PRIVAÇÃO DO SONO EM PROFISSIONAIS DA SAÚDE: REPERCUSSÕES FISIOLÓGICAS,  PSICOLÓGICAS E SOCIAIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511251020


Ivanice Lorana Fonseca Castro1; Marcos Vinícius Silva da Cruz2; Milena Gabriely Silva Durans3; Dinaelze Abrão Lopes4; Emerson Frank Silva de Souza5; Themistocles Yure Ferreira Silva6; Ana Rafaela Pereira Silva7; João Victor Ferreira Araújo8; Josinete Lins Melo9; Lana Priscila Barbosa Pereira10


RESUMO 

O sono é um processo fisiológico fundamental para a restauração física, cognitiva e emocional  do organismo, sendo determinante para o equilíbrio biológico, a qualidade de vida e a segurança do paciente. Sua adequada duração e qualidade estão diretamente relacionadas à manutenção das funções metabólicas, à regulação hormonal e ao desempenho profissional. No entanto,  profissionais da área da saúde que atuam em regime de plantões noturnos ou turnos alternados  encontram-se expostos a altos níveis de privação do sono, condição que repercute  negativamente em múltiplas dimensões da vida humana. Este estudo teve como objetivo  analisar os principais impactos da privação do sono entre trabalhadores da saúde, por meio de  uma revisão bibliográfica integrativa realizada nas bases PubMed, BVS e Google Acadêmico,  considerando publicações compreendidas entre os anos de 2015 e 2025. A amostra final foi  composta por 20 estudos, organizados em três eixos de análise: repercussões fisiológicas,  psicológicas/cognitivas e sociais. Os resultados indicaram que 14 artigos apontaram relação  entre a privação do sono e o aumento da incidência de obesidade, doenças cardiovasculares,  distúrbios gastrointestinais e fadiga ocupacional. 04 estudos observaram maior prevalência de  ansiedade, depressão, síndrome de burnout, déficits de memória e redução da atenção. Além  disso, 02 pesquisas evidenciaram consequências sociais como isolamento, conflitos familiares  e desgaste conjugal, o que reflete a sobrecarga física e emocional desses profissionais. Portanto,  a privação do sono constitui um problema de caráter ocupacional, com potencial para  comprometer a saúde do trabalhador, assim como a qualidade e segurança da assistência  prestada ao paciente. Assim, destaca-se a importância de estratégias institucionais e políticas  públicas que promovam a higiene do sono, a valorização do descanso e a gestão humanizada  dos turnos de trabalho. 

Palavras-chave: Fadiga ocupacional; Qualidade de vida; Turnos de trabalho. 

ABSTRACT 

Sleep is a fundamental physiological process for physical, cognitive, and emotional  restoration, being a key determinant of biological balance, quality of life, and patient safety.  Adequate sleep duration and quality are directly related to the maintenance of metabolic  functions, hormonal regulation, and professional performance. However, healthcare  professionals working night shifts or alternating schedules are highly exposed to sleep  deprivation, a condition that negatively affects multiple dimensions of life. This study aimed  to analyze the main impacts of sleep deprivation among healthcare workers through an  integrative literature review conducted in the PubMed, BVS, and Google Scholar databases,  covering publications from 2015 to 2025. The final sample consisted of 20 studies, organized  into three axes of analysis: physiological, psychological/cognitive, and social repercussions.  The results showed that 14 articles reported a direct association between sleep deprivation and  increased incidence of obesity, cardiovascular diseases, gastrointestinal disorders, and  occupational fatigue. In 04 studies, a higher prevalence of anxiety, depression, burnout  syndrome, memory deficits, and reduced attention was observed. Additionally, 02 studies  identified significant social consequences, such as isolation, family conflicts, and marital  strain, reflecting the physical and emotional overload faced by these professionals. Therefore,  sleep deprivation is an occupational problem that can compromise not only workers’ health  but also the quality and safety of healthcare services. So it is essential to implement  institutional strategies and public policies that promote sleep hygiene, emphasize the  importance of rest, and encourage a more humanized management of work shifts. 

Keywords: Occupational fatigue; Quality of life; Work shifts. 

INTRODUÇÃO 

O sono tem uma função reparadora: os circuitos cerebrais são reorganizados, as  memórias são organizadas e as emoções são equilibradas. Se este processo é interrompido ou  reduzido, o corpo perde sua capacidade de auto-regeneração. Ainda assim, o organismo  continua a funcionar, mas em um estado de exaustão silenciosa; perdendo o desempenho e o  equilíbrio das emoções. Nesse sentido, a ciência mostra que a falta de sono influencia a  plasticidade neural, regulação hormonal, imunidade e sistemas endócrinos (Elizabethsky;  Linck, 2024). 

O cérebro privado de descanso tem seu desempenho mental comprometido, reagindo de forma desorganizada. Assim, o descanso fisiológico é considerado um mecanismo para o  fortalecimento do sistema imunológico, regulação metabólica, consolidação de memórias e  processamento do vivido. Logo a qualidade e a regularidade do repouso são determinantes para  a saúde do indivíduo, bem como para a produtividade, segurança e socialização (Teixeira,  2022). 

Esse processo fisiologico é essencial para a manutenção do corpo humano, com duração média de oito horas por dia, o que representa aproximadamente um terço do dia.  Entretanto, essa média não é universal, podendo variar conforrme as condições ambientais e  estilo de vida de cada indivíduo. Ainda que existam variações individuais durante o periodo do  sono, o organismo consegue permanecer funcional com períodos menores de descanso, essa  redução tende a comprometer gradualmente funções vitais relacionadas à restauração fisíca e  mental do corpo (Abreu, 2020). 

A restrição do sono afeta diretamente na atenção e disposição mental do indivíduo. Em  condições normais, após uma noite de descanso adequada, o nível de atenção tende a  permanecer estável durante o dia, com leves variações relacionadas ao ritmo circadiano.  Contudo, quando o período acordado se prolonga por varias horas sem pausas para o descanso  fisiológico, o organismo passa a evidenciar uma tendência progressiva à diminuição do tempo  de reação e do desempenho psicomotor, o que compromete a eficiência, segurança e a execução  nas atividades diárias, principalmente as de natureza laboral (Tavares, 2023). 

