PROPOSTA DE SISTEMA DE DRENAGEM URBANA ABRANGENDO O CONJUNTO HABITACIONAL CIDADÃO VII NO BAIRRO NOVA CIDADE EM MANAUS–AM: ESTUDO DE CASO 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511102357


Fernando Campelo Gomes
Orientador: Prof. Me. Igor Nonato Almeida Pereira


RESUMO 

O crescimento urbano acelerado e desordenado tem gerado sérios desafios ao manejo das águas pluviais em Manaus, especialmente na Zona Norte, onde a deficiência dos sistemas de drenagem intensifica os alagamentos e impactos socioambientais. Este trabalho apresenta uma proposta de sistema de drenagem urbana para o Conjunto Habitacional Cidadão VII, no bairro Nova Cidade, com base em análises hidrológicas e hidráulicas. A metodologia empregou cálculos de precipitação, escoamento superficial e vazão de pico pelo método racional, além do dimensionamento das galerias pluviais e bocas de lobo conforme normas do DNIT e ABNT. Os resultados indicaram uma vazão de projeto de 2,30 m³/s e a viabilidade de galerias de concreto com diâmetro de 1,00 m, bem como a necessidade de 14 bocas de lobo combinadas sem depressão para garantir a eficiência hidráulica. A proposta visa mitigar os alagamentos, melhorar a durabilidade da infraestrutura urbana e contribuir para o planejamento sustentável da drenagem em áreas de expansão urbana.  

Palavras-chave: drenagem urbana; escoamento pluvial; infraestrutura urbana; Manaus; sistema de microdrenagem. 

ABSTRACT 

The rapid and unplanned urban growth has created major challenges for stormwater management in Manaus, particularly in the North Zone, where inadequate drainage systems increase flooding and environmental impacts. This study proposes an urban drainage system for the Cidadão VII Housing Complex, located in the Nova Cidade neighborhood, based on hydrological and hydraulic analyses. The methodology included rainfall, surface runoff, and peak flow calculations using the rational method, as well as the design of stormwater galleries and catch basins according to DNIT and ABNT standards. Results indicated a design flow rate of 2.30 m³/s and the feasibility of 1.00 m diameter concrete galleries, along with the need for 14 combined catch basins without depression to ensure hydraulic efficiency. The proposal aims to reduce flooding, improve urban infrastructure durability, and support sustainable drainage planning in expanding urban areas. 

Keywords: urban drainage; stormwater runoff; urban infrastructure; Manaus; microdrainage system. 

1. INTRODUÇÃO

O fenômeno da urbanização acelerada nas cidades brasileiras tem imposto desafios significativos à infraestrutura urbana, particularmente no que concerne ao manejo das águas pluviais. A expansão urbana, muitas vezes desordenada e caracterizada pela impermeabilização crescente do solo, aliada à deficiência no planejamento e execução de sistemas de drenagem, culmina em problemas recorrentes como alagamentos, processos erosivos e impactos socioambientais adversos. Tais eventos não apenas causam prejuízos materiais, mas também afetam a qualidade de vida da população e a sustentabilidade dos ecossistemas urbanos. 

Manaus, capital do estado do Amazonas, destaca-se como o principal polo econômico e populacional da Região Norte do Brasil, abrigando mais de 2,3 milhões de habitantes estimados. O crescimento da cidade está intrinsecamente ligado a dois grandes períodos de desenvolvimento econômico: o ciclo da borracha e, mais recentemente, a implantação da Zona Franca de Manaus (ZFM). 

A ZFM impulsionou um rápido e contínuo crescimento populacional e territorial, atraindo migração e concentrando atividades industriais, comerciais e de serviços. Este dinamismo econômico, embora vital, resultou em uma expansão urbana acelerada e, muitas vezes, desordenada, especialmente nas áreas periféricas da cidade. 

