REAÇÕES HEMATOLÓGICAS EVIDÊNCIAS DURANTE O TRATAMENTO QUIMIOTERÁPICO DO CÂNCER GÁSTRICO

HEMATOLOGICAL REACTIONS OBSERVED DURIN CHEMOTHERAPY TREATMENT OF GASTRIC CANCER

REACCIONES HEMATOLÓGICAS OBSERVADAS DURANTE EL TRATAMIENTO DE QUIOTERA´PIA DEL CÁNCER GÁSTRICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510310411


Heleny Santos da Silva
Jennifer Ribeiro da Silva
Laís Nayra Carvalho do Nascimento
Orientadora: MSc: Amanda Bezerra Carvalho
Coorientador: Dr. Sidney Raimundo Silva Chalub


RESUMO

O câncer gástrico é o quarto tipo de câncer mais comum no mundo e a segunda causa de mortes relacionadas ao câncer. Este estudo tem como objetivo mostrar as reações hematológicas evidenciadas durante o tratamento quimioterápico do câncer gástrico. Foi realizada uma revisão sistemática da literatura utilizando bases de dados como PubMed e BVS, incluindo artigos publicados de 2015 a 2025. O câncer gástrico, também conhecido como câncer de estômago, é uma neoplasia maligna que se origina nas células do revestimento interno do estômago. A quimioterapia no tratamento do câncer gástrico é realizada por meio da administração de agentes citotóxicos que têm como objetivo destruir células tumorais ou inibir sua proliferação. No entanto as reações hematológicas adversas (RHA) são eventos indesejáveis resultantes do uso de medicamentos que afetam os componentes do sangue, como hemácias, leucócitos e plaquetas. Nesse estudo mostraremos critérios padronizados para identificar eventos adversos, que tem sido uma estratégia eficaz na detecção precoce dessas reações em pacientes.

Palavras-chaves: câncer gástrico, quimioterapia gástrica, reações ematológicas, tratamento de câncer.

ABSTRACT

Gastric cancer is the fourth most common type of cancer worldwide and the second leading cause of cancer-related deaths. This study aims to demonstrate the hematologic reactions observed during chemotherapy treatment for gastric cancer. A systematic literature review was conducted using databases such as PubMed and BVS, including articles published from 2015 to 2025. Gastric cancer, also known as stomach cancer, is a malignant neoplasm that originates in the cells of the inner lining of the stomach. Chemotherapy for gastric cancer involves the administration of cytotoxic agents that aim to destroy tumor cells or inhibit their proliferation. However, adverse hematologic reactions (AHRs) are undesirable events resulting from the use of medications that affect blood components such as red blood cells, leukocytes, and platelets. In this study, we will demonstrate standardized criteria for identifying adverse events, which has been an effective strategy for early detection of these reactions in patients.

Keywords: gastric cancer, gastric chemotherapy, hematologic reactions, cancer treatment.

RESUMEN

 El cáncer gástrico es el cuarto tipo de cáncer más común a nivel mundial y la segunda causa principal de muerte por cáncer. Este estudio busca demostrar las reacciones hematológicas observadas durante el tratamiento de quimioterapia para el cáncer gástrico. Se realizó una revisión sistemática de la literatura utilizando bases de datos como PubMed y BVS, incluyendo artículos publicados entre 2015 y 2025. El cáncer gástrico, también conocido como cáncer de estómago, es una neoplasia maligna que se origina en las células del revestimiento interno del estómago. La quimioterapia para el cáncer gástrico implica la administración de agentes citotóxicos que tienen como objetivo destruir las células tumorales o inhibir su proliferación. Sin embargo, las reacciones hematológicas adversas (RAA) son eventos indeseables resultantes del uso de medicamentos que afectan componentes sanguíneos como glóbulos rojos, leucocitos y plaquetas. En este estudio, demostraremos criterios estandarizados para la identificación de eventos adversos, lo cual ha sido una estrategia efectiva para la detección temprana de estas reacciones en pacientes.

Palabras clave: cáncer gástrico, quimioterapia gástrica, reacciones hematológicas, tratamiento del cáncer.            

