RECOMPOSIÇÃO DA APRENDIZAGEM NO ENSINO FUNDAMENTAL: AVALIAÇÃO DE ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA SUPERAR DEFASAGENS EDUCACIONAIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508091105


Luciana de Sant’Anna Peres
Livinsgthon Sant’Anna Coqui


RESUMO

Discute-se a recomposição da aprendizagem no Ensino Fundamental como um processo organizado, sustentado por diagnóstico contínuo, intervenções instrucionais de alta potência e avaliação sistemática dos resultados. Defende-se que recuperar trajetórias interrompidas requer metas claras, monitoramento constante, rotinas de ensino coerentes e atenção às dimensões cognitivas, culturais e socioemocionais do aprender. O texto descreve caminhos para mapear defasagens em leitura, escrita e matemática; propõe combinações didáticas com grupos flexíveis, ensino explícito, tutoria estruturada e curadoria de materiais; e apresenta critérios para avaliar estratégias, garantindo ajuste fino e sustentabilidade das ações. Evidencia-se que a articulação entre sala de aula, coordenação pedagógica, gestão e famílias fortalece o acompanhamento e favorece avanços consistentes, com prioridade para estudantes mais afastados dos objetivos de cada ano. Conclui-se que a recomposição se consolida quando a escola organiza tempo, define prioridades e transforma dados em decisões que aproximam todos os alunos de desafios intelectuais mais elevados.

Palavras-chave: Recomposição da Aprendizagem; Avaliação Formativa; Estratégias Pedagógicas.

1- INTRODUÇÃO

Compreende-se, nos últimos anos, a percepção de que defasagens educacionais resultam de múltiplas variáveis como desigualdades de acesso a recursos, interrupções prolongadas de estudos, lacunas nos anos iniciais e rotinas escolares pouco ajustadas a necessidades específicas. Frente a esse cenário, a recomposição da aprendizagem no Ensino Fundamental afirma-se como caminho estratégico, em lugar de iniciativas isoladas, propõe-se um ciclo contínuo que parte de um diagnóstico minucioso, define metas de curto alcance, organiza intervenções de alta potência e reavalia o percurso com base em evidências. 

Difere-se, portanto, de ações de reforço pontual como reconstruir hábitos de estudo, fortalecer repertórios de leitura, escrita e matemática, elevar expectativas e restabelecer o sentido de progressão curricular. Compreende-se a recomposição como um arranjo que integra tempos, espaços, materiais, metodologias e modos de acompanhar. 

A escola estabelece prioridades claras por etapa, a sala de aula opera com sequências que mesclam modelagem, prática guiada e prática autônoma; a coordenação pedagógica cria rotinas para leitura de dados e observação de aulas; a gestão garante calendário de formação e condições para registrar avanços. Nessa arquitetura, a avaliação deixa de figurar como momento isolado e passa a orientar decisões semanais sobre o ensino. Quando os dados tornam visíveis as trajetórias, criam-se condições para que cada estudante avance a partir de onde está, sem estigmas, com metas realistas e progressivas.

Ao considerar o direito de aprender como eixo de planejamento, a recomposição exige atenção simultânea às dimensões cognitivas e socioemocionais. Muitos alunos chegam às aulas com inseguranças, interrupções na alfabetização, dificuldades de numeracia e pouca experiência com textos de maior densidade. 

Por isso, além do rigor didático, requer-se acolhimento, previsibilidade de rotinas, explicitação de objetivos e devolutivas descritivas que indiquem o próximo passo. Familiaridade com critérios, transparência sobre expectativas e reconhecimento de progressos fortalecem a confiança e a persistência necessárias para sustentar o estudo cotidiano.

O presente artigo organiza-se em três movimentos. O primeiro trata da fundação do processo: mapeamento das defasagens, definição de metas e desenho de monitoramento. O segundo descreve combinações didáticas com potencial para acelerar avanços, contemplando leitura, escrita e matemática, inclusive com adaptações para inclusão e uso criterioso de tecnologia. 

O terceiro apresenta caminhos para avaliar estratégias e dar sustentabilidade às conquistas, com ênfase em indicadores úteis, fidelidade de implementação e governança pedagógica. Ao final, sintetizam-se princípios e rotas para que a recomposição se estabilize como modo de organizar a aprendizagem, e não como resposta episódica a crises.