No entanto, nas últimas décadas, dormir bem tem se tornado mais difícil, refletindo a  dificuldade de atender às demandas do estilo de vida atual. A urbanização acelerada, o uso  intensivo de tecnologias e, acima de tudo, longas jornadas e turnos oscilantes podem ser as  razões que explicam esse fenômeno. Isso porque, entre os diferentes modelos de atividade  laboral, o trabalho em turnos, e em especial o noturno, destaca-se como um dos fatores mais  prejudiciais à preservação do ciclo sono- vigília (Viana et al., 2019). 

No setor da saúde, esse desafio se torna ainda mais evidente, isso porque os profissionais  dessa áreas são expostos, de forma frequente, a jornadas extenuantes por períodos específicos.  Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, devido à natureza ininterrupta dos serviços  hospitalares, frequentemente são submetidos a plantões noturnos e escalas irregulares. Assim,  acabam sofrendo com a falta de regularidade do sono, causando desequilíbrios metabólicos,  emocionais e também sociais (Cattani et al., 2021). Apesar das evidências científicas apontarem  os riscos do trabalho noturno, as políticas institucionais não têm tradição em preservar o bem estar do descanso dos trabalhadores (Arzalier-Daret, et al., 2017). 

Diante disso, o objetivo deste estudo é analisar os impactos da privação do sono em profissionais da saúde que atuam em regime de plantão noturno, bem como identificar as  principais repercussões fisiológicas, psicológicas e sociais da alteração do sono nesses  profissionais. 

METODOLOGIA 

Uma vez que os efeitos do sono não se restringem ao nível individual, eles interferem  na qualidade de vida dos trabalhadores e na segurança dos pacientes e na eficiência da rede de  saúde, coloca-se a questão central que orienta este estudo: quais são os principais impactos da  privação do sono em profissionais da saúde submetidos a plantões noturnos e de que forma tais  efeitos podem ser minimizados? 

A fim de responder a essa pergunta, a pesquisa se classifica como qualitativa, de caráter  exploratório, conduzida por meio de revisão bibliográfica integrativa (Gil, 2022). A busca foi  realizada nas bases PubMed, Google Acadêmico e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram  utilizados os descritores: “sono”, “privação do sono”, “trabalho noturno”, “profissionais de  saúde” e “enfermagem”, isolados ou combinados. 

Quanto aos critérios de inclusão, foram selecionados artigos publicados no período de  2015 a 2025, disponíveis na língua portuguesa e que abordam diretamente a relação entre  privação do sono e a saúde cognitiva. Estudos duplicados foram excluídos da coleta de dados,  assim como publicações que figuram fora do recorte temporal ou nos idiomas não previstos e  pesquisas que não tratam especificamente do tema. 

Quanto aos procedimentos de análise, a pesquisa foi realizada por meio de categorização  temática, agrupando os artigos conforme os impactos identificados (fisiológicos, psicológicos  e sociais), o que poderá ser visualizado no quadro 2. Posteriormente, os resultados foram  comparados criticamente ao referencial teórico existente. 

A fim de garantir a transparência e a reprodutibilidade do percurso metodológico  adotado, elaborou-se um fluxograma representando as etapas de identificação, triagem, seleção  e análise dos estudos incluídos na revisão integrativa. A Figura 1, abaixo, sintetiza o processo  desde a definição do problema de pesquisa e a busca nas bases de dados até a aplicação dos  critérios de inclusão e exclusão.

FIGURA 1 – Fluxograma do processo de identificação, triagem, seleção e inclusão dos artigos na revisão integrativa 

Fonte: elaboração própria (2025).

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

O quadro 1, a seguir, apresenta uma síntese de estudos selecionados sobre os impactos  do trabalho noturno e em turnos na saúde, qualidade de vida e desempenho de profissionais,  com ênfase em enfermeiros, o que permite construir uma visão consolidada das evidências sobre os efeitos da privação do sono, alterações fisiológicas e ricos ocupacionais associados a  jornadas noturnas. 