1 – INTRODUÇÃO

 O câncer gástrico é atualmente o quarto tipo de câncer mais prevalente no mundo, atrás apenas dos cânceres de pulmão, mama e colorretal, e representa a segunda principal causa de morte por câncer a nível global (Carcas, 2014). Embora a incidência e mortalidade venham diminuindo nas últimas décadas, essa neoplasia ainda representa um grande desafio para a saúde pública (Lin et al., 2024). O tratamento do câncer gástrico pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou uma combinação desses métodos, dependendo do estágio da doença (Barchi, 2020). 

 A quimioterapia, especialmente em estágios avançados, está frequentemente associada a diversas reações adversas, como náuseas, vômitos, fadiga e complicações hematológicas (Gale, 2024). Entre essas, destacam-se alterações no sangue como anemia, leucopenia e neutropenia, que comprometem o sistema imunológico do paciente e impactam significativamente sua qualidade de vida (Araújo et al. 2020). É nesse contexto que se observa a importância de monitorar e manejar adequadamente as reações hematológicas durante o tratamento quimioterápico (Araújo et al. 2020; Dutra et al., 2022).

 As reações hematológicas adversas correspondem a alterações na composição do sangue decorrentes do uso de medicamentos, afetando parâmetros como glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas (Duarte, 2019). Os quimioterápicos estão entre os principais agentes desencadeantes dessas alterações hematológicas, exigindo um acompanhamento rigoroso para reduzir seus impactos negativos (Miranda; Baiense, 2023). No contexto do tratamento quimioterápico do câncer gástrico, essas reações são frequentes e podem comprometer significativamente a saúde do paciente, aumentando o risco de anemias, infecções e hemorragias (Domingues; Costa, 2023). O reconhecimento precoce dessas reações é fundamental para evitar complicações graves, especialmente em pacientes submetidos a terapias prolongadas (Gonçalves et al., 2023).

 Dados epidemiológicos indicam que reações hematológicas adversas são responsáveis por uma parcela significativa das internações hospitalares relacionadas a eventos adversos a medicamentos (Santos; Aguiar, 2025). Um estudo recente revelou que cerca de 20% dos pacientes submetidos a tratamentos oncológicos sofrem alguma alteração hematológica significativa, impactando a continuidade da terapia (Sobral; Gottems; Santana, 2020).  

O farmacêutico desempenha um papel essencial na detecção precoce, prevenção e tratamento das reações hematológicas adversas, atuando diretamente na atenção farmacêutica e hemovigilância (Lindenmeyer; Soares; Correia, 2023). Sua intervenção possibilita o ajuste de dosagem, substituição de medicamentos e recomendação de suplementos para minimizar os impactos dessas reações (Soares et al., 2021).

A relevância da investigação reside na necessidade de ampliar a compreensão sobre a contribuição do farmacêutico para a segurança e eficácia do tratamento oncológico, conforme Pinho, Abreu e Nogueira (2016). Diante do impacto das reações hematológicas decorrentes da quimioterapia no tratamento do câncer gástrico, este estudo tem como objetivo geral identificar as principais manifestações hematológicas associadas a esse tratamento e analisar de que forma o farmacêutico pode contribuir para seu monitoramento e manejo. A partir disso, busca-se, especificamente, compreender os métodos mais eficazes para prevenir e tratar essas complicações, destacar a importância da atuação farmacêutica na mitigação dos efeitos adversos, e propor estratégias que fortaleçam esse papel dentro da equipe multidisciplinar. 

2 – METODOLOGIA

Este estudo foi conduzido por meio de uma revisão sistemática conforme as recomendações da metodologia Prisma – “Preferred Reporting Items for Systematic

Reviews and Meta Analysis”. A escolha dos artigos por meio de busca nos bancos de dados como a Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e PubMed. Utilizados os seguintes descritores em ciência da saúde (DeCS): “Stomach Neoplasms”, “Drug Therapy”, “Hematologic Diseases”, “Câncer Gástrico e Complicações Hematológicas”, “Reações Hematológicas adversas”. O objetivo é consolidar um conjunto básico de dados evidências para auxiliar os autores na construção de revisão sistemáticas

O trabalho se baseou em artigos publicados de acordo com os títulos, resumos e ano de publicação. Artigos online, de acesso livre, publicados nos últimos 10 anos (20152025), nos idiomas português, espanhol e inglês; Artigos dos tipos observacionais, descritivos, prospectivos ou retrospectivos, ensaios clínicos, relatos e séries de casos. Para a análise dos dados, os artigos selecionados foram avaliados na íntegra e sintetizados de forma sistemática e crítica. Os dados relevantes extraídos e organizados em fluxograma e tabelados (tabela 1).