Assim como em outros grandes centros urbanos brasileiros, o crescimento acelerado de Manaus impõe severos desafios à infraestrutura municipal, notadamente no que tange ao saneamento básico e à drenagem urbana. A expansão territorial direcionou o crescimento para novas configurações, exigindo uma infraestrutura que, em muitos casos, não acompanhou o ritmo da ocupação. 

A Zona Norte de Manaus, onde se localiza o Conjunto Habitacional Cidadão VII, é uma das áreas que mais sentiu o impacto dessa expansão. Dados de risco geológico indicam que esta região concentra um número significativo de setores e domicílios expostos a desastres naturais, como deslizamentos e alagamentos, que são frequentemente agravados por problemas de drenagem e ocupação em áreas vulneráveis. 

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), em 2010, o município contava com 1.802.014 habitantes no Censo de 2010. O Censo mais recente, realizado em 2022, aponta que a população de Manaus atingiu 2.063.547 pessoas. Esse aumento representa um crescimento populacional de 14,51% no período de 12 anos (2010-2022), desde o último censo apresentado pelo o IBGE.  

A falha do sistema de drenagem urbana nem sempre ocorre devido ao crescimento populacional em si, mas também a um conjunto de fatores que contribui a isso, primordialmente os “profissionais de diferentes áreas que não possuem informações adequadas sobre a fonte dos problemas e suas causas” (TUCCI, 2005, p.14), que interferem e influenciam no espaço urbano.  

Tucci (2005) ainda complementa o que contribui para os efeitos da falha: “Concepção inadequada dos profissionais de engenharia sobre planejamento e controle dos sistemas. Uma parcela importante dos engenheiros que atuam no meio urbano está desatualizada quanto à visão ambiental e geralmente busca soluções estruturais, que alteram o ambiente, criando um excesso de áreas impermeáveis e, consequentemente, elevação de temperatura, inundações, poluição, entre outros”. 

Diante de tais aspectos, a drenagem urbana surge como um elemento indispensável no planejamento urbano contemporâneo. O crescimento acelerado das cidades, como Manaus, deve ser acompanhado por uma infraestrutura adequada para a coleta e destinação das águas pluviais, visando a preservação dos elementos essenciais da paisagem urbana, a segurança dos usuários e a melhoria da qualidade de vida, saúde e saneamento dos moradores.  

Contudo, a ausência de um planejamento estratégico eficaz e a expansão urbana desordenada, aliadas à ocupação de áreas de risco, resultam na sobrecarga dos sistemas de saneamento básico e drenagem pluvial. No caso específico do Conjunto Habitacional Cidadão VII, essa situação se agrava pela ineficiência da drenagem pluvial, devido ao subdimensionamento da rede e, em parte, à sua inexistência, o que reproduz uma sequência de ocorrências e dificuldades inerentes à gestão pública.  

2. JUSTIFICATIVA

A drenagem urbana constitui um pilar fundamental da infraestrutura das cidades, desempenhando um papel insubstituível no controle das águas pluviais e na prevenção de desastres como alagamentos, erosões e danos significativos ao meio ambiente e à população. Em contextos de crescimento urbano acelerado e ocupação do solo desordenada, como é frequentemente observado em bairros da Zona Norte de Manaus, os sistemas de drenagem existentes ou recém-implantados podem se mostrar insuficientes ou inadequadamente dimensionados, magnificando os impactos negativos das chuvas intensas. 

A seleção do Conjunto Habitacional Cidadão VII como estudo de caso é estrategicamente relevante, pois permite uma análise aprofundada dos efeitos de uma obra de drenagem recente em uma área historicamente crítica. Esta abordagem possibilita não apenas verificar a eficácia da intervenção sob parâmetros técnicos e ambientais rigorosos, mas também identificar lacunas propor aprimoramentos. A investigação contribuirá significativamente para o desenvolvimento de soluções de drenagem mais sustentáveis e replicáveis, fornecendo insights valiosos para o planejamento urbano e a gestão de recursos hídricos em outras localidades com desafios análogos. 