2- MAPEAMENTO DAS ESTRATÉGIAS DAS DEFASAGENS: DIAGNÓSTICO, METAS E MONITORAMENTO

Estabelecer um ponto de partida confiável constitui condição para qualquer recomposição consistente. Segundo Silva 2021) propõe-se um diagnóstico que observe habilidades essenciais por eixo como leitura, consciência fonológica, decodificação, fluência, vocabulário e compreensão; em escrita, planejamento, coesão, ortografia e revisão; em matemática, sentido de número, cálculo mental, operações com compreensão de propriedades, tratamento da informação, geometria e grandezas. 

Para produzir um retrato fidedigno das necessidades da turma, recomenda-se combinar instrumentos através de sondagens rápidas por descritores, protocolos de leitura em voz alta com registro de fluência, ditados diagnósticos, problemas contextualizados, listas de verificação por habilidade e análise de produções reais de caderno.

Esse conjunto de instrumentos ganha sentido quando se transforma em informação acionável. Conforme Oliveira (2022) em reuniões pedagógicas semanais ou quinzenais, docentes e coordenação analisam padrões, levantam hipóteses sobre causas e definem prioridades para o ciclo seguinte. Em lugar de muitas metas difusas, priorizam-se poucas habilidades com alto poder de transferência. 

Se grupos expressivos revelam baixa fluência, organiza-se um plano de leituras curtas e repetidas com monitoramento; se a turma demonstra fragilidade em compreensão inferencial, planejam-se sessões de leitura orientada com perguntas graduadas e modelagem de raciocínio; se há dificuldades persistentes em cálculo mental, instituem-se rotinas diárias de cinco a dez minutos com estratégias variadas.

O monitoramento cotidiano sustenta decisões oportunas. Defende-se a criação de um painel simples de habilidades por estudante, atualizado em ciclos curtos (de oito a doze semanas). Em leitura, anota-se a frequência de leitura em voz alta, o progresso em fluência e a evolução na compreensão de textos curtos; em escrita, avalia-se periodicamente a organização textual, a coesão e o domínio de convenções; em matemática, registram-se avanços por eixo, com foco em estratégias de resolução. 

O painel, compartilhado com a equipe, evita suposições e orienta a composição de grupos flexíveis, a seleção de tarefas e a intensidade de apoio. Como Argumenta Almeida (2023) ao lado dos indicadores cognitivos, recomenda-se observar fatores de participação acadêmica que interferem diretamente na aprendizagem como presença, constância na realização de tarefas-chave, cuidado com materiais e pontualidade, uma vez que, pequenos desvios acumulados nesses itens costumam explicar estagnações. Entretanto: 

O mapeamento das estratégias das defasagens inicia-se com um diagnóstico minucioso das lacunas de aprendizagem, com base em indicadores quantitativos e qualitativos, de modo a estabelecer metas claras e alinhadas às necessidades dos discentes. Em seguida, o monitoramento sistemático utiliza coletas periódicas de evidências como avaliações formativas, registros de progresso e relatórios de desempenho para permitir ajustes contínuos nas intervenções pedagógicas (Silva, 2021, p. 102).

O acompanhamento próximo permite respostas rápidas: convite para oficinas de recomposição, contato com a família em caso de ausências reiteradas, reorganização de grupos quando a evolução desacelera. Nesse sentido, o dado não se encerra no registro, pois se converte em ação planejada onde a definição de metas por ciclos curtos protege o trabalho contra dispersões. 

Em cada ciclo, a escola explicita objetivos de turma e de subgrupos, define critérios de sucesso e combina instrumentos de verificação. Por exemplo: em doze semanas, elevar a fluência de um grupo específico, com leituras diárias de um minuto, controle de erros e acompanhamentos semanais; ou consolidar a adição e a subtração com compreensão de decomposições e reagrupamentos, combinando material concreto, esquemas visuais e exercícios graduados. Ao final do ciclo, confrontam-se resultados com metas, registram-se aprendizados sobre o processo e redesenham-se trajetórias.

