IMPACTO DA QUALIDADE DA DIETA E DA CARGA GLICÊMICA NA REPARAÇÃO TECIDUAL DE INDIVÍDUOS COM DIABETES MELLITUS TIPO 2

IMPACT OF DIET QUALITY AND GLYCEMIC LOAD ON TISSUE REPAIR IN INDIVIDUALS WITH TYPE 2 DIABETES MELLITUS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511110038


Amanda Vitória de Paula Firmino1
Narriany Costa Sousa Cândido2
Núria Vitória Lopes de Oliveira3
Orientadora: Profa. Me. Cyntia Rosa de Melo Ribeiro Borges4


RESUMO

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença metabólica crônica caracterizada por hiperglicemia persistente e associada a complicações, como a úlcera do pé diabético, decorrente de alterações neurológicas, fraqueza muscular e risco elevado de amputações. A hiperglicemia crônica compromete o processo de cicatrização, sendo a nutrição um fator determinante nesse contexto. O presente estudo teve como objetivo investigar a influência da qualidade da dieta, com foco nos padrões alimentares e na carga glicêmica, sobre a reparação tecidual em indivíduos com DM2. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com buscas realizadas nas bases de dados PubMed, SciELO e Google Scholar, utilizando descritores controlados e palavras-chave relacionadas a diabetes, cicatrização, padrões alimentares e carga glicêmica. Foram incluídos artigos publicados nos últimos dez anos, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordaram a relação entre nutrição e cicatrização em pacientes diabéticos. A análise qualitativa revelou que dietas com menor carga glicêmica, ricas em carboidratos complexos e com suplementação proteica, favorecem a cicatrização. Padrões alimentares como as dietas mediterrânea e DASH demonstraram eficácia na redução da inflamação e na melhora do controle glicêmico. Além disso, deficiências de nutrientes como proteínas, vitaminas A C e D e minerais como o zinco comprometem a regeneração tecidual. Conclui-se que estratégias alimentares personalizadas, aliadas à educação nutricional e ao acompanhamento multiprofissional, são essenciais para otimizar a cicatrização e prevenir complicações associadas ao DM2. 

Palavras-chave: Diabetes mellitus tipo 2; Carga glicêmica; Reparação tecidual; Padrões alimentares; Intervenção nutricional. 

1 INTRODUÇÃO 

O diabetes mellitus (DM) é uma doença metabólica crônica caracterizada pela deficiência na produção ou ação da insulina, levando a alterações no metabolismo de glicose, lipídios e proteínas (Lima et al., 2022). Segundo a IDF estima-se que mais de 540 milhões de pessoas no mundo convivem com a doença, considerada um grave problema de saúde pública, com alta prevalência no Brasil. Entre as formas clínicas do diabetes mellitus, cerca de 90% dos casos correspondem ao tipo 2 e entre 5% a 10% ao tipo 1. O diabetes gestacional também merece destaque, afetando aproximadamente 18% das gestantes, além da crescente preocupação com os casos de pré-diabetes (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2025; Menezes et al., 2023; IDF, 2023). 

As complicações crônicas do DM incluem a neuropatia diabética, frequentemente associada a fraqueza muscular, alterações neurológicas, ressecamento e fissuras na pele, que favorecem o surgimento de úlceras. Dentre as complicações do diabetes, a úlcera do pé diabético (UPD) se destaca como um grave problema de saúde pública, pois está frequentemente associada a infecções, necroses e alto risco de amputações, em geral decorrentes de neuropatia periférica e doença arterial obstrutiva (Menezes et al., 2023). 

Sob essa perspectiva, o processo de reparação tecidual, composto pelas fases inflamatória, proliferativa e de remodelação, torna-se particularmente relevante (Dasari et al., 2021). A hiperglicemia persistente característica do DM interfere em todas essas etapas promovendo alterações microvasculares, estresse oxidativo, disfunção imune e desequilíbrio inflamatório fatores esses que comprometem a cicatrização e agravam a vulnerabilidade à UPD (Hajj et al., 2024). 