Além do valor técnico e científico, este estudo possui uma relevância social intrínseca. Ao analisar a capacidade do sistema de drenagem em mitigar alagamentos e seus impactos na comunidade, o trabalho visa subsidiar a tomada de decisões por parte de gestores públicos e urbanistas. A promoção de maior segurança hídrica, qualidade de vida e um planejamento urbano mais resiliente são os resultados esperados, reforçando a importância de investimentos contínuos e bem planejados em infraestrutura de drenagem. A pesquisa, portanto, transcende o âmbito acadêmico, oferecendo contribuições práticas para a melhoria das condições urbanas e o bem-estar da população. 

3. OBJETIVOS
3.1 Objetivo Geral 

O objetivo geral deste trabalho é propor um sistema de drenagem urbana para o Conjunto Habitacional Cidadão VII, localizada no bairro Nova Cidade, em Manaus, com foco na sua capacidade de escoamento, nos requisitos de manutenção e no impacto efetivo na redução dos eventos de alagamento. Nesse sentido, foi possível uma compreensão abrangente do desempenho da infraestrutura em um contexto urbano desafiador. 

3.2 Objetivos Específicos 

Para alcançar o objetivo geral, foram desenvolvidos os seguintes objetivos específicos: 

  • Selecionar o local de estudo para a realização da proposta de drenagem urbana;  
  • Descrever a infraestrutura de drenagem existente no local selecionado, considerando a configuração e o dimensionamento do sistema de drenagem implantado, identificando seus componentes, materiais e especificações técnicas; 
  • Calcular a capacidade hidráulica do sistema ideal para implantação no local selecionado, tendo em vista o escoamento da rede de drenagem, dados pluviométricos históricos e atuais da região, bem como parâmetros hidráulicos e hidrológicos para simular o comportamento do sistema frente a diferentes cenários de chuva; 
  • Elaborar a proposta do sistema de drenagem urbana para o Conjunto Habitacional Cidadão VII, localizada no bairro Nova Cidade, em Manaus. 
4. METODOLOGIA

 O presente estudo foi conduzido por meio de uma abordagem aplicada, combinando métodos qualitativos e quantitativos, e utilizando a estratégia de estudo de caso no Conjunto Habitacional Cidadão VII, bairro Nova Cidade, Zona Norte de Manaus – AM. Esta metodologia permitiu a descrição aprofundada da realidade local e a proposição de soluções contextualizadas. A pesquisa foi estruturada nas seguintes etapas: 

Para o desenvolvimento desse estudo foi elaborado um projeto básico de drenagem urbana, seguindo o seguinte roteiro:  

4.1. Selecionar o local de estudo para a realização da proposta de drenagem urbana;  

O local objeto de estudo foi selecionado considerando a inexistência de rede de drenagem apta a atender a demanda causando problemas de alagamento de forma frequente.  

4.2. Descrever a infraestrutura de drenagem existente no local selecionado, considerando a configuração e o dimensionamento do sistema de drenagem implantado, identificando seus componentes, materiais e especificações técnicas; 

Prospecção, delimitação e avaliação da área escolhida, quanto à infraestrutura de drenagem urbana instalada. Verificação da existência do projeto de rede de drenagem da área em estudo e avaliação do número de bocas de lobo e certificação in loco da posição de cada uma; 

Observação do estado de utilização das bocas de lobo em relação ao acúmulo de resíduos, possíveis obstruções e integridade de modo geral;  

Identificação da capacidade de escoamento da rede existente através do cálculo de capacidade das sarjetas, bocas de lobo e da galeria já instaladas, caso haja informações dos diâmetros da galeria, assim como o posicionamento;  

Reconhecimento do local de lançamento no corpo receptor por meio de visitas ao local;  

4.3. Calcular a capacidade hidráulica do sistema ideal para implantação no local selecionado, tendo em vista o escoamento da rede de drenagem, dados pluviométricos históricos e atuais da região, bem como parâmetros hidráulicos e hidrológicos para simular o comportamento do sistema frente a diferentes cenários de chuva; 
4.3.1 Aplicação do Cálculo do Volume de Água Precipitada 

O cálculo do volume de água precipitada é utilizado para determinar a quantidade total de chuva que incide sobre uma determinada área durante um período específico. Essa etapa é fundamental na metodologia de dimensionamento do sistema de drenagem pluvial, pois permite estimar o volume de escoamento superficial que será conduzido pelas estruturas projetadas. 