De acordo com Silva (2021) essa engenharia do diagnóstico precisa reconhecer a diversidade. Estudantes com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou barreiras linguísticas requerem adaptações razoáveis, apoios, tecnologias assistivas e critérios que respeitem suas condições específicas. O objetivo permanece o mesmo, entretanto, assegurar acesso ao conhecimento inclui roteiros visuais, instruções segmentadas, avaliações acessíveis e coensino quando disponível. 

O acompanhamento por objetivos intermediários, sem isolamento do aluno, garante presença ativa nas atividades comuns e amplia as oportunidades de avanço. O mapeamento ganha densidade quando conversa com a cultura escrita da escola. Portfólios, cadernos de leitura, registros de problemas resolvidos com justificativas, áudios de leitura em voz alta e mapas de habilidades contam histórias de progresso. 

Quando a equipe revisita esses materiais, enxerga movimentos sutis que números isolados não capturam, ajusta intervenções e valoriza conquistas. Ao mostrar a trajetória para os estudantes com linguagem clara e metas alcançáveis, a escola reforça a confiança necessária para sustentar o estudo (Oliveira, 2022).

3- ESTRATÉGIAS DE RECOMPOSIÇÃO: ENSINO EXPLÍCITO FLEXÍVEIS E TUTORIA ESTRUTURADA

Transformar diagnóstico em avanço requer escolhas didáticas de alta potência. Uma primeira diretriz consiste em adotar o ensino explícito: o professor modela a estratégia, torna visíveis os passos do raciocínio, pensa em voz alta, oferece prática guiada com suporte decrescente e, em seguida, propõe prática autônoma com devolutivas descritivas e objetivos claros. Essa sequência, aplicada a leitura, escrita e matemática, reduz incertezas, cria rotas previsíveis e acelera a consolidação de habilidades (Martins, 2021).

Em leitura, recomenda-se uma rotina que combine três momentos. O primeiro é a leitura em voz alta pelo professor, com textos literários e informativos de qualidade, pausas para antecipações, inferências e comentários sobre vocabulário. O segundo é a leitura guiada em grupos flexíveis, nos quais os textos e o grau de apoio variam conforme as necessidades. 

O terceiro é a leitura independente, gradualmente ampliada, com acompanhamento por diários de leitura, metas individuais e conversas breves sobre compreensão. Para estudantes com baixa fluência, leituras curtas e repetidas, uso criterioso de cronometragem, controle de erros e registro semanal favorecem avanços consistentes.

De acordo com Gomes (2022) na escrita, o foco recai sobre processos, fazendo com que o planejamento do texto com mapas de ideias ou quadros de estrutura, redige-se o rascunho e revisa-se com critérios delimitados, por exemplo, coesão de parágrafos ou ortografia de padrões específicos que, publica-se em formatos variados como mural, jornal da turma, cartas à comunidade ou pequenos livros coletivos. Quando o objetivo e o destinatário ficam claros, a produção ganha sentido e qualidade. A devolutiva descritiva, ancorada em rubricas, explicita conquistas e indica o próximo ponto de atenção, sem frases genéricas.

Em matemática, enfatiza-se a construção do sentido de número como base para operações e álgebra inicial. Propõem-se atividades de composição e decomposição, estimativas, comparações, cálculo mental com diferentes estratégias, representações gráficas e problemas que exigem escolha de caminhos. O uso de material manipulável e esquemas visuais como quinários e decimais, por exemplo, ajuda na transição para a representação simbólica. Pois:

As estratégias de recomposição fundamentadas no ensino explícito flexível conciliam estrutura e adaptabilidade, oferecendo instruções claras e objetivas ao discente, ao mesmo tempo em que permitem ajustes no ritmo de aprendizagem conforme suas necessidades. A tutoria estruturada, por sua vez, assegura acompanhamento sistemático por meio de encontros periódicos, atividades orientadas e feedbacks direcionados, reforçando a consolidação dos conteúdos e favorecendo a superação das defasagens (Martins, 2021, p. 57).

Conforme Ferreira (2023) após a modelagem, abre-se espaço para discussões de estratégias entre pares, comparação de soluções e análise de erros comuns, sempre com foco na justificativa do raciocínio. Em grandezas e medidas, tarefas de medição autêntica (tempo, massa, comprimento) conectam matemática e cotidiano. A organização de grupos flexíveis potencializa o ensino. 

