a importância da avaliação odontológica periódica e da odontologia preventiva como ferramentas essenciais para evitar complicações decorrentes da doença periodontal.

Este estudo reforça a necessidade de conscientização dos tutores quanto à higiene bucal dos cães e da realização de exames odontológicos regulares. Recomenda-se a realização de novos estudos com amostras maiores para ampliar o conhecimento sobre o manejo clínico e cirúrgico de complicações periodontais em cães geriátricos.

REFERÊNCIAS

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