Nesse contexto, a nutrição exerce papel essencial no reparo tecidual, influenciando o controle glicêmico, a resposta inflamatória e a regeneração. Deficiências de proteínas, vitaminas (A, C, D) e minerais como zinco retardam a cicatrização, enquanto uma ingestão adequada favorece a inflamação controlada, acelera a cicatrização e melhora a qualidade do tecido reparado (Carvalho & Gomes, 2021; Dasari et al., 2021). 

Diretrizes internacionais, como as da American Diabetes Association (ADA) e da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN), recomendam padrões alimentares equilibrados e culturalmente adequados para o manejo do DM, destacando a dieta mediterrânea e a dieta DASH como estratégias que melhoram a sensibilidade à insulina, reduzem a inflamação e favorecem a cicatrização (Peláez et al., 2020; Thibault et al., 2021). Nessa perspectiva, o índice glicêmico (IG) e a carga glicêmica (CG) surgem como ferramentas relevantes para avaliar a qualidade da dieta. Padrões alimentares com baixo IG e CG auxiliam no controle glicêmico e criam condições metabólicas mais favoráveis à cicatrização, em contraste com dietas ocidentais ricas em açúcares e gorduras saturadas, que prejudicam o reparo tecidual (Silva et al., 2011; Silva et al., 2009; Thibault et al., 2021). 

Assim, torna-se evidente que a alimentação influencia não apenas o metabolismo glicêmico, mas também a modulação inflamatória e a eficácia da cicatrização em pacientes diabéticos. Contudo, apesar dos avanços na compreensão desses mecanismos, ainda existem lacunas sobre a influência dos diferentes padrões alimentares e da carga glicêmica diretamente na reparação tecidual. 

O presente estudo teve como objetivo analisar o impacto da qualidade da dieta, considerando padrões alimentares e carga glicêmica, na reparação tecidual em indivíduos com diabetes tipo 2. Foram reunidas evidências provenientes de estudos clínicos e revisões sistemáticas que abordam dietas de baixo índice e carga glicêmica e sua relação com a cicatrização de feridas. O estudo focou na modulação da resposta inflamatória e dos processos regenerativos influenciados pela carga glicêmica durante a cicatrização, comparando os efeitos de diferentes padrões alimentares incluindo dietas de baixo índice glicêmico, mediterrânea, DASH e ocidental sobre o reparo tecidual. Além disso, foram discutidos os papéis específicos de nutrientes essenciais, como proteínas, vitaminas A C, D e o mineral zinco, na otimização da cicatrização em pacientes diabéticos. 

2 METODOLOGIA  

Este estudo consistiu em uma revisão integrativa da literatura, com o objetivo de analisar a influência da alimentação e da carga glicêmica na reparação tecidual de pacientes com diabetes mellitus, por meio da identificação e síntese de evidências científicas relevantes sobre o tema. A busca por artigos foi realizada nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Google Scholar. Utilizaram-se descritores controlados (DeCS/MeSH) e palavras-chave livres, combinadas com operadores booleanos (AND, OR), como: “diabetes mellitus” AND “reparação tecidual” OR “cicatrização de feridas” AND “padrões alimentares” OR “intervenção nutricional” AND “carga glicêmica”, em português e inglês (tissue repair, wound healing, eating patterns, glycemic load, dietary intervention). 

A seleção dos artigos foi realizada inicialmente por meio da leitura dos títulos e resumos. Foram incluídos artigos publicados nos últimos 10 anos, disponíveis na íntegra, em português, inglês ou espanhol, que abordaram a relação entre alimentação e o processo de cicatrização em pacientes diabéticos. Foram excluídos estudos duplicados, pesquisas com animais, artigos focados em outras doenças sem associação direta com o diabetes, bem como publicações que não trataram de aspectos nutricionais. 