Em vez de rótulos permanentes, a composição varia conforme a habilidade-alvo do ciclo: fluência, compreensão inferencial, cálculo mental ou resolução de problemas com múltiplas etapas. Grupos menores permitem instrução mais direta, ritmo ajustado e tarefas sob medida. Essa estrutura não substitui o trabalho com a turma toda; ela o complementa. 

Para estudantes com defasagens marcadas, recomenda-se um bloco extra de tutoria estruturada, preferencialmente diário ou em dias alternados, com sessões curtas e objetivos muito precisos. A tutoria concentra-se em uma ou duas habilidades por encontro, emprega materiais de controle de dificuldade e registra resultados para orientar a próxima sessão (Ferreira, 2023).

A curadoria de materiais faz diferença concreta. Em leitura, selecionam-se textos com progressão de complexidade, repertórios temáticos diversos e formatos variados (contos, crônicas, fábulas, reportagens, infográficos). Em escrita, modelos bem construídos servem para estudar a organização por gênero, sem engessar a autoria. 

Em matemática, sequências graduadas evitam saltos e consolidam repertórios, ao mesmo tempo em que introduzem desafios que exigem generalizações. A presença ativa da biblioteca, clubes de leitura e feiras de problemas amplia o universo cultural e convida a turma a circular por textos e situações matemáticas com curiosidade.

Tecnologias educacionais, quando usadas com critério, ampliam o alcance das estratégias. Para Martins (2021) plataformas de leitura com controle de fluência e compreensão oferecem dados úteis para o monitoramento; aplicativos de treino fonológico e de cálculo mental possibilitam prática adaptativa em poucos minutos diários; ambientes de escrita colaborativa favorecem revisão entre pares com critérios claros. 

A escola precisa observar acessibilidade, privacidade de dados e compatibilidade com a infraestrutura disponível. O recurso digital não substitui o docente; ele fornece variedade de caminhos, registro automático e oportunidades adicionais de prática.

A recomposição requer, ainda, atenção constante à inclusão. Adaptações razoáveis roteiros visuais, segmentação de instruções, ampliação de fontes, recursos de leitura em voz alta, dispositivos de apoio à comunicação removem barreiras que nada têm a ver com a capacidade de aprender. O coensino entre professor regente e professor de apoio, quando possível, permite dividir responsabilidades e amplia o repertório de intervenções. A premissa permanece: garantir participação ativa em atividades comuns, com apoios calibrados às necessidades.

Rotinas de abertura conforme que explicitam objetivos, critérios visíveis de qualidade, murais de estratégias e quadros de metas tornam o percurso inteligível. Gomes (2022) afirma que celebrações de pequenas conquistas uma leitura fluente depois de semanas de treino, a primeira produção escrita com coesão adequada, a resolução de um problema desafiador, reforçam a confiança e alimentam a constância de estudo. Quando a turma entende o que se espera e percebe avanço real, assume maior protagonismo sobre o próprio percurso.

Organizar o tempo escolar de modo intencional cria as condições para que tudo o que se planeja aconteça. Reservam-se blocos diários para leitura, escrita e matemática que comportem apresentação, prática guiada e prática autônoma; institui-se um período adicional de oficinas de recomposição para subgrupos; programam-se semanas temáticas com foco em habilidades-chave; preveem-se momentos de observação de aulas e reuniões de análise de dados. A previsibilidade dessas rotinas protege as prioridades contra interrupções e assegura consistência ao longo do ano letivo.

4- AVALIAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS E SUSTENTABILIDADE DAS AÇÕES

A recomposição ganha robustez quando a escola avalia, com método, a eficácia das estratégias e transforma aprendizados em rotinas permanentes. Costa (2021) ressalta que o ponto de partida consiste em explicitar uma teoria de ação, pois se a equipe adotar diagnóstico por descritores, ensino explícito com grupos flexíveis e tutoria estruturada, então se espera ver melhora na fluência, na compreensão e na resolução de problemas, verificada por indicadores definidos previamente. Com a rota clara, selecionam-se métricas, instrumentos e marcos de verificação por ciclo. Vale ressaltar que:

A avaliação das estratégias e a análise da sustentabilidade das ações educativas demandam indicadores claros e processos gerenciais que assegurem a continuidade e efetividade das práticas implantadas. Além disso, é fundamental considerar a participação dos diversos atores institucionais, promovendo ciclos de feedback e ajustes permanentes para garantir a relevância das intervenções ao longo do tempo (Costa, 2021, p. 78).