Com base na fórmula apresentada na Equação 1, é possível dimensionar adequadamente os sistemas de escoamento e armazenamento das águas pluviais, prevenindo problemas como alagamentos, erosões e sobrecarga nas redes de drenagem. 

Fonte: Manual de Hidrologia Básica para Estruturas de Drenagem – DNIT (IPR-715) (2005) Em que: 

  • V = volume de água precipitada (m³); 
  • P = precipitação (m); 
  • A = área de contribuição (m²). 
4.3.2. Cálculo do Volume de Escoamento Superficial 

O volume de escoamento superficial (Ve) foi determinado a partir da relação entre o volume total de água precipitada (V) e o coeficiente de escoamento superficial (C), que representa a fração da precipitação que efetivamente escoa sobre a superfície. Esse cálculo permite estimar o volume de água que não é infiltrado no solo, sendo conduzido para o sistema de drenagem pluvial. 

A fórmula utilizada é apresentada na Equação 2: 

Fonte: Avaliação do Coeficiente de Escoamento Superficial – XXIII SBRH (2019) 

Em que: 

  • Ve = volume de escoamento superficial (m³); 
  • C = coeficiente de escoamento superficial (adimensional);
  • V = volume de água precipitada (m³). 

O coeficiente de escoamento, também conhecido por coeficiente de deflúvio ou mesmo coeficiente de Runoff, é determinado pela razão entre o volume de água que é escoado pela superfície e a quantidade de água precipitada. Esse coeficiente pode ser de uma chuva isolada ou também de um intervalo de tempo, no qual ocorreram várias chuvas. Ele depende de características de solo como cobertura e tipo de ocupação, além da intensidade de precipitação e do tempo de retorno. A Tabela 1 apresenta exemplos de valores do coeficiente de escoamento (C) para diferentes superfícies urbanas (CARVALHO, 2006; PARANÁ, 2017). 

4.3.3 Cálculo da Vazão pelo Método Racional 

Foi utilizado o método racional para o cálculo da vazão de pico, por se tratar do procedimento mais amplamente empregado na determinação de vazões de projeto para sistemas de drenagem urbana. Esse método estabelece uma relação direta entre a intensidade da precipitação, o coeficiente de escoamento superficial e a área de contribuição. 

A equação utilizada para o cálculo da vazão é apresentada na Equação 3:

Fonte: Manual de Hidrologia Básica – DNIT (2005) 

Em que: 

  • Q = vazão de pico (m³/s); 
  • C = coeficiente de escoamento superficial (adimensional); 
  • i = intensidade da chuva (mm/h); 
  • A = área de contribuição (ha ou km², conforme unidade adotada). 

Para a determinação da intensidade da chuva (i), foi utilizada a relação entre duração da precipitação e tempo de retorno, com base nos dados do Atlas Pluviométrico do Brasil (2015). Esses dados apresentam as intensidades médias máximas de precipitação para diferentes durações e períodos de retorno, permitindo selecionar o valor mais representativo para o dimensionamento da rede de drenagem pluvial. 

4.3.4 Dimensionamento das Galerias Pluviais 

O dimensionamento das galerias pluviais foi realizado utilizando a equação de Manning, que expressa a relação entre a vazão de escoamento, as características geométricas do conduto e as propriedades hidráulicas do material. Essa equação é amplamente empregada em projetos de drenagem urbana para o cálculo da capacidade de condução das tubulações sob escoamento permanente e uniforme. 

A equação de Manning para condutos circulares em escoamento cheio é apresentada na Equação 4: 

Fonte: Porto, Rodrigo de Melo – Hidráulica Básica (2006) 

Onde: 

  • Q = vazão (m³/s); 
  • n = coeficiente de rugosidade de Manning (adimensional);
  • S = declividade da linha de energia (m/m). 