Os artigos selecionados foram lidos na íntegra e organizados em quatro eixos temáticos: fatores que comprometem a cicatrização no diabetes, nutrientes essenciais para o reparo tecidual, estratégias alimentares e controle glicêmico, e evidências de intervenções nutricionais. A análise foi conduzida de forma qualitativa e descritiva, com ênfase na identificação de padrões e contribuições relevantes para a prática nutricional. A metodologia adotada neste estudo foi organizada em etapas sistemáticas, conforme detalhado no Fluxograma da Figura 1. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES  

A partir da metodologia proposta, que consistiu em uma revisão da literatura acerca da influência da alimentação no processo de reparação tecidual em indivíduos com diabetes mellitus tipo 2, foi possível reunir estudos que exploram a interface entre nutrição, cicatrização e estratégias dietéticas específicas. Conforme sistematizado na Tabela 1, os artigos analisados abordam desde a qualidade e quantidade dos carboidratos consumidos até os efeitos de padrões alimentares completos, como dietas de baixo teor de carboidratos, mediterrânea, paleolítica e dietas com maior teor proteico, destacando seus impactos na modulação inflamatória e no favorecimento do reparo tecidual. 

Tabela 1 – Estudos sobre padrões alimentares, carga glicêmica e cicatrização em Diabetes mellitus tipo 2. 