Indicadores úteis compartilham três atributos como a relevância para o currículo, facilidade de coleta e capacidade de orientar decisões. Em leitura, combinam-se taxa de acertos em compreensão literal e inferencial, medidas de fluência e registros de vocabulário; em escrita, rubricas que consideram organização, coesão e convenções; em matemática, listas de habilidades por eixo, com verificação por problemas que pedem justificativas. Além do nível de proficiência, acompanha-se o progresso onde cada estudante avança dentro do ciclo. Esse olhar evita comparações injustas e valoriza trajetórias (Santos, 2022).

Quanto ao desenho avaliativo, escolas podem adotar estratégias pragmáticas. Um caminho consiste em ciclos de oito a doze semanas com pré-teste, monitoramentos quinzenais e pós-teste, registrando fidelidade de implementação o quanto a estratégia planejada ocorreu de fato. Outro caminho envolve séries temporais; mede-se o desempenho em pontos regulares antes, durante e depois da intervenção, procurando mudanças de tendência. 

Em redes com turmas múltiplas, pode-se comparar a evolução de turmas que receberam certa combinação de estratégias com a evolução de turmas que mantiveram a rotina habitual, garantindo equidade de oportunidades ao final do ciclo. Em qualquer desenho, transparência, consentimento e proteção de dados constituem exigências éticas inegociáveis.

A fidelidade de implementação, muitas vezes negligenciada, precisa de instrumentos próprios. Roteiros de observação de aula, checklists de estratégias, registros de tempo dedicado a cada bloco e amostras de materiais utilizados permitem compreender por que uma intervenção funcionou melhor em um contexto do que em outro. 

Sem esse controle, corre-se o risco de atribuir resultados a uma estratégia que, na prática, quase não ocorreu. Melo (2023) considera que ao mesmo tempo, variações planejadas e intensidades diferentes de tutoria ajudam a calibrar o custo-benefício, informação valiosa para escalar a iniciativa. A interpretação dos resultados exige prudência. Nem toda variação decorre do que se fez; sazonalidade, mudanças de docentes, composição da turma e eventos externos interferem. 

Por isso, recomenda-se triangulação de fontes: dados quantitativos, amostras de produções, relatos de professores e estudantes, e registros da coordenação pedagógica. Convergência entre diferentes evidências fortalece a confiança nas conclusões e orienta ajustes bem fundamentados. Para sustentar o processo, a escola precisa de governança pedagógica. 

Define-se um calendário de formação continuada alinhado às prioridades do ciclo, organizam-se encontros regulares de estudo de dados, instituem-se visitas de observação com devolutivas formativas, garantem-se tempos protegidos para planejamento conjunto. Para Santos (2022) a coordenação atua como mediadora, uma vez que traduziu metas em tarefas viáveis, assegurou materiais, acompanhou a execução e promoveu a circulação de boas práticas entre as turmas. 

Lideranças pedagógicas próximas, que observam aulas e estudam evidências com os docentes, favorecem a consistência e coerência. A colaboração entre escolas acelera a aprendizagem institucional. Laboratórios de práticas, reuniões inter-escolas, visitas técnicas e repositórios de sequências didáticas e instrumentos de avaliação permitem que experiências bem-sucedidas circulem com rapidez. Quando uma solução mostra bons resultados e custos razoáveis, sua adaptação por outras equipes torna-se mais ágil. 

Essa rede de cooperação, segundo Costa (2021) cria uma massa crítica e protege a recomposição contra recuos ocasionais. A participação das famílias, por sua vez, amplia o alcance das intervenções. Comunicação clara sobre objetivos do ciclo, guias simples para acompanhar a leitura diária, propostas de jogos caseiros de cálculo mental e convites para eventos de leitura e matemática em horários acessíveis fomentam a adesão. 