O cálculo permite determinar o diâmetro ideal das tubulações do sistema de drenagem, de modo que estas conduzam a vazão de projeto sem provocar sobrepressões, extravasamentos ou velocidades excessivas que possam comprometer a durabilidade e eficiência do sistema. 

4.3.5 Dimensionamento das Bocas de Lobo 

A eficiência desse tipo de captação depende da altura da lâmina d’água (y) junto à abertura e do comprimento útil da soleira (L) da boca de lobo. A vazão de engolimento é determinada pela Equação 5, conforme apresentada em Tucci e Porto (1998): 

Em que: 

  • Q = vazão de engolimento (m³/s); 
  • y = altura da lâmina de água junto à guia (m);
  • L = comprimento da soleira da abertura (m). 
4.4. Elaborar a proposta do sistema de drenagem urbana para o Conjunto Habitacional Cidadão VII, localizada no bairro Nova Cidade, em Manaus. 

Elaboração de um anteprojeto hidráulico compatibilizando as informações adquiridas e propondo uma adequação do sistema de microdrenagem existente, de forma a escoar a vazão de chuva da área.  

Elaboração do traçado da galeria, fazendo a ligação das bocas de lobo e dos Poços de Visita com a galeria, de forma a escoar água de chuva por gravidade, para o ponto mais baixo da subbacia ou local de lançamento do corpo receptor. 

5. RESULTADOS 
5.1. Descrição da Área 

A região é formada por uma complexa matriz de áreas urbanizadas, como indústrias, residências e comércios, e está situada em uma altitude média de aproximadamente 33 metros. Os setores fazem parte da Bacia Hidrográfica do Igarapé do Mindu (Figura 1), um dos principais corpos d’água urbanos da cidade.  

Figura 1 – Mapa de Bacias Hidrográficas do município de Manaus. 

Esta bacia conduz toda a água pluvial para o sistema de Igarapés de Manaus, como o Igarapé do Mindu, que drena uma porção significativa da área urbana do município. Posteriormente, a água é escoada para o Rio Negro, que se une ao Rio Solimões para formar o Rio Amazonas, sendo o Rio Negro um dos principais canais da bacia hidrográfica amazônica e essencial para o abastecimento de água e a dinâmica socioambiental da cidade (CARMO FILHO, 2024; LEMOS, 2016). 

Conforme mencionado anteriormente, o lugar de estudo está localizado na zona norte do município de Manaus – AM, mais especificamente no bairro Nova Cidade – Conjunto Habitacional Cidadão VII, com área aproximada de 0,126 km². A figura 2 ilustra a disposição do local. 

Foram realizadas visitas ao local, com o intuito de catalogar as bocas de lobo já existentes na área de estudo. Por meio deste mapeamento, foi constatado que o Conjunto Cidadão VII com uma área 126.169,24 m² dispõe de apenas nove bocas de lobo do tipo simples e dupla localizados nas coordenadas citadas na Tabela 1 e na Figura 3.  

Apesar da existência das bocas de lobo, não foi possível identificar o seguimento da rede, em decorrência dos poços de visita, dando a entender que foram cobertas por camada de pavimento. Observa-se nas Figuras 4 e 5 que as bocas de lobo existentes estão entupidas com os resíduos sólidos, incluindo lixos domésticos, restos de construção civil, terra e vegetação sem a mínima possibilidade de utilização, captação e escoamento nas galerias pluviais, o que demonstra a precarização devido à falta de manutenção e desobstrução da rede existente. 

Desse modo, ao se analisar a dimensão da área, percebe-se, portanto, que não há sistema drenante que comporte a necessidade do conjunto, o que gera dificuldades aos moradores e na própria conservação da nascente do córrego. 

