REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511101408
Larissa Rodrigues Esteves¹
Joel Elias Pires de Souza²
Resumo
O presente estudo teve como objetivo analisar a produção científica nacional sobre Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), destacando fatores de risco, a atuação da enfermagem e estratégias de prevenção em hospitais. Metodologia: realizou-se uma revisão bibliográfica de abordagem quanti-qualitativa e caráter descritivo, nas bases BVS, SciELO e Bireme, utilizando os descritores: Unidade de Terapia Intensiva, Assistentes de Enfermagem, Infecção Hospitalar, Cuidados de Enfermagem, Equipe de Enfermagem e Infecções Relacionadas à Saúde. Do total de 40 artigos identificados (2017–2022), 15 atenderam aos critérios de inclusão e foram analisados. Resultados: os estudos, predominantemente realizados em UTIs, evidenciaram elevada incidência de infecções de corrente sanguínea associadas a cateter, pneumonia por ventilação mecânica e infecção urinária por sondagem. A higienização das mãos, o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a educação continuada da equipe de enfermagem mostraram-se determinantes na prevenção das IRAS. Discussão: A integração entre a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), o Núcleo de Segurança do Paciente e a equipe de enfermagem, aliada à realização de auditorias periódicas, é essencial para garantir adesão às normas de biossegurança e aprimorar a prática assistencial. Conclusão: O papel ético, técnico e educativo da enfermagem é fundamental para reduzir infecções, otimizar recursos e garantir a segurança do paciente, fortalecendo a cultura de segurança e a qualidade do cuidado hospitalar.
Palavras-chaves :Enfermagem. Controle de Infecções. Unidades de Terapia Intensiva. Segurança do Paciente.
1. INTRODUÇÃO
As infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) estão diretamente ligadas a segurança do paciente, ou seja, no processo do cuidado prestado em um hospital ou outra unidade de assistência à saúde. As IRAS são responsáveis pelo aumento do tempo de internação ocasionando o maior o consumo de antibióticos e outros medicamentos, e devido a isso eleva o risco de morbidade e mortalidade dos pacientes, principalmente aqueles imunodeprimidos ou com outra comorbidade que possa se agravar. ( Guevara Pinto, 2024).
São definidas como IRAS toda e qualquer infecção que se manifestam após as 48 a 72 horas da admissão do paciente, seja em instituições hospitalares ou atendimentos ambulatoriais que possa estar associada a algum procedimento assistencial como sondagens, punção venosa entre outros cuidados ou podem surgir posteriormente a alta para casa. As principais estão associadas a sítio cirúrgico, corrente sanguínea, trato respiratório e trato urinário. Essas infecções tem sido um grande problema para a saúde pública pois representam um déficit na execução assistência, de modo que demonstra falha na execução da técnica correta ( Brasil, 2021; Oliveira et al, 2023; Souza et al, 2022).
Para promover a prevenção, controlar o risco de ocorrências de caráter infeccioso dentro dos hospitais e realizar educação continuada com as equipes de saúde, foi instituía pela portaria nº 2.616, de 12 de maio de 1998 que regulamenta a Comissão de controle de Infecção Hospitalar, mas conhecida como a CCIH, onde é definida por “órgão de assessoria à autoridade máxima da instituição e de execução das ações de controle de infecção hospitalar”. Sendo obrigatório que todos os hospitais tenham suas próprias comissões ( Brasil 1998).
A CCIH deverá ser composta por uma equipe multidisciplinar com profissionais da área saúde, de nível superior e deve contar com membros executores e consultores. Os membros consultores são representados pelo serviço médico, serviço da enfermagem, serviço da farmácia, laboratório de microbiologia e administração. E dadas as suas atividades estão como elaboração de políticas organizacionais para reduzir as taxas de infecções hospitalares, criação de protocolos e normas técnicas, gestão racional do uso de antimicrobianos, investigações de surtos e treinamento de pessoal desde os serviços gerais até as equipes assistências (Brasil, 1998; ANVISA, 2021; Menezes; Silva; Lima, 2023).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020), a higienização das mãos é o principal meio de prevenir infecções relacionadas à assistência à saúde. O termo inclui a lavagem simples, a lavagem antisséptica e a antissepsia cirúrgica. Apesar de sua importância, a adesão dos profissionais ainda é baixa. É essencial estimular essa prática, pois ela evita a transmissão cruzada de microrganismos. Quando realizada corretamente, sua eficácia é comprovada. Além de reduzir a disseminação de agentes infecciosos, diminui custos com tratamentos. Essa prática também contribui para a segurança do paciente. E proporciona maior conforto aos pacientes e seus familiares (WHO, 2020).
Desta forma, essa revisão bibliográfica, demonstra a necessidade de uma discussão sobre a incidência de fatores de riscos para desenvolver a IRAS em um ambiente de saúde, analisando a conjuntura das produções científicas da temática no país.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem quanti-qualitativa e caráter descritivo. A investigação foi realizada nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Bireme, utilizando os seguintes descritores: Unidade de Terapia Intensiva, Assistentes de Enfermagem, Infecção Hospitalar, Cuidados de Enfermagem, Equipe de Enfermagem e Infecções Relacionadas à Saúde. Foram encontrados 40 artigos científicos dentro do recorte temporal de cinco anos (2017 a 2022), disponíveis gratuitamente na íntegra e em língua portuguesa.
Os critérios de exclusão abrangeram os artigos fora do recorte temporal, aqueles com apenas o resumo disponível e os que não atendiam aos objetivos do estudo. À medida que os artigos eram identificados, seus resumos eram lidos, e aqueles que apresentavam relação com o objeto de pesquisa foram selecionados, numerados aleatoriamente para identificação e organizados em um quadro, a fim de facilitar a leitura completa posteriormente. Ao final, 15 artigos foram analisados, orientando a apresentação e a discussão dos resultados, enquanto 25 publicações foram excluídas por se tratarem de duplicatas, produções estrangeiras ou não relacionadas ao tema.
Os periódicos selecionados foram agrupados nas seguintes categorias: infecções relacionadas a assistência à saúde em UTI; Infecções relacionadas a assistência à saúde influenciadas pela atuação dos profissionais da enfermagem e Prevalência de microrganismos causadores de infecções relacionadas a assistência à saúde.
3. RESULTADO
Na presente revisão bibliográfica foram encontrados 40 artigos, dos quais analisou-se apenas 15 artigos que atenderam aos critérios de inclusão previamente estabelecidos, conforme Quadro 1, obteve-se um panorama geral dos artigos avaliados. Dos 15 artigos selecionados, 1 e do ano de 2017, 4 de 2019, 5 de 2020, 4 de 2021 e 1 de 2022. Todos os artigos incluídos na revisão integrativa, são de autoria de enfermeiros(as).
Quadro 1 – Processo de seleção dos artigos após leitura integral do estudo

FONTE: Próprio Autor, 2025.
Quanto à metodologia dos estudos analisados, verificou-se na amostra a seguinte distribuição: dois de caráter qualitativo, exploratório e descritivo; duas revisões integrativas; um estudo exploratório de abordagem quantitativa; uma revisão narrativa; uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa e descritiva; e uma revisão bibliográfica tradicional.
4. DISCUSSÃO
Em relação ao método, os mais frequentes foram: descritivo (25%), qualitativo (12%), quantitativo (13%), exploratório-descritivo (13%) e descritivo-quantitativo (13%). Os demais corresponderam a 1% cada, abrangendo ensaio clínico, revisão integrativa, revisão sistemática e estudo analítico-exploratório. Observa-se, contudo, a necessidade de mais pesquisas sobre a temática, uma vez que, embora a maioria dos estudos date do ano de 2020, ainda há escassez de investigações sobre esse tema, que é de suma importância para a qualidade do cuidado ao paciente e o bem-estar de seus familiares.
O incentivo à realização de novos estudos nessa área traz benefícios não apenas à comunidade científica e institucional, mas também aos pacientes e, sobretudo, aos profissionais que atuam na prevenção e no controle das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), em parceria com a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e o Núcleo de Segurança do Paciente. Essa integração favorece uma comunicação mais clara e direta, promove um ambiente seguro e organizado e contribui para a execução eficaz das atividades, refletindo positivamente na qualidade da assistência prestada.
FIGURA 1. Percentual de publicações por tipo de estudo em 2017 a 2022.

FONTE: Próprio Autor, 2025.
4.1 Infecções relacionadas a assistência à saúde em UTI
As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) constituem um dos principais desafios enfrentados nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), ambientes complexos e de alta densidade tecnológica, onde se concentram pacientes críticos e imunocomprometidos. A gravidade clínica desses indivíduos, aliada à necessidade de múltiplos procedimentos invasivos, como ventilação mecânica, cateterismo venoso central e sondagens, eleva significativamente o risco de infecções hospitalares (Brasil, 2021; Oliveira et al., 2023).
Estudos apontam que a incidência de IRAS em UTIs é consideravelmente superior à observada em outras unidades hospitalares, sendo as mais comuns as infecções de corrente sanguínea associadas a cateter, pneumonia associada à ventilação mecânica (PAVM) e infecção do trato urinário associada ao uso de sonda vesical (SILVA et al., 2022). Esses agravos impactam diretamente nos indicadores de morbimortalidade, prolongam o tempo de internação e aumentam os custos hospitalares (Guevara Pinto, 2024).
A Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e o Núcleo de Segurança do Paciente desempenham papel estratégico na prevenção e monitoramento das IRAS. O enfermeiro, como integrante essencial dessas equipes, atua na vigilância epidemiológica, na implementação de protocolos de biossegurança, na higienização das mãos e na educação continuada dos profissionais (ANVISA, 2021).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020), a adesão à higienização das mãos é a medida mais eficaz para a prevenção das IRAS. Contudo, estudos mostram que a adesão entre profissionais de saúde ainda é baixa, especialmente em UTIs, devido à sobrecarga de trabalho e à falta de insumos adequados (Menezes; Silva; Lima, 2023).
A auditoria em enfermagem também se apresenta como ferramenta relevante nesse contexto, pois permite avaliar a conformidade das práticas assistenciais com os protocolos institucionais, identificar falhas nos processos e propor medidas corretivas. A análise sistemática dos registros de enfermagem possibilita verificar a execução das ações preventivas e educacionais, contribuindo para a melhoria contínua da qualidade do cuidado (Reis; Santos, 2023).
Portanto, o controle das IRAS em UTIs requer um conjunto articulado de medidas que envolvam a atuação multiprofissional, a vigilância constante, a adesão rigorosa às normas de prevenção e o comprometimento institucional. A atuação do enfermeiro, seja como executor direto do cuidado, seja como auditor, é fundamental para garantir a segurança do paciente e reduzir a incidência dessas infecções.
4.2 Infecções relacionadas a assistência à saúde influenciadas pela atuação dos profissionais da enfermagem
As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) representam um dos maiores desafios enfrentados pelos serviços de saúde e estão diretamente associadas à qualidade da assistência prestada pelos profissionais de enfermagem. A equipe de enfermagem, por estar em contato contínuo com o paciente e realizar procedimentos invasivos e não invasivos, possui papel determinante na prevenção e controle dessas infecções (Brasil, 2021; Menezes; Silva; Lima, 2023).
A qualidade da assistência em enfermagem está relacionada à execução de técnicas seguras, à adesão aos protocolos institucionais e ao cumprimento rigoroso das medidas de prevenção, como a higienização das mãos, o uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a desinfecção correta de materiais e superfícies. A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020) aponta que a higienização das mãos é a medida mais eficaz e de menor custo para prevenir IRAS, embora ainda apresente baixos índices de adesão entre os profissionais.
Além da execução técnica, a formação ética e o compromisso profissional são essenciais para o controle das IRAS. O enfermeiro, como líder da equipe, tem a responsabilidade de orientar, supervisionar e capacitar continuamente seus colaboradores, garantindo o cumprimento das boas práticas e a atualização dos conhecimentos científicos (Oliveira et al., 2023; Reis; Santos, 2023).
A auditoria em enfermagem surge, nesse contexto, como uma ferramenta de monitoramento e educação permanente, possibilitando a análise crítica das anotações, registros e condutas assistenciais. Essa prática permite identificar não conformidades, propor intervenções e promover melhorias contínuas, contribuindo para a segurança do paciente e a eficiência dos serviços (Silva; Pereira, 2022; COFEN, 2023).
Dessa forma, o comprometimento ético, técnico e educativo da equipe de enfermagem é indispensável para reduzir a incidência das IRAS, consolidar a cultura de segurança e fortalecer a qualidade assistencial dentro das instituições de saúde.
5. CONCLUSÃO
As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) continuam sendo um desafio relevante para a qualidade do cuidado hospitalar e a segurança do paciente, especialmente em unidades de alta complexidade, como as UTIs. A revisão demonstrou que fatores como procedimentos invasivos, falhas técnicas, descumprimento de protocolos e baixa adesão à higienização das mãos aumentam o risco de ocorrência dessas infecções. A atuação da enfermagem, em parceria com a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e o Núcleo de Segurança do Paciente, mostrou-se essencial tanto na execução de medidas preventivas quanto na auditoria e monitoramento das práticas assistenciais.
O estudo evidenciou que estratégias como higienização adequada das mãos, uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), educação continuada e auditorias periódicas são determinantes na redução das IRAS. Além disso, reforça-se a importância da integração multiprofissional, da formação ética e técnica dos profissionais de enfermagem e do fortalecimento da cultura de segurança.
Portanto, o controle eficaz das IRAS depende do compromisso institucional, do investimento em capacitação profissional e da implementação de políticas de prevenção baseadas em evidências, contribuindo para a melhoria da qualidade do cuidado, redução da morbimortalidade e segurança do paciente.
REFERÊNCIAS
ANVISA. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2021.
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Critérios diagnósticos de infecções relacionadas à assistência à saúde. Brasília: ANVISA, 2021.
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MENEZES, A. C.; SILVA, R. F.; LIMA, M. E. Fatores associados à adesão à higienização das mãos em Unidades de Terapia Intensiva. Revista de Enfermagem Contemporânea, v. 12, n. 3, p. 44–53, 2023.
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WHO – World Health Organization. (WHO) Guidelines on Hand Hygiene in Health Care. Geneva: WHO Press, 2020.
1Mestranda do Programa de Pós-graduação da Faculdade de enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora,
Juiz de Fora, MG, Brasil, e-mail:larissaeesteves23@gmail.com
2Enfermeiro. Prefeitura de Juiz de Fora, Juiz de Fora MG, Brasil, e-mail: joelpelias@yahoo.com.br