Autor/Ano Tipo de estudo População Intervenção / Padrão alimentar Desfecho avaliado Principais achados 
Geravand et al. 2025 Estudo transversal (crosssectional300 participantes com úlceras do pé diabético (DFUs) atendidos na Diabetes Clinic da Tehran University of Medical Sciences Consumo de carboidratos (quantidade e qualidade), com foco na razão grãos integrais / grãos totais Tamanho, profundidade e grau de Wagner das DFUs Apenas a razão de grãos integrais/total de grãos se associou significativamente ao comprimento da úlcera: menor consumo de grãos integrais → úlceras maiores. Associação permaneceu após ajuste para fatores de confusão. 
García et al. 2024 Estudo observacional piloto 174 pacientes com diabetes tipo 2 (61,5% homens; 38,5% mulheres; média de idade 69,56 ± 8,86 anos; duração média da DM2: 15,34 ± 9,83 anos) Adesão à Dieta Mediterrânea (avaliada pelo questionário Mediterranean Diet Adherence Screener-14; boa adesão: escore >7) Risco de desenvolvimento de úlcera do pé diabético Não adesão à Dieta Mediterrânea associou-se a maior risco de úlcera do pé diabético (p = 0,030). Maior consumo de nozes (≥3x/semana) e alimentos salteados (≥2x/semana) associaram-se a menor incidência (p = 0,003). Análise multivariada mostrou: atividade física regular como fator protetor (OR = 0,25; p < 0,001), tratamento podológico como fator de risco (OR = 2,59; p = 0,014) e maior tempo de DM2 associado a maior risco (OR = 3,25; p < 0,001). 
Lee et al., 2024 Estudo retrospectivo observacional 46 pacientes hospitalizados com pé diabético (Coreia do Sul)Avaliação de marcadores nutricionais séricos (proteínas, vitaminas, minerais) Taxa de cicatrização, tempo de  internação, níveis laboratoriais Baixos níveis de albumina, Hb, ferro e zinco foram frequentes e associados a piores desfechos de cicatrização. Recomenda-se reposição nutricional. 
Lei et al., 2022 Revisão sistemática e meta-análise de RCTs 33 estudos, 3.939 adultos com sobrepeso/ obesidade Dietas lowcarb (≤40% carboidratos) vs. low-fat  (<30% gordura), ≥6 mesesPeso, perfil lipídico, PA Low-carb reduziu mais triglicerídeos, PA diastólica e peso;  aumentou HDL. Low-fat foi superior para reduzir colesterol total e LDL. Após 24 meses, não houve diferença entre dietas. 
Tettamanzi et al. 2021 Ensaio clínico randomizado controlado, crossover (alimentação cruzada)20 mulheres obesas resistentes à insulina (16 completaram o estudo)Dieta mediterrânea (M) vs. dieta rica em proteínas (HP), ambas isocalóricas, durante 21 dias em pacientes internadas Parâmetros cárdio metabólicos, peso corporal, monitoramento contínuo de glicose, composição do microbioma intestinalA dieta HP foi mais eficaz que a dieta M em reduzir resistência à insulina (menores níveis de insulina e HOMA-IR) e melhorar a variabilidade glicêmica; identificados 10 gêneros microbianos associados às diferenças entre as dietas (ex. Coprococcus e Lachnoclostridium) 
Moore et al., 2020 Revisão sistemática de RCTs 9 estudos (629 participantes com DM e úlceras nos pés) Diferentes suplementos nutricionais: proteína, arginina, glutamina, HMB, zinco, magnésio, vitamina D, ômega-3, vit. E Cicatrização, amputações, qualidade de vida Evidência de baixa certeza: não há clareza se os suplementos melhoram cicatrização, reduzem amputações ou melhoram qualidade de vida. Mais pesquisas são necessárias. 
Jamka et al., 2020 Revisão sistemática e meta-análise de RCTs 4 estudos, 98 participantes com distúrbios do metabolismo da  glicose Dieta Paleolítica vs. dietas  saudáveis (Mediterrânea, dieta para DM, recomendações holandesas) Glicemia, insulina, HbA1c, HOMA-IRDieta Paleolítica não apresentou diferença significativa em relação às outras dietas saudáveis no controle glicêmico e da insulina. 
Basiri et al., 2019 Ensaio clínico randomizado 29 adultos com pé diabético ulcerado (EUA) Suplementação diária de duas bebidas  hiperproteicas + educação nutricional  (grupo intervenção) vs. controle sem intervenção Taxa de cicatrização (área da  ferida/semana) Grupo intervenção cicatrizou 3x mais rápido (151,1 mm²/sem vs. 45,2 mm²/sem). Suplementação e educação nutricional melhoraram significativamente a cicatrização. 
Sajid et al., 2018 Observacional transversal 542 pacientes com DM2 e pé diabético ulcerado (Paquistão)Avaliação da ingestão proteica por recordatório de 24h Comparação ingestão vs. necessidade proteica Ingestão média de proteína foi muito menor que a necessidade (homens: 76,9 g ingerido vs. 219,5 g necessário; mulheres: 56,8 g vs. 130,2 g). Conclui-se que há déficit proteico  relevante, recomendando aconselhamento nutricional. 
Samarghandian et al., 2017 Revisão narrativa Estudos clínicos e experimentais sobre mel Uso de mel como alimento funcional e terapêuticoDiversos desfechos clínicos: cicatrização, diabetes, doenças cardiovasculares, gastrointestinais, neurológicas Mel apresenta efeitos antioxidantes, antiinflamatórios, antimicrobianos e potencial terapêutico para cicatrização de feridas e controle de doenças crônicas. 
Dhatariya et alEstudo retrospectivo 172 pacientes com pé diabético acompanhados em clínica multidisciplinar, com ≥ 3 dosagens de HbA1c nos 5 anos prévios e ≥ 2 acompanhamento Variabilidade da HbA1c (desvio-padrão dos valores)Tempo de cicatrização das úlceras de pé diabéticoPacientes com baixa variabilidade de HbA1c apresentaram menor tempo médio de cicatrização (78 dias) em comparação aos de alta variabilidade (126,9 dias, p=0,032). Além disso, HbA1c média baixa associou-se a cicatrização mais rápida (73,5 dias vs 111 dias, p=0,007). O tempo de cicatrização dependeu mais da HbA1c média do que da variabilidade. 
Silva et al. 2011Estudo longitudinal 17 mulheres com diabetes, acompanhadas em Unidades de Saúde Programa de Educação nutricional com foco em Índice Glicêmico (IG) e Carga Glicêmica (CG) da dieta IG e CG da dieta; associação com IMC, circunferência da cintura e adiposidade Variáveis antropométricas e de adiposidade permaneceram elevadas,  sem diferença significativa ao longo do tempo.  IG médio das refeições e da dieta diária não apresentou diferença significativa.  -CG foi maior em 6 meses comparado a 12 meses ( p=0,005).  Correlação significativa entre CG e adiposidade no início do estudo (r=0,57; p=0,01).  Programa de Educação mostrou tendência de melhora na qualidade dos carboidratos, evidenciada pela redução da CG ao final da intervenção. 