5.2 Áreas de Contribuição 

O dimensionamento da rede de drenagem inicia-se com a delimitação das áreas de influência. A demarcação é fundamental para determinar o quanto cada dispositivo será influenciado pelo o escoamento das águas pluviais. Nessa fase, é essencial que se observe as caraterísticas topográficas do terreno (Figura 6, Figura 7) e o estudo do sentido do escoamento da área, em relação aos dispositivos que serão instalados, para que sejam determinadas as pequenas áreas de drenagem. 

Na Figura 6 é possível verificar no gráfico a diferença de elevação de acordo com o gráfico inicia-se em um ponto mais alto de 52 m até o mais baixo indicado no mapa com de 39 m até uma nova elevação no final de 43 m.

Na figura 7 é possível verificar no gráfico a perda de elevação. Onde que no máximo da elevação é de 49 m até o seu mínimo indicado no mapa de 40 m. 

5.3 Dimensionamento do Sistema de Drenagem Urbana 

Para o dimensionamento da rede de drenagem urbana na área de estudo (126.169,24 m²), foram adotados os seguintes critérios e métodos: 

5.3.1 Cálculo do Volume de Água Precipitada 

Com base nos dados de precipitação máxima e na área total de contribuição, foi determinado o volume de água precipitada sobre a área de estudo. Adotou-se uma precipitação máxima diária de 30 mm (equivalente a 0,03 m), obtida conforme figura 8. Com área de contribuição de 126.169,24 m².  

Aplicando a (Equação 1), conforme recomendada pelo Manual de Hidrologia Básica para Estruturas de Drenagem – DNIT (IPR-715) (2005): 

Obteve-se um volume total de água gerado pela chuva: 3.785,07 m³ 

Esse resultado representa a quantidade de chuva incidente sobre a área durante o evento considerado, sendo um dado fundamental para o dimensionamento das estruturas de drenagem pluvial. Observa-se que o volume obtido é expressivo, o que reforça a importância de um sistema de captação eficiente para evitar o acúmulo de águas e possíveis alagamentos na região de estudo. 

5.3.2 Cálculo do Volume de Escoamento Superficial 

O volume de escoamento superficial foi calculado, utilizando coeficiente de escoamento correspondente às superfícies impermeáveis predominantes, como concreto, asfalto e telhado de 0,95, obtida conforme tabela 2.  

Aplicando a (Equação 2), conforme utilizada pela Avaliação do Coeficiente de Escoamento Superficial – XXIII SBRH (2019):

Obteve-se um volume de escoamento superficial igual a 3.595,82 m³. 

Esse resultado representa o volume total de água escoada superficialmente durante o evento de precipitação adotado, refletindo as condições altamente impermeáveis da área. O valor elevado confirma a necessidade de um sistema de drenagem eficiente, capaz de conduzir a vazão gerada e evitar ocorrências de alagamentos e sobrecarga nas estruturas de captação. 

5.3.3. Método Racional (para dimensionamento de vazão de projeto) 

Para o dimensionamento das galerias de águas pluviais. A vazão de pico foi previamente calculada, considerando um coeficiente de escoamento superficial de 0,95, uma intensidade de chuva de 57,6 mm/h (convertida para 0,000016 m/s) onde tempo de retorno de 2 anos com duração de 1 hora, obtida da figura 17, e uma área de contribuição de 126.169,24 m². 

Aplicando a (Equação 3), conforme recomendado pelo Manual de Hidrologia Básica – DNIT (2005):

Obteve-se a vazão de projeto calculada de 1,92 m³/s. 

Visando garantir maior segurança hidráulica ao sistema, foi aplicada uma margem de segurança de 20%, elevando a vazão de projeto para 2,30 m³/s. Esse valor representa a vazão máxima de escoamento superficial que incide sobre a área durante o evento de chuva adotado, servindo como parâmetro de dimensionamento para as bocas de lobo, sarjetas e galerias pluviais.  

5.3.4. Dimensionamento das Galerias Pluviais 

Para o dimensionamento das tubulações, utilizou-se a equação de Manning para condutos circulares em escoamento cheio. Essa equação permite determinar o diâmetro necessário da tubulação para conduzir a vazão de projeto calculada de 2,30 m³/s, considerando as características hidráulicas, utilizando coeficiente de rugosidade correspondente de asfalto suave de 0,013 obtida pela tabela 4 e a declividade do terreno conforme citado na área de contribuição. 