Quadro 1 – Artigos incluídos na revisão de literatura

Título / Autor(es) Objetivo Metodologia Resultados
Impacto do trabalho  noturno na saúde de enfermeiros (Araújo, 2025)Analisar o impacto do  trabalho noturno sobre o  índice de massa corporal (IMC), a  qualidade do sono, a  qualidade de vida e os  níveis de cortisol e da  citocina inflamatória  TNF em enfermeiros.Estudo  observacional quantitativo.Os resultados  demonstraram um  comprometimento  significativo na  qualidade do sono e  na saúde metabólica  quando comparados  ao grupo controle.
Efeitos do trabalho  em turnos e coping  em profissionais de  enfermagem  hospitalar (Antoniolli  et al., 2021)Analisar os efeitos do  trabalho em turnos e  estratégias de coping.Estudo  transversal com profissionais de enfermagem.Estratégias de coping  reduzem efeitos negativos, mas não eliminam distúrbios  do sono.
Efeito da privação de  sono após um turno noturno no gerenciamento de  crises simuladas por  residentes de  anestesiologia: um estudo cruzado randomizado  (Arzalier-Daret, et  al., 2017)Avaliar o efeito da  privação de sono no manejo de crises anestésicas simuladas por residentes de anestesiologia.Estudo cruzado,  monocêntrico, randomizado e comparativo.Demonstrou que a  privação de sono está associada ao comprometimento do desempenho no gerenciamento de situações de crise por residentes de anestesiologia.
Avaliação da  qualidade do sono em  profissionais de  saúde da emergência  (Azambuja et al.,  2023).Avaliar a qualidade do  sono de profissionais  dos serviços de  emergência e sua  associação com o nível  de fadiga e qualidade de  vidaEstudo  descritivo, transversal e correlacional com profissionais de saúde de hospital público.Má qualidade do sono  e de vida e níveis  elevados de fadiga e  necessidade de  descanso
Eficácia de um  programa individualizado de educação e acompanhamento sobre sono e trabalho  em turnos para o  manejo do transtorno  do trabalho em turnos em enfermeiros: um  ensaio clínico  randomizado  controlado (Booker  et al., 2022)Desenvolver e avaliar  um programa de  coaching individual para gestão do trabalho  em turnos, com foco na educação sobre o sono,  na promoção de uma boa higiene do sono e no fornecimento de estratégias comportamentais.Ensaio clínico  randomizado por conglomerados.Estratégias  institucionais melhoram a qualidade de vida e reduzem impactos da  sobrecarga.
Trabalho noturno,  qualidade do sono e adoecimento de trabalhadores de enfermagem (Cattani et al., 2021)Analisar os fatores  associados a qualidade do sono e a doenças em profissionais de enfermagem que trabalham em turno da noite.Estudo transversal com questionários.Trabalho noturno  associado a fadiga, estresse, sexo e adoecimento físico/mental.
Repercussões do  trabalho noturno na qualidade do sono e saúde de trabalhadores de  enfermagem (Cattani et al., 2022)Relacionar trabalho  noturno com saúde e sono.Estudo  transversal, realizado com trabalhadores de enfermagem que atuavam em  instituição hospitalar no  turno noturno,  com utilização de questionárioConstatou-se que os  trabalhadores de enfermagem que atuavam no turno noturno experimentavam qualidade do sono  ruim, e essa relação  impacta na saúde  física, psicológica e  social.
Impactos da privação  de sono na saúde  mental dos profissionais da saúde (Carvalho et,  2025)Analisar os efeitos da  privação de sono na saúde mental dos profissionais de saúde e como isso impacta no desempenho e bem estar dos mesmos.Pesquisa de  campo exploratória.A privação de sono  em profissionais de  saúde tem impactos negativos na  saúde mental, trazendo prejuízos no contexto trabalhista, social e pessoal.
A privação de sono  nos alunos da área de  saúde em atendimento nas Unidades Básicas de Saúde e suas consequências  (Castilho et, 2015)Investigar a privação do  sono dos estudantes da área de saúde em atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de
Paracatu-MG.
Estudo  tranversal.Verificou-se que a  maioria dos estudantes da área  de saúde dos UBS de  Paracatu-MG 
dormem em média 7 horas, o  que pode acarretar uma má qualidade do  sono provocando um baixo rendimento 
acadêmico
Relação entre  qualidade do sono,  hábitos alimentares e  estado nutricional de profissionais da saúde que atuam no  horário noturno de  uma unidade de  pronto atendimento (Felders; Scherer,  Adami, 2024)Avaliar a relação entre  qualidade do sono, hábitos alimentares e estado nutricional dos profissionais da saúde que atuavam no horário noturno em uma Unidade de Pronto  Atendimento.Estudo de  caráter transversal  exploratório.Os profissionais  atuantes no período  da noite apresentam  em sua maioria  excesso de peso, estilo alimentar mais frequentemente praticado a ingestão externa e não apresentam hábitos  alimentares adequados.
Efeitos da privação de sono no desempenho cognitivo de  enfermeiros que  atuam em turnos (Kaliyaperumal, et  al., 2017).Avaliar a prevalência da  privação de sono e seu impacto na cognição entre enfermeiros que trabalham em turnos.Estudo transversal com cognição  avaliada pelo questionário de  Avaliação Cognitiva de  Montreal (MoCA).O desempenho  cognitivo foi  considerado prejudicado entre enfermeiros que trabalham em turnos, devido à má qualidade do sono e à  diminuição do estado  de alerta durante a  vigília.
Efeitos de tirar uma  soneca ou fazer uma pausa imediatamente após o turno da noite  na recuperação da  fadiga e nos episódios de sono de enfermeiros: um estudo quase-experimental  (Konya et al., 2025).Examinar os efeitos de  um cochilo ou pausa de 30 minutos imediatamente após um turno noturno de 16 horas na recuperação da  fadiga e nos episódios de sono entre  enfermeiros.Estudo cruzado  quase-experimen  tal conduzido com 62 enfermeiros que  trabalhavam em  turnos noturnos  de 16 horasFazer uma soneca ou  pausa imediatamente após o turno da noite pode ser uma medida para lidar com problemas de fadiga/sono entre enfermeiros.
Examinando o  impacto da privação  de sono no desempenho do raciocínio médico  entre residentes e médicos 
anestesiologistas: um estudo prospectivo (Ramier et al., 2024).
Avaliar o impacto de  longas jornadas de trabalho consecutivas no desempenho do raciocínio médico de médicos anestesiologistas e  intensivistas (residentes  e seniores).Estudo  multicêntrico, prospectivo e cruzado foi conduzido em 5 hospitais  públicos.O desempenho do  raciocínio clínico de anestesiologistas é reduzido após um plantão de 24 horas  em comparação com um período de  descanso.
Fatores de risco  psicossociais no  trabalho e qualidade  do sono em profissionais de saúde: estudo  transversal (Rohwedder et al.,  2024).Investigar os fatores  psicossociais do trabalho, as características do sono e  a correlação entre esses aspectos em profissionais de saúde.Estudo transversal realizado por  meio de questionários.Maior prevalência de  Burnout, estresse, demandas emocionais, ritmo de  trabalho e conflitos  trabalho-família.
Riscos ocupacionais  em profissionais de enfermagem de uma Unidade de Terapia Intensiva adulta, localizada em um município de Pernambuco (Santos  et al., 2021)Identificar riscos  ocupacionais em enfermagem.Estudo descritivo com  abordagem  quantitativa.Privação do sono  identificada como  risco ocupacional que compromete a segurança.
Efeitos da privação  parcial do sono nos profissionais da saúde (Santos et al.,  2025).Investigar o impacto do  trabalho por turnos, especialmente o noturno sobre a qualidade do sono e aspectos fisiológicos.Estudo clínico  que utilizou os  parâmetros do Índice de  Qualidade do Sono de  Pittsburgh (PSQI).Má qualidade do sono  no grupo de  trabalhadores noturnos, bem como queixas de ansiedade, depressão e  hipertensão.
Fundamentos do sono, sonho e  qualidade de vida  sob perspectiva  neurocientífica  (Teixeira, 2022).Explicar bases  fisiológicas do sono.Estudo empírico Descreve mecanismos  do sono e consequências da  privação prolongada.
O trabalho noturno  diminui o desempenho cognitivo dos  médicos da UTI  (Maltese et al., 2016)Avaliar o impacto do  plantão noturno em uma unidade de terapia intensiva (UTI) no desempenho cognitivo de um grupo de intensivistas.Quatro habilidades cognitivas foram  testadas utilizando a Escala de Inteligência Wechsler para Adultos e o Teste de Classificação de  Cartas de Wisconsin.As habilidades  cognitivas dos  intensivistas foram significativamente alteradas após um plantão noturno na  UTI.
Qualidade de vida e  sono de enfermeiros  nos turnos hospitalares (Viana et  al., 2019).Garantir a qualidade de  vida e o bem-estar de duas enfermeiras em seus turnos hospitalares.Estudo de  natureza quantitativa, de  corte transversal,  descritivo e  analítico.Em todos os índices  de qualidade do sono,  os dados mostraram percepção melhor para trabalhadores do  diurno quando  comparados aos do  noturno. A qualidade de vida em todos os domínios para o grupo diurno foi  melhor que aqueles  que trabalhavam no  noturno (p=0,024).
A cronodisrupção  como fator de risco para sobrepeso e obesidade
(Peruchi et  al., 2022)
Comparar se há  diferença no índice de  massa corporal (IMC) e  na glicemia de jejum  entre trabalhadores  diurnos e noturnosEstudo descritivo e qualitativo, com temporalidade transversal e  amostragem  censitária, que  avaliou  parâmetros antropométricos, bioquímicos e dietéticos de  trabalhadores  diurnos e  noturnos.Apresentação de IMC  elevado e má qualidade de sono.