Fonte: Elaborada pelas autoras (2025). 

A carga glicêmica (CG) tem se consolidado como um marcador central para compreender os efeitos da dieta sobre o metabolismo glicídico e as complicações associadas ao diabetes mellitus tipo 2, especialmente no retardo da cicatrização de feridas. Por integrar a qualidade e a quantidade de carboidratos, a CG reflete tanto a velocidade quanto a magnitude da resposta glicêmica pós-prandial, influenciando diretamente o equilíbrio entre inflamação e regeneração tecidual. Dietas com alta CG estão associadas a maior adiposidade, resistência insulínica e perfil metabólico pró-inflamatório, fatores que comprometem o reparo tecidual.  

Essa correlação se explica pelo papel da adiposidade visceral na secreção de citocinas inflamatórias, como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e a interleucina-6 (IL-6), que intensificam o estado inflamatório crônico característico do diabetes, dificultando as fases iniciais da cicatrização. Além disso, pacientes com menor variabilidade da hemoglobina glicada (HbA1c) apresentam tempos de cicatrização mais curtos, reforçando que a estabilidade glicêmica, frequentemente alcançada por dietas de baixa CG, favorece a regeneração tecidual (Silva et al., 2011; Dhatariya et al., 2017). 

A qualidade dos carboidratos, mais do que sua quantidade absoluta, mostra-se determinante na evolução das feridas diabéticas. Geravand et al. (2025) e García et al. (2024) observaram que o consumo de grãos integrais e a adesão à dieta mediterrânea reduzem o risco e o tamanho das úlceras do pé diabético, enquanto padrões alimentares ricos em fibras, antioxidantes e gorduras monoinsaturadas modulam positivamente a resposta inflamatória e melhoram o controle glicêmico. Comparações entre padrões alimentares, como as dietas mediterrânea, DASH e paleolítica, demonstram efeitos semelhantes sobre o controle glicêmico, sugerindo que a adesão e a qualidade dos alimentos são mais determinantes que o padrão dietético isolado (Jamka et al., 2020). 

A distribuição equilibrada dos macronutrientes e a qualidade proteica também impactam o metabolismo e o reparo tecidual. Dietas com redução de carboidratos (low-carb) e de gorduras (low-fat) apresentam efeitos complementares, enquanto a low-carb reduz triglicerídeos, pressão arterial e peso corporal, a low-fat é mais eficaz na redução do colesterol total e LDL, sem diferenças significativas no longo prazo (Lei et al., 2022). De modo semelhante, Tettamanzi et al. (2021) demonstraram que dietas ricas em proteínas melhoram a resistência à insulina, a variabilidade glicêmica e o microbiota intestinal, reforçando a importância da adequação proteica e da diversidade microbiota na homeostase metabólica.  

A literatura destaca ainda que o aporte adequado de proteínas e micronutrientes é indispensável para a cicatrização. Baixos níveis séricos de albumina, ferro, hemoglobina e zinco associam-se a piores desfechos clínicos (Lee et al., 2024). O déficit proteico relatado por Sajid et al. (2018) e os achados de Basiri et al. (2019), que evidenciaram aceleração da cicatrização com suplementação hiper proteica e educação nutricional, reforçam a necessidade de abordagens integradas.  

No entanto, revisões sistemáticas indicam que a eficácia de suplementos isolados como, aminoácidos, vitaminas e minerais ainda é limitada e carece de maior evidência científica (Moore et al., 2020). Além disso, alimentos funcionais com propriedades antioxidantes, como o mel, mostram potencial terapêutico por sua capacidade de reduzir o estresse oxidativo e estimular o reparo tecidual (Samarghandian et al., 2017).  