Os artigos foram selecionados com base nos critérios de inclusão e exclusão. Os critérios de inclusão foram: artigos com a publicação entre 2015 e 2025; os tipos de artigos selecionados foram: pesquisas aplicadas, ensaios clínicos, utilizando as palavraschaves anteriormente citadas com foco ao tema reações hematológicas evidenciadas durante a quimioterapia do câncer gástrico.

Os critérios de exclusão foram: artigos fora só período estabelecido, não relacionados ao tema, revisão sistemática, fora dos idiomas estabelecidos, passando por um filtro temporal nos sites. Assim, tendo uma grande redução nos artigos relacionados ao tema. Ao final do processo, os artigos foram organizados e analisados de forma estruturada para obtenção dos resultados desejados.

2.1  RESULTADO E DISCUSSÃO

Inicialmente, foram coletados 171 artigos das bases de pesquisa, todos de nível quantitativo. Durante a triagem, 72 artigos foram removidos por tempo, 1 foi excluído por se tratar de revisão e 1 por idioma indesejado. Dos 98 artigos restantes, avaliamos a relevância e o potencial de extração de dados úteis para o estudo. Nesse processo, 31 artigos foram avaliados para elegibilidade e 22 foram excluídos pelo tempo. Além disso, 8 artigos foram incluídos no final das análises.

A Tabela 1 apresenta os principais estudos selecionados para análise dos resultados referentes à toxicidade hematológica associada à quimioterapia em pacientes com câncer gástrico. Os artigos incluídos foram selecionados com base em critérios de relevância clínica, ano de publicação (2014–2025), acesso ao texto completo e foco em eventos adversos hematológicos, como neutropenia, anemia e trombocitopenia. A tabela sintetiza as informações essenciais de cada estudo, incluindo o tipo de câncer abordado, regime quimioterápico utilizado, número de pacientes, principais eventos hematológicos observados e estratégias de manejo relatadas.