Fonte: elaboração própria (2025). 

A análise revelou que 14 dos 20 artigos selecionados destacaram os impactos  fisiológicos da privação do sono, evidenciando maior prevalência de obesidade, doenças  cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais e fadiga ocupacional entre trabalhadores noturnos.  Outros 18 estudos abordaram predominantemente os aspectos psicológicos e cognitivos,  relatando sintomas de ansiedade, depressão, irritabilidade, síndrome de Burnout, além de dificuldades de memória e queda da atenção sustentada. Por fim, 12 artigos enfatizaram  os efeitos sociais e familiares, relacionando o trabalho em turnos ao isolamento social, à redução do convívio familiar e ao aumento de conflitos conjugais. 

Os dados organizados no Quadro 2, abaixo, sintetizam a frequência dos principais  impactos identificados: 

Quadro 2 – Categorias de impactos da privação do sono em profissionais da saúde. 

Categoria de impacto Número de  artigosPrincipais efeitos relatados
Fisiológicos 14 Obesidade, distúrbios gastrointestinais, fadiga,  alterações lipídicas, risco cardiovascular, pior  qualidade do sono
Psicológicos/Cognitivos Ansiedade, depressão, irritabilidade, Burnout,  déficit de memória e atenção, estresse, queda de  alerta
Sociais/Qualidade de  VidaIsolamento social, conflitos familiares, impacto no  convívio familiar

Fonte: elaboração própria (2025). 

Por meio desse quadro, é possível visualizar que os impactos fisiológicos aparecem com  maior destaque na literatura, o que confirma a hipótese de que a alteração do sono interfere  diretamente na saúde metabólica e cardiovascular dos profissionais. A forte presença de artigos  sobre aspectos psicológicos também indica a relevância do tema para a saúde mental,  reforçando a ideia de que a privação do sono não se limita a repercussões biológicas, mas afeta  intensamente o equilíbrio emocional e cognitivo. Já os efeitos sociais, embora menos  numerosos nos artigos analisados, revelam um campo que merece maior aprofundamento, pois  envolvem não apenas a vida pessoal do trabalhador, mas também a qualidade dos serviços  prestados à população. 

Uma vez estabelecido o panorama de consequências que a privação do sono impõe aos  profissionais, torna-se essencial compreender a relevância do sono como um processo biológico restaurador. Afinal, a compreensão de seus mecanismos e funções primárias serve como base para justificar a gravidade dos impactos observados. O sono adequado desempenha  papel fundamental na consolidação da memória, na regulação do humor e no equilíbrio  imunológico, de modo que sua interrupção ou redução pode gerar consequências significativas para a saúde e para o desempenho laboral (Teixeira, 2022). 

Nesse sentido, compreender os mecanismos que regulam o sono, como o ciclo  circadiano, torna-se essencial para analisar os impactos da privação de sono na prática  profissional em saúde e suas repercussões na qualidade de vida. 

Sono, ritmo circadiano e impactos fisiológicos 

A duração e a qualidade do sono são influenciadas por fatores endógenos e ambientais,  sendo o ciclo circadiano um dos principais mecanismos reguladores. O termo circadiano deriva  do latim circa diem, que significa cerca de um dia, e refere-se a oscilações fisiológicas que se  repetem em períodos próximos a 24 horas (Teixeira, 2022). Conforme apontam Kaliyaperumal,  et al. (2017), o ritmo circadiano é coordenado pelo Núcleo Supraquiasmático (NSQ), localizado  no hipotálamo, que recebe informações diretas da retina sobre a luminosidade ambiental. É com  base nesses estímulos que o NSQ regula a secreção de melatonina pela glândula pineal, um  hormônio que é o marcador biológico da noite e que promove o início do sono, sinalizando ao  corpo o período adequado de descanso. 

Além da regulação do sono e da vigília, o ciclo circadiano influencia diversos processos  metabólicos e fisiológicos, como a temperatura corporal, a secreção hormonal, o apetite e o  desempenho cognitivo. Essa organização temporal garante que o organismo mantenha sua  homeostase, adaptando-se ao ambiente natural de alternância entre luz e escuridão (Peruchi et  al., 2022). 

Entretanto, quando ocorre uma dessincronização desse ciclo, situação frequente em  trabalhadores noturnos, diversos sistemas do organismo sofrem repercussões negativas.  Profissionais da saúde que atuam em plantões noturnos são obrigados a permanecer em vigília  durante a noite e a dormir durante o dia, momento em que a secreção de melatonina está  reduzida devido à luminosidade e à maior atividade social e ambiental. Essa inversão provoca  dificuldades para iniciar e manter o sono, resultando em menor duração e qualidade do repouso  (Felders; Scherer e Adami, 2024). 