A modulação da CG depende não apenas da composição dietética, mas também do conhecimento e da adesão do paciente. Programas educativos voltados à alimentação têm se mostrado eficazes na redução da CG e na promoção da estabilidade glicêmica, mesmo sem mudanças expressivas em medidas antropométricas (Silva et al., 2011). Essas intervenções favorecem escolhas alimentares equilibradas, com maior consumo de grãos integrais, frutas e vegetais, melhorando o controle metabólico e o processo cicatricial. Assim, a integração entre educação nutricional, suplementação e acompanhamento multiprofissional potencializa os efeitos benéficos da dieta (Basiri et al., 2019). 

Nesse sentido a efetividade dessas abordagens clínicas também depende de um sistema de saúde estruturado. A implementação de políticas públicas que assegurem o acesso à assistência nutricional e multiprofissional é fundamental para o manejo de pacientes com diabetes e feridas crônicas. A ampliação de programas de educação alimentar e nutricional, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e a inclusão de protocolos específicos de cuidado nutricional no tratamento de úlceras diabéticas são estratégias essenciais para qualificar o cuidado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A integração de iniciativas como o Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) e centros de referência em cuidado de feridas pode consolidar a nutrição clínica como eixo central na prevenção de complicações e na melhoria da qualidade de vida de indivíduos com diabetes mellitus tipo 2. 

4 CONCLUSÃO 

As evidências analisadas indicam que a cicatrização tecidual em pacientes com diabetes mellitus tipo 2 é um processo biologicamente dinâmico e multifatorial, cuja eficácia está fortemente associada ao controle metabólico, à adequação do perfil nutricional e ao fornecimento equilibrado de nutrientes essenciais para a regeneração celular. Padrões alimentares com baixo índice e carga glicêmica, como o mediterrâneo e o DASH, associados a consumo equilibrado de proteínas e micronutrientes como vitaminas A C e D, zinco e selênio, demonstram favorecer a modulação da resposta inflamatória, a estabilidade metabólica e a síntese de colágeno, promovendo um ambiente propício à cicatrização eficaz. 

A literatura científica indica que a orientação nutricional isolada apresenta impacto limitado, enquanto intervenções integradas combinando educação alimentar, suplementação proteica e mineral e acompanhamento multiprofissional resultam em maior taxa de cicatrização e melhor controle glicêmico. A redução da variabilidade glicêmica e dos níveis de HbA1c, associada à adequada ingestão proteica e antioxidante, revela-se determinante para a regeneração tecidual, uma vez que déficits nutricionais comprometem a proliferação celular e retardam o processo de reparo. 

Dessa forma, reforça-se que o manejo nutricional individualizado, articulado a políticas públicas de saúde e programas de educação alimentar e nutricional, é fundamental para a promoção do cuidado integral ao paciente diabético. A ampliação do acesso a equipes multiprofissionais na atenção básica, a implementação de protocolos nutricionais para o tratamento de feridas e o fortalecimento de estratégias do SUS voltadas à prevenção de complicações crônicas constituem medidas essenciais para viabilizar o tratamento nutricional e otimizar os desfechos clínicos. Assim, a nutrição clínica, inserida em uma rede assistencial estruturada, consolida-se como pilar estratégico na promoção da cicatrização e na melhoria da qualidade de vida desses indivíduos. Como uma perspectiva futura, sugere-se o desenvolvimento de novos estudos clínicos que explorem intervenções alimentares personalizadas, especialmente no contexto de dietas de baixo índice glicêmico associadas à suplementação nutricional.   

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1Discente do Curso Superior de Nutrição da Universidade Evangélica de Goiás; e-mail: 
amandavitoria2211@icloud.com  

2Discente do Curso Superior de Nutrição da Universidade Evangélica de Goiás; e-mail: narrianycsousa@gmail.com 

3Discente do Curso Superior de Nutrição da Universidade Evangélica de Goiás; e-mail: nuritisgo@gmail.com

4Docente do Curso Superior de Nutrição da Universidade Evangélica de Goiás; Mestre em Nutrição em saúde/UFG; e-mail: cyntia.borges@unievangelica.edu.b