A escola oferece instruções específicas, sem jargões, evita culpabilização e celebra pequenos progressos. Quando a família compreende metas e modos de apoiar, cria-se um arranjo complementar que reforça hábitos de estudo e constância. Em contextos com recursos limitados, priorizam-se estratégias com bom retorno instrucional por unidade de tempo: ensino explícito com prática distribuída, grupos flexíveis, tutoria breve e frequente, curadoria de materiais e uso seletivo de tecnologia. 

Um plano enxuto, bem executado e monitorado conforme Melo (2023) costuma produzir resultados mais sólidos do que muitas iniciativas simultâneas sem coordenação. Ao terminar cada ciclo, registram-se aprendizados, revisam-se metas e atualizam-se protocolos, para que a escola comece o período seguinte mais preparada do que estava antes.

5- CONCLUSÃO

Conclui-se que a recomposição da aprendizagem no Ensino Fundamental se fortalece quando a escola organiza um ciclo contínuo que integra diagnóstico, ensino e avaliação. O diagnóstico aproxima a equipe das necessidades reais de cada turma e orienta escolhas; o ensino explícito, apoiado por grupos flexíveis, tutoria estruturada e curadoria de materiais, garante rotas didáticas capazes de acelerar avanços; a avaliação, ancorada em indicadores úteis e controle de fidelidade, permite ajustar o percurso e sustentar conquistas. 

Ao lado desses elementos, o cuidado com o clima de sala, a atenção à inclusão, a participação das famílias e a governança pedagógica criam o ambiente em que metas se tornam alcançáveis. A análise desenvolvida neste texto evidencia que recuperar trajetórias não se limita a repor conteúdos. Requer reconstruir hábitos de estudo, tornar objetivos visíveis, oferecer devolutivas descritivas e expor os estudantes a desafios intelectuais crescentes, com mediação calibrada. 

Quando a escola prioriza habilidades basilares, define metas por ciclos curtos, monitora resultados e mantém a coerência entre discurso e prática, os avanços aparecem e se acumulam. Cada pequena conquista, uma leitura mais fluente, um texto mais coeso, uma solução de problema mais bem justificada indica que a direção escolhida está correta e que a constância de trabalho produz frutos.A experiência mostra que não há atalhos. Há, sim, decisões bem fundamentadas que, repetidas com qualidade, constroem resultados. 

Propõe-se, então, que cada escola traduza os princípios aqui discutidos em um plano próprio, com metas anuais e trimestrais, calendário de formação, instrumentos de verificação, repertório de estratégias e protocolos de monitoramento. Ao transformar dados em decisões e decisões em rotinas, a recomposição deixa de ser resposta provisória e se converte em compromisso cotidiano com o direito de aprender, aproximando todos os estudantes dos conhecimentos e das competências previstas para sua etapa de escolaridade.

6- REFERÊNCIAS

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COSTA, F. H. Avaliação das estratégias e sustentabilidade das ações educacionais: indicadores e práticas gerenciais. São Paulo: Educ, 2021.

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FERREIRA, A. P. Tutoria estruturada e ensino explícito flexível: abordagens para recomposição de aprendizagem. Curitiba: Editora Educação, 2023.

GOMES, A. L. Ensino explícito flexível e tutoria estruturada: estratégias de recomposição para superação de defasagens. Rio de Janeiro: Editora Aprender, 2022.

MARTINS, C. B. Estratégias de recomposição: ensino explícito flexível e práticas de tutoria estruturada. São Paulo: Editora Pedagógica, 2021.

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MELO, R. Avaliação e sustentabilidade: consolidando ações estratégicas no ensino básico. Recife: Editora Universitária, 2023.

OLIVEIRA, R. A. Diagnóstico e monitoramento das defasagens educacionais no ensino fundamental: um estudo de mapeamento estratégico. Rio de Janeiro: Vozes, 2022.

SANTOS, V. R. Sustentabilidade de ações pedagógicas e avaliação de estratégias. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2022.

SILVA, M. L. Mapeamento das defasagens de aprendizagem: diagnóstico, metas e monitoramento. São Paulo: Pioneira, 2021.

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