Os metabolismos são amplamente impactados pela privação de sono e dessensibilização  circadiana. De acordo com o estudo de Viana et al. (2019), os funcionários noturnos têm uma  probabilidade aumentada de vários distúrbios metabólicos,como obesidade, resistência à  insulina e dislipidemia; todos desempenham um papel crítico no desenvolvimento de doenças  cardiovasculares. Para Cattani et al. (2022) funcionários noturnos sempre se queixam de azia, refluxo e mudança de apetite, sendo o hábito de horários de alimentação alterados e alimentos fáceis, mas pouco nutritivos, a causa raiz. 

Em termos de prevalência, um estudo observacional de Carvalho et al. (2025) com  profissionais de saúde de hospitais públicos e privados em Goiás revelou que 50,4%  apresentavam sonolência diurna excessiva e 55,7% relatavam baixa qualidade do sono, segundo  o EPWORTH Sleepiness Scale e o PSQI. Entre os fatores associados, destacam-se  sedentarismo, excesso de álcool e faixa etária entre 20 e 49 anos; por outro lado, peso corporal  adequado se mostrou protetor. 

Esse cenário é ainda pior em outros contextos de serviços, como o Serviço de  Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Conforme apontam Konya et al. (2025), turnos  noturnos e exposição excessiva a emergências causam altos níveis de estresse, ansiedade, falta  de concentração e baixa qualidade de vida, especialmente nesses profissionais. O sono também  é deficiente entre profissionais de ambientes hospitalares em locais de serviços intensos, como  emergências. Nos hospitais, a maioria dos profissionais tem um sono ruim, está fatigada e com  hábitos de sono e vigília comprometidos; isso resulta na qualidade do seu desempenho, imagem  própria e rompimentos de relacionamento (Viana et al., 2019). 

O estudo realizado por Booker et al. (2022) avaliou o uso de um programa  individualizado de educação e coaching do sono para enfermeiros, através do qual é possível  medir sintomas de perturbação do sono durante plantões noturnos. O programa combinou  ensino personalizado, higiene do sono e estratégias de restauração para turnos de trabalho e  acompanhamento. Os resultados refletem uma influência nos parâmetros de insônia. Os  sintomas de insônia foram reduzidos, significando que os enfermeiros adormeceram e  dormiram de forma mais contínua, o que foi sustentado e melhorado na fase subsequente. O  impacto na sonolência diurna também refletiu melhorias. No grupo de intervenção, o nível de  sonolência foi reduzido. No grupo de controle, o nível observado foi o mesmo de antes da  intervenção. O valor da redução reside no fato de que a sonolência diurna melhorará e se tornará  um fator de qualidade de vida no trabalho. Essa redução influencia o monitoramento adequado  e a atenção no trabalho. 

Além da insônia, a intervenção impactou a sonolência diurna. No grupo que participou  do programa, os níveis de sonolência diminuíram, enquanto o grupo controle manteve os  mesmos padrões observados antes da intervenção. Essa redução é importante porque influencia diretamente a qualidade de vida ocupacional: melhora a atenção durante os turnos,  reduz a fadiga e potencialmente diminui o risco de erros ou acidentes relacionados ao trabalho  (Booker et al., 2022). 

Ainda que a saúde mental não fosse o foco principal do estudo de Booker et al. (2022), foi possível perceber efeitos indiretos positivos, como maior sensação de controle sobre o  trabalho e redução do cansaço mental. A adesão ao programa foi satisfatória, demonstrando que  profissionais de saúde podem se engajar em programas estruturados mesmo com carga intensa  de trabalho, especialmente quando o acompanhamento é personalizado e contínuo. 

Nesse sentido, os dados obtidos por Booker et al. (2022) sustentam sua hipótese de que  é urgente repensar a estrutura interna das instituições de saúde, de forma que seja reconhecido que a fadiga é um risco ocupacional real. Para isso, os mesmos autores sugerem modelos de  escalas baseados em rotações progressivas, do turno diurno para o noturno, e a garantia de, no  mínimo, dez horas de intervalo entre os turnos. Isso surge como uma estratégia eficaz para  preservar a saúde do trabalhador, reduzir o estresse fisiológico e melhorar a segurança e a  qualidade da assistência prestada. 

Além disso, os estudos produzidos por Maltese et al., (2016) revelaram que o plantão  noturno em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) provoca prejuízos significativos em várias  funções cognitivas dos intensivistas, incluindo memória de trabalho, velocidade de  processamento, raciocínio perceptual e flexibilidade cognitiva. Esses déficits ocorreram tanto  em médicos experientes quanto em residentes, o que indica que a experiência profissional não  protege contra os efeitos da privação de sono. Além disso, mesmo após duas horas de descanso,  apenas a flexibilidade cognitiva mostrou recuperação parcial, enquanto as demais habilidades  permaneceram comprometidas. Os autores destacam que essas alterações cognitivas podem  representar um risco tanto para a segurança dos pacientes quanto para a saúde dos próprios  profissionais, reforçando a necessidade de investigar estratégias para mitigar tais efeitos. 

Do ponto de vista neurobiológico, os estudos produzidos por Carvalho et al. (2025)  demonstram que a privação de sono exerce um efeito significativo sobre o equilíbrio emocional  e o funcionamento cognitivo. Essas perturbações acarretam implicações profundas na saúde  mental, evoluindo para transtornos psiquiátricos e queda significativa da qualidade de vida.  Além disso, Peruchi et (2022) observou que o déficit de sono, em adultos, está associado a  doenças cardiovasculares, obesidade, transtornos psiquiátricos e alterações epigenéticas, o que  revela o caráter sistêmico e grave da privação crônica do sono.

Impactos psicológicos e cognitivos 

No campo emocional, conforme pontuam Ramier et al. (2024), a privação do sono  enfraquece os mecanismos de controle e aumenta respostas impulsivas. A irritabilidade, a  dificuldade em lidar com frustrações e a tendência a estados de tristeza profunda se tornam mais  frequentes. Percebe-se uma diminuição acentuada na tolerância ao estresse; é por isso que  pessoas emocionalmente exaustas tendem a relatar crises de ansiedade e humor. Além disso, a  insônia ou sono inadequado é, de fato, um desencadeador comum para o surgimento posterior  de sintomas depressivos ou ansiosos. 