Aplicando a (Equação 4) utilizada conforme Porto, Rodrigo de Melo – Hidráulica Básica. São Carlos: EESC/USP (2006): 

Considerando a declividade média do terreno entre 2,5% e 5,3%, os resultados obtidos foram: 

Declividade (%) Diâmetro necessário (m) Vazão suportada (m³/s)
2,5% 0,83 2,31 
5,3% 0,73 2,38 

Além disso, avaliou-se a viabilidade de utilizar um diâmetro padrão comercial de 1,00 metro, amplamente disponível no mercado brasileiro. Os resultados indicam que, para esse diâmetro, a galeria suportaria:

Declividade (%) Vazão suportada (m³/s)
2,5% 3,79 
5,3% 5,52 

Portanto, o uso de uma galeria de concreto com diâmetro de 1,00 m é plenamente viável e oferece capacidade hidráulica superior à vazão de projeto, mesmo considerando a margem de segurança. Essa escolha também se alinha aos diâmetros padronizados utilizados em obras de drenagem urbana no Brasil, conforme especificações da ABNT NBR 9794 e práticas de mercado. 

5.3.5. Dimensionamento das Bocas de Lobo 

Durante a elaboração da proposta do sistema de drenagem urbana, foi avaliada a utilização da boca de lobo combinada (Figura 18), sem depressão. Fazendo uma análise econômica do sistema, foi priorizado o dispositivo que apresentava maior eficiência em relação à vazão escoada e o número total de bocas de lobo necessárias. Na análise comparativa, utilizando as bocas de lobo do modelo DNIT, foram utilizadas as para o cálculo da capacidade de engolimento.  

No cálculo, os valores admitidos para a altura da guia foram de 0,15 m, altura da água na sarjeta de 0,10 m e declividade longitudinal da via de 0,03 m/m, conforme figura 19. 

Na análise comparativa, utilizando as bocas de lobo do modelo DNIT, foi utilizada para o cálculo da capacidade de engolimento a (Equação 5) apresentada por Tucci e Porto (1998).  

Foram consideradas duas tipologias de bocas de lobo: 

  • Boca de lobo simples sem depressão 

Capacidade de captação: 0,064 m³/s 

  • Boca de lobo combinada sem depressão Capacidade de captação: 0,162 m³/s 

Com base na vazão de projeto de 2,30 m³/s, os resultados foram: 

Tipo de Boca de Lobo Capacidade (m³/s) Quantidade Necessária 
Simples sem depressão 0,064 36 unidades 
Combinada sem depressão 0,162 14 unidades 

Dessa forma, recomenda-se a adoção de bocas de lobo combinadas, por oferecerem maior eficiência hidráulica e operacional, reduzindo a ocorrência de acúmulos de água na superfície da via e garantindo o funcionamento adequado do sistema de drenagem, conforme as condições hidrológicas e geométricas do projeto. 

5.4. Proposta do sistema de drenagem  

Para o espaçamento entre bocas de lobo adotou-se a recomendação de Bidone e Tucci (1995), que sugere um espaçamento máximo de 60 m entre unidades, a fim de assegurar captação adequada em trechos urbanos e evitar acúmulos localizados de água na superfície. 

Quanto aos poços de visita (PVs), a definição do espaçamento foi efetuada com base nas recomendações normativas e práticas de obra, considerando a adotação de diâmetro de conduto igual a 1,00 m para o coletor principal. A Tabela 4 resume o espaçamento máximo recomendado para PVs, adotado neste anteprojeto para as verificações e organização das inspeções e manutenções. 

Foi elaborado uma proposta de um sistema de drenagem urbana para o Conjunto Habitacional Cidadão VII, localizada no bairro Nova Cidade, em Manaus com base nas informações coletadas, propondo a readequação do sistema de microdrenagem da área estudada. A após verificação revelou a inexistência de um sistema drenante capaz de atender à demanda de escoamento pluvial, devido a diversos fatores já discutidos anteriormente. 