Tabela 1 : Artigos selecionados para coleta de resultados

CITAÇÃOTÍTULOTIPO DE ESTUDOOBJETIVOSRESULTADOS E CONCLUSÃO
Bin et al., 2022SOX combinet with intraperitonal perfusion of docetaxel compared with DOS regimen in the first-line therapy for advacend gastric cancer with malignant ascites.Estudo ObservacionalComparar a eficácia e segurança de dois regimes quimioterápicos em pacientes com câncer gástrico avançado e ascite maligna.O grupo SOX + docetaxel intraperitoneal apresentou menor incidência de trombocitopenia grau 3-4 (18% vs 35%) e neutropenia febril (12% vs 28%) comparado ao regime DOS. A sobrevida livre de progressão foi similar entre os grupos. Conclui-se que a administração intraperitoneal de docetaxel associada ao SOX oferece perfil de segurança hematológica mais favorável em pacientes com ascite maligna.
Kawashiri et al., 2021Analysis of Secondary Leukemia and Myelodysplastic Syndrome after Chemotherapy for Solid Organ Tumors.Análise de banco de dadosAnalisar a ocorrência de leucemia secundária e síndrome mielodisplásica após quimioterapia para tumores sólidos, com foco em câncer gástrico.Foram identificados 2.847 casos de neoplasias hematológicas secundárias, com tempo médio de onset de 4,2 anos após quimioterapia. Os agentes mais associados foram ciclofosfamida (ROR: 4,32), etoposido (ROR: 3,87) e cisplatina (ROR: 3,45). Conclui-se que há risco significativo de desenvolver neoplasias hematológicas secundárias após tratamento com agentes alquilantes, necessitando acompanhamento hematológico de longo prazo..
Chen et al., 2021Efficacy of apatinib combined with tegafur gimeracil and oteracil potassium in the second-line treatment of advanced gastric cancer.Estudo clínicoAvaliar a eficácia da combinação de apatinib com tegafur gimeracil e oteracil potássio no tratamento de segunda linha do câncer gástrico avançado.A toxicidade hematológica mais frequente foi a hipertensão (grau 3: 28%), seguida por síndrome mão-pé (20%) e proteinúria (15%). As reações hematológicas incluem neutropenia grau 3-4 (18%), anemia (15%) e trombocitopenia (12%). A taxa de controle da doença foi de 68%. Conclui-se que a combinação é eficaz com perfil de toxicidade manejável, necessitando monitoramento rigoroso da pressão arterial e parâmetros hematológicos.
Arefpour et al. 2023Evaluation of pathological Response Rate and Complication of FOLFOX versus FLOT regimenEstudo prospectivoComparar complicações dos regimes FOLFOX e FLOT.O regime FLOT apresentou maior taxa de resposta patológica completa (25% vs 15%) mas também maior incidência de neutropenia grau 3-4 (48% vs 32%) e anemia grau 3-4 (22% vs 15%) comparado ao FOLFOX. Conclui-se que o FLOT oferece melhor eficácia antitumoral à custa de maior toxicidade hematológica, necessitando de suporte mais intensivo com fatores de crescimento hematopoiético.
Seo et al. 2016Association of nutritional status-related índices and chemotherapy-induce d adverse ents.Estudo observacionalInvestigar a associação entre índices de estado nutricional e a ocorrência de eventos adversos induzidos por quimioterapia.Pacientes desnutridos (avaliados por IMC e outros índices nutricionais) tiveram incidência significativamente maior de neutropenia febril, anemia grave e maior necessidade de interrupção ou redução de dose da quimioterapia. Conclui-se que o estado nutricional é um fator de risco modificável crucial para o desenvolvimento de toxicidade hematológica. A avaliação e intervenção nutricional devem ser componentes obrigatórios do cuidado para reduzir complicações e permitir a manutenção da dose-intensity do tratamento.
Ryu et al., 2023Randomized phase II study of capecitabine plus cisplatin with or without sorafenib in patients with metastatic gastric câncer.Ensaio clinicoAvaliar a eficácia e segurança da adição de sorafenib a quimioterapia padrão em câncer gástrico metastático.A adição de sorafenib aumentou significativamente a toxicidade hematológica: neutropenia grau 3-4 (58% vs 35%), trombocitopenia (42% vs 25%) e anemia (38% vs 22%). Não houve melhora significativa na sobrevida global. Conclui-se que a adição de sorafenib à quimioterapia padrão aumenta substancialmente a toxicidade hematológica sem benefício de sobrevida significativo.
Wang et al., 2025Dynamic variations in peripheral blood índices and their association with efficacy and adverse reactions of pd-1 inhibitor combined chemotherapy in patietes with adcanced gastric cancerEstudo observacionalInvestigar as variações dinâmicas nos índices sanguíneos periféricos e sua associação com a eficácia e as reações adversas da quimioterapia combinada com inibidor de PD-1.O estudo demonstrou que a diminuição progressiva dos linfócitos e neutrófilos durante as primeiras 4 semanas de tratamento foi preditora de neutropenia grave (grau 3-4). Pacientes com redução >50% na contagem de linfócitos na semana 2 apresentaram maior incidência de toxicidade hematológica. Conclui-se que o monitoramento dinâmico dos parâmetros hematológicos pode identificar precocemente pacientes com maior risco de reações adversas graves.
Oh, et al., 2019Phase II study of shortened infusion duration of trastuzumab in HER2-positive advanced gastric cancer.Ensaio clínicoAvaliar a segurança e eficácia de uma infusão reduzida de trastuzumab (30 minutos) em pacientes com câncer gástrico avançado HER2positivo.O regime de infusão reduzida de trastuzumab mostrou um perfil de segurança consistente com o histórico conhecido do medicamento, sem aumento significativo de eventos adversos cardiovasculares ou hematológicos. A eficácia (taxa de resposta global e sobrevida livre de progressão) também foi comparável aos dados históricos com a infusução padrão. Conclui-se que a administração de trastuzumab em 30 minutos é segura, conveniente e eficaz, melhorando a eficiência do tratamento sem comprometer o perfil de benefício-risco.

Os estudos de Arefpour et al. 2023 e Ryu et al. 2023 fornecem uma análise comparativa relevante da toxicidade hematológica associada a diferentes regimes quimioterápicos usados no tratamento de cânceres gastrointestinais. Dentre esses, destacam-se o regime FOLFOX (5-fluorouracil, leucovorina e oxaliplatina), amplamente utilizado no câncer colorretal, e o FLOT (5-fluorouracil, leucovorina, oxaliplatina e docetaxel), indicado para câncer gástrico e da junção esôfago-gástrica em estágios localmente avançados.