Do ponto de vista psicológico, a privação de sono provoca alterações emocionais  perceptíveis desde os primeiros dias de exposição, o que, conforme Antoniolli et al. (2021),  acaba por favorecer o aparecimento de sintomas ansiosos e depressivos, frequentemente  relatados por enfermeiros e médicos em regime de plantão. Além disso, a alteração do ciclo  circadiano compromete a regulação de neurotransmissores como serotonina e dopamina,  fundamentais para o controle do humor e da motivação. Assim, é perceptível que a  irregularidade do sono reflete no estado psicológico imediato, da mesma forma que aumenta o  risco de transtornos mentais em médio e longo prazo (Konya et al., 2025). 

Entre as consequências mais significativas está a síndrome de burnout, reconhecida pela  OMS como uma patologia individual. Relativamente psicopatológica, essa condição é definida  como um fenômeno ocupacional e consiste em exaustão emocional, despersonalização e baixa  realização profissional (OMS, 2020). Dada a alta carga de estresse à qual os profissionais de  saúde estão expostos, esta condição é muito frequente. As causas são os longos e exaustivos  turnos, muitas vezes marcados por noites sem dormir, e a privação de sono atua como um fator  potencial (Rohwedder et al., 2024). Em ambientes hospitalares, dados o ritmo acelerado e as  incumbencias da organização, os sinais de burnout encontram terreno fértil, o que constrói um  cenário caótico tanto para o indivíduo quanto para as instituições (Cattani et al., 2021). 

Outra função importante provida pelo sono no campo cognitivo é a consolidação da  memória e da capacidade de aprendizagem (Castilho et al., 2015). Na fase mais profunda do  sono, especialmente na etapa conhecida como sono REM (Rapid Eye Movement), diariamente  o cérebro é lavado com uma reorganização abundante de relações sinápticas para fixar o que  foi ensinado no dia. Quando esse estágio é interrompido ou encurtado, ocorre um impacto direto na memória de curto e longo prazo, dificultando a retenção e o resgate de conteúdos.

Entre os profissionais da área da saúde, a privação de sono tem se mostrado  particularmente prejudicial: muitos relatam lapsos de memória envolvendo protocolos clínicos, procedimentos técnicos e orientações recebidas durante trocas de plantão, o que eleva  significativamente o risco de falhas e erros na assistência ao paciente (Kaliyaperumal, et al.,  2017). 

Outro aspecto relevante mencionado pela literatura é a redução da capacidade de atenção  sustentada. A sonolência diurna compromete a vigilância, provocando lapsos de concentração  em tarefas que exigem precisão e rapidez. Essa condição é particularmente crítica em setores  como unidades de terapia intensiva, emergência e centro cirúrgico, onde a atenção contínua é  indispensável para a segurança do paciente. Os estudos realizados por Kaliyaperumal et al.  (2017) apontam que o risco de erros médicos e de enfermagem cresce proporcionalmente ao  número de horas de trabalho noturno e à intensidade da privação de sono. 

A tomada de decisão também é fortemente afetada, já que o raciocínio lógico, a  capacidade de julgamento e a velocidade de resposta diminuem significativamente após longos  períodos de vigília. Conforme enfatizam Santos et al. (2021), em profissionais de saúde, essa  limitação cognitiva pode comprometer a escolha das condutas clínicas mais adequadas, atrasar  intervenções emergenciais e até colocar em risco a vida dos pacientes. Inclusive, Konya et al.  (2025) afirmam que a dificuldade de raciocínio rápido está associada ao aumento de acidentes  de trabalho, como perfurocortantes ou quedas, que têm maior incidência em plantões noturnos  prolongados. 

Santos et al. (2025) também destaca o impacto da privação do sono na criatividade e na  resolução de problemas. Para Freitas e Nunes (2019) essas habilidades, fundamentais para a  adaptação a situações imprevistas, são prejudicadas pela fadiga cognitiva: o profissional perde  a capacidade de pensar de forma flexível e, permanecendo em uma rotina rígida, não consegue  mudar o foco ou encontrar inovação. 

Impactos sociais e na qualidade de vida 

Nos aspectos sociais, o estudo de Rohwedder et al. (2024) sobre residência médica  destacou que os plantões longos e a privação contínua de sono estão relacionados a pior  desempenho, com risco aumentado de acidentes, maior probabilidade de erros médicos e  desgaste profissional. Os autores ainda destacam que o trabalho noturno se relaciona com  maiores taxas de divórcio, evidenciando o impacto em relacionamentos e estabilidade familiar  (Rohwedder et al., 2024).

Nesse cenário, a qualidade de vida é significativamente impactada: o desgaste físico e  psicológico limita a satisfação pessoal, a capacidade de lazer, a convivência familiar e a saúde  social. A fadiga preenche todas as 24 horas do profissional, deixando pouca possibilidade de  desempenho em esferas extraprofissionais e contribuindo para o distanciamento e dissolução  de relacionamentos (Azambuja et al., 2023). 

Os problemas de obesidade e doenças cardiovasculares relatados por Felders, Scherer e  Adami (2024), corroboram com o argumento proposto por Peruchi et al. (2022), na medida em  que ambos os trabalhos identificaram relação clara entre privação do sono, metabolismo  alterado e aumento do risco cardíaco. Além disso, também é possível identificar distúrbios  gastrointestinais e fadiga, o que reforça as conclusões de Cattani et al. (2022), que associaram  os plantões noturnos a hábitos alimentares inadequados e desequilíbrios no sistema digestório. 

Na mesma senda, Araújo (2025) afirma em seu estudo que as consequências do trabalho  noturno também se manifestaram no plano metabólico: 74% dos enfermeiros noturnos foram  classificados com sobrepeso ou obesidade, em contraste com apenas 30% do grupo controle da  pesquisa, o que revela uma diferença estatisticamente significativa. Esses achados corroboram  com os estudos anteriores, na medida em que afirma que a dessincronização circadiana e a  privação de sono crônica, impostas pelo turno da noite, são fatores de risco que comprometem  o descanso e a saúde metabólica dos enfermeiros. 

Já no âmbito psicológico, os apontamentos de Antoniolli et al. (2021), que identificaram  sintomas ansiosos e depressivos entre enfermeiros, e de Cattani et al. (2021), que associaram a  privação do sono à maior incidência de burnout, também confirmam as alegações de Arzalier Daret et al., (2017). Os déficits cognitivos relatados nos artigos analisados também convergem  com as observações de Kaliyaperumal et al. (2017), Freitas e Nunes (2019), que evidenciaram  a redução da memória, da atenção e da capacidade de tomada de decisão em profissionais  privados de sono. 

Quanto aos impactos sociais, Arzalier-Daret, et al. (2017), relacionam o trabalho em  turnos ao desgaste das relações pessoais e ao aumento do risco de divórcio. Isso é consistente  com o que Maltese et al. (2016) descrevem, já que apontam que a qualidade de vida no trabalho  depende do equilíbrio entre responsabilidades profissionais e pessoais, frequentemente  comprometido em regimes noturnos. 

Por sua vez, Araújo (2025) identificou uma prevalência alarmante de distúrbios de sono e comprometimento metabólico entre enfermeiros que trabalham no turno noturno. A  maioria dos profissionais que participaram do estudo (76%) apresentou distúrbios moderados  ou graves de sono, um índice significativamente superior ao grupo controle da pesquisa. As principais áreas afetadas foram a qualidade subjetiva, a presença de interrupções durante o sono  e as disfunções manifestadas durante o dia, como sonolência e fadiga. Além disso, a má  qualidade do sono estava negativamente correlacionada com a percepção da qualidade de vida,  atingindo de forma mais evidente os domínios físico e psicológico desses profissionais. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Este estudo mostrou que a privação de sono dos profissionais de saúde não é apenas um  incômodo pessoal. O desequilíbrio contínuo entre os períodos de vigília e repouso,  consequência direta dos plantões noturnos e das jornadas extenuantes, tem uma alta correlação  com um risco ocupacional real e de grande impacto. Isso porque trata-se de uma condição que ameaça tanto a integridade física e mental do trabalhador, quanto a segurança do paciente. As  evidências reunidas nos últimos anos confirmam que o trabalho contínuo em ambientes  hospitalares, marcados por alta demanda e pressão constante, gera uma perturbação biológica  persistente. 

No nível físico, privar-se de sono pode exercer efeitos extensos e cumulativos. Além  disso, o sono perturbado e a perda da fase REM prejudicam a capacidade do corpo de  rejuvenescer suas funções fisiológicas, o que resulta na deterioração da saúde física e também  da integração da memória. A fadiga mental e o sono insuficiente levam ao aparecimento de  sintomas relacionados à ansiedade, depressão e da síndrome de Burnout

Nessas condições, é evidente que a resposta não pode apenas aconselhar os indivíduos  a “tentar dormir mais”. É necessário repensar o organograma das instituições de saúde. A fadiga  deve ser considerada um sério risco ocupacional, que exige políticas de intervenções específicas  e planejadas. Também é importante garantir que os profissionais recebam pelo menos 10 horas  de descanso entre os turnos. As instituições devem apoiar programas relacionados à higiene do  sono. 

Assim, o sono deve ser considerado como um marcador de segurança e qualidade no  trabalho em saúde. Investir em horas de trabalho, zonas de descanso e iniciativas de bem-estar  dos trabalhadores é tanto uma necessidade ética quanto pragmática. O gerenciamento do sono  e a segurança de profissionais e pacientes, cortes de custos ligados a erros e excessos, e o foco  principal na saúde do trabalhador podem ser assegurados garantindo que os indivíduos descansem o suficiente. 

Finalmente, a privação do sono entre profissionais da saúde surge como uma epidemia  silenciosa, com consequências físicas, psicológicas e sociais amplas. A solução para esse desafio deve ser desenhada coletivamente, como uma política institucional em formato de  acordo com a abordagem baseada em evidências. Apenas quando houver uma mudança real na  organização do trabalho, juntamente com a valorização do descanso e das pausas, é que aqueles  que cuidam dos outros poderão se manter saudáveis o suficiente para nutrir os outros e garantir  a qualidade do cuidado. 

REFERÊNCIAS 

ABREU, H. F. et al. Pratica em medicina do sono. Rio de Janeiro:Thieme Revinter, 2020. E-book. pág.10. ISBN 9786555720341. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786555720341/. Acessado em 07 ou.  2025 

ARAÚJO, V. C. E. Impacto do trabalho noturno na saúde de enfermeiros. 2025. 51 f.  Tese (Doutorado em Ciências da Saúde e Comunicação Humana) – Universidade Estadual  Paulista (UNESP), Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília, 2025. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/327b46e6-fab1-4d9c-8e8e-5e20f3e6847c/full.  Acesso em 18 nov. 2025. 

ANTONIOLLI, L et al.. Efeitos do trabalho em turnos e coping em profissionais de  enfermagem hospitalar. Revista Cuidarte, v. 12, n. 2, 2021. Disponível em:  http://www.scielo.org.co/scielo.php?pid=S2216-09732021000200302&script=sci_arttext. Acesso em 12 set. 2025. 

ARZALIER-DARET, S. et al. Efeito da privação de sono após um turno noturno no  gerenciamento de crises simuladas por residentes de anestesiologia: um estudo randomizado.  Anestesia, Cuidados Intensivos e Medicina da Dor, v. 37, p. 161–166, 2017. Disponível  em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28882740/. Acesso em: 18 nov. 2025 

AZAMBUJA, V. A. et al.. Avaliação da qualidade do sono em profissionais de saúde da emergência. Acta Paulista de Enfermagem, v. 37, p. eAPE01001, 2023. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/ape/a/M7ytBw4c4FB9Rjb5tPJmsLb/?lang=pt. Acesso em 12 set.  2025. 

BOOKER, L. A. et al. A efetividade de um programa individualizado de educação e coaching sobre sono e trabalho por turnos para manejo do distúrbio do trabalho por turnos  em enfermeiras: ensaio clínico randomizado. Revista de Medicina Clínica do Sono, v. 18, n. 4, p. 1035–1045, abr. 2022. DOI: 10.5664/jcsm.9782. Disponível em:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8974377/. Acesso em: 1 nov. 2025. 

CANUTO, L. T.; DE OLIVEIRA, A. A. S. Métodos de revisão bibliográfica nos estudos  científicos. Psicologia em revista, v. 26, n. 1, p. 83-102, 2020. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/psicologiaemrevista/article/download/12005/18070. Acesso em 19 out 2025.

CATTANI, A. N. et al. Trabalho noturno, qualidade do sono e adoecimento de trabalhadores de enfermagem. Revista de Enfermagem, 2021. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/ape/a/fqpscJ9stp7zkpPZBnbsCqS/. Acesso em 01 nov. 2025. 

CATTANI, A. N. et al. Repercussões do trabalho noturno na qualidade do sono e saúde de  trabalhadores de enfermagem. BVS, 2022. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/tce/a/XyXXHJs4ZpVZHQgCPJhVYPR/?lang=pt. Acesso em 01  nov. 2025. 

CARVALHO, G. C. C et al. Impactos da privação de sono na saúde mental dos profissionais da saúde. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 11, n. 9, p. 2042-2065, 2025. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/20974. Acesso em 12 set. 2025. 

CASTILHO, C. P et al. A privação de sono nos alunos da área de saúde em atendimento nas  Unidades Básicas de Saúde e suas consequências. Revista de Medicina, v. 94, n.2, p.113-119, 2015. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/106795. Acesso em 11 set. 2025. 

ELISABETSKY, E. Sono, insônia e tratamentos . São Paulo: Editora Blucher, 2024. E book. pág.10. ISBN 9788521220718. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788521220718/. Acesso em: 20 nov. 2025. 

FELDERS, J; SCHERER, A L; ADAMI, F. S. Relação entre qualidade do sono, hábitos  alimentares e estado nutricional de profissionais da saúde que atuam no horário noturno de  uma unidade de pronto atendimento. RBONE – Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e  Emagrecimento. Disponível em:  https://www.rbone.com.br/index.php/rbone/article/view/2439. Acesso em 01 nov. 2025. 

GIL, Antonio carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 7. ed. Rio de Janeiro: Atlas,  2022. Disponível em:  https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786559771653/ Acessado em 05  out. 2025. 

KALIYAPERUMAL, D. et al. Efeitos da privação de sono no desempenho cognitivo de  enfermeiros que trabalham em turnos. Revista Clínica e Pesquisa Diagnóstica. 2017.  Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5620757/. Acesso em: 18 nov.  2025. 

KONYA, I., SHISHIDO, I., WATANABE, K. et al. Efeitos de tirar uma soneca ou fazer  uma pausa imediatamente após o turno da noite na recuperação da fadiga e nos episódios de  sono de enfermeiros: um estudo quase-experimental. J Physiol Anthropol 44 , 21 (2025).  https://doi.org/10.1186/s40101-025-00399-2. Acessado em 18 nov. 2025. 

MALTESE, F. et al. O trabalho noturno diminui o desempenho cognitivo dos médicos da  UTI. Medicina de Cuidados Intensivos, v. 42, p. 393–400, 2016. DOI:  10.1007/s00134-015-4115-4. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26556616/. Acesso em: 18 nov. 2025 

PERUCHI, A. Z. et al. A cronodisrupção como fator de risco para o sobrepeso e a  obesidade?. Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, v. 16, n. 102,  2022. Disponível em:  https://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&profile=ehost&scope=site&authtype=cr  awler&jrnl=19819919&AN=160467264&h=JlxnXiKrupYXhGHu%2FY9aHjyW%2B%2BO  oLVkFWoezyCE3MS9L6A9PhemYz%2FUMFEOB1tsgQOjDDdi2eKZV9sbkQfZNbA%3D %3D&crl=c. Acesso em 11 set. 2025. 

RAMIER, M. et al. Examinando o impacto da privação de sono no desempenho do raciocínio  médico entre residentes e médicos anestesiologistas: um estudo prospectivo. BMC  Anesthesiol 24 , 356 (2024). Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12871-024-02712-5. Acesso em 18 nov. 2025. 

ROHWEDDER, L. S. et al. Fatores de risco psicossociais no trabalho e qualidade do sono em profissionais de saúde: estudo transversal. Ciência do Sono., v. 17, n. 4, p. e370–e380, 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC11651867/. DOI: 10.1055/s-0044-1782172. Acesso em: 1 nov. 2025. 

SANTOS, E. V. B dos, et al. Efeitos da privação parcial do sono nos profissionais de saúde.  Aracê [S. l.], v. 7, n. 4, p. 17434–17449, 2025. DOI: 10.56238/arev7n4-108.Disponível em:  https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/4365. Acesso em: 1 nov. 2025. 

SANTOS, S. A. A., et al. Riscos ocupacionais em profissionais de enfermagem de uma  Unidade de Terapia Intensiva adulta, localizada em um município de Pernambuco. Revista  Eletrônica Acervo em Saúde. Disponível em:  https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/5952/4090. Acesso em 01 nov.  2025. 

TAVARES, A; ZANCANELLA, E; GENTA, P. R et al. Medicina do sono: Diagnostico e  manejo. Porto Alegre; ArtMed, 2023. E-book. pi ISBN 9786558820888. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786558820888/.Acessado em 06  out. 2025 

TEIXEIRA, C. C. A.. Fundamentos do Sono, Sonho e Qualidade de Vida Sob Perspectiva Neurocientífica. Epitaya E-books, v. 1, n. 9, p. 30-37, 2022. Disponível em: https://portal.epitaya.com.br/index.php/ebooks/article/view/443. Acesso em 01 nov. 2025. 

VIANA, M. et al. Qualidade de vida e sono de enfermeiros nos turnos hospitalares. Revista  Cubana de Enfermeria, v. 35, n. 2, 2019. Disponível em:  https://revenfermeria.sld.cu/index.php/enf/article/view/2137. Acesso em 11 set. 2025.


1 Discente do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR) Polo Pinheiro.  (Ivaniceloranafonsecacastro@gmail.com). 

2 Discente do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR) Polo Pinheiro.  (sillvav979@gmail.com).

3 Discente do curso de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR) Polo Pinheiro.  (milenaaagabrielly@gmail.com). 

4 Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Enfermeira. 

5 Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Enfermeiro. 

6 Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Enfermeiro. Especialista em Gestão,  Planejamento e auditoria em saúde. 

7 Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Farmacêutica. Especialista em Análises  Clínicas. 

8 Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Farmacêutico.  

9 Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Enfermeira.  

10Orientadora. Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). Doutora em Química Análitica.  (proflanabp33@gmail.com).