Diante dessa insuficiência, optou-se pela implantação de um novo sistema de drenagem, desconsiderando a estrutura existente, por não apresentar condições técnicas adequadas para reaproveitamento. O novo traçado da galeria foi desenvolvido conectando as bocas de lobo e os Poços de Visita (PVs), de forma a garantir o escoamento das águas pluviais por gravidade até o ponto mais baixo da sub-bacia, onde ocorre o lançamento no corpo receptor, conforme figura 10. 

6. CONCLUSÃO

O presente trabalho teve como objetivo elaborar proposta de um sistema de drenagem urbana, compatibilizando as informações topográficas, hidrológicas e construtivas da área de estudo, de modo a garantir o adequado escoamento das águas pluviais e prevenir alagamentos em períodos de chuva intensa. 

A partir da análise hidrológica, foi determinado o volume de água precipitada de 3.785,07 m³, considerando a precipitação máxima de 30 mm e a área de contribuição de 126.169,24 m². Com base no método racional, obteve-se a vazão de projeto de 2,30 m³/s, valor que serviu de referência para o dimensionamento das estruturas de captação e condução. 

O dimensionamento das bocas de lobo, com base na equação proposta por Tucci e Porto (1998), indicou que a adoção de bocas de lobo combinadas sem depressão é a solução mais eficiente para o sistema, demandando 14 unidades para atender à vazão de projeto, enquanto as bocas simples exigiriam 36 unidades. Essa escolha proporciona maior eficiência hidráulica e menor risco de acúmulo superficial. 

As galerias pluviais foram dimensionadas a partir da equação de Manning, adotando-se coeficiente de rugosidade n = 0,013 (concreto) e declividades médias variando entre 2,5% e 5,3%. Os resultados mostraram que o diâmetro comercial de 1,00 m é o mais adequado, oferecendo capacidade hidráulica superior à vazão de projeto e garantindo segurança e viabilidade construtiva. 

Foram também definidos critérios de espaçamento máximo de 60 m entre bocas de lobo (conforme Bidone e Tucci, 1995) e 100 m entre poços de visita para conduto de 1,00 m, atendendo aos parâmetros técnicos de inspeção e manutenção. 

O traçado proposto das galerias foi concebido de modo a conduzir a vazão pluvial por gravidade até o ponto mais baixo da sub-bacia, conectando bocas de lobo e poços de visita ao corpo receptor, em conformidade com as boas práticas de projeto e as recomendações do DNIT e da ABNT. 

Conclui-se, portanto, que a proposta elaborada atende aos critérios técnicos e hidrológicos estabelecidos, garantindo eficiência, segurança e sustentabilidade no escoamento das águas pluviais. A adoção dos parâmetros calculados e das soluções propostas contribui para a mitigação de alagamentos, o aumento da durabilidade da infraestrutura urbana e a melhoria da drenagem local. 

Recomenda-se, para as próximas etapas, a realização de estudos complementares de campo e modelagem hidráulica detalhada, de forma a confirmar as condições reais de escoamento, profundidades de assentamento e eventuais interferências, permitindo o refinamento do projeto executivo e a plena adequação às normas técnicas vigentes. 

7. REFERÊNCIAS

ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9649: Projeto de Drenagem Urbana. Rio de Janeiro, 1986. 

ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 12244: Redes de Drenagem Pluvial. Rio de Janeiro, 1992. 

ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9794: Execução de sistemas de drenagem de águas pluviais – Procedimento. Rio de Janeiro, 2019. 

ABRHIDRO – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECURSOS HÍDRICOS. Soluções baseadas na natureza aplicadas no manejo de águas pluviais urbanas. Anais do Simpósio 

Brasileiro de Recursos Hídricos, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://anais.abrhidro.org.br/job.php?Job=15089. Acesso em: 15 out. 2025. 

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