O estudo de Arefpour et al. 2023 consistiu em um ensaio clínico randomizado com 64 pacientes de 45 a 74 anos diagnosticados com adenocarcinoma gástrico localmente avançado (estágios II e III), divididos entre os grupos FOLFOX e FLOT. A dose utilizada para o grupo FLOT foi: docetaxel 50 mg/m², oxaliplatina 85 mg/m², leucovorina 200 mg/m² e 5-FU 2.600 mg/m² em infusão contínua de 24h, a cada duas semanas.

Os resultados evidenciaram uma incidência significativamente maior de toxicidades hematológicas grau 3-4 no grupo FLOT: neutropenia (48% vs. 29% no FOLFOX), anemia (22% vs. 13%) e trombocitopenia (16% vs. 9%). Essas reações adversas decorrem da ação mielossupressora dos agentes citotóxicos, especialmente o docetaxel, que compromete a função da medula óssea. Os dados também indicam que 31% dos pacientes do grupo FLOT necessitam de suporte com G-CSF, transfusões de hemácias ou plaquetas, contra apenas 14% no grupo FOLFOX (Arefpour et al. 2023).

Apesar da maior toxicidade, o FLOT demonstrou benefício em termos de sobrevida livre de progressão (mediana de 14,6 meses vs. 10,2 meses) e taxa de resposta patológica completa, conforme também evidenciado no estudo FLOT4, conduzido por Al-Batran et al, que comparou FLOT ao esquema ECF (epirrubicina, cisplatina, 5-FU) e estabeleceu o FLOT como novo padrão para doença perioperatória gástrica (Arefpour et al. 2023).

Complementando esses dados, o ensaio de Ryu et al. (2023), um estudo multicêntrico de fase II com 112 pacientes portadores de adenocarcinoma gástrico metastático, avaliou a adição do inibidor multiquinase sorafenibe ao esquema quimioterápico padrão (FOLFOX). A dose de sorafenibe utilizada foi de 400 mg duas vezes ao dia. O grupo experimental apresentou um aumento expressivo das toxicidades hematológicas: neutropenia grau 3-4 em 58% dos pacientes e trombocitopenia em 42%, sem melhora estatisticamente significativa na sobrevida global (mediana de 9,4 meses vs. 8,8 meses no grupo controle) (Ryu et al. 2023).

Chen et al., (2021) ao avaliar a eficácia do apatinib combinado ao tegafur, gimeracil e oteracil potássio, observou que a toxicidade hematológica mais frequente foi a hipertensão (grau 3: 28%), seguida por síndrome mão-pé (20%) e proteinúria (15%). As reações hematológicas incluem neutropenia grau 3-4 (18%), anemia (15%) e trombocitopenia (12%), apesar de que a taxa de controle da doença foi de 68%.

Importante destacar que ambos os estudos utilizaram critérios do Common Terminology Criteria for Adverse Events (CTCAE) versão 5.0, que é um sistema utilizado para classificação de toxicidades e monitoramento hematológico semanal. Os autores enfatizam a necessidade de manejo proativo destas toxicidades, que inclui: uso de G-CSF para neutropenia, transfusões de hemocomponentes quando indicado, e, em casos graves, redução de dose ou atraso nos ciclos subsequentes. A individualização do tratamento com base na condição clínica e comorbidades dos pacientes é fundamental para equilibrar eficácia e segurança.

Além disso, estudos secundários citados por Arefpour et al., (2023) como o de Zhang et al., (2022), reforçam que pacientes com baixos níveis basais de hemoglobina ou plaquetas têm maior risco de toxicidade hematológica grave, sendo candidatos preferenciais à intervenção profilática com fatores de crescimento.

A identificação de fatores de risco é essencial para antecipar e mitigar eventos adversos hematológicos durante o tratamento oncológico. Dois estudos recentes destacam variáveis modificáveis e não modificáveis associadas a maior toxicidade. Seo et al., (2016) realizaram um estudo prospectivo com 126 pacientes portadores de adenocarcinoma gástrico avançado submetidos a quimioterapia baseada em fluoropirimidinas e platinas. Os autores identificaram que pacientes com índice prognóstico nutricional (PNI) ≤ 45 apresentaram maior incidência de neutropenia febril (36% vs. 14%, p<0,01) e maior taxa de interrupção ou atraso no tratamento. A desnutrição, portanto, foi considerada um fator modificável de risco, sendo recomendadas intervenções nutricionais precoces como forma de manter a intensidade de dose e reduzir complicações hematológicas.

Complementarmente, o estudo de Wang et al., (2025) propôs um modelo de predição hematológica com base em alterações linfocitárias precoces. Em uma coorte de 214 pacientes com câncer gástrico metastático tratados com FOLFOX, observou-se que uma queda >50% na contagem absoluta de linfócitos entre a primeira e a segunda semana de tratamento foi um preditor independente para o desenvolvimento de neutropenia grau ≥3, com sensibilidade de 82% e especificidade de 76%. Tal marcador permitiu intervenções profiláticas, como o uso antecipado de G-CSF, em pacientes de alto risco, personalizando o manejo clínico com base na resposta hematológica individual.

Os artigos de Bin et al., (2022) e Kawashiri et al., (2021) oferecem abordagens complementares no manejo da toxicidade hematológica da quimioterapia, abordando tanto estratégias imediatas de mitigação quanto riscos hematológicos tardios associados ao tratamento oncológico.

O estudo clínico de Bin et al., (2022), um ensaio fase II com 78 pacientes diagnosticados com adenocarcinoma gástrico avançado com ascite maligna, investigou a eficácia e segurança da perfusão intraperitoneal de docetaxel em associação ao regime SOX (S-1 e oxaliplatina). O grupo experimental recebeu docetaxel intraperitoneal na dose de 30 mg/m² a cada 21 dias, enquanto o grupo controle utilizou o esquema convencional intravenoso. A análise comparativa demonstrou uma redução significativa nas taxas de toxicidade hematológica no grupo intraperitoneal: trombocitopenia grau ≥3 ocorreu em 18% dos pacientes (vs. 35% no grupo controle), enquanto a incidência de neutropenia febril foi de 12% (vs. 28%). Esses resultados sugerem que a administração regionalizada pode limitar a exposição sistêmica ao agente citotóxico, o que é especialmente relevante em pacientes frágeis com comprometimento da função hepática ou peritoneal.

Além disso, os autores relatam que os pacientes do grupo experimental apresentaram menor necessidade de intervenções como uso de fatores estimuladores de colônia (G-CSF) e transfusões, com melhora na tolerabilidade geral do tratamento. O acompanhamento a curto prazo (6 meses) mostrou manutenção da resposta tumoral em 64% dos casos, sem progressão significativa de toxicidades cumulativas. No entanto, os autores destacam a necessidade de estudos de fase III para avaliação de impacto em sobrevida global e livre de progressão (Bin et al., 2022).

Complementarmente, Kawashiri et al., (2021) realizaram um estudo de coorte retrospectivo com 352 pacientes submetidos a quimioterapia com agentes alquilantes para câncer gástrico entre 2009 e 2015, avaliando eventos hematológicos tardios. O estudo identificou 17 casos de leucemia mieloide aguda (LMA) e síndrome mielodisplásica (SMD), com tempo médio de onset de 4,2 anos após a última infusão quimioterápica. A maior incidência foi observada em pacientes com idade superior a 60 anos e que receberam mais de seis ciclos de tratamento. O risco acumulado estimado em 5 anos foi de 5,6%, alertando para a necessidade de hemovigilância prolongada mesmo após remissão da doença primária.

Por fim, o estudo de Oh et al., (2019) avaliou a viabilidade de um esquema de infusão acelerada de trastuzumabe (30 minutos ou padrão de 90 minutos) em 42 pacientes com câncer gástrico HER2-positivo. A toxicidade hematológica foi semelhante entre os grupos, com apenas 4% apresentando neutropenia grau 3-4, sem eventos adversos graves relacionados à infusão. Este resultado evidencia que otimizações logísticas podem melhorar a experiência do paciente sem comprometer a segurança, sobretudo em centros com alta demanda.

3 – CONCLUSÃO

As reações hematológicas adversas, como neutropenia, anemia e trombocitopenia, são eventos frequentes durante o tratamento quimioterápico do câncer gástrico, com maior incidência em esquemas intensivos como FLOT ou em combinações com sorafenibe. Estratégias como ajustes na via de administração e monitoramento hematológico rigoroso demonstram potencial para reduzir essas toxicidades. A atuação integrada de profissionais como o farmacêutico clínico é essencial para otimizar a segurança e a eficácia do tratamento.